O Crime do Beija-Flor 5

O Parque do Bom Retiro é um dos lugares mais icônicos da capital da Espanha. Cento e dezoito hectares de jardins lindos e fontes, portões emblemáticos, monumentos artísticos e caprichos, ou estruturas históricas do caralho. Os passeios labirínticos faziam você esquecer daquela cidade barulhenta e caótica cheia de prédios altos. Por isso era o lugar mais valorizado por qualquer madrilenho. Também pra Claudia e Pedro.
A família de quatro pessoas estava ao lado do monumental Palácio de Cristal. Um templo grego inebriante de vidro e ferro, pensado inicialmente para abrigar espécies exóticas de plantas das ilhas Filipinas, mas que com o passar dos anos acabou se tornando uma das principais atrações turísticas do Parque do Retiro.
Totalmente coberta por placas de vidro, tanto nas paredes quanto no teto em forma de cúpula, é sustentada por colunas jônicas de ferro e uma estrutura do mesmo metal. As três naves que a compõem dão a ela uma amplitude considerável, e a transformam num palácio mágico tirado de um conto de fadas. Tanto Eric quanto Emma já estavam correndo pra entrar a toda velocidade lá dentro.
—Devagar, criançada —ordenou a mãe deles, sem muito sucesso.
Claudia olhava para os filhos, principalmente para o Eric, que segurava uma bola de futebol nos braços. Não queria nem pensar na enrascada em que eles iam se meter só porque ele deixasse a bola cair no chão pra brincar com ela dentro do palácio.
A bela jornalista vestia uma saia verde longa e lisa, com alguns bordados amarelos de flores. Ela chegava quase até o tornozelo, então mal dava pra ver suas meias brancas, grossas como uma meia de inverno. Também usava um suéter branco bem encorpado, de gola alta e mangas compridas, e um cabelo liso e muito penteado no estilo Marilyn Monroe, que lhe dava um ar distinto, embora ao mesmo tempo tradicional.
— Não acredita no que eu te disse? — perguntou Pedro em voz baixa pra sua mulher.
—Pelo contrário, mas com certeza você tá exagerando demais.
Pedro bufou enquanto balançava a cabeça insistentemente. O homem de trinta e três anos tinha penteado o cabelo com a risca no meio e se perfumado com cuidado. Vestiu um suéter verde combinando com a saia da mulher, e uma calça marrom. Roupas mais delicadas que ele só usava nos fins de semana, quando não trabalhava na oficina.
— Se tivesse ouvido, saberia do que tô falando. Não dá pra descrever com palavras o quão obsceno e imoral foi. Só quando você vive é que consegue ter uma ideia — completou o pai de família pra esposa dele —. E foi assim a tarde inteira desde que você foi embora, e não se repetiu desde que você chegou depois.
Claudia engoliu saliva e fingiu desinteresse.
—É normal, de qualquer jeito. Ela tá na casa dela.
—Você não tá falando sério. E a Emma e o Eric? Isso não é algo que duas crianças da idade deles tenham que ouvir à tarde.
—Claro que não. O problema é essas paredes finas que usaram pra construir os apartamentos.
—Não. O problema é a falta de decência desse cara e daquela puta com quem ele trepa.
A valenciana deu um pulo com o jeito que o marido falou. Uma senhora de pelo menos sessenta anos virou a cabeça com cara de alarmada pelo tom, mas desviou o olhar de novo assim que deixou clara sua reprovação.
—Pedro… —Claudia o corrigiu.
—Nem Pedro, nem porra nenhuma —respondeu por sua vez, mas num tom bem mais baixo e contido —. Pelo menos aquela puta não começou a gemer alto. Porque senão eu teria que chamar a polícia.
—Por que ela é uma puta? Por que é mulher? Quando você e eu transamos, eu viro uma puta.
—Você e eu não fizemos esse escândalo todo. E a gente é casado.
— Como é que você sabe que o vizinho não é casado com aquela mulher?
—Porque acho que ele disse que ela era a namorada dele, e além disso ela não usa aliança no dedo, ou você não percebeu?
—Eu não reparo nesses detalhes.
Os meninos estavam de boca aberta olhando a cúpula do Palácio de Cristal quando os pais chegaram perto deles. Tinha bastante gente, até pra ser sábado, e a Cláudia não queria que os filhos se perdessem. Aí o marido dela deu uma cotovelada leve nela.
— Falando no rei de Roma —comentou ele num sussurro, apontando com o queixo pra esquerda.
Claudia virou a cabeça e reconheceu o Ignácio na hora. O engenheiro galanteador tava usando um chapéu, mas dava pra reconhecer ele fácil. Umas jeans, junto com uma jaqueta preta, completavam o visual do gostosão. Ele levantou o olhar, cruzando com o de Claudia, e na mesma hora desviou pro chão e saiu, por um lado. Era claro que queria que ela seguisse ele, mas a valenciana tentou disfarçar.
—Pois é. Parece que é ele.
—E ele tá sozinho. Não acha estranho que não tenha trazido a parceira dele? Deixa ela largada em casa num fim de semana?
— Nem ideia, amor. Talvez ela esteja por aqui perto, mas a gente não consegue reconhecer porque nunca vimos ela — completou Claudia com voz distante. As palavras soaram vazias, já que o olhar dela estava fixo num vazio infinito, enquanto xingava o vizinho por não ter respeitado o que ela falou de manter distância.
A verdade é que a Cláudia só precisava ignorar ele, mas era incapaz de fazer isso. A mente dela não pensava em mais nada, e logo se viu tentando arrumar uma desculpa pra poder ir vê-lo. Os minutos seguintes passaram devagar pra caralho, e ela não parava de olhar pro lugar por onde o vizinho tinha sumido.
—Vamos nessa —disse ela finalmente.
—Já? Mas se é o lugar do Retiro que você mais gosta. Sempre tenho que te tirar daqui na marra —exagerou com um sorrisão o marido dela.
—Eu sei. Mas não quero que o Eric arrume treta com essa bola. O segurança não para de encarar ele.
—Ah, é? —perguntou Pedro, perplexo —. Tá bom. Vamos nessa.
Quando saíram do Palácio de Cristal, observaram o lindo lago artificial em frente ao palácio, com magníficos ciprestes dos pântanos. Mas os olhos de Claudia enxergaram, no lugar disso, Ignacio, que estava encostado numa árvore com o olhar fixo na sua amante. Na sequência, o engenheiro retomou o caminho e seguiu para oeste, em direção ao labirinto de alamedas que ficava antes do Bosque da Lembrança.
A valenciana não sabia como dar um jeito de escapar da família, então apelou pro menos convincente possível.
—Puxa! Acho que vi a Paola, uma colega nova do jornal — inventou meio nervoso —. Que sorte. Precisava falar com ela sobre umas coisas da reunião de ontem que eu tava pensando.
— Quem? — perguntou Pedro, que não sabia direito pra quem a mulher dele tava olhando.
Claudia levantou a mão enquanto apontava quase ao acaso e sentiu os suores frios na testa. Na direção do dedo dela, tinha uma mulher bem longe, de jaqueta cinza e calça preta.
—Aquela. A de cabelo preto com jaqueta cinza —indicou, ganhando confiança a cada palavra —. É urgente, meu amor. Vocês podem ir começando a comer, você e as crianças? Leva eles pro Palácio de Velázquez e come o lanche lá enquanto eu chego.
—E você não come?
— Não tô com muita fome. De qualquer jeito, alcanço vocês rapidinho — disse ela, toda sorridente, enquanto dava um beijo na bochecha dele, e em seguida saiu sem dar muito espaço pro marido reclamar.
Pedro deu de ombros e mudou de direção pro norte, enquanto a valenciana acelerou o passo, entrando nas trilhas e perdendo a família de vista rapidinho.
O caminho estava cheio de folhas secas do outono passado, cercado por uma cerca baixinha de só meio metro. As árvores se espalhavam dos dois lados da trilha, bem separadas umas das outras, e arbustos cheios de folhas preenchiam os espaços vazios entre elas. Nessa área, eles eram especialmente abundantes.
Claudia viu Ignacio a uns cinquenta metros e apressou o passo pra alcançar ele, mas ele não parou nem diminuiu o ritmo, e ela não queria gritar o nome dele nem sair correndo pelo calçadão. Ficaram assim por uns minutos até que a mulher cedeu e acelerou, quase como se estivesse trotando.
Finalmente ela alcançou Ignacio e agarrou ele pelo braço pra ele parar. Ele se virou e segurou ela pelos ombros, depois levou ela pra fora do caminho. A valenciana se deixou arrastar e os dois acabaram no chão no meio de uns arbustos bem fechados, depois de uma queda suave controlada pelo engenheiro. Ele deu um beijo nela, e ela aceitou sem resistir, mas só durou uns segundos.
— O que você tá fazendo?! — exclamou ela em voz baixa —. Cê tá louco?
Ignacio tirou o chapéu enquanto ria com uma alegria sincera.
—Morria de vontade de te ver.
— A gente tinha combinado que fim de semana não rola nada — ela sussurrou. — Porra, não dá pra esperar até segunda?
— E por que você me seguiu? Será que não posso dar um passeio no Retiro? — perguntou ele com as sobrancelhas levantadas e um sorriso no rosto.
—Ah, vai nessa. É óbvio que você queria que eu te seguisse —ela o acusou —. E por falar em seguir. Você tá me perseguindo desde que saí de casa?
—Claro que não. Te procurei aqui assim que cheguei. Ontem você falou que vinha, lembra?
Claudia suspirou e se remexeu inquieta entre os arbustos. O chão não era pedregoso, mas macio por causa da grama verde. Mesmo assim, ela olhou consternada para o vestido ao vê-lo cheio de manchas de terra e folhas.
—Porra. Sempre acabo toda melada quando te vejo —comentou com um sorriso finalmente, pra depois ficar séria de novo —. O que você quer?
—Nada. Só vim dar um passeio —ele garantiu, dando de ombros—. Aqui a gente não chama atenção e tinha que aproveitar a camuflagem dessa saia verde que fica tão gostosa em você.
Ignacio levantou a saia dela e cobriu as pernas com ela enquanto se apertava mais contra a sua amante.
—Ei, espera aí —reclamou ela —. O que você tá insinuando? Aqui nem louca.
O engenheiro não disse nada. Só aproximou o rosto do dela e a beijou com ternura, fazendo com que os dois ficassem de lado, um de frente para o outro, enquanto continuavam deitados no chão. Ela não mostrou resistência e seus lábios se encontraram num abraço carinhoso. Os beijos no meio do frio que fazia eram muito gostosos, e Claudia se derretia de paixão como uma bola de sorvete num brownie quente. Ela chupava a língua do amante, enroscando-a na sua, enquanto enfiava os dedos no cabelo liso dele. A valenciana adorava se deixar invadir pela língua do amante. Sentir ela tocar as paredes internas da boca, pra depois lamber de novo e tirar todo o sumo como se fosse um chupeta. Mas, depois de vários minutos, Ignácio apoiou as mãos nas pernas dela, por cima da meia-calça, e subiu até passar do começo das ligas, massageando a virilha com suavidade.
A valenciana começou a se excitar e ele não demorou pra enfiar os dedos quentes por debaixo da calcinha branca dela. Claudia sentiu um formigamento na bunda com o toque delicado das pontas dos dedos do amante, e a buceta dela começou a pulsar, mas nisso um casal passou bem perto da beira da trilha e quase os pegou a poucos passos de distância. Ela levou um susto.
— Espera —sussurrou—. Isso é arriscado demais. Preciso voltar pra minha família.
—Só mais um instante. Aqui ninguém nos vê —ele disse bem baixinho, com os lábios colados no pescoço dela, de um jeito que a respiração esquentou a orelha esquerda dela.
Um arrepio percorreu a mulher de cima a baixo. Ela enfiou as próprias mãos por dentro da blusa dele e acariciou suas costas fortes. Claudia sentiu o calor na palma da mão e suspirou enquanto apertava mais a buceta na cintura dele. Sabia que tinha que ir embora, mas ainda não queria. Queria ficar mais um minuto, igual quando o despertador te assusta numa segunda-feira bem cedo.
Então o engenheiro puxou a calcinha dela até as coxas e Claudia sentiu a buceta desprotegida pro seu amante safado. Suspirou ao sentir o Ignacio esfregando o clitóris dela.
— Espera… Para —ela pediu, virando a cabeça pra tentar ouvir o pessoal andando pelo calçadão. Não via ninguém, e quase não escutava os passos no concreto, mas dava pra sentir eles, como se sente alguém no cangote. — Que vergonha.
O engenheiro tirou a calcinha dela, puxando pra baixo até o fim, e jogou na base do arbusto mais próximo. Claudia deu um pulo ao ver a roupa íntima cair no meio da terra e das folhas. Então ele colocou o pau duro, que já tinha tirado pra fora depois de abaixar a calça, no meio das coxas dela, bem debaixo da buceta. Começou a esfregar o membro com o movimento do quadril, como se tivesse se masturbando usando o corpo dela no lugar das mãos. E na sequência, ele aproveitou pra beijar ela de novo com paixão. Em poucos segundos, o casal tava completamente entregue à putaria, e as lambidas eram tão altas que ouviram alguém se aproximando.
Os pelos da nuca da Claudia se arrepiaram e o corpo dela começou a tremer enquanto sentia a presença cada vez mais perto. Então, do meio do arbusto, surgiu um cachorro que começou a cheirar a jornalista. Ela deu um susto e encostou o corpo no do Ignacio, a ponto de parecer que ia se enfiar debaixo da pele dele. O engenheiro abraçou a amante, enquanto com a perna e o braço direito tentava espantar o cachorro.
—Ruffie —chamou o dono do cachorro da calçada —. Ruffie, volta aqui.
O senhor começou a se enfiar entre os arbustos e Claudia entrou em pânico de novo, um pânico mudo que fez ela cravar as unhas nas costas do Ignacio. O engenheiro espantou o cachorro com um tapa e ele recuou. O vira-lata voltou sobre seus passos e o dono o recebeu com alegria, então os dois seguiram o caminho de volta.
A valenciana suspirou à beira de um ataque de nervos. Teve que respirar fundo pra se acalmar, e enquanto fazia isso, viu umas formigas começarem a inspecionar a calcinha dela perto do arbusto, explorando tudo. Na sequência, olhou pro amante com medo.
—Foi por pouco. Já era hora de voltarmos.
Ignacio aproximou o rosto ao dela e chupou a borda da orelha antes de falar no ouvido.
—Quero te foder agora e aqui, à luz do dia, no meio de toda essa gente enquanto passeiam com suas famílias. Feito uma puta num beco.
Na sequência, o engenheiro levantou a perna dela enquanto a segurava de lado e esfregou o pau dele direto na buceta toda. O coração de Claudia começou a acelerar, e ela sentiu o sangue pulsando até no pescoço. O corpo inteiro começou a tremer sem controle, e o nervosismo era tanto que parecia que ela ia mijar de uma vez. Era uma loucura e uma putaria sem igual, foder no meio da galera com um homem que não era o marido dela. Podia perder toda a reputação num instante, mas o êxtase que sentia só deixou ela reagir de um jeito. E o Ignácio meteu o pau dele dentro da buceta dela.
Claudia arqueava as costas cada vez que era penetrada. O pau dele não demorou pra invadir ela por completo, e ela sentiu as paredes da buceta se esticarem de prazer. O pinto grosso entrava e saía sem parar no corpo dela, e a visão ficava embaçada de tanta tensão. Um passarinho dançava no ar, por cima das cabeças deles, feito um tarado de olho. E era exatamente assim que a valenciana se sentia. Observada. Ela ouvia as pessoas falando das suas coisas, homens e mulheres, velhos e crianças. E morria de vergonha enquanto era tomada por um prazer sem-vergonha. Começou a gemer baixinho, fechando os olhos pra se concentrar só no tesão.
As penetrações ficaram mais fortes e o barulho começou a ficar evidente. Claudia tentava segurar o amante, agarrando-o pelos quadris, mas as mãos fraquejavam ao sentir o prazer anestesiante. Estranhamente, a sensação de que ia mijar não passava, pelo contrário. Se intensificava a cada instante, com mais urgência. Era estranho pra ela, um prazer difícil de descrever. Um que nascia da degradação e da angústia. Um que a tirava do próprio corpo, como se não fosse dona dos braços nem das pernas. Que a obrigava a ficar paralisada e se deixar balançar. E então um turbilhão que multiplicava por dois o orgasmo mais profundo sacudiu seu corpo, e um jato de mijo transparente jorrou entre suas pernas.
O jato de urina saiu entre espasmos e molhou as pernas dos dois com um líquido pegajoso. Ignacio, no entanto, não parou de meter e seus próprios espasmos também o contraíram. Ele tirou o pau e gozou na borda da saia da amante, espalhando o esperma que grudou no tecido igual chiclete.
—Porra —disse ela, extasiada e à beira de desmaiar.
—Não consegui evitar gozar ao te ver tão gostosa.
— Acho que me mijei —ofegou, um pouco assustada, enquanto inclinava a cabeça pra ver a saia. Os pelinhos loiros na buceta dela estavam encharcados.
—Isso foi uma gozada vaginal. Já vi isso outras vezes.
Ignacio se separou da Claudia e ficou de barriga pra cima olhando pro céu. Ela imitou ele e ficou observando as nuvens impressionantes com formas chamativas. Eram as mesmas nuvens de sempre, na real, mas pareceram majestosas pra ela.
— O que é que eu vou fazer? Não tenho roupa limpa pra trocar — sussurrou com a voz cansada.
—Valeu a pena ter saído do apartamento —disse Ignácio em voz baixa, por sua vez, depois de uma risadinha.
Claudia também riu enquanto observava uma nuvem enorme em formato de morango, mas depois analisou a frase dela. Não entendeu por que sentia tanta vergonha de ter saído do apartamento dela.
—Você não costuma sair do apartamento, né?
—Não, se eu puder evitar.
A valenciana virou a cabeça de novo para ele, mas sem virar o tronco, estranhando a resposta dele.
— Você fica a manhã inteira no apartamento, e também de tarde? Nunca sai? — insistiu ela, que não precisou ouvir a resposta de novo. — E por isso trouxe chapéu agora… É por causa do cara sinistro de ontem?
Ignacio puxou o ar fundo e soltou devagar, enquanto via uma nuvem se deformar que lembrava um carro.
—É isso aí. Preciso de um tempinho antes de decidir como lidar com a situação. Enquanto isso, é melhor não chamar a atenção.
—Você deve dinheiro? —ela perguntou sem querer parecer mal-educada.
— Não. Eu não devo dinheiro pra ninguém — garantiu em voz baixa, num tom triste —. Mas fiz coisas condenáveis pra conseguir.
—É por isso que tão te perseguindo? Quem é? — perguntou preocupada.
—Quanto menos você souber, melhor — ele tentou encerrar, sobrecarregado.
Claudia não disse nada, mas não conseguiu evitar perguntar mais por preocupação.
—Só me responde uma coisa… cê tem medo de morrer?
Ignacio olhou pra ela com olhos tristes, como se tivesse acertado na mosca, mas não respondeu àquela pergunta. Em vez disso, apontou pra uma nuvem que parecia uma espécie de passarinho.
—Olha. Não te lembra uma cegonha?
Claudia observou com atenção enquanto inclinava a cabeça.
—Pra mim parece mais um beija-flor.
—Um beija-flor? Sério?
—Sim. Tem uma asa maior que a outra. Isso pode ser por causa de uma ilusão de ótica por causa do movimento do bater das asas.
O engenheiro não conseguiu segurar o riso, mas abafou ao lembrar que estavam buscando discrição.
—Suponho que cada um vê o que quer ver —completou por fim—. Seu marido é um homem de sorte.
Claudia não olhou pra ele, mas o olhar dela ficou triste.
—Por favor, não vamos falar dele…
—Tô falando no bom sentido —corrigiu o engenheiro —. Você tem uma família. Dois filhos maravilhosos. Sua essência tá gravada neles. Um homem nunca morre se o legado dele continua nos filhos — divagou com o olhar fixo nas nuvens se movendo —. Eu… não tenho nenhum… E também não sei se vou ter algum dia.
—Claro que sim. Você vai ter seus próprios filhos com a mulher certa. Você é um bom partido — garantiu ela, convencida.
Ignacio virou a cabeça dessa vez pra olhar na cara dela. Claudia também virou pra olhar pra ele com carinho.
— Você teria filhos comigo?
— Claro — garanti com doçura —. Se eu fosse solteira, não hesitaria. Aliás, nem sei como te deixaram escapar — reafirmou, arqueando as sobrancelhas em seguida —. Claro que você teria que aprender a manter o rabo entre as pernas. Porque nenhuma de nós gosta de homem mulherengo.
— Pareço um mulherengo? — quis saber o engenheiro. Cláudia concordou com veemência e ele riu com avidez —. Pois saiba que adoraria ter um filho com você.
Claudia riu efusivamente, tentando não elevar o tom em momento algum.
— Mais queria — comentou, em seguida segurando seu antebraço com seus dedos delicados —. Ei… se precisar de ajuda de algum tipo, me fala.
—Não se preocupa. Tô com tudo sob controle —garantiu, soltando um suspiro em seguida—. Melhor você voltar pro seu marido antes que ele ache que te sequestraram e chame a polícia.
Claudia fez cara de susto e levantou como um estalo. Assim que se mexeu, sentiu as pernas pegajosas. A meia-calça estava molhada de um líquido que tinha ficado ainda mais grudento depois de seco. Aí olhou pra calcinha e viu tudo coberto de formiga. Imaginou que a saia não devia estar muito diferente, então nem olhou, mas deu nojo ter que vestir a calcinha de novo.
—São as segundas que perco por sua culpa —disse ela, apontando pra calcinha —. E em só dois dias.
Ignacio riu enquanto abaixava a cabeça.
—Vou te comprar um punhado bem grande delas.
A valenciana sacudiu a saia e tentou arrumar o cabelo pra não parecer que tinha transado no meio do mato debaixo de uns arbustos.
—Como é que eu tô?
Ignacio viu ela com o cabelo cheio de folhas e os respingos de terra na cara, e soltou um suspiro sem saber o que responder.
—Espera, deixa eu te ajudar a se limpar.

Claudia teve que chegar até o Monumento de Afonso XII pra encontrar a família dela. Esse monumento lindo foi feito por mais de quarenta grandes artistas da época, formando um semicírculo na frente do grande Lago do Retiro. Era um hemiciclo de colunas jônicas rodeando uma estátua enorme do monarca, toda elevada com outras estátuas que deixavam ela ainda mais gostosa.
A valenciana viu primeiro os filhos, que a reconheceram na hora e saíram correndo atrás dela.
—Mamãe! Onde você estava? —perguntou Eric, surpreso.
— A gente te procurou por tudo quanto é canto — Emma quase gritou.
—Abaixem a voz —reclamou a mãe deles, envergonhada pelos olhares que os gritos atraíam.
O moleque de dez anos rapidamente se ligou na saia da mãe.
—Mamãe, você molhou sua saia num chafariz? —perguntou Eric.
—É isso aí —concordou ela rapidamente, de acordo com essa avaliação.
A valenciana não viu a filha, que estava atrás dela e a observava. Claudia se virou e viu que Emma tinha um montinho de porra no dedo e levava ao nariz enquanto cheirava. Na hora, fez uma cara de nojo. A mãe se assustou e arregalou os olhos. Se abaixou e, pegando a saia, limpou os dedos da filha.
—Não fica pegando na primeira coisa que vê, Emma — repreendeu ela, e logo em seguida procurou o lugar onde tinha se sujado —. Onde você viu isso?
— Aqui —a filha apontou, levantando um pouco a saia, mostrando que o líquido estava na parte interna e não na externa—. Que nojo. Tem cheiro de iogurte vencido. O que é isso?
Claudia esfregou os restos de porra que tinham grudado na parte de dentro da saia.
—São babas de caracol. Então não encosta, porque podem ser venenosas.
Assim que ele terminou de falar, Pedro chegou apressado.
—Clau… cadê você? Pensei que tinha se perdido.
—Desculpa. É que a conversa se alongou um pouco, mas também não demorei tanto assim, né?
—Quase uma hora, amor. Levei um baita susto porque não te achava em lugar nenhum.
—Papai… Você viu as gosmas de caracol que a mamãe tem na saia? Não sabia que as gosmas eram tão grossas.
—O quê? —perguntou o pai, confuso.
—Não liga pra eles. Dá pra gente ir pra casa logo? —pediu ela com um olhar suplicante. — Caí e me sujei com a água de um dos chafarizes, e preciso tomar um banho o mais rápido possível.
—Sim, eu também quero ir embora. Depois de ter me assustado por não te encontrar, não tô a fim de passar a tarde aqui hoje.
Claudia sorriu agradecida para o marido, enquanto Eric e Emma lamentavam a decisão com reclamações efusivas.


Espero que vocês tenham gostado. Esse é um capítulo de um dos meus livros, que você pode baixar completo e de graça no meu patreon: patreon.com/JTyCC


https://www.patreon.com/posts/el-crimen-del-126569312?utm_medium=clipboard_copy&utm_source=copyLink&utm_campaign=


0 comentários - O Crime do Beija-Flor 5