O Crime do Beija-Flor 5

O Parque do Retiro é um dos lugares mais icônicos da capital da Espanha. Cento e dezoito hectares de belos jardins e fontes, portões emblemáticos, monumentos artísticos e caprichos, ou estruturas históricas deliciosas. Os caminhos labirínticos conseguiam fazer você esquecer da cidade barulhenta e caótica de prédios altos. Por isso era o lugar mais valorizado por qualquer madrilenho. Também para Claudia e Pedro.
A família de quatro membros estava junto ao monumental Palácio de Cristal. Um embriagador templo grego de vidro e ferro, pensado inicialmente para abrigar espécies vegetais exóticas das ilhas Filipinas, mas que com o passar dos anos acabou se tornando uma das principais atrações turísticas do Parque do Retiro.
Totalmente revestida por placas de vidro, tanto nas paredes quanto no teto em forma de cúpula, é sustentada por colunas jônicas de ferro e uma estrutura do mesmo metal. As três naves que a compõem lhe conferem uma amplitude considerável, transformando-a em um palácio mágico saído de um conto de fadas. Tanto Eric quanto Emma já corriam para adentrar a todo vapor em seu interior.
—Devagar, crianças —ordenou a mãe deles, sem muito sucesso.
Claudia olhava para seus filhos, especialmente para Eric, que segurava uma bola de futebol nos braços. Ela não queria nem pensar na confusão em que eles se metariam só porque ele deixasse a bola cair no chão para brincar com ela dentro do palácio.
A bela jornalista havia colocado uma saia longa e lisa verde, com alguns bordados amarelos de flores. Ela chegava quase até o tornozelo, por isso mal se viam suas meias brancas de uma espessura equivalente à de uma meia de inverno. Ela também usava um robusto suéter branco de gola alta e mangas compridas, e um cabelo liso e muito bem penteado à la Marilyn Monroe que lhe dava um ar distinto, embora ao mesmo tempo tradicional.
— Você não acredita no que eu te disse? — perguntou Pedro baixinho para a esposa.
—Pelo contrário, mas com certeza você tá exagerando pra caralho.
Pedro bufou enquanto balançava a cabeça insistentemente. O homem de trinta e três anos havia penteado o cabelo com risca ao meio e se perfumado com cuidado. Vestira um suéter verde combinando com a saia de sua mulher, e uma calça marrom. Roupas mais delicadas que só usava nos fins de semana, quando não trabalhava na oficina.
—Se você tivesse ouvido, saberia do que estou falando. Não dá pra descrever com palavras o quão obsceno e imoral foi. Só vivendo pra ter uma ideia — acrescentou o pai de família à sua mulher —. E foi assim a tarde toda desde que você saiu, e não se repetiu desde que você chegou depois.
Claudia engoliu em seco e fingiu desinteresse.
—É normal, de qualquer forma. Ela tá na casa dela.
—Você não pode estar falando sério. E a Emma e o Eric? Isso não é coisa que duas crianças da idade deles devam ouvir à tarde.
—Claro que não. O problema são essas paredes tão finas com que construíram os apartamentos.
—Não. O problema é a falta de decoro desse cara e da gostosa com quem ele tá transando.
A valenciana deu um pulo com o jeito que o marido falou. Uma senhora de pelo menos sessenta anos virou a cabeça com cara de alarme pelo tom, pra desviar de novo assim que deixou clara sua reprovação.
—Pedro… —corrigiu Claudia.
— Nem o Pedro, nem nada — respondeu por sua vez, mas num tom muito mais baixo e contido —. Pelo menos aquela puta não começou a gemer alto. Porque senão eu teria que chamar a polícia.
—Por que ela é uma puta? Por que ela é uma mulher? Quando você e eu fazemos amor, eu viro uma puta.
—Você e eu não causamos aquele escândalo. E somos casados.
— Como você sabe que o vizinho não é casado com essa mulher?
—Porque acho que ele disse que ela era a namorada dele, e além disso ela não usa aliança no dedo, ou você não percebeu?
—Eu não reparo nesses detalhes.
As crianças estavam boquiabertas olhando para a cúpula do Palácio de Cristal quando seus pais as alcançaram. Tinha bastante gente, até para um sábado, e a Cláudia não queria que os filhos se perdessem. Foi aí que o marido deu um leve cotovelada nela.
— Falando do diabo — ele comentou num sussurro, apontando com o queixo para a esquerda.
Claudia virou a cabeça e reconheceu Ignacio rapidamente. O galante engenheiro estava usando um chapéu, mas era fácil identificá-lo. Uma calça jeans, junto com uma jaqueta preta, completavam o visual do homemão bonitão. Ele ergueu o olhar, cruzando com o de Claudia, e logo em seguida desviou novamente para o chão e se afastou, por um lado. Era evidente que ele queria que ela o seguisse, mas a valenciana tentou disfarçar.
—Pois é. Parece que é ele mesmo.
— E ele está sozinho. Não acha estranho ele não ter trazido a parceira? Deixa ela em casa sozinha num fim de semana?
—Nem ideia, querido. Talvez ela este por aqui perto, mas não conseguimos reconhecê-la porque nunca a vimos — acrescentou Claudia com uma voz distante. As palavras soaram ocas, pois seu olhar estava fixo num vazio infinito, enquanto amaldiçoava o vizinho por não ter respeitado o que ela disse sobre manter distância.
A verdade é que a Cláudia só precisava ignorar aquilo, mas ela era incapaz de fazer tal coisa. Sua mente não pensava em mais nada, e logo ela se viu tentando arranjar uma desculpa que permitisse ir vê-lo. Os minutos seguintes passaram devagar e ela não parava de olhar para o lugar onde seu vizinho tinha ido embora.
—Vamos continuar —ela disse finalmente.
— Já? Mas é o seu lugar favorito no Retiro. Sempre tenho que te arrastar pra fora daqui — exagerou o marido com um sorriso largo.
—Eu sei. Mas não quero que o Eric arrume confusão com aquela bola. O segurança não para de olhar pra ele.
—Ah, é mesmo? —perguntou Pedro, perplexo —. Tá bom. Vamos em frente.
Ao saírem do Palácio de Cristal, observaram o belo lago artificial em frente ao palácio, com magníficos ciprestes-dos-pântanos. Mas os olhos de Claudia avistaram, em seu lugar, Ignacio, que estava encostado numa árvore com o olhar fixo em sua amante. Em seguida, o engenheiro retomou o caminho e seguiu para oeste. Em direção ao labirinto de caminhos que ficava antes do Bosque da Recordação.
A valenciana não sabia como escapar da família, então recorreu ao que tinha de menos convincente.
— Nossa! Acho que vi a Paola, uma nova colega do jornal — inventou com um certo nervosismo —. Que sorte. Precisava comentar algumas coisas sobre a reunião de ontem que pensei.
— Quem? — perguntou Pedro, que não sabia muito bem para quem sua mulher estava olhando.
Claudia levantou a mão enquanto apontava quase aleatoriamente e percebeu o suor frio na testa. Na direção do seu dedo havia uma mulher bem distante, de jaqueta cinza e calça preta.
— Aquela. A de cabelo preto com jaqueta cinza — indicou, ganhando confiança a cada palavra —. É urgente, meu amor. Vocês podem começar a comer, você e as crianças? Leva eles ao Palácio de Velázquez e comem o lanche lá enquanto eu chego.
— E você não vai comer?
—Não estou com muita fome. De qualquer forma, eu alcanço vocês rápido — ela disse, muito sorridente, enquanto dava um beijo na bochecha dele, e em seguida foi embora, não deixando muito espaço para o marido reclamar.
Pedro deu de ombros e mudou de direção para o norte, enquanto a valenciana acelerou o passo, adentrando-se nas trilhas e rapidamente perdendo sua família de vista.
A estrada estava coberta de folhas secas do outono anterior, cercada por uma pequena cerca de apenas meio metro. As árvores se alinhavam em ambos os lados do caminho, bem espaçadas umas das outras, e arbustos frondosos preenchiam os vazios entre elas. Nessa área, eles eram especialmente abundantes.
Claudia viu Ignacio a uns cinquenta metros e apressou o passo para alcançá-lo, mas ele não parou nem diminuiu a marcha, e ela não queria chamá-lo em voz alta nem começar a correr pela calçada. Ficaram assim por alguns minutos até que a mulher cedeu e acelerou, quase trotando.
Finalmente ela alcançou Ignacio e o agarrou pelo braço para que parasse. Ele se virou e a segurou pelos ombros, levando-a para fora da trilha. A valenciana se deixou levar e os dois acabaram no chão entre arbustos frondosos, após uma queda suave controlada pelo engenheiro. Ele a beijou e ela recebeu o beijo sem resistir, mas durou apenas alguns segundos.
— O que você tá fazendo?! — ela exclamou em voz baixa —. Tá doido?
Ignacio tirou o chapéu enquanto ria com uma alegria genuína.
— Eu estava morrendo de vontade de te ver.
— A gente tinha combinado que nos finais de semana, nada — ela sussurrou —. Não dá pra esperar até segunda, porra?
— E por que você me seguiu? Será que não posso dar uma volta no Retiro? — ele perguntou, com as sobrancelhas erguidas e um sorriso no rosto.
—Ah, para com isso. É óbvio que você queria que eu te seguisse — ela acusou. — E falando em seguir... você tá me perseguindo desde que eu saí de casa?
— Claro que não. Eu te procurei aqui assim que cheguei. Ontem você mencionou que viria, lembra?
Claudia suspirou e se mexeu inquieta entre os arbustos. O chão não era pedregoso, mas macio por causa da grama verde. No entanto, olhou consternada para seu vestido ao vê-lo com manchas de terra e folhas.
— Caralho. Sempre fico toda melada quando te vejo — comentou com um sorriso no final, para depois ficar séria de novo —. O que você quer?
— Nada. Só vim dar uma volta — ele afirmou, encolhendo os ombros —. Aqui a gente não chama atenção e tinha que aproveitar o disfarce dessa saia verde que fica tão gostosa em você.
Ignacio levantou a saia dela e cobriu as pernas com ela enquanto se encostava mais na amante.
— Ei, espera aí — ela reclamou. — O que você tá insinuando? Nem fodendo que eu faço isso aqui.
O engenheiro não disse nada. Apenas aproximou seu rosto do dela e a beijou com ternura, fazendo com que ambos ficassem de lado, um de frente para o outro, enquanto continuavam deitados no chão. Ela não mostrou oposição e seus lábios se uniram em um abraço terno. Os beijos no meio do frio que fazia eram muito confortáveis, e Claudia se derretia de paixão como uma bola de sorvete em um brownie quente. Chupava a língua de seu amante enrolando-a na sua, enquanto enfiava os dedos em seu cabelo liso. A valenciana adorava se deixar invadir pela língua de seu amante. Sentir tocando as paredes do interior de sua boca para depois relambe-la e extrair todo o suco como se fosse uma chupeta. Mas, após vários minutos, Ignacio posou suas mãos nas pernas dela, sobre as meias, e subiu até ultrapassar o começo das ligas e massagear a virilha com suavidade.
A valenciana começou a esquentar e ele logo enfiou os dedos quentes por baixo da sua calcinha branca. Claudia sentiu um formigamento nas nádegas após o toque delicado das pontas dos dedos do seu amante, e sua buceta começou a bater palmas, mas então um casal passou bem perto da beira da trilha e estiveram a poucos passos de pegá-los. Ela se assustou.
— Espera — sussurrou —. Isso é arriscado demais. Preciso voltar para a minha família.
— Só mais um momento. Ninguém vai nos ver aqui — ele sussurrou bem baixo, com os lábios colados no pescoço dela, de modo que o hálito esquentou sua orelha esquerda.
Um formigamento percorreu a mulher de cima a baixo. Ela enfiou as próprias mãos dentro do suéter dele e acariciou suas costas musculosas. Claudia sentiu o calor na palma da mão e suspirou, ao mesmo tempo em que pressionava mais sua pubis contra a cintura dele. Sabia que tinha que ir embora, mas não queria fazer isso ainda. Queria ficar mais um minuto, como quando o despertador te assusta numa segunda-feira de manhã cedo.
Então o engenheiro puxou sua calcinha até as coxas e Claudia sentiu sua buceta desprotegida diante do amante lascivo. Ela suspirou ao sentir Ignacio esfregando seu clitóris.
—Espera… Para —ela pediu, virando a cabeça para tentar ouvir as pessoas caminhando na calçada. Não as via, e mal ouvia os passos no concreto, mas conseguia senti-las como se sente alguém na nuca —. Que vergonha.
O engenheiro puxou sua calcinha, baixando-a completamente, e jogou-a na base do arbusto mais próximo. Claudia deu um salto ao ver sua roupa íntima cair no meio da terra e das folhas. Então, ele colocou seu pênis ereto, que havia tirado para fora após abaixar a calça, entre as duas coxas dela, bem debaixo da buceta. Começou a esfregar seu membro com o movimento dos quadris, como se estivesse se masturbando usando o corpo dela em vez das mãos. E, em seguida, aproveitou para beijá-la apaixonadamente novamente. Em poucos segundos, o casal estava absorvido pela luxúria, e os gemidos ficaram tão altos que sentiram alguém se aproximando.
Os pelos da nuca de Claudia se arrepiaram e seu corpo começou a tremer conforme ela percebia a presença se aproximando cada vez mais. Então, de dentro do arbusto, surgiu um cachorro que começou a farejar a jornalista. Ela deu um pulo e se encolheu contra Ignacio, a ponto de parecer que ia se enfiar debaixo da pele dele. O engenheiro abraçou sua amante, enquanto com a perna e o braço direito tentava espantar o cachorro.
— Ruffie — chamou o dono do cachorro do passeio —. Ruffie, volta aqui.
O senhor começou a se enfiar entre os arbustos e Claudia entrou novamente em um pânico mudo, que fez com que ela cravasse as unhas nas costas de Ignacio. O engenheiro espantou o cachorro com uma tapa e ele recuou. O cão voltou sobre seus passos e o dono o recebeu com alegria, então ambos retomaram o caminho.
A valenciana suspirou à beira de um ataque de nervos. Teve que respirar fundo para se acalmar, e enquanto fazia isso, observou algumas formigas começando a inspecionar sua calcinha junto ao arbusto, explorando-a. Em seguida, olhou para seu amante com medo.
—Foi por pouco. A gente devia voltar já.
Ignacio aproximou o rosto ao dela e chupou a borda da orelha antes de sussurrar em seu ouvido.
—Eu quero te comer agora e aqui, à luz do dia, no meio de toda essa gente enquanto passeiam com suas famílias. Como se fosse uma puta num beco.
Em seguida, o engenheiro ergueu a perna dela enquanto a segurava de um lado e esfregou seu pênis diretamente sobre toda a vulva. O coração da Claudia começou a acelerar e ela sentiu o sangue pulsando até no pescoço. Todo seu corpo começou a tremer sem que ela pudesse evitar, e seu nervosismo era tanto que parecia que ela ia mijar a jatos. Era uma temeridade e uma obscenidade sem igual, foder no meio da gente com um homem que não era seu marido. Ela poderia perder toda sua reputação de uma vez, mas o êxtase que sentia só a deixou reagir de uma forma. E o Ignacio enfiou seu pênis dentro de sua buceta.
Claudia se arqueava cada vez que era penetrada. O membro dele não demorou a invadi-la por completo, e ela sentiu as paredes de sua buceta se esticando de prazer. O pênis grosso entrava uma e outra vez em seu corpo e sua visão ficava embaçada pela tensão do momento. Um pássaro dançava no ar, sobre suas cabeças, como um pervertido voyeur. E era assim que a valenciana se sentia. Observada. Ela ouvia as pessoas falando de suas coisas, tanto homens quanto mulheres, tanto velhos quanto crianças. E morria de vergonha ao mesmo tempo que era invadida por um prazer constrangedor. Começou a ofegar silenciosamente enquanto fechava os olhos para se concentrar apenas no gozo.
As penetrações ficaram mais fortes e o barulho começou a ficar evidente. Claudia tentava frear seu amante segurando-o pelos quadris, mas suas mãos fraquejavam ao sentir o prazer anestesiante. Estranhamente, a sensação de estar urinando não passava, pelo contrário. Intensificou-se a cada instante com mais urgência. Era estranho para ela, pois era um prazer difícil de descrever. Um que nascia da degradação e da angústia. Um que a tirava do próprio corpo, como se não fosse dona de seus braços nem pernas. Que a obrigava a ficar paralisada e se deixar embalar. E então uma voragem que multiplicou por dois seu orgasmo mais profundo sacudiu seu corpo e um jato de urina transparente jorrou de sua virilha.
O jato de urina saiu entre espasmos e banhou as pernas de ambos com um líquido pegajoso. Ignácio, porém, não parou de meter e seus próprios espasmos o contraíram também. Ele retirou seu membro e ejaculou na borda da saia de sua amante, espalhando seu sêmen que grudou no tecido como uma chiclete.
—Caralho —ela disse, extasiada e à beira do desmaio.
—Não deu pra segurar, gozei só de te ver tão gostosa.
— Acho que me mijei — ela suspirou, um pouco assustada, enquanto inclinava a cabeça para olhar a saia. Os pelos loiros na sua buceta estavam encharcados.
—Isso foi uma corrida vaginal. Já vi isso outras vezes.
Ignacio se afastou de Claudia e ficou de costas olhando para o céu. Ela o imitou e observou as nuvens impressionantes com formas chamativas. Eram as mesmas nuvens de sempre, na verdade, mas lhe pareceram majestosas.
— O que eu vou fazer? Não tenho roupas limpas pra me trocar — sussurrou com voz cansada.
—Valeu a pena ter saído do apartamento —disse baixinho Ignacio, por sua vez, depois de uma risadinha.
Claudia também riu enquanto observava uma grande nuvem em forma de morango, mas depois analisou sua frase. Ela não entendeu por que dava tanto medo ter saído do seu apartamento.
—Você não costuma sair do apartamento, né?
—Não, se eu puder evitar.
A valenciana virou a cabeça de novo para ele, mas sem girar o tronco, intrigada com a resposta dele.
— Você fica o dia todo no apartamento, de manhã e à tarde também? Nunca sai? — insistiu ela, que nem precisou que repetissem a resposta —. E por isso você trouxe chapéu agora… É por causa daquele cara sinistro de ontem?
Ignacio puxou muito ar para depois soltar lentamente enquanto observava uma nuvem se deformar, que lhe lembrava um carro.
—É isso mesmo. Preciso de um tempinho antes de decidir como lidar com a situação. Enquanto isso, é melhor não chamar atenção.
— Você tá devendo dinheiro? — perguntou ela, sem querer soar mal-educada.
—Não. Eu não devo dinheiro a ninguém — garantiu em voz baixa, num tom triste —. Mas fiz coisas reprováveis para conseguir.
— É por isso que estão te perseguindo? Quem é? — perguntou, preocupada.
— Quanto menos você souber, melhor — ele tentou encerrar, esgotado.
Claudia não disse nada, mas não conseguiu evitar perguntar mais por causa da preocupação.
— Só me responde uma coisa… você tem medo de morrer?
Ignacio a olhou com olhos pesarosos, como se ela tivesse acertado em cheio, mas não respondeu àquela pergunta. Em vez disso, apontou para uma nuvem que parecia uma espécie de pájaro.
—Olha. Não te lembra uma cegonha?
Claudia olhou com atenção enquanto inclinava a cabeça.
—Pra mim parece mais um beija-flor.
—Um beija-flor? Sério?
—Sim. Tem uma asa maior que a outra. Isso pode ser uma ilusão de ótica devido ao movimento do bater de asas.
O engenheiro não conseguiu segurar a risada, mas abafou o som ao lembrar que precisavam de discrição.
— Acho que cada um vê o que quer ver — acrescentou por fim —. Seu marido é um homem de sorte.
Claudia não olhou para ele, mas seu olhar ficou triste.
—Por favor, não vamos falar dele…
— Digo no bom sentido — corrigiu o engenheiro. — Ele tem uma família. Dois filhos maravilhosos. A essência dele está impressa neles. Um homem nunca morre se seu legado se perpetua nos filhos — divagou, com o olhar fixo nas nuvens em movimento. — Eu… não tenho nenhum… E também não sei se algum dia vou ter.
—Claro que sim. Você vai ter seus próprios filhos com a mulher certa. Você é um bom partido —ela garantiu, convencida.
Ignacio virou a cabeça dessa vez para encará-la. Claudia também virou a cabeça para olhá-lo com carinho.
—Você teria filhos comigo?
— Com certeza — ela assegurou com doçura. — Se eu fosse solteira, não hesitaria. Na verdade, não sei como deixaram você escapar — reafirmou, para então arquejar as sobrancelhas. — Claro que você teria que aprender a manter seu pau entre as pernas. Porque nenhuma de nós gosta de homens galinhas.
— Eu pareço um mulherengo? — quis saber o engenheiro. Claudia assentiu com vehemência e ele riu com avidez —. Pois saiba que eu adoraria ter um filho com você.
Claudia deu uma risada gostosa, tentando não levantar o tom o tempo todo.
—Mais você queria — comentou, em seguida segurando seu antebraço com seus dedos delicados —. Olha… se você precisar de ajuda de qualquer tipo, me fala.
— Não se preocupe. Tenho tudo sob controle — assegurou, para depois suspirar. — Você deveria voltar para o seu marido antes que ele pense que você foi sequestrada e chame a polícia.
Claudia fez uma cara de alarme e se levantou feito mola. Assim que se levantou, sentiu as pernas grudentas. Suas meias estavam molhadas de um líquido que tinha ficado mais pegajoso depois de seco. Aí ela olhou pra calcinha e viu que estava coberta de formigas. Imaginou que a saia não devia estar muito diferente, então poupou-se de olhar, mas sentiu nojo só de pensar em vestir a calcinha de novo.
—São as segundas que eu perco por sua causa —ela disse, apontando para a calcinha —. E em apenas dois dias.
Ignacio riu enquanto abaixava a cabeça.
—Vou te comprar um bom punhado delas.
A valenciana sacudiu a saia e tentou arrumar o penteado para não parecer que tinha transado no meio do campo debaixo de uns arbustos.
— Como estou?
Ignacio a viu com o cabelo cheio de folhas e os respingos de terra no rosto e bufou sem saber o que responder.
—Espera, deixa eu te ajudar a se limpar.

Claudia teve que ir até o Monumento a Alfonso XII para encontrar sua família. O belo monumento foi elaborado por mais de quarenta grandes artistas da época e forma um semicírculo em frente ao grande Lago do Retiro. Era um hemiciclo de colunas jônicas rodeando uma grande estátua do monarca, lindamente elevada com outras estátuas que a embelezavam.
A valenciana viu primeiro seus filhos, que a reconheceram assim que a viram, e correram atrás dela.
—Mãe! Onde você estava? —perguntou Eric, surpreso.
— A gente estava te procurando por todo lado — Emma quase gritou.
—Baixem a voz —reclamou a mãe deles, envergonhada pelos olhares que os gritos estavam atraindo.
O menino de dez anos rapidamente fixou os olhos na saia da mãe.
— Você molhou a saia numa fonte, mãe? — perguntou Eric.
—É isso aí —ela concordou rapidamente, satisfeita com a avaliação.
A valenciana não viu a filha, que estava atrás dela e a inspecionava. Claudia se virou e viu que Emma tinha uma meleca de sêmen no dedo e o levava ao nariz enquanto cheirava. Imediatamente fez cara de nojo. A mãe se alarmou e abriu os olhos como pratos. Agachou-se e, segurando sua saia, limpou os dedos da filha.
— Não toque na primeira coisa que ver, Emma — ela a repreendeu, e logo em seguida começou a procurar o lugar onde se sujou —. Onde você viu?
— Aqui — ela apontou, levantando um pouco a saia e mostrando que o líquido estava na parte interna, não externa —. Que nojo. Cheira a iogurte vencido. O que é isso?
Claudia esfregou os restos de porra que haviam grudado na parte de dentro da saia.
—São babas de caracol. Então não toque nelas porque podem ser venenosas.
Assim que ele terminou de falar, Pedro chegou apressado.
—Clau… cadê você? Achei que você tinha se perdido.
— Desculpa. É que a conversa se estendeu um pouco, mas também não demorei tanto, né?
—Quase uma hora, meu bem. Fiquei apavorada porque não te encontrava em lugar nenhum.
—Pai… Você viu a baba de caracol que a mamãe tem na saia? Não sabia que a baba era tão grossa.
— O quê? — perguntou o pai, confuso.
— Não liga pra eles. Podemos ir pra casa agora? — ela pediu com um olhar suplicante —. Eu caí e me molhei na água de uma das fontes, e preciso tomar um banho o mais rápido possível.
—Sim, eu também quero ir embora. Depois de ter me assustado por não te encontrar, não estou a fim de passar a tarde por aqui hoje.
Claudia sorriu agradecida para o marido, enquanto tanto Eric quanto Emma lamentavam a decisão com reclamações efusivas.


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