Nos últimos dois anos, tudo mudou na minha vida. Na minha vida, no meu casamento e no projeto de futuro que eu achava que ia seguir. Não vou dizer que virou um inferno, porque não é bem assim. Na verdade, alternava entre inferno e paraíso. Não sei o que é pior.
Eu sou Nicolás. Quando isso começou a acontecer, a progredir tão devagar, eu já estava casado há uns dois anos com minha mulher, Betina. A gente casou muito novo. Não sei se foi um erro, não gosto de pensar no meu casamento como "um erro" porque nunca foi, mas às vezes acho que teria sido melhor se a gente esperasse um pouco mais pra casar. Quando nos declararam marido e mulher, eu tava a uns dias de fazer 28 anos e Betina tinha só 23.
Betina é paraguaia. Uma magrinha gostosa. Tem cabelo castanho, liso e comprido. É baixinha, mas tem aquela altura que cai bem nela como mulher. Desde que a conheci, sempre gostei. Ela veio morar na Argentina quando a família se mudou pra cá. Tinha 8 anos, então ficou com uma mistura bonita de sotaques e termos que às vezes me fazia morrer de rir. Ela sempre foi muito religiosa, graças aos pais. Meus sogros, quando se mudaram pra Argentina, abriram uma igrejinha perto de Bella Vista. Eu nunca conheci, mas meu sogro me disse que no começo não passava de uma garagem que compraram com a esposa, arrumaram e começaram a se reunir pra fazer cultos e missas lá. Eles se deram bem com o tempo. Abandonaram aquele primeiro lugar quando ficou pequeno e agora têm um templo na mesma região. Era um cinema antigo que reformaram e deixaram bonito como templo.
Eu não sou religioso, o que sempre foi um ponto de atrito com eles, apesar da boa relação que sempre tivemos. A única coisa que posso dizer dessa igreja que, com esforço, meus sogros tocaram pra frente é que é daquelas evangélicas. As que enchem seu espírito ao mesmo tempo que esvaziam seu bolso. Não vou falar nada. Mais. Não que tenham ficado bilionários com a igreja, mas deu uma grana boa pra eles.
A Betina cresceu nesse ambiente e nesse meio. Ela tem dois irmãos um pouco mais velhos, foi a última que meus sogros tiveram. Talvez pra muita gente ela não fosse muito atraente de rosto, mas eu gostei dela de cara. Principalmente quando sorria. Ela tem aqueles sorrisos largos e brilhantes que iluminam sua vida. Ela é magrinha, como eu disse, e mais baixa que eu. Não tem peitões, mas eu gosto deles. Sentir eles nas minhas mãos é sempre um prazer. O que ela tem são curvas lindas no corpo e uma bunda realmente preciosa. É a melhor virtude física dela, sem dúvida. Se a tudo esse pacote eu somo aquela pele morena, macia e sedosa que ela tem, quase sem nenhuma marca, fica uma gostosona de jovem mulher. Talvez não chame atenção de primeira, mas quando você fica olhando, percebe todos os detalhes lindos que ela tem. Poderia enlouquecer qualquer homem, minha paraguaiazinha.
O que a Betina tem, e que dá pra perceber logo depois de passar uma hora conversando com ela, é que ela tem... vamos chamar de "lacunas" na educação e formação dela. Com isso não quero dizer que ela seja uma burra, porque não é. Nem que não saiba falar ou escrever, nada a ver. Não nesse nível. Mas dá pra notar que ela não foi uma garota muito instruída. Meus sogros decidiram mantê-la em casa, educando-a lá, e vai saber com quais coisas, ou melhor, com a falta de coisas, ela foi criada. Não é difícil adivinhar um pouco. Apesar de a Betina realmente não ser daquelas religiosas insuportáveis que ficam te enchendo o saco com a Bíblia o tempo todo, de jeito nenhum, ela é capaz de citar o capítulo e o versículo do livro da Bíblia que você imaginar... e ao mesmo tempo, se você perguntar, não saber quem foi Napoleão Bonaparte. Ela perguntaria se não foi um boxeador da época daqueles em preto e branco.
Acho que foi por essa falta de instrução em geral que a Betina cresceu muito inocente em algumas coisas. Ela tem um coração de ouro. É boa até o talo. Generosa e sempre disposta a ajudar. Mas isso faz com que ela confie sem duvidar nas pessoas de quem gosta, e acho que foi por esse lado, pela ponta desse novelo, que tudo começou a se complicar.
Quando nos casamos, com uma ajudinha dos meus sogros, compramos uma casinha. Pequena, mas bonita. Não vou dizer exatamente onde porque ainda moramos lá. Subúrbio, zona oeste. Não era uma área muito boa, mas também não era uma favela. Era um bairro de gente trabalhadora, como íamos ser nós. Apesar da posição melhor dos meus sogros, a Betina aceitou a ajuda deles pra casa, mas só. O que tivéssemos daí pra frente ela queria ganhar comigo, honestamente. Nossa casinha precisava de alguns reparos. Nada estrutural, só deixá-la bonita, mas íamos fazendo com tempo e vontade. Nos mudamos pra lá os dois, muito felizes.
Com o sexo, isso sim foi um problema. Não dá pra ser mais clássico do que isso, mas a verdade é que Betina foi virgem até a nossa noite de núpcias. Sério. Ainda hoje em dia, que esse tipo de coisa já não é mais comum, com ela foi assim. Por sorte, descobrir esse mundo que até então ela não tinha experimentado caiu muito bem pra ela. Ela gostou pra caralho e logo Betina, junto comigo, recuperou boa parte daqueles anos perdidos, digamos, na parte sexual. Ela se abriu muito mais pro que é o sexo com um parceiro e pras coisas que uma esposa faz com o marido.
Minha ideia era eu sair pra trabalhar e a Betina ficar em casa. Isso também era, de certa forma, o que meus sogros esperavam. Tive três empregos nesses primeiros dois anos, embora não ao mesmo tempo. Trabalhei num supermercado grande, uma rede. Depois num mercadinho chinês e, finalmente, numa loja de peças de carro, mesmo que nada disso fosse a minha praia. Tinha que fazer alguma coisa, e tudo ajudava. Betina cozinha muito bem. Mas sério, muito bem. Qualquer coisa que ela faz fica uma delícia. Perfeitamente poderia ter sido chef. Ela ria quando eu falava isso, se sentindo lisonjeada, e desconsiderava, mas pra mim era verdade. Pra ajudar também com nossas despesas, tivemos a ideia de ela cozinhar em casa. Coisas simples. Tortas, empadas, sanduíches, essas coisas, pra vender pros vizinhos ou pros funcionários de umas duas fábricas que tinha perto. Isso também ajudou pra caramba. Ela passava um tempão cozinhando em casa e adorava. Não só cozinha maravilhosamente bem, como também é daquelas pessoas que amam fazer isso.
Com nossos vizinhos de rua a gente se dava muito bem também, já que Betina vivia cozinhando pra algum quando pediam. Principalmente pras duas velhinhas que moravam na casa ao lado. Eram irmãs, viviam sozinhas e, coitadinhas, deviam ter uns 160 anos juntas. Sempre encantadas com as comidas que Betina fazia pra elas. Às vezes nem cobrava, de tão boazinha que ela é.
As únicas experiências ruins que tivemos nesses dois anos morando lá foi que uma vez tentaram assaltar a Betina, na porta da nossa casa. Dois Pivetes de moto avançaram nela, tentaram roubar o celular e a bolsa com as compras, mas por sorte uns vizinhos viram e foram ajudar na hora, espantando os caras. Fora o susto, não aconteceu nada com ela. A outra experiência ruim, que já era quase constante, era a casa que tínhamos ao lado. Era um terreno um pouco maior que o nosso, com uma casa abandonada, em ruínas. O pessoal dizia que estava assim há décadas. Uma casa velha de meados do século passado ou mais, toda tomada por galhos, mato alto, janelas tapadas e parecia que ia desabar a qualquer momento. O problema é que sempre entravam uns vagabundos e mendigos querendo dormir lá, e sempre dava alguma treta com algum vizinho ou briga entre eles, que a polícia tinha que vir tirar, a qualquer hora. A gente tinha uma semana ou dez dias de paz, e logo caíam de novo na casa, os mesmos ou outros.
Até que um dia um vizinho me falou que alguém tinha comprado o terreno junto com a casa. Pouco tempo depois, vi um cara parar com o carro, prender com uns arames uma placa de "Vendida" no portão e ir embora. Em algum momento eu ia ter novos vizinhos, mas nem queria imaginar o trampo que iam ter pra deixar aquela casa habitável. Não sei se não era mais eficiente e barato derrubar tudo e começar do zero.
Duas semanas depois, uns caras vieram limpar e capinar o terreno, ficaram umas três tardes nisso. E aí, duas semanas depois disso, conheci nossos novos vizinhos num sábado que eu tava em casa, vendo eles pararem com duas caminhonetes cheias de coisas. Logo começaram a descer tudo e levar pra dentro da casa. A caçamba que os caras da limpeza usaram ainda tava na calçada, cheia de entulho e galhos. Me pareceu que eles se apressaram pra se mudar, mas talvez precisassem. Aquela casa de jeito nenhum tava em condições de ser habitada naquele estado. Momento.
Meu vizinho acabou sendo um cara um pouco mais velho que eu, tipo quarenta e poucos anos, com dois moleques que pareciam ser os filhos dele. Os dois adolescentes. Não queria encher o saco deles durante a mudança, então esperei um pouco até que, umas duas horas depois de chegarem e carregarem as coisas, vi eles descansando na calçada, dividindo uma garrafa de refrigerante. Saí e fui me apresentar e conhecê-los.
O cara era um grandalhão, careca mas com barba. Bem largo e corpulento. Gostei dele na hora quando apertamos as mãos e nos cumprimentamos. Ele se chamava Mario e me apresentou os dois moleques, que, bem educados, também me deram a mão. Eles eram Mateo e Diego. Tinham 17 e 15 anos, mas pra falar a verdade, os dois pareciam ter a idade do mais velho. Quase a mesma altura entre eles. Nada me chamou muita atenção nos garotos. Eram adolescentes como tantos outros mil, vestidos assim, penteados assim. Tudo normal. Mario parecia feliz em conhecer o primeiro vizinho novo e ficamos batendo papo ali.
Eu cometi um erro bem feio, querendo pagar de simpático logo de cara, perguntando de brincadeira se ele tinha deixado a mulher pra carregar os móveis pesados, já que não tinha visto ela. Foi aí que Mario me disse que não, que ele era viúvo. Quis morrer ali mesmo de dor e vergonha, mas Mario percebeu na hora e sorriu, dando um tapinha no meu ombro. Disse pra eu não me preocupar, que não estava ofendido nem nada, eu só não sabia. Que estava tudo bem. Ele me disse que a mulher tinha morrido há cinco anos. Que uma noite ela saiu, foi atropelada por um motorista bêbado e nunca mais voltou. Que a vida era assim às vezes, ele disse. Já tinha aceitado há muito tempo, falou. Que foi uma pena, que ele amou muito ela, e que foi muito triste os garotos ficarem sem a mãe tão jovens, mas fazer o quê. Não tinha o que fazer além de recomeçar a vida de novo.
Pedii mil desculpas de novo, mas ele sorriu e disse pra eu não me preocupar, sério. Os moleques Tavam bem ansiosos pra terminar de descarregar as coisas, então o Mario falou pra eles continuarem e a gente ficou batendo papo mais um tempinho ali. Sobre a casa e tudo que precisava fazer nela. Era uma lista fudida de reformas e consertos.
Foi aí que a Betina saiu de casa e veio se apresentar também. Cumprimentando o Mario e os filhos dele enquanto os caras iam e vinham descarregando as paradas. O Mario cumprimentou ela numa boa, super educado, e os moleques fizeram o mesmo. A gente ficou ali conversando até que, uns minutos depois, a Betina perguntou pros guris se tavam com fome. O mais novo disse que sim, mas o Mario meio que deu uma bronca nele, falando pra não ser abusado. A Betina só riu, disse pra esperarem um pouquinho e saiu de casa de novo com umas empadas e tortinhas de presunto e queijo, recém-feitas, oferecendo pra todo mundo com um sorriso doce.
Meu novo vizinho e os filhos agradeceram pra caralho, se derretendo em elogios sobre como tavam uma delícia, o que sempre agradava a Betina.
Foi assim que começou essa parada toda e eu não tava vendo. Não conseguia ver, ainda. Tava tudo por baixo da superfície. Dessa superfície de aparências que a gente tinha, incluindo eu também. Se alguém pudesse ter visto tipo uma foto de todo mundo ali, conversando na rua e comendo empadas naquele primeiro dia, acho que ninguém, nem nos voos mais imaginativos e doidos, teria conseguido antecipar ou prever como tudo ia se desenrolar.
A reviravolta que ia dar nas nossas vidas ainda tava no futuro.
Eu sou Nicolás. Quando isso começou a acontecer, a progredir tão devagar, eu já estava casado há uns dois anos com minha mulher, Betina. A gente casou muito novo. Não sei se foi um erro, não gosto de pensar no meu casamento como "um erro" porque nunca foi, mas às vezes acho que teria sido melhor se a gente esperasse um pouco mais pra casar. Quando nos declararam marido e mulher, eu tava a uns dias de fazer 28 anos e Betina tinha só 23.
Betina é paraguaia. Uma magrinha gostosa. Tem cabelo castanho, liso e comprido. É baixinha, mas tem aquela altura que cai bem nela como mulher. Desde que a conheci, sempre gostei. Ela veio morar na Argentina quando a família se mudou pra cá. Tinha 8 anos, então ficou com uma mistura bonita de sotaques e termos que às vezes me fazia morrer de rir. Ela sempre foi muito religiosa, graças aos pais. Meus sogros, quando se mudaram pra Argentina, abriram uma igrejinha perto de Bella Vista. Eu nunca conheci, mas meu sogro me disse que no começo não passava de uma garagem que compraram com a esposa, arrumaram e começaram a se reunir pra fazer cultos e missas lá. Eles se deram bem com o tempo. Abandonaram aquele primeiro lugar quando ficou pequeno e agora têm um templo na mesma região. Era um cinema antigo que reformaram e deixaram bonito como templo.
Eu não sou religioso, o que sempre foi um ponto de atrito com eles, apesar da boa relação que sempre tivemos. A única coisa que posso dizer dessa igreja que, com esforço, meus sogros tocaram pra frente é que é daquelas evangélicas. As que enchem seu espírito ao mesmo tempo que esvaziam seu bolso. Não vou falar nada. Mais. Não que tenham ficado bilionários com a igreja, mas deu uma grana boa pra eles.
A Betina cresceu nesse ambiente e nesse meio. Ela tem dois irmãos um pouco mais velhos, foi a última que meus sogros tiveram. Talvez pra muita gente ela não fosse muito atraente de rosto, mas eu gostei dela de cara. Principalmente quando sorria. Ela tem aqueles sorrisos largos e brilhantes que iluminam sua vida. Ela é magrinha, como eu disse, e mais baixa que eu. Não tem peitões, mas eu gosto deles. Sentir eles nas minhas mãos é sempre um prazer. O que ela tem são curvas lindas no corpo e uma bunda realmente preciosa. É a melhor virtude física dela, sem dúvida. Se a tudo esse pacote eu somo aquela pele morena, macia e sedosa que ela tem, quase sem nenhuma marca, fica uma gostosona de jovem mulher. Talvez não chame atenção de primeira, mas quando você fica olhando, percebe todos os detalhes lindos que ela tem. Poderia enlouquecer qualquer homem, minha paraguaiazinha.
O que a Betina tem, e que dá pra perceber logo depois de passar uma hora conversando com ela, é que ela tem... vamos chamar de "lacunas" na educação e formação dela. Com isso não quero dizer que ela seja uma burra, porque não é. Nem que não saiba falar ou escrever, nada a ver. Não nesse nível. Mas dá pra notar que ela não foi uma garota muito instruída. Meus sogros decidiram mantê-la em casa, educando-a lá, e vai saber com quais coisas, ou melhor, com a falta de coisas, ela foi criada. Não é difícil adivinhar um pouco. Apesar de a Betina realmente não ser daquelas religiosas insuportáveis que ficam te enchendo o saco com a Bíblia o tempo todo, de jeito nenhum, ela é capaz de citar o capítulo e o versículo do livro da Bíblia que você imaginar... e ao mesmo tempo, se você perguntar, não saber quem foi Napoleão Bonaparte. Ela perguntaria se não foi um boxeador da época daqueles em preto e branco.Acho que foi por essa falta de instrução em geral que a Betina cresceu muito inocente em algumas coisas. Ela tem um coração de ouro. É boa até o talo. Generosa e sempre disposta a ajudar. Mas isso faz com que ela confie sem duvidar nas pessoas de quem gosta, e acho que foi por esse lado, pela ponta desse novelo, que tudo começou a se complicar.
Quando nos casamos, com uma ajudinha dos meus sogros, compramos uma casinha. Pequena, mas bonita. Não vou dizer exatamente onde porque ainda moramos lá. Subúrbio, zona oeste. Não era uma área muito boa, mas também não era uma favela. Era um bairro de gente trabalhadora, como íamos ser nós. Apesar da posição melhor dos meus sogros, a Betina aceitou a ajuda deles pra casa, mas só. O que tivéssemos daí pra frente ela queria ganhar comigo, honestamente. Nossa casinha precisava de alguns reparos. Nada estrutural, só deixá-la bonita, mas íamos fazendo com tempo e vontade. Nos mudamos pra lá os dois, muito felizes.
Com o sexo, isso sim foi um problema. Não dá pra ser mais clássico do que isso, mas a verdade é que Betina foi virgem até a nossa noite de núpcias. Sério. Ainda hoje em dia, que esse tipo de coisa já não é mais comum, com ela foi assim. Por sorte, descobrir esse mundo que até então ela não tinha experimentado caiu muito bem pra ela. Ela gostou pra caralho e logo Betina, junto comigo, recuperou boa parte daqueles anos perdidos, digamos, na parte sexual. Ela se abriu muito mais pro que é o sexo com um parceiro e pras coisas que uma esposa faz com o marido.
Minha ideia era eu sair pra trabalhar e a Betina ficar em casa. Isso também era, de certa forma, o que meus sogros esperavam. Tive três empregos nesses primeiros dois anos, embora não ao mesmo tempo. Trabalhei num supermercado grande, uma rede. Depois num mercadinho chinês e, finalmente, numa loja de peças de carro, mesmo que nada disso fosse a minha praia. Tinha que fazer alguma coisa, e tudo ajudava. Betina cozinha muito bem. Mas sério, muito bem. Qualquer coisa que ela faz fica uma delícia. Perfeitamente poderia ter sido chef. Ela ria quando eu falava isso, se sentindo lisonjeada, e desconsiderava, mas pra mim era verdade. Pra ajudar também com nossas despesas, tivemos a ideia de ela cozinhar em casa. Coisas simples. Tortas, empadas, sanduíches, essas coisas, pra vender pros vizinhos ou pros funcionários de umas duas fábricas que tinha perto. Isso também ajudou pra caramba. Ela passava um tempão cozinhando em casa e adorava. Não só cozinha maravilhosamente bem, como também é daquelas pessoas que amam fazer isso.
Com nossos vizinhos de rua a gente se dava muito bem também, já que Betina vivia cozinhando pra algum quando pediam. Principalmente pras duas velhinhas que moravam na casa ao lado. Eram irmãs, viviam sozinhas e, coitadinhas, deviam ter uns 160 anos juntas. Sempre encantadas com as comidas que Betina fazia pra elas. Às vezes nem cobrava, de tão boazinha que ela é.
As únicas experiências ruins que tivemos nesses dois anos morando lá foi que uma vez tentaram assaltar a Betina, na porta da nossa casa. Dois Pivetes de moto avançaram nela, tentaram roubar o celular e a bolsa com as compras, mas por sorte uns vizinhos viram e foram ajudar na hora, espantando os caras. Fora o susto, não aconteceu nada com ela. A outra experiência ruim, que já era quase constante, era a casa que tínhamos ao lado. Era um terreno um pouco maior que o nosso, com uma casa abandonada, em ruínas. O pessoal dizia que estava assim há décadas. Uma casa velha de meados do século passado ou mais, toda tomada por galhos, mato alto, janelas tapadas e parecia que ia desabar a qualquer momento. O problema é que sempre entravam uns vagabundos e mendigos querendo dormir lá, e sempre dava alguma treta com algum vizinho ou briga entre eles, que a polícia tinha que vir tirar, a qualquer hora. A gente tinha uma semana ou dez dias de paz, e logo caíam de novo na casa, os mesmos ou outros.
Até que um dia um vizinho me falou que alguém tinha comprado o terreno junto com a casa. Pouco tempo depois, vi um cara parar com o carro, prender com uns arames uma placa de "Vendida" no portão e ir embora. Em algum momento eu ia ter novos vizinhos, mas nem queria imaginar o trampo que iam ter pra deixar aquela casa habitável. Não sei se não era mais eficiente e barato derrubar tudo e começar do zero.
Duas semanas depois, uns caras vieram limpar e capinar o terreno, ficaram umas três tardes nisso. E aí, duas semanas depois disso, conheci nossos novos vizinhos num sábado que eu tava em casa, vendo eles pararem com duas caminhonetes cheias de coisas. Logo começaram a descer tudo e levar pra dentro da casa. A caçamba que os caras da limpeza usaram ainda tava na calçada, cheia de entulho e galhos. Me pareceu que eles se apressaram pra se mudar, mas talvez precisassem. Aquela casa de jeito nenhum tava em condições de ser habitada naquele estado. Momento.
Meu vizinho acabou sendo um cara um pouco mais velho que eu, tipo quarenta e poucos anos, com dois moleques que pareciam ser os filhos dele. Os dois adolescentes. Não queria encher o saco deles durante a mudança, então esperei um pouco até que, umas duas horas depois de chegarem e carregarem as coisas, vi eles descansando na calçada, dividindo uma garrafa de refrigerante. Saí e fui me apresentar e conhecê-los.
O cara era um grandalhão, careca mas com barba. Bem largo e corpulento. Gostei dele na hora quando apertamos as mãos e nos cumprimentamos. Ele se chamava Mario e me apresentou os dois moleques, que, bem educados, também me deram a mão. Eles eram Mateo e Diego. Tinham 17 e 15 anos, mas pra falar a verdade, os dois pareciam ter a idade do mais velho. Quase a mesma altura entre eles. Nada me chamou muita atenção nos garotos. Eram adolescentes como tantos outros mil, vestidos assim, penteados assim. Tudo normal. Mario parecia feliz em conhecer o primeiro vizinho novo e ficamos batendo papo ali.
Eu cometi um erro bem feio, querendo pagar de simpático logo de cara, perguntando de brincadeira se ele tinha deixado a mulher pra carregar os móveis pesados, já que não tinha visto ela. Foi aí que Mario me disse que não, que ele era viúvo. Quis morrer ali mesmo de dor e vergonha, mas Mario percebeu na hora e sorriu, dando um tapinha no meu ombro. Disse pra eu não me preocupar, que não estava ofendido nem nada, eu só não sabia. Que estava tudo bem. Ele me disse que a mulher tinha morrido há cinco anos. Que uma noite ela saiu, foi atropelada por um motorista bêbado e nunca mais voltou. Que a vida era assim às vezes, ele disse. Já tinha aceitado há muito tempo, falou. Que foi uma pena, que ele amou muito ela, e que foi muito triste os garotos ficarem sem a mãe tão jovens, mas fazer o quê. Não tinha o que fazer além de recomeçar a vida de novo.
Pedii mil desculpas de novo, mas ele sorriu e disse pra eu não me preocupar, sério. Os moleques Tavam bem ansiosos pra terminar de descarregar as coisas, então o Mario falou pra eles continuarem e a gente ficou batendo papo mais um tempinho ali. Sobre a casa e tudo que precisava fazer nela. Era uma lista fudida de reformas e consertos.
Foi aí que a Betina saiu de casa e veio se apresentar também. Cumprimentando o Mario e os filhos dele enquanto os caras iam e vinham descarregando as paradas. O Mario cumprimentou ela numa boa, super educado, e os moleques fizeram o mesmo. A gente ficou ali conversando até que, uns minutos depois, a Betina perguntou pros guris se tavam com fome. O mais novo disse que sim, mas o Mario meio que deu uma bronca nele, falando pra não ser abusado. A Betina só riu, disse pra esperarem um pouquinho e saiu de casa de novo com umas empadas e tortinhas de presunto e queijo, recém-feitas, oferecendo pra todo mundo com um sorriso doce.
Meu novo vizinho e os filhos agradeceram pra caralho, se derretendo em elogios sobre como tavam uma delícia, o que sempre agradava a Betina.
Foi assim que começou essa parada toda e eu não tava vendo. Não conseguia ver, ainda. Tava tudo por baixo da superfície. Dessa superfície de aparências que a gente tinha, incluindo eu também. Se alguém pudesse ter visto tipo uma foto de todo mundo ali, conversando na rua e comendo empadas naquele primeiro dia, acho que ninguém, nem nos voos mais imaginativos e doidos, teria conseguido antecipar ou prever como tudo ia se desenrolar.
A reviravolta que ia dar nas nossas vidas ainda tava no futuro.
2 comentários - Corazón de Oro - Parte 1