Passaram-se dois meses depois daquilo, em que praticamente não tive contato com ela. Só umas duas vezes a gente se falou. Numa delas, o otário fui eu. Numa daquelas noites de angústia e agonia, sozinho em casa, chorando, mandei mensagem pra ela bem tarde, umas três da manhã, sem conseguir mais segurar dentro de mim tudo que sentia, tudo que queria dizer pra ela. Implorando pra vê-la de novo, pra voltarmos, que eu amava ela, que queria mudar e ser o homem que ela desejava.
Ela nem respondeu.
Duas semanas depois disso, ela me escreveu. Meu coração até deu um pulo, mas era só pra tirar uma dúvida com o computador dela. Uma merda. Eu pensei que a pergunta tinha sido tão idiota, tão fácil de pesquisar no Google em trinta segundos e resolver, que ela tinha me perguntado de propósito. Como se tivesse me jogando uma linha, uma boia. Um jeito que ela inventou pra restabelecer, bem devagar, o contato. Então aproveitei e comecei a falar com ela, a dizer o que sentia e o que queria.
Ela ficou puta na hora, imediatamente, me enchendo de xingamentos. Calma e explosão, assim era ela. Quando depois da longa, longa sequência de insultos, incluindo um áudio de vários segundos que ela me mandou, onde gritava "filho da puuuuuta!" uma atrás da outra, mas berrando mesmo, mal, gritando e se esgoelando de tanto esforço, ela me bloqueou.
E aí pensei que finalmente, de uma vez por todas, tinha chegado o verdadeiro fim de tudo. Jurei e rejurei enterrar ela. Enterrar a lembrança dela. Que Ayelén não ia mais existir pra mim, de uma vez por todas. O que eu já devia ter feito há tanto tempo.
E consegui. Depois disso, nunca mais escrevi pra ela, aguentando minhas noites solitárias e de angústia, que com o tempo, felizmente, foram ficando menos frequentes. Eu sentia que já tinha batido no fundo do poço e que agora estava no lento processo de me levantar de novo. Uma hora ia dar certo e eu ia ficar bem de novo, eu sabia. Era questão de tempo, mas já tinha esquecido ela completamente. Ela e tudo que se referia a ela.
Mas Ayelén tinha outros planos.
Umas três meses depois já era verão. Em pouco mais de um mês, meu contrato de aluguel vencia. Minha intenção era renovar, claro. Gostava de morar ali e já estava instalado há anos. Não queria ir pra outro lugar e ter que lidar com a mudança, algo que detesto fazer. O problema é que os donos, com a inflação que tinha, iam aumentar o novo contrato pra uma barbaridade. Não era impagável, claro, mas chegava perto. Como opção e como ainda tinha um tempinho, comecei a procurar outros apartamentos mais ou menos pela região. Pra ter em mente caso decidisse não renovar ali. Mas todos também estavam pedindo uma barbaridade. Entre os gastos, meses de depósito, garantias e tudo mais, ficava igual ou mais caro do que onde eu estava. Então decidi direto renovar onde estava, apertar o cinto um pouco todo mês e seguir assim.
Sentei uma noite pra planejar os novos gastos, considerando o novo aluguel, o aumento do condomínio e tudo. Ia ficar bem apertado. Dava pra fazer, mas sobrava justo todo mês. Pensando de onde podia tirar mais grana pra ir levando a coisa, acendeu a lâmpada. Ainda tinha aquela conta separada que tínhamos com a Ayelén. Tinha esquecido dessa conta. Não tinha uma quantidade enorme de grana lá, de jeito nenhum, e os dois tínhamos colocado dinheiro de cada um ali. Não queria falar com ela, mas no fim podia fazer um último esforço de revivê-la na minha cabeça, falar com ela, dizer que ia sacar minha parte e pronto. Podia usar aquela grana.
Quando entrei no meu computador pra ver o estado da conta, minha pressão caiu. Dizia que tinha dois reais. Literalmente, só dois reais. $2. Me desesperei. A filha da puta da Ayelén tinha esvaziado a conta, com certeza. Mas quando fui ver os movimentos da conta, pra ver quando tinha acontecido, notei que não tinha sido há muito tempo. Nove dias, só. E não tinha sido transferido pra uma conta dela. Foi pra um número de CBU que eu não conhecia.
Quando procurei, apareceu o nome do Iván.
No total, tinham sumido uns quatrocentos mil pesos, do meu dinheiro. A filha da puta tinha sugado os oitocentos e cinquenta mil que eu lembrava que tinha, menos os dois conto que deixou lá.
SIM, JÁ SEI DISSO TAMBÉM. Que fui um otário, que nunca tirei a grana de lá, que nunca fechei aquela conta. Que meu esquecimento total da Ayelén também incluiu isso, ou talvez inconscientemente achei que ela nunca teria coragem de fazer uma parada dessas. Mas ela fez.
Fiquei puto pra caralho, peguei o celular e mandei mensagem pra ela. Pra ver se ainda me tinha bloqueado. Por sorte, não. Em algum momento desses meses sem contato, ela tinha me desbloqueado, mas nunca me escreveu. As mensagens estavam chegando pra ela.


Eu tinha levantado pra acender um cigarro, de tão nervoso que essa conversa tava me deixando. Quando peguei o celular de novo, já sabia o que vinha. Não precisava nem olhar. Quis me apressar pra bloquear ela, mas não consegui. Não deu tempo. Antes que eu pudesse fazer isso, vi que tinha chegado um vídeo. Se ela mandou mais depois disso, não sei.
Mas o vídeo ficou lá no chat. Não tava com intenção de ver. Apagar o chat inteiro... isso eu não queria fazer, se fosse denunciar ela, precisava daquela prova. Ainda não tinha dado play no vídeo. E fiquei na dúvida se fazia isso. Pensei muito. Decidi que não. Que não precisava ver. Que ia ser uma merda que ia me fazer sentir mal. Me fazer sentir pior. Apaguei a tela do celular e comecei a pesquisar e me informar como fazer a denúncia disso e o que se fazia nesses casos. Tinha conseguido. Tinha me controlado. Agora a Ayelén não ia mais esfregar na minha cara as coisas que ela fazia. Eu era mais forte. Tava orgulhoso de mim.
E fiquei realmente orgulhoso de mim até aquela noite, às três e meia da manhã, quando não aguentei mais e dei play no vídeo.
Depois daquele dia, dessa vez pra valer, nunca mais falei com ela. Conversei com um amigo advogado um tempo depois, que me desanimou. Ele disse que sim, que se eu quisesse podia fazer a denúncia. Provas tinha. Mas que eu ia gastar muito mais com honorários de advogado e tudo ia demorar tanto tempo que não valia a pena tanto esforço por aquela grana.
Nunca mais vi a Ayelén. Nunca mais nos falamos ou trocamos mensagem. Ficou umas roupas minhas na casa dela, camisetas e tal, que sinceramente tô pouco me lixando pra recuperar. O que ficou mesmo foi uma experiência inesquecível de ruim. Aprendi, sim, mas aprendi na marra. Tomara que isso sirva de testemunho do quão merda essas coisas podem acabar sendo.
Ela nem respondeu.
Duas semanas depois disso, ela me escreveu. Meu coração até deu um pulo, mas era só pra tirar uma dúvida com o computador dela. Uma merda. Eu pensei que a pergunta tinha sido tão idiota, tão fácil de pesquisar no Google em trinta segundos e resolver, que ela tinha me perguntado de propósito. Como se tivesse me jogando uma linha, uma boia. Um jeito que ela inventou pra restabelecer, bem devagar, o contato. Então aproveitei e comecei a falar com ela, a dizer o que sentia e o que queria.
Ela ficou puta na hora, imediatamente, me enchendo de xingamentos. Calma e explosão, assim era ela. Quando depois da longa, longa sequência de insultos, incluindo um áudio de vários segundos que ela me mandou, onde gritava "filho da puuuuuta!" uma atrás da outra, mas berrando mesmo, mal, gritando e se esgoelando de tanto esforço, ela me bloqueou.
E aí pensei que finalmente, de uma vez por todas, tinha chegado o verdadeiro fim de tudo. Jurei e rejurei enterrar ela. Enterrar a lembrança dela. Que Ayelén não ia mais existir pra mim, de uma vez por todas. O que eu já devia ter feito há tanto tempo.
E consegui. Depois disso, nunca mais escrevi pra ela, aguentando minhas noites solitárias e de angústia, que com o tempo, felizmente, foram ficando menos frequentes. Eu sentia que já tinha batido no fundo do poço e que agora estava no lento processo de me levantar de novo. Uma hora ia dar certo e eu ia ficar bem de novo, eu sabia. Era questão de tempo, mas já tinha esquecido ela completamente. Ela e tudo que se referia a ela.
Mas Ayelén tinha outros planos.
Umas três meses depois já era verão. Em pouco mais de um mês, meu contrato de aluguel vencia. Minha intenção era renovar, claro. Gostava de morar ali e já estava instalado há anos. Não queria ir pra outro lugar e ter que lidar com a mudança, algo que detesto fazer. O problema é que os donos, com a inflação que tinha, iam aumentar o novo contrato pra uma barbaridade. Não era impagável, claro, mas chegava perto. Como opção e como ainda tinha um tempinho, comecei a procurar outros apartamentos mais ou menos pela região. Pra ter em mente caso decidisse não renovar ali. Mas todos também estavam pedindo uma barbaridade. Entre os gastos, meses de depósito, garantias e tudo mais, ficava igual ou mais caro do que onde eu estava. Então decidi direto renovar onde estava, apertar o cinto um pouco todo mês e seguir assim.
Sentei uma noite pra planejar os novos gastos, considerando o novo aluguel, o aumento do condomínio e tudo. Ia ficar bem apertado. Dava pra fazer, mas sobrava justo todo mês. Pensando de onde podia tirar mais grana pra ir levando a coisa, acendeu a lâmpada. Ainda tinha aquela conta separada que tínhamos com a Ayelén. Tinha esquecido dessa conta. Não tinha uma quantidade enorme de grana lá, de jeito nenhum, e os dois tínhamos colocado dinheiro de cada um ali. Não queria falar com ela, mas no fim podia fazer um último esforço de revivê-la na minha cabeça, falar com ela, dizer que ia sacar minha parte e pronto. Podia usar aquela grana.
Quando entrei no meu computador pra ver o estado da conta, minha pressão caiu. Dizia que tinha dois reais. Literalmente, só dois reais. $2. Me desesperei. A filha da puta da Ayelén tinha esvaziado a conta, com certeza. Mas quando fui ver os movimentos da conta, pra ver quando tinha acontecido, notei que não tinha sido há muito tempo. Nove dias, só. E não tinha sido transferido pra uma conta dela. Foi pra um número de CBU que eu não conhecia.
Quando procurei, apareceu o nome do Iván.
No total, tinham sumido uns quatrocentos mil pesos, do meu dinheiro. A filha da puta tinha sugado os oitocentos e cinquenta mil que eu lembrava que tinha, menos os dois conto que deixou lá.
SIM, JÁ SEI DISSO TAMBÉM. Que fui um otário, que nunca tirei a grana de lá, que nunca fechei aquela conta. Que meu esquecimento total da Ayelén também incluiu isso, ou talvez inconscientemente achei que ela nunca teria coragem de fazer uma parada dessas. Mas ela fez.
Fiquei puto pra caralho, peguei o celular e mandei mensagem pra ela. Pra ver se ainda me tinha bloqueado. Por sorte, não. Em algum momento desses meses sem contato, ela tinha me desbloqueado, mas nunca me escreveu. As mensagens estavam chegando pra ela.



Eu tinha levantado pra acender um cigarro, de tão nervoso que essa conversa tava me deixando. Quando peguei o celular de novo, já sabia o que vinha. Não precisava nem olhar. Quis me apressar pra bloquear ela, mas não consegui. Não deu tempo. Antes que eu pudesse fazer isso, vi que tinha chegado um vídeo. Se ela mandou mais depois disso, não sei. Mas o vídeo ficou lá no chat. Não tava com intenção de ver. Apagar o chat inteiro... isso eu não queria fazer, se fosse denunciar ela, precisava daquela prova. Ainda não tinha dado play no vídeo. E fiquei na dúvida se fazia isso. Pensei muito. Decidi que não. Que não precisava ver. Que ia ser uma merda que ia me fazer sentir mal. Me fazer sentir pior. Apaguei a tela do celular e comecei a pesquisar e me informar como fazer a denúncia disso e o que se fazia nesses casos. Tinha conseguido. Tinha me controlado. Agora a Ayelén não ia mais esfregar na minha cara as coisas que ela fazia. Eu era mais forte. Tava orgulhoso de mim.
E fiquei realmente orgulhoso de mim até aquela noite, às três e meia da manhã, quando não aguentei mais e dei play no vídeo.
Depois daquele dia, dessa vez pra valer, nunca mais falei com ela. Conversei com um amigo advogado um tempo depois, que me desanimou. Ele disse que sim, que se eu quisesse podia fazer a denúncia. Provas tinha. Mas que eu ia gastar muito mais com honorários de advogado e tudo ia demorar tanto tempo que não valia a pena tanto esforço por aquela grana.Nunca mais vi a Ayelén. Nunca mais nos falamos ou trocamos mensagem. Ficou umas roupas minhas na casa dela, camisetas e tal, que sinceramente tô pouco me lixando pra recuperar. O que ficou mesmo foi uma experiência inesquecível de ruim. Aprendi, sim, mas aprendi na marra. Tomara que isso sirva de testemunho do quão merda essas coisas podem acabar sendo.
1 comentários - A pior separação da minha vida - Parte 4 (fim)