No final, a espera até a Noelia ir pro Brasil com a mãe não acabou sendo tão longa nem tão agonizante. Como ela, nessas semanas que sobravam, tava tão ocupada e preocupada com as provas finais e com a viagem que tava por vir, se dedicou a isso e não tava dando muita bola pra outras coisas. Inclusive, eu notei, pro Enrique. Em nenhum momento ela escapou de casa um tempinho com alguma desculpinha besta que inventaria pra ir ver ele, e ao mesmo tempo eu revisava as câmeras toda noite nos dias em que eu não tava em casa e nunca mais vi ele lá. Também não vi ela sair do apartamento. Se ficavam se falando pelo WhatsApp e mandando fotos, bom, isso eu não tinha como saber sem mexer no celular dela. Coisa que eu não queria mais fazer.
Tinha uma sensação no ar, ou pelo menos na minha cabeça, de que o Enrique tinha comido ela naquele sofá uma vez e foi isso. Os dois talvez tinham matado a puta vontade que com certeza tavam sentindo um pelo outro e a intensidade de tudo diminuiu. Dos desejos e dos contatos. Ou talvez, por algum motivo, minha filha não curtiu tanto o sexo com o porteiro e botou um ponto final na aventura. Não me parecia, pela forma gostosa que eu ouvia ela gozar no vídeo que eu ainda guardava e via direto. Mas tudo era possível.
Ou talvez, simplesmente, era que ela tava muito ocupada e já com a cabeça na viagem. Podia ser qualquer coisa e eu não tinha como saber sem falar com um dos dois ou mexer no celular. Nenhuma dessas coisas eu ia fazer, pelo menos não agora.
A Noelia terminou o ano escolar, se formando sem problemas, o que eu já sabia que ia rolar, mas sempre era motivo de felicidade e orgulho pra mim. E poucos dias depois disso, eu tava levando ela e as malas dela pro aeroporto pra ela voar pro Brasil e passar o tempo merecido com a mãe dela. E o que pra mim era quase tão importante, longe do Enrique. Talvez, eu tinha a vaga esperança, Ela voltava em alguns meses, já superada dessa história toda, e não ia dar mais bola pro gordo. Ficava como a aventurinha particular dela e ponto. Bola pra frente. Esse era meu desejo.
Dei um abraço forte e um beijo nela, falando pra me escrever ou me ligar e que não hesitasse em me avisar se ela ou a mãe dela precisassem de algo. A gente se despediu feliz e, feito um romântico convicto, fiquei lá no terminal do aeroporto, sem necessidade, até ver o avião decolar.
Quando voltei pra casa, sentei tranquilo no sofá (não naquele onde tinham comido minha filha, mas em outro), servi um uísque e relaxei. A casa estava toda pra mim, calma e silenciosa. Tudo limpo, tudo arrumado. Sem a Noelia ali, ia ter mais tempo livre pra pensar como encarar as coisas. Além disso, já era verão e no meu trabalho era naturalmente a época do ano em que a atividade começava a diminuir por uns meses até o ano seguinte. Já tinham me avisado que eu podia começar a trabalhar remoto quatro dias em vez de três, já que não tinha muita necessidade de eu ir até a empresa.
Eu tinha tempo e um plano.
O próximo passo era, naturalmente, falar com o Enrique sobre tudo isso. Mas não me sentia pronto pra isso. Não por nada em particular, mas porque eu não tinha as ideias claras além de "para de comer minha filha". Claro que isso já bastava, mas eu precisava de mais. Saber mais sobre tudo o que tinha acontecido e como a gente tinha chegado nesse ponto. E também saber como encarar o Enrique. Aí eu tava meio perdido. Não sabia se ia ser agressivo, defensivo, ouvir ele... não fazia ideia. Era muito fácil, imagino, pular feito uma pipoca, mas primeiro que eu não era assim e segundo... não conseguia tirar da cabeça a ideia de que, essencialmente e apesar de tudo que rolou, além da Noelia, além de tudo, o Enrique era um cara legal que nunca me deu problema nenhum. Muito pelo contrário. Até esse episódio, claro.
No dia seguinte, liguei pra minha psicóloga pra ver se conseguia uns horários rápido e comecei a ter sessões de Novo com ela, duas vezes por semana. Eu tinha tempo pra isso. Não esperava muita coisa, no máximo um guia de como lidar com as paradas, mas essas sessões acabaram sendo… reveladoras.
Contei tudo o que tinha rolado, sem poupar detalhe. Ela sempre me ajudou e eu confiava plenamente nela e na discrição dela. Quando terminei de contar tudo até o dia de hoje, ela ficou calada pensando um pouco. Depois falou baixinho, mas com um tom direto. Eu sentia que ela tinha o dom de cortar toda a merda, de algum jeito, e sempre ir direto ao ponto. Feito uma faca cortando manteiga.
“Você ainda não me disse por que quer falar com esse cara, Gabriel…”, ela disse pensativa, “Você sabe que a grande maioria dos pais, diante de fatos assim, bem… iriam brigar… partir pra porrada ou denunciar na hora.”
“Não consigo fazer isso, Andrea”, falei.
“Por quê?”
“Sei lá, porque não sou assim. Se posso evitar confronto, vou evitar.”
“Sim, claro, isso é bom. Mas às vezes tem coisas que precisam ser confrontadas. Que são inevitáveis e quanto mais você tenta dar volta pra evitar, nunca trombar com elas… É pior e te sufoca mais”, ela rebateu, “Tipo esse assunto, por exemplo. Não é coisa pra ficar enrolando, é bem grave.”
“Sim, eu sei, mas não tô enrolando. Quero confrontar e resolver. Só ainda não achei o melhor jeito de fazer, sei lá…”
Ela deu um gole no chá, pensou um instante e se inclinou na cadeira pra me olhar, chegando um pouco mais perto de mim, “Gabriel, vou te perguntar uma coisa e me responde com honestidade…”
“Sim, claro…”
“Com a confiança que a gente tem, né?”, ela sorriu de leve.
“Fala aí…”
Ela disse medindo cada palavra, feito bisturis que me cortavam com um sorriso, “Você realmente se incomoda com o que esse cara fez? Ou se incomoda por não ter sido você quem fez?”, terminou e me encarou com aqueles olhos verdes penetrantes. Fixo. Sabia exatamente o que me perguntar. Eu suspirei e demorei mais um momento pra responder: “... as duas coisas, Andrea.”, falei a verdade.
“Entendo,” ela disse, balançando a cabeça devagar, “Você ainda tem os mesmos desejos de sempre?”
“Sim. Bom… não”, respondi, “Eu tinha tudo sob controle até que tudo isso começou a acontecer.”
“Por que você não veio me ver antes?”
Eu ia dar uma desculpa idiota, mas no fim me segurei e falei o que era verdade: “Porque não. Não sei. A real é que nem pensei em vir te ver… eh… sem ofensa, hein?”
Ela sorriu, “Não, sim, tudo bem. Entendo.”
“Acho que me senti sobrecarregado. Por isso. Por tudo”, falei.
“Sim, claro. Sobrecarregaria qualquer um. Ainda mais alguém que tem seus desejos”, ela disse, “Olha, o importante é que, como sempre te falo, você não agiu. Não realizou eles.”
“Sim, claro…”
“Não, você não me entendeu, Gaby”, ela disse, “Quando tudo isso que você descobriu veio à tona, sua psique poderia muito bem ter interpretado de um jeito bem ruim, te dando sinal verde pra atualizar e colocar esses desejos em prática.”
“Não tô entendendo…”, falei olhando pra ela.
“Claro. Perfeitamente, quando você percebeu tudo isso da Noelia… quero dizer, quando viu as fotos que viu, aqueles chats que você me falou… o vídeo… quando descobriu tudo isso, seu inconsciente poderia facilmente ter dito, eh… se me perdoa a expressão…”
Eu ri um pouco do formalismo da Andrea, “Sim, óbvio…”
Ela limpou a garganta suavemente e continuou, “Poderia ter dito, bom, minha filha é uma puta. Percebo que ela é uma puta. Eu achava que era virgem e não é. Manda fotos quentes pra um porteiro trinta anos mais velho que ela. Tem encontros escondidos com esse cara… transaram… eh, velho, para um pouco. Então do que a gente tá se cuidando? Seu inconsciente poderia ter te dito isso”, terminou.
Eu fiquei mastigando as palavras dela na cabeça, “Hmm. Ok.”
“Digo, ‘do que a gente tá se cuidando’, Gaby, no sentido de que… bom, eu, pôxa… me atormento sozinho e reprimo meus desejos pra que o objeto do meu desejo não me revele outra coisa” natureza de repente e sair por aí fazendo o que eu sinto que é minha obrigação. Entendeu?”
“Sim… sim…”, eu disse, pensando.
“Aí eu percebo que passei todo esse tempo cuidando de uma pessoa que não existe. Que existia na minha cabeça, mas na realidade não”, disse Andrea, “E ainda me mostra que ela gosta de tudo que eu quero fazer com ela, porque não tem problema em fazer com outros… é aí que eu quero chegar, Gaby. Talvez seu inconsciente processasse isso assim e te desse sinal verde pra fazer algo com a Noelia.”
“Claro…”, franzi a testa ao ouvir tudo aquilo, entendendo.
“É bom que não foi assim e você não fez. Acho que você está canalizando essa energia resolutiva mais pelo lado de querer resolver o problema da Noelia do que pelo lado mais destrutivo de, bem… sinal verde. Entendeu?”, ela perguntou e tomou outro gole do chá.
“Sim, claro. Entendo. Talvez você tenha razão”, eu disse, ainda pensando e remexendo coisas lá dentro, usando as palavras dela como um ancinho no jardim da minha cabeça.
“Eu te diria, se eu estivesse no seu lugar, tipo… sim, vamos resolver o problema. E vamos falar com esse homem, claro. Se o objetivo é que ele não faça mais coisas com a Noelia… ou que a Noelia não faça mais coisas com ele, não ficou claro pra mim…”, ela disse e eu a interrompi,
“… pra mim também não…”
“Bom. Vamos resolver isso. Mas, como um aviso, Gaby, a pergunta de um milhão é: o que acontece se você eventualmente falar com o cara, ou fizer tudo o que tem que fazer, e a solução que você encontrar não for a que te serve. Aí o que a gente faz?”
“Como assim?”, perguntei.
“Tipo… você pode falar com esse homem e não sabe onde a conversa vai dar”, ela disse, “Pode terminar com ele se arrependendo, sei lá, pedindo desculpas e jurando que não vai fazer mais. Que corta todo o contato…”
“Essa é uma opção, sim”, comentei.
“Ou imagina se ele se impõe. Imagina se ele diz não, eu gosto da Noelia e ela gosta de mim e a gente vai continuar porque os dois gostam…”
“Acho que ele não vai me dizer isso”, Sentei de novo.
"Por quê? Pode acontecer...", ele me disse.
"Porque o Enrique é um cara legal. Não diria isso. Acho que ele se arrependeria se a gente conversasse. Bom, quando a gente conversar.", eu falei.
"O que quero dizer, Gaby, é que talvez você chegue num ponto, nessa sua pressa de resolver isso, que pode se encontrar num lugar que não esperava, sem soluções visíveis ou imediatas", ele disse, me olhando firme. "Você tem que estar aberto à possibilidade de que talvez não consiga resolver isso agora, ou perceber que simplesmente não existem soluções válidas possíveis... Você não sabe como as situações podem evoluir."
"Sempre existem soluções possíveis, Andy...", eu ri baixinho.
"Bom, é legal que você tenha essa atitude.", ele sorriu pra mim. "Mas guarda isso na cabeça, tá?"
Eu concordei com a cabeça e a gente continuou a conversa. Falamos de tudo um pouco, mas focando em qual era a melhor forma de encarar a conversa com o Enrique pra que eu ficasse satisfeito. E, claro, pra que a polícia não precisasse intervir. Ou o IML.
Eu me dei um tempo de uns dias, quase uma semana, até que decidi encarar o Enrique. Não sabia se chamava ele pra vir em casa, onde eu tinha coisas pra me defender se chegasse a esse ponto, ou num lugar público pra ele não poder fazer nada. No fim, decidi chamar ele pra tomar um café no barzinho da esquina de casa. Esperei o dia chegar e desci pro hall de entrada na hora que eu sabia que ele terminava o trabalho e já ia pra casa. Não ia afastar ele da família nem nada, ele morava sozinho e era divorciado que nem eu.
No começo, ele se surpreendeu quando eu falei do café. Mas depois a cor sumiu do rosto dele, ele ficou pálido quando eu disse que era pra falar da Noelia. Vi ele mal, ali no hall. Estranhamente descomposto, como nunca tinha visto antes. Falei pra ele não se preocupar, que não tava ali pra brigar nem nada. Que só queria conversar com ele sobre várias coisas e que me ocorreu convidar ele pra um café pra fazer isso numa boa. Esperei ele terminar de arrumar e fechar o trabalho dele. ali mesmo no hall e fomos pro bar.
Conversamos sobre tudo. Tinha sido uma boa ideia ir pro bar. Assim que entramos e sentamos na mesa, um de frente pro outro, foi como se a gente tivesse relaxado um pouco os dois. Não muito, mas o suficiente. Falar e discutir no hall do prédio talvez fizesse a gente se sentir inimigos, sei lá. Mas estar sentados ali na mesa, pelo menos pra mim, me fazia sentir como dois caras grandes que tinham que resolver algo sério. Diferença sutil, mas que importava muito.
Entre um café e outro, falamos sobre tudo que tinha acontecido. Bom, não tudo. Estrategicamente, guardei pra mim o lance da câmera que tinha colocado em casa. Mas o resto eu contei quase tudo. Falei o que sabia que tinha rolado e o que tinha descoberto, abrindo o jogo que tinha fuçado o celular da menina e pedindo pra ele, por favor, não contar nada pra ela. Queria que a Noelia continuasse confiando em mim.
O Enrique ficou muito mal no começo. Me pediu desculpas de mil jeitos. Disse que tudo tinha escapado do controle, que no começo fez por pura safadeza. Que era um idiota e que deveria ter sabido que aquilo não se fazia. Mas foi honesto comigo ao mesmo tempo, o que eu valorizei. Disse que a Noelia era tão gostosa, tão envolvente e simpática que ele se deixou levar como um adolescente. Claro que entendi. O que ele não queria, segundo ele, era que eu envolvesse a polícia ou fizesse um boletim de ocorrência por isso. Disse que sabia muito bem que eu poderia fazer isso, e que talvez no lugar dele, se fosse o pai, talvez tivesse feito. Mas me implorou pra não fazer.
Eu disse que se estávamos ali era porque eu queria conversar, só isso. Se quisesse levar adiante e envolver a polícia, nem teria chamado ele pra se encontrar nem nada. Falei que sempre gostei muito dele, e ele disse o mesmo de mim. Por isso eu queria saber direitinho o que tinha rolado, da boca dele. Que eu precisava saber como pai. Claro que ele entendeu e me contou tudo.
Realmente, o que ele me Ele contou que batia exatamente com tudo que eu já sabia, por ter visto todos aqueles chats. Batia nos mínimos detalhes e em nenhum momento me pareceu que Enrique estava mentindo ou escondendo alguma coisa. Senti ele honesto como sempre. Não estava me enrolando com nenhuma conversa fiada. Me disse que claro, a Noelia sempre o excitava, mas do mesmo jeito que qualquer outra mina do prédio ou de por ali. Porque ele era assim, tarado, principalmente com as novinhas. E que não teria feito nada, que tudo teria ficado por isso mesmo, se não fosse porque a Noelia começou a procurar ele um pouco mais e dar mais abertura. Daí ele se encorajou, uma coisa foi levando à outra e, pois é… aqui estávamos. Foi algo que ele não soube parar. Que a tesão tinha dominado ele.
Eu entendi, porque como não vou entender o que acontece com alguém quando a tesão toma conta? Claro que não falei isso, mas disse que entendia. Ele me pediu mil desculpas de novo, falando que não valia a pena estragar nosso bom relacionamento por causa disso e que ia cortar todo contato com a Noelia imediatamente.
Quando ele disse isso, não sei por que, algo fez um clique na minha cabeça. Mas um clique feio. Difícil de descrever. Uma sensação estranha, bem no fundo da mente. Perguntei na lata se ele tinha chegado a transar com a Noelia. Ele me olhou tristemente, como quem confessava um crime, e disse que sim. Mas só uma vez. Na minha casa, uma vez que ele foi. Nenhuma outra vez.
Eu assenti, valorizando a honestidade dele. Eu já sabia, mas o fato de ele não ter negado me fez sentir bem. Ele estava me falando a verdade em tudo, então continuei perguntando para preencher todas as lacunas que eu tinha em branco, sobre coisas que ainda não sabia. Sem dizer que eu já sabia que ele tinha comido ela, comentei que ele não se preocupasse, que eu já tinha me conformado que em algum momento eles tinham feito e que, bom, já era. Perguntei se ele tinha usado camisinha e ele respondeu que sim. Isso me deixou bem tranquilo e clareou minha mente. aquela grande dúvida do vídeo da câmera. De novo, não senti que ele tava mentindo pra mim.
Pedi pra ele me contar o que mais tinham feito, assim no geral, caso tivesse algo que eu não sabia. Ele me contou tudo. Já bem mais tranquilos os dois, sentimos que dava pra entrar nos detalhes sem ninguém se assustar. Mas basicamente ele repetiu tudo o que eu já sabia ou desconfiava. Que trocavam fotos quentes direto. Que várias vezes a Noelia tinha descido pro quartinho de depósito que tinha no subsolo e lá se beijavam um tempinho, se apalpavam um pouco e ela chupava a pica dele. Mas que ele nunca tinha comido ela lá. Só comeu ela naquela vez na minha casa, ele repetiu, porque já não aguentava mais de tesão que tava pela menina e queria fazer de uma vez. Que conversavam direto, tanto quando se encontravam no hall de entrada quanto pelo WhatsApp, mas de tudo e de nada. Nada importante. Falavam o quanto tinham curtido o que rolaram entre os dois e mandavam uma fotinha. Só isso. Ele me falou pra ficar tranquilo, que nunca conversaram sobre começar um relacionamento, namorar, fugir nem nada disso. Salvando as diferenças de idade, a dinâmica era exatamente a de um cara e uma gostosa que se juntavam pra se dar prazer e só.
Perguntei como era o esquema, se ele chamava ela ou ela chamava ele e ele disse o que eu já suspeitava — que era meio a meio. E se tivesse que chutar, geralmente era ela que dizia que queria ver ele pra fazer coisas. E que também não rolava tão seguido, às vezes se encontravam pra transar uma vez por semana. Ou duas, no máximo.
Perguntei se ainda conversavam agora que ela tinha ido pro Brasil e ele disse que sim, mas que era só besteira do que ela tava fazendo lá, como tava passando e que ela mandou um par de fotos quentes de lá. Só isso. Aí eu falei pra ele me desculpar pelo que tinha que fazer, mas pedi pra ele me mostrar o chat com a Noelia no celular dele. Não que eu não acreditasse nele, mas que... Precisava verificar pra ficar tranquilo. Ele topou na boa e, depois de desbloquear o celular, me passou pra eu dar uma olhada.
Quando vi as fotos que a Noelia mandou pra ele, senti outro estalo na cabeça.
Revisei o chat bem por cima. Não tinha nada ali que eu já não tivesse visto no começo de tudo. E o que vinha depois do chat era mais do mesmo, exatamente como o Enrique tinha me falado. Mas sem querer, me prendi vendo as fotos que ela mandou pra ele do Brasil. Nem sei onde era, nem me importava. Ver minha filha assim, principalmente a foto dos dedinhos dela esfregando o clitóris daquela pussy divina pro Enrique, me quebrou. Me pegou. Nunca tinha visto ela assim. Assim mulher. Assim gostosa, assim tesuda.
O Enrique me perguntou se eu tava bem ao me ver tão vidrado e eu não respondi. Tava olhando a pussy da minha filha naquela foto e a única coisa que passava na minha cabeça era que minha língua tinha que estar ali. Que meu pau tinha que estar ali. Quebrou um vidro dentro da minha cabeça. Aquele vidro que minha psicóloga disse que tava lá dentro, enfiado em algum lugar.
Senti alguém tocar meu braço e olhei pro Enrique. Ele tinha esticado a mãozona dele devagar e tocado meu antebraço pra me acordar. Tava visivelmente preocupado, me olhando. Me perguntou de novo se eu tava bem. Falei que sim, mas não saiu voz. Saiu um fiozinho. Ele pensou que eu ia desabar no choro e ficou mais preocupado, fazendo menção de levantar pra sentar do meu lado, mas consegui segurar ele. Não tava prestes a chorar. Tava dominado pelo tesão, com a mente girando a mil e uma tensão no meu pau debaixo da mesa que tava machucando contra o tecido duro da minha calça jeans.
Pedi outro café, como consegui, e um copo d'água. Deslizei o celular dele de volta pro Enrique e nós dois ficamos em silêncio. Não era um silêncio desconfortável. Eu tava com o olhar perdido na mesa ou na rua lá fora e ele me olhava, preocupado.
Não me perguntem por que fiz isso. Sério, não faço ideia, mas foi o que saiu natural. Me senti bem fazendo isso. Libertador. Quase glorioso.
Olhei nos olhos do Enrique e perguntei se podia confiar nele. E ele me disse que sim, claro.
O número do pessoas no mundo que sabiam da minha atração e do meu tesão pela minha filha, naquela mesa de café, passou de um para dois. Contei tudo pro Enrique. Desde o começo, sem poupar detalhes. Inclusive, por ser o Enrique um homem como eu, detalhes que nem pra minha psicóloga eu jamais tive coragem de contar. Sobre o que eu tinha na minha cabeça em relação à Noélia. Me abri com o Enrique, como as comportas de uma represa. Pensei que ia afogá-lo, que ele ia sair correndo desesperado e chamar a polícia ele mesmo. Pra que finalmente levassem embora o pervertido de merda que eu era.
Mas não. Ele ficou ali ouvindo tudo o que eu contava, tudo o que eu dizia e tudo o que eu implorava pra ele não contar pra ninguém, muito menos pra Noélia. Ele entendeu. Entendeu tudo perfeitamente. E me deu a empatia dele, batendo de leve no meu braço durante as partes mais pesadas do que eu contava. Me disse que não julgava as pessoas, que eu ficasse tranquilo. Que valorizava minha confiança nele e que nunca contaria nada disso pra ninguém. E assim a hora do café foi se transformando em horas.
Nós dois nos abrimos. Nos entendemos. E, pra completar, acabamos nos valorizando ainda mais. Eu, finalmente, sabia todos os detalhes do que minha filha fez com ele. E ele, sem querer nem esperar, ficou sabendo de todos os detalhes do pervertido que eu carregava dentro de mim. O cara que comeu minha filha tomando uns cafés com o cara que sempre quis comê-la. Era tão surreal que até doía. Trágico-cômico. Já no final da conversa, tinha ficado tão tarde que os garçons olhavam pra gente com vontade de nos expulsar. Mas a gente continuou mais um pouco. Porque só ali nós dois nos entendemos e começamos a nos divertir. Porque todas as barreiras tinham caído, as do que ele tinha feito e as do que eu queria fazer.
Num momento, ele me olhou e perguntou na cara. Não tinha mais nada entre nós, nenhum receio, nenhum refúgio de vergonha. Éramos já dois caras que se conheciam há uma vida inteira sem realmente ser. Ele me olhou e me Perguntou se eu queria que ele continuasse comendo a Noelia.
E eu, sem hesitar, disse que sim. Sempre tem solução possível.
Tinha uma sensação no ar, ou pelo menos na minha cabeça, de que o Enrique tinha comido ela naquele sofá uma vez e foi isso. Os dois talvez tinham matado a puta vontade que com certeza tavam sentindo um pelo outro e a intensidade de tudo diminuiu. Dos desejos e dos contatos. Ou talvez, por algum motivo, minha filha não curtiu tanto o sexo com o porteiro e botou um ponto final na aventura. Não me parecia, pela forma gostosa que eu ouvia ela gozar no vídeo que eu ainda guardava e via direto. Mas tudo era possível.
Ou talvez, simplesmente, era que ela tava muito ocupada e já com a cabeça na viagem. Podia ser qualquer coisa e eu não tinha como saber sem falar com um dos dois ou mexer no celular. Nenhuma dessas coisas eu ia fazer, pelo menos não agora.
A Noelia terminou o ano escolar, se formando sem problemas, o que eu já sabia que ia rolar, mas sempre era motivo de felicidade e orgulho pra mim. E poucos dias depois disso, eu tava levando ela e as malas dela pro aeroporto pra ela voar pro Brasil e passar o tempo merecido com a mãe dela. E o que pra mim era quase tão importante, longe do Enrique. Talvez, eu tinha a vaga esperança, Ela voltava em alguns meses, já superada dessa história toda, e não ia dar mais bola pro gordo. Ficava como a aventurinha particular dela e ponto. Bola pra frente. Esse era meu desejo.
Dei um abraço forte e um beijo nela, falando pra me escrever ou me ligar e que não hesitasse em me avisar se ela ou a mãe dela precisassem de algo. A gente se despediu feliz e, feito um romântico convicto, fiquei lá no terminal do aeroporto, sem necessidade, até ver o avião decolar.
Quando voltei pra casa, sentei tranquilo no sofá (não naquele onde tinham comido minha filha, mas em outro), servi um uísque e relaxei. A casa estava toda pra mim, calma e silenciosa. Tudo limpo, tudo arrumado. Sem a Noelia ali, ia ter mais tempo livre pra pensar como encarar as coisas. Além disso, já era verão e no meu trabalho era naturalmente a época do ano em que a atividade começava a diminuir por uns meses até o ano seguinte. Já tinham me avisado que eu podia começar a trabalhar remoto quatro dias em vez de três, já que não tinha muita necessidade de eu ir até a empresa.
Eu tinha tempo e um plano.
O próximo passo era, naturalmente, falar com o Enrique sobre tudo isso. Mas não me sentia pronto pra isso. Não por nada em particular, mas porque eu não tinha as ideias claras além de "para de comer minha filha". Claro que isso já bastava, mas eu precisava de mais. Saber mais sobre tudo o que tinha acontecido e como a gente tinha chegado nesse ponto. E também saber como encarar o Enrique. Aí eu tava meio perdido. Não sabia se ia ser agressivo, defensivo, ouvir ele... não fazia ideia. Era muito fácil, imagino, pular feito uma pipoca, mas primeiro que eu não era assim e segundo... não conseguia tirar da cabeça a ideia de que, essencialmente e apesar de tudo que rolou, além da Noelia, além de tudo, o Enrique era um cara legal que nunca me deu problema nenhum. Muito pelo contrário. Até esse episódio, claro.
No dia seguinte, liguei pra minha psicóloga pra ver se conseguia uns horários rápido e comecei a ter sessões de Novo com ela, duas vezes por semana. Eu tinha tempo pra isso. Não esperava muita coisa, no máximo um guia de como lidar com as paradas, mas essas sessões acabaram sendo… reveladoras.
Contei tudo o que tinha rolado, sem poupar detalhe. Ela sempre me ajudou e eu confiava plenamente nela e na discrição dela. Quando terminei de contar tudo até o dia de hoje, ela ficou calada pensando um pouco. Depois falou baixinho, mas com um tom direto. Eu sentia que ela tinha o dom de cortar toda a merda, de algum jeito, e sempre ir direto ao ponto. Feito uma faca cortando manteiga.
“Você ainda não me disse por que quer falar com esse cara, Gabriel…”, ela disse pensativa, “Você sabe que a grande maioria dos pais, diante de fatos assim, bem… iriam brigar… partir pra porrada ou denunciar na hora.”
“Não consigo fazer isso, Andrea”, falei.
“Por quê?”
“Sei lá, porque não sou assim. Se posso evitar confronto, vou evitar.”
“Sim, claro, isso é bom. Mas às vezes tem coisas que precisam ser confrontadas. Que são inevitáveis e quanto mais você tenta dar volta pra evitar, nunca trombar com elas… É pior e te sufoca mais”, ela rebateu, “Tipo esse assunto, por exemplo. Não é coisa pra ficar enrolando, é bem grave.”
“Sim, eu sei, mas não tô enrolando. Quero confrontar e resolver. Só ainda não achei o melhor jeito de fazer, sei lá…”
Ela deu um gole no chá, pensou um instante e se inclinou na cadeira pra me olhar, chegando um pouco mais perto de mim, “Gabriel, vou te perguntar uma coisa e me responde com honestidade…”
“Sim, claro…”
“Com a confiança que a gente tem, né?”, ela sorriu de leve.
“Fala aí…”
Ela disse medindo cada palavra, feito bisturis que me cortavam com um sorriso, “Você realmente se incomoda com o que esse cara fez? Ou se incomoda por não ter sido você quem fez?”, terminou e me encarou com aqueles olhos verdes penetrantes. Fixo. Sabia exatamente o que me perguntar. Eu suspirei e demorei mais um momento pra responder: “... as duas coisas, Andrea.”, falei a verdade.
“Entendo,” ela disse, balançando a cabeça devagar, “Você ainda tem os mesmos desejos de sempre?”
“Sim. Bom… não”, respondi, “Eu tinha tudo sob controle até que tudo isso começou a acontecer.”
“Por que você não veio me ver antes?”
Eu ia dar uma desculpa idiota, mas no fim me segurei e falei o que era verdade: “Porque não. Não sei. A real é que nem pensei em vir te ver… eh… sem ofensa, hein?”
Ela sorriu, “Não, sim, tudo bem. Entendo.”
“Acho que me senti sobrecarregado. Por isso. Por tudo”, falei.
“Sim, claro. Sobrecarregaria qualquer um. Ainda mais alguém que tem seus desejos”, ela disse, “Olha, o importante é que, como sempre te falo, você não agiu. Não realizou eles.”
“Sim, claro…”
“Não, você não me entendeu, Gaby”, ela disse, “Quando tudo isso que você descobriu veio à tona, sua psique poderia muito bem ter interpretado de um jeito bem ruim, te dando sinal verde pra atualizar e colocar esses desejos em prática.”
“Não tô entendendo…”, falei olhando pra ela.
“Claro. Perfeitamente, quando você percebeu tudo isso da Noelia… quero dizer, quando viu as fotos que viu, aqueles chats que você me falou… o vídeo… quando descobriu tudo isso, seu inconsciente poderia facilmente ter dito, eh… se me perdoa a expressão…”
Eu ri um pouco do formalismo da Andrea, “Sim, óbvio…”
Ela limpou a garganta suavemente e continuou, “Poderia ter dito, bom, minha filha é uma puta. Percebo que ela é uma puta. Eu achava que era virgem e não é. Manda fotos quentes pra um porteiro trinta anos mais velho que ela. Tem encontros escondidos com esse cara… transaram… eh, velho, para um pouco. Então do que a gente tá se cuidando? Seu inconsciente poderia ter te dito isso”, terminou.
Eu fiquei mastigando as palavras dela na cabeça, “Hmm. Ok.”
“Digo, ‘do que a gente tá se cuidando’, Gaby, no sentido de que… bom, eu, pôxa… me atormento sozinho e reprimo meus desejos pra que o objeto do meu desejo não me revele outra coisa” natureza de repente e sair por aí fazendo o que eu sinto que é minha obrigação. Entendeu?”
“Sim… sim…”, eu disse, pensando.
“Aí eu percebo que passei todo esse tempo cuidando de uma pessoa que não existe. Que existia na minha cabeça, mas na realidade não”, disse Andrea, “E ainda me mostra que ela gosta de tudo que eu quero fazer com ela, porque não tem problema em fazer com outros… é aí que eu quero chegar, Gaby. Talvez seu inconsciente processasse isso assim e te desse sinal verde pra fazer algo com a Noelia.”
“Claro…”, franzi a testa ao ouvir tudo aquilo, entendendo.
“É bom que não foi assim e você não fez. Acho que você está canalizando essa energia resolutiva mais pelo lado de querer resolver o problema da Noelia do que pelo lado mais destrutivo de, bem… sinal verde. Entendeu?”, ela perguntou e tomou outro gole do chá.
“Sim, claro. Entendo. Talvez você tenha razão”, eu disse, ainda pensando e remexendo coisas lá dentro, usando as palavras dela como um ancinho no jardim da minha cabeça.
“Eu te diria, se eu estivesse no seu lugar, tipo… sim, vamos resolver o problema. E vamos falar com esse homem, claro. Se o objetivo é que ele não faça mais coisas com a Noelia… ou que a Noelia não faça mais coisas com ele, não ficou claro pra mim…”, ela disse e eu a interrompi,
“… pra mim também não…”
“Bom. Vamos resolver isso. Mas, como um aviso, Gaby, a pergunta de um milhão é: o que acontece se você eventualmente falar com o cara, ou fizer tudo o que tem que fazer, e a solução que você encontrar não for a que te serve. Aí o que a gente faz?”
“Como assim?”, perguntei.
“Tipo… você pode falar com esse homem e não sabe onde a conversa vai dar”, ela disse, “Pode terminar com ele se arrependendo, sei lá, pedindo desculpas e jurando que não vai fazer mais. Que corta todo o contato…”
“Essa é uma opção, sim”, comentei.
“Ou imagina se ele se impõe. Imagina se ele diz não, eu gosto da Noelia e ela gosta de mim e a gente vai continuar porque os dois gostam…”
“Acho que ele não vai me dizer isso”, Sentei de novo.
"Por quê? Pode acontecer...", ele me disse.
"Porque o Enrique é um cara legal. Não diria isso. Acho que ele se arrependeria se a gente conversasse. Bom, quando a gente conversar.", eu falei.
"O que quero dizer, Gaby, é que talvez você chegue num ponto, nessa sua pressa de resolver isso, que pode se encontrar num lugar que não esperava, sem soluções visíveis ou imediatas", ele disse, me olhando firme. "Você tem que estar aberto à possibilidade de que talvez não consiga resolver isso agora, ou perceber que simplesmente não existem soluções válidas possíveis... Você não sabe como as situações podem evoluir."
"Sempre existem soluções possíveis, Andy...", eu ri baixinho.
"Bom, é legal que você tenha essa atitude.", ele sorriu pra mim. "Mas guarda isso na cabeça, tá?"
Eu concordei com a cabeça e a gente continuou a conversa. Falamos de tudo um pouco, mas focando em qual era a melhor forma de encarar a conversa com o Enrique pra que eu ficasse satisfeito. E, claro, pra que a polícia não precisasse intervir. Ou o IML.
Eu me dei um tempo de uns dias, quase uma semana, até que decidi encarar o Enrique. Não sabia se chamava ele pra vir em casa, onde eu tinha coisas pra me defender se chegasse a esse ponto, ou num lugar público pra ele não poder fazer nada. No fim, decidi chamar ele pra tomar um café no barzinho da esquina de casa. Esperei o dia chegar e desci pro hall de entrada na hora que eu sabia que ele terminava o trabalho e já ia pra casa. Não ia afastar ele da família nem nada, ele morava sozinho e era divorciado que nem eu.
No começo, ele se surpreendeu quando eu falei do café. Mas depois a cor sumiu do rosto dele, ele ficou pálido quando eu disse que era pra falar da Noelia. Vi ele mal, ali no hall. Estranhamente descomposto, como nunca tinha visto antes. Falei pra ele não se preocupar, que não tava ali pra brigar nem nada. Que só queria conversar com ele sobre várias coisas e que me ocorreu convidar ele pra um café pra fazer isso numa boa. Esperei ele terminar de arrumar e fechar o trabalho dele. ali mesmo no hall e fomos pro bar.
Conversamos sobre tudo. Tinha sido uma boa ideia ir pro bar. Assim que entramos e sentamos na mesa, um de frente pro outro, foi como se a gente tivesse relaxado um pouco os dois. Não muito, mas o suficiente. Falar e discutir no hall do prédio talvez fizesse a gente se sentir inimigos, sei lá. Mas estar sentados ali na mesa, pelo menos pra mim, me fazia sentir como dois caras grandes que tinham que resolver algo sério. Diferença sutil, mas que importava muito.
Entre um café e outro, falamos sobre tudo que tinha acontecido. Bom, não tudo. Estrategicamente, guardei pra mim o lance da câmera que tinha colocado em casa. Mas o resto eu contei quase tudo. Falei o que sabia que tinha rolado e o que tinha descoberto, abrindo o jogo que tinha fuçado o celular da menina e pedindo pra ele, por favor, não contar nada pra ela. Queria que a Noelia continuasse confiando em mim.
O Enrique ficou muito mal no começo. Me pediu desculpas de mil jeitos. Disse que tudo tinha escapado do controle, que no começo fez por pura safadeza. Que era um idiota e que deveria ter sabido que aquilo não se fazia. Mas foi honesto comigo ao mesmo tempo, o que eu valorizei. Disse que a Noelia era tão gostosa, tão envolvente e simpática que ele se deixou levar como um adolescente. Claro que entendi. O que ele não queria, segundo ele, era que eu envolvesse a polícia ou fizesse um boletim de ocorrência por isso. Disse que sabia muito bem que eu poderia fazer isso, e que talvez no lugar dele, se fosse o pai, talvez tivesse feito. Mas me implorou pra não fazer.
Eu disse que se estávamos ali era porque eu queria conversar, só isso. Se quisesse levar adiante e envolver a polícia, nem teria chamado ele pra se encontrar nem nada. Falei que sempre gostei muito dele, e ele disse o mesmo de mim. Por isso eu queria saber direitinho o que tinha rolado, da boca dele. Que eu precisava saber como pai. Claro que ele entendeu e me contou tudo.
Realmente, o que ele me Ele contou que batia exatamente com tudo que eu já sabia, por ter visto todos aqueles chats. Batia nos mínimos detalhes e em nenhum momento me pareceu que Enrique estava mentindo ou escondendo alguma coisa. Senti ele honesto como sempre. Não estava me enrolando com nenhuma conversa fiada. Me disse que claro, a Noelia sempre o excitava, mas do mesmo jeito que qualquer outra mina do prédio ou de por ali. Porque ele era assim, tarado, principalmente com as novinhas. E que não teria feito nada, que tudo teria ficado por isso mesmo, se não fosse porque a Noelia começou a procurar ele um pouco mais e dar mais abertura. Daí ele se encorajou, uma coisa foi levando à outra e, pois é… aqui estávamos. Foi algo que ele não soube parar. Que a tesão tinha dominado ele.
Eu entendi, porque como não vou entender o que acontece com alguém quando a tesão toma conta? Claro que não falei isso, mas disse que entendia. Ele me pediu mil desculpas de novo, falando que não valia a pena estragar nosso bom relacionamento por causa disso e que ia cortar todo contato com a Noelia imediatamente.
Quando ele disse isso, não sei por que, algo fez um clique na minha cabeça. Mas um clique feio. Difícil de descrever. Uma sensação estranha, bem no fundo da mente. Perguntei na lata se ele tinha chegado a transar com a Noelia. Ele me olhou tristemente, como quem confessava um crime, e disse que sim. Mas só uma vez. Na minha casa, uma vez que ele foi. Nenhuma outra vez.
Eu assenti, valorizando a honestidade dele. Eu já sabia, mas o fato de ele não ter negado me fez sentir bem. Ele estava me falando a verdade em tudo, então continuei perguntando para preencher todas as lacunas que eu tinha em branco, sobre coisas que ainda não sabia. Sem dizer que eu já sabia que ele tinha comido ela, comentei que ele não se preocupasse, que eu já tinha me conformado que em algum momento eles tinham feito e que, bom, já era. Perguntei se ele tinha usado camisinha e ele respondeu que sim. Isso me deixou bem tranquilo e clareou minha mente. aquela grande dúvida do vídeo da câmera. De novo, não senti que ele tava mentindo pra mim.
Pedi pra ele me contar o que mais tinham feito, assim no geral, caso tivesse algo que eu não sabia. Ele me contou tudo. Já bem mais tranquilos os dois, sentimos que dava pra entrar nos detalhes sem ninguém se assustar. Mas basicamente ele repetiu tudo o que eu já sabia ou desconfiava. Que trocavam fotos quentes direto. Que várias vezes a Noelia tinha descido pro quartinho de depósito que tinha no subsolo e lá se beijavam um tempinho, se apalpavam um pouco e ela chupava a pica dele. Mas que ele nunca tinha comido ela lá. Só comeu ela naquela vez na minha casa, ele repetiu, porque já não aguentava mais de tesão que tava pela menina e queria fazer de uma vez. Que conversavam direto, tanto quando se encontravam no hall de entrada quanto pelo WhatsApp, mas de tudo e de nada. Nada importante. Falavam o quanto tinham curtido o que rolaram entre os dois e mandavam uma fotinha. Só isso. Ele me falou pra ficar tranquilo, que nunca conversaram sobre começar um relacionamento, namorar, fugir nem nada disso. Salvando as diferenças de idade, a dinâmica era exatamente a de um cara e uma gostosa que se juntavam pra se dar prazer e só.
Perguntei como era o esquema, se ele chamava ela ou ela chamava ele e ele disse o que eu já suspeitava — que era meio a meio. E se tivesse que chutar, geralmente era ela que dizia que queria ver ele pra fazer coisas. E que também não rolava tão seguido, às vezes se encontravam pra transar uma vez por semana. Ou duas, no máximo.
Perguntei se ainda conversavam agora que ela tinha ido pro Brasil e ele disse que sim, mas que era só besteira do que ela tava fazendo lá, como tava passando e que ela mandou um par de fotos quentes de lá. Só isso. Aí eu falei pra ele me desculpar pelo que tinha que fazer, mas pedi pra ele me mostrar o chat com a Noelia no celular dele. Não que eu não acreditasse nele, mas que... Precisava verificar pra ficar tranquilo. Ele topou na boa e, depois de desbloquear o celular, me passou pra eu dar uma olhada.
Quando vi as fotos que a Noelia mandou pra ele, senti outro estalo na cabeça.

Revisei o chat bem por cima. Não tinha nada ali que eu já não tivesse visto no começo de tudo. E o que vinha depois do chat era mais do mesmo, exatamente como o Enrique tinha me falado. Mas sem querer, me prendi vendo as fotos que ela mandou pra ele do Brasil. Nem sei onde era, nem me importava. Ver minha filha assim, principalmente a foto dos dedinhos dela esfregando o clitóris daquela pussy divina pro Enrique, me quebrou. Me pegou. Nunca tinha visto ela assim. Assim mulher. Assim gostosa, assim tesuda.O Enrique me perguntou se eu tava bem ao me ver tão vidrado e eu não respondi. Tava olhando a pussy da minha filha naquela foto e a única coisa que passava na minha cabeça era que minha língua tinha que estar ali. Que meu pau tinha que estar ali. Quebrou um vidro dentro da minha cabeça. Aquele vidro que minha psicóloga disse que tava lá dentro, enfiado em algum lugar.
Senti alguém tocar meu braço e olhei pro Enrique. Ele tinha esticado a mãozona dele devagar e tocado meu antebraço pra me acordar. Tava visivelmente preocupado, me olhando. Me perguntou de novo se eu tava bem. Falei que sim, mas não saiu voz. Saiu um fiozinho. Ele pensou que eu ia desabar no choro e ficou mais preocupado, fazendo menção de levantar pra sentar do meu lado, mas consegui segurar ele. Não tava prestes a chorar. Tava dominado pelo tesão, com a mente girando a mil e uma tensão no meu pau debaixo da mesa que tava machucando contra o tecido duro da minha calça jeans.
Pedi outro café, como consegui, e um copo d'água. Deslizei o celular dele de volta pro Enrique e nós dois ficamos em silêncio. Não era um silêncio desconfortável. Eu tava com o olhar perdido na mesa ou na rua lá fora e ele me olhava, preocupado.
Não me perguntem por que fiz isso. Sério, não faço ideia, mas foi o que saiu natural. Me senti bem fazendo isso. Libertador. Quase glorioso.
Olhei nos olhos do Enrique e perguntei se podia confiar nele. E ele me disse que sim, claro.
O número do pessoas no mundo que sabiam da minha atração e do meu tesão pela minha filha, naquela mesa de café, passou de um para dois. Contei tudo pro Enrique. Desde o começo, sem poupar detalhes. Inclusive, por ser o Enrique um homem como eu, detalhes que nem pra minha psicóloga eu jamais tive coragem de contar. Sobre o que eu tinha na minha cabeça em relação à Noélia. Me abri com o Enrique, como as comportas de uma represa. Pensei que ia afogá-lo, que ele ia sair correndo desesperado e chamar a polícia ele mesmo. Pra que finalmente levassem embora o pervertido de merda que eu era.
Mas não. Ele ficou ali ouvindo tudo o que eu contava, tudo o que eu dizia e tudo o que eu implorava pra ele não contar pra ninguém, muito menos pra Noélia. Ele entendeu. Entendeu tudo perfeitamente. E me deu a empatia dele, batendo de leve no meu braço durante as partes mais pesadas do que eu contava. Me disse que não julgava as pessoas, que eu ficasse tranquilo. Que valorizava minha confiança nele e que nunca contaria nada disso pra ninguém. E assim a hora do café foi se transformando em horas.
Nós dois nos abrimos. Nos entendemos. E, pra completar, acabamos nos valorizando ainda mais. Eu, finalmente, sabia todos os detalhes do que minha filha fez com ele. E ele, sem querer nem esperar, ficou sabendo de todos os detalhes do pervertido que eu carregava dentro de mim. O cara que comeu minha filha tomando uns cafés com o cara que sempre quis comê-la. Era tão surreal que até doía. Trágico-cômico. Já no final da conversa, tinha ficado tão tarde que os garçons olhavam pra gente com vontade de nos expulsar. Mas a gente continuou mais um pouco. Porque só ali nós dois nos entendemos e começamos a nos divertir. Porque todas as barreiras tinham caído, as do que ele tinha feito e as do que eu queria fazer.
Num momento, ele me olhou e perguntou na cara. Não tinha mais nada entre nós, nenhum receio, nenhum refúgio de vergonha. Éramos já dois caras que se conheciam há uma vida inteira sem realmente ser. Ele me olhou e me Perguntou se eu queria que ele continuasse comendo a Noelia.
E eu, sem hesitar, disse que sim. Sempre tem solução possível.
4 comentários - Padre e Homem - Parte 4
No hay una pisca de ese morbo que se generaba en los dos primeros.
+5
El final de este capitulo fue agridulce, pero deja todo preparado para el siguiente. Sea mucho mejor o igual al anterior.
Estaré a la espera de leerlo.