Tão estressada e mal que eu tava, dormi pra caralho. Ouvi o despertador, mas dei um tapa nele e continuei dormindo. Quem me acordou, sei lá, essas coisas que acontecem, foi o som de umas batidinhas leves na porta de casa. Não era a campainha da rua, tavam batendo na porta. E não sei como consegui ouvir, mas ouvi e acordei. Na correria, pensando que não podia ser o Ariel se ele tinha chave, vesti uma camiseta e uma calça de moletom assim mesmo e fui até a porta.
"Quem é?", perguntei baixinho.Sim, Leonardo..., ouvi a voz do outro lado.
Ah, Leo. Meu vizinho aposentado. Não era estranho que de vez em quando ele batesse na minha porta por algum motivo, ou eu na dele. Já fazia uns dois anos que morávamos ali. Às vezes a gente se via no corredor e, desde que me lembro, ele sempre me pareceu um cara super gente boa, era um amor. Sempre sorria pra mim, sempre cumprimentava bem, era super cavalheiro e puxava papo, mas de boa. Nada chato, sempre era um prazer e ele me arrancava uma risada com alguma piada. Morava com a mulher em outro dos apartamentos, uma velha que mais amarga e ranzinza não podia ser. Sempre vestida de preto, como se todo dia tivesse morrido alguém, e quando a gente se cruzava, ela quase nem te cumprimentava. Sempre com cara de bunda. Permanente. E quando eu saía pra comprar algo ou qualquer coisa, a única coisa que eu ouvia, não importava a hora do dia que eu passasse, era o barulho da TV alta no apartamento deles, com a velha vendo novela o tempo todo. Sempre achei marcante e curioso o contraste entre Leonardo e a mulher, e nunca consegui entender.
Abri a porta e o vi. Ele estava ali, sorrindo suave pra mim, com a boa energia que parecia irradiar sempre.
"Oi, Trini... uh... te acordei?", ele disse.
"Não... não", menti enquanto esfregava um pouco a bochecha e o olho. Tava super dormindo ainda e ele só sorriu, "O que cê tá fazendo..."
"Nada", ele falou, "Me desculpa pela interrupção, espero que não te incomode, mas vim ver como você tava... se tava bem, sabe..."
Eu estranhei no começo, não tava entendendo, mas caiu a ficha rápido. A briga que tive com Ariel ontem à noite deve ter soado mais alta do que eu pensava. Eu não percebi, focada na briga, mas o que deve ter sido... "Ah... uh, sim... desculpa, Leonardo... É, ontem à noite foi complicado, mas tá tudo bem... me perdoa se te acordamos..."
Ele riu, "Não, de jeito nenhum, não me acordou. Mas fiquei preocupado, sabe. Vocês não são de brigar e a verdade é que tava soando bem alto."
"Sim, claro... desculpa...", falei.
"Quase que eu ligava pra polícia... Chamar a polícia", ele me disse e me surpreendeu. Será que a briga tinha sido tão pesada assim? "Pensei que podia ter rolado violência, sabe..."
Eu olhei pra ele. Me deu uma ternura que um vizinho tivesse tido a delicadeza de pensar nisso e querer me proteger daquele jeito. "Ah... ah, Leo, não, muito obrigada. Mas tô bem... valeu mesmo por ter pensado..."
Ele fez um gesto com a mão. "Nem precisa falar, Trini. Fico feliz que você esteja bem."
Eu sorri pra ele. "Muito obrigada, Leo. Sério, você é muito gentil."
"Imagina", ele respondeu, com um sorriso doce.
"É... a verdade é que ontem à noite... sim, foi bem pesado. A coisa escapou um pouco do controle...", falei, e me peguei querendo contar pra ele. Eu sempre tentava ser bem reservada com minhas coisas, ainda mais essas meio vergonhosas, mas o sorriso do velho e a boa energia dele meio que me desarmaram. Me acalmou e me deixou numa boa, pronta pra conversar, mesmo tendo acabado de acordar.
"Acontece, acontece às vezes... fica tranquila, se não rolou o problema que eu falei... então não tem problema, tudo se resolve. Sabe as brigas que eu tinha com a Estela às vezes! Hahaha...", ele riu sozinho e eu sorri pra ele.
"É, pode ficar tranquilo que não foi nada disso, foi só uma discussão", sorri de volta.
"Bom, perfeito, quando eu ver o Ariel também vou falar com ele... tem que se acalmar, eu... tudo se resolve na vida...", ele riu de novo.
Se me perguntam agora, não sei por que falei aquilo. Não sei. Era a confiança que ele me passava, sei lá. O cara me deu uma segurança... um aconchego... "É... bom, a verdade é que não sei se você vai ver ele de novo..."
Aí a cara dele mudou, ficou sério de repente. "Ah, não me diga, Trini... não... não, sinto muito..."
"Bah, sei lá, que saco...", dei de ombros. "Só tava te falando..."
Ele sorriu suave e me olhou ainda mais suave, com ternura no olhar. "Bom... como eu disse, tudo se resolve. Escuta, qualquer coisa... mas sério, qualquer coisa que você precisar, me avisa, hein? Bate na minha porta, sem problema nenhum."
"Ai, Leo, muito obrigada... em Sério…", sorri pra ele, concordei com a cabeça e a gente se despediu numa boa. Me deu, como eu falei, uma ternura danada e me senti bem por ter um vizinho que queria me cuidar daquele jeito.
Quando voltei pra casa, me peguei sorrindo sozinha, nem sabia por quê, enquanto me preparava pra começar o dia. Aquela conversa que eu não esperava tinha me feito um bem danado.
Não tinham passado vinte minutos e eu senti baterem de leve na porta de novo, o que achei estranhíssimo. Quando abri, era o Leonardo de novo. Ele só sorria e me estendeu um pacotinho que tinha na mão. Reconheci na hora, estava embrulhado no papel da padaria da rua.
"Toma, pra você. Assim você tem algo gostoso pra acompanhar o café da manhã…"
"Ah, Leo… obrigada, eu…"
Não sei o que deu em mim. Naquela hora, não sei o que me deu. Me deu tanta felicidade, tanta ternura que o cara tinha tido aquela atenção comigo, sem querer nada em troca. E eu vinha tão estressada de ontem, de vários dias, com as brigas e discussões… não consegui evitar e me quebrei um pouquinho. As lágrimas não vieram de novo. Queriam sair, mas eu segurei. Soltei um soluço baixinho sem querer e esfreguei o nariz.
"... o-obrigada, Leo… você é muito gentil… obrigada, de verdade…"
O Leonardo me olhou meio sério, "Uai…. uai, mocinha, o que foi? Você tá bem?"
Eu concordei com a cabeça e olhei pra ele. Naquela hora, senti que não queria fazer outra coisa e aquilo saiu de mim. Saiu natural, saiu certo, saiu necessário. Esbocei um sorriso suave e abri a porta, "... quer entrar? Te faço um cafezinho… é o mínimo que posso fazer…"
O Leonardo deve ter visto que eu realmente precisava de companhia e de desabafar com alguém. Ele captou na hora e me sorriu de leve, "Beleza, então… claro, se não for te atrapalhar…"
Eu sorri pra ele, "Imagina, entra, vai… obrigada…"
Às vezes as coisas acontecem por um motivo. Aquelas duas horas que o Leonardo ficou em casa, a gente sentada na mesinha da cozinha, tomando café, comendo sonhos, conversando sob o solzinho manso da manhã que entrava preguiçoso pela janela… aquelas duas horas me Mudaram minha vida.
Ariel apareceu de novo dois dias depois. Chegou com o carro que um amigo tinha emprestado pra ele e várias malas. Veio terminar comigo e pegar as coisas dele. A gente teve outra discussão, também bem tensa, mas que nem chegou perto do nível de gritaria da outra. Eu tava mais triste do que com raiva. Ele tava seco igual deserto, e me tratava do mesmo jeito. Desdenhoso e frio. Me falou duas ou três coisas sobre assuntos bem íntimos que ele sabia de mim. Coisas muito dolorosas que me machucaram pra caralho e me deixaram muito mal. Coisas que não precisava falar. Coisas de quem é filho da puta falar.
Quando foi embora, jogou as chaves de casa na mesa da sala e deixou elas lá. E assim foi embora. Me deixando com o apartamento… e eu quase sem grana e sem renda. Bateu uma depressão fortíssima naquele momento. Aquele momento de desespero em que a gente deixa cair todos os pratos que tava equilibrando, todos de uma vez no chão, e você não sabe qual tentar segurar primeiro.
Quando me recompus, liguei pra minha mãe e contei tudo. Por sorte, meus pais me mandaram uma grana pra ir me virando pelo menos naquele mês com as contas básicas. Também liguei pra Roxy, e ela me transferiu uma grana. Não só isso, como veio ficar comigo em casa uns dois ou três dias, pra eu não ficar sozinha e pra me ajudar com o que precisasse. E não parou por aí: ela disse que ia tentar me colocar na empresa onde ela trabalhava, pra eu começar a trampar remoto de casa.
Como eu amo minha Roxy.
Enquanto a Roxy tava em casa, uma noite ela falou pra eu tentar mandar mensagem pro Mateo de novo. Claramente eu tinha ficado vidrada nele, e por que não tentar? Se a gente se curtia e agora que o Ariel tinha ido embora… quem sabe? Eu não sabia se devia, já tinha passado um tempinho, mas no final me decidi e mandei.
Mateo basicamente respondeu que agradecia, mas não, valeu. Me desejou o melhor, mas disse que realmente não queria me ver nem começar nada. Que tava com outras paradas. Ele me mandou um beijo no chat e essa foi a última vez que conversei com ele. Eu me senti ainda pior. Roxy, depois de pensar um pouco, me disse o que achava, que com certeza era verdade.
Mateo, quando me conheceu, obviamente gostou de mim, não tinha como não. Mas ele queria uma namorada, uma garota normal… e eu, feito uma idiota e uma putinha, só mostrei a vadia e a louca, que tirava fotos fazendo sexo oral. Uma maluca que não tinha problema nenhum em trair o namorado com um cara que acabara de conhecer… e se eu podia fazer isso com Ariel, por que não faria com ele depois, do mesmo jeito fácil?
E a verdade é que a Roxy tinha acertado em cheio. Fez total sentido o que ela disse. Pobre Mateo, e que burra que eu fui.
Foi por causa desse motivo do Mateo, e por outros também, que eu e a Roxy decidimos ali que o jogo da porta tinha que acabar. Já deu, já foi o suficiente. Nós duas nos divertimos, enquanto durou, mas nenhuma de nós soube lidar com isso direito. Nada a reclamar sobre o lado sexual, mas nos trouxe muitas, complicações demais. Só a parabenizei por ter vencido e ela me fez cozinhar um jantar da vitória naquela noite porque, segundo ela, tinha se arrebentado toda literalmente para me vencer.
E eu, sinceramente, fiquei aliviada por ter acabado com o jogo. Do jeito que a situação já estava complicada na minha vida, eu não precisava desse tipo de tempero extra.
Também acho que tenho que contar pra vocês a parte mais importante de tudo isso, que é o que envolve o Leonardo. Acho que ficou pendente. Que baita coisa que ficou no tinteiro.
Eu disse que aquela conversa que tivemos quando tomamos café da manhã naquela manhã acabou mudando minha vida. Durante aquele café, conversamos sobre tudo. Sobre tudo o que tinha acontecido comigo, sobre tudo o que poderia acontecer, e assim começamos a nos conhecer. Aos poucos. Começamos a nos encontrar em casa, ele passou a vir sempre me fazer companhia, tomar longos cafés ou chimarrões, ou ficava depois de fazer algum favor pra ele, mesmo que eu morresse de vergonha de deixar ele fazer. Ele se oferecia de bom grado.
Percebi que o Leonardo era um cara realmente fascinante. Bom, pelo menos pra mim, ele acabou me fascinando. E quanto mais ele me contava sobre ele e mais tempo eu passava com ele, melhor eu me sentia e mais interessada ficava.
Ele já tinha 70 anos, mas muito bem vividos, e era um cara muito experiente, muito viajado. Rodado, essa é a palavra exata. Mas enquanto outros homens usam essa experiência de anos pra criar casca e ficar mais distantes, mais secos, o Leonardo era o oposto. Tinha sido meio hippie quando jovem, durante os anos 70, e sempre esteve meio metido na onda do rock nacional daquela época.
A gente olhava pra ele e, sinceramente, não parecia nada disso. Ele tinha mudado muito. Ali estava aquele cara grisalho, já aposentado, mas com o cabelo curto e bem arrumado. Eu não conseguia imaginá-lo de cabelo comprido e fumando, até que um dia ele me mostrou, morrendo de rir, umas fotos antigas dele e eu não podia acreditar. Lá estavam os olhos azuis inconfundíveis do Leonardo, mas me olhando de tanto tempo atrás e quase escondidos sob uma juba longa e preta. Era uma foto em grupo com outros caras e minas, pareciam ter vinte e poucos anos. Ele me disse que aquela foto foi tirada nas serras de Córdoba, quando foram fazer um acampamento pela paz.
Eu sorri olhando pra ela e perguntei quem eram os outros. Ele disse que eram amigos e amigas, alguns do colégio, outros conhecidos da vida ou do meio. Quando eu soltei no ar o que teria sido de toda aquela gente, ele disse com naturalidade, sem nenhum tipo de tristeza: "É... morreram quase todos. De uma coisa ou outra. E outros se perderam. O que fazer..." A filosofia e o jeito de ser do Leonardo me encantavam. Pra ele, tudo era experiência, não tinha espaço pra julgamento. Cada um tinha seu próprio caminho e o direito de vivê-lo como fosse, como a vida fosse levando. Tudo na vida era experiência pra aprender, não pra julgar.
Ele tinha sido office boy do Palito. Ortega e de Baglietto, ele me disse, e conheceu Spinetta, Charly, Billy Bond e o Pappo. Quando meio que se cansou um pouco do rock, lá pelo final da ditadura, naqueles últimos anos, começou a viajar de mochilão. Foi assim que conheceu, ele me disse, desde Ushuaia até Bogotá. Viu as cataratas, Machu Picchu, o sol se pondo cedo atrás da cordilheira em Mendoza… o Amazonas fluindo suave e potente de manhã, junto com os sons dos canoeiros gritando coisas enquanto ele olhava da margem… Também esteve na Jamaica e em Cuba.
Eu ficava olhando pra ele, extasiada, enquanto ele contava tudo aquilo. Ele tinha um jeito de contar as coisas que fazia você se sentir lá, porque lembrava de todos os detalhes e, além disso, eram detalhes lindos. Ouvir ele te transportava de verdade. Eu viajava com ele, perdida com um sorriso nas palavras dele. E não era que ele tinha mil histórias, parecia ter um milhão.
Quando sentiu que já tinha viajado o suficiente, em meados dos anos 80, voltou e, com um amigo, montou um negócio de venda de instrumentos musicais. Ele me disse que tinha dado uma boa grana até chegar a hiperinflação e o país inteiro desandar. Já tinha conhecido a Estela, ele me disse, e já tinham se casado. Quando o negócio faliu, ele decidiu ir pro Chile e recomeçar por lá. Teve sorte, depois de alguns anos, de montar um empreendimento de importação de computadores. E muitos anos depois, de celulares e acessórios, bem na época que começou o boom dos celulares, com o iPhone e tudo mais, e ele ficou cheio de grana. Mas cheio de grana mesmo, pra caralho. Ele não falou isso se gabando, de jeito nenhum. Pra ele, era só mais um detalhe.
Depois, voltou pra Buenos Aires, que foi quando comprou esse PH onde morava. Levou uma parte bem boa do que era dele no negócio dos celulares e deixou a empresa pros outros sócios, também incluindo os funcionários que ele tinha. E aí se aposentou. E desde então vivia ali, tranquilo, com a mulher dele, aproveitando os anos que a vida ia decidir que ele teria.
Eu olhava Olhava. Dava pra ver que ele era super saudável pra um cara da idade dele. Na real, a única coisa que entregava a idade, se a gente reparasse, eram só as rugas da pele e o cabelo totalmente grisalho. E, claro, o mundo de experiência que ele carregava suave naqueles olhos azuis, doces e amorosos. Eu não precisava ter visto as fotos que ele às vezes me mostrava, dava pra ver que ele tinha sido bem, mas bem gato quando jovem. Dava pra ver pelo jeito que ele envelheceu, bem e mantendo aquela cara alegre e atraente, e pelo jeito que ele se comportava o tempo todo. Com segurança, com confiança, mas também com carinho e compreensão. Não era só um prazer pra mim ouvi-lo, com a calma e paz que ele me transmitia. Também era um prazer perceber como ele me ouvia quando eu falava, prestando atenção em tudo que eu dizia, até nas piadas, e me dando um sorriso suave, ouvindo, entendendo, e sempre me devolvendo algo doce e sábio que eu não esperava e acabava me ajudando.
Uma vez, entre risadas, soltei algo tipo que ele devia ter pegado muita gente quando jovem, com aquele charme que dava pra ver nas fotos. Ele se cagou de rir e só me disse que tava empatado com a vida nessa área: ele não podia reclamar, e também nunca tinha recebido reclamações. Nós dois rimos.
No entanto, uma vez ele me fez ficar puta. Um dia voltei pra casa depois de fazer compras e encontrei um envelope deslizado por baixo da porta. Quando abri, tinha um cheque. Não vou dizer de quanto, não importa, mas era o suficiente pra eu não me preocupar com nada pelo resto do mês, pelo menos. E quando vi quem era o assinante, me deu uma raiva.
Fui na hora com o envelope na mão bater na porta do Leonardo. A velha amarga da mulher me atendeu, perguntei por ele e daí a pouco ele veio até a porta, já sorrindo. Eu tava séria e estendi o envelope pra ele pegar. Ele não pegou, ficou me olhando e sorrindo. Eu disse que agradecia, mas primeiro que era muito e depois que me dava vergonha receber caridade daquele jeito. Que eu já tava procurando emprego, que já ia conseguir. E que ia me virar sozinha, como tinha que ser, e que ele não tinha por que me ajudar, ainda mais desse jeito e com tanta coisa. E que eu não precisava de blá, blá, blá…
Ele só sorria. Quando terminei meu discurso, ele só falou: “Você tem razão, Trini”, e concordou com a cabeça.
“Ah, tá, viu que eu tenho razão…”, respondi satisfeita.
“Sim, mas me diz com a mão no coração que você não precisa disso…”, ele olhou bem nos meus olhos, “Fala sério, sem mentir pra si mesma, que você realmente não precisa, e eu aceito de volta. Sem problema nenhum.”
A gente se olhou e eu me emocionei que nem uma garota idiota. Pra ele não ver as lágrimas que já tavam escorrendo, eu abracei ele. E ele fez o mesmo, me segurando forte e ao mesmo tempo suave nos braços dele, ali na porta da casa dele, me dizendo que ia ficar tudo bem, que eu não me preocupasse.
Foi a primeira vez na minha vida inteira, juro, que quando alguém me disse que ia ficar tudo bem e que eu não me preocupasse, eu acreditei.
A gente começou a se ver e se encontrar com mais frequência. Muito mais frequência. Dia sim, dia não, ou a cada dois dias ele vinha em casa e trazia alguma coisa pra comer ou beber. Eu adorava ter a companhia dele, às vezes a tarde inteira até a hora do jantar. Conversando, rindo, passando o tempo, ele me ajudava com as coisas de casa… Uma vez eu perguntei se a mulher dele não ia ficar brava por ele passar tanto tempo comigo.
Ele só riu, como sempre fazia, quando a gente falava de algo que parecia importante, mas que pra ele não era e simplesmente escorregava. “A gente já tá de volta, Trini… imagina se ela vai fazer barulho por causa disso.”
Até que, claro, o que tinha que acontecer finalmente aconteceu. Nunca vou esquecer aquela tarde. A gente tinha sentado no sofá e ele tinha trazido um vinho dos que ele tinha em casa. Eu não entendo, nem nunca entendi, de vinhos. Mas tava uma delícia. Suave e com um gosto muito gostoso. O sol já tinha se posto e tava aquela penumbra linda da tarde. Noite lá fora. A gente ficou batendo papo no sofá, como sempre. Eu tinha pegado o controle da TV e ele, pra me mostrar a música que ele gostava, da época que ele era jovem e que eu não conhecia, foi me falando os temas ou artistas, e a gente ficou ali, conversando e curtindo o vinho e a música. Umas coisas não me pegaram muito, mas outras daquela época eu amei e achei lindas. E claro, ele sabia pra caralho de música.
Lembro que a gente vinha de uma fase de ouvir Carly Simon e Fleetwood Mac direto. E aí a gente tinha passado pra James Taylor. Foi um momento lindo. Não quero dar muitos detalhes, porque até hoje eu lembro e não sei se quero compartilhar. É muito íntimo pra mim, por tudo que significou com o que veio depois.
Mas a gente tava ali, os dois no sofá. Confortáveis, ouvindo música bonita e suave. Tomando um vinho gostoso e conversando. Até que eu me recostei um pouco no encosto do sofá, virando pra olhar pra ele enquanto ele tava me falando alguma coisa sobre a música que tava tocando. E nossos olhares se encontraram em silêncio. E como tinha feito aquele técnico que veio arrumar o cabo, minha primeira indiscrição nesse jogo da porta, daquelas coisas que a vida te dá de presente às vezes, o Leonardo fez a mesma coisa. Ele me olhou, eu vi que ele se perdeu nos meus olhos e com a mão suave, em silêncio, afastou um pouco meu cabelo comprido do rosto. A gente sorriu um pro outro, meio envergonhados e meio cúmplices, e logo eu me aproximei devagar e a gente começou a se beijar.
Aí eu quero parar. Quero que o resto seja só meu e espero que vocês entendam. Não tô fazendo isso pra me fazer de misteriosa ou pra criar suspense, não. Tudo que eu contei até agora dos outros caras que eu peguei, falando de pica e tudo mais, com o Leonardo eu não vou fazer porque isso é meu. Não é de vocês. Paro aqui e faço isso porque naquele momento foi quando eu encontrei o homem que eu amo. Que eu amo com toda a minha vida, com todo o meu ser. Aquele que me faz sentir bem, nem mais nem menos. Às vezes acontece e não tem muito preâmbulo, não precisa correr rios e rios de tinta pra explicar. Naquele momento eu me apaixonei, perdidamente, pelo Leonardo. E ele por mim. Não tem nada pra explicar. Tentar explicar era como tentar explicar por que a água molha.
Leonardo demorou meses pra se divorciar da mulher. Meses que foram pra nós dois às vezes melhor e às vezes pior, mas sempre bom. Eu, por sorte, já tinha finalmente conseguido um emprego, tava tudo melhor e mais estável na minha vida. Quando acabou a separação dele (e toda a história da separação dele com a Estela, essa sim é outra história longa de capítulos como essa, que não vem ao caso agora), Leonardo vendeu o apartamento dele e se mudou pro meu, e assim começamos a morar juntos. Com o que ele tirou da parte da venda, mais um pouco de grana que já tinha, no ano seguinte comprou o apartamento onde estávamos e resolvemos de vez o problema do aluguel.
Perguntei se ele não tinha exagerado um pouco na questão da grana e da compra do apartamento. Se não tinha gastado toda a grana nisso. E de alguma forma, em mim. Ele só sorriu sozinho. E não tocou mais no assunto.
Tive que me acostumar, sim. Reconheço que fiquei várias semanas, no começo do nosso relacionamento, juntos como casal, morando debaixo do mesmo teto, até que aquele vestido novo me serviu. Por mais idiota que pudesse parecer, eu sentia vergonha às vezes quando saíamos ou íamos pra algum lugar, que claro todo mundo olhava pra gente ou pensava que eu era a filha. Ou a puta que o velho tinha pegado, se eu me arrumasse demais. Isso me dava uma baita insegurança. A Roxy dizia que eu era uma otária por pensar assim, mas não tinha jeito. Mexia comigo.
Até uma noite que a gente tinha acabado de fazer docinho o amor com meu velhinho. A gente tava na nossa cama e eu montada em cima dele. Já sem me penetrar, só sentada de pernas abertas sobre ele. Enquanto ele me olhava suave e as mãos dele percorriam minha pele, acariciando a sua neném. Foi aí que eu Finalmente me deu vontade e falei pra ele. Sobre como eu achava que a gente se via, sobre a insegurança que eu realmente tinha, sobre o que os outros iam pensar…
“Você gosta de mim?”, ele perguntou.
“…Eu te amo…”, falei baixinho, olhando firme pra ele.
“E eu te adoro…”, ele disse com aquele sorriso matador. De repente, fez um gesto com as mãos que me assustou, tipo um passe de mágica na frente dos meus olhos, como um mágico revelando um truque. “Puffff!”, ele falou e riu, “…e todo o resto não importa.”
Porra, que homem lindo, quero chorar.
Quando contei pra Roxy que tinha começado a sair com o Leonardo e, pior, quando confessei o quanto tava apaixonada, ela começou a me zoar sem parar, do jeitinho dela. Enchia meus chats com fotos de velhinhos. Mandava foto de bengala. Dizia que já tava me vendo passando as férias em Chapadmalal ou algum lugar assim. Mandava link daqueles sites que vendem Viagra barato. Filha da puta, como ela me fazia rir.
Mas a música mudou na noite que convidei ela pra jantar em casa, pra finalmente conhecer ele pessoalmente. Eu não tinha mandado nem uma foto pra Roxy ainda. Nada. A gente se divertiu pra caralho. E essa otária, em dez minutos, já tava toda boba com o Leonardo, os dois conversando como se se conhecessem a vida inteira. Já tinham virado parceiros, numa boa. E eu já via nos olhinhos dela como o Leonardo estava bagunçando todos os parafusos dela, sem fazer nada, só sendo ele mesmo, do mesmo jeito que fez comigo. E a Roxy se mijava toda vez que ouvia ele falar e ficava toda boba sorrindo pra ele. Eu morria de rir.
A idiota às vezes ia pra cozinha, deixando a gente sentado na mesa, e de lá fazia caretas pra mim. Falava sem emitir som e eu, lendo os lábios dela, via a cara de espanto que ela fazia pra mim, fora da vista do Leonardo, me dizendo em silêncio.... bocetudaaaaaaaaa….E ela fazia gestos obscenos com a mão e a língua dentro da boca, simulando uma chupada de pau.
E eu morria de rir. Era exatamente o que estava faltando. A felicidade de poder rir, e a paz que o Leonardo me dava de me sentir amada. Adoro satisfazer meu homem, meu velhinho lindo, meu Leo, porque só quero retribuir tudo o que ele me proporciona, de corpo e alma. Sim, claro que a diferença de idade existe e não vai desaparecer. Ele é mais de quarenta anos mais velho. E isso é visível. Mas não se nota quando a gente se ama e transa com frequência. Vocês já sabem de tudo o que fiz, contei nessa história, mas com o Leonardo era diferente. Era um fogo lento que me cozinhava por inteiro. Nunca antes um homem tinha me satisfeito assim, desse jeito. Suave e forte ao mesmo tempo. Ele sabia muito, mas muito bem como satisfazer uma mulher e fazê-la se sentir desejada e amada, seja toda arrumadinha e sexy para ele na intimidade do nosso quarto… ou de moletom e pantufa na cozinha.
A Roxy acabou conhecendo um magrelo e a muito idiota acabou engravidando. Falo “muito idiota” porque é o que se diz, mas na verdade não. Ela quis ter, eles quiseram ter. Não são casados nem nada. O cara se chama Alan. Coitadinho, é um bocó, mas é bonzinho. Vai saber por quê, mas a Roxy adora ele. Morre por ele. Não foi fácil porque a minha Roxy teve uma gravidez muito, muito complicada, mas por sorte ela conseguiu levar até o fim. E agora eu virei uma babona idiota de merda quando nos fins de semana eles vêm e trazem nosso sobrinho, o Lucas. Babo por ele. Morro, morro, morro pelo lindo do meu sobrinho. E o Leonardo também… põe ele no colo, brincam, fala com ele o tempo todo…
A Roxy e eu nos olhamos às vezes enquanto nossos dois homens, tão, mas tão diferentes, estão aqui em casa. O Leonardo com o Luquinhas no colo, explicando como se deve viver a vida para o Alan, que escuta e concorda. Que bocozinho… mas a gente gosta dele. Tomara que o Alan escute. mesmo que seja uma fração do que o Leonardo sempre fala pra ela. Ele enche ela de lições.
E eu só desejo, olhando pra eles assim, que se eu tiver espaço pra pedir mais um milagrinho na minha vida, só um e não peço mais, que um dia eu possa ver o Leonardo sentado ali, segurando o nosso. Nosso milagrinho.
Do jogo da porta? Não sei mais o que posso dizer. Joguei, me diverti no começo e depois complicou pra caralho. Mas dessa complicação nasceu essa felicidade que carrego comigo e não vai embora. Muito tempo depois que fiquei com o Leonardo, quando já tinha confiança total nele, uma noite que a gente tava tendo uma daquelas nossas conversas longas e lindas… eu contei. Contei o que tinha feito. Tava morrendo de medo de contar e ele descobrir. Que ele soubesse a puta que eu tinha sido. Mas não escondi nada. O Leonardo não merecia que eu escondesse algo dele. Tava com medo, muito medo, de contar tudo e ele pensar que eu era uma puta, assustando ele igual fiz com o Mateo. Ou que por uma coisa ou outra ele ficasse puto e decidisse me largar, que nem o Ariel fez.
Quando terminei de contar tudo sobre o jogo, com todos os detalhes, vi ele dar um gole bom na taça de vinho que tinha e ficou me olhando. Só me olhando, meio sério. Eu já tava morrendo de medo do que ele ia falar. Finalmente, depois de um silêncio constrangedor, com o dedo indicador ele apertou meu umbigo pra fazer cócega e só me disse…
“… bom, e quem ganhou?”
"Quem é?", perguntei baixinho.Sim, Leonardo..., ouvi a voz do outro lado.
Ah, Leo. Meu vizinho aposentado. Não era estranho que de vez em quando ele batesse na minha porta por algum motivo, ou eu na dele. Já fazia uns dois anos que morávamos ali. Às vezes a gente se via no corredor e, desde que me lembro, ele sempre me pareceu um cara super gente boa, era um amor. Sempre sorria pra mim, sempre cumprimentava bem, era super cavalheiro e puxava papo, mas de boa. Nada chato, sempre era um prazer e ele me arrancava uma risada com alguma piada. Morava com a mulher em outro dos apartamentos, uma velha que mais amarga e ranzinza não podia ser. Sempre vestida de preto, como se todo dia tivesse morrido alguém, e quando a gente se cruzava, ela quase nem te cumprimentava. Sempre com cara de bunda. Permanente. E quando eu saía pra comprar algo ou qualquer coisa, a única coisa que eu ouvia, não importava a hora do dia que eu passasse, era o barulho da TV alta no apartamento deles, com a velha vendo novela o tempo todo. Sempre achei marcante e curioso o contraste entre Leonardo e a mulher, e nunca consegui entender.
Abri a porta e o vi. Ele estava ali, sorrindo suave pra mim, com a boa energia que parecia irradiar sempre.
"Oi, Trini... uh... te acordei?", ele disse.
"Não... não", menti enquanto esfregava um pouco a bochecha e o olho. Tava super dormindo ainda e ele só sorriu, "O que cê tá fazendo..."
"Nada", ele falou, "Me desculpa pela interrupção, espero que não te incomode, mas vim ver como você tava... se tava bem, sabe..."
Eu estranhei no começo, não tava entendendo, mas caiu a ficha rápido. A briga que tive com Ariel ontem à noite deve ter soado mais alta do que eu pensava. Eu não percebi, focada na briga, mas o que deve ter sido... "Ah... uh, sim... desculpa, Leonardo... É, ontem à noite foi complicado, mas tá tudo bem... me perdoa se te acordamos..."
Ele riu, "Não, de jeito nenhum, não me acordou. Mas fiquei preocupado, sabe. Vocês não são de brigar e a verdade é que tava soando bem alto."
"Sim, claro... desculpa...", falei.
"Quase que eu ligava pra polícia... Chamar a polícia", ele me disse e me surpreendeu. Será que a briga tinha sido tão pesada assim? "Pensei que podia ter rolado violência, sabe..."
Eu olhei pra ele. Me deu uma ternura que um vizinho tivesse tido a delicadeza de pensar nisso e querer me proteger daquele jeito. "Ah... ah, Leo, não, muito obrigada. Mas tô bem... valeu mesmo por ter pensado..."
Ele fez um gesto com a mão. "Nem precisa falar, Trini. Fico feliz que você esteja bem."
Eu sorri pra ele. "Muito obrigada, Leo. Sério, você é muito gentil."
"Imagina", ele respondeu, com um sorriso doce.
"É... a verdade é que ontem à noite... sim, foi bem pesado. A coisa escapou um pouco do controle...", falei, e me peguei querendo contar pra ele. Eu sempre tentava ser bem reservada com minhas coisas, ainda mais essas meio vergonhosas, mas o sorriso do velho e a boa energia dele meio que me desarmaram. Me acalmou e me deixou numa boa, pronta pra conversar, mesmo tendo acabado de acordar.
"Acontece, acontece às vezes... fica tranquila, se não rolou o problema que eu falei... então não tem problema, tudo se resolve. Sabe as brigas que eu tinha com a Estela às vezes! Hahaha...", ele riu sozinho e eu sorri pra ele.
"É, pode ficar tranquilo que não foi nada disso, foi só uma discussão", sorri de volta.
"Bom, perfeito, quando eu ver o Ariel também vou falar com ele... tem que se acalmar, eu... tudo se resolve na vida...", ele riu de novo.
Se me perguntam agora, não sei por que falei aquilo. Não sei. Era a confiança que ele me passava, sei lá. O cara me deu uma segurança... um aconchego... "É... bom, a verdade é que não sei se você vai ver ele de novo..."
Aí a cara dele mudou, ficou sério de repente. "Ah, não me diga, Trini... não... não, sinto muito..."
"Bah, sei lá, que saco...", dei de ombros. "Só tava te falando..."
Ele sorriu suave e me olhou ainda mais suave, com ternura no olhar. "Bom... como eu disse, tudo se resolve. Escuta, qualquer coisa... mas sério, qualquer coisa que você precisar, me avisa, hein? Bate na minha porta, sem problema nenhum."
"Ai, Leo, muito obrigada... em Sério…", sorri pra ele, concordei com a cabeça e a gente se despediu numa boa. Me deu, como eu falei, uma ternura danada e me senti bem por ter um vizinho que queria me cuidar daquele jeito.
Quando voltei pra casa, me peguei sorrindo sozinha, nem sabia por quê, enquanto me preparava pra começar o dia. Aquela conversa que eu não esperava tinha me feito um bem danado.
Não tinham passado vinte minutos e eu senti baterem de leve na porta de novo, o que achei estranhíssimo. Quando abri, era o Leonardo de novo. Ele só sorria e me estendeu um pacotinho que tinha na mão. Reconheci na hora, estava embrulhado no papel da padaria da rua.
"Toma, pra você. Assim você tem algo gostoso pra acompanhar o café da manhã…"
"Ah, Leo… obrigada, eu…"
Não sei o que deu em mim. Naquela hora, não sei o que me deu. Me deu tanta felicidade, tanta ternura que o cara tinha tido aquela atenção comigo, sem querer nada em troca. E eu vinha tão estressada de ontem, de vários dias, com as brigas e discussões… não consegui evitar e me quebrei um pouquinho. As lágrimas não vieram de novo. Queriam sair, mas eu segurei. Soltei um soluço baixinho sem querer e esfreguei o nariz.
"... o-obrigada, Leo… você é muito gentil… obrigada, de verdade…"
O Leonardo me olhou meio sério, "Uai…. uai, mocinha, o que foi? Você tá bem?"
Eu concordei com a cabeça e olhei pra ele. Naquela hora, senti que não queria fazer outra coisa e aquilo saiu de mim. Saiu natural, saiu certo, saiu necessário. Esbocei um sorriso suave e abri a porta, "... quer entrar? Te faço um cafezinho… é o mínimo que posso fazer…"
O Leonardo deve ter visto que eu realmente precisava de companhia e de desabafar com alguém. Ele captou na hora e me sorriu de leve, "Beleza, então… claro, se não for te atrapalhar…"
Eu sorri pra ele, "Imagina, entra, vai… obrigada…"
Às vezes as coisas acontecem por um motivo. Aquelas duas horas que o Leonardo ficou em casa, a gente sentada na mesinha da cozinha, tomando café, comendo sonhos, conversando sob o solzinho manso da manhã que entrava preguiçoso pela janela… aquelas duas horas me Mudaram minha vida.
Ariel apareceu de novo dois dias depois. Chegou com o carro que um amigo tinha emprestado pra ele e várias malas. Veio terminar comigo e pegar as coisas dele. A gente teve outra discussão, também bem tensa, mas que nem chegou perto do nível de gritaria da outra. Eu tava mais triste do que com raiva. Ele tava seco igual deserto, e me tratava do mesmo jeito. Desdenhoso e frio. Me falou duas ou três coisas sobre assuntos bem íntimos que ele sabia de mim. Coisas muito dolorosas que me machucaram pra caralho e me deixaram muito mal. Coisas que não precisava falar. Coisas de quem é filho da puta falar.
Quando foi embora, jogou as chaves de casa na mesa da sala e deixou elas lá. E assim foi embora. Me deixando com o apartamento… e eu quase sem grana e sem renda. Bateu uma depressão fortíssima naquele momento. Aquele momento de desespero em que a gente deixa cair todos os pratos que tava equilibrando, todos de uma vez no chão, e você não sabe qual tentar segurar primeiro.
Quando me recompus, liguei pra minha mãe e contei tudo. Por sorte, meus pais me mandaram uma grana pra ir me virando pelo menos naquele mês com as contas básicas. Também liguei pra Roxy, e ela me transferiu uma grana. Não só isso, como veio ficar comigo em casa uns dois ou três dias, pra eu não ficar sozinha e pra me ajudar com o que precisasse. E não parou por aí: ela disse que ia tentar me colocar na empresa onde ela trabalhava, pra eu começar a trampar remoto de casa.
Como eu amo minha Roxy.
Enquanto a Roxy tava em casa, uma noite ela falou pra eu tentar mandar mensagem pro Mateo de novo. Claramente eu tinha ficado vidrada nele, e por que não tentar? Se a gente se curtia e agora que o Ariel tinha ido embora… quem sabe? Eu não sabia se devia, já tinha passado um tempinho, mas no final me decidi e mandei.
Mateo basicamente respondeu que agradecia, mas não, valeu. Me desejou o melhor, mas disse que realmente não queria me ver nem começar nada. Que tava com outras paradas. Ele me mandou um beijo no chat e essa foi a última vez que conversei com ele. Eu me senti ainda pior. Roxy, depois de pensar um pouco, me disse o que achava, que com certeza era verdade.
Mateo, quando me conheceu, obviamente gostou de mim, não tinha como não. Mas ele queria uma namorada, uma garota normal… e eu, feito uma idiota e uma putinha, só mostrei a vadia e a louca, que tirava fotos fazendo sexo oral. Uma maluca que não tinha problema nenhum em trair o namorado com um cara que acabara de conhecer… e se eu podia fazer isso com Ariel, por que não faria com ele depois, do mesmo jeito fácil?
E a verdade é que a Roxy tinha acertado em cheio. Fez total sentido o que ela disse. Pobre Mateo, e que burra que eu fui.
Foi por causa desse motivo do Mateo, e por outros também, que eu e a Roxy decidimos ali que o jogo da porta tinha que acabar. Já deu, já foi o suficiente. Nós duas nos divertimos, enquanto durou, mas nenhuma de nós soube lidar com isso direito. Nada a reclamar sobre o lado sexual, mas nos trouxe muitas, complicações demais. Só a parabenizei por ter vencido e ela me fez cozinhar um jantar da vitória naquela noite porque, segundo ela, tinha se arrebentado toda literalmente para me vencer.
E eu, sinceramente, fiquei aliviada por ter acabado com o jogo. Do jeito que a situação já estava complicada na minha vida, eu não precisava desse tipo de tempero extra.
Também acho que tenho que contar pra vocês a parte mais importante de tudo isso, que é o que envolve o Leonardo. Acho que ficou pendente. Que baita coisa que ficou no tinteiro.
Eu disse que aquela conversa que tivemos quando tomamos café da manhã naquela manhã acabou mudando minha vida. Durante aquele café, conversamos sobre tudo. Sobre tudo o que tinha acontecido comigo, sobre tudo o que poderia acontecer, e assim começamos a nos conhecer. Aos poucos. Começamos a nos encontrar em casa, ele passou a vir sempre me fazer companhia, tomar longos cafés ou chimarrões, ou ficava depois de fazer algum favor pra ele, mesmo que eu morresse de vergonha de deixar ele fazer. Ele se oferecia de bom grado.
Percebi que o Leonardo era um cara realmente fascinante. Bom, pelo menos pra mim, ele acabou me fascinando. E quanto mais ele me contava sobre ele e mais tempo eu passava com ele, melhor eu me sentia e mais interessada ficava.
Ele já tinha 70 anos, mas muito bem vividos, e era um cara muito experiente, muito viajado. Rodado, essa é a palavra exata. Mas enquanto outros homens usam essa experiência de anos pra criar casca e ficar mais distantes, mais secos, o Leonardo era o oposto. Tinha sido meio hippie quando jovem, durante os anos 70, e sempre esteve meio metido na onda do rock nacional daquela época.
A gente olhava pra ele e, sinceramente, não parecia nada disso. Ele tinha mudado muito. Ali estava aquele cara grisalho, já aposentado, mas com o cabelo curto e bem arrumado. Eu não conseguia imaginá-lo de cabelo comprido e fumando, até que um dia ele me mostrou, morrendo de rir, umas fotos antigas dele e eu não podia acreditar. Lá estavam os olhos azuis inconfundíveis do Leonardo, mas me olhando de tanto tempo atrás e quase escondidos sob uma juba longa e preta. Era uma foto em grupo com outros caras e minas, pareciam ter vinte e poucos anos. Ele me disse que aquela foto foi tirada nas serras de Córdoba, quando foram fazer um acampamento pela paz.
Eu sorri olhando pra ela e perguntei quem eram os outros. Ele disse que eram amigos e amigas, alguns do colégio, outros conhecidos da vida ou do meio. Quando eu soltei no ar o que teria sido de toda aquela gente, ele disse com naturalidade, sem nenhum tipo de tristeza: "É... morreram quase todos. De uma coisa ou outra. E outros se perderam. O que fazer..." A filosofia e o jeito de ser do Leonardo me encantavam. Pra ele, tudo era experiência, não tinha espaço pra julgamento. Cada um tinha seu próprio caminho e o direito de vivê-lo como fosse, como a vida fosse levando. Tudo na vida era experiência pra aprender, não pra julgar.
Ele tinha sido office boy do Palito. Ortega e de Baglietto, ele me disse, e conheceu Spinetta, Charly, Billy Bond e o Pappo. Quando meio que se cansou um pouco do rock, lá pelo final da ditadura, naqueles últimos anos, começou a viajar de mochilão. Foi assim que conheceu, ele me disse, desde Ushuaia até Bogotá. Viu as cataratas, Machu Picchu, o sol se pondo cedo atrás da cordilheira em Mendoza… o Amazonas fluindo suave e potente de manhã, junto com os sons dos canoeiros gritando coisas enquanto ele olhava da margem… Também esteve na Jamaica e em Cuba.
Eu ficava olhando pra ele, extasiada, enquanto ele contava tudo aquilo. Ele tinha um jeito de contar as coisas que fazia você se sentir lá, porque lembrava de todos os detalhes e, além disso, eram detalhes lindos. Ouvir ele te transportava de verdade. Eu viajava com ele, perdida com um sorriso nas palavras dele. E não era que ele tinha mil histórias, parecia ter um milhão.
Quando sentiu que já tinha viajado o suficiente, em meados dos anos 80, voltou e, com um amigo, montou um negócio de venda de instrumentos musicais. Ele me disse que tinha dado uma boa grana até chegar a hiperinflação e o país inteiro desandar. Já tinha conhecido a Estela, ele me disse, e já tinham se casado. Quando o negócio faliu, ele decidiu ir pro Chile e recomeçar por lá. Teve sorte, depois de alguns anos, de montar um empreendimento de importação de computadores. E muitos anos depois, de celulares e acessórios, bem na época que começou o boom dos celulares, com o iPhone e tudo mais, e ele ficou cheio de grana. Mas cheio de grana mesmo, pra caralho. Ele não falou isso se gabando, de jeito nenhum. Pra ele, era só mais um detalhe.
Depois, voltou pra Buenos Aires, que foi quando comprou esse PH onde morava. Levou uma parte bem boa do que era dele no negócio dos celulares e deixou a empresa pros outros sócios, também incluindo os funcionários que ele tinha. E aí se aposentou. E desde então vivia ali, tranquilo, com a mulher dele, aproveitando os anos que a vida ia decidir que ele teria.
Eu olhava Olhava. Dava pra ver que ele era super saudável pra um cara da idade dele. Na real, a única coisa que entregava a idade, se a gente reparasse, eram só as rugas da pele e o cabelo totalmente grisalho. E, claro, o mundo de experiência que ele carregava suave naqueles olhos azuis, doces e amorosos. Eu não precisava ter visto as fotos que ele às vezes me mostrava, dava pra ver que ele tinha sido bem, mas bem gato quando jovem. Dava pra ver pelo jeito que ele envelheceu, bem e mantendo aquela cara alegre e atraente, e pelo jeito que ele se comportava o tempo todo. Com segurança, com confiança, mas também com carinho e compreensão. Não era só um prazer pra mim ouvi-lo, com a calma e paz que ele me transmitia. Também era um prazer perceber como ele me ouvia quando eu falava, prestando atenção em tudo que eu dizia, até nas piadas, e me dando um sorriso suave, ouvindo, entendendo, e sempre me devolvendo algo doce e sábio que eu não esperava e acabava me ajudando.
Uma vez, entre risadas, soltei algo tipo que ele devia ter pegado muita gente quando jovem, com aquele charme que dava pra ver nas fotos. Ele se cagou de rir e só me disse que tava empatado com a vida nessa área: ele não podia reclamar, e também nunca tinha recebido reclamações. Nós dois rimos.
No entanto, uma vez ele me fez ficar puta. Um dia voltei pra casa depois de fazer compras e encontrei um envelope deslizado por baixo da porta. Quando abri, tinha um cheque. Não vou dizer de quanto, não importa, mas era o suficiente pra eu não me preocupar com nada pelo resto do mês, pelo menos. E quando vi quem era o assinante, me deu uma raiva.
Fui na hora com o envelope na mão bater na porta do Leonardo. A velha amarga da mulher me atendeu, perguntei por ele e daí a pouco ele veio até a porta, já sorrindo. Eu tava séria e estendi o envelope pra ele pegar. Ele não pegou, ficou me olhando e sorrindo. Eu disse que agradecia, mas primeiro que era muito e depois que me dava vergonha receber caridade daquele jeito. Que eu já tava procurando emprego, que já ia conseguir. E que ia me virar sozinha, como tinha que ser, e que ele não tinha por que me ajudar, ainda mais desse jeito e com tanta coisa. E que eu não precisava de blá, blá, blá…
Ele só sorria. Quando terminei meu discurso, ele só falou: “Você tem razão, Trini”, e concordou com a cabeça.
“Ah, tá, viu que eu tenho razão…”, respondi satisfeita.
“Sim, mas me diz com a mão no coração que você não precisa disso…”, ele olhou bem nos meus olhos, “Fala sério, sem mentir pra si mesma, que você realmente não precisa, e eu aceito de volta. Sem problema nenhum.”
A gente se olhou e eu me emocionei que nem uma garota idiota. Pra ele não ver as lágrimas que já tavam escorrendo, eu abracei ele. E ele fez o mesmo, me segurando forte e ao mesmo tempo suave nos braços dele, ali na porta da casa dele, me dizendo que ia ficar tudo bem, que eu não me preocupasse.
Foi a primeira vez na minha vida inteira, juro, que quando alguém me disse que ia ficar tudo bem e que eu não me preocupasse, eu acreditei.
A gente começou a se ver e se encontrar com mais frequência. Muito mais frequência. Dia sim, dia não, ou a cada dois dias ele vinha em casa e trazia alguma coisa pra comer ou beber. Eu adorava ter a companhia dele, às vezes a tarde inteira até a hora do jantar. Conversando, rindo, passando o tempo, ele me ajudava com as coisas de casa… Uma vez eu perguntei se a mulher dele não ia ficar brava por ele passar tanto tempo comigo.
Ele só riu, como sempre fazia, quando a gente falava de algo que parecia importante, mas que pra ele não era e simplesmente escorregava. “A gente já tá de volta, Trini… imagina se ela vai fazer barulho por causa disso.”
Até que, claro, o que tinha que acontecer finalmente aconteceu. Nunca vou esquecer aquela tarde. A gente tinha sentado no sofá e ele tinha trazido um vinho dos que ele tinha em casa. Eu não entendo, nem nunca entendi, de vinhos. Mas tava uma delícia. Suave e com um gosto muito gostoso. O sol já tinha se posto e tava aquela penumbra linda da tarde. Noite lá fora. A gente ficou batendo papo no sofá, como sempre. Eu tinha pegado o controle da TV e ele, pra me mostrar a música que ele gostava, da época que ele era jovem e que eu não conhecia, foi me falando os temas ou artistas, e a gente ficou ali, conversando e curtindo o vinho e a música. Umas coisas não me pegaram muito, mas outras daquela época eu amei e achei lindas. E claro, ele sabia pra caralho de música.
Lembro que a gente vinha de uma fase de ouvir Carly Simon e Fleetwood Mac direto. E aí a gente tinha passado pra James Taylor. Foi um momento lindo. Não quero dar muitos detalhes, porque até hoje eu lembro e não sei se quero compartilhar. É muito íntimo pra mim, por tudo que significou com o que veio depois.
Mas a gente tava ali, os dois no sofá. Confortáveis, ouvindo música bonita e suave. Tomando um vinho gostoso e conversando. Até que eu me recostei um pouco no encosto do sofá, virando pra olhar pra ele enquanto ele tava me falando alguma coisa sobre a música que tava tocando. E nossos olhares se encontraram em silêncio. E como tinha feito aquele técnico que veio arrumar o cabo, minha primeira indiscrição nesse jogo da porta, daquelas coisas que a vida te dá de presente às vezes, o Leonardo fez a mesma coisa. Ele me olhou, eu vi que ele se perdeu nos meus olhos e com a mão suave, em silêncio, afastou um pouco meu cabelo comprido do rosto. A gente sorriu um pro outro, meio envergonhados e meio cúmplices, e logo eu me aproximei devagar e a gente começou a se beijar.
Aí eu quero parar. Quero que o resto seja só meu e espero que vocês entendam. Não tô fazendo isso pra me fazer de misteriosa ou pra criar suspense, não. Tudo que eu contei até agora dos outros caras que eu peguei, falando de pica e tudo mais, com o Leonardo eu não vou fazer porque isso é meu. Não é de vocês. Paro aqui e faço isso porque naquele momento foi quando eu encontrei o homem que eu amo. Que eu amo com toda a minha vida, com todo o meu ser. Aquele que me faz sentir bem, nem mais nem menos. Às vezes acontece e não tem muito preâmbulo, não precisa correr rios e rios de tinta pra explicar. Naquele momento eu me apaixonei, perdidamente, pelo Leonardo. E ele por mim. Não tem nada pra explicar. Tentar explicar era como tentar explicar por que a água molha.
Leonardo demorou meses pra se divorciar da mulher. Meses que foram pra nós dois às vezes melhor e às vezes pior, mas sempre bom. Eu, por sorte, já tinha finalmente conseguido um emprego, tava tudo melhor e mais estável na minha vida. Quando acabou a separação dele (e toda a história da separação dele com a Estela, essa sim é outra história longa de capítulos como essa, que não vem ao caso agora), Leonardo vendeu o apartamento dele e se mudou pro meu, e assim começamos a morar juntos. Com o que ele tirou da parte da venda, mais um pouco de grana que já tinha, no ano seguinte comprou o apartamento onde estávamos e resolvemos de vez o problema do aluguel.
Perguntei se ele não tinha exagerado um pouco na questão da grana e da compra do apartamento. Se não tinha gastado toda a grana nisso. E de alguma forma, em mim. Ele só sorriu sozinho. E não tocou mais no assunto.
Tive que me acostumar, sim. Reconheço que fiquei várias semanas, no começo do nosso relacionamento, juntos como casal, morando debaixo do mesmo teto, até que aquele vestido novo me serviu. Por mais idiota que pudesse parecer, eu sentia vergonha às vezes quando saíamos ou íamos pra algum lugar, que claro todo mundo olhava pra gente ou pensava que eu era a filha. Ou a puta que o velho tinha pegado, se eu me arrumasse demais. Isso me dava uma baita insegurança. A Roxy dizia que eu era uma otária por pensar assim, mas não tinha jeito. Mexia comigo.
Até uma noite que a gente tinha acabado de fazer docinho o amor com meu velhinho. A gente tava na nossa cama e eu montada em cima dele. Já sem me penetrar, só sentada de pernas abertas sobre ele. Enquanto ele me olhava suave e as mãos dele percorriam minha pele, acariciando a sua neném. Foi aí que eu Finalmente me deu vontade e falei pra ele. Sobre como eu achava que a gente se via, sobre a insegurança que eu realmente tinha, sobre o que os outros iam pensar…
“Você gosta de mim?”, ele perguntou.
“…Eu te amo…”, falei baixinho, olhando firme pra ele.
“E eu te adoro…”, ele disse com aquele sorriso matador. De repente, fez um gesto com as mãos que me assustou, tipo um passe de mágica na frente dos meus olhos, como um mágico revelando um truque. “Puffff!”, ele falou e riu, “…e todo o resto não importa.”
Porra, que homem lindo, quero chorar.
Quando contei pra Roxy que tinha começado a sair com o Leonardo e, pior, quando confessei o quanto tava apaixonada, ela começou a me zoar sem parar, do jeitinho dela. Enchia meus chats com fotos de velhinhos. Mandava foto de bengala. Dizia que já tava me vendo passando as férias em Chapadmalal ou algum lugar assim. Mandava link daqueles sites que vendem Viagra barato. Filha da puta, como ela me fazia rir.
Mas a música mudou na noite que convidei ela pra jantar em casa, pra finalmente conhecer ele pessoalmente. Eu não tinha mandado nem uma foto pra Roxy ainda. Nada. A gente se divertiu pra caralho. E essa otária, em dez minutos, já tava toda boba com o Leonardo, os dois conversando como se se conhecessem a vida inteira. Já tinham virado parceiros, numa boa. E eu já via nos olhinhos dela como o Leonardo estava bagunçando todos os parafusos dela, sem fazer nada, só sendo ele mesmo, do mesmo jeito que fez comigo. E a Roxy se mijava toda vez que ouvia ele falar e ficava toda boba sorrindo pra ele. Eu morria de rir.
A idiota às vezes ia pra cozinha, deixando a gente sentado na mesa, e de lá fazia caretas pra mim. Falava sem emitir som e eu, lendo os lábios dela, via a cara de espanto que ela fazia pra mim, fora da vista do Leonardo, me dizendo em silêncio.... bocetudaaaaaaaaa….E ela fazia gestos obscenos com a mão e a língua dentro da boca, simulando uma chupada de pau.
E eu morria de rir. Era exatamente o que estava faltando. A felicidade de poder rir, e a paz que o Leonardo me dava de me sentir amada. Adoro satisfazer meu homem, meu velhinho lindo, meu Leo, porque só quero retribuir tudo o que ele me proporciona, de corpo e alma. Sim, claro que a diferença de idade existe e não vai desaparecer. Ele é mais de quarenta anos mais velho. E isso é visível. Mas não se nota quando a gente se ama e transa com frequência. Vocês já sabem de tudo o que fiz, contei nessa história, mas com o Leonardo era diferente. Era um fogo lento que me cozinhava por inteiro. Nunca antes um homem tinha me satisfeito assim, desse jeito. Suave e forte ao mesmo tempo. Ele sabia muito, mas muito bem como satisfazer uma mulher e fazê-la se sentir desejada e amada, seja toda arrumadinha e sexy para ele na intimidade do nosso quarto… ou de moletom e pantufa na cozinha.
A Roxy acabou conhecendo um magrelo e a muito idiota acabou engravidando. Falo “muito idiota” porque é o que se diz, mas na verdade não. Ela quis ter, eles quiseram ter. Não são casados nem nada. O cara se chama Alan. Coitadinho, é um bocó, mas é bonzinho. Vai saber por quê, mas a Roxy adora ele. Morre por ele. Não foi fácil porque a minha Roxy teve uma gravidez muito, muito complicada, mas por sorte ela conseguiu levar até o fim. E agora eu virei uma babona idiota de merda quando nos fins de semana eles vêm e trazem nosso sobrinho, o Lucas. Babo por ele. Morro, morro, morro pelo lindo do meu sobrinho. E o Leonardo também… põe ele no colo, brincam, fala com ele o tempo todo…
A Roxy e eu nos olhamos às vezes enquanto nossos dois homens, tão, mas tão diferentes, estão aqui em casa. O Leonardo com o Luquinhas no colo, explicando como se deve viver a vida para o Alan, que escuta e concorda. Que bocozinho… mas a gente gosta dele. Tomara que o Alan escute. mesmo que seja uma fração do que o Leonardo sempre fala pra ela. Ele enche ela de lições.
E eu só desejo, olhando pra eles assim, que se eu tiver espaço pra pedir mais um milagrinho na minha vida, só um e não peço mais, que um dia eu possa ver o Leonardo sentado ali, segurando o nosso. Nosso milagrinho.
Do jogo da porta? Não sei mais o que posso dizer. Joguei, me diverti no começo e depois complicou pra caralho. Mas dessa complicação nasceu essa felicidade que carrego comigo e não vai embora. Muito tempo depois que fiquei com o Leonardo, quando já tinha confiança total nele, uma noite que a gente tava tendo uma daquelas nossas conversas longas e lindas… eu contei. Contei o que tinha feito. Tava morrendo de medo de contar e ele descobrir. Que ele soubesse a puta que eu tinha sido. Mas não escondi nada. O Leonardo não merecia que eu escondesse algo dele. Tava com medo, muito medo, de contar tudo e ele pensar que eu era uma puta, assustando ele igual fiz com o Mateo. Ou que por uma coisa ou outra ele ficasse puto e decidisse me largar, que nem o Ariel fez.
Quando terminei de contar tudo sobre o jogo, com todos os detalhes, vi ele dar um gole bom na taça de vinho que tinha e ficou me olhando. Só me olhando, meio sério. Eu já tava morrendo de medo do que ele ia falar. Finalmente, depois de um silêncio constrangedor, com o dedo indicador ele apertou meu umbigo pra fazer cócega e só me disse…
“… bom, e quem ganhou?”
3 comentários - O Jogo da Porta - Parte 9 (final)