Aqueles dias foram estranhos, e eu me senti estranha também. Fora de foco, meio desencaixada. Como se as peças do quebra-cabeça que me montavam não encaixassem direito e não entrassem.
Os dois dias depois que Mateo veio em casa, eu mandava mensagem pra ele pra ver se queria se encontrar de novo, e ele dizia que não podia. Eu sentia ele evasivo. Pra isso ele tinha pedido meu número? Pra não fazer nada? Eu tava morrendo de vontade de ver ele de novo, e se ele falasse em sair pra algum lugar, eu já pensava que ia aceitar, que ia dar um jeito de pilotar com o Ariel. Falar que tava saindo com a Roxy, ou que ia na casa dela, qualquer coisa, mas eu tava morrendo de vontade de me ver com o Mateo de novo.
E mesmo assim, ele não parecia dar muita bola pra mim e me evitava diplomaticamente toda vez que eu sugeria algo. Já era? Ele tinha me comido e já era? Nada mais? Então pra quê todo aquele papo que ele me deu, que ficava triste por eu ter namorado e tal? Não entendia. No terceiro dia, resolvi não mandar mais mensagem pra ele, pra ver o que ele fazia… e o que ele fez foi não me mandar nada. Silêncio total.
Fiquei muito triste, mas pior era não entender o que tinha acontecido, no que ele tava pensando. Por que ele tinha se aberto tanto e se afastado assim, do nada, depois de a gente ter ficado junto tão lindo e tão doce… pelo menos pra mim tinha sido. A gente não tinha se divertido? Ele não? Isso era mais uma das coisas que ficavam rodando na minha cabeça, sozinha em casa, enquanto a campainha não tocava. Pelo menos a Roxy também não me reportava nenhum gol. Eu não conseguia chegar perto. Assim que eu marcava, ela de algum jeito também marcava e eu nunca conseguia me aproximar. Isso também mexia um pouco comigo, mas eu sabia que no fundo era besteira. Não sei por que deixava isso me afetar tanto às vezes.
Mas naquele dia, na verdade naquela noite… aquela puta, maldita noite… foi quando tudo começou a desfiar de verdade. A se despedaçar. E me pareceu que tudo tinha acontecido tão de repente… e foi tão, mas tão forte pra mim que eu não Eu soube lidar.
Naquela noite, Ariel chegou tarde. Atipicamente tarde, quase duas horas depois do horário que ele sempre chegava. Não só isso, quando chegou em casa, em vez de abrir a porta com a chave, senti ele batendo na porta. Quando abri, vi que ele estava segurando precariamente um par de caixas grandes, daquelas de arquivo de papel, cheias de várias coisas.
“... me ajuda...”, ele disse. Peguei uma pra facilitar pra ele e entramos tudo na sala.
“O que aconteceu? O que é tudo isso?”, perguntei. A caixa que eu tinha pego estava cheia de tranqueiras. Papéis, cartolinas, pastas…
“Nada, pro trabalho...”, ele disse e largou as caixas na mesa da sala, recuperando um pouco o fôlego.
“Beleza, ok...”, falei e comecei a andar pra cozinha, “... ainda bem que não comecei a comida, que tarde você chegou….”
Ouvi ele atrás de mim na cozinha, servindo algo pra beber da geladeira enquanto eu começava a esquentar algo pra comer, “É… passei na casa da Roxana pra pegar tudo isso…”
Eu fiquei dura. Petrificada onde estava. O sangue gelou e fiquei ali, parada, olhando pro nada. Pra pia, pros pratos. Pras mãos que sentia se crispando sozinhas um pouco e começando a tremer, fora da vista do Ariel.
“... o quê?”, perguntei baixinho sem olhar.
“É… precisava disso pra semana que vem… sabe que ela tá com toda a parada de livraria e tal…”, ouvi ele dizer.
“... o quê?”, repeti. As coisas que estavam vindo na minha cabeça, as imagens, não consigo descrever. Eram ondas, uma atrás da outra.
Me virei e Ariel me olhou, com o copo de refrigerante na mão, “Que, o quê?”
“Ela te ligou?”, perguntei.
Ariel estranhou só um pouco, “Não? Eu perguntei pra ela de tarde se tinha algo disso e falei que passava depois do trampo…”
Eu já estava me agitando. Devagar, crescendo, mas já senti um monte de emoções brotando. Raiva. Ciúmes. Tristeza. Dor… “... você tocou a campainha dela?”, perguntei olhando fixo pra ele, com a minha Franzindo a testa.
“Eh?!”, ele me olhou estranho, entre o bizarro (pra ele) da pergunta e como ele tinha me visto, como meu semblante e minha vibe estavam mudando.
“Me responde, você tocou a campainha?!”, rosnei pra ele.
“Ué… sssim, sua burra… como você queria que eu entrasse, pela janela?”, ele me olhou, “Qual é o seu problema?”
O pano de prato que eu tinha na mão, joguei pra merda, no chão de raiva. Senti o sangue ferver e fechei os olhos, percebendo na hora como eles ficavam molhados. Não podia ser. Não podia ser verdade, não. Não a Roxy. Não minha Roxy, não… Soluçando, deixei o Ariel ali na cozinha e corri pra me trancar no meu quarto, enquanto ele me chamava de lá, sem entender nada do meu comportamento e da minha reação.
Me joguei na cama e comecei a socar o colchão, pra me aliviar. Todos os nervos do meu corpo estavam gritando, minha respiração ficou ofegante e eu já sentia minhas bochechas molhadas de lágrimas.
Fiquei assim por um minuto até que, um pouco, me acalmei, e me deitei na cama, de bruços, chorando de raiva, baixinho pra que o Ariel não me ouvisse. Chorando de ódio, de raiva, de dor. Logo senti o Ariel abrir a porta e espiar pra dentro, sem enfiar a cabeça, “Você tá bem? O que houve?”, ele perguntou suavemente.
“Nada… vai embora…”, falei entre soluços, como consegui.
“Não, como assim…”, ele começou a dizer, mas de raiva eu tirei uma das sandálias que tava usando e joguei nele.
“Vai embora, eu falei!!!!”, gritei alto e vi ele fechar a porta rápido, deixando a louca da namorada dele ali, com o que quer que estivesse rolando com ela.
Depois de uns momentos ali sozinha, chorei o que tinha que chorar e me acalmei, mas a raiva não tinha ido embora. Pelo contrário, tinha aumentado. A dor também. Não que o Ariel me importasse… eu já tava, meio zoando, meio sério, há meses me dizendo que se ele quisesse ficar com outra, que ficasse. Que não ia me foder muito, com o pouco que ainda gostava dele.
Mas que ele tivesse feito isso com a Roxy… isso era um Punhal. Era a adaga fria que eu sentia no coração. Não, no coração não, nas costas. Porque era uma traição. Uma traição que me matou. Não ia adiantar nada mandar mensagem pra Roxy agora, ela ia negar. Se não falou nada quando Ariel disse à tarde que ia. Claro. Claro que ia negar, igualzinho o Ariel faria agora, se fazendo de sonso se eu perguntasse ou falasse algo. Não ia ganhar nada. Ficava pensando em todo o amor que eu tinha pela Roxy, e como ela pisou em cima assim, aparentemente tão fácil. Não era o fato de ter sido o Ariel, ele já nem me importava mais. Era o fato de ela ter se metido com algo meu. Sei lá, é difícil explicar. Sempre pensei que, por mais que eu quase nem quisesse mais o Ariel, ele era algo meu. Fora dos limites. Tivesse jogo ou não, não importava.
Então era assim que essa filha da puta ia me tratar? Assim? Recorrendo a essas coisas pra fazer gol? Caindo tão baixo? Não tinha recebido mensagem nenhuma dela gritando o gol, só faltava essa. Gritando o gol com quem era, ainda por cima, meu namorado que morava comigo.
Vocês vão me dizer: "Ah, Trini, para de encher o saco... O Ariel não só não te importa mais como você vive chifrando ele na primeira oportunidade." Sim, eu sei. Sei como parece de fora. Mas eu não sentia assim. Não com o Ariel. Não com a Roxy. Principalmente não com a Roxy.
Começaram a vir imagens na minha cabeça, enquanto eu continuava largada na cama, de como tudo devia ter se desenrolado. O idiota do Ariel, sem saber, tocando a campainha, e essa filha da puta abrindo a porta bem gostosa... bem puta... bem puta... O babaca do Ariel ficando besta com aqueles peitos, aqueles peitos que em casa ele não tinha, e com aquela menina melosa que se jogava em cima dele. Filha da puta. Filha de uma puta.
Vi na minha cabeça como eles se beijavam e começavam a se curtir. Abraçadinhos, trocando palavras. Ariel sentindo aquele corpanzil de mulher gostosa que a Roxy tinha, e essa filha da puta dando pra ele. Dizendo que agora ele podia ter uma mulher de verdade, que ia amar e satisfazer ele. E o outro idiota perdido nos olhos dela, e as mãos dele perdidas no corpo dela.
Roxy satisfazia ele, chupava ele bem, dando todo o prazer que eu não dava, a satisfação que ele já não tinha e tinha encontrado ali, nos braços, na boca e no corpo da minha melhor amiga. E ela também adorava. E ria por dentro do golpe que estava me aplicando com cada chupada gostosa, com cada gemido suave do Ariel.
Quando os corpos deles se uniram, eles se comeram gostoso. Com intimidade, com amor, soltando a paixão que já tavam sentindo um pelo outro há um tempão. Os corpos se juntavam, Ariel a preenchia e dava prazer uma vez atrás da outra, curtindo, gemendo bem alto os nomes um do outro sem parar. Até que Roxy começou a gozar doce e profundo, se entregando toda pra ele. E ele, ao mesmo tempo, também se esvaziava com o prazer mais doce e enchia ela com o sêmen e o amor dele, aquele que ele não me dava...
Voltei a mim. Quase no escuro. Minhas bochechas ainda estavam molhadas. Ouvia baixinho a TV que Ariel tinha ligado na sala e devia estar vendo. Comendo alguma coisa. Tinha me deixado ali, como eu tinha gritado pra ele fazer. Sim, perfeitamente podia sair do meu quarto e falar com ele. Confrontá-lo. Me dizer o que realmente tinha acontecido.
Mas sabia que ele era um cagão que não ia fazer isso. Ia negar tudo. Uma parte de mim ainda estava um pouco sensata. Me dizia, me implorava, pra não ser tão dura com a Roxy. Que eu realmente não sabia de nada e que perfeitamente podia não ter rolado nada. Que era injusto julgar a Roxy assim, sem saber, e imediatamente me imaginar e encher a cabeça com absolutamente o pior. Com aquela baixeza, com aquela traição.
Não saí do meu quarto até dormir, remoendo raiva e pensando no que fazer.
No outro dia acordei, ainda puta. Vi que Ariel já tinha ido pro trabalho. Nem me acordou nem falou nada. Tinha me deixado lá dormindo e foi embora. Tranquila, tomei café e sentei pra pensar no que fazer. Fiquei a manhã toda remoendo o assunto na minha cabeça. Eu não tinha mandado nenhuma mensagem pra Roxy e ela também não. Estranho. Suspeito. Não queria falar comigo? Era isso? Não sabia o que me dizer? Não sabia que eu sabia? Ou eu tava realmente imaginando tudo isso, criando um filme incrível sozinha?
Tinha um único jeito de saber. À tarde, só depois de comer, saí de casa, peguei o busão e fui até o apartamento da Roxy no Boedo. Fui decidida, séria, remoendo raiva ainda, antecipando o que ia falar pra ela. Quando cheguei, toquei a campainha elétrica e falei que era eu. Na hora ouvi ela chiar e empurrei a porta, entrando rápido e com raiva no elevador.
Ao chegar no andar dela, já tava me esperando com a porta meio aberta, eu andava rápido e com os punhos cerrados, não sei se ela percebeu, mas me sorriu: "Que que cê tá fazendo, bicha... não me falou que vinha..."
Eu meio que Empurrei a porta e ela se afastou um pouco. Entrei e quase bati a porta com força. Roxy me olhava meio preocupada. Não sabia se ela já tinha entendido ou se não fazia ideia e eu tinha feito merda pra caralho. Fiquei encarando ela com raiva, sentia minha respiração acelerando sozinha.
“Trini, o que foi? O que aconteceu?”, ela perguntou. Se aproximou de mim, não sei se pra me tocar, me abraçar ou o quê, do jeito que eu tava alterada, mas eu afastei a mão dela.
“… me fala que você não fez isso…”, falei baixinho, mas olhando pra ela com ódio.
Vi que a cara dela mudou na hora, desabou toda a expressão e ela não sabia o que dizer. E não importava o que ia falar, pensei. Naquele segundo, aquela cara já tinha me contado tudo e eu me despedacei por dentro. Deu uma vontade de chorar que quase não me segurei.
“Que… que foi que eu fiz? O que tá rolando?”, se fez de sonsa.
“… me fala que você não fez isso, eu te falei…”, repeti com raiva.
Roxy ficou dura, me encarando, tentando achar o que dizer.
“Bichi, calma… que…”
“Não me chama de bichi, vaca.”, cuspi pra ela. Com raiva. Com ódio. Com dor.
“Calma, o que foi?”
No fim, engoli seco e dei um passo pra perto. Ela recuou quase por instinto, “… me fala que você não comeu o Ariel…”
“O… o Ariel…?”, ela perguntou num tom que não me convenceu nada, “Que isso…”
“Sei que ele veio. Sei que veio aqui e tocou a campainha. Ele me contou.”, rosnei.
Roxy só ficou calada, sem saber o que fazer e o que me dizer. Eu insisti, “… então me fala que vocês não transaram…”
“Trini, não… eu…”, gaguejou.
“Vai, fala”, apressei.
Depois de um tempão, mas tempão mesmo, nos encarando, eu com raiva e ela cada vez mais perto de desabar no choro, ela falou “… não… não posso.”
“Não pode o quê!”, quase gritei.
“… não posso te falar isso…”, respondeu baixinho.
Eu explodi. O sangue fervendo como panela de pressão, juro. Vi tudo vermelho. Dei um passo pra frente e tentei dar um tapa nela, que ela desviou e eu vi ela entre assustada e de repente puta pelo que eu fiz. Acabava de fazer, "Ai, estúpida, o que foi?! Para!!!!", ela gritou pra mim.
"Você é uma filha da puta!", gritei bem alto.
"Mas para, maluca, para, se acalma!!!"
"Vadia de merda!", gritei de novo, já tava chorando, sentia minhas bochechas molhadas, mas só via a Roxy na minha frente e como queria moer ela de porrada, "Você comeu meu namorado, filha da puta! Tão importante é esse jogo de merda pra você? Pra me foder assim!"
A Roxy não gostou de eu falar daquele jeito na hora. Nós duas tínhamos nosso gênio, quando explodíamos, e ela já não aguentou mais. Ficou meio desafiadora, não recuava mais, e começamos a gritar quase na cara uma da outra, "Mas para de fazer escândalo, RETARDADA!", ela cuspiu pra mim, "Agora você se importa com o idiota do Ariel? Para de me encher o saco!", ela falou e fez um gesto meio desaforado com a mão que eu não curti nada.
"O que você tá dizendo!?"
"Vai tomar no cu, imbecil…", ela soltou, já visivelmente puta também, "Você vem aqui me xingar… ai, meu namorado! Meu namorado! Você comeu meu namorado!… mas cresce de uma vez, retardada!"
Eu respirei fundo, com uma raiva que bufava, "O que você disse pra mim?!"
"O que você ouviu, VADIA!", ela gritou, "... você engole qualquer pinto que bate na sua porta e vem se fazer de ofendida comigo agora?! Ainda mais por um cara que você já nem liga mais! Vai tomar no cu! Retardada! Hipócrita!"
"Puta de merda!", eu quis gritar, mas de tanta raiva saiu um guincho, "É o Ariel! Como você vai dar pra ele? Como você vai fazer isso comigo?!"
"Mas chupa minhas tetas, idiota! Tá falando sério?!", ela bufou pra mim.
"É o Ariel! Não tem nada a ver!", respondi alto, "Que… se um dia meu pai bater na sua porta, você dá pra ele também?!"
Roxy me olhou com raiva e não resistiu. Foi mais forte que ela, acho. Tinha que mandar o comentário idiota e afiado pra terminar de me fazer explodir, "… bom, teu pai sempre me deu vontade. Desde pequena…"
Eu dei um passo e empurrei ela com as duas mãos, que acho que se ela tivesse de salto alto como naquela foto que tinha me mandado, ela Tivesse mandado o piso pra puta que pariu. Mas só tropeçou e se segurou. Me olhou soltando faísca pelos olhos e veio pra cima de mim. E eu também fui pra cima dela. Logo em seguida a gente tava gritando igual duas porcas sendo carnear ou algo assim, puxando uma pelos cabelos compridos da outra e xingando pra todo lado. Nem lembro direito nessa confusão tudo que aconteceu, mas a gente se agarrou MUITO forte, tentando dar socos, arranhões, jogar uma a outra no chão… o que viesse. Nenhuma das duas sabia brigar, mas isso não significava que a gente não queria. No nosso agarramento e loucura, até viramos um par de cadeiras e derrubamos uma mesinha que ela tinha na sala com garrafas que, por sorte, nenhuma quebrou.
A gente deve ter ficado uns dois minutos assim, sei lá, não saberia dizer se é muito ou pouco. Mas quando as duas mais ou menos voltamos ao normal, estávamos ambas escarrapachadas, de bunda no chão, chorando e tentando recuperar o fôlego. Começou a arder meu ombro e quando olhei, tinha um arranhão muito, muito feio. Muito comprido e que abriu minha pele bastante. E ela também não saiu ilesa, acho que mordi o braço dela ou algo assim, porque ela se segurava e soluçava, me olhando entre lágrimas. Meu lado esquerdo doía pra caralho, nas costelas. A Roxy tinha se empenhado em tentar me acertar ali e eu sabia que vários golpes dela tinham pegado. Entre as lágrimas e o tanto que a gente tinha se puxado pelos cabelos, parecíamos duas bruxas.
Mas a gente já não falava nada. Estávamos as duas no chão, gemendo baixinho e soluçando, nos olhando pra ver quem ia falar alguma coisa primeiro. Não era a primeira vez que a Roxy e eu tínhamos um agarramento assim, já tinha acontecido, mas nunca desse tamanho. Quando éramos pequenas, sim, com certeza, às vezes uma mãe ou outra (ou as duas!) tinham que nos separar, alguma vez, por algum motivo. Em meia hora a gente já tava se amando de novo.
Mas agora a gente era grande.
Olhei pra Roxy, toda acabada como estava, e eu me sentia igual. E Claro, eu devia estar parecendo a mesma coisa. Olhei pra ela com tristeza, com ódio, enquanto as lágrimas continuavam caindo, igual nela. Ela me encarava como se esperasse que eu dissesse alguma coisa, qualquer coisa, mas a única coisa que fiz depois de um tempo foi me levantar com dificuldade e ir até a porta, sem falar nada.
Quando abri a porta pra ir embora, ouvi ela atrás de mim, vi que ainda estava largada no chão. Ela me olhava entre lágrimas e disse soluçando: “... Trini… não vai não… por favor…”
Eu só gritei bem alto, sentindo os tendões do pescoço tensos, com toda a raiva que ainda tinha: “VOCÊ É UMA FILHA DA PUTA!”
A última coisa que vi da Roxy antes de bater a porta e sair foi que ela tinha enterrado o rosto no sofá onde estava apoiada, e ouvi um choro desolado.
Quando cheguei no térreo, por sorte o porteiro do prédio estava lá e me abriu. No ônibus, eu voltava chorando baixinho, sem fazer barulho, mas as lágrimas caíam enquanto eu olhava perdida pela janela. Uma senhora que viajava do lado ficou preocupada e me perguntou se tinham tentado me roubar ou algo assim, de tão bagunçada que me viu chorando. Falei que não, que obrigada, que ficasse tranquila. Por sorte ela não perguntou mais.
Quando cheguei em casa, limpei o arranhão que tinha no ombro e vi que estava com uns bons hematomas nas costelas. Mas a raiva já tinha baixado bastante e me dediquei a me cuidar em silêncio. Coloquei uma camiseta comprida que tampava tudo e me arrumei de novo. Não esperava que o Ariel percebesse nada quando voltasse, e foi exatamente isso que aconteceu.
Claro que não conseguia tirar a briga da cabeça. Nem a Roxy. E, mesmo que ainda achasse uma puta traição e uma merda o que ela fez, a raiva, devagar como a maré que vai baixando, bem lentamente, foi se dissipando. Não tinha desaparecido, mas tinha descido a um ponto que não me dominava e não me fazia perder a cabeça. Nem chorar. Eu sabia que não ia demorar muito. tempo até que a Roxy me ligasse, mandasse mensagem ou algo assim. E aí eu veria como lidar com isso.
No terceiro dia, a Roxy ressuscitou dos mortos. Do nada, de manhã, me mandou um GIF de duas minas de anime se pegando. Apesar da raiva, tenho que admitir que arrancou um sorriso de mim. Ela começou a me mandar mensagem, mas eu não respondia. E não ia responder por um bom, bom tempo.
Eu queria que ela sofresse um pouco. Pelo menos, um pouco mais. Tranquila, fiz algo pra comer, esquecendo do WhatsApp e da quantidade de fotos de gatinhos que ela devia estar me mandando, até que lá pelas duas eu só mandei: "Vem".
O dia tinha sido uma merda desde cedo, e desde o meio-dia tava chovendo pra caralho. Caindo um toró. Uma daquelas tempestades fortes que pareciam não ter fim. Tempestades que dão vontade de ficar debaixo de dois cobertores e dormir o dia inteiro. Mas às três e meia a campainha tocou.
Quando fui abrir a porta da rua, lá estava a Roxy. Não tava encharcada nem nada, tava ali debaixo do guarda-chuva dela. Meio molhada, claro, por ter caminhado do ponto onde o ônibus largou ela, mas não tava pingando nem perto disso. Eu tava com um biscoito de polvilho na mão, mordendo devagar e olhando pra ela sem falar nada. Ela parada ali, na chuva debaixo do guarda-chuva, também me olhando.
"O que você quer...", falei séria.
"Passar, porra... não tá vendo que tá chovendo?", ela respondeu.
Eu queria deixar ela ali mais um tempinho. E por sorte fiz isso, já que, como vingança ou justiça divina, veio uma rajada de vento de lado que respingou nela e fez ela soltar um xingamento baixinho.
"Vai logo...", ela disse, "Tá filmando uma cena de filme ou o quê?"
Esperei mais uns segundos, que curti pra caralho, até que me afastei um pouco, abri a porta e deixei ela entrar.
Em casa, ela foi pegar uma toalha no banheiro pra se secar um pouco, enquanto se sentou no sofá. Já tinha tirado os tênis e as meias molhadas. Eu tava de pé e a gente só se olhou. Falei com um tom seco: "Quer alguma coisa?"
"Fala sério... tá bem..."
"Você podia ter trazido alguma coisa, né?", me virei e fui pra cozinha. Ouvi ela dar uma risadinha, e eu também, sem ela ver, sorri.
Peguei duas xícaras de café quente e o saco com o resto dos biscoitos. Aí sentamos no sofá, tranquilas, enquanto a chuva A chuva batia no pátio.
A gente falou um monte de coisas. Ficamos conversando por um bom tempo. E dissemos tudo o que precisávamos dizer. O mais importante: que não íamos deixar o Ariel nem nenhum outro babaca estragar nossa relação, que não valia a pena. Não sei se as coisas estavam melhorando entre a gente naquele momento, eu não sentia muito, até que vi ela pegar o celular e procurar alguma coisa.
“Olha… olha o que minha mãe me mandou ontem… que ela achou por acaso…”, ela falou e começou a me mostrar umas fotos. Eu me surpreendi e não consegui evitar que um sorriso suave aparecesse nos meus lábios. Era eu. Fotos antigas de quando éramos mais novas. Eu nem lembrava mais dessas fotos.
Roxy nem me olhava, tinha os olhos grudados nas duas fotos. Ficava passando de uma pra outra sem parar.
"Ufa… nem lembro disso…", falei.
"Eu lembro", respondeu sem me olhar, "Essa é em casa… que tirei com aquela câmera digital que eu tinha."
"Ué… quantos anos a gente tinha?", perguntei.
"Catorze. Lembro. Você vinha em casa fazer a tarefa… e depois a gente vagabundeava a tarde inteira. Em casa, ou na praça… lembra?", sorriu sozinha.
"Mmm-hmm…"
"E essa… essa é do meu aniversário de dezesseis, mas você ainda tinha quinze por uns meses… olha o que você era, Deus…", disse sorrindo e olhando nos olhos da menina da foto, "Você tinha me dado de presente aquela porra que eu nem sabia o que era…"
"… era um arranjinho de flores, escolhi com minha mãe…", comentei baixinho.
"É… e eu fiquei meio brava porque queria outra coisa, mas fazer o quê, você me trouxe aquilo, sei lá. Mas depois, de noite…"
"O quê?"
Roxy continuava sem me olhar, os olhos já tinham viajado quase quinze anos atrás, e estava com a menina da foto, "… depois de noite, quando fui deitar, coloquei ele no meu criado-mudo. E ficava olhando… apaguei a luz e ainda dava pra ver um pouquinho. E ficava olhando… e me fazia bem, me fazia feliz, porque me lembrava de você… e sentia que você estava ali comigo… meu pai já tava meio doente… mas você estava ali comigo, no arranjinho… e sentia que você me abraçava e me cuidava mesmo sem estar…", disse engolindo seco e as lágrimas começaram a jorrar como duas torneiras abertas, olhando pro celular, "… e v-você é minha vida, meu anjo, meu sol… s-sempre foi… quando penso no que te fiz, n-no que fiz, quero me matar, Trini… não sei o que deu em mim, em que eu tava pensando… eu…"
Quando levantou a cabeça do celular pra me olhar e continuar falando, eu já tinha as Cataratas do Iguaçu saindo dos meus olhos e um aperto no peito que não dava pra respirar.
A gente se olhou e se fundiu num abraço enorme, forte, e ficamos assim por uma eternidade, as duas chorando alto no ombro uma da outra. o pescoço da outra, alternando entre dizer tudo o que a gente se amava e pedir perdão, uma e outra vez, feito duas piranhas.
O resto da tarde chuvosa a gente passou ali, no sofá, vendo TV ou algum filme. A Roxy largada com a cabeça apoiada no meu colo, abraçando minhas pernas e eu acariciando aquele cabelo lindo que ela tinha, enquanto a gente comia bolachinhas. E quando eu cansava, a gente trocava e era eu que me deitava nas pernas dela, comendo bolachinhas, sentindo os dedos dela passarem de leve no meu cabelo… e sem olhar, eu dava um tapa na mão dela quando, mais ou menos a cada meia hora, ela deslizava a mão discretamente pra querer apertar um peito meu.
Ficamos assim e o tempo passou. Passou tanto que a gente nem percebeu e o Ariel voltou do trabalho. Quando ele entrou e nos viu as duas ali, ficou duro, paralisado, feito uma estátua.
“Ué… eh… o que cê tá fazendo, Ro…”, só falou. Ele se fez de besta e sumiu um instante na cozinha, voltando com um copo de alguma coisa que tinha servido. Quando ele tentou puxar conversa, a Roxy se levantou.
“Vou embora, Tri, cê me abre?”, ela falou, calçando de novo as meias e os tênis que já estavam secos.
“É, bora…”
Quando ela ficou pronta, parou um segundo e olhou pro Ariel… com um olhar de puro desprezo que nunca mais esqueço. Sem falar nada com ele, sumiu pelo corredor enquanto eu a acompanhava.
Quando voltei, comecei a discutir feio, muito feio com o Ariel. Finalmente aconteceu a conversa e a briga que há muito, muito mais de um ano, a gente vinha adiando. Joguei tudo na cara dele e ele fez o mesmo comigo. A gente começou a se xingar e a gritar pra valer. Eu não falei do jogo, claro, mas na minha raiva eu disse que tinha transado com outro. E o filho da puta também, na raiva, me confessou que tinha estado com outra gostosa, uma terceira aparentemente no histórico de chifres dele, que eu nem sabia quem era. A discussão não chegou a ficar física, o Ariel não era um cara violento, felizmente, mas nós dois ficamos A briga e, no meio dos gritos pra desabafar, a gente acabou descontando um pouco nos móveis da casa, virando cadeiras e jogando coisas pra todo lado de pura raiva e frustração. Ficamos mais de meia hora gritando um com o outro até que, finalmente, ela me encheu de umas putarias lindas, coisas que eu nunca tinha ouvido ela falar na vida, e que me machucaram pra caralho. Sem pegar nada, disse que ia pro caralho, pra casa de um amigo que morava perto, e bateu a porta, indo embora.
Mais tarde, contei um pouco pra Roxy o que tinha rolado, ainda todo tenso por causa da briga com a Ariel. Ela disse que ia voltar a ficar comigo, tinha acabado de chegar em casa, mas eu falei que não, pra ela ficar de boa. Só queria me jogar na cama e dormir. Dormir muito e talvez sonhar que esses dias de merda, de emoções tão intensas quanto fodidas, um dia teriam que acabar.
E, às vezes, os sonhos se realizam.
Os dois dias depois que Mateo veio em casa, eu mandava mensagem pra ele pra ver se queria se encontrar de novo, e ele dizia que não podia. Eu sentia ele evasivo. Pra isso ele tinha pedido meu número? Pra não fazer nada? Eu tava morrendo de vontade de ver ele de novo, e se ele falasse em sair pra algum lugar, eu já pensava que ia aceitar, que ia dar um jeito de pilotar com o Ariel. Falar que tava saindo com a Roxy, ou que ia na casa dela, qualquer coisa, mas eu tava morrendo de vontade de me ver com o Mateo de novo.
E mesmo assim, ele não parecia dar muita bola pra mim e me evitava diplomaticamente toda vez que eu sugeria algo. Já era? Ele tinha me comido e já era? Nada mais? Então pra quê todo aquele papo que ele me deu, que ficava triste por eu ter namorado e tal? Não entendia. No terceiro dia, resolvi não mandar mais mensagem pra ele, pra ver o que ele fazia… e o que ele fez foi não me mandar nada. Silêncio total.
Fiquei muito triste, mas pior era não entender o que tinha acontecido, no que ele tava pensando. Por que ele tinha se aberto tanto e se afastado assim, do nada, depois de a gente ter ficado junto tão lindo e tão doce… pelo menos pra mim tinha sido. A gente não tinha se divertido? Ele não? Isso era mais uma das coisas que ficavam rodando na minha cabeça, sozinha em casa, enquanto a campainha não tocava. Pelo menos a Roxy também não me reportava nenhum gol. Eu não conseguia chegar perto. Assim que eu marcava, ela de algum jeito também marcava e eu nunca conseguia me aproximar. Isso também mexia um pouco comigo, mas eu sabia que no fundo era besteira. Não sei por que deixava isso me afetar tanto às vezes.
Mas naquele dia, na verdade naquela noite… aquela puta, maldita noite… foi quando tudo começou a desfiar de verdade. A se despedaçar. E me pareceu que tudo tinha acontecido tão de repente… e foi tão, mas tão forte pra mim que eu não Eu soube lidar.
Naquela noite, Ariel chegou tarde. Atipicamente tarde, quase duas horas depois do horário que ele sempre chegava. Não só isso, quando chegou em casa, em vez de abrir a porta com a chave, senti ele batendo na porta. Quando abri, vi que ele estava segurando precariamente um par de caixas grandes, daquelas de arquivo de papel, cheias de várias coisas.
“... me ajuda...”, ele disse. Peguei uma pra facilitar pra ele e entramos tudo na sala.
“O que aconteceu? O que é tudo isso?”, perguntei. A caixa que eu tinha pego estava cheia de tranqueiras. Papéis, cartolinas, pastas…
“Nada, pro trabalho...”, ele disse e largou as caixas na mesa da sala, recuperando um pouco o fôlego.
“Beleza, ok...”, falei e comecei a andar pra cozinha, “... ainda bem que não comecei a comida, que tarde você chegou….”
Ouvi ele atrás de mim na cozinha, servindo algo pra beber da geladeira enquanto eu começava a esquentar algo pra comer, “É… passei na casa da Roxana pra pegar tudo isso…”
Eu fiquei dura. Petrificada onde estava. O sangue gelou e fiquei ali, parada, olhando pro nada. Pra pia, pros pratos. Pras mãos que sentia se crispando sozinhas um pouco e começando a tremer, fora da vista do Ariel.
“... o quê?”, perguntei baixinho sem olhar.
“É… precisava disso pra semana que vem… sabe que ela tá com toda a parada de livraria e tal…”, ouvi ele dizer.
“... o quê?”, repeti. As coisas que estavam vindo na minha cabeça, as imagens, não consigo descrever. Eram ondas, uma atrás da outra.
Me virei e Ariel me olhou, com o copo de refrigerante na mão, “Que, o quê?”
“Ela te ligou?”, perguntei.
Ariel estranhou só um pouco, “Não? Eu perguntei pra ela de tarde se tinha algo disso e falei que passava depois do trampo…”
Eu já estava me agitando. Devagar, crescendo, mas já senti um monte de emoções brotando. Raiva. Ciúmes. Tristeza. Dor… “... você tocou a campainha dela?”, perguntei olhando fixo pra ele, com a minha Franzindo a testa.
“Eh?!”, ele me olhou estranho, entre o bizarro (pra ele) da pergunta e como ele tinha me visto, como meu semblante e minha vibe estavam mudando.
“Me responde, você tocou a campainha?!”, rosnei pra ele.
“Ué… sssim, sua burra… como você queria que eu entrasse, pela janela?”, ele me olhou, “Qual é o seu problema?”
O pano de prato que eu tinha na mão, joguei pra merda, no chão de raiva. Senti o sangue ferver e fechei os olhos, percebendo na hora como eles ficavam molhados. Não podia ser. Não podia ser verdade, não. Não a Roxy. Não minha Roxy, não… Soluçando, deixei o Ariel ali na cozinha e corri pra me trancar no meu quarto, enquanto ele me chamava de lá, sem entender nada do meu comportamento e da minha reação.
Me joguei na cama e comecei a socar o colchão, pra me aliviar. Todos os nervos do meu corpo estavam gritando, minha respiração ficou ofegante e eu já sentia minhas bochechas molhadas de lágrimas.
Fiquei assim por um minuto até que, um pouco, me acalmei, e me deitei na cama, de bruços, chorando de raiva, baixinho pra que o Ariel não me ouvisse. Chorando de ódio, de raiva, de dor. Logo senti o Ariel abrir a porta e espiar pra dentro, sem enfiar a cabeça, “Você tá bem? O que houve?”, ele perguntou suavemente.
“Nada… vai embora…”, falei entre soluços, como consegui.
“Não, como assim…”, ele começou a dizer, mas de raiva eu tirei uma das sandálias que tava usando e joguei nele.
“Vai embora, eu falei!!!!”, gritei alto e vi ele fechar a porta rápido, deixando a louca da namorada dele ali, com o que quer que estivesse rolando com ela.
Depois de uns momentos ali sozinha, chorei o que tinha que chorar e me acalmei, mas a raiva não tinha ido embora. Pelo contrário, tinha aumentado. A dor também. Não que o Ariel me importasse… eu já tava, meio zoando, meio sério, há meses me dizendo que se ele quisesse ficar com outra, que ficasse. Que não ia me foder muito, com o pouco que ainda gostava dele.
Mas que ele tivesse feito isso com a Roxy… isso era um Punhal. Era a adaga fria que eu sentia no coração. Não, no coração não, nas costas. Porque era uma traição. Uma traição que me matou. Não ia adiantar nada mandar mensagem pra Roxy agora, ela ia negar. Se não falou nada quando Ariel disse à tarde que ia. Claro. Claro que ia negar, igualzinho o Ariel faria agora, se fazendo de sonso se eu perguntasse ou falasse algo. Não ia ganhar nada. Ficava pensando em todo o amor que eu tinha pela Roxy, e como ela pisou em cima assim, aparentemente tão fácil. Não era o fato de ter sido o Ariel, ele já nem me importava mais. Era o fato de ela ter se metido com algo meu. Sei lá, é difícil explicar. Sempre pensei que, por mais que eu quase nem quisesse mais o Ariel, ele era algo meu. Fora dos limites. Tivesse jogo ou não, não importava.
Então era assim que essa filha da puta ia me tratar? Assim? Recorrendo a essas coisas pra fazer gol? Caindo tão baixo? Não tinha recebido mensagem nenhuma dela gritando o gol, só faltava essa. Gritando o gol com quem era, ainda por cima, meu namorado que morava comigo.
Vocês vão me dizer: "Ah, Trini, para de encher o saco... O Ariel não só não te importa mais como você vive chifrando ele na primeira oportunidade." Sim, eu sei. Sei como parece de fora. Mas eu não sentia assim. Não com o Ariel. Não com a Roxy. Principalmente não com a Roxy.
Começaram a vir imagens na minha cabeça, enquanto eu continuava largada na cama, de como tudo devia ter se desenrolado. O idiota do Ariel, sem saber, tocando a campainha, e essa filha da puta abrindo a porta bem gostosa... bem puta... bem puta... O babaca do Ariel ficando besta com aqueles peitos, aqueles peitos que em casa ele não tinha, e com aquela menina melosa que se jogava em cima dele. Filha da puta. Filha de uma puta.
Vi na minha cabeça como eles se beijavam e começavam a se curtir. Abraçadinhos, trocando palavras. Ariel sentindo aquele corpanzil de mulher gostosa que a Roxy tinha, e essa filha da puta dando pra ele. Dizendo que agora ele podia ter uma mulher de verdade, que ia amar e satisfazer ele. E o outro idiota perdido nos olhos dela, e as mãos dele perdidas no corpo dela.
Roxy satisfazia ele, chupava ele bem, dando todo o prazer que eu não dava, a satisfação que ele já não tinha e tinha encontrado ali, nos braços, na boca e no corpo da minha melhor amiga. E ela também adorava. E ria por dentro do golpe que estava me aplicando com cada chupada gostosa, com cada gemido suave do Ariel.
Quando os corpos deles se uniram, eles se comeram gostoso. Com intimidade, com amor, soltando a paixão que já tavam sentindo um pelo outro há um tempão. Os corpos se juntavam, Ariel a preenchia e dava prazer uma vez atrás da outra, curtindo, gemendo bem alto os nomes um do outro sem parar. Até que Roxy começou a gozar doce e profundo, se entregando toda pra ele. E ele, ao mesmo tempo, também se esvaziava com o prazer mais doce e enchia ela com o sêmen e o amor dele, aquele que ele não me dava...
Voltei a mim. Quase no escuro. Minhas bochechas ainda estavam molhadas. Ouvia baixinho a TV que Ariel tinha ligado na sala e devia estar vendo. Comendo alguma coisa. Tinha me deixado ali, como eu tinha gritado pra ele fazer. Sim, perfeitamente podia sair do meu quarto e falar com ele. Confrontá-lo. Me dizer o que realmente tinha acontecido.Mas sabia que ele era um cagão que não ia fazer isso. Ia negar tudo. Uma parte de mim ainda estava um pouco sensata. Me dizia, me implorava, pra não ser tão dura com a Roxy. Que eu realmente não sabia de nada e que perfeitamente podia não ter rolado nada. Que era injusto julgar a Roxy assim, sem saber, e imediatamente me imaginar e encher a cabeça com absolutamente o pior. Com aquela baixeza, com aquela traição.
Não saí do meu quarto até dormir, remoendo raiva e pensando no que fazer.
No outro dia acordei, ainda puta. Vi que Ariel já tinha ido pro trabalho. Nem me acordou nem falou nada. Tinha me deixado lá dormindo e foi embora. Tranquila, tomei café e sentei pra pensar no que fazer. Fiquei a manhã toda remoendo o assunto na minha cabeça. Eu não tinha mandado nenhuma mensagem pra Roxy e ela também não. Estranho. Suspeito. Não queria falar comigo? Era isso? Não sabia o que me dizer? Não sabia que eu sabia? Ou eu tava realmente imaginando tudo isso, criando um filme incrível sozinha?
Tinha um único jeito de saber. À tarde, só depois de comer, saí de casa, peguei o busão e fui até o apartamento da Roxy no Boedo. Fui decidida, séria, remoendo raiva ainda, antecipando o que ia falar pra ela. Quando cheguei, toquei a campainha elétrica e falei que era eu. Na hora ouvi ela chiar e empurrei a porta, entrando rápido e com raiva no elevador.
Ao chegar no andar dela, já tava me esperando com a porta meio aberta, eu andava rápido e com os punhos cerrados, não sei se ela percebeu, mas me sorriu: "Que que cê tá fazendo, bicha... não me falou que vinha..."
Eu meio que Empurrei a porta e ela se afastou um pouco. Entrei e quase bati a porta com força. Roxy me olhava meio preocupada. Não sabia se ela já tinha entendido ou se não fazia ideia e eu tinha feito merda pra caralho. Fiquei encarando ela com raiva, sentia minha respiração acelerando sozinha.
“Trini, o que foi? O que aconteceu?”, ela perguntou. Se aproximou de mim, não sei se pra me tocar, me abraçar ou o quê, do jeito que eu tava alterada, mas eu afastei a mão dela.
“… me fala que você não fez isso…”, falei baixinho, mas olhando pra ela com ódio.
Vi que a cara dela mudou na hora, desabou toda a expressão e ela não sabia o que dizer. E não importava o que ia falar, pensei. Naquele segundo, aquela cara já tinha me contado tudo e eu me despedacei por dentro. Deu uma vontade de chorar que quase não me segurei.
“Que… que foi que eu fiz? O que tá rolando?”, se fez de sonsa.
“… me fala que você não fez isso, eu te falei…”, repeti com raiva.
Roxy ficou dura, me encarando, tentando achar o que dizer.
“Bichi, calma… que…”
“Não me chama de bichi, vaca.”, cuspi pra ela. Com raiva. Com ódio. Com dor.
“Calma, o que foi?”
No fim, engoli seco e dei um passo pra perto. Ela recuou quase por instinto, “… me fala que você não comeu o Ariel…”
“O… o Ariel…?”, ela perguntou num tom que não me convenceu nada, “Que isso…”
“Sei que ele veio. Sei que veio aqui e tocou a campainha. Ele me contou.”, rosnei.
Roxy só ficou calada, sem saber o que fazer e o que me dizer. Eu insisti, “… então me fala que vocês não transaram…”
“Trini, não… eu…”, gaguejou.
“Vai, fala”, apressei.
Depois de um tempão, mas tempão mesmo, nos encarando, eu com raiva e ela cada vez mais perto de desabar no choro, ela falou “… não… não posso.”
“Não pode o quê!”, quase gritei.
“… não posso te falar isso…”, respondeu baixinho.
Eu explodi. O sangue fervendo como panela de pressão, juro. Vi tudo vermelho. Dei um passo pra frente e tentei dar um tapa nela, que ela desviou e eu vi ela entre assustada e de repente puta pelo que eu fiz. Acabava de fazer, "Ai, estúpida, o que foi?! Para!!!!", ela gritou pra mim.
"Você é uma filha da puta!", gritei bem alto.
"Mas para, maluca, para, se acalma!!!"
"Vadia de merda!", gritei de novo, já tava chorando, sentia minhas bochechas molhadas, mas só via a Roxy na minha frente e como queria moer ela de porrada, "Você comeu meu namorado, filha da puta! Tão importante é esse jogo de merda pra você? Pra me foder assim!"
A Roxy não gostou de eu falar daquele jeito na hora. Nós duas tínhamos nosso gênio, quando explodíamos, e ela já não aguentou mais. Ficou meio desafiadora, não recuava mais, e começamos a gritar quase na cara uma da outra, "Mas para de fazer escândalo, RETARDADA!", ela cuspiu pra mim, "Agora você se importa com o idiota do Ariel? Para de me encher o saco!", ela falou e fez um gesto meio desaforado com a mão que eu não curti nada.
"O que você tá dizendo!?"
"Vai tomar no cu, imbecil…", ela soltou, já visivelmente puta também, "Você vem aqui me xingar… ai, meu namorado! Meu namorado! Você comeu meu namorado!… mas cresce de uma vez, retardada!"
Eu respirei fundo, com uma raiva que bufava, "O que você disse pra mim?!"
"O que você ouviu, VADIA!", ela gritou, "... você engole qualquer pinto que bate na sua porta e vem se fazer de ofendida comigo agora?! Ainda mais por um cara que você já nem liga mais! Vai tomar no cu! Retardada! Hipócrita!"
"Puta de merda!", eu quis gritar, mas de tanta raiva saiu um guincho, "É o Ariel! Como você vai dar pra ele? Como você vai fazer isso comigo?!"
"Mas chupa minhas tetas, idiota! Tá falando sério?!", ela bufou pra mim.
"É o Ariel! Não tem nada a ver!", respondi alto, "Que… se um dia meu pai bater na sua porta, você dá pra ele também?!"
Roxy me olhou com raiva e não resistiu. Foi mais forte que ela, acho. Tinha que mandar o comentário idiota e afiado pra terminar de me fazer explodir, "… bom, teu pai sempre me deu vontade. Desde pequena…"
Eu dei um passo e empurrei ela com as duas mãos, que acho que se ela tivesse de salto alto como naquela foto que tinha me mandado, ela Tivesse mandado o piso pra puta que pariu. Mas só tropeçou e se segurou. Me olhou soltando faísca pelos olhos e veio pra cima de mim. E eu também fui pra cima dela. Logo em seguida a gente tava gritando igual duas porcas sendo carnear ou algo assim, puxando uma pelos cabelos compridos da outra e xingando pra todo lado. Nem lembro direito nessa confusão tudo que aconteceu, mas a gente se agarrou MUITO forte, tentando dar socos, arranhões, jogar uma a outra no chão… o que viesse. Nenhuma das duas sabia brigar, mas isso não significava que a gente não queria. No nosso agarramento e loucura, até viramos um par de cadeiras e derrubamos uma mesinha que ela tinha na sala com garrafas que, por sorte, nenhuma quebrou.
A gente deve ter ficado uns dois minutos assim, sei lá, não saberia dizer se é muito ou pouco. Mas quando as duas mais ou menos voltamos ao normal, estávamos ambas escarrapachadas, de bunda no chão, chorando e tentando recuperar o fôlego. Começou a arder meu ombro e quando olhei, tinha um arranhão muito, muito feio. Muito comprido e que abriu minha pele bastante. E ela também não saiu ilesa, acho que mordi o braço dela ou algo assim, porque ela se segurava e soluçava, me olhando entre lágrimas. Meu lado esquerdo doía pra caralho, nas costelas. A Roxy tinha se empenhado em tentar me acertar ali e eu sabia que vários golpes dela tinham pegado. Entre as lágrimas e o tanto que a gente tinha se puxado pelos cabelos, parecíamos duas bruxas.
Mas a gente já não falava nada. Estávamos as duas no chão, gemendo baixinho e soluçando, nos olhando pra ver quem ia falar alguma coisa primeiro. Não era a primeira vez que a Roxy e eu tínhamos um agarramento assim, já tinha acontecido, mas nunca desse tamanho. Quando éramos pequenas, sim, com certeza, às vezes uma mãe ou outra (ou as duas!) tinham que nos separar, alguma vez, por algum motivo. Em meia hora a gente já tava se amando de novo.
Mas agora a gente era grande.
Olhei pra Roxy, toda acabada como estava, e eu me sentia igual. E Claro, eu devia estar parecendo a mesma coisa. Olhei pra ela com tristeza, com ódio, enquanto as lágrimas continuavam caindo, igual nela. Ela me encarava como se esperasse que eu dissesse alguma coisa, qualquer coisa, mas a única coisa que fiz depois de um tempo foi me levantar com dificuldade e ir até a porta, sem falar nada.
Quando abri a porta pra ir embora, ouvi ela atrás de mim, vi que ainda estava largada no chão. Ela me olhava entre lágrimas e disse soluçando: “... Trini… não vai não… por favor…”
Eu só gritei bem alto, sentindo os tendões do pescoço tensos, com toda a raiva que ainda tinha: “VOCÊ É UMA FILHA DA PUTA!”
A última coisa que vi da Roxy antes de bater a porta e sair foi que ela tinha enterrado o rosto no sofá onde estava apoiada, e ouvi um choro desolado.
Quando cheguei no térreo, por sorte o porteiro do prédio estava lá e me abriu. No ônibus, eu voltava chorando baixinho, sem fazer barulho, mas as lágrimas caíam enquanto eu olhava perdida pela janela. Uma senhora que viajava do lado ficou preocupada e me perguntou se tinham tentado me roubar ou algo assim, de tão bagunçada que me viu chorando. Falei que não, que obrigada, que ficasse tranquila. Por sorte ela não perguntou mais.
Quando cheguei em casa, limpei o arranhão que tinha no ombro e vi que estava com uns bons hematomas nas costelas. Mas a raiva já tinha baixado bastante e me dediquei a me cuidar em silêncio. Coloquei uma camiseta comprida que tampava tudo e me arrumei de novo. Não esperava que o Ariel percebesse nada quando voltasse, e foi exatamente isso que aconteceu.
Claro que não conseguia tirar a briga da cabeça. Nem a Roxy. E, mesmo que ainda achasse uma puta traição e uma merda o que ela fez, a raiva, devagar como a maré que vai baixando, bem lentamente, foi se dissipando. Não tinha desaparecido, mas tinha descido a um ponto que não me dominava e não me fazia perder a cabeça. Nem chorar. Eu sabia que não ia demorar muito. tempo até que a Roxy me ligasse, mandasse mensagem ou algo assim. E aí eu veria como lidar com isso.
No terceiro dia, a Roxy ressuscitou dos mortos. Do nada, de manhã, me mandou um GIF de duas minas de anime se pegando. Apesar da raiva, tenho que admitir que arrancou um sorriso de mim. Ela começou a me mandar mensagem, mas eu não respondia. E não ia responder por um bom, bom tempo.
Eu queria que ela sofresse um pouco. Pelo menos, um pouco mais. Tranquila, fiz algo pra comer, esquecendo do WhatsApp e da quantidade de fotos de gatinhos que ela devia estar me mandando, até que lá pelas duas eu só mandei: "Vem".O dia tinha sido uma merda desde cedo, e desde o meio-dia tava chovendo pra caralho. Caindo um toró. Uma daquelas tempestades fortes que pareciam não ter fim. Tempestades que dão vontade de ficar debaixo de dois cobertores e dormir o dia inteiro. Mas às três e meia a campainha tocou.
Quando fui abrir a porta da rua, lá estava a Roxy. Não tava encharcada nem nada, tava ali debaixo do guarda-chuva dela. Meio molhada, claro, por ter caminhado do ponto onde o ônibus largou ela, mas não tava pingando nem perto disso. Eu tava com um biscoito de polvilho na mão, mordendo devagar e olhando pra ela sem falar nada. Ela parada ali, na chuva debaixo do guarda-chuva, também me olhando.
"O que você quer...", falei séria.
"Passar, porra... não tá vendo que tá chovendo?", ela respondeu.
Eu queria deixar ela ali mais um tempinho. E por sorte fiz isso, já que, como vingança ou justiça divina, veio uma rajada de vento de lado que respingou nela e fez ela soltar um xingamento baixinho.
"Vai logo...", ela disse, "Tá filmando uma cena de filme ou o quê?"
Esperei mais uns segundos, que curti pra caralho, até que me afastei um pouco, abri a porta e deixei ela entrar.
Em casa, ela foi pegar uma toalha no banheiro pra se secar um pouco, enquanto se sentou no sofá. Já tinha tirado os tênis e as meias molhadas. Eu tava de pé e a gente só se olhou. Falei com um tom seco: "Quer alguma coisa?"
"Fala sério... tá bem..."
"Você podia ter trazido alguma coisa, né?", me virei e fui pra cozinha. Ouvi ela dar uma risadinha, e eu também, sem ela ver, sorri.
Peguei duas xícaras de café quente e o saco com o resto dos biscoitos. Aí sentamos no sofá, tranquilas, enquanto a chuva A chuva batia no pátio.
A gente falou um monte de coisas. Ficamos conversando por um bom tempo. E dissemos tudo o que precisávamos dizer. O mais importante: que não íamos deixar o Ariel nem nenhum outro babaca estragar nossa relação, que não valia a pena. Não sei se as coisas estavam melhorando entre a gente naquele momento, eu não sentia muito, até que vi ela pegar o celular e procurar alguma coisa.
“Olha… olha o que minha mãe me mandou ontem… que ela achou por acaso…”, ela falou e começou a me mostrar umas fotos. Eu me surpreendi e não consegui evitar que um sorriso suave aparecesse nos meus lábios. Era eu. Fotos antigas de quando éramos mais novas. Eu nem lembrava mais dessas fotos.

Roxy nem me olhava, tinha os olhos grudados nas duas fotos. Ficava passando de uma pra outra sem parar."Ufa… nem lembro disso…", falei.
"Eu lembro", respondeu sem me olhar, "Essa é em casa… que tirei com aquela câmera digital que eu tinha."
"Ué… quantos anos a gente tinha?", perguntei.
"Catorze. Lembro. Você vinha em casa fazer a tarefa… e depois a gente vagabundeava a tarde inteira. Em casa, ou na praça… lembra?", sorriu sozinha.
"Mmm-hmm…"
"E essa… essa é do meu aniversário de dezesseis, mas você ainda tinha quinze por uns meses… olha o que você era, Deus…", disse sorrindo e olhando nos olhos da menina da foto, "Você tinha me dado de presente aquela porra que eu nem sabia o que era…"
"… era um arranjinho de flores, escolhi com minha mãe…", comentei baixinho.
"É… e eu fiquei meio brava porque queria outra coisa, mas fazer o quê, você me trouxe aquilo, sei lá. Mas depois, de noite…"
"O quê?"
Roxy continuava sem me olhar, os olhos já tinham viajado quase quinze anos atrás, e estava com a menina da foto, "… depois de noite, quando fui deitar, coloquei ele no meu criado-mudo. E ficava olhando… apaguei a luz e ainda dava pra ver um pouquinho. E ficava olhando… e me fazia bem, me fazia feliz, porque me lembrava de você… e sentia que você estava ali comigo… meu pai já tava meio doente… mas você estava ali comigo, no arranjinho… e sentia que você me abraçava e me cuidava mesmo sem estar…", disse engolindo seco e as lágrimas começaram a jorrar como duas torneiras abertas, olhando pro celular, "… e v-você é minha vida, meu anjo, meu sol… s-sempre foi… quando penso no que te fiz, n-no que fiz, quero me matar, Trini… não sei o que deu em mim, em que eu tava pensando… eu…"
Quando levantou a cabeça do celular pra me olhar e continuar falando, eu já tinha as Cataratas do Iguaçu saindo dos meus olhos e um aperto no peito que não dava pra respirar.
A gente se olhou e se fundiu num abraço enorme, forte, e ficamos assim por uma eternidade, as duas chorando alto no ombro uma da outra. o pescoço da outra, alternando entre dizer tudo o que a gente se amava e pedir perdão, uma e outra vez, feito duas piranhas.
O resto da tarde chuvosa a gente passou ali, no sofá, vendo TV ou algum filme. A Roxy largada com a cabeça apoiada no meu colo, abraçando minhas pernas e eu acariciando aquele cabelo lindo que ela tinha, enquanto a gente comia bolachinhas. E quando eu cansava, a gente trocava e era eu que me deitava nas pernas dela, comendo bolachinhas, sentindo os dedos dela passarem de leve no meu cabelo… e sem olhar, eu dava um tapa na mão dela quando, mais ou menos a cada meia hora, ela deslizava a mão discretamente pra querer apertar um peito meu.
Ficamos assim e o tempo passou. Passou tanto que a gente nem percebeu e o Ariel voltou do trabalho. Quando ele entrou e nos viu as duas ali, ficou duro, paralisado, feito uma estátua.
“Ué… eh… o que cê tá fazendo, Ro…”, só falou. Ele se fez de besta e sumiu um instante na cozinha, voltando com um copo de alguma coisa que tinha servido. Quando ele tentou puxar conversa, a Roxy se levantou.
“Vou embora, Tri, cê me abre?”, ela falou, calçando de novo as meias e os tênis que já estavam secos.
“É, bora…”
Quando ela ficou pronta, parou um segundo e olhou pro Ariel… com um olhar de puro desprezo que nunca mais esqueço. Sem falar nada com ele, sumiu pelo corredor enquanto eu a acompanhava.
Quando voltei, comecei a discutir feio, muito feio com o Ariel. Finalmente aconteceu a conversa e a briga que há muito, muito mais de um ano, a gente vinha adiando. Joguei tudo na cara dele e ele fez o mesmo comigo. A gente começou a se xingar e a gritar pra valer. Eu não falei do jogo, claro, mas na minha raiva eu disse que tinha transado com outro. E o filho da puta também, na raiva, me confessou que tinha estado com outra gostosa, uma terceira aparentemente no histórico de chifres dele, que eu nem sabia quem era. A discussão não chegou a ficar física, o Ariel não era um cara violento, felizmente, mas nós dois ficamos A briga e, no meio dos gritos pra desabafar, a gente acabou descontando um pouco nos móveis da casa, virando cadeiras e jogando coisas pra todo lado de pura raiva e frustração. Ficamos mais de meia hora gritando um com o outro até que, finalmente, ela me encheu de umas putarias lindas, coisas que eu nunca tinha ouvido ela falar na vida, e que me machucaram pra caralho. Sem pegar nada, disse que ia pro caralho, pra casa de um amigo que morava perto, e bateu a porta, indo embora.
Mais tarde, contei um pouco pra Roxy o que tinha rolado, ainda todo tenso por causa da briga com a Ariel. Ela disse que ia voltar a ficar comigo, tinha acabado de chegar em casa, mas eu falei que não, pra ela ficar de boa. Só queria me jogar na cama e dormir. Dormir muito e talvez sonhar que esses dias de merda, de emoções tão intensas quanto fodidas, um dia teriam que acabar.
E, às vezes, os sonhos se realizam.
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