Minha pequena história começa desde que nasci. Me chamo Anabel, embora meus pais tenham me dado o nome de Héctor ao nascer. Tenho uma irmã dois anos mais velha, Angela. Vivo numa família bem abastada, meus pais são empresários do setor de turismo, por isso viajam muito. Desde que minha irmã fez 18 anos, passamos muito tempo sozinhos, eu e ela, em casa. Moramos nos arredores de uma grande cidade, numa área residencial, numa casa bonita. Minha irmã puxou ao meu pai no caráter — um caráter forte — e na altura: ela tem quase 1,80m, é loira e magra. E eu puxei à minha mãe: sou um pouco mais baixinha como ela, tenho 1,72m, magra, cabelo castanho claro puxando para loiro, comprido. Desde bem pequena, compartilhava o gosto com minha irmã e minha mãe por salto alto. Via os sapatos das mães das minhas colegas e, já com 4 anos, ficava doidinha por eles. Cheguei a dizer para alguma mãe que, se algum dia fosse à casa dela, me deixasse calçá-los. Algumas riam e diziam: "Claro, Héctor, um dia que você venha, eu deixo". O tempo foi passando e tive que aprender a controlar esses impulsos. Íamos crescendo e meus colegas começaram a me chamar de "bichinha" e coisas do tipo. A partir dos 9 anos, descobri um mundo maravilhoso para mim: o closet da minha mãe, seus sapatos. Não é que eu não soubesse que estavam lá, mas a partir daí comecei a ficar sozinha algumas vezes em casa. Comecei por afinidade e, mais tarde, comecei com as roupas da minha irmã. Aos 12 anos, usei minhas primeiras maquiagens. Aqui nasceu Anabel — não sei por que, mas gostava desse nome. Assim segui até perto de completar 17 anos. Meus pais, logo depois do Natal, foram viajar por uma semana e fiquei com minha irmã. Não era a primeira vez que isso acontecia. Minha irmã estudava à tarde e eu de manhã, então eu tinha a tarde toda só para mim. Me vestia, me despia, colocava tudo que pegava dela, me maquiava e dava longos passeios dentro de casa com os sapatos dela. Ela tinha vários com salto, mas uns me deixavam louca — tinham sido um presente... Para os seus 18 anos e tinham 7 cm de salto, dessa vez meus pais saíram numa quarta e só voltariam na terça. No sábado de manhã, a Julia veio em casa, uma amiga da Angela. Eu fiquei a manhã toda no meu quarto jogando Play 3, Tomb Raider e FIFA - sou muito futeboleira. Enquanto elas preparavam algo pra comer, almocei com elas e depois minha irmã me olhou.
- Angela: Hector, ajuda a gente a tirar a mesa e lava você a louça, que é pouca e a lava-louças tá cheia, não tô com vontade de esvaziar.
- Eu: Eeei, façam vocês, isso é coisa de mulher.
- Angela: Quando eu falar com a mamãe, vou dizer que você não ajuda em nada em casa, pra ela te deixar com a vovó.
- Eu: Tá bom, fala o que quiser, vou pro meu quarto.
Fui pro meu quarto e continuei jogando. Mais ou menos uma hora depois, a Angela subiu e disse que iam sair. Aproveitei o momento pra me vestir de novo. Peguei um conjunto de lingerie do cesto de roupa suja, era rosa com uma rendinha bem fofa. Nunca pegava a roupa limpa, não queria sujar e que um dia ela percebesse. Do quarto dela, umas meias pretas, uma saia preta florida que ficava justinha, uns cinco dedos acima do joelho, e uma camiseta branca justa. E meus sapatos preferidos. Depois de vestida, entrei no banheiro pra me maquiar. Já estava lá um tempão e tinha acabado de me maquiar quando ouvi atrás de mim:
- O que, se enfeitando? Marcou com o namorado? - Era a Angela e a amiga me olhando pela abertura entre a porta e o batente. Não tinha ouvido elas chegarem por causa da música alta e por estar concentrada. E elas já estavam ali um bom tempo. Fiquei petrificada, olhando pra elas sem saber onde me enfiar.
- O que vocês tão fazendo aí? - falei, gaguejando.
- Angela: É, vendo você se maquiar. Já estamos um bom tempo te observando e, pelo jeito que faz bem, parece que tem prática. Então lavar louça é coisa nossa, mas pelo que eu sei, a saia, o sutiã, a blusa, as meias, os sapatos, a maquiagem e as... As calcinhas que com certeza você está usando também são nossas e você as veste sem nenhum pudor, então a partir de agora você vai fazer coisas das nossas, cada vez que ficarmos sozinhas você será minha irmãzinha. Enquanto falava, ela tirou várias fotos minhas com o celular enquanto eu ficava parada olhando para elas sem saber o que fazer.
- É que eu estava entediada, Angela.
- Você estava entediada, pois a partir de agora não vai mais se entediar, vamos nos divertir muito, você vai ver. E agora termina de se arrumar, porque viemos te buscar para ir ao cinema. A sessão começa tarde e eu não queria te deixar sozinha, digo, bem sozinha até tão tarde. E te aconselho a trocar esses sapatos, você não vai aguentar nem uma hora com eles.
- Não, não, assim eu não vou a lugar nenhum.
- Claro que vai, gata, você está linda.
- Que não, que não saio assim! Se alguém me conhece, que vergonha!
- Pra mim isso é indiferente, além do mais, nem eu te reconheceria se esbarrasse com você. O que você diz, Julia?
- Eu também não te reconheceria, caralho, é uma loucura, você parece uma garota de verdade, Angela.
- Viu? Ela também diz. Então termina e vamos embora.
Eu - Não penso em sair assim.
Angela - Bom, vou contar pros seus pais o que você faz, e tenho fotos como prova que posso mostrar por aí.
Eu - Não, pros meus pais não! Farei o que você disser, Angela.
- Já te falei, termina de se arrumar que nós vamos.
Eu - Porra, por favor, vão vocês e me deixem aqui em paz.
Angela - É o que tem, hahaha! E ainda se refere a si mesma no feminino - ela se aproximou rindo, pegou a parte de baixo da minha saia e levantou - hahaha, que patética você é! Está usando as calcinhas que eu usei o dia todo ontem, então você gosta de usar minhas calcinhas usadas? Que coincidência, todo dia eu as troco, hahaha! Nem consigo imaginar como vai ficar amanhã o fio-dental que estou usando hoje. E vamos, acorda que está ficando tarde. Deixa eu te ver bem - ela me virou e me olhou de cima a baixo - Você está muito fofa, sabia? Só falta um detalhe ainda: as unhas.
Eu - Nunca pinto minhas unhas. Apesar de sempre as ter bem cuidadas, nunca as... Nunca pintava, era muito trabalho para só ficar um tempinho pintar e tirar o esmalte. Angela - uma garota nunca deve sair pela metade na rua, senta que eu pinto as suas. Pegou um esmalte rosa clarinho, me empurrou em direção ao banquinho, me sentou e começou a pintar minhas unhas, enquanto Julia ficou atrás de mim e começou a pentear meu cabelo longo. Quando terminou, me levou ao quarto dela, dizendo que faltavam alguns detalhes. Troquei os dois brincos que estava usando por uns com perlinhas, uma touca de lã cor fúcsia - estávamos no inverno e me cairia bem, estava frio. Ela tirou uns sapatos pretos com salto mais baixo, uma jaqueta preta e uma bolsa preta. Me vi refletida no espelho e saiu um sorriso de mim ao me ver com aquela touca, me deixava ainda mais feminina. Angela - bom, o que você acha? Eu - hummm, gostei desse look - disse pela primeira vez com a voz feminina que eu tinha mais do que treinada e colocava, não foi muito difícil, tenho uma voz muito aguda. As duas ficaram me olhando alucinadas. Angela - caralho, você não para de me surpreender, até coloca voz de garota. Nesse momento já estava mais tranquila e até com vontade de sair pela primeira vez assim. Saímos na rua e eu sentia um formigamento na barriga de nervos e emoção. As duas subiram na frente do carro e eu sozinha atrás. Chegamos no shopping onde ficavam os cinemas, ainda faltava mais de uma hora para começar a sessão, meus nervos só aumentavam. Subimos para o primeiro andar, aquilo estava abarrotado de gente. Eu ia no meio das duas, mesmo dando passos decididos, tinha a sensação de que todo mundo estava me olhando e isso me deixava mais nervosa, até que chegou um ponto em que não aguentava mais. Eu - meninas, preciso fazer xixi. Angela - agora passamos pelo banheiro. Chegamos no banheiro e tinha uma fila enorme de mulheres lá. Ficamos na fila e entre estar rodeada de mulheres esperando para entrar e os nervos, eu achava que ia fazer nas calças. Chegou nossa vez e as duas entraram comigo, baixei as meias e a calcinha. e me sentei na privada, enquanto as duas me olhavam rindo. Angela – kkkk, sério, você não tem desperdício nenhum, se comporta igual uma mina, senta até pra mijar kkkk. Eu – sempre faço assim, a não ser que esteja sujo. Angela – sabe, você tá realmente gostosa aí sentada com a calcinha na altura do joelho kkkk, é que não consigo acreditar. Essa era uma das coisas que eu mais gostava e que mais me dava tesão: ficar sentada fazendo xixi com a calcinha nessa altura, assim eu me sentia uma garota de verdade. Terminei, me arrumei bem na saia, e como ainda faltava um tempinho, fomos dar uma volta em algumas lojas de roupas femininas. Lá, eu curti muito fuçando as roupas e, sem perceber, meus nervos tinham sumido. Fiquei com vontade de comprar alguma coisa, mas não estava com muito dinheiro. Passamos numa sapataria e lá eu aproveitei pra caramba experimentando sapatos. Faltavam só 20 minutos pra sessão começar, não fomos ao cinema e ali na entrada nos esperavam três amigas delas – bom, eu também conhecia: Yoli, Gisela e Mônica. Isso eu não esperava, mas nem deu tempo de ficar nervosa. Angela e Julia – Oi, meninas! Elas – Oi! – responderam em uníssono. Julia – Há quanto tempo vocês estão esperando? – Uns 5 minutos – respondeu uma delas. Yoli – Angela, e seu irmão não ia vir? Angela – Bom, houve uma pequena mudança de planos e veio minha irmã. Yoli – Sua irmã? Mas você não tem irmã! – disse olhando pra mim. Angela – É o que eu pensava até hoje, mas olha, a vida te dá surpresas. Anda, vem se apresentar, nem eu sei se ela tem nome. Eu – Oi… – respondi com vergonha – É, bom, eu tenho um nome: Anabel. Angela – Pois gostei desse nome. Alba – Não pode ser! Que legal, é o Héctor kkkk! O que vocês fizeram com ele? Angela – A gente nada, chegamos em casa e encontramos ela assim vestida kkkk. E aproveitando que já estava arrumada e tão linda, trouxemos ela assim mesmo. Alba – Não acredito kkkk! É verdade isso? Eu – É… – falei com a cabeça baixa. Angela – Bom, vamos entrar ou não? Julia – Vamos, gente! Uma vez dentro, eu tinha… Outra vez que ir ao banheiro. Eu - podemos passar um momento no banheiro? Ângela - vai, mas rápido que o filme já vai começar. Te esperamos aqui, tá uma mijona você, hein. Fui sozinha pro banheiro, mas a Gisela saiu atrás de mim. Das amigas da minha irmã, era com quem eu tinha mais afinidade. Naquele momento eu não sabia, mas com o tempo ela viraria minha melhor amiga. Chegou do meu lado, pegou no meu braço e veio comigo. Eu - você vem comigo? Gisela - sim, uma garota nunca deve ir sozinha ao banheiro, hahaha. Eu - hahaha. Gisela - isso você vai ter que me explicar. Eu - já te explico depois. Dessa vez deixei minha bolsa e jaqueta com ela, e ela esperou lá fora. Depois fui eu que fiz o mesmo. Voltamos pras outras e entramos pra ver o filme. Fiquei sentada entre a Julia e a Gisela. O tempo passou rápido ali. Saímos, fomos jantar e, estando lá, chegou um grupinho de caras que eu não conhecia, eram amigos delas. Deram dois beijos em cada uma, e a Ângela me apresentou como Anabel. Pro primeiro eu só ia dar a mão, costume, mas ele chegou com a cara e me deu dois beijos. E foi o mesmo ritual com todos, enquanto minha irmã ia me apresentando com um sorriso no rosto. Eu temia o pior, que eles ficassem com a gente. A verdade é que não me sentia à vontade assim com os caras. Mas eles não ficaram muito e foram embora. Dali, fomos pra um bar tomar alguma coisa e por volta da meia-noite voltamos pra casa. Ângela - E aí, maninha, como foi? Eu - Na real, muito bom. Ângela - Pois não vai ser a última vez. A partir de agora, sempre que a gente estiver sozinha, você vira Anabel. E a partir de amanhã, já sabe, vai começar a fazer as nossas coisas, como você chama. Eu - Sim, o que você disser. Ângela - Assim que eu gosto. E agora vamos dormir, que tá tarde. Eu já ia pro meu quarto quando ela me chamou e disse pra eu ir no dela. Ângela - Vem aqui no meu quarto que te empresto algo pra dormir. Abriu o armário, tirou um camisola rosa de inverno e jogou pra mim. Ângela - Toma, põe isso. Eu - Ok. E saía do quarto dela - mas A Angela me ligou de novo - não vai não, troca aqui mesmo. Eu - aqui na sua frente, Angela? Angela - claro, não vai ter problema com isso, somos irmãs. Eu - nenhum mesmo. Fiquei só de calcinha e sutiã na frente dela antes de vestir o camisola. Angela - sabe que você tem um corpo bonito, só faltam uns peitinhos, mas esses aí com roupa enganam bem, como você faz? Eu - comprei um sutiã cor da pele com enchimento e várias almofadinhas de silicone pros seios, fui colocando uma em cima da outra, cortei as alças do sutiã, coloquei os enchimentos dentro e assim fico com uns peitinhos redondinhos. Angela - caralho, que imaginação, e desde quando você se veste assim? Eu - com uns 9 anos mais ou menos, me vesti pela primeira vez e aos poucos vendo tutoriais de maquiagem fui aprendendo. Angela - nossa, mas o que você acha de bom em se vestir de garota? Sentamos na cama e eu expliquei tudo, que me sentia garota desde sempre, que sentia inveja dela quando via ela vestida com suas saias e vestidos, e os saltos me deixam louca. Ficamos mais de uma hora, acabei chorando abraçada com ela. Angela - calma, querida, não chora. Olha o lado bom, agora comigo você não precisa se esconder, e eu tenho muita roupa pra nós duas. E olha, troca de calcinha, porque agora de ver você com elas me dá não sei o que pensar, que eu usei ontem e você hoje. Na gaveta tem muitas limpas que você pode foder quando quiser. Eu - obrigada, e obrigada por me ouvir. Angela - pra isso que servem as irmãs mais velhas, hahaha. Eu - você não sabe o que isso significa pra mim. Angela - e por que você não junta coragem e explica pros nossos pais? Acho que eles vão te entender e apoiar. Eu - medo, e se eles não me aceitarem? Angela - bom, vai ser difícil, mas de alguma forma você tem que acabar com esse sofrimento. Eu - sim, mas como eu falo? É que não sei. Ficamos um tempinho conversando sobre isso até que veio uma pergunta que não podia faltar. Angela - então você também gosta de caras? Eu - sim, mas me sinto desconfortável com eles, tanto vestindo de garoto como hoje de Miga, eu tento evitar eles sempre, isso sim meu amor é o Mario Casas. Angela - jajaja, você não tem mau gosto não, e vamos dormir que está muito tarde, quer ficar aqui comigo e dormimos juntas. Eu - siiiii. No dia seguinte já passei o dia todo vestida, até me atrevi com ela a ir comprar pão, à tarde vieram as amigas dela e passamos uma tarde de garotas, naquela tarde percebi que me acolheram como mais uma, fiz elas derramarem algumas lágrimas contando minha história de novo. Desde aquele dia, sempre que meus pais viajavam, eu voltava a ser a Anabel por alguns dias e saía com elas, todas tinham algum rolo ou ficante, mesmo conhecendo quando vinham, continuava com aquela desconforto, embora costumassem se comportar bem comigo. Com a Gisela comecei a sair mais frequentemente, os pais dela eram separados e a mãe trabalhava à tarde, eu ia pra casa dela, ela me deixava umas roupas e passávamos horas conversando. Assim foram passando os dias até chegar o verão e eu fui de férias com as meninas, mas essa já é outra história.
- Angela: Hector, ajuda a gente a tirar a mesa e lava você a louça, que é pouca e a lava-louças tá cheia, não tô com vontade de esvaziar.
- Eu: Eeei, façam vocês, isso é coisa de mulher.
- Angela: Quando eu falar com a mamãe, vou dizer que você não ajuda em nada em casa, pra ela te deixar com a vovó.
- Eu: Tá bom, fala o que quiser, vou pro meu quarto.
Fui pro meu quarto e continuei jogando. Mais ou menos uma hora depois, a Angela subiu e disse que iam sair. Aproveitei o momento pra me vestir de novo. Peguei um conjunto de lingerie do cesto de roupa suja, era rosa com uma rendinha bem fofa. Nunca pegava a roupa limpa, não queria sujar e que um dia ela percebesse. Do quarto dela, umas meias pretas, uma saia preta florida que ficava justinha, uns cinco dedos acima do joelho, e uma camiseta branca justa. E meus sapatos preferidos. Depois de vestida, entrei no banheiro pra me maquiar. Já estava lá um tempão e tinha acabado de me maquiar quando ouvi atrás de mim:
- O que, se enfeitando? Marcou com o namorado? - Era a Angela e a amiga me olhando pela abertura entre a porta e o batente. Não tinha ouvido elas chegarem por causa da música alta e por estar concentrada. E elas já estavam ali um bom tempo. Fiquei petrificada, olhando pra elas sem saber onde me enfiar.
- O que vocês tão fazendo aí? - falei, gaguejando.
- Angela: É, vendo você se maquiar. Já estamos um bom tempo te observando e, pelo jeito que faz bem, parece que tem prática. Então lavar louça é coisa nossa, mas pelo que eu sei, a saia, o sutiã, a blusa, as meias, os sapatos, a maquiagem e as... As calcinhas que com certeza você está usando também são nossas e você as veste sem nenhum pudor, então a partir de agora você vai fazer coisas das nossas, cada vez que ficarmos sozinhas você será minha irmãzinha. Enquanto falava, ela tirou várias fotos minhas com o celular enquanto eu ficava parada olhando para elas sem saber o que fazer.
- É que eu estava entediada, Angela.
- Você estava entediada, pois a partir de agora não vai mais se entediar, vamos nos divertir muito, você vai ver. E agora termina de se arrumar, porque viemos te buscar para ir ao cinema. A sessão começa tarde e eu não queria te deixar sozinha, digo, bem sozinha até tão tarde. E te aconselho a trocar esses sapatos, você não vai aguentar nem uma hora com eles.
- Não, não, assim eu não vou a lugar nenhum.
- Claro que vai, gata, você está linda.
- Que não, que não saio assim! Se alguém me conhece, que vergonha!
- Pra mim isso é indiferente, além do mais, nem eu te reconheceria se esbarrasse com você. O que você diz, Julia?
- Eu também não te reconheceria, caralho, é uma loucura, você parece uma garota de verdade, Angela.
- Viu? Ela também diz. Então termina e vamos embora.
Eu - Não penso em sair assim.
Angela - Bom, vou contar pros seus pais o que você faz, e tenho fotos como prova que posso mostrar por aí.
Eu - Não, pros meus pais não! Farei o que você disser, Angela.
- Já te falei, termina de se arrumar que nós vamos.
Eu - Porra, por favor, vão vocês e me deixem aqui em paz.
Angela - É o que tem, hahaha! E ainda se refere a si mesma no feminino - ela se aproximou rindo, pegou a parte de baixo da minha saia e levantou - hahaha, que patética você é! Está usando as calcinhas que eu usei o dia todo ontem, então você gosta de usar minhas calcinhas usadas? Que coincidência, todo dia eu as troco, hahaha! Nem consigo imaginar como vai ficar amanhã o fio-dental que estou usando hoje. E vamos, acorda que está ficando tarde. Deixa eu te ver bem - ela me virou e me olhou de cima a baixo - Você está muito fofa, sabia? Só falta um detalhe ainda: as unhas.
Eu - Nunca pinto minhas unhas. Apesar de sempre as ter bem cuidadas, nunca as... Nunca pintava, era muito trabalho para só ficar um tempinho pintar e tirar o esmalte. Angela - uma garota nunca deve sair pela metade na rua, senta que eu pinto as suas. Pegou um esmalte rosa clarinho, me empurrou em direção ao banquinho, me sentou e começou a pintar minhas unhas, enquanto Julia ficou atrás de mim e começou a pentear meu cabelo longo. Quando terminou, me levou ao quarto dela, dizendo que faltavam alguns detalhes. Troquei os dois brincos que estava usando por uns com perlinhas, uma touca de lã cor fúcsia - estávamos no inverno e me cairia bem, estava frio. Ela tirou uns sapatos pretos com salto mais baixo, uma jaqueta preta e uma bolsa preta. Me vi refletida no espelho e saiu um sorriso de mim ao me ver com aquela touca, me deixava ainda mais feminina. Angela - bom, o que você acha? Eu - hummm, gostei desse look - disse pela primeira vez com a voz feminina que eu tinha mais do que treinada e colocava, não foi muito difícil, tenho uma voz muito aguda. As duas ficaram me olhando alucinadas. Angela - caralho, você não para de me surpreender, até coloca voz de garota. Nesse momento já estava mais tranquila e até com vontade de sair pela primeira vez assim. Saímos na rua e eu sentia um formigamento na barriga de nervos e emoção. As duas subiram na frente do carro e eu sozinha atrás. Chegamos no shopping onde ficavam os cinemas, ainda faltava mais de uma hora para começar a sessão, meus nervos só aumentavam. Subimos para o primeiro andar, aquilo estava abarrotado de gente. Eu ia no meio das duas, mesmo dando passos decididos, tinha a sensação de que todo mundo estava me olhando e isso me deixava mais nervosa, até que chegou um ponto em que não aguentava mais. Eu - meninas, preciso fazer xixi. Angela - agora passamos pelo banheiro. Chegamos no banheiro e tinha uma fila enorme de mulheres lá. Ficamos na fila e entre estar rodeada de mulheres esperando para entrar e os nervos, eu achava que ia fazer nas calças. Chegou nossa vez e as duas entraram comigo, baixei as meias e a calcinha. e me sentei na privada, enquanto as duas me olhavam rindo. Angela – kkkk, sério, você não tem desperdício nenhum, se comporta igual uma mina, senta até pra mijar kkkk. Eu – sempre faço assim, a não ser que esteja sujo. Angela – sabe, você tá realmente gostosa aí sentada com a calcinha na altura do joelho kkkk, é que não consigo acreditar. Essa era uma das coisas que eu mais gostava e que mais me dava tesão: ficar sentada fazendo xixi com a calcinha nessa altura, assim eu me sentia uma garota de verdade. Terminei, me arrumei bem na saia, e como ainda faltava um tempinho, fomos dar uma volta em algumas lojas de roupas femininas. Lá, eu curti muito fuçando as roupas e, sem perceber, meus nervos tinham sumido. Fiquei com vontade de comprar alguma coisa, mas não estava com muito dinheiro. Passamos numa sapataria e lá eu aproveitei pra caramba experimentando sapatos. Faltavam só 20 minutos pra sessão começar, não fomos ao cinema e ali na entrada nos esperavam três amigas delas – bom, eu também conhecia: Yoli, Gisela e Mônica. Isso eu não esperava, mas nem deu tempo de ficar nervosa. Angela e Julia – Oi, meninas! Elas – Oi! – responderam em uníssono. Julia – Há quanto tempo vocês estão esperando? – Uns 5 minutos – respondeu uma delas. Yoli – Angela, e seu irmão não ia vir? Angela – Bom, houve uma pequena mudança de planos e veio minha irmã. Yoli – Sua irmã? Mas você não tem irmã! – disse olhando pra mim. Angela – É o que eu pensava até hoje, mas olha, a vida te dá surpresas. Anda, vem se apresentar, nem eu sei se ela tem nome. Eu – Oi… – respondi com vergonha – É, bom, eu tenho um nome: Anabel. Angela – Pois gostei desse nome. Alba – Não pode ser! Que legal, é o Héctor kkkk! O que vocês fizeram com ele? Angela – A gente nada, chegamos em casa e encontramos ela assim vestida kkkk. E aproveitando que já estava arrumada e tão linda, trouxemos ela assim mesmo. Alba – Não acredito kkkk! É verdade isso? Eu – É… – falei com a cabeça baixa. Angela – Bom, vamos entrar ou não? Julia – Vamos, gente! Uma vez dentro, eu tinha… Outra vez que ir ao banheiro. Eu - podemos passar um momento no banheiro? Ângela - vai, mas rápido que o filme já vai começar. Te esperamos aqui, tá uma mijona você, hein. Fui sozinha pro banheiro, mas a Gisela saiu atrás de mim. Das amigas da minha irmã, era com quem eu tinha mais afinidade. Naquele momento eu não sabia, mas com o tempo ela viraria minha melhor amiga. Chegou do meu lado, pegou no meu braço e veio comigo. Eu - você vem comigo? Gisela - sim, uma garota nunca deve ir sozinha ao banheiro, hahaha. Eu - hahaha. Gisela - isso você vai ter que me explicar. Eu - já te explico depois. Dessa vez deixei minha bolsa e jaqueta com ela, e ela esperou lá fora. Depois fui eu que fiz o mesmo. Voltamos pras outras e entramos pra ver o filme. Fiquei sentada entre a Julia e a Gisela. O tempo passou rápido ali. Saímos, fomos jantar e, estando lá, chegou um grupinho de caras que eu não conhecia, eram amigos delas. Deram dois beijos em cada uma, e a Ângela me apresentou como Anabel. Pro primeiro eu só ia dar a mão, costume, mas ele chegou com a cara e me deu dois beijos. E foi o mesmo ritual com todos, enquanto minha irmã ia me apresentando com um sorriso no rosto. Eu temia o pior, que eles ficassem com a gente. A verdade é que não me sentia à vontade assim com os caras. Mas eles não ficaram muito e foram embora. Dali, fomos pra um bar tomar alguma coisa e por volta da meia-noite voltamos pra casa. Ângela - E aí, maninha, como foi? Eu - Na real, muito bom. Ângela - Pois não vai ser a última vez. A partir de agora, sempre que a gente estiver sozinha, você vira Anabel. E a partir de amanhã, já sabe, vai começar a fazer as nossas coisas, como você chama. Eu - Sim, o que você disser. Ângela - Assim que eu gosto. E agora vamos dormir, que tá tarde. Eu já ia pro meu quarto quando ela me chamou e disse pra eu ir no dela. Ângela - Vem aqui no meu quarto que te empresto algo pra dormir. Abriu o armário, tirou um camisola rosa de inverno e jogou pra mim. Ângela - Toma, põe isso. Eu - Ok. E saía do quarto dela - mas A Angela me ligou de novo - não vai não, troca aqui mesmo. Eu - aqui na sua frente, Angela? Angela - claro, não vai ter problema com isso, somos irmãs. Eu - nenhum mesmo. Fiquei só de calcinha e sutiã na frente dela antes de vestir o camisola. Angela - sabe que você tem um corpo bonito, só faltam uns peitinhos, mas esses aí com roupa enganam bem, como você faz? Eu - comprei um sutiã cor da pele com enchimento e várias almofadinhas de silicone pros seios, fui colocando uma em cima da outra, cortei as alças do sutiã, coloquei os enchimentos dentro e assim fico com uns peitinhos redondinhos. Angela - caralho, que imaginação, e desde quando você se veste assim? Eu - com uns 9 anos mais ou menos, me vesti pela primeira vez e aos poucos vendo tutoriais de maquiagem fui aprendendo. Angela - nossa, mas o que você acha de bom em se vestir de garota? Sentamos na cama e eu expliquei tudo, que me sentia garota desde sempre, que sentia inveja dela quando via ela vestida com suas saias e vestidos, e os saltos me deixam louca. Ficamos mais de uma hora, acabei chorando abraçada com ela. Angela - calma, querida, não chora. Olha o lado bom, agora comigo você não precisa se esconder, e eu tenho muita roupa pra nós duas. E olha, troca de calcinha, porque agora de ver você com elas me dá não sei o que pensar, que eu usei ontem e você hoje. Na gaveta tem muitas limpas que você pode foder quando quiser. Eu - obrigada, e obrigada por me ouvir. Angela - pra isso que servem as irmãs mais velhas, hahaha. Eu - você não sabe o que isso significa pra mim. Angela - e por que você não junta coragem e explica pros nossos pais? Acho que eles vão te entender e apoiar. Eu - medo, e se eles não me aceitarem? Angela - bom, vai ser difícil, mas de alguma forma você tem que acabar com esse sofrimento. Eu - sim, mas como eu falo? É que não sei. Ficamos um tempinho conversando sobre isso até que veio uma pergunta que não podia faltar. Angela - então você também gosta de caras? Eu - sim, mas me sinto desconfortável com eles, tanto vestindo de garoto como hoje de Miga, eu tento evitar eles sempre, isso sim meu amor é o Mario Casas. Angela - jajaja, você não tem mau gosto não, e vamos dormir que está muito tarde, quer ficar aqui comigo e dormimos juntas. Eu - siiiii. No dia seguinte já passei o dia todo vestida, até me atrevi com ela a ir comprar pão, à tarde vieram as amigas dela e passamos uma tarde de garotas, naquela tarde percebi que me acolheram como mais uma, fiz elas derramarem algumas lágrimas contando minha história de novo. Desde aquele dia, sempre que meus pais viajavam, eu voltava a ser a Anabel por alguns dias e saía com elas, todas tinham algum rolo ou ficante, mesmo conhecendo quando vinham, continuava com aquela desconforto, embora costumassem se comportar bem comigo. Com a Gisela comecei a sair mais frequentemente, os pais dela eram separados e a mãe trabalhava à tarde, eu ia pra casa dela, ela me deixava umas roupas e passávamos horas conversando. Assim foram passando os dias até chegar o verão e eu fui de férias com as meninas, mas essa já é outra história.
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