Minha história começa desde bem pequeno e, como não sou igual à maioria, comecei vestindo roupas da minha mãe e das minhas primas, já que irmãs eu não tinha. Loira, cabelo liso abaixo do ombro, corpo magro, e minha voz era bem aguda e parecia de garota — sempre que falava no telefone com alguém que não me conhecia, achavam que eu era menina. Eu tinha certos trejeitos femininos, ou seja, era um garoto afeminado. Já na adolescência, tive vários relacionamentos com garotas, mas no sexo nunca fiquei satisfeito, exceto com a Bea, minha melhor amiga e única que sabia meu segredo, junto com a mãe dela, a Lídia, uma mulher jovem de 34 anos, gostosa e separada há 2 anos. Conheci a Bea na pré-escola e sempre fomos juntos pra escola e pro ensino médio; éramos unha e carne. No pátio, eu sempre brincava com ela e as outras meninas — gostava mais de brincar de casinha e boneca do que de futebol ou brigas com os meninos, embora às vezes eu fizesse isso, mas não me atraía. Conforme fui crescendo, virei o esquisitão da turma, mesmo me dando bem com todo mundo. Minha amizade com a Bea só aumentava, a ponto de no aniversário de 10 anos dela ela fazer uma festa do pijama com as amigas, e eu estava lá, o único garoto convidado. Isso se repetiu todo ano até o aniversário de 13 anos dela. Quando cheguei no meio da tarde na casa dela pra festa, já tinha 3 garotas lá; faltava eu e mais uma pra chegar. As 4 estavam se maquiando no quarto. — Oi, meninas, o que vocês tão fazendo? — Oi, Javi, aqui se maquiando um pouco. Dei dois beijos em cada uma e sentei na cama pra folhear uma revista de garotas que tinha ali. Depois de um tempo, a Bea me olhou e disse: — Vem, Javi, que a gente vai te maquiar. — Eu não quero me maquiar, isso é coisa de menina. — É? E a revista que você tava lendo também é. — Porque não tinha outra coisa pra me entreter. — Qual é, Javi, vai ser divertido. Depois de muita insistência, eu aceitei. Nem preciso dizer que desde o começo eu tava morrendo de vontade, mas ali tinha mais meninas e eu tava com muita vergonha. As 4 me Me maquiaram, pintaram minhas unhas de rosa clarinho e, como eu já tinha um cabelo meio comprido, fizeram duas maria-chiquinhas. Aproveitando os furos que eu já tinha – sempre usava dois brincos, um em cada orelha – trocaram por dois coraçõezinhos rosa.
— E agora a roupa — disse a Bea.
— Isso aí não.
— Claro que sim, você não vai sair maquiada com essa roupa que tá usando.
— Vocês não tão satisfeitas de me maquiar, ainda querem me vestir? Não vou fazer isso.
— Bom, já que essa é uma festa do pijama só pra meninas, pode ir embora.
Mais um puxa-empurra e acabei cedendo, do jeito que eu queria. No fim, me fizeram tirar a roupa e fiquei só de cueca. Me jogaram umas calcinhas rosa com bolinhas brancas.
— Tira isso e coloca essas calcinhas.
Elas se viraram pra não me ver pelado e eu coloquei. Depois, me puseram um sutiã igual, com um par de calcinhas dentro pra dar o formato dos peitos, uma minissaia jeans e uma regata da Hello Kitty. Por último, uns sapatos pretos rasos que ficaram um pouco grandes. Enquanto me vestiam, não paravam de rir, falando como eu tava gostosa. Chegou a hora de me olhar no espelho – elas não tinham deixado eu fazer isso ainda. Quando me vi, não acreditei. Na minha frente, tinha uma menina magrinha e bonita. Naquele momento, um arrepio percorreu meu corpo e me senti feliz e contente com o que via.
Pouco depois, chegou a última garota que faltava. Ela cumprimentou todo mundo com dois beijos e, quando chegou em mim, se apresentou:
— E você, não te conheço. Sou a Ana.
Eu fiquei parado, sem saber o que responder. Mas quando ela se aproximou e me viu direito:
— Javi? Hahaha
— Sim — respondi, ficando vermelho que nem um tomate.
— O que você tá fazendo vestido assim? — sem parar de rir.
— A Bea insistiu que eu tinha que me vestir assim pra festa.
Então ela me olhou de cima a baixo.
— Que loucura, você parece uma menina de verdade.
Aí a Bea interrompeu:
— Agora é só achar um nome pra você.
Sentamos todas na cama e, depois de falar um monte de nomes, decidi escolher um. Vanessa, eu gostei muito, achei que combinava. Nome bem feminino, ficamos até a hora do jantar conversando e brincando no quarto. Na hora do jantar, a mãe da Bea subiu pra nos avisar, coisa que com a emoção da tarde eu nem tinha percebido que ia rolar. Ela abriu a porta e disse: — Vamos jantar. — Já vamos — respondeu a Bea. Aí, quando ela reparou, perguntou: — E o Javi, cadê? E todo mundo, rindo, apontou pra mim. — Mas o que vocês fizeram com o coitado? — Vestir ele pra noite de garotas. — Ah, olha só, vocês são terríveis. Deixa eu ver o que essas meninas fizeram com você. Eu não ousava me virar. Ela chegou perto, me pegou pela mão e me levantou. A minissaia estava totalmente levantada, deixando ver a calcinha. Ela deu um sorrisinho, ajeitou a saia, me olhou e disse: — Ah, olha só, que malvadas vocês são. Não esqueceram nenhum detalhe, até calcinha colocaram nele. Mas isso sim, um trabalho excelente, fizeram do Javi uma menina linda. — Agora é Vanessa. — Então, Vanessa, você é uma menina muito bonita. Bem baixinho, consegui dizer: — Obrigada. — Bem, meninas, o jantar está pronto. Aquele "meninas" ficou ecoando na minha cabeça por um bom tempo. Ser tratado assim, incluído no grupo, me deu um baita tesão. Depois do jantar, voltamos pro quarto, onde, depois de conversar um pouco todas deitadas na cama, colocamos música e dançamos até cansar. Aí elas tiveram a ideia de me provar roupas. Me vestiram com tudo: saias, vestidos, shorts, etc. Tudo que saía do armário. Me diverti pra caralho. Naquela altura, já estava bem metido no meu papel de garota. Acho que provei todas as roupas da Bea. Até que não sabiam mais o que me vestir, a Bea lembrou de um vestido. Saiu do quarto por um instante e voltou com uma fantasia de princesa, toda rosa, que ela tinha usado no Carnaval. Primeiro me colocaram uma meia branca, depois o vestido, que ia até os tornozelos, com uma tiara em forma de coroa e uns sapatos brancos com uns dois centímetros de salto. Quando me vi no espelho, foi como se realizei um sonho, ser uma princesinha por um dia, já não sabiam mais o que fazer comigo e enquanto a Bea ia na cozinha pegar água, as outras sentaram na cama e começamos a falar de como estávamos nos divertindo, daí ela chegou com a água, bebemos e a Bea virou pra mim – Vanessa, vem aqui que vou tirar sua fantasia. – ah, agora não me faz levantar que tô confortável aqui sentada. – hahaha, nossa, parece que você gosta demais de ser princesa. – não, mas vocês me deixaram mais de 1 hora em pé, tirando e colocando, e tô cansada. – sei não – disse a Cristina, outra das minas – você não reclamou a noite toda com tudo que a gente fez, e agora quer ficar com o vestido de princesinha, parece que você gosta mais de ser princesa do que príncipe, hahaha. – não, sério, tô cansada, 2 minutos e tiro, além disso é desconfortável. – sim, sim, agora disfarça, te vi super à vontade a noite toda, assume que gostou de ser mina. – ué, se tô me divertindo pra caralho, tem algo de errado nisso? – não, é brincadeira, hahaha. A noite seguiu, a gente falou de música, filme, série até que, como não podia faltar entre minas, o assunto foi pros caras, começaram a falar de quem eram os mais gatos do colégio e de quem cada uma gostava, eu fiquei de fora até que me perguntaram – e você, Vanessa, de quem você gosta? – disse a Ana – Sandra. Essa era uma mina da sala que, mesmo eu quase não falando com ela, eu curtia muito. – isso a gente já sabe, mas tamo falando de caras. – nenhum. – mas quais você acha mais gatos? – sei lá, não entendo disso. – eu também não curto mina e sei reconhecer quem é gata e quem não é – falou a Esther. – bom, então sei lá, Raul, Alberto e mais uns nomes do colégio. – tá, mas qual você acha o mais gato de todos? – disse a Ana. – hummmm, Javi, ou seja, eu. Todas caíram na risada – e agora vocês, quais minas acham mais gatas? Falaram de várias e por último foi a minha vez. mi. - pra você, quem são as mais gostosas? - Vanessa, ou seja, eu - mais risadas - Sandra, como vocês já sabem - falei várias outras, incluindo algumas que estavam ali - e por último - e claro, a melhor de todas pra mim é ela, a Bea. - valeu, gostosa - ela falou, me dando um selinho. A noite seguiu entre risadas até que, às 3 da manhã, a mãe da Bea abriu a porta. - bom, meninas, já chega, me ajudem a colocar os colchões no chão e a dormir, que já é muito tarde. - deixa a gente mais um pouquinho, mãe. - arrumem os colchões e se deitem, aí podem continuar conversando, mas sem fazer bagunça. - tá bom. Juntas, arrumamos o quarto com uns colchões que trouxemos de outros quartos e fomos colocar o pijama. Quando eu tava vestindo, a Bea ficou me olhando e falou: - que pijama feio, hein, tira isso que vou te emprestar um. Fui atrás dela até o armário, ela abriu uma gaveta e lá tinha vários, mas mexeu por baixo e tirou uma camisola rosa clarinha. - toma, veste isso. - uma camisola? - é, vai ficar bem em você e vai dormir confortável - prefiro um pijama - não, com pijama você dorme todo dia. - tá bom. Depois que todas tinham se trocado, fomos ao banheiro em turnos e nos enfiamos na cama. A Bea deitou no mesmo colchão que eu. Continuamos conversando mais um pouco, mas aos poucos todo mundo foi dormindo, até que só a Bea e eu ficamos acordados, conversando por um bom tempo. Em uma dessas, ela falou: - sabe, foi a melhor festa do pijama que já tive. - eu também - sério mesmo que você se divertiu com tudo que a gente fez com você? - sim, muito, me diverti pra caramba. - sabe que fica muito bem em você roupa de menina? - sim, sério? - as minissaias curtinhas e justas que a gente colocou em você te deram um bum danado. - já sei. - kkkk - Bea, você sabe que é minha melhor amiga e que com você não tenho segredos. - sim, e você é meu melhor amigo, Javi, bom, hoje à noite melhor amiga kkkk - kkkk, então, tem um que nunca te contei, mas você não pode contar pra ninguém. - sim, já sei. - o que sabes. -teu segredo, mesmo que não tenha me contado e eu não ligo como você é, você é meu melhor amigo e nada vai mudar isso. -mas me diz o que você acha que é. -tá bom, você é gay. -não é isso ou não sei. -então o que é. -eu gosto de me vestir de menina, gostaria de ser uma menina. -então você é gay. -é o que eu não sei, porque não gosto de meninos, só gosto de me vestir de menina, me sentir menina, adoro colocar calcinhas, saias, vestidos e coisas de vocês, por isso me diverti tanto essa noite, em casa quando meus pais não estão, eu visto a roupa da minha mãe e quando vamos ver minhas primas, eu experimento as calcinhas e saias delas. Houve um silêncio. -você realmente sente isso, talvez você seja travesti. -sim, de verdade, quando faço isso me sinto feliz e acho que sou travesti sim, e essa noite foi assim, vocês me fizeram sentir uma menina igual a vocês, e ainda foi a primeira vez que me maquiei. -fico feliz que tenha te feito tão bem, Vanessa, e de agora em diante, quando quiser se vestir, minha roupa é sua. -obrigada. Então me abracei nela chorando. -por que você chora? -não sei, acho que porque tirei um peso das costas, e estou feliz de ter te contado. -sua bobinha. E dito isso, virou a cabeça e me deu um beijinho e depois outro, e nossos lábios acabaram se encontrando num beijo longo, nosso primeiro beijo foi aquele para nós dois, ficamos nos beijando até que ela começou a rir. -hahaha - uma gargalhada solta - do que você está rindo? -nada, achei engraçado que meu primeiro beijo foi com você e com minha calcinha e minha camisola vestidos. -hahaha - ri eu também - pois é, tem graça que o meu primeiro também foi assim. Rimos um bom tempo sem parar até que aos poucos pegamos no sono. Acordamos umas 10, tomamos café de pijama, bom, menos eu que estava de camisola, Lidia, a mãe da Bea, me olhava e ria. -Javi, não sei como você aguenta essas duas com tudo que elas fazem com você. -eu também não sei como aguento elas hahaha. -pois é como Deixa elas, essas são capazes de arrumar um namorado pra você hahaha. Todas nós começamos a rir, e depois continuamos conversando até terminar o café da manhã, e em seguida nos arrumamos um pouco. Bea tirou minha maquiagem, que estava toda borrada, e fomos nos vestir no quarto onde as outras garotas já estavam prontas. Todas foram para casa, menos eu, que passaria o dia com a Bea. Elas se despediram e ficamos só nós duas. Fui pegar minhas roupas para me vestir, mas a Bea me chamou. — Vem, Vanessa, vamos achar uma roupa pra você. — Tá bom — respondi feliz. Primeiro ela me deu uma tanga branca com um sutiã. Troquei a calcinha sem tirar a camisola, enquanto ela separava uma minissaia rosa com uma camiseta rosa escrito "Sexy Girl", e uns sapatos brancos com um salto baixinho. Quando tirei a camisola e ela me viu de tanga, caiu na risada e me ajudou a colocar o outro sutiã e a roupa. A minissaia era bem mais curta que a do dia anterior, chegava uns 10 cm abaixo da bunda. Quando sentei na cadeira para me maquiar, a tanga aparecia. Ela me maquiou com tons bem claros e lábios rosas, e arrumou meu cabelo solto. Dessa vez, vi como ela ia fazendo tudo e como meu rosto mudava, me transformando de novo na Vanessa. — Já tá pronta. — Sim, e agora o que a gente faz? — falei enquanto andava pelo quarto, fazendo barulho com os saltos. Adorava ouvir aqueles passos que eu mesma provocava. — Sei lá, a gente podia ficar um pouco online. Mas na mesma hora a Lidia abriu a porta e disse: — Bea, Javi, vocês podem descer pra com... — cortou o que ia dizer de repente — Já chega, não fica judiando do pobre Javi assim, vai traumatizar ele. Deixa ele se trocar e descer pra comprar o pão. — Ok, mas deixa eu brincar com o Javi assim. — Javi, você é um bonzinho, ela te manipula do jeito que quer, não sei como você aguenta. E você, vai comprar o pão, anda. Olhei pra ela e dei de ombros. — Vem comigo comprar o pão, Vanessa. Eu ia responder que não dava pra ir assim, mas a Lidia se adiantou: — Mas você... Cê tá louca, como vai sair assim comigo?
— Por que não, se é aqui do lado.
— Anda, cala a boca e cresce logo, só faltava essa, sair assim e vocês encontrarem alguém conhecido. Puta merda, menina, não tem juízo.
Enquanto ela descia, a mãe dela ficou um momento comigo.
— Então, Javi, como você se divertiu?
— Muito bem, foi diferente dos outros anos.
— Então você gostou de fazer papel de menina?
— Sim, foi divertido.
— Hummm, não sei o que pensar sobre isso. Bom, vou indo que a comida tá no meio do preparo.
Daqui a pouco a Bea chegou e até a hora do almoço ficamos no PC e no Playstation jogando. Almoçamos com a mãe dela e depois vimos um filme as três juntas. A Lidia não parava de olhar meus movimentos e ria de vez em quando, até que uma delas disse:
— Você precisa aprender a sentar, Vanessa. Passou a tarde inteira mostrando a calcinha.
Isso me fez ficar vermelha.
— É que essa minissaia é muito curta.
— Anda, levanta que vou te ensinar a sentar como uma mocinha.
Eu levantei, ela me colocou na frente dela, puxou a saia pra baixo e me explicou como sentar e que eu devia cruzar as pernas. E assim a tarde continuou até a hora de ir pra casa.
Por três sábados, encontrei a Bea na casa dela bem cedo de manhã e aproveitávamos até as 5 da tarde, quando a mãe dela chegava do trabalho, pra eu me vestir e passar o dia como duas amigas. Até que no quarto sábado, parece que ela chegou mais cedo, umas 2 da tarde, e nos pegou. E claro, eu vestida de menininha, com um vestido branco acima dos joelhos.
— Bea, já cheguei.
— Oi, mamãe.
— Mas pode me explicar que porra é essa de Javi vestido assim de novo?
— Nada, a gente tava entediada sem saber o que fazer.
— Ahhh, e o tédio vestiu o Javi de menina, que curioso. Mas a verdade é que já não me surpreende, né, Javi? Ou você prefere ser chamada de Vanessa?
Tudo isso ela foi falando num tom bravo, e eu, de cabeça baixa, escutando sem saber o que dizer.
— Não sei. — falei no final, começando a chorar.
A Lidia, ao ver que eu comecei a chorar, chegou perto de mim, pegou na minha mão e sentou. Na cama, me sentei no colo dela e me abracei nela, fiquei encostada no peito dela. — Vem aqui, minha menina, eu sei o que tá rolando contigo e sei que é complicado. Te conheço desde pequenininho e sempre soube que você era uma flor, mas, querida, isso não tem nada de errado. Teve um pequeno silêncio e, entre soluços, eu disse: — Uma flor? — Sim, querida, uma flor. Você, mesmo sendo um menino por fora, por dentro sempre foi uma menina, e isso te faz especial. Vem, para de chorar, se olha no espelho e me diz o que você vê agora. — Uma menina. — E você gosta de se ver assim? — Sim. — É isso que importa, que você goste de se ver assim. O resto não precisa te dar medo; você vai superando pelo caminho que vai te botar obstáculos. E você tem tudo pra ser uma menina bem gostosa, tem carinha, corpo e, se não muda, uma voz bem feminina. Vestida de menina, você é muito bonita, e qualquer dúvida que tiver pode me perguntar sem medo, vou estar aqui pra te ajudar e te apoiar. Eu escutava ela sem saber o que dizer, mas da minha boca saiu um: — Obrigada. — Bom, meninas, vamos comer que eu tô com fome. Enquanto comíamos, ela me perguntou: — Você quer dormir aqui hoje? Tive uma ideia. — Claro que sim. — Então vou ligar pra sua mãe e falar com ela, e depois vou te vestir, te maquiar e te pentear, e vamos passar uma tarde gostosa as três juntas. Podemos ir comer um hambúrguer, olhar roupas, sapatos, fazer coisas de menina. — Não sei, não me atrevo a sair assim, e se alguém me ver e me conhecer? — Fica tranquila, querida, que onde a gente vai ninguém te conhece. Mas primeiro deixa eu te preparar, e depois você decide. — Tá bom. Depois que ela ligou pra minha mãe, lavei meu cabelo, enrolei com um modelador, ela disse pra não me preocupar que no dia seguinte ia alisar de novo. Aí ela me vestiu com roupa íntima branca e duas esponjas que ela cortou um pouco dando formato de peito, colocou em mim e ficaram uns peitos bonitos. Uma saia jeans curtinha com uma camiseta rosinha e umas sandálias pretas. Depois me maquiou com tons bem claros e botou um pouquinho de perfume. Quando terminei. — Já tá pronta, Vanessa? O que cê acha? Acha que alguém pode te reconhecer?
Me olhei por um tempinho. — Acho que não.
— Então, cê se atreve a sair?
— Sei lá, tenho vergonha de sair assim.
— Mas vergonha de quê?
— De sair vestida desse jeito.
— Olha, agora cê sente vergonha na nossa frente?
— Não.
— Então que vergonha cê pode sentir na frente de gente que não conhece?
— Sei lá.
— Nada, já deu. Vou me trocar e a gente vai.
Enquanto se trocava, a Beatriz ficou me dizendo como a gente ia se divertir olhando e experimentando roupas. E chegou a hora de sair, já eram quase seis da tarde. Tava um pouco nervosa e ao mesmo tempo animada. Descemos pro estacionamento, entramos no carro e fomos pra rua. Enquanto isso, de nervoso, eu sentia uma sensação muito estranha no estômago. Depois de quase uma hora de viagem, chegamos no destino. Ela estacionou o carro, a gente saiu e começou a andar. Eu segurei na mão da Bea.
— Cê tá bem, Vanessa? — perguntou a Lídia.
— Muito nervosa.
— Calma, é normal, mas cê vai ver que daqui a pouco passa.
— É.
Primeiro fomos lanchar num lugar daqueles cheio de criança que faz hambúrguer. De tanto nervoso, tava morrendo de vontade de fazer xixi. E quando cheguei lá e vi tanta gente, bateu uma vontade tão grande que eu não aguentava.
— Ai, ai, ai, vou fazer xixi.
— Agora a gente vai pro banheiro.
— Sim, mas correndo que não tô aguentando.
Quando cheguei no banheiro, só de levantar a saia, escapou um pouco e molhou minha calcinha. Saí vermelha do banheiro e falei no ouvido da Bea, mas a Lídia perguntou: — O que foi?
— Nada, escapou um pouquinho de xixi e molhou um pouco minha calcinha.
Ela me puxou de volta pro banheiro.
— Vamos ver, vamos resolver isso — disse ela, tirando um absorvente da bolsa.
Levantou minha saia e, ao tocar na calcinha:
— Nossa, mas cê tá com ela encharcada. Assim não dá pra ir, cê vai ficar desconfortável e vai molhar a saia. Por enquanto vou colocar esse absorvente, e depois a gente vê como resolver.
Saímos do banheiro, depois fomos pra rua e seguimos por uma rua. Cheia de lojas até chegarmos numa. — Vem, vamos entrar aqui, vou te comprar umas calcinhas pra você trocar. Era uma loja de lingerie feminina. Ela começou a olhar o que pegar, enquanto eu e a Bea também olhávamos. A Bea pegava conjuntos de lingerie, olhava e me mostrava, e no começo eu tava meio sem graça com a situação. Tinha mais gente ali e me dava vergonha tocar naquelas peças tão bonitas e delicadas, até que vi um conjunto rosa com a calcinha de rendinha na frente. — Olha, Bea, que lindo. — Gostou desse? — a Lídia se adiantou. — Sim, é bonito, né? — Então pronto, vamos pagar pra você poder trocar. Chegamos no balcão, ela colocou em cima e, enquanto cobravam, perguntou pra vendedora, uma mina de no máximo uns 25 anos. — Tem banheiro aqui? — Pra clientes, não. — Valeu, é que a menina ficou menstruada e se sujou bastante, aí vim comprar umas pra ela trocar. Eu, que tava ouvindo, fiquei vermelha que nem um tomate. — Coitada, por causa disso, deixo vocês entrarem no nosso. Fica naquela porta ali no fim do corredor — disse ela, me olhando e sorrindo — e não fica com vergonha, gata, isso já aconteceu com todas nós. Entrei com a Lídia no banheiro, lavei um pouco com água e me sequei com papel higiênico, e vesti minhas primeiras calcinhas. Aquelas eu mesma tinha escolhido, e ela também me deu o sutiã caso eu quisesse trocar, coisa que eu fiz. Ela ajeitou bem meus peitos e minha roupa, e fomos de novo lanchar. No caminho, perguntei pra Lídia: — Por que você falou pra moça da loja que eu tinha ficado menstruada? — Porque é uma coisa normal de garotas. Ou você preferia que eu dissesse que tinha feito xixi nas calças? — Nãooo. Assim, conversando, chegamos sem perceber na Booty pra pedir uns hambúrgueres de lanche. Aí percebi que a vergonha tinha passado. Lanchamos e fomos pegar o carro, e ela nos levou pra um shopping. Quando entrei lá com tanta gente, me Fiquei um pouco nervosa de novo, mas durou pouco porque entramos numa loja de roupas femininas. Lá, experimentei várias saias e vestidos. Bea comprou umas calças e a mãe dela me disse pra escolher algo que eu gostasse, que ela me daria de presente. Escolhi uma saia curta plissada com uma camiseta branca. Depois disso, percorremos todas as lojas, onde continuei experimentando roupas, e o que mais me animava era calçar uns sapatos de salto alto. Quando percebemos, já era tarde demais, e a Lidia decidiu que a gente ia jantar algo por lá e depois voltar pra casa. Procurando um lugar, encontramos uma amiga da Lidia com os filhos: um menino de 15 anos e uma menina de 6. Enquanto elas conversavam, a Bea me apresentou pra menina, que se chamava Maria, e pro Ruben, o garoto que me deu dois beijos. Eles ficaram conversando por meia hora. O Ruben me deixava nervosa, ele não parava de me olhar, e eu não sabia se era porque ele gostava de mim ou se tinha percebido alguma coisa. Depois disso, jantamos e voltamos pra casa da Bea, onde caí na cama de tão cansada. Lembro daquele dia como se fosse ontem, e ainda guardo com muito carinho minha primeira calcinha e a saia que a Lidia me deu. A partir desse dia, praticamente todos os fins de semana eu passava com a Bea e a mãe dela, embora só dormisse na casa delas de vez em quando. Com elas, aprendi a me maquiar e a combinar roupas. Repetimos aquela primeira saída algumas vezes até que um dia tivemos um susto com o carro, e a Lidia disse que, pra evitar problemas, não faríamos mais isso. Só voltei a sair vestida aos 16 anos, e foi no carnaval. Naquele dia, fui cedinho pra casa da Bea, me vesti e passei o dia todo com ela, experimentando roupas também, mas o melhor foi a noite, quando fomos pra balada dançar. Ali percebi o que é ser uma garota no meio de uma multidão de caras: andar entre eles e sentir as mãos de alguns na bunda. E foi assim nos dois carnavais seguintes, em que saíamos as duas juntas. Naquela época, Bea e eu éramos amigas com direito a roçada, com ela perdi minha virgindade, no meio tive uns rolos com uma ou outra mina, mas pra mim não eram satisfatórios como com a Bea, com ela sempre transei vestido de garota, era isso que me fazia curtir o sexo. Nessa época fiz o curso de cabeleireiro no instituto, terminando aos 19 com meu diploma debaixo do braço.
— E agora a roupa — disse a Bea.
— Isso aí não.
— Claro que sim, você não vai sair maquiada com essa roupa que tá usando.
— Vocês não tão satisfeitas de me maquiar, ainda querem me vestir? Não vou fazer isso.
— Bom, já que essa é uma festa do pijama só pra meninas, pode ir embora.
Mais um puxa-empurra e acabei cedendo, do jeito que eu queria. No fim, me fizeram tirar a roupa e fiquei só de cueca. Me jogaram umas calcinhas rosa com bolinhas brancas.
— Tira isso e coloca essas calcinhas.
Elas se viraram pra não me ver pelado e eu coloquei. Depois, me puseram um sutiã igual, com um par de calcinhas dentro pra dar o formato dos peitos, uma minissaia jeans e uma regata da Hello Kitty. Por último, uns sapatos pretos rasos que ficaram um pouco grandes. Enquanto me vestiam, não paravam de rir, falando como eu tava gostosa. Chegou a hora de me olhar no espelho – elas não tinham deixado eu fazer isso ainda. Quando me vi, não acreditei. Na minha frente, tinha uma menina magrinha e bonita. Naquele momento, um arrepio percorreu meu corpo e me senti feliz e contente com o que via.
Pouco depois, chegou a última garota que faltava. Ela cumprimentou todo mundo com dois beijos e, quando chegou em mim, se apresentou:
— E você, não te conheço. Sou a Ana.
Eu fiquei parado, sem saber o que responder. Mas quando ela se aproximou e me viu direito:
— Javi? Hahaha
— Sim — respondi, ficando vermelho que nem um tomate.
— O que você tá fazendo vestido assim? — sem parar de rir.
— A Bea insistiu que eu tinha que me vestir assim pra festa.
Então ela me olhou de cima a baixo.
— Que loucura, você parece uma menina de verdade.
Aí a Bea interrompeu:
— Agora é só achar um nome pra você.
Sentamos todas na cama e, depois de falar um monte de nomes, decidi escolher um. Vanessa, eu gostei muito, achei que combinava. Nome bem feminino, ficamos até a hora do jantar conversando e brincando no quarto. Na hora do jantar, a mãe da Bea subiu pra nos avisar, coisa que com a emoção da tarde eu nem tinha percebido que ia rolar. Ela abriu a porta e disse: — Vamos jantar. — Já vamos — respondeu a Bea. Aí, quando ela reparou, perguntou: — E o Javi, cadê? E todo mundo, rindo, apontou pra mim. — Mas o que vocês fizeram com o coitado? — Vestir ele pra noite de garotas. — Ah, olha só, vocês são terríveis. Deixa eu ver o que essas meninas fizeram com você. Eu não ousava me virar. Ela chegou perto, me pegou pela mão e me levantou. A minissaia estava totalmente levantada, deixando ver a calcinha. Ela deu um sorrisinho, ajeitou a saia, me olhou e disse: — Ah, olha só, que malvadas vocês são. Não esqueceram nenhum detalhe, até calcinha colocaram nele. Mas isso sim, um trabalho excelente, fizeram do Javi uma menina linda. — Agora é Vanessa. — Então, Vanessa, você é uma menina muito bonita. Bem baixinho, consegui dizer: — Obrigada. — Bem, meninas, o jantar está pronto. Aquele "meninas" ficou ecoando na minha cabeça por um bom tempo. Ser tratado assim, incluído no grupo, me deu um baita tesão. Depois do jantar, voltamos pro quarto, onde, depois de conversar um pouco todas deitadas na cama, colocamos música e dançamos até cansar. Aí elas tiveram a ideia de me provar roupas. Me vestiram com tudo: saias, vestidos, shorts, etc. Tudo que saía do armário. Me diverti pra caralho. Naquela altura, já estava bem metido no meu papel de garota. Acho que provei todas as roupas da Bea. Até que não sabiam mais o que me vestir, a Bea lembrou de um vestido. Saiu do quarto por um instante e voltou com uma fantasia de princesa, toda rosa, que ela tinha usado no Carnaval. Primeiro me colocaram uma meia branca, depois o vestido, que ia até os tornozelos, com uma tiara em forma de coroa e uns sapatos brancos com uns dois centímetros de salto. Quando me vi no espelho, foi como se realizei um sonho, ser uma princesinha por um dia, já não sabiam mais o que fazer comigo e enquanto a Bea ia na cozinha pegar água, as outras sentaram na cama e começamos a falar de como estávamos nos divertindo, daí ela chegou com a água, bebemos e a Bea virou pra mim – Vanessa, vem aqui que vou tirar sua fantasia. – ah, agora não me faz levantar que tô confortável aqui sentada. – hahaha, nossa, parece que você gosta demais de ser princesa. – não, mas vocês me deixaram mais de 1 hora em pé, tirando e colocando, e tô cansada. – sei não – disse a Cristina, outra das minas – você não reclamou a noite toda com tudo que a gente fez, e agora quer ficar com o vestido de princesinha, parece que você gosta mais de ser princesa do que príncipe, hahaha. – não, sério, tô cansada, 2 minutos e tiro, além disso é desconfortável. – sim, sim, agora disfarça, te vi super à vontade a noite toda, assume que gostou de ser mina. – ué, se tô me divertindo pra caralho, tem algo de errado nisso? – não, é brincadeira, hahaha. A noite seguiu, a gente falou de música, filme, série até que, como não podia faltar entre minas, o assunto foi pros caras, começaram a falar de quem eram os mais gatos do colégio e de quem cada uma gostava, eu fiquei de fora até que me perguntaram – e você, Vanessa, de quem você gosta? – disse a Ana – Sandra. Essa era uma mina da sala que, mesmo eu quase não falando com ela, eu curtia muito. – isso a gente já sabe, mas tamo falando de caras. – nenhum. – mas quais você acha mais gatos? – sei lá, não entendo disso. – eu também não curto mina e sei reconhecer quem é gata e quem não é – falou a Esther. – bom, então sei lá, Raul, Alberto e mais uns nomes do colégio. – tá, mas qual você acha o mais gato de todos? – disse a Ana. – hummmm, Javi, ou seja, eu. Todas caíram na risada – e agora vocês, quais minas acham mais gatas? Falaram de várias e por último foi a minha vez. mi. - pra você, quem são as mais gostosas? - Vanessa, ou seja, eu - mais risadas - Sandra, como vocês já sabem - falei várias outras, incluindo algumas que estavam ali - e por último - e claro, a melhor de todas pra mim é ela, a Bea. - valeu, gostosa - ela falou, me dando um selinho. A noite seguiu entre risadas até que, às 3 da manhã, a mãe da Bea abriu a porta. - bom, meninas, já chega, me ajudem a colocar os colchões no chão e a dormir, que já é muito tarde. - deixa a gente mais um pouquinho, mãe. - arrumem os colchões e se deitem, aí podem continuar conversando, mas sem fazer bagunça. - tá bom. Juntas, arrumamos o quarto com uns colchões que trouxemos de outros quartos e fomos colocar o pijama. Quando eu tava vestindo, a Bea ficou me olhando e falou: - que pijama feio, hein, tira isso que vou te emprestar um. Fui atrás dela até o armário, ela abriu uma gaveta e lá tinha vários, mas mexeu por baixo e tirou uma camisola rosa clarinha. - toma, veste isso. - uma camisola? - é, vai ficar bem em você e vai dormir confortável - prefiro um pijama - não, com pijama você dorme todo dia. - tá bom. Depois que todas tinham se trocado, fomos ao banheiro em turnos e nos enfiamos na cama. A Bea deitou no mesmo colchão que eu. Continuamos conversando mais um pouco, mas aos poucos todo mundo foi dormindo, até que só a Bea e eu ficamos acordados, conversando por um bom tempo. Em uma dessas, ela falou: - sabe, foi a melhor festa do pijama que já tive. - eu também - sério mesmo que você se divertiu com tudo que a gente fez com você? - sim, muito, me diverti pra caramba. - sabe que fica muito bem em você roupa de menina? - sim, sério? - as minissaias curtinhas e justas que a gente colocou em você te deram um bum danado. - já sei. - kkkk - Bea, você sabe que é minha melhor amiga e que com você não tenho segredos. - sim, e você é meu melhor amigo, Javi, bom, hoje à noite melhor amiga kkkk - kkkk, então, tem um que nunca te contei, mas você não pode contar pra ninguém. - sim, já sei. - o que sabes. -teu segredo, mesmo que não tenha me contado e eu não ligo como você é, você é meu melhor amigo e nada vai mudar isso. -mas me diz o que você acha que é. -tá bom, você é gay. -não é isso ou não sei. -então o que é. -eu gosto de me vestir de menina, gostaria de ser uma menina. -então você é gay. -é o que eu não sei, porque não gosto de meninos, só gosto de me vestir de menina, me sentir menina, adoro colocar calcinhas, saias, vestidos e coisas de vocês, por isso me diverti tanto essa noite, em casa quando meus pais não estão, eu visto a roupa da minha mãe e quando vamos ver minhas primas, eu experimento as calcinhas e saias delas. Houve um silêncio. -você realmente sente isso, talvez você seja travesti. -sim, de verdade, quando faço isso me sinto feliz e acho que sou travesti sim, e essa noite foi assim, vocês me fizeram sentir uma menina igual a vocês, e ainda foi a primeira vez que me maquiei. -fico feliz que tenha te feito tão bem, Vanessa, e de agora em diante, quando quiser se vestir, minha roupa é sua. -obrigada. Então me abracei nela chorando. -por que você chora? -não sei, acho que porque tirei um peso das costas, e estou feliz de ter te contado. -sua bobinha. E dito isso, virou a cabeça e me deu um beijinho e depois outro, e nossos lábios acabaram se encontrando num beijo longo, nosso primeiro beijo foi aquele para nós dois, ficamos nos beijando até que ela começou a rir. -hahaha - uma gargalhada solta - do que você está rindo? -nada, achei engraçado que meu primeiro beijo foi com você e com minha calcinha e minha camisola vestidos. -hahaha - ri eu também - pois é, tem graça que o meu primeiro também foi assim. Rimos um bom tempo sem parar até que aos poucos pegamos no sono. Acordamos umas 10, tomamos café de pijama, bom, menos eu que estava de camisola, Lidia, a mãe da Bea, me olhava e ria. -Javi, não sei como você aguenta essas duas com tudo que elas fazem com você. -eu também não sei como aguento elas hahaha. -pois é como Deixa elas, essas são capazes de arrumar um namorado pra você hahaha. Todas nós começamos a rir, e depois continuamos conversando até terminar o café da manhã, e em seguida nos arrumamos um pouco. Bea tirou minha maquiagem, que estava toda borrada, e fomos nos vestir no quarto onde as outras garotas já estavam prontas. Todas foram para casa, menos eu, que passaria o dia com a Bea. Elas se despediram e ficamos só nós duas. Fui pegar minhas roupas para me vestir, mas a Bea me chamou. — Vem, Vanessa, vamos achar uma roupa pra você. — Tá bom — respondi feliz. Primeiro ela me deu uma tanga branca com um sutiã. Troquei a calcinha sem tirar a camisola, enquanto ela separava uma minissaia rosa com uma camiseta rosa escrito "Sexy Girl", e uns sapatos brancos com um salto baixinho. Quando tirei a camisola e ela me viu de tanga, caiu na risada e me ajudou a colocar o outro sutiã e a roupa. A minissaia era bem mais curta que a do dia anterior, chegava uns 10 cm abaixo da bunda. Quando sentei na cadeira para me maquiar, a tanga aparecia. Ela me maquiou com tons bem claros e lábios rosas, e arrumou meu cabelo solto. Dessa vez, vi como ela ia fazendo tudo e como meu rosto mudava, me transformando de novo na Vanessa. — Já tá pronta. — Sim, e agora o que a gente faz? — falei enquanto andava pelo quarto, fazendo barulho com os saltos. Adorava ouvir aqueles passos que eu mesma provocava. — Sei lá, a gente podia ficar um pouco online. Mas na mesma hora a Lidia abriu a porta e disse: — Bea, Javi, vocês podem descer pra com... — cortou o que ia dizer de repente — Já chega, não fica judiando do pobre Javi assim, vai traumatizar ele. Deixa ele se trocar e descer pra comprar o pão. — Ok, mas deixa eu brincar com o Javi assim. — Javi, você é um bonzinho, ela te manipula do jeito que quer, não sei como você aguenta. E você, vai comprar o pão, anda. Olhei pra ela e dei de ombros. — Vem comigo comprar o pão, Vanessa. Eu ia responder que não dava pra ir assim, mas a Lidia se adiantou: — Mas você... Cê tá louca, como vai sair assim comigo?
— Por que não, se é aqui do lado.
— Anda, cala a boca e cresce logo, só faltava essa, sair assim e vocês encontrarem alguém conhecido. Puta merda, menina, não tem juízo.
Enquanto ela descia, a mãe dela ficou um momento comigo.
— Então, Javi, como você se divertiu?
— Muito bem, foi diferente dos outros anos.
— Então você gostou de fazer papel de menina?
— Sim, foi divertido.
— Hummm, não sei o que pensar sobre isso. Bom, vou indo que a comida tá no meio do preparo.
Daqui a pouco a Bea chegou e até a hora do almoço ficamos no PC e no Playstation jogando. Almoçamos com a mãe dela e depois vimos um filme as três juntas. A Lidia não parava de olhar meus movimentos e ria de vez em quando, até que uma delas disse:
— Você precisa aprender a sentar, Vanessa. Passou a tarde inteira mostrando a calcinha.
Isso me fez ficar vermelha.
— É que essa minissaia é muito curta.
— Anda, levanta que vou te ensinar a sentar como uma mocinha.
Eu levantei, ela me colocou na frente dela, puxou a saia pra baixo e me explicou como sentar e que eu devia cruzar as pernas. E assim a tarde continuou até a hora de ir pra casa.
Por três sábados, encontrei a Bea na casa dela bem cedo de manhã e aproveitávamos até as 5 da tarde, quando a mãe dela chegava do trabalho, pra eu me vestir e passar o dia como duas amigas. Até que no quarto sábado, parece que ela chegou mais cedo, umas 2 da tarde, e nos pegou. E claro, eu vestida de menininha, com um vestido branco acima dos joelhos.
— Bea, já cheguei.
— Oi, mamãe.
— Mas pode me explicar que porra é essa de Javi vestido assim de novo?
— Nada, a gente tava entediada sem saber o que fazer.
— Ahhh, e o tédio vestiu o Javi de menina, que curioso. Mas a verdade é que já não me surpreende, né, Javi? Ou você prefere ser chamada de Vanessa?
Tudo isso ela foi falando num tom bravo, e eu, de cabeça baixa, escutando sem saber o que dizer.
— Não sei. — falei no final, começando a chorar.
A Lidia, ao ver que eu comecei a chorar, chegou perto de mim, pegou na minha mão e sentou. Na cama, me sentei no colo dela e me abracei nela, fiquei encostada no peito dela. — Vem aqui, minha menina, eu sei o que tá rolando contigo e sei que é complicado. Te conheço desde pequenininho e sempre soube que você era uma flor, mas, querida, isso não tem nada de errado. Teve um pequeno silêncio e, entre soluços, eu disse: — Uma flor? — Sim, querida, uma flor. Você, mesmo sendo um menino por fora, por dentro sempre foi uma menina, e isso te faz especial. Vem, para de chorar, se olha no espelho e me diz o que você vê agora. — Uma menina. — E você gosta de se ver assim? — Sim. — É isso que importa, que você goste de se ver assim. O resto não precisa te dar medo; você vai superando pelo caminho que vai te botar obstáculos. E você tem tudo pra ser uma menina bem gostosa, tem carinha, corpo e, se não muda, uma voz bem feminina. Vestida de menina, você é muito bonita, e qualquer dúvida que tiver pode me perguntar sem medo, vou estar aqui pra te ajudar e te apoiar. Eu escutava ela sem saber o que dizer, mas da minha boca saiu um: — Obrigada. — Bom, meninas, vamos comer que eu tô com fome. Enquanto comíamos, ela me perguntou: — Você quer dormir aqui hoje? Tive uma ideia. — Claro que sim. — Então vou ligar pra sua mãe e falar com ela, e depois vou te vestir, te maquiar e te pentear, e vamos passar uma tarde gostosa as três juntas. Podemos ir comer um hambúrguer, olhar roupas, sapatos, fazer coisas de menina. — Não sei, não me atrevo a sair assim, e se alguém me ver e me conhecer? — Fica tranquila, querida, que onde a gente vai ninguém te conhece. Mas primeiro deixa eu te preparar, e depois você decide. — Tá bom. Depois que ela ligou pra minha mãe, lavei meu cabelo, enrolei com um modelador, ela disse pra não me preocupar que no dia seguinte ia alisar de novo. Aí ela me vestiu com roupa íntima branca e duas esponjas que ela cortou um pouco dando formato de peito, colocou em mim e ficaram uns peitos bonitos. Uma saia jeans curtinha com uma camiseta rosinha e umas sandálias pretas. Depois me maquiou com tons bem claros e botou um pouquinho de perfume. Quando terminei. — Já tá pronta, Vanessa? O que cê acha? Acha que alguém pode te reconhecer?
Me olhei por um tempinho. — Acho que não.
— Então, cê se atreve a sair?
— Sei lá, tenho vergonha de sair assim.
— Mas vergonha de quê?
— De sair vestida desse jeito.
— Olha, agora cê sente vergonha na nossa frente?
— Não.
— Então que vergonha cê pode sentir na frente de gente que não conhece?
— Sei lá.
— Nada, já deu. Vou me trocar e a gente vai.
Enquanto se trocava, a Beatriz ficou me dizendo como a gente ia se divertir olhando e experimentando roupas. E chegou a hora de sair, já eram quase seis da tarde. Tava um pouco nervosa e ao mesmo tempo animada. Descemos pro estacionamento, entramos no carro e fomos pra rua. Enquanto isso, de nervoso, eu sentia uma sensação muito estranha no estômago. Depois de quase uma hora de viagem, chegamos no destino. Ela estacionou o carro, a gente saiu e começou a andar. Eu segurei na mão da Bea.
— Cê tá bem, Vanessa? — perguntou a Lídia.
— Muito nervosa.
— Calma, é normal, mas cê vai ver que daqui a pouco passa.
— É.
Primeiro fomos lanchar num lugar daqueles cheio de criança que faz hambúrguer. De tanto nervoso, tava morrendo de vontade de fazer xixi. E quando cheguei lá e vi tanta gente, bateu uma vontade tão grande que eu não aguentava.
— Ai, ai, ai, vou fazer xixi.
— Agora a gente vai pro banheiro.
— Sim, mas correndo que não tô aguentando.
Quando cheguei no banheiro, só de levantar a saia, escapou um pouco e molhou minha calcinha. Saí vermelha do banheiro e falei no ouvido da Bea, mas a Lídia perguntou: — O que foi?
— Nada, escapou um pouquinho de xixi e molhou um pouco minha calcinha.
Ela me puxou de volta pro banheiro.
— Vamos ver, vamos resolver isso — disse ela, tirando um absorvente da bolsa.
Levantou minha saia e, ao tocar na calcinha:
— Nossa, mas cê tá com ela encharcada. Assim não dá pra ir, cê vai ficar desconfortável e vai molhar a saia. Por enquanto vou colocar esse absorvente, e depois a gente vê como resolver.
Saímos do banheiro, depois fomos pra rua e seguimos por uma rua. Cheia de lojas até chegarmos numa. — Vem, vamos entrar aqui, vou te comprar umas calcinhas pra você trocar. Era uma loja de lingerie feminina. Ela começou a olhar o que pegar, enquanto eu e a Bea também olhávamos. A Bea pegava conjuntos de lingerie, olhava e me mostrava, e no começo eu tava meio sem graça com a situação. Tinha mais gente ali e me dava vergonha tocar naquelas peças tão bonitas e delicadas, até que vi um conjunto rosa com a calcinha de rendinha na frente. — Olha, Bea, que lindo. — Gostou desse? — a Lídia se adiantou. — Sim, é bonito, né? — Então pronto, vamos pagar pra você poder trocar. Chegamos no balcão, ela colocou em cima e, enquanto cobravam, perguntou pra vendedora, uma mina de no máximo uns 25 anos. — Tem banheiro aqui? — Pra clientes, não. — Valeu, é que a menina ficou menstruada e se sujou bastante, aí vim comprar umas pra ela trocar. Eu, que tava ouvindo, fiquei vermelha que nem um tomate. — Coitada, por causa disso, deixo vocês entrarem no nosso. Fica naquela porta ali no fim do corredor — disse ela, me olhando e sorrindo — e não fica com vergonha, gata, isso já aconteceu com todas nós. Entrei com a Lídia no banheiro, lavei um pouco com água e me sequei com papel higiênico, e vesti minhas primeiras calcinhas. Aquelas eu mesma tinha escolhido, e ela também me deu o sutiã caso eu quisesse trocar, coisa que eu fiz. Ela ajeitou bem meus peitos e minha roupa, e fomos de novo lanchar. No caminho, perguntei pra Lídia: — Por que você falou pra moça da loja que eu tinha ficado menstruada? — Porque é uma coisa normal de garotas. Ou você preferia que eu dissesse que tinha feito xixi nas calças? — Nãooo. Assim, conversando, chegamos sem perceber na Booty pra pedir uns hambúrgueres de lanche. Aí percebi que a vergonha tinha passado. Lanchamos e fomos pegar o carro, e ela nos levou pra um shopping. Quando entrei lá com tanta gente, me Fiquei um pouco nervosa de novo, mas durou pouco porque entramos numa loja de roupas femininas. Lá, experimentei várias saias e vestidos. Bea comprou umas calças e a mãe dela me disse pra escolher algo que eu gostasse, que ela me daria de presente. Escolhi uma saia curta plissada com uma camiseta branca. Depois disso, percorremos todas as lojas, onde continuei experimentando roupas, e o que mais me animava era calçar uns sapatos de salto alto. Quando percebemos, já era tarde demais, e a Lidia decidiu que a gente ia jantar algo por lá e depois voltar pra casa. Procurando um lugar, encontramos uma amiga da Lidia com os filhos: um menino de 15 anos e uma menina de 6. Enquanto elas conversavam, a Bea me apresentou pra menina, que se chamava Maria, e pro Ruben, o garoto que me deu dois beijos. Eles ficaram conversando por meia hora. O Ruben me deixava nervosa, ele não parava de me olhar, e eu não sabia se era porque ele gostava de mim ou se tinha percebido alguma coisa. Depois disso, jantamos e voltamos pra casa da Bea, onde caí na cama de tão cansada. Lembro daquele dia como se fosse ontem, e ainda guardo com muito carinho minha primeira calcinha e a saia que a Lidia me deu. A partir desse dia, praticamente todos os fins de semana eu passava com a Bea e a mãe dela, embora só dormisse na casa delas de vez em quando. Com elas, aprendi a me maquiar e a combinar roupas. Repetimos aquela primeira saída algumas vezes até que um dia tivemos um susto com o carro, e a Lidia disse que, pra evitar problemas, não faríamos mais isso. Só voltei a sair vestida aos 16 anos, e foi no carnaval. Naquele dia, fui cedinho pra casa da Bea, me vesti e passei o dia todo com ela, experimentando roupas também, mas o melhor foi a noite, quando fomos pra balada dançar. Ali percebi o que é ser uma garota no meio de uma multidão de caras: andar entre eles e sentir as mãos de alguns na bunda. E foi assim nos dois carnavais seguintes, em que saíamos as duas juntas. Naquela época, Bea e eu éramos amigas com direito a roçada, com ela perdi minha virgindade, no meio tive uns rolos com uma ou outra mina, mas pra mim não eram satisfatórios como com a Bea, com ela sempre transei vestido de garota, era isso que me fazia curtir o sexo. Nessa época fiz o curso de cabeleireiro no instituto, terminando aos 19 com meu diploma debaixo do braço.
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