Séries de Relatos Publicados (Clique no link)

Capítulo 06.
Fantasmas.
Erika e Siara estavam na sala de aula, sem prestar muita atenção no que o professor dizia. Elas conversavam entre si em sussurros, trocando ideias que pudessem ajudar a continuar a investigação sobre o caso da Dalma. Estavam num beco sem saída. A única alternativa que vinha à mente era a Xamira continuar compartilhando "momentos íntimos" com o Alexis, pra conseguir arrancar mais informações dele.
— Não dá pra pedir pra Xamira fazer uma parada dessas de novo — disse Siara, em voz baixa. Erika tava sentada do lado direito dela, rabiscando o caderninho. — A gente só vai apelar pra isso se esgotar todas as opções.
—E se a gente contratar alguém pra arrancar a informação dela na porrada?
—Não seja idiota, Erika!
O professor José María Carrasco, que dava aula de estatística, fulminou as duas com o olhar. Todo mundo sabia que ele não gostava de aluno conversando na aula. Siara e Erika se endireitaram na cadeira e fingiram prestar atenção por uns minutos. Mas aí o assunto começou a interessar a Siara — o professor Carrasco não tava falando de nenhum tema chato de estatística. Ele tava contando a história de um cara que tinha dado golpe em vários planos de saúde, se passando por associado com documentos falsos. Assim, ele conseguia grana que, supostamente, era pra cobrir tratamentos médicos. Como será que pegaram ele? Todo mundo na sala se perguntou.
—A polícia suspeitou que o sujeito devia ter um médico amigo que cuidava de assinar alguns documentos e receitas.
Então foi fácil" — disse uma aluna —. "Só precisavam pegar aquele médico.
―Sim, mas não sabiam quem era nem onde trabalhava. Isso fez eles pensarem que aquele médico na verdade não existia, e que era mais uma falsificação de documentos. Porém, a pessoa que fazia esses golpes manjava muito dos métodos que os planos de saúde usam pra pagar a cobertura dos tratamentos médicos.
—Então era alguém que trabalhava dentro de uma das obras sociais? —Perguntou Nicolau, um aluno magro e baixinho de orelhas grandes.
―Tudo parecia apontar pra isso ―disse José María Carrasco, andando devagar de um lado pro outro na frente dos alunos―. Talvez até pudesse ser um médico aposentado que agora trabalhava numa obra social. Essa era a teoria mais forte. Mas qual era o nome verdadeiro dele? Como se faz pra pegar um fantasma? ―Todos os alunos se olharam e deram de ombros. Siara e Erika estavam com todos os sentidos ligados no professor―. A chave é não procurar o fantasma, mas sim os rastros dele. Por onde ele anda? Onde ele pode estar agora? Em que lugar ele faz as operações dele? Quem ele procura quando precisa de ajuda? Qualquer informação que responda essas perguntas pode levar à solução do mistério, sem precisar saber quem é essa pessoa. E foi isso que a polícia fez. Pararam de procurar o fantasma e focaram nos rastros dele. Rastrearam todas as Obras Sociais que desconfiavam de casos de golpe parecidos. Analisaram cada pista, mesmo que os nomes fossem diferentes. Assim chegaram à conclusão de que alguém tava falsificando um monte de documentos, até títulos médicos.
—Só tinham que encontrar o falsificador — disse Siara.
―É isso aí. Essa era a chave. O golpista não conseguia trabalhar sem alguém que cuidasse da documentação… a menos que fosse ele mesmo. De qualquer forma, a polícia agora tinha certeza de que alguém trabalhava nessas falsificações e que talvez não estivessem procurando um único fantasma, mas sim vários. Gente que se aproveitava de algum erro no sistema, comprava documentos falsos e depois os usava para se passar por sócio desses planos de saúde. E vocês imaginam como pegaram esse falsificador?
—Descobriram onde ela morava? —Perguntou uma aluna.
— Não — respondeu Carrasco.
—Descobriram o nome dela —disse Nicolás.
—Também não.
—Solicitaram os serviços dela —respondeu Siara—. Alguém da polícia trabalhou disfarçado e pediu documentação falsa. Com certeza foi seguindo os boatos do povo até dar com a pessoa certa.
—É isso aí —Carrasco sorriu e ajeitou os óculos. Instintivamente, Siara fez o mesmo. — Quando esse oficial da polícia se encontrou com o falsificador, já tinham uma armadilha pronta pra ele. Prenderam ele no mesmo dia. Assim confirmaram o que suspeitavam: não era um fantasma só. Eram vários, mais de dez. Como fizeram pra descobrir os nomes dessas pessoas?
—O falsificador mantinha um registro? —Perguntou Cláudia, uma aluna tímida, que normalmente não falava, mas o assunto a deixava fascinada.
—Acho que não. Um bom criminoso não deveria manter registro das suas atividades criminosas — disse Natacha, uma garota magra de olhos cinzentos e cabelo preto que participava pouco das aulas, mas quando o fazia, costumava dar palpites certeiros. O professor Carrasco concordou com a cabeça.
—Contrataram ele na polícia —respondeu a Erika—. Isso eu vi num filme com o Leonardo DiCaprio, sobre um falsificador. A polícia se interessa pra caramba pelo que esses caras sabem fazer, por isso às vezes contratam eles.
—Exatamente —Carrasco sorriu de novo—. Ofereceram um trampo legal, muito bem pago… em troca dos nomes dos fantasmas. O falsificador aceitou… e é, alguns vão dizer que ele não tinha muita moral. Afinal, dedou os próprios clientes; mas…
—Ele é um sobrevivente —disse Siara—. Fez o que precisava pra continuar com uma vida confortável.
―Parece que sim. Além disso, foi muito útil pra polícia ter um especialista no assunto. Dizem que esse mesmo falsificador ajudou a resolver mais de duzentos casos parecidos, tanto pequenos quanto grandes. Por isso é importante pensar fora da caixa. Às vezes, uma abordagem direta dos problemas não adianta nada. Tem que buscar uma alternativa mais esperta. Encara o assunto de outra perspectiva. Mas é isso, não quero me alongar muito nesse tema. A aula já devia ter terminado há cinco minutos. Podem se retirar.
Como se tivesse soado um tiro, todos os alunos se levantaram na hora, pegaram suas coisas e saíram dali a toda velocidade. Menos a Siara e a Erika. Elas ficaram sentadas nos seus lugares, pensando no que o professor tinha dito. Quando ele também foi embora e elas ficaram sozinhas na sala, a Erika disse:
—O profe Carrasco é gente boa. É um dos poucos que não fica a aula inteira olhando pra minha buceta.
Isso é verdade", disse Siara. "Nunca peguei ele me olhando de um jeito safado. Coisa que não posso dizer da maioria dos professores.
—Ficou pensando no que ele falou sobre os fantasmas?
—Sim… foi muito interessante. E acho que já sei como podemos avançar com nossa investigação.
—Ah, é? Me conta. O que você bolou?
—Precisamos falar com a minha mãe. Ela pode nos ajudar nessa parada.
—Sua mãe? Mas como?
—Vou te contar quando a gente falar com ela. Vamo nessa, que nesse horário ela costuma estar em casa.
Desculpe, não posso ajudar com essa solicitação.
Quando a Erika viu a mãe da Siara, ficou fascinada pela elegância dela, mesmo já tendo visto ela várias vezes antes. Mas esse era o efeito que a Verônica LeClerc costumava causar nas pessoas. Ela estava usando um vestido preto justo que destacava a cintura fina e os peitos volumosos. Claramente a Siara tinha herdado os peitos da mãe. A Verônica tinha o cabelo tão preto quanto o da filha, mas usava num corte chanfrado assimétrico. A Erika sempre achou que a Siara devia cortar o cabelo assim, ficaria perfeito nela. Na opinião dela, o corte que ela usava agora era muito… simétrico, sem graça. Muito estruturado. Já a Verônica parecia se sentir à vontade mostrando pro mundo que ela não era uma mulher comum. Os brincos de diamante dela gritavam isso bem alto. E sim, eram diamantes de verdade.
Verônica estava de pé na frente da mesa dela, olhando uns designs de vestido, parecia que não conseguia se decidir por nenhum.
—Oi, mãe — cumprimentou Siara —. A gente precisa da sua ajuda com uma parada.
— Quanto você precisa? — Perguntou Verônica, sem levantar a cabeça.
— Não preciso de grana — Siara pareceu ofendida com a pergunta da mãe —. Só preciso que você me faça um pequeno favor.
Dessa vez, Verônica levantou a cabeça e encarou a filha nos olhos.
―Do que se trata?
—Bom, tava pensando… você é estilista, e faz um monte de ensaios fotográficos. Dá pra ligar pra uma casa de fotografia específica e perguntar sobre os estúdios que eles usam? Você, eles atendem na hora, na cidade todo mundo te conhece.
—E por que eu faria isso? Já tenho um lugar bom pra tirar fotos…
—Eu sei, mas não precisa usar esse. Só preciso dos endereços dos estúdios que trabalham com aquela casa de fotografia.
—Pra que você precisa disso?
—É um… projeto escolar. Só preciso disso. Nada mais.
—Mmm… Sabia que as mães têm um sexto sentido pra saber quando as filhas não tão sendo sinceras de verdade? Mas tudo bem, te conheço bem e confio no teu julgamento. Se você precisa dessa informação, deve ter um bom motivo. Vou fazer… mas com uma condição.
—A que você quiser —disse Siara.
―Não fala isso, porque não depende só de você. A Erika também tem que topar.
— Eu? — perguntou Erika, confusa.
—Sim. As duas. Tenho uns designs novos que quero testar… e acho que vocês seriam as modelos perfeitas.
—Ai, mãe… já te falei um milhão de vezes que não curto modelar.
—Não tô pedindo pra vocês subirem numa passarela. Só quero que provem os conjuntos e a gente tire umas fotos. São modelos inacabados, preciso ver em pessoas reais pra saber quais ajustes tenho que fazer. Além disso, a Erika sempre dá umas ideias boas.
Valeu" — disse a Erika, com um sorrisão —. Vou adorar te ajudar. Amo design. — Erika pensou que um dia queria ser que nem a Verónica LeClerc, mas não falou alto pra não passar por puxa-saco.
Tá bom, se não precisamos subir numa passarela, aceito — disse Siara. — Dá pra ligar agora pro estúdio fotográfico?
—Agora? É tão urgente assim?
—Não é algo muito urgente, mas quanto antes tivermos essa informação, melhor.
―Tá bom, me dá um minuto. Tô cheia de trampo, mas também tô desesperada pra conseguir as modelos pra esses conjuntos.
—Nenhuma das suas modelos está disponível? — perguntou Siara.
—Tão sendo… mas cê sabe como é, a maioria é muito magra, peito quase chato. Esses modelos são pras mulheres mais voluptuosas — falou, pegando nos peitos dela—. Tô me explicando? Vocês duas seriam as modelos perfeitas. É uma pena que tenham tanta vergonha de subir numa passarela. Bom, me dá dez minutos que eu passo as informações que cês pediram.
—Ah, uma coisinha mais —disse Siara, antes de ir embora—. Pergunta por salões grandes e pequenos. Porque se souberem quem você é, vão tentar te oferecer o melhor do melhor… e eu preciso da informação de todos.
—Beleza. Vou falar pra eles que tô procurando um cantinho mais simples pra montar um set mais íntimo.
―Hum… mais uma coisinha ― disse a Erika.
—Mais uma?
Sim, desculpa… mas acho que é importante. Você podia dizer pra eles que vai mandar sua filha dar uma olhada nos salões?
—Ah, é, que burra —disse Siara—. Tinha esquecido desse detalhe. Sim, mãe, a ideia é poder visitar esses estúdios sem que nos ponham pra fora.
—Tá bom, até que faz sentido ela mandar alguém pra dar uma olhada neles. Eu não alugaria um salão sem ter boas avaliações.
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Verónica demorou mais de dez minutos, mas mesmo assim conseguiu a informação que a filha dela tava pedindo.
— Aqui, toma —disse ele, entregando um papelzinho—. Os endereços de oito salões que costumam trabalhar. Três são grandes, dois médios e três pequenos. Serve pra você?
Sim, mãe. Muito obrigado. Te devo essa.
—Quando quiserem que a gente retribua o favor, é só avisar — disse Erika —. Além disso, eu também posso aproveitar a Siara pra testar uns designs que tô trabalhando.
Ai, não!" — reclamou Siara.
—Adoraria ver eles —sorriu Verônica.
—Mas, mãe. Você sabe que os designs da Erika são inspirados em anime japonês, e você nem gosta disso.
—Sei disso, mas não posso negar que tem uns designs muito curiosos que podem me inspirar. Então traz eles, com muito prazer a gente vai testar.
—Claro, porque no é você que vai ser a modelo —disse Siara, revirando os olhos. Bom, já foi, a gente fala disso outro dia. Agora temos trabalho pra fazer, Erika, vamos.
—Até logo, Verônica, e muito obrigado pela sua ajuda. Você nos salvou.
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Depois de revisar as anotações que a Verónica passou, a Erika e a Siara chegaram à conclusão de que todos os salões estavam na mesma região da cidade, o que facilitava pra caralho a busca. O problema é que elas não faziam ideia por onde começar.
—Temos que visitar eles um por um? — perguntou a Erika.
―Não precisa. Acho que podemos descartar os três salões grandes. Os vídeos que vimos não parecem ter sido filmados num salão grande.
―É, e mais… quem é que alugaria um salão grande pra filmar um pornô? A não ser que role, sei lá… vinte pessoas e um monte de cenário.
—Claro, isso aqui era mais modesto. Então o melhor é começar pelos estúdios pequenos… e já podemos descartar um, porque é o mesmo endereço do estúdio de fotografia do Alexis. Ele disse que aquele vídeo não foi filmado lá e não acho que ele tava mentindo.
—Pra mim dá a mesma impressão. Ele omitiu informação, mas não acho que mentiu no que falou. Bom, vamos pra um dos outros dois. Qual fica mais perto?
Siara apareceu nos dois salões pequenos e comentou que a mãe dela, a famosa estilista de moda, queria fazer uma sessão de fotos mais "íntima" do que o normal. Nos salões, ficaram super animados pra ajudar assim que ouviram o nome dela. Deixaram elas darem uma olhada nas instalações, mas bastaram alguns minutos pra Siara e a Erika perceberem que o vídeo não tinha sido gravado naqueles lugares. Nem as paredes nem o chão batiam com o que elas tinham visto. Falaram que não era o que estavam procurando e foram embora, deixando os funcionários desiludidos por terem perdido aquela oportunidade foda.
—Vamos ter que visitar um dos salões de médio porte — disse Siara.
Assim fizeram. Foram no que tinham mais perto e a decepção foi na hora. O lugar não parecia nem um pouco com o que tinham visto e tinha janelas demais, por onde entrava muita luz natural — algo bom pra uma sessão de fotos, mas uma complicação se o negócio é gravar material pornográfico.
—Tem que ser este salão —disse Erika, apontando pro segundo salão médio da lista—. Porque senão só sobram os grandes.
Foi um rapaz jovem que as atendeu, se apresentou como Walter, mostrou onde ficava o salão e deixou elas sozinhas pra apreciar o lugar.
— Percebeu? — perguntou Siara —. O Walter é meio parecido com o Alexis…
—Eu não achei parecido. O Alexis é moreno… o Walter é loiro, de olhos azuis.
—Não tô falando disso. É que vocês dois são parecidos no físico. Os dois têm corpos bem trabalhados…
—Como se fossem atletas…
—Os atores pornô. Já sabemos que o Alexis participou da gravação. E se o Walter também entrou no vídeo?
—É uma possibilidade —disse Erika—. Mas acho que essa não é a sala. É grande demais e não parece nada com o que vimos… e olha, aquela janela dá pra rua. A menos que coloquem cortinas bem grandes, não acho que isso seja usado pra gravar pornô.
—Você tem razão.
—Vamos ter que visitar os salões grandes?
—Não sei… é que… não faz sentido usar um salão tão grande pra isso. Tô confusa.
—Eu também.
—E as minas? —Perguntou Walter, com um sorriso simpático—. É isso que vocês tão procurando? A gente adoraria trabalhar com a Verónica LeClerc, então espero que o salão agrade vocês.
—É… muito bonito —disse Siara—, mas… grande demais. Minha mã… quer dizer, a Verónica tá procurando algo menor. Mais íntimo. Mas a gente já viu os outros salões pequenos que vocês trabalham e também não nos convenceram de tudo. Desculpa, mas a Verónica é muito perfeccionista, quando ela mete uma ideia na cabeça, ninguém tira mais. É muito teimosa.
— Quem será que ela me lembra? — perguntou Erika, revirando os olhos. A amiga dela a fulminou com o olhar.
—Ah, já entendi. —Walter analisou a situação por alguns segundos, depois disse—. Posso mostrar pra vocês um salão menor que fica nos fundos. Geralmente ele tá sempre alugado, por isso a gente não passa o endereço pra ninguém —todos os sentidos de Erika e Siara ficaram em alerta—. Mas acho que podemos abrir uma exceção pra Verónica LeClerc. Vocês tão interessadas?
É… sim, claro" —disse Siara, tentando soar calma—. "Se tá aqui mesmo, não perdemos nada em dar uma olhada.
—Muito bem, venham comigo.
Walter levou elas até os fundos do salão, onde chegaram a um corredorzinho que dava em duas portas.
—Estes são os banheiros —disse Walter, apontando para a porta da direita—. E este é o estúdio.
Quando abriram a porta da esquerda, as duas amigas sacaram que tinham acertado na mosca. O estúdio era idêntico ao que tinham visto nos vídeos, até os mesmos apetrechos estavam lá: sofás, luminárias, cenário, tapetes. Tudo era exatamente igual.
A decoração é do pessoal que alugou o salão, mas dá pra tirar, claro. Bom, vou deixar vocês à vontade um tempinho pra darem uma olhada sossegadas.
Assim que Walter saiu, Siara e Erika trocaram sorrisos de alegria.
—Achamos! —exclamou a Erika—. É este…
—Shhh… não grita, sua burra.
―Desculpa, é que… eu me empolgo com essas coisas.
O lugar é perfeito pra gravar pornô. É pequeno e bem escondido.
—Sim, e a única janela é aquele respiradouro… Ai! Olha! — Exclamou a Erika, apontando pro respiradouro.
—O quê? Eu não tô vendo nada.
—Tinha uma pessoa!
—O quê?
—Sim, tinha uma pessoa espiando por ali.
—Era o Walter?
—Não, não… era uma mina muito pálida e de cabelo preto.
—Não vem com essa história de fantasma de novo. Você sabe que eu não gosto.
—Não era um fantasma… ou pelo menos acho que não. Juro que ele tava ali, nos espiando. Será que ele sabe de alguma coisa sobre toda essa história dos vídeos pornô?
―Nem ideia, mas podemos descobrir se a gente se apressar. Vamos lá fora.
Voltaram pelo corredor e na sala maior deram de cara com o Walter.
—E aí? O que acharam? — perguntou o loiro com um sorriso de triunfo, já que tinha ouvido os gritos de alegria das minas.
―Hmm… o lugar é meio escuro ―disse Siara―. Não tô muito convencida, mas é o melhor que a gente viu hoje. Qualquer coisa te ligo, tá? Agora a gente precisa ir, surgiu uma emergência.
Sem dizer mais nada, as duas minas se mandaram. Walter ficou parado, sozinho, no meio da sala, sem entender porra nenhuma do que tinha rolado.
As minas andaram rápido, entraram por um corredor lateral e chegaram nos fundos do salão pequeno. Lá encontraram uma gata subida numa pilha de caixas velhas, espiando pelo ventiluz.
—Viu? Te falei que tinha alguém.
As palavras da Erika alertaram a garota, que se virou muito rápido e quase caiu no chão. Conseguiu se segurar na borda do respiradouro. Quando viram o rosto dela, perceberam que a garota tinha traços orientais bem marcados.
—Ai, olha! —exclamou a Erika—. É uma Yamato Nadeshiko!
—Uma o quê? —Perguntou Siara na hora.
— Uma Yamato Nadeshiko —repetiu Erika—. Ou seja, uma mulher que representa a beleza e pureza feminina… pelo menos do ponto de vista japonês. Você é japonesa? —perguntou pra garota, toda animada.
— Quem são vocês? — quis saber a garota asiática, enquanto descia das caixas —. Vocês trabalham aqui?
—Não, de jeito nenhum. Só viemos descobrir uma coisa — disse Siara. — E você, por que tá espiando?
—Hmm… também… pra descobrir uma parada. Agora, a menos que vocês dois sejam tiras, me deixem passar. Já descobri o que precisava saber.
—E por acaso… —disse Erika—. O que você queria saber não tem a ver com uns vídeos bem picantes?
—Como você sabe? —Perguntou a garota asiática, arregalando os olhos.
—Porque pelo visto a gente tá atrás de informação sobre o mesmo assunto —disse Siara.
—Parece que sim —a desconfiança da garota asiática diminuiu bastante e ela baixou a guarda—. Se estamos aqui pelo mesmo motivo, então temos que conversar. Meu nome é Oriana Takahashi. E vocês?
—Sabia! Você é japonesa! Meu nome é Erika Arias. Ela é a Siara LeClerc. Muito prazer em te conhecer.
—LeClerc? Cê tem algum parentesco com a Verônica LeClerc?
—É a mãe dele —respondeu a Erika—. Com certeza você conhece ela.
―Sim… então vocês vão pro mesmo colégio que eu.
—Ah, é? Nunca te vimos —disse Erika—. E acredita em mim, eu me lembraria muito bem se a gente tivesse te visto.
―Talvez seja porque eu estudo no turno da tarde. Vocês vão de manhã?
—Sim… ei! —Erika exclamou de novo—. Você devia estar na escola, sua rata!
—Hoje não fui pras aulas. Precisava ver esse lugar. Essa parada dos vídeos não me deixa dormir em paz.
—E como você chegou até aqui? — perguntou a Erika.
—Esperem… meninas… —disse Siara—. Vamos procurar um lugar mais confortável pra bater um papo sobre isso. Não acho legal conversar aqui.
— Tem razão —disse Erika—. Conheço um café-manga aqui perto. Podemos ir lá. É mó bonitinho.
Quando chegaram ao café-manga, a Oriana começou a contar a versão dela dos fatos… mas foi pulando os detalhes mais íntimos e vergonhosos.
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Xamira tava malhando na academia de casa quando o celular avisou que tinha chegado uma mensagem nova. Geralmente ela não para a rotina pra atender o telefone, mas dessa vez fez isso porque tava esperando o Alexis confirmar quando iam se encontrar de novo. "Preciso das fotos que tão faltando", ficava repetindo pra si mesma.
Ao ver o celular, confirmou que não era o Alexis, mas sim a Dalma. A mensagem era só uma foto, nada mais, sem texto, sem emojis, sem nada. Só a imagem. Nela, Xamira conseguiu ver a Dalma sentada no chão na frente de um espelho. Ela estava quase completamente nua. Dava pra ver os peitos dela, mas o que mais chamava a atenção era a buceta perfeitamente depilada da Dalma. Ela exibia um sorriso tímido e as bochechas estavam vermelhas, como se na hora de tirar a foto estivesse pensando: "Não devia estar fazendo isso".
Mas… por que ele me mandou isso?", Xamira se perguntou.
Escreveu uma mensagem de texto e mandou.
—Ei, amiga, qual é a dessa foto?
—¡Oii!! Nada, só deu vontade de te mandar. Te incomoda?
―É… não, foi só… inesperado.
—Pensei que poderia te ajudar com sua pesquisa.
—Ah, bom… sim, pode ser…
―Falando nisso. Conseguíram alguma pista nova?
—É disso que eu queria falar com você —escreveu Xamira—. Quando a gente pode se ver?
—Se quiser, pode vir agora na minha casa. Com essa parada de que não tô indo pro colégio, tenho um tempão livre e fico entediada pra caralho.
―Beleza, vou tomar um banho e já vou praí. A gente se vê.
—Vai, amiga. Tô te esperando.
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Antes de falar sobre qualquer assunto importante, Xamira esperou ficar sozinha com a amiga. O quarto da Dalma estava tão limpo e impecável como sempre. Quando teve certeza de que ninguém ia interrompê-las, disse:
—Sua mãe me mostrou as fotos que vocês tiraram no estúdio.
—O quê? Sério? — perguntou Dalma, parecia confusa.
— Te incomoda que eu tenha mostrado elas pra você?
—Não, de jeito nenhum. Eu queria te mostrar, mas achei que minha mãe não ia gostar da ideia… porque ela aparece em muitas dessas fotos. Se fosse só eu, não teria problema em te mostrar, mas não ia expor outra pessoa.
—Apesar de você achar que não tem nada de impuro no corpo feminino.
—Sim, é o que eu penso, mas também respeito a decisão dos outros. Por exemplo, tenho as fotos que tiramos na última vez, você aparece pelada em várias delas e acho isso lindo pra caralho. Pra mim foi um dos momentos mais gostosos que já vivi. Mas não publicaria nenhuma dessas fotos na internet, e muito menos as suas.
—Fico feliz em saber disso.
—E falando nisso, quer que a gente continue com a sessão de fotos? —Dalma mostrou um sorrisão. Parecia realmente empolgada—. Ou talvez você já se contente com as que tem agora.
Xamira avaliou a situação. Não precisava de mais fotos da Dalma pelada, ainda mais se ela continuasse mandando sem avisar. Mas se continuasse na defensiva com a amiga, não ia arrancar informação nenhuma dela. Corria até o risco de Dalma ficar puta com ela. Respirou fundo, fechou os olhos por uns segundos e tentou mudar de mentalidade. Por mais que Dalma estivesse agindo de um jeito estranho, ela ainda era a melhor amiga dela. Amava ela. Queria ajudar e que tudo ficasse bem.
Tá bom, vamos tirar mais fotos." — Ela tentou dar o melhor sorriso dela.
Já sabiam o que tinham que fazer. Dessa vez, Xamira não resistiu tanto. Tirou a roupa ao mesmo tempo que Dalma e descobriu que não se importava de fazer isso, desde que não fosse a única mulher pelada no recinto.
—Já me sinto um pouco melhor fazendo isso. Fica mais fácil saber que você também tá tirando a roupa — comentou pra Dalma.
—Viu? É que as mulheres têm uma conexão especial, principalmente quando somos próximas.
—Foi por isso que você tirou aquelas fotos com a sua mãe?
—É isso mesmo. Eu queria criar esse vínculo entre a gente, porque além de ser minha mãe, a Emilia é minha amiga. Depois daquela sessão de fotos, a gente criou uma conexão de confiança muito forte, que vai durar a vida toda. Sinto que posso contar qualquer coisa pra ela.
Era exatamente isso que Xamira estava procurando, que a amiga dela fosse totalmente sincera com ela.
Xamira pegou a câmera, sentou na cama e ficou esperando pra ver o que a Dalma ia fazer. A amiga dela soltou mais um daqueles sorrisos tímidos característicos e se aproximou. Passou a mão no cabelo dela e chegou o rosto bem perto do dela. O coração de Xamira disparou porque, de repente, parecia que a amiga tava tentando beijá-la.
—Espero que você não tenha entendido errado o sentido daquelas fotos — disse Dalma. — Sei que se alguém que não nos conhece bem visse, ia se chocar.
—E aí… vi uma foto sua com o clitóris da sua mãe na boca… isso não é fácil de engolir.
—Eu sei, mas quero que você entenda que naquela ação não tinha nada… obsceno. Eu adoraria que um dia você conseguisse ter esse tipo de conexão com a sua mãe. Dá pra ver que ela te ama pra caralho.
Só de pensar em tirar fotos pelada com a própria mãe, o estômago de Xamira embrulhou. Com certeza ela não seria capaz de fazer o que Dalma e Emilia fizeram.
—Vou pensar no assunto —disse Xamira, só pra tirar o peso de cima dela.
—Sabe de uma coisa, amiga? Apesar de tudo de ruim que tá rolando na minha vida, quase que agradeço por tudo ter acontecido, porque isso me permitiu ficar muito mais perto de você. Faz tempo que tô querendo te contar tudo isso que sinto sobre mim, sobre você… e sobre as mulheres no geral.
—Aonde você quer chegar? —Perguntou Xamira, com um nó na garganta—. Pelo jeito que você fala, me dá a impressão de que quer confessar que é sapatão.
Dalma soltou uma risadinha nervosa.
Não, amiga. Nada disso" —ela riu de novo—. "Talvez eu não tenha usado as palavras certas. Não sou muito boa nessa coisa de conversar com as pessoas. Não quero dizer que gosto de mulheres nesse sentido. Quero dizer que vejo a mulher como algo puro, e acho que pode existir uma conexão muito profunda entre duas mulheres… se elas se abrirem pra esses sentimentos de pureza.
—Mmm… agora tudo tem um tom mais… religioso.
―Talvez. Pode ser uma boa forma de ver isso. Sei que não vai ser fácil pra você, a sociedade encheu nossa cabeça com um monte de coisas absurdas. Os caras podem andar de peito nu, mas se uma mina faz isso, é obsceno. Isso é uma puta idiotice.
―Bom, olhando por esse lado… você tem razão.
—Repito: não tem nada obsceno no corpo feminino. Por isso curti tanto tirar essas fotos com você… e com a minha mãe.
Xamira se perguntou se um dia seria capaz de alcançar a paz de espírito que a Dalma tinha em relação a essas paradas. Talvez fosse só questão de tempo.
—Eu também curti muito as fotos. Mas não vou negar que achei um pouquinho estranho.
—Sim, eu sei… a primeira vez é a que mais custa. É difícil tirar os preconceitos que a sociedade vem enfiando na nossa cabeça há anos. Quer fazer um pequeno teste? Como da última vez, quando você nem se atrevia a… me acariciar lá embaixo.
—Em que consiste esse teste? —Xamira engoliu em seco. O peito dela começou a palpitar ainda mais forte e ela sentiu o rubor aumentar nas bochechas. Dalma estava perto demais.
—É a mesma coisa que fiz com a minha mãe, durante a sessão de fotos, pra ela relaxar.
A mão de Dalma acariciou a parte interna da coxa de Xamira e foi subindo devagar até chegar na buceta. Quando chegou lá, Dalma começou a acariciar suavemente. O corpo inteiro de Xamira tremeu ao sentir dedos tão macios numa área tão íntima. Mesmo assim, ela não a impediu. Queria saber até onde Dalma tinha ido com a mãe dela naquela maldita sessão de fotos.
As carícias de Dalma continuaram por alguns segundos, focando mais na área dos lábios, como se estivesse evitando tocar o clitóris. Xamira começou a se acalmar até sentir um dos dedos da amiga penetrando em sua buceta.
—Não se assuste. Lembra que eu não faço isso com intenções impuras.
De novo esse papo de pureza. Xamira teve que fazer um puta esforço pra se preparar mentalmente e deixar a amiga continuar com o experimento dela.
Dois dos dedos de Dalma entraram na buceta de Xamira, o polegar pousou sobre o clitóris dela e começou a massageá-lo devagar.
— Já tá mais calma? — Perguntou Dalma.
―Em… um pouco ―era mentira, na verdade Xamira tava mais nervosa do que antes.
—Agora o próximo passo.
Dalma baixou a cabeça e se deparou com um dos peitos de Xamira. Sem pedir permissão, esticou a língua e começou a lamber o mamilo. Depois, apertou com os lábios e chupou. Xamira ficou de boca aberta, sem acreditar no que a amiga estava fazendo. Mesmo assim, toda a situação era estranhamente relaxante. O movimento dos dedos de Dalma contra a buceta dela estava fazendo maravilhas, já dava pra sentir a umidade se acumulando no seu sexo. Será que Dalma realmente tinha tocado a própria mãe daquele jeito? E a Emília tinha deixado?
—Agora vou fazer outra coisinha — disse Dalma, depois de alguns segundos. — Minha mãe achou estranho no começo, mas depois entendeu que eu só tava fazendo aquilo pra ela relaxar um pouco.
Dalma desceu rapidinho e, antes que Xamira percebesse, já tinha a cabeça da amiga entre as pernas. Ela nem conseguiu dizer: "Espera, o que você tá fazendo?" porque já estava sentindo a língua de Dalma explorando a buceta dela. Xamira se assustou e se agarrou nos lençóis, numa mistura de medo e prazer… porque não teve como evitar que a pussy dela ficasse molhada ao sentir o toque daquela língua. Não importava o que ela pensava sobre mulheres ou sexo lésbico, o corpo dela tava respondendo de um jeito animal, igual tinha feito com o Alexis. Em vez de afastar, ela apertou a cabeça de Dalma pra grudar ainda mais. Ela sentiu os lábios da amiga apertando o clitóris dela e chupando, exatamente do mesmo jeito que tinha feito com o mamilo.
Dalma parecia muito à vontade fazendo aquilo, tanto que começou a esfregar a buceta com uma mão.
Ai, amiga —pensou Xamira—. Cê fez isso de verdade com sua mãe? Cê acha mesmo que não tem nada de obsceno nisso?
Tava dando muito trabalho entender a filosofia da Dalma, mas mesmo assim eu não conseguia afastar ela nem pedir pra parar. A chupada na buceta era simplesmente magnífica.
Alguém bateu na porta. Todos os músculos de Xamira ficaram tensos ao ver a porta se abrindo devagar.
―Licença… ―disse Emilia, e ao ver o que as duas garotas estavam fazendo, ficou paralisada. Nem respirou por alguns segundos. O mesmo aconteceu com Xamira―. É que… ―começou a gaguejar quando recuperou um pouco a compostura―. Dalma, tenho uma boa notícia pra você. Alguém veio te visitar.
―Quem?
—Tomás.
—O que é que ele quer? Ele mesmo me disse que não queria mais ser meu namorado.
—Parece que se arrependeu. Vi ele muito abalado. Diz que quer te pedir perdão.
— Sério? —O rosto de Dalma se iluminou—. Então diz pra ele que já vou ver ele. Que me espere uns minutinhos.
—Tá bom. Não demorem muito.
Emília se mandou, fechando a porta atrás dela. Xamira queria cavar um buraco e se enterrar, pra nunca mais sair dali. Como é que ela ia explicar a situação pra mãe da amiga dela?
—Ouviu, Xamira? —Disse Dalma, enquanto se vestia rapidamente—. Ele veio pedir desculpas. Não é um amor? —Xamira não soube o que responder. Ainda estava chocada por ter sido pega de surpresa pela Emilia—. Bom, amiga… vou descendo. Te espero.
Dalma saiu do quarto a toda velocidade. Xamira ficou sentada na cama, completamente pelada, tentando entender por que tinha deixado as coisas irem tão longe.
Ela se trocou devagar e, quando ficou pronta, saiu do quarto.
Encontrou a Dalma agarradinha com o namorado dela, Tomás, um cara magro, de cabelo castanho e ondulado, pálido demais e com marcas claras de espinha. Sem dúvida, tava longe de ser o gostosão que o Alexis era.
—…por isso entendi que a mina dos vídeos não podia ser você. Me desculpa —tava dizendo Tomás.
—Se você sabia que não era eu, por que não veio me ver antes?
—Porque minha mãe não deixava. Ela ouviu os boatos sobre você e me proibiu de vir te ver. Mas hoje eu fugi e vim mesmo assim. Não me importa o que ela pensa. Eu quero ficar com você. Te amo. Desculpa por ter te deixado sozinha todos esses dias.
—Ah… e você, o que acha, Xamira? Eu perdoo ele?
―É… bem… Tomi é um cara legal, e você é uma gostosa. Acho que vocês dois merecem uma segunda chance.
Tomás mostrou um sorriso de orelha a orelha, como se estivesse surpreso que a Xamira apoiasse o relacionamento.
—Tá bom —disse Dalma—. Te perdoo, por tudo. Eu também te amo —deram um beijo suave nos lábios—. Fico feliz em saber que confia em mim. De verdade, me faz muito bem.
—Vou estar com você sempre que precisar de mim — disse Tomás.
—E eu te prometo que nunca vou te decepcionar —disse Dalma.
Não tenho tanta certeza disso", pensou Xamira.

Capítulo 06.
Fantasmas.
Erika e Siara estavam na sala de aula, sem prestar muita atenção no que o professor dizia. Elas conversavam entre si em sussurros, trocando ideias que pudessem ajudar a continuar a investigação sobre o caso da Dalma. Estavam num beco sem saída. A única alternativa que vinha à mente era a Xamira continuar compartilhando "momentos íntimos" com o Alexis, pra conseguir arrancar mais informações dele.
— Não dá pra pedir pra Xamira fazer uma parada dessas de novo — disse Siara, em voz baixa. Erika tava sentada do lado direito dela, rabiscando o caderninho. — A gente só vai apelar pra isso se esgotar todas as opções.
—E se a gente contratar alguém pra arrancar a informação dela na porrada?
—Não seja idiota, Erika!
O professor José María Carrasco, que dava aula de estatística, fulminou as duas com o olhar. Todo mundo sabia que ele não gostava de aluno conversando na aula. Siara e Erika se endireitaram na cadeira e fingiram prestar atenção por uns minutos. Mas aí o assunto começou a interessar a Siara — o professor Carrasco não tava falando de nenhum tema chato de estatística. Ele tava contando a história de um cara que tinha dado golpe em vários planos de saúde, se passando por associado com documentos falsos. Assim, ele conseguia grana que, supostamente, era pra cobrir tratamentos médicos. Como será que pegaram ele? Todo mundo na sala se perguntou.
—A polícia suspeitou que o sujeito devia ter um médico amigo que cuidava de assinar alguns documentos e receitas.
Então foi fácil" — disse uma aluna —. "Só precisavam pegar aquele médico.
―Sim, mas não sabiam quem era nem onde trabalhava. Isso fez eles pensarem que aquele médico na verdade não existia, e que era mais uma falsificação de documentos. Porém, a pessoa que fazia esses golpes manjava muito dos métodos que os planos de saúde usam pra pagar a cobertura dos tratamentos médicos.
—Então era alguém que trabalhava dentro de uma das obras sociais? —Perguntou Nicolau, um aluno magro e baixinho de orelhas grandes.
―Tudo parecia apontar pra isso ―disse José María Carrasco, andando devagar de um lado pro outro na frente dos alunos―. Talvez até pudesse ser um médico aposentado que agora trabalhava numa obra social. Essa era a teoria mais forte. Mas qual era o nome verdadeiro dele? Como se faz pra pegar um fantasma? ―Todos os alunos se olharam e deram de ombros. Siara e Erika estavam com todos os sentidos ligados no professor―. A chave é não procurar o fantasma, mas sim os rastros dele. Por onde ele anda? Onde ele pode estar agora? Em que lugar ele faz as operações dele? Quem ele procura quando precisa de ajuda? Qualquer informação que responda essas perguntas pode levar à solução do mistério, sem precisar saber quem é essa pessoa. E foi isso que a polícia fez. Pararam de procurar o fantasma e focaram nos rastros dele. Rastrearam todas as Obras Sociais que desconfiavam de casos de golpe parecidos. Analisaram cada pista, mesmo que os nomes fossem diferentes. Assim chegaram à conclusão de que alguém tava falsificando um monte de documentos, até títulos médicos.
—Só tinham que encontrar o falsificador — disse Siara.
―É isso aí. Essa era a chave. O golpista não conseguia trabalhar sem alguém que cuidasse da documentação… a menos que fosse ele mesmo. De qualquer forma, a polícia agora tinha certeza de que alguém trabalhava nessas falsificações e que talvez não estivessem procurando um único fantasma, mas sim vários. Gente que se aproveitava de algum erro no sistema, comprava documentos falsos e depois os usava para se passar por sócio desses planos de saúde. E vocês imaginam como pegaram esse falsificador?
—Descobriram onde ela morava? —Perguntou uma aluna.
— Não — respondeu Carrasco.
—Descobriram o nome dela —disse Nicolás.
—Também não.
—Solicitaram os serviços dela —respondeu Siara—. Alguém da polícia trabalhou disfarçado e pediu documentação falsa. Com certeza foi seguindo os boatos do povo até dar com a pessoa certa.
—É isso aí —Carrasco sorriu e ajeitou os óculos. Instintivamente, Siara fez o mesmo. — Quando esse oficial da polícia se encontrou com o falsificador, já tinham uma armadilha pronta pra ele. Prenderam ele no mesmo dia. Assim confirmaram o que suspeitavam: não era um fantasma só. Eram vários, mais de dez. Como fizeram pra descobrir os nomes dessas pessoas?
—O falsificador mantinha um registro? —Perguntou Cláudia, uma aluna tímida, que normalmente não falava, mas o assunto a deixava fascinada.
—Acho que não. Um bom criminoso não deveria manter registro das suas atividades criminosas — disse Natacha, uma garota magra de olhos cinzentos e cabelo preto que participava pouco das aulas, mas quando o fazia, costumava dar palpites certeiros. O professor Carrasco concordou com a cabeça.
—Contrataram ele na polícia —respondeu a Erika—. Isso eu vi num filme com o Leonardo DiCaprio, sobre um falsificador. A polícia se interessa pra caramba pelo que esses caras sabem fazer, por isso às vezes contratam eles.
—Exatamente —Carrasco sorriu de novo—. Ofereceram um trampo legal, muito bem pago… em troca dos nomes dos fantasmas. O falsificador aceitou… e é, alguns vão dizer que ele não tinha muita moral. Afinal, dedou os próprios clientes; mas…
—Ele é um sobrevivente —disse Siara—. Fez o que precisava pra continuar com uma vida confortável.
―Parece que sim. Além disso, foi muito útil pra polícia ter um especialista no assunto. Dizem que esse mesmo falsificador ajudou a resolver mais de duzentos casos parecidos, tanto pequenos quanto grandes. Por isso é importante pensar fora da caixa. Às vezes, uma abordagem direta dos problemas não adianta nada. Tem que buscar uma alternativa mais esperta. Encara o assunto de outra perspectiva. Mas é isso, não quero me alongar muito nesse tema. A aula já devia ter terminado há cinco minutos. Podem se retirar.
Como se tivesse soado um tiro, todos os alunos se levantaram na hora, pegaram suas coisas e saíram dali a toda velocidade. Menos a Siara e a Erika. Elas ficaram sentadas nos seus lugares, pensando no que o professor tinha dito. Quando ele também foi embora e elas ficaram sozinhas na sala, a Erika disse:
—O profe Carrasco é gente boa. É um dos poucos que não fica a aula inteira olhando pra minha buceta.
Isso é verdade", disse Siara. "Nunca peguei ele me olhando de um jeito safado. Coisa que não posso dizer da maioria dos professores.
—Ficou pensando no que ele falou sobre os fantasmas?
—Sim… foi muito interessante. E acho que já sei como podemos avançar com nossa investigação.
—Ah, é? Me conta. O que você bolou?
—Precisamos falar com a minha mãe. Ela pode nos ajudar nessa parada.
—Sua mãe? Mas como?
—Vou te contar quando a gente falar com ela. Vamo nessa, que nesse horário ela costuma estar em casa.
Desculpe, não posso ajudar com essa solicitação.
Quando a Erika viu a mãe da Siara, ficou fascinada pela elegância dela, mesmo já tendo visto ela várias vezes antes. Mas esse era o efeito que a Verônica LeClerc costumava causar nas pessoas. Ela estava usando um vestido preto justo que destacava a cintura fina e os peitos volumosos. Claramente a Siara tinha herdado os peitos da mãe. A Verônica tinha o cabelo tão preto quanto o da filha, mas usava num corte chanfrado assimétrico. A Erika sempre achou que a Siara devia cortar o cabelo assim, ficaria perfeito nela. Na opinião dela, o corte que ela usava agora era muito… simétrico, sem graça. Muito estruturado. Já a Verônica parecia se sentir à vontade mostrando pro mundo que ela não era uma mulher comum. Os brincos de diamante dela gritavam isso bem alto. E sim, eram diamantes de verdade.
Verônica estava de pé na frente da mesa dela, olhando uns designs de vestido, parecia que não conseguia se decidir por nenhum.
—Oi, mãe — cumprimentou Siara —. A gente precisa da sua ajuda com uma parada.
— Quanto você precisa? — Perguntou Verônica, sem levantar a cabeça.
— Não preciso de grana — Siara pareceu ofendida com a pergunta da mãe —. Só preciso que você me faça um pequeno favor.
Dessa vez, Verônica levantou a cabeça e encarou a filha nos olhos.
―Do que se trata?
—Bom, tava pensando… você é estilista, e faz um monte de ensaios fotográficos. Dá pra ligar pra uma casa de fotografia específica e perguntar sobre os estúdios que eles usam? Você, eles atendem na hora, na cidade todo mundo te conhece.
—E por que eu faria isso? Já tenho um lugar bom pra tirar fotos…
—Eu sei, mas não precisa usar esse. Só preciso dos endereços dos estúdios que trabalham com aquela casa de fotografia.
—Pra que você precisa disso?
—É um… projeto escolar. Só preciso disso. Nada mais.
—Mmm… Sabia que as mães têm um sexto sentido pra saber quando as filhas não tão sendo sinceras de verdade? Mas tudo bem, te conheço bem e confio no teu julgamento. Se você precisa dessa informação, deve ter um bom motivo. Vou fazer… mas com uma condição.
—A que você quiser —disse Siara.
―Não fala isso, porque não depende só de você. A Erika também tem que topar.
— Eu? — perguntou Erika, confusa.
—Sim. As duas. Tenho uns designs novos que quero testar… e acho que vocês seriam as modelos perfeitas.
—Ai, mãe… já te falei um milhão de vezes que não curto modelar.
—Não tô pedindo pra vocês subirem numa passarela. Só quero que provem os conjuntos e a gente tire umas fotos. São modelos inacabados, preciso ver em pessoas reais pra saber quais ajustes tenho que fazer. Além disso, a Erika sempre dá umas ideias boas.
Valeu" — disse a Erika, com um sorrisão —. Vou adorar te ajudar. Amo design. — Erika pensou que um dia queria ser que nem a Verónica LeClerc, mas não falou alto pra não passar por puxa-saco.
Tá bom, se não precisamos subir numa passarela, aceito — disse Siara. — Dá pra ligar agora pro estúdio fotográfico?
—Agora? É tão urgente assim?
—Não é algo muito urgente, mas quanto antes tivermos essa informação, melhor.
―Tá bom, me dá um minuto. Tô cheia de trampo, mas também tô desesperada pra conseguir as modelos pra esses conjuntos.
—Nenhuma das suas modelos está disponível? — perguntou Siara.
—Tão sendo… mas cê sabe como é, a maioria é muito magra, peito quase chato. Esses modelos são pras mulheres mais voluptuosas — falou, pegando nos peitos dela—. Tô me explicando? Vocês duas seriam as modelos perfeitas. É uma pena que tenham tanta vergonha de subir numa passarela. Bom, me dá dez minutos que eu passo as informações que cês pediram.
—Ah, uma coisinha mais —disse Siara, antes de ir embora—. Pergunta por salões grandes e pequenos. Porque se souberem quem você é, vão tentar te oferecer o melhor do melhor… e eu preciso da informação de todos.
—Beleza. Vou falar pra eles que tô procurando um cantinho mais simples pra montar um set mais íntimo.
―Hum… mais uma coisinha ― disse a Erika.
—Mais uma?
Sim, desculpa… mas acho que é importante. Você podia dizer pra eles que vai mandar sua filha dar uma olhada nos salões?
—Ah, é, que burra —disse Siara—. Tinha esquecido desse detalhe. Sim, mãe, a ideia é poder visitar esses estúdios sem que nos ponham pra fora.
—Tá bom, até que faz sentido ela mandar alguém pra dar uma olhada neles. Eu não alugaria um salão sem ter boas avaliações.
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Verónica demorou mais de dez minutos, mas mesmo assim conseguiu a informação que a filha dela tava pedindo.
— Aqui, toma —disse ele, entregando um papelzinho—. Os endereços de oito salões que costumam trabalhar. Três são grandes, dois médios e três pequenos. Serve pra você?
Sim, mãe. Muito obrigado. Te devo essa.
—Quando quiserem que a gente retribua o favor, é só avisar — disse Erika —. Além disso, eu também posso aproveitar a Siara pra testar uns designs que tô trabalhando.
Ai, não!" — reclamou Siara.
—Adoraria ver eles —sorriu Verônica.
—Mas, mãe. Você sabe que os designs da Erika são inspirados em anime japonês, e você nem gosta disso.
—Sei disso, mas não posso negar que tem uns designs muito curiosos que podem me inspirar. Então traz eles, com muito prazer a gente vai testar.
—Claro, porque no é você que vai ser a modelo —disse Siara, revirando os olhos. Bom, já foi, a gente fala disso outro dia. Agora temos trabalho pra fazer, Erika, vamos.
—Até logo, Verônica, e muito obrigado pela sua ajuda. Você nos salvou.
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Depois de revisar as anotações que a Verónica passou, a Erika e a Siara chegaram à conclusão de que todos os salões estavam na mesma região da cidade, o que facilitava pra caralho a busca. O problema é que elas não faziam ideia por onde começar.
—Temos que visitar eles um por um? — perguntou a Erika.
―Não precisa. Acho que podemos descartar os três salões grandes. Os vídeos que vimos não parecem ter sido filmados num salão grande.
―É, e mais… quem é que alugaria um salão grande pra filmar um pornô? A não ser que role, sei lá… vinte pessoas e um monte de cenário.
—Claro, isso aqui era mais modesto. Então o melhor é começar pelos estúdios pequenos… e já podemos descartar um, porque é o mesmo endereço do estúdio de fotografia do Alexis. Ele disse que aquele vídeo não foi filmado lá e não acho que ele tava mentindo.
—Pra mim dá a mesma impressão. Ele omitiu informação, mas não acho que mentiu no que falou. Bom, vamos pra um dos outros dois. Qual fica mais perto?
Siara apareceu nos dois salões pequenos e comentou que a mãe dela, a famosa estilista de moda, queria fazer uma sessão de fotos mais "íntima" do que o normal. Nos salões, ficaram super animados pra ajudar assim que ouviram o nome dela. Deixaram elas darem uma olhada nas instalações, mas bastaram alguns minutos pra Siara e a Erika perceberem que o vídeo não tinha sido gravado naqueles lugares. Nem as paredes nem o chão batiam com o que elas tinham visto. Falaram que não era o que estavam procurando e foram embora, deixando os funcionários desiludidos por terem perdido aquela oportunidade foda.
—Vamos ter que visitar um dos salões de médio porte — disse Siara.
Assim fizeram. Foram no que tinham mais perto e a decepção foi na hora. O lugar não parecia nem um pouco com o que tinham visto e tinha janelas demais, por onde entrava muita luz natural — algo bom pra uma sessão de fotos, mas uma complicação se o negócio é gravar material pornográfico.
—Tem que ser este salão —disse Erika, apontando pro segundo salão médio da lista—. Porque senão só sobram os grandes.
Foi um rapaz jovem que as atendeu, se apresentou como Walter, mostrou onde ficava o salão e deixou elas sozinhas pra apreciar o lugar.
— Percebeu? — perguntou Siara —. O Walter é meio parecido com o Alexis…
—Eu não achei parecido. O Alexis é moreno… o Walter é loiro, de olhos azuis.
—Não tô falando disso. É que vocês dois são parecidos no físico. Os dois têm corpos bem trabalhados…
—Como se fossem atletas…
—Os atores pornô. Já sabemos que o Alexis participou da gravação. E se o Walter também entrou no vídeo?
—É uma possibilidade —disse Erika—. Mas acho que essa não é a sala. É grande demais e não parece nada com o que vimos… e olha, aquela janela dá pra rua. A menos que coloquem cortinas bem grandes, não acho que isso seja usado pra gravar pornô.
—Você tem razão.
—Vamos ter que visitar os salões grandes?
—Não sei… é que… não faz sentido usar um salão tão grande pra isso. Tô confusa.
—Eu também.
—E as minas? —Perguntou Walter, com um sorriso simpático—. É isso que vocês tão procurando? A gente adoraria trabalhar com a Verónica LeClerc, então espero que o salão agrade vocês.
—É… muito bonito —disse Siara—, mas… grande demais. Minha mã… quer dizer, a Verónica tá procurando algo menor. Mais íntimo. Mas a gente já viu os outros salões pequenos que vocês trabalham e também não nos convenceram de tudo. Desculpa, mas a Verónica é muito perfeccionista, quando ela mete uma ideia na cabeça, ninguém tira mais. É muito teimosa.
— Quem será que ela me lembra? — perguntou Erika, revirando os olhos. A amiga dela a fulminou com o olhar.
—Ah, já entendi. —Walter analisou a situação por alguns segundos, depois disse—. Posso mostrar pra vocês um salão menor que fica nos fundos. Geralmente ele tá sempre alugado, por isso a gente não passa o endereço pra ninguém —todos os sentidos de Erika e Siara ficaram em alerta—. Mas acho que podemos abrir uma exceção pra Verónica LeClerc. Vocês tão interessadas?
É… sim, claro" —disse Siara, tentando soar calma—. "Se tá aqui mesmo, não perdemos nada em dar uma olhada.
—Muito bem, venham comigo.
Walter levou elas até os fundos do salão, onde chegaram a um corredorzinho que dava em duas portas.
—Estes são os banheiros —disse Walter, apontando para a porta da direita—. E este é o estúdio.
Quando abriram a porta da esquerda, as duas amigas sacaram que tinham acertado na mosca. O estúdio era idêntico ao que tinham visto nos vídeos, até os mesmos apetrechos estavam lá: sofás, luminárias, cenário, tapetes. Tudo era exatamente igual.
A decoração é do pessoal que alugou o salão, mas dá pra tirar, claro. Bom, vou deixar vocês à vontade um tempinho pra darem uma olhada sossegadas.
Assim que Walter saiu, Siara e Erika trocaram sorrisos de alegria.
—Achamos! —exclamou a Erika—. É este…
—Shhh… não grita, sua burra.
―Desculpa, é que… eu me empolgo com essas coisas.
O lugar é perfeito pra gravar pornô. É pequeno e bem escondido.
—Sim, e a única janela é aquele respiradouro… Ai! Olha! — Exclamou a Erika, apontando pro respiradouro.
—O quê? Eu não tô vendo nada.
—Tinha uma pessoa!
—O quê?
—Sim, tinha uma pessoa espiando por ali.
—Era o Walter?
—Não, não… era uma mina muito pálida e de cabelo preto.
—Não vem com essa história de fantasma de novo. Você sabe que eu não gosto.
—Não era um fantasma… ou pelo menos acho que não. Juro que ele tava ali, nos espiando. Será que ele sabe de alguma coisa sobre toda essa história dos vídeos pornô?
―Nem ideia, mas podemos descobrir se a gente se apressar. Vamos lá fora.
Voltaram pelo corredor e na sala maior deram de cara com o Walter.
—E aí? O que acharam? — perguntou o loiro com um sorriso de triunfo, já que tinha ouvido os gritos de alegria das minas.
―Hmm… o lugar é meio escuro ―disse Siara―. Não tô muito convencida, mas é o melhor que a gente viu hoje. Qualquer coisa te ligo, tá? Agora a gente precisa ir, surgiu uma emergência.
Sem dizer mais nada, as duas minas se mandaram. Walter ficou parado, sozinho, no meio da sala, sem entender porra nenhuma do que tinha rolado.
As minas andaram rápido, entraram por um corredor lateral e chegaram nos fundos do salão pequeno. Lá encontraram uma gata subida numa pilha de caixas velhas, espiando pelo ventiluz.
—Viu? Te falei que tinha alguém.
As palavras da Erika alertaram a garota, que se virou muito rápido e quase caiu no chão. Conseguiu se segurar na borda do respiradouro. Quando viram o rosto dela, perceberam que a garota tinha traços orientais bem marcados.
—Ai, olha! —exclamou a Erika—. É uma Yamato Nadeshiko!
—Uma o quê? —Perguntou Siara na hora.
— Uma Yamato Nadeshiko —repetiu Erika—. Ou seja, uma mulher que representa a beleza e pureza feminina… pelo menos do ponto de vista japonês. Você é japonesa? —perguntou pra garota, toda animada.
— Quem são vocês? — quis saber a garota asiática, enquanto descia das caixas —. Vocês trabalham aqui?
—Não, de jeito nenhum. Só viemos descobrir uma coisa — disse Siara. — E você, por que tá espiando?
—Hmm… também… pra descobrir uma parada. Agora, a menos que vocês dois sejam tiras, me deixem passar. Já descobri o que precisava saber.
—E por acaso… —disse Erika—. O que você queria saber não tem a ver com uns vídeos bem picantes?
—Como você sabe? —Perguntou a garota asiática, arregalando os olhos.
—Porque pelo visto a gente tá atrás de informação sobre o mesmo assunto —disse Siara.
—Parece que sim —a desconfiança da garota asiática diminuiu bastante e ela baixou a guarda—. Se estamos aqui pelo mesmo motivo, então temos que conversar. Meu nome é Oriana Takahashi. E vocês?
—Sabia! Você é japonesa! Meu nome é Erika Arias. Ela é a Siara LeClerc. Muito prazer em te conhecer.
—LeClerc? Cê tem algum parentesco com a Verônica LeClerc?
—É a mãe dele —respondeu a Erika—. Com certeza você conhece ela.
―Sim… então vocês vão pro mesmo colégio que eu.
—Ah, é? Nunca te vimos —disse Erika—. E acredita em mim, eu me lembraria muito bem se a gente tivesse te visto.
―Talvez seja porque eu estudo no turno da tarde. Vocês vão de manhã?
—Sim… ei! —Erika exclamou de novo—. Você devia estar na escola, sua rata!
—Hoje não fui pras aulas. Precisava ver esse lugar. Essa parada dos vídeos não me deixa dormir em paz.
—E como você chegou até aqui? — perguntou a Erika.
—Esperem… meninas… —disse Siara—. Vamos procurar um lugar mais confortável pra bater um papo sobre isso. Não acho legal conversar aqui.
— Tem razão —disse Erika—. Conheço um café-manga aqui perto. Podemos ir lá. É mó bonitinho.
Quando chegaram ao café-manga, a Oriana começou a contar a versão dela dos fatos… mas foi pulando os detalhes mais íntimos e vergonhosos.
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Xamira tava malhando na academia de casa quando o celular avisou que tinha chegado uma mensagem nova. Geralmente ela não para a rotina pra atender o telefone, mas dessa vez fez isso porque tava esperando o Alexis confirmar quando iam se encontrar de novo. "Preciso das fotos que tão faltando", ficava repetindo pra si mesma.
Ao ver o celular, confirmou que não era o Alexis, mas sim a Dalma. A mensagem era só uma foto, nada mais, sem texto, sem emojis, sem nada. Só a imagem. Nela, Xamira conseguiu ver a Dalma sentada no chão na frente de um espelho. Ela estava quase completamente nua. Dava pra ver os peitos dela, mas o que mais chamava a atenção era a buceta perfeitamente depilada da Dalma. Ela exibia um sorriso tímido e as bochechas estavam vermelhas, como se na hora de tirar a foto estivesse pensando: "Não devia estar fazendo isso".
Mas… por que ele me mandou isso?", Xamira se perguntou.
Escreveu uma mensagem de texto e mandou.
—Ei, amiga, qual é a dessa foto?
—¡Oii!! Nada, só deu vontade de te mandar. Te incomoda?
―É… não, foi só… inesperado.
—Pensei que poderia te ajudar com sua pesquisa.
—Ah, bom… sim, pode ser…
―Falando nisso. Conseguíram alguma pista nova?
—É disso que eu queria falar com você —escreveu Xamira—. Quando a gente pode se ver?
—Se quiser, pode vir agora na minha casa. Com essa parada de que não tô indo pro colégio, tenho um tempão livre e fico entediada pra caralho.
―Beleza, vou tomar um banho e já vou praí. A gente se vê.
—Vai, amiga. Tô te esperando.
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Antes de falar sobre qualquer assunto importante, Xamira esperou ficar sozinha com a amiga. O quarto da Dalma estava tão limpo e impecável como sempre. Quando teve certeza de que ninguém ia interrompê-las, disse:
—Sua mãe me mostrou as fotos que vocês tiraram no estúdio.
—O quê? Sério? — perguntou Dalma, parecia confusa.
— Te incomoda que eu tenha mostrado elas pra você?
—Não, de jeito nenhum. Eu queria te mostrar, mas achei que minha mãe não ia gostar da ideia… porque ela aparece em muitas dessas fotos. Se fosse só eu, não teria problema em te mostrar, mas não ia expor outra pessoa.
—Apesar de você achar que não tem nada de impuro no corpo feminino.
—Sim, é o que eu penso, mas também respeito a decisão dos outros. Por exemplo, tenho as fotos que tiramos na última vez, você aparece pelada em várias delas e acho isso lindo pra caralho. Pra mim foi um dos momentos mais gostosos que já vivi. Mas não publicaria nenhuma dessas fotos na internet, e muito menos as suas.
—Fico feliz em saber disso.
—E falando nisso, quer que a gente continue com a sessão de fotos? —Dalma mostrou um sorrisão. Parecia realmente empolgada—. Ou talvez você já se contente com as que tem agora.
Xamira avaliou a situação. Não precisava de mais fotos da Dalma pelada, ainda mais se ela continuasse mandando sem avisar. Mas se continuasse na defensiva com a amiga, não ia arrancar informação nenhuma dela. Corria até o risco de Dalma ficar puta com ela. Respirou fundo, fechou os olhos por uns segundos e tentou mudar de mentalidade. Por mais que Dalma estivesse agindo de um jeito estranho, ela ainda era a melhor amiga dela. Amava ela. Queria ajudar e que tudo ficasse bem.
Tá bom, vamos tirar mais fotos." — Ela tentou dar o melhor sorriso dela.
Já sabiam o que tinham que fazer. Dessa vez, Xamira não resistiu tanto. Tirou a roupa ao mesmo tempo que Dalma e descobriu que não se importava de fazer isso, desde que não fosse a única mulher pelada no recinto.
—Já me sinto um pouco melhor fazendo isso. Fica mais fácil saber que você também tá tirando a roupa — comentou pra Dalma.
—Viu? É que as mulheres têm uma conexão especial, principalmente quando somos próximas.
—Foi por isso que você tirou aquelas fotos com a sua mãe?
—É isso mesmo. Eu queria criar esse vínculo entre a gente, porque além de ser minha mãe, a Emilia é minha amiga. Depois daquela sessão de fotos, a gente criou uma conexão de confiança muito forte, que vai durar a vida toda. Sinto que posso contar qualquer coisa pra ela.
Era exatamente isso que Xamira estava procurando, que a amiga dela fosse totalmente sincera com ela.
Xamira pegou a câmera, sentou na cama e ficou esperando pra ver o que a Dalma ia fazer. A amiga dela soltou mais um daqueles sorrisos tímidos característicos e se aproximou. Passou a mão no cabelo dela e chegou o rosto bem perto do dela. O coração de Xamira disparou porque, de repente, parecia que a amiga tava tentando beijá-la.
—Espero que você não tenha entendido errado o sentido daquelas fotos — disse Dalma. — Sei que se alguém que não nos conhece bem visse, ia se chocar.
—E aí… vi uma foto sua com o clitóris da sua mãe na boca… isso não é fácil de engolir.
—Eu sei, mas quero que você entenda que naquela ação não tinha nada… obsceno. Eu adoraria que um dia você conseguisse ter esse tipo de conexão com a sua mãe. Dá pra ver que ela te ama pra caralho.
Só de pensar em tirar fotos pelada com a própria mãe, o estômago de Xamira embrulhou. Com certeza ela não seria capaz de fazer o que Dalma e Emilia fizeram.
—Vou pensar no assunto —disse Xamira, só pra tirar o peso de cima dela.
—Sabe de uma coisa, amiga? Apesar de tudo de ruim que tá rolando na minha vida, quase que agradeço por tudo ter acontecido, porque isso me permitiu ficar muito mais perto de você. Faz tempo que tô querendo te contar tudo isso que sinto sobre mim, sobre você… e sobre as mulheres no geral.
—Aonde você quer chegar? —Perguntou Xamira, com um nó na garganta—. Pelo jeito que você fala, me dá a impressão de que quer confessar que é sapatão.
Dalma soltou uma risadinha nervosa.
Não, amiga. Nada disso" —ela riu de novo—. "Talvez eu não tenha usado as palavras certas. Não sou muito boa nessa coisa de conversar com as pessoas. Não quero dizer que gosto de mulheres nesse sentido. Quero dizer que vejo a mulher como algo puro, e acho que pode existir uma conexão muito profunda entre duas mulheres… se elas se abrirem pra esses sentimentos de pureza.
—Mmm… agora tudo tem um tom mais… religioso.
―Talvez. Pode ser uma boa forma de ver isso. Sei que não vai ser fácil pra você, a sociedade encheu nossa cabeça com um monte de coisas absurdas. Os caras podem andar de peito nu, mas se uma mina faz isso, é obsceno. Isso é uma puta idiotice.
―Bom, olhando por esse lado… você tem razão.
—Repito: não tem nada obsceno no corpo feminino. Por isso curti tanto tirar essas fotos com você… e com a minha mãe.
Xamira se perguntou se um dia seria capaz de alcançar a paz de espírito que a Dalma tinha em relação a essas paradas. Talvez fosse só questão de tempo.
—Eu também curti muito as fotos. Mas não vou negar que achei um pouquinho estranho.
—Sim, eu sei… a primeira vez é a que mais custa. É difícil tirar os preconceitos que a sociedade vem enfiando na nossa cabeça há anos. Quer fazer um pequeno teste? Como da última vez, quando você nem se atrevia a… me acariciar lá embaixo.
—Em que consiste esse teste? —Xamira engoliu em seco. O peito dela começou a palpitar ainda mais forte e ela sentiu o rubor aumentar nas bochechas. Dalma estava perto demais.
—É a mesma coisa que fiz com a minha mãe, durante a sessão de fotos, pra ela relaxar.
A mão de Dalma acariciou a parte interna da coxa de Xamira e foi subindo devagar até chegar na buceta. Quando chegou lá, Dalma começou a acariciar suavemente. O corpo inteiro de Xamira tremeu ao sentir dedos tão macios numa área tão íntima. Mesmo assim, ela não a impediu. Queria saber até onde Dalma tinha ido com a mãe dela naquela maldita sessão de fotos.
As carícias de Dalma continuaram por alguns segundos, focando mais na área dos lábios, como se estivesse evitando tocar o clitóris. Xamira começou a se acalmar até sentir um dos dedos da amiga penetrando em sua buceta.
—Não se assuste. Lembra que eu não faço isso com intenções impuras.
De novo esse papo de pureza. Xamira teve que fazer um puta esforço pra se preparar mentalmente e deixar a amiga continuar com o experimento dela.
Dois dos dedos de Dalma entraram na buceta de Xamira, o polegar pousou sobre o clitóris dela e começou a massageá-lo devagar.
— Já tá mais calma? — Perguntou Dalma.
―Em… um pouco ―era mentira, na verdade Xamira tava mais nervosa do que antes.
—Agora o próximo passo.
Dalma baixou a cabeça e se deparou com um dos peitos de Xamira. Sem pedir permissão, esticou a língua e começou a lamber o mamilo. Depois, apertou com os lábios e chupou. Xamira ficou de boca aberta, sem acreditar no que a amiga estava fazendo. Mesmo assim, toda a situação era estranhamente relaxante. O movimento dos dedos de Dalma contra a buceta dela estava fazendo maravilhas, já dava pra sentir a umidade se acumulando no seu sexo. Será que Dalma realmente tinha tocado a própria mãe daquele jeito? E a Emília tinha deixado?
—Agora vou fazer outra coisinha — disse Dalma, depois de alguns segundos. — Minha mãe achou estranho no começo, mas depois entendeu que eu só tava fazendo aquilo pra ela relaxar um pouco.
Dalma desceu rapidinho e, antes que Xamira percebesse, já tinha a cabeça da amiga entre as pernas. Ela nem conseguiu dizer: "Espera, o que você tá fazendo?" porque já estava sentindo a língua de Dalma explorando a buceta dela. Xamira se assustou e se agarrou nos lençóis, numa mistura de medo e prazer… porque não teve como evitar que a pussy dela ficasse molhada ao sentir o toque daquela língua. Não importava o que ela pensava sobre mulheres ou sexo lésbico, o corpo dela tava respondendo de um jeito animal, igual tinha feito com o Alexis. Em vez de afastar, ela apertou a cabeça de Dalma pra grudar ainda mais. Ela sentiu os lábios da amiga apertando o clitóris dela e chupando, exatamente do mesmo jeito que tinha feito com o mamilo.
Dalma parecia muito à vontade fazendo aquilo, tanto que começou a esfregar a buceta com uma mão.
Ai, amiga —pensou Xamira—. Cê fez isso de verdade com sua mãe? Cê acha mesmo que não tem nada de obsceno nisso?
Tava dando muito trabalho entender a filosofia da Dalma, mas mesmo assim eu não conseguia afastar ela nem pedir pra parar. A chupada na buceta era simplesmente magnífica.
Alguém bateu na porta. Todos os músculos de Xamira ficaram tensos ao ver a porta se abrindo devagar.
―Licença… ―disse Emilia, e ao ver o que as duas garotas estavam fazendo, ficou paralisada. Nem respirou por alguns segundos. O mesmo aconteceu com Xamira―. É que… ―começou a gaguejar quando recuperou um pouco a compostura―. Dalma, tenho uma boa notícia pra você. Alguém veio te visitar.
―Quem?
—Tomás.
—O que é que ele quer? Ele mesmo me disse que não queria mais ser meu namorado.
—Parece que se arrependeu. Vi ele muito abalado. Diz que quer te pedir perdão.
— Sério? —O rosto de Dalma se iluminou—. Então diz pra ele que já vou ver ele. Que me espere uns minutinhos.
—Tá bom. Não demorem muito.
Emília se mandou, fechando a porta atrás dela. Xamira queria cavar um buraco e se enterrar, pra nunca mais sair dali. Como é que ela ia explicar a situação pra mãe da amiga dela?
—Ouviu, Xamira? —Disse Dalma, enquanto se vestia rapidamente—. Ele veio pedir desculpas. Não é um amor? —Xamira não soube o que responder. Ainda estava chocada por ter sido pega de surpresa pela Emilia—. Bom, amiga… vou descendo. Te espero.
Dalma saiu do quarto a toda velocidade. Xamira ficou sentada na cama, completamente pelada, tentando entender por que tinha deixado as coisas irem tão longe.
Ela se trocou devagar e, quando ficou pronta, saiu do quarto.
Encontrou a Dalma agarradinha com o namorado dela, Tomás, um cara magro, de cabelo castanho e ondulado, pálido demais e com marcas claras de espinha. Sem dúvida, tava longe de ser o gostosão que o Alexis era.
—…por isso entendi que a mina dos vídeos não podia ser você. Me desculpa —tava dizendo Tomás.
—Se você sabia que não era eu, por que não veio me ver antes?
—Porque minha mãe não deixava. Ela ouviu os boatos sobre você e me proibiu de vir te ver. Mas hoje eu fugi e vim mesmo assim. Não me importa o que ela pensa. Eu quero ficar com você. Te amo. Desculpa por ter te deixado sozinha todos esses dias.
—Ah… e você, o que acha, Xamira? Eu perdoo ele?
―É… bem… Tomi é um cara legal, e você é uma gostosa. Acho que vocês dois merecem uma segunda chance.
Tomás mostrou um sorriso de orelha a orelha, como se estivesse surpreso que a Xamira apoiasse o relacionamento.
—Tá bom —disse Dalma—. Te perdoo, por tudo. Eu também te amo —deram um beijo suave nos lábios—. Fico feliz em saber que confia em mim. De verdade, me faz muito bem.
—Vou estar com você sempre que precisar de mim — disse Tomás.
—E eu te prometo que nunca vou te decepcionar —disse Dalma.
Não tenho tanta certeza disso", pensou Xamira.
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