Um impulso inesperado me faz pressionar com minhas mãozinhas as teclas do notebook. As palavras surgem numa velocidade impressionante, como se eu não precisasse pensar um segundo no que vou escrever em seguida. Sou uma pessoa de determinação forte, sim. Mas ainda assim me surpreendo com minha própria faceta literária. Foi o doutor Ezeiza Pol, meu terapeuta, quem me recomendou que colocasse minhas memórias em palavras, embora agora eu sinta que não faço isso por causa desse conselho, mas por uma necessidade catártica que surgiu do nada. No fundo, acho que nós dois sabemos que tudo se resume ao meu distanciamento do meu pai, à minha necessidade urgente de ter uma figura paterna constante, e ao trauma que me deixou o fato de ele ter se separado da minha mãe quando eu era bem pequena.
Nós nascemos quebrados. Já tinha ouvido essa frase num desenho animado, que parei de ver porque achava muito deprimente, pra falar a verdade. Mas até agora não conseguia refutá-la. Parecia que eu era condicionada desde que me entendo por gente, como se tudo que eu fizesse fosse destinado a ser daquele jeito e de nenhum outro. Até nos meus atos de rebeldia, acabava concluindo que essa mesma rebelião já tinha sido traçada pra mim.
Tô divagando, eu sei. Quando resolvi escrever, me perguntei por onde começaria. Por que parte da minha vida. Imediatamente percebi que não queria começar pela minha infância solitária. E não digo solitária por falta de amigas, nem por ter sido discriminada. Solitária pelo abandono do meu pai, solitária pela morte da tia Guillermina, solitária por ter que cuidar da minha mãe, até mais do que ela cuidava de mim, solitária por não saber onde eu me encaixava, solitária por ser filha única...
Também não quero começar pela minha adolescência. Essa época foi marcada pela insegurança e pela autoestima baixa. Acontece que sou muito pequena, e muito branca, e isso me fazia sentir como uma garota sem graça. do lado das minhas amigas, que já tinham um busto impressionante. Digamos que demorei um pouco mais pra me desenvolver.
Então vou voltar só dez anos no passado. Foi aí que comecei a me transformar na mulher que sou hoje. Com tudo de bom e de ruim que isso significa.
Naquela época, fazia pouco tempo que eu morava num apartamento em Palermo. Esse imóvel foi comprado pelo meu pai, que só sabe demonstrar afeto de um jeito: com dinheiro. Eu tava saindo com o Mariano, um loirinho lindo e doce. Ele tinha vinte e cinco anos, deixava uma barba sexy crescer, e tinha um sorriso entre cômico e infantil. Como já estávamos juntos há dois anos, se não me engano, ele passava muito tempo no meu apê, a ponto de praticamente morar comigo.
Não tinha quase nada pra reclamar do coitado do Mariano. Ele tinha um temperamento fraco, que eu compensava com o meu. Era daquelas pessoas que não aguentavam o silêncio, então eu costumava me irritar quando ele não parava de falar. Mas, apesar disso, no geral ele tinha uma boa conversa. Na cama, no começo a gente se dava bem. Como todo mundo na casa dos vinte, a gente não passava um dia sem transar. Mas isso foi se apagando aos poucos. Ou melhor, foi se apagando nele, porque eu continuava tão tesuda quanto sempre. Aos poucos, ele parou de buscar meu corpo com a frequência que eu queria, o que me enchia de medos e incertezas.
A falta de vontade dele me fez desconfiar. Sempre que podia, eu fuçava o celular dele, mas não encontrava nada incriminador, o que me deixava mais pilhada do que já tava, porque se ele não tava transando com mais ninguém, por que não queria transar comigo?
Naquela época, eu já tinha aprendido a tirar proveito do meu corpo. Acabei sendo muito mais voluptuosa do que, na adolescência, eu imaginava. Minha pele branca deixou de ter aquela palidez exagerada de antes. E, principalmente, eu sabia usar roupas que valorizavam. minhas virtudes e esconderiam meus defeitos. Mas, de qualquer forma, graças a esse desinteresse do Mariano, a criatura insegura que habitava em mim estava vindo à tona de novo.
— Você tá me traindo com alguém! — afirmei uma noite, depois de me sentar no colo dele quase nua, só de fio dental, sem conseguir o efeito esperado nele.
Mariano me jurou que não. Depois me acusou de louca. Depois implorou pra eu pensar melhor. No fim, eu o expulsei do apartamento.
Não era a primeira vez que eu o colocava pra fora no meio da noite. Sabia que ele podia se refugiar na casa dos pais, ou na de alguns amigos, que não eram poucos. Mas, de qualquer forma, em algum momento eu começava a sentir pena e mandava ele voltar. Isso acontecia na maioria das vezes. Na minoria, eu deixava ele vagando por aí e me recusava a responder as mensagens. Aquela noite foi uma dessas. Tava convencida de que ele me traía com alguma colega de trabalho ou da faculdade. Não era um cara que passava despercebido. Gato, elegante, educado. Embora parecessem características comuns, era muito difícil encontrar as três numa pessoa só.
Quando essas coisas entravam na minha cabeça, não tinha quem tirasse. Até hoje não sei se ele realmente tava me enganando ou não. Inclino a acreditar que não. Mas então, a dúvida continua sem resposta: por que ele não me comia?
Tomei um banho, me maquiei, vesti uma calça preta que grudava tanto no meu corpo que quase me sentia nua. Em cima, um top branco e, por cima, uma jaqueta preta. Cabelo solto. Botas com plataforma enorme. Me olhei no espelho. Tava muito gostosa. A Paula diria que eu tava uma puta.
Quando desci, o Miguel, o segurança, saltou da cadeira, abriu a porta pra mim e, sem disfarçar muito, olhou pra minha bunda.
O Miguel me dava graça. Dizia estar apaixonado por mim. Me conhecia há menos de meio ano. A gente tinha conversado só umas duas vezes, mas ele jurava que tava apaixonado por mim. Uma vez, numa daquelas vezes que eu tava brigada com o Mariano, ele arrumou uma desculpa pra me seguir até o meu apê. Tinha chegado um pacote que eu comprei na internet. Quando ele viu que tava pesado pra mim, se ofereceu pra ajudar. Falei que beleza. No elevador, aquele silêncio que deixava na cara a tensão sexual enorme que ele tava sentindo. Quando chegamos no meu apê, deixei ele entrar pra colocar a caixa em cima de uma mesa. Aí ele tentou me beijar de boca aberta.
— Tenho namorado — falei, virando o rosto. Mas o idiota tentou de novo. Dei um tapa na cara dele e mandei ele vazar.
Depois disso, castiguei ele com uma indiferença gelada. Pra alguém que supostamente tava apaixonado como ele, aquilo era terrível. Ele pediu desculpas um milhão de vezes, e aos poucos foi ganhando minha simpatia de novo. Mas ainda queria me comer, isso tava claro.
Fui no meu carro (que também foi papai quem comprou) pra um bar que ficava a meia hora de casa. Minhas amigas sempre se chocavam quando eu falava que ia tomar um drink sozinha, mas não era nada tão ruim assim. Sou uma pessoa solitária, e curto muito minha solidão. Pedi uma cerveja no balcão. Não passou nem dois minutos e já tinha dois caras meio bêbados querendo me paquerar.
— Que pena que vieram juntos — falei com ironia —. Se fosse só um, com certeza me conquistava. Mas não faço a três.
O barman riu. Era um cara de uns trinta anos, mandíbula quadrada, olhos azuis, braços fortes. Bastou eu devolver o olhar pra ele decidir tomar o lugar dos caras anteriores e começar a mostrar suas artes de sedução. Me perguntou como eu me chamava.
— Alexia.
— Nome bonito — ele disse —. Sei que é o que todo mundo fala. Mas no teu caso é verdade. Além disso, é um nome bem original. Não conheço ninguém que se chame Alexia.
— E acho que não vai Você não conhece ninguém como eu" — respondi, me fazendo de difícil.
A gente conversou um pouco. Ele me ofereceu outra cerveja. Brinquei, dizendo que parecia que ele queria me embebedar pra me levar pra cama. Fui ao banheiro. Falei que já voltava. Como esperava, ele me seguiu pelo corredor escuro. Me segurou pelo braço, me encostou na parede. Sussurrou no meu ouvido que eu era muito gostosa. Me beijou com gosto. Dessa vez, não desviei. O hálito dele era de cerveja com menta. As mãos grossas foram, claro, pra trás. Mais do que acariciar, ele amassou minha bunda. Os dedos pareciam famintos, se esfregando no lugar mais fundo.
— Vem — disse ele, pronto pra aliviar o tesão num banheiro imundo.
— Não — falei —. Tenho namorado.
E saí correndo daquele lugar. Não consegui ver a cara dele, já que tava de costas, mas imaginei que ele ficou pasmo, de boca aberta, com o pau duro.
Entrei no carro e voltei pra casa, me sentindo frustrada. Miguel puxou conversa quando cheguei. Quis saber por que eu tinha voltado tão cedo. Falei que não queria falar sobre isso. Assim que entrei no meu apartamento, o interfone tocou.
— Queria te perguntar se você podia me fazer um favor — disse Miguel. Dava pra ver que ele tava nervoso, então resolvi deixar ele mais nervoso ainda.
— A essa hora? — perguntei, com um tom escandalizado, já que era meia-noite —. O que você quer? — completei, de cara fechada.
— É que... hum... — ele disse, sem conseguir terminar a frase —. É que eu trouxe uma marmita com comida. Mas... hum... o micro-ondas que a gente tem aqui não funciona, e só agora percebi. E a maioria dos vizinhos já tá dormindo, então não posso incomodar. Você poderia...?
— Sobe — falei, e desliguei.
Em questão de segundos, ouvi duas batidas na porta. Miguel era um cara de vinte e seis anos (dois anos mais velho que eu), bem comum. Pele morena, cabelo curto, corte militar, castanho escuro. Óculos de armação quadrada. Nem magro, nem gordo. Ele me levava mais de uma cabeça, como a maioria dos homens. O uniforme azul, que tentava imitar o da polícia, até dava um certo charme, mas nada demais.
Na verdade, eu devia ter mandado ele esperar no corredor enquanto esquentava a comida, mas não queria que alguma vizinha fofoqueira visse e inventasse coisas sobre mim, então deixei ele entrar. Ele me seguiu feito um cachorrinho até a cozinha. Meu celular tocou. Era uma mensagem do Mariano. Ignorei.
Abri o micro-ondas. Ele estava numa prateleira alta demais pra alguém como eu, então sempre tinha que ficar na ponta dos pés pra alcançar. Programei pra três minutos. Aí sinto a mão do Miguel me tocando.
— O que cê tá fazendo? — pergunto, mas fico parada, de costas pra ele. Além disso, meu tom não soou tão indignado quanto devia.
— Que buceta gostosa que você tem — ele diz, e continua me apalpando. O suposto apaixonamento dele virou uma excitação primitiva. Eu tinha imaginado que ele ia tentar me beijar de novo, mas isso me pegou de surpresa.
— Tenho namorado — lembro ele, e me afasto. Me apoio na pia pra ele não ter acesso às minhas nádegas. Mas ele se aproxima. Sinto a meia-borra dele nas minhas cadeiras. Acaricia minha bochecha com ternura. Desvio o olhar.
— Mas vejo que seu namorado não cuida de você — ele diz. Me segura pelo queixo. Vira meu rosto. Nossos olhares se encontram. Tenta me beijar. Desvio.
— Isso é problema meu — respondo.
Ele envolve minha cintura com as mãos. São mãos grandes e ásperas. Se esfregam em mim. Sobem, até alcançar meus peitos. Como não falo nada, ele leva como consentimento. Os aperta.
— Você é perfeita — ele diz —. Perfeita por onde se olha. Adoro sua carinha de menina — completa, sem parar de massagear meus peitos.
Todos os homens com quem estive adoram minha...carinha de novinhaAlgo que deveriam tratar em terapia, sem dúvida.
— Bom, sua comida já está pronta — falo, quando o micro-ondas dá aquele bipe que sempre odiei, mas que naquele momento agradeci.
Mas ele faz de conta que não me ouve. Me distraio, e ele aproveita pra, finalmente, juntar a boca dele com a minha. A língua dele babaca meus lábios quando tenta penetrá-los. Me entrego. Abro a boca. Massageia minha língua. Me puxa pra perto dele, e de novo tem nas mãos minha tão desejada bunda.
Isso é mais que suficiente pra ele se convencer de que vou deixar ele me comer.
— Não. Mariano pode chegar a qualquer momento — falo, virando o rosto de novo. Mas ele aproveita pra agora chupar meu pescoço —. Não me deixa marcas —. Peço.
Sinto um gostoso formigamento e a massagem da língua dele. As mãos dele parecem hábeis, mas estão vidradas na minha bunda. Os dedos se esfregam na costura da legging. Ele apoia uma mão no meu ombro e me empurra com muita força pra baixo.
— Não. Para. Não podemos. Você tá trabalhando. E eu tenho namorado — falo. Mas ele faz ouvidos moucos. Empurra com mais força.
Me vejo obrigada a ficar de cócoras. Ele abaixa o zíper da calça e libera o pau dele. É um pau bonito. Grosso e bem duro. Aproxima ele da minha boca. Finjo uma última resistência, embora naquele momento já esteja derrotada. Ele me agarra pela cabeça e empurra o sexo dele na minha direção. Dessa vez não encontra resistência. Se ele quer tanto que eu chupe, vou chupar, penso. Além disso, eu também tava tentada por aquele instrumento gostoso. Os paus em si me parecem lindos. Até então não conhecia muitos. Mariano tinha sido meu terceiro homem. Antes dele, só tive um namorado da adolescência e um vizinho que me tirou a virgindade. Nos próximos dois meses, eu comeria mais caras e multiplicaria esse número, mas tô me adiantando.
Ouço ele gemer enquanto chupo sem parar. Ouço ele me elogiar pelo jeito que faço. Eu faço isso. Ouço ele me dizer que sou uma puta gostosa, uma e outra vez. Depois descobriria que a maioria dos homens adora nos chamar de puta. Agora esse insulto é novo, e me parece tão humilhante quanto excitante. Era verdade. Naquele momento eu estava agindo como uma puta. Como castigo, paro de chupar ele. Já é hora de ele me satisfazer. De apagar o incêndio que o Mariano se recusa a apagar.
Levo ele pela mão até o quarto. Nos ajudamos a nos despir. A roupa fica no chão, a minha misturada com a dele. Fico de quatro na cama. Miguel me elogia pela minha bunda linda. Dá um beijo nela e enfia a língua na parte mais escondida da minha intimidade. Faz cócegas, mas também é relaxante a massagem que recebo.
— Você tem camisinha? — pergunto. Não quero usar as que tenho em casa. Mariano não é muito observador. Duvidava que ele fosse notar a falta de uma. Mas não queria arriscar.
— Claro — diz Miguel. Procura no bolso da calça dele que está no chão e tira um pacote.
— Tão seguro assim de que ia me comer? — pergunto surpresa, já que eu mesma tinha decidido dar pra ele há poucos minutos.
— Seguro, não. Mas é sempre melhor estar preparado — ele diz. Me dá um tapa na bunda. Coloca a camisinha. Me come lembrando como sou puta. Peço pra não fazermos tanto barulho, porque os vizinhos podem ouvir, e não queria que fofocas chegassem aos ouvidos do meu namorado. Ele me segura pelos quadris. É muito gostoso sentir o pau dele me penetrando devagar. Sou eu mesma quem acaba quebrando a regra de não fazer barulho. Meus gemidos saem descontrolados da minha garganta. Miguel me sacode e me fode com vontade.
Ele goza. Ficamos ofegantes na cama. Ele me abraça. Me segura pelo queixo e me faz olhar pra ele.
— Você é incrível. Depois disso, estou mais apaixonado do que nunca — ele promete.
— Você não está apaixonado. Você nem me conhece. Só está com tesão — eu digo. Tô ligada que tem algo em mim que faz os cara sentirem uma mistura de ternura e tesão. Isso deixa eles confusos. Os otários e imaturos, tipo o Miguel, se deixam levar pelas emoções. Não sou do tipo que só serve de objeto de desejo. Sou o objeto de desejo, sim, e também sou aquela mina que eles adorariam apresentar pra família. Uma garota direita, que quando não tá usando roupa provocante parece toda recatada.
Ele me dá um beijo suave na boca. Passa a mão na minha bochecha. O olhar dele é de apaixonado, isso é fato, mas não vejo como algo romântico, me dá mais é medo. Ele acaricia meu corpo, até que a arma dele endurece de novo. No fim, pego uma camisinha no criado-mudo. A determinação que tanto me orgulha perde a força na cama.
— Você não vai ter problema por ficar tanto tempo longe do trampo? — pergunto, enquanto ele coloca a camisinha.
— Relaxa — ele diz —. A essa hora todo mundo tá dormindo. Só aparece uns caras, mas esses não enchem o saco.
Ele sobe em cima de mim. Me come de novo. A ternura dele vai sumindo aos poucos, enquanto meus gemidos ficam mais altos. Eu mordo o travesseiro. Ele me dá um tapão na bunda. O telefone toca. Acho que é o Mariano, mas naquele momento só quero a pica do Miguel dentro de mim. De qualquer forma, duvidava que ele aparecesse no apê sem eu deixar. E, no fim das contas, o perigo iminente me deixava com muito mais tesão.
Nunca imaginei que aquele segurança sem graça fosse me fazer gozar, mas era verdade. Eu gozo, e enquanto isso, percebo por que as coisas com o Mariano estão tão ruins. Fazia quanto tempo que ele não me fazia gozar? O Miguel encosta a pica na minha boca. Abro, chupo ele. Sei que ele tá quase gozando. Penso que tá tudo bem, que ele merece esse prêmio pela boa performance. Deixo ele gozar na minha boca, mas nem fodendo que vou engolir o esperma. Deixo ele me olhar de boca aberta, mostrando a porra dele. No canto do dos lábios escapa um jato fino. Vou ao banheiro. Cuspo no vaso e dou descarga. Enxáguo a boca e volto pro quarto.
Miguel me abraça. Me sinto minúscula do lado dele. Pergunto onde ele deixou a camisinha. Enrolo num papel e vou jogar no vaso também. Não quero deixar nenhuma prova que me incrimine.
Quando volto pro quarto, Miguel já tá se vestindo.
— Foi incrível — ele fala—. Você fode como uma deusa.
Penso em dizer que isso foi coisa de uma noite só. Um deslize. Mas não falo. De qualquer forma, ele já devia saber.
— Te vejo nos próximos dias — ele diz, me dando um beijo no umbigo.
— Claro — respondo.
Ainda pelada, acompanho ele até a saída. Tomo um banho. Passo desodorante de ambiente no quarto. No dia seguinte vou trocar os lençóis. Leio as mensagens do Mariano. Ele tá dormindo na casa do Fede. Diz que me ama. Que me deseja. Que simplesmente não tem a mesma energia sexual que eu, mas jura que vai dar conta. Deixo no vácuo.
Penso que vai ser muito chato encontrar o Miguel de novo. Com certeza vai querer me comer outra vez. Decido voltar pro meu namorado.
Mariano se comporta bem. Me agrada. Me fode. Me faz gozar. Mas as semanas passam, e ele parece ter esquecido a promessa. Vivemos num ciclo vicioso absurdo. Primeiro, ele deixa passar um dia sem me comer. Nada anormal, embora pra alguém como eu seja algo alarmante. Depois, o tempo entre uma foda e outra vai se espaçando cada vez mais. Quando passam cinco dias sem ele me dar, sem dizer nada, mostro meu desgosto. Qualquer besteira é desculpa perfeita pra fazer um escândalo. Miguel nos observa entrando e saindo do prédio durante a noite, quando Mariano volta do trabalho. Tenho a sensação de que ele é um corvo que pressente que bem perto dele tem um cadáver pra se alimentar. Minha relação com Mariano tá moribunda, e ele sabe.
Um dia chego sozinha. Lá pelas oito. Não briguei com o Mariano, mas tô muito puta. Ele falou que ia sair pra tomar umas cervejas com os amigos, e que voltava em duas horas. Ainda por cima que não me come, ainda se dá ao luxo de sair por aí com os amigões dele. Tô indignada. Miguel me pergunta o que que tem: falo que nada, que não quero conversar. Ele me segue até o elevador. Entra comigo.
— O que cê tá fazendo? — pergunto.
— Você não faz ideia de como sinto sua falta — ele fala.
Percebo que foi um erro ter dormido com ele. Ele realmente acredita nas mentiras que ele mesmo inventa. Como ia sentir minha falta se a gente mal se fala? Ele se joga em cima de mim. Eu tô com as duas mãos ocupadas com as sacolas das compras que acabei de fazer no mercadinho da esquina. Isso, junto com meu corpo frágil de quarenta e cinco quilos, me faz uma presa fácil pra um cara como ele.
Me encolho num canto. Ele tenta me beijar. Consigo desviar, baixando o olhar.
— Meu namorado tá quase chegando — minto.
— Não acredito em você — ele fala.
As mãos dele enfiam por baixo da saia. Ele acaricia minha bunda com desespero. O elevador chega no meu andar. Sinto um alívio. Finalmente o inferno acaba. Mas ele me segue até a porta.
— Chega! — falo. E por mais ridículo que pareça, não quero levantar a voz pra fazer escândalo, coisa que ele aproveita—. Não quero fazer nada.
Enfio a chave na fechadura. Quando abro a porta, ele entra no meu apartamento junto comigo. Me agarra pelo pulso. As sacolas caem no chão.
— O que cê tá fazendo? — falo de novo, embora saiba muito bem o que ele tá fazendo. Ele me arrasta pro quarto que já conhece.
Não tenho forças pra enfrentar ele, e não quero gritar e as vizinhas ouvirem o que tá rolando. Parece idiota, eu sei. Mas naquele momento (e no futuro em muitos outros) minha mente funciona desse jeito.
Ele me empurra pra cama com violência. Caio de bruços. Levanta minha saia e tira minha calcinha num puxão rápido. movimento. Dá pra perceber que ele é um profissional, pensei naquele instante. Ele me viola naquela posição, e o pior de tudo é que eu tô gostando.
Ele me dá um tapa na bunda. Enterra o dedo no meu cu. É a primeira vez que alguém faz isso. Mariano tem isso proibido, mas Miguel não pede permissão. Descubro que não é nada ruim. Provavelmente esse é o gatilho que, num futuro não muito distante, vai me transformar numa viciada em sexo anal.
Não consigo evitar soltar gemidos quando o dedo entra por completo. Ele me dá tapas na bunda. Fala que sou uma puta linda. Eu fico parada, sem reclamar mais. Faz o que quiser, penso. Depois ele me come na mesma posição.
— Vaza. Mariano vai chegar a qualquer hora — falo quando ele goza, com o leite escorrendo pela minha coxa—. Vaza, por favor — imploro, quase chorando.
— Não precisa mentir. Segundo ele me disse, hoje saiu com uns amigos e só volta tarde.
— Você fala com ele? — pergunto, surpresa.
— Sim. Gosto dele. É um cara legal.
— Gosta dele... E come a namorada dele? — falo, indignada.
— A vida é assim.
Ele limpa a pica e volta pro lugar dele. Tô convencida de que não vai ser a última vez que vou ter que lidar com ele.
Fim
Nós nascemos quebrados. Já tinha ouvido essa frase num desenho animado, que parei de ver porque achava muito deprimente, pra falar a verdade. Mas até agora não conseguia refutá-la. Parecia que eu era condicionada desde que me entendo por gente, como se tudo que eu fizesse fosse destinado a ser daquele jeito e de nenhum outro. Até nos meus atos de rebeldia, acabava concluindo que essa mesma rebelião já tinha sido traçada pra mim.
Tô divagando, eu sei. Quando resolvi escrever, me perguntei por onde começaria. Por que parte da minha vida. Imediatamente percebi que não queria começar pela minha infância solitária. E não digo solitária por falta de amigas, nem por ter sido discriminada. Solitária pelo abandono do meu pai, solitária pela morte da tia Guillermina, solitária por ter que cuidar da minha mãe, até mais do que ela cuidava de mim, solitária por não saber onde eu me encaixava, solitária por ser filha única...
Também não quero começar pela minha adolescência. Essa época foi marcada pela insegurança e pela autoestima baixa. Acontece que sou muito pequena, e muito branca, e isso me fazia sentir como uma garota sem graça. do lado das minhas amigas, que já tinham um busto impressionante. Digamos que demorei um pouco mais pra me desenvolver.
Então vou voltar só dez anos no passado. Foi aí que comecei a me transformar na mulher que sou hoje. Com tudo de bom e de ruim que isso significa.
Naquela época, fazia pouco tempo que eu morava num apartamento em Palermo. Esse imóvel foi comprado pelo meu pai, que só sabe demonstrar afeto de um jeito: com dinheiro. Eu tava saindo com o Mariano, um loirinho lindo e doce. Ele tinha vinte e cinco anos, deixava uma barba sexy crescer, e tinha um sorriso entre cômico e infantil. Como já estávamos juntos há dois anos, se não me engano, ele passava muito tempo no meu apê, a ponto de praticamente morar comigo.
Não tinha quase nada pra reclamar do coitado do Mariano. Ele tinha um temperamento fraco, que eu compensava com o meu. Era daquelas pessoas que não aguentavam o silêncio, então eu costumava me irritar quando ele não parava de falar. Mas, apesar disso, no geral ele tinha uma boa conversa. Na cama, no começo a gente se dava bem. Como todo mundo na casa dos vinte, a gente não passava um dia sem transar. Mas isso foi se apagando aos poucos. Ou melhor, foi se apagando nele, porque eu continuava tão tesuda quanto sempre. Aos poucos, ele parou de buscar meu corpo com a frequência que eu queria, o que me enchia de medos e incertezas.
A falta de vontade dele me fez desconfiar. Sempre que podia, eu fuçava o celular dele, mas não encontrava nada incriminador, o que me deixava mais pilhada do que já tava, porque se ele não tava transando com mais ninguém, por que não queria transar comigo?
Naquela época, eu já tinha aprendido a tirar proveito do meu corpo. Acabei sendo muito mais voluptuosa do que, na adolescência, eu imaginava. Minha pele branca deixou de ter aquela palidez exagerada de antes. E, principalmente, eu sabia usar roupas que valorizavam. minhas virtudes e esconderiam meus defeitos. Mas, de qualquer forma, graças a esse desinteresse do Mariano, a criatura insegura que habitava em mim estava vindo à tona de novo.
— Você tá me traindo com alguém! — afirmei uma noite, depois de me sentar no colo dele quase nua, só de fio dental, sem conseguir o efeito esperado nele.
Mariano me jurou que não. Depois me acusou de louca. Depois implorou pra eu pensar melhor. No fim, eu o expulsei do apartamento.
Não era a primeira vez que eu o colocava pra fora no meio da noite. Sabia que ele podia se refugiar na casa dos pais, ou na de alguns amigos, que não eram poucos. Mas, de qualquer forma, em algum momento eu começava a sentir pena e mandava ele voltar. Isso acontecia na maioria das vezes. Na minoria, eu deixava ele vagando por aí e me recusava a responder as mensagens. Aquela noite foi uma dessas. Tava convencida de que ele me traía com alguma colega de trabalho ou da faculdade. Não era um cara que passava despercebido. Gato, elegante, educado. Embora parecessem características comuns, era muito difícil encontrar as três numa pessoa só.
Quando essas coisas entravam na minha cabeça, não tinha quem tirasse. Até hoje não sei se ele realmente tava me enganando ou não. Inclino a acreditar que não. Mas então, a dúvida continua sem resposta: por que ele não me comia?
Tomei um banho, me maquiei, vesti uma calça preta que grudava tanto no meu corpo que quase me sentia nua. Em cima, um top branco e, por cima, uma jaqueta preta. Cabelo solto. Botas com plataforma enorme. Me olhei no espelho. Tava muito gostosa. A Paula diria que eu tava uma puta.
Quando desci, o Miguel, o segurança, saltou da cadeira, abriu a porta pra mim e, sem disfarçar muito, olhou pra minha bunda.
O Miguel me dava graça. Dizia estar apaixonado por mim. Me conhecia há menos de meio ano. A gente tinha conversado só umas duas vezes, mas ele jurava que tava apaixonado por mim. Uma vez, numa daquelas vezes que eu tava brigada com o Mariano, ele arrumou uma desculpa pra me seguir até o meu apê. Tinha chegado um pacote que eu comprei na internet. Quando ele viu que tava pesado pra mim, se ofereceu pra ajudar. Falei que beleza. No elevador, aquele silêncio que deixava na cara a tensão sexual enorme que ele tava sentindo. Quando chegamos no meu apê, deixei ele entrar pra colocar a caixa em cima de uma mesa. Aí ele tentou me beijar de boca aberta.
— Tenho namorado — falei, virando o rosto. Mas o idiota tentou de novo. Dei um tapa na cara dele e mandei ele vazar.
Depois disso, castiguei ele com uma indiferença gelada. Pra alguém que supostamente tava apaixonado como ele, aquilo era terrível. Ele pediu desculpas um milhão de vezes, e aos poucos foi ganhando minha simpatia de novo. Mas ainda queria me comer, isso tava claro.
Fui no meu carro (que também foi papai quem comprou) pra um bar que ficava a meia hora de casa. Minhas amigas sempre se chocavam quando eu falava que ia tomar um drink sozinha, mas não era nada tão ruim assim. Sou uma pessoa solitária, e curto muito minha solidão. Pedi uma cerveja no balcão. Não passou nem dois minutos e já tinha dois caras meio bêbados querendo me paquerar.
— Que pena que vieram juntos — falei com ironia —. Se fosse só um, com certeza me conquistava. Mas não faço a três.
O barman riu. Era um cara de uns trinta anos, mandíbula quadrada, olhos azuis, braços fortes. Bastou eu devolver o olhar pra ele decidir tomar o lugar dos caras anteriores e começar a mostrar suas artes de sedução. Me perguntou como eu me chamava.
— Alexia.
— Nome bonito — ele disse —. Sei que é o que todo mundo fala. Mas no teu caso é verdade. Além disso, é um nome bem original. Não conheço ninguém que se chame Alexia.
— E acho que não vai Você não conhece ninguém como eu" — respondi, me fazendo de difícil.
A gente conversou um pouco. Ele me ofereceu outra cerveja. Brinquei, dizendo que parecia que ele queria me embebedar pra me levar pra cama. Fui ao banheiro. Falei que já voltava. Como esperava, ele me seguiu pelo corredor escuro. Me segurou pelo braço, me encostou na parede. Sussurrou no meu ouvido que eu era muito gostosa. Me beijou com gosto. Dessa vez, não desviei. O hálito dele era de cerveja com menta. As mãos grossas foram, claro, pra trás. Mais do que acariciar, ele amassou minha bunda. Os dedos pareciam famintos, se esfregando no lugar mais fundo.
— Vem — disse ele, pronto pra aliviar o tesão num banheiro imundo.
— Não — falei —. Tenho namorado.
E saí correndo daquele lugar. Não consegui ver a cara dele, já que tava de costas, mas imaginei que ele ficou pasmo, de boca aberta, com o pau duro.
Entrei no carro e voltei pra casa, me sentindo frustrada. Miguel puxou conversa quando cheguei. Quis saber por que eu tinha voltado tão cedo. Falei que não queria falar sobre isso. Assim que entrei no meu apartamento, o interfone tocou.
— Queria te perguntar se você podia me fazer um favor — disse Miguel. Dava pra ver que ele tava nervoso, então resolvi deixar ele mais nervoso ainda.
— A essa hora? — perguntei, com um tom escandalizado, já que era meia-noite —. O que você quer? — completei, de cara fechada.
— É que... hum... — ele disse, sem conseguir terminar a frase —. É que eu trouxe uma marmita com comida. Mas... hum... o micro-ondas que a gente tem aqui não funciona, e só agora percebi. E a maioria dos vizinhos já tá dormindo, então não posso incomodar. Você poderia...?
— Sobe — falei, e desliguei.
Em questão de segundos, ouvi duas batidas na porta. Miguel era um cara de vinte e seis anos (dois anos mais velho que eu), bem comum. Pele morena, cabelo curto, corte militar, castanho escuro. Óculos de armação quadrada. Nem magro, nem gordo. Ele me levava mais de uma cabeça, como a maioria dos homens. O uniforme azul, que tentava imitar o da polícia, até dava um certo charme, mas nada demais.
Na verdade, eu devia ter mandado ele esperar no corredor enquanto esquentava a comida, mas não queria que alguma vizinha fofoqueira visse e inventasse coisas sobre mim, então deixei ele entrar. Ele me seguiu feito um cachorrinho até a cozinha. Meu celular tocou. Era uma mensagem do Mariano. Ignorei.
Abri o micro-ondas. Ele estava numa prateleira alta demais pra alguém como eu, então sempre tinha que ficar na ponta dos pés pra alcançar. Programei pra três minutos. Aí sinto a mão do Miguel me tocando.
— O que cê tá fazendo? — pergunto, mas fico parada, de costas pra ele. Além disso, meu tom não soou tão indignado quanto devia.
— Que buceta gostosa que você tem — ele diz, e continua me apalpando. O suposto apaixonamento dele virou uma excitação primitiva. Eu tinha imaginado que ele ia tentar me beijar de novo, mas isso me pegou de surpresa.
— Tenho namorado — lembro ele, e me afasto. Me apoio na pia pra ele não ter acesso às minhas nádegas. Mas ele se aproxima. Sinto a meia-borra dele nas minhas cadeiras. Acaricia minha bochecha com ternura. Desvio o olhar.
— Mas vejo que seu namorado não cuida de você — ele diz. Me segura pelo queixo. Vira meu rosto. Nossos olhares se encontram. Tenta me beijar. Desvio.
— Isso é problema meu — respondo.
Ele envolve minha cintura com as mãos. São mãos grandes e ásperas. Se esfregam em mim. Sobem, até alcançar meus peitos. Como não falo nada, ele leva como consentimento. Os aperta.
— Você é perfeita — ele diz —. Perfeita por onde se olha. Adoro sua carinha de menina — completa, sem parar de massagear meus peitos.
Todos os homens com quem estive adoram minha...carinha de novinhaAlgo que deveriam tratar em terapia, sem dúvida.
— Bom, sua comida já está pronta — falo, quando o micro-ondas dá aquele bipe que sempre odiei, mas que naquele momento agradeci.
Mas ele faz de conta que não me ouve. Me distraio, e ele aproveita pra, finalmente, juntar a boca dele com a minha. A língua dele babaca meus lábios quando tenta penetrá-los. Me entrego. Abro a boca. Massageia minha língua. Me puxa pra perto dele, e de novo tem nas mãos minha tão desejada bunda.
Isso é mais que suficiente pra ele se convencer de que vou deixar ele me comer.
— Não. Mariano pode chegar a qualquer momento — falo, virando o rosto de novo. Mas ele aproveita pra agora chupar meu pescoço —. Não me deixa marcas —. Peço.
Sinto um gostoso formigamento e a massagem da língua dele. As mãos dele parecem hábeis, mas estão vidradas na minha bunda. Os dedos se esfregam na costura da legging. Ele apoia uma mão no meu ombro e me empurra com muita força pra baixo.
— Não. Para. Não podemos. Você tá trabalhando. E eu tenho namorado — falo. Mas ele faz ouvidos moucos. Empurra com mais força.
Me vejo obrigada a ficar de cócoras. Ele abaixa o zíper da calça e libera o pau dele. É um pau bonito. Grosso e bem duro. Aproxima ele da minha boca. Finjo uma última resistência, embora naquele momento já esteja derrotada. Ele me agarra pela cabeça e empurra o sexo dele na minha direção. Dessa vez não encontra resistência. Se ele quer tanto que eu chupe, vou chupar, penso. Além disso, eu também tava tentada por aquele instrumento gostoso. Os paus em si me parecem lindos. Até então não conhecia muitos. Mariano tinha sido meu terceiro homem. Antes dele, só tive um namorado da adolescência e um vizinho que me tirou a virgindade. Nos próximos dois meses, eu comeria mais caras e multiplicaria esse número, mas tô me adiantando.
Ouço ele gemer enquanto chupo sem parar. Ouço ele me elogiar pelo jeito que faço. Eu faço isso. Ouço ele me dizer que sou uma puta gostosa, uma e outra vez. Depois descobriria que a maioria dos homens adora nos chamar de puta. Agora esse insulto é novo, e me parece tão humilhante quanto excitante. Era verdade. Naquele momento eu estava agindo como uma puta. Como castigo, paro de chupar ele. Já é hora de ele me satisfazer. De apagar o incêndio que o Mariano se recusa a apagar.
Levo ele pela mão até o quarto. Nos ajudamos a nos despir. A roupa fica no chão, a minha misturada com a dele. Fico de quatro na cama. Miguel me elogia pela minha bunda linda. Dá um beijo nela e enfia a língua na parte mais escondida da minha intimidade. Faz cócegas, mas também é relaxante a massagem que recebo.
— Você tem camisinha? — pergunto. Não quero usar as que tenho em casa. Mariano não é muito observador. Duvidava que ele fosse notar a falta de uma. Mas não queria arriscar.
— Claro — diz Miguel. Procura no bolso da calça dele que está no chão e tira um pacote.
— Tão seguro assim de que ia me comer? — pergunto surpresa, já que eu mesma tinha decidido dar pra ele há poucos minutos.
— Seguro, não. Mas é sempre melhor estar preparado — ele diz. Me dá um tapa na bunda. Coloca a camisinha. Me come lembrando como sou puta. Peço pra não fazermos tanto barulho, porque os vizinhos podem ouvir, e não queria que fofocas chegassem aos ouvidos do meu namorado. Ele me segura pelos quadris. É muito gostoso sentir o pau dele me penetrando devagar. Sou eu mesma quem acaba quebrando a regra de não fazer barulho. Meus gemidos saem descontrolados da minha garganta. Miguel me sacode e me fode com vontade.
Ele goza. Ficamos ofegantes na cama. Ele me abraça. Me segura pelo queixo e me faz olhar pra ele.
— Você é incrível. Depois disso, estou mais apaixonado do que nunca — ele promete.
— Você não está apaixonado. Você nem me conhece. Só está com tesão — eu digo. Tô ligada que tem algo em mim que faz os cara sentirem uma mistura de ternura e tesão. Isso deixa eles confusos. Os otários e imaturos, tipo o Miguel, se deixam levar pelas emoções. Não sou do tipo que só serve de objeto de desejo. Sou o objeto de desejo, sim, e também sou aquela mina que eles adorariam apresentar pra família. Uma garota direita, que quando não tá usando roupa provocante parece toda recatada.
Ele me dá um beijo suave na boca. Passa a mão na minha bochecha. O olhar dele é de apaixonado, isso é fato, mas não vejo como algo romântico, me dá mais é medo. Ele acaricia meu corpo, até que a arma dele endurece de novo. No fim, pego uma camisinha no criado-mudo. A determinação que tanto me orgulha perde a força na cama.
— Você não vai ter problema por ficar tanto tempo longe do trampo? — pergunto, enquanto ele coloca a camisinha.
— Relaxa — ele diz —. A essa hora todo mundo tá dormindo. Só aparece uns caras, mas esses não enchem o saco.
Ele sobe em cima de mim. Me come de novo. A ternura dele vai sumindo aos poucos, enquanto meus gemidos ficam mais altos. Eu mordo o travesseiro. Ele me dá um tapão na bunda. O telefone toca. Acho que é o Mariano, mas naquele momento só quero a pica do Miguel dentro de mim. De qualquer forma, duvidava que ele aparecesse no apê sem eu deixar. E, no fim das contas, o perigo iminente me deixava com muito mais tesão.
Nunca imaginei que aquele segurança sem graça fosse me fazer gozar, mas era verdade. Eu gozo, e enquanto isso, percebo por que as coisas com o Mariano estão tão ruins. Fazia quanto tempo que ele não me fazia gozar? O Miguel encosta a pica na minha boca. Abro, chupo ele. Sei que ele tá quase gozando. Penso que tá tudo bem, que ele merece esse prêmio pela boa performance. Deixo ele gozar na minha boca, mas nem fodendo que vou engolir o esperma. Deixo ele me olhar de boca aberta, mostrando a porra dele. No canto do dos lábios escapa um jato fino. Vou ao banheiro. Cuspo no vaso e dou descarga. Enxáguo a boca e volto pro quarto.
Miguel me abraça. Me sinto minúscula do lado dele. Pergunto onde ele deixou a camisinha. Enrolo num papel e vou jogar no vaso também. Não quero deixar nenhuma prova que me incrimine.
Quando volto pro quarto, Miguel já tá se vestindo.
— Foi incrível — ele fala—. Você fode como uma deusa.
Penso em dizer que isso foi coisa de uma noite só. Um deslize. Mas não falo. De qualquer forma, ele já devia saber.
— Te vejo nos próximos dias — ele diz, me dando um beijo no umbigo.
— Claro — respondo.
Ainda pelada, acompanho ele até a saída. Tomo um banho. Passo desodorante de ambiente no quarto. No dia seguinte vou trocar os lençóis. Leio as mensagens do Mariano. Ele tá dormindo na casa do Fede. Diz que me ama. Que me deseja. Que simplesmente não tem a mesma energia sexual que eu, mas jura que vai dar conta. Deixo no vácuo.
Penso que vai ser muito chato encontrar o Miguel de novo. Com certeza vai querer me comer outra vez. Decido voltar pro meu namorado.
Mariano se comporta bem. Me agrada. Me fode. Me faz gozar. Mas as semanas passam, e ele parece ter esquecido a promessa. Vivemos num ciclo vicioso absurdo. Primeiro, ele deixa passar um dia sem me comer. Nada anormal, embora pra alguém como eu seja algo alarmante. Depois, o tempo entre uma foda e outra vai se espaçando cada vez mais. Quando passam cinco dias sem ele me dar, sem dizer nada, mostro meu desgosto. Qualquer besteira é desculpa perfeita pra fazer um escândalo. Miguel nos observa entrando e saindo do prédio durante a noite, quando Mariano volta do trabalho. Tenho a sensação de que ele é um corvo que pressente que bem perto dele tem um cadáver pra se alimentar. Minha relação com Mariano tá moribunda, e ele sabe.
Um dia chego sozinha. Lá pelas oito. Não briguei com o Mariano, mas tô muito puta. Ele falou que ia sair pra tomar umas cervejas com os amigos, e que voltava em duas horas. Ainda por cima que não me come, ainda se dá ao luxo de sair por aí com os amigões dele. Tô indignada. Miguel me pergunta o que que tem: falo que nada, que não quero conversar. Ele me segue até o elevador. Entra comigo.
— O que cê tá fazendo? — pergunto.
— Você não faz ideia de como sinto sua falta — ele fala.
Percebo que foi um erro ter dormido com ele. Ele realmente acredita nas mentiras que ele mesmo inventa. Como ia sentir minha falta se a gente mal se fala? Ele se joga em cima de mim. Eu tô com as duas mãos ocupadas com as sacolas das compras que acabei de fazer no mercadinho da esquina. Isso, junto com meu corpo frágil de quarenta e cinco quilos, me faz uma presa fácil pra um cara como ele.
Me encolho num canto. Ele tenta me beijar. Consigo desviar, baixando o olhar.
— Meu namorado tá quase chegando — minto.
— Não acredito em você — ele fala.
As mãos dele enfiam por baixo da saia. Ele acaricia minha bunda com desespero. O elevador chega no meu andar. Sinto um alívio. Finalmente o inferno acaba. Mas ele me segue até a porta.
— Chega! — falo. E por mais ridículo que pareça, não quero levantar a voz pra fazer escândalo, coisa que ele aproveita—. Não quero fazer nada.
Enfio a chave na fechadura. Quando abro a porta, ele entra no meu apartamento junto comigo. Me agarra pelo pulso. As sacolas caem no chão.
— O que cê tá fazendo? — falo de novo, embora saiba muito bem o que ele tá fazendo. Ele me arrasta pro quarto que já conhece.
Não tenho forças pra enfrentar ele, e não quero gritar e as vizinhas ouvirem o que tá rolando. Parece idiota, eu sei. Mas naquele momento (e no futuro em muitos outros) minha mente funciona desse jeito.
Ele me empurra pra cama com violência. Caio de bruços. Levanta minha saia e tira minha calcinha num puxão rápido. movimento. Dá pra perceber que ele é um profissional, pensei naquele instante. Ele me viola naquela posição, e o pior de tudo é que eu tô gostando.
Ele me dá um tapa na bunda. Enterra o dedo no meu cu. É a primeira vez que alguém faz isso. Mariano tem isso proibido, mas Miguel não pede permissão. Descubro que não é nada ruim. Provavelmente esse é o gatilho que, num futuro não muito distante, vai me transformar numa viciada em sexo anal.
Não consigo evitar soltar gemidos quando o dedo entra por completo. Ele me dá tapas na bunda. Fala que sou uma puta linda. Eu fico parada, sem reclamar mais. Faz o que quiser, penso. Depois ele me come na mesma posição.
— Vaza. Mariano vai chegar a qualquer hora — falo quando ele goza, com o leite escorrendo pela minha coxa—. Vaza, por favor — imploro, quase chorando.
— Não precisa mentir. Segundo ele me disse, hoje saiu com uns amigos e só volta tarde.
— Você fala com ele? — pergunto, surpresa.
— Sim. Gosto dele. É um cara legal.
— Gosta dele... E come a namorada dele? — falo, indignada.
— A vida é assim.
Ele limpa a pica e volta pro lugar dele. Tô convencida de que não vai ser a última vez que vou ter que lidar com ele.
Fim
3 comentários - Minha primeira traição