O silêncio tomou conta deles depois da última conversa. A música tocava ao fundo, enquanto as ideias quentes que tinham surgido dentro da Carmen já tinham evaporado. Agora ela se sentia mal pelo garoto, "Será que ele tá remoendo isso? Espero que não".
Mas o Sergio continuava pensando naquelas palavras. No começo, meio puto, como se tivesse vivido numa mentira, mas depois sentiu pena dos dois, embora mais da mãe dele. Percebeu que era absurdo ele se sentir mal, porque graças àquele "loveío" ele estava vivo.
Talvez a mãe dele tivesse casado por pressão e com dúvidas, com certeza por culpa dele, já que sabia que eles casaram uns meses antes de ele nascer. Mas por outro lado, a mãe dele ficou com o marido sempre, mostrando love pra ele e até tendo uma segunda filha.
Lá longe, ele viu a placa que anunciava a entrada na província dos ancestrais dele, aquilo tirou ele do interrogatório mental que ele tava fazendo e quebrou o silêncio que rodeava os dois.
— Finalmente, a terra da família.
— Tem um cheiro peculiar quando entra que eu amo.
— Carmen — o Sergio respirou fundo e disse — Uma pergunta, se quiser responder, claro, se não, tudo bem.
— Sim, fala, meu bem — a Carmen esperava que ele voltasse ao assunto e não tava achando graça, mas ia assumir o erro respondendo o que ele quisesse.
— Vocês duas eram gostosas quando jovens?
— Sergio, claro que eu respondo — a pergunta surpreendeu ela totalmente, mas ela se sentiu meio aliviada e com um sorriso safado respondeu — Lindonas pra caralho, nem imagina, por quê?
— Pensando no que você disse, claro que eu amo muito o pai, mas quero que responda com sinceridade. Cê acha que ele era o homem que ela queria? Nas fotos do casamento, a mãe parece uma princesa e o Dani, nem tanto príncipe...
— Seu pai não é feio, Sergio, de jeito nenhum, e muitas vezes o que se destaca numa pessoa não é o físico. Mas sua mãe… era uma beleza, isso é verdade, no povoado qualquer um teria casado com ela.
— Talvez ela tenha se apressado? Mas bendita pressa, que dali eu saí.
—Isso —tornou a bufar— não é o que eu acho, mas sim o que ouvi dela e o que pude interpretar na época. Pode ser que sim…
—Pois, olha… —disse meio cabisbaixo, mas lhe ocorreu perguntar— E você?, o que me diz de si?
Carmen não conseguiu evitar olhar com um sorriso malicioso para o sobrinho, uma pergunta tão descarada só podia vir da boca dele, adorava como ele era.
—Quer saber se me apressei? Ou se também poderia ter me casado com qualquer um?
Sergio deu de ombros, sabia que ela era tão gostosa quanto a mãe, a segunda resposta ele já tinha clara, com qualquer um com certeza.
—Nosso pai sempre disse que éramos as mais lindas do mundo… talvez nisso ele tenha exagerado, mas, da cidade? Acho que sim. Pode não soar muito humilde, mas é a verdade. No meu caso, tinha pretendentes, mas Pedro me encantou, não era o que eu tinha planejado, me amarrar a alguém pra vida toda, mas… não posso reclamar.
—Que vida você teria preferido? A de viajante? —ambos riram.
—Não sei, mas ser uma alma livre, pegar sua mãe e ir de carro pelo mundo, sem ninguém nos parar. Viver a vida com 20 anos até os 30 ou os 40… quem sabe, mas escolhi sabiamente, essa vida não me levava a nada e talvez tivesse arrastado sua mãe. Teria sido uma vida muito “hippie”… agora as duas somos felizes.
—A verdade é que minha mãe, cada ano que passa, vejo ela mais apática, mais apagada. Quando éramos pequenos, fazíamos mais viagens, mais coisas… mas agora, deve ser pela idade, mal sai pra dar uma volta ou tomar algo com as amigas de vez em quando. Essas saídinhas pelo menos fazem ela se manter um pouco ativa. E você, tia…
—Sua mãe —preferiu não retomar o assunto de Pedro e seus casos—, mesmo que não pareça, é tão vaidosa quanto eu, adora se sentir gostosa.
—Pode ser, tia, mas é que você não vê, ela tem uma vida de velha. Você é muito gostosa, mas ela cada vez se cuida menos e parece mais velha.
—Não diga isso, homem!, se sua mãe passasse umas semanas comigo, eu a deixava como nova. nova. Eu obrigava ela a fazer esporte comigo, que um tempinho por dia não faz mal nenhum. Levava ela no salão, porque pelo que vi, faz meses que não vai… mas ela não quer… é muito teimosa — e no final acrescentou — e obrigado. Tão gostosa assim você me acha, meu amor? — Por que ela gostava tanto dos elogios do sobrinho? Não sabia.
— Quem dera você pudesse fazer isso com a mamãe, no fim a gente mata ela de verdade, eu cada vez tento incomodar menos ela — acrescentou no final — e bom… pra ser uma senhora de idade, você é gostosa sim…
Sergio levou um tapa no braço de brincadeira que ardeu de leve. A cara de Carmen fingindo estar emburrada fez ele saber que tinha merecido.
— O que você tem que fazer não é deixar ela em paz, é amar ela cada vez mais, isso vai dar vida a ela, tenta fazer coisas com ela, obriga ela a sair. Você trata ela como me trata?
— Sei lá… acho que não… com você é outra coisa, sai natural, mais de amigo, como se tivesse mais intimidade.
— Somos amigos? Não sabia disso, então espero que me leve com seus amigos pra balada. — terminou rindo e voltou ao assunto da irmã — sério, Sergio, você devia ter essa intimidade com ela, dar amor pra ela, é o que ela precisa.
— Se você quiser, te levo com maior prazer — ele olhou pra ela imaginando a cena, seria bem estranho aparecer na frente dos amigos com a tia — Sobre a mamãe, entendo o que você diz, você já sentiu falta disso alguma vez?
— Se você lembrar da conversa que tivemos sobre seu tio, pode deduzir que muitas vezes — sentenciou — mas, desde que entrei no carro, tenho que dizer que não me falta amor nenhum.
— Por minha causa? — ele se surpreendeu e olhou nos olhos da tia.
— Sim — ela correspondeu com um olhar intenso.
— Não entendi? Também não te tratei de um jeito especial, ou pelo menos acho que não…
— Eu sempre me divirto pra caralho com você, você é a porra da gostosa, querido! — como Carmen se sentiu jovem com essa frase — embora nesse trajeto, eu estive especialmente feliz. Ri como nunca e me diverti pra caramba, até tô de saída molhada e com os peitos de fora. Quase ao vivo! E olha, não tenho vergonha de te dizer.
—Fico feliz, embora com a Carmen eu não tenha feito nada, sou sempre assim.
—Outras vezes também ficamos sozinhos e te conheço muito bem. Mas assim, tão perto, sozinhos por horas… nunca. Você passou sua vitalidade pra mim, Sergio, juro. Até te contei sobre o Pedro — as palavras saíam sinceras da boca dela, nem ela acreditava como se sentia bem— me sinto… como você mesmo disse… como com uma amiga. Pode ser que você tenha razão sobre a nossa amizade.
—Eu também, embora sempre te vi como algo mais que uma parente, por isso te falei sobre a Marta.
—Espero que minhas coisas de velha maluca não tenham te entediado, é que eu me sentia tão bem.
—Sou uma boa Sergiocina? — disse o jovem, sorrindo de orelha a orelha.
—Como?
—Se sou um bom remédio, Sergio mais remédio…
—Ah! Tá… Que piada ruim, amor — ela riu depois, de forma estridente— pode ser.
Houve um breve silêncio e Sergio viu o momento perfeito para dizer algo que tinha decidido de última hora, num instante em que aquela felicidade que os cercava os envolveu por completo.
—Mais ou menos, podemos dizer que o tio volta daqui a uma semana?
—Isso espero, mas nunca se sabe, se demorar vou ficar puta.
—Carmen, me diz sinceramente, você gostaria que eu ficasse na sua casa? — ele não entendia a vergonha que sentia ao perguntar, até a própria tia tinha dito que ele podia.
—Claro — respondeu com um tom sério e firme.
—Se você não me der mais aqueles tapas, que ardem… eu fico com você.
—Não prometo nada… — ela continuou a brincadeira e no final acrescentou— adoro a ideia.
—Se a gente tivesse tempo, até gostaria que minha mãe viesse, assim você podia fazer ela se divertir e relaxar.
—Até daria… mas ela tem que querer… e isso não vai acontecer — Carmen hesitou no começo, mas depois se aproximou do sobrinho. Sem pensar, encostou os lábios na bochecha do rapaz e deu um beijo carinhoso. Afastou-se, sentando-se de novo no banco. confortavelmente e prosseguiu— sério, minha vida, obrigado por ter ficado.
Sergio sentiu o perfume da tia quando o beijo esquentou sua bochecha. A pele se arrepiou e uma coceira começou a renascer onde fica a parte mais íntima de um homem. Seu “cérebro de baixo” tinha cochilado depois do incidente (ou quase incidente) do decote da tia e, de novo, dava as boas-vindas. Embora ele lutasse com toda a força de vontade, aquele órgão reprodutor já estava a caminho de atingir o auge.
— Acho que já chegamos — Carmen avistou a casa no fim da reta.
— Uma viagem longa, mas divertida, né?
— Por mais estranho que pareça, foi tão reconfortante que não me importaria de continuar mais um pouco.
****
Perto da entrada, Carmen pegou um controle pequeno e apertou um botão. O portão automatizado começou a se mover para o lado e deixou eles passarem para que, finalmente, chegassem ao destino. Com o outro botão, abriu a porta da garagem e, enquanto Sergio estacionava o carro lá dentro, se maravilhava com o tamanho da casa — todos os anos era a mesma coisa e, com certeza, no futuro também. Assim que o carro parou, o jovem começou a tirar as malas sem deixar a tia ajudar, um jeito peculiar de agradecer a hospedagem na casa dela.
A garagem ficava numa ala do prédio, com conexão direta para a casa através de uma porta. O interior, embora não fosse enorme, deixou o garoto maravilhado de novo. A sala de estar os recebeu assim que entraram, com a cozinha de um lado, equipada com o que havia de mais moderno, e outra porta que, se não me engano, era o banheiro do térreo.
Carmen pediu que ele deixasse as malas nos quartos das filhas dela — era lá que Sergio dormiria, afinal, as primas tinham desocupado aqueles cômodos há muitos anos. Depois de subir as escadas, ele deixou as malas no primeiro quarto.
O quarto ele conhecia, era onde os pais dele costumavam dormir quando a visita se estendia mais do que o normal, e com quatro Copas demais não podiam voltar pra casa da avó. Embora ela quase não tenha móveis, só a cama, duas mesinhas de cabeceira e o armário embutido, o quarto é o dobro do dela, e olha que nem vou falar da janela, por onde entrava uma claridade da qual seria difícil escapar.
Começaram a andar pelo corredor enquanto Sérgio admirava o andar gracioso da tia, que parecia mais um rebolado do que um passo normal, sem saber por que, ele adorava aquilo. Mas durou pouco, Carmen levantou o braço apontando a próxima porta, Sérgio sabia que era o banheiro de cima, nem precisava dessas explicações.
Pra finalizar, o lugar que o garoto menos conhecia, a tia levou ele pro quarto dela onde, finalmente, o jovem largou a mala pesada. No meio do cômodo uma cama dominava o quarto, que era enorme e combinava perfeitamente com a televisão… que mais parecia um cinema.
Duas portinhas estavam na frente, uma com espelho que dava pra um pequeno cômodo onde ficava o closet. A outra praticamente do lado, ligava com um banheiro, onde a tia comentou ao entrar que esse era o último capricho que ela tinha se dado. Sérgio alucinou ao ver o que tinha lá dentro, além do chuveiro e outras coisas óbvias de um banheiro, tinha um jacuzzi! O jovem não acreditava.
— Você é milionária, não importa o que você diga — Carmen não conseguiu evitar de rir.
— Não, querido, mas a gente tem bastante dinheiro, sim. Mas pensa que aqui as coisas são mais baratas, a casa em si, com os terrenos, pra você ter uma ideia, vale o mesmo que a de vocês. Na verdade, a gente tá nos arredores da cidade, se não tivesse a casa aqui, seria um descampado.
— É, mas aqui vocês construíram uma mansão.
— Onde a gente gastou dinheiro foi no que tem dentro, isso é verdade, mas a mão de obra também é mais barata, acho que vale menos do que você imagina. O que mais custou foi a piscina, e manter ela, claro, que a gente quase só enche de junho a setembro, o resto do ano fica vazia por razões. Óbvias.
—Tô com vontade de meter, já que tão gastando dinheiro com ela, tem que aproveitar —Carmen riu de novo. Junto do sobrinho, o sorriso não ia embora.
—Por enquanto, vamos comer alguma coisa, não acha? Mandei uma mensagem pra Sol pra ela fazer algo pra gente.
—Quem?
—Sol, a moça que cuida da casa, ajuda na limpeza e faz comida de vez em quando, é uma mulher maravilhosa, não mora longe daqui —Sergio fez cara de surpresa de novo. Antes que ele comentasse como eles eram ricos, a tia cortou— não faz essa cara que tô morrendo de vergonha de te contar as coisas. Anda, vamos lá pra baixo!
Desceram e na cozinha já estava tudo pronto, a mulher tinha deixado pra cada um um primeiro prato, um segundo e uma torta de sobremesa, um luxo. Devoraram tudo, estavam com tanta fome que durante a comida quase só soltaram uns grunhidos, melhor comer do que falar. Quando terminaram e lavaram a louça, cada um foi pro seu quarto descansar da longa viagem.
Sergio, antes de se jogar na cama, tirou da mochila umas roupas e deixou arrumadas pra mais tarde. Ainda tava na dúvida se ficava a semana toda, um dia, dois… se os amigos ligassem dizendo que chegavam mais cedo, ele teria que ir embora e não encher mais o saco da Carmen. Tava com uma vontade danada de sair pra farra, encher a cara e esquecer de tudo, e claro, fazer isso na casa da Carmen, por mais intimidade que tivessem, não parecia legal.
O mais estranho era que, na mente dele, passava quietinho, sem fazer barulho, outro pensamento que tava se firmando com força: e se ele ficasse com a tia e passasse aqueles dias junto dela?
Antes que pudesse refletir sobre essa ideiazinha, começou a fechar os olhos, entrando num mundo entre o sono e a realidade. Deixou a mente em branco, sem querer pensar em mais nada, já bastavam sensações pra uma única viagem.
Bem antes de cair completamente nos braços de Morfeu, uma imagem o assaltou. Era uma mulher, uma mulher gostosa que se aproximava dele com passos firmes e um olhar felino. Seu pareô colorido, sua pele dourada e uma silhueta de tirar o fôlego de qualquer um denunciavam quem era. A última imagem que sua mente projetou antes de dormir foi a de uma mulher linda, incrível… a Carmen, sua tia favorita.
CONTINUA
Mas o Sergio continuava pensando naquelas palavras. No começo, meio puto, como se tivesse vivido numa mentira, mas depois sentiu pena dos dois, embora mais da mãe dele. Percebeu que era absurdo ele se sentir mal, porque graças àquele "loveío" ele estava vivo.
Talvez a mãe dele tivesse casado por pressão e com dúvidas, com certeza por culpa dele, já que sabia que eles casaram uns meses antes de ele nascer. Mas por outro lado, a mãe dele ficou com o marido sempre, mostrando love pra ele e até tendo uma segunda filha.
Lá longe, ele viu a placa que anunciava a entrada na província dos ancestrais dele, aquilo tirou ele do interrogatório mental que ele tava fazendo e quebrou o silêncio que rodeava os dois.
— Finalmente, a terra da família.
— Tem um cheiro peculiar quando entra que eu amo.
— Carmen — o Sergio respirou fundo e disse — Uma pergunta, se quiser responder, claro, se não, tudo bem.
— Sim, fala, meu bem — a Carmen esperava que ele voltasse ao assunto e não tava achando graça, mas ia assumir o erro respondendo o que ele quisesse.
— Vocês duas eram gostosas quando jovens?
— Sergio, claro que eu respondo — a pergunta surpreendeu ela totalmente, mas ela se sentiu meio aliviada e com um sorriso safado respondeu — Lindonas pra caralho, nem imagina, por quê?
— Pensando no que você disse, claro que eu amo muito o pai, mas quero que responda com sinceridade. Cê acha que ele era o homem que ela queria? Nas fotos do casamento, a mãe parece uma princesa e o Dani, nem tanto príncipe...
— Seu pai não é feio, Sergio, de jeito nenhum, e muitas vezes o que se destaca numa pessoa não é o físico. Mas sua mãe… era uma beleza, isso é verdade, no povoado qualquer um teria casado com ela.
— Talvez ela tenha se apressado? Mas bendita pressa, que dali eu saí.
—Isso —tornou a bufar— não é o que eu acho, mas sim o que ouvi dela e o que pude interpretar na época. Pode ser que sim…
—Pois, olha… —disse meio cabisbaixo, mas lhe ocorreu perguntar— E você?, o que me diz de si?
Carmen não conseguiu evitar olhar com um sorriso malicioso para o sobrinho, uma pergunta tão descarada só podia vir da boca dele, adorava como ele era.
—Quer saber se me apressei? Ou se também poderia ter me casado com qualquer um?
Sergio deu de ombros, sabia que ela era tão gostosa quanto a mãe, a segunda resposta ele já tinha clara, com qualquer um com certeza.
—Nosso pai sempre disse que éramos as mais lindas do mundo… talvez nisso ele tenha exagerado, mas, da cidade? Acho que sim. Pode não soar muito humilde, mas é a verdade. No meu caso, tinha pretendentes, mas Pedro me encantou, não era o que eu tinha planejado, me amarrar a alguém pra vida toda, mas… não posso reclamar.
—Que vida você teria preferido? A de viajante? —ambos riram.
—Não sei, mas ser uma alma livre, pegar sua mãe e ir de carro pelo mundo, sem ninguém nos parar. Viver a vida com 20 anos até os 30 ou os 40… quem sabe, mas escolhi sabiamente, essa vida não me levava a nada e talvez tivesse arrastado sua mãe. Teria sido uma vida muito “hippie”… agora as duas somos felizes.
—A verdade é que minha mãe, cada ano que passa, vejo ela mais apática, mais apagada. Quando éramos pequenos, fazíamos mais viagens, mais coisas… mas agora, deve ser pela idade, mal sai pra dar uma volta ou tomar algo com as amigas de vez em quando. Essas saídinhas pelo menos fazem ela se manter um pouco ativa. E você, tia…
—Sua mãe —preferiu não retomar o assunto de Pedro e seus casos—, mesmo que não pareça, é tão vaidosa quanto eu, adora se sentir gostosa.
—Pode ser, tia, mas é que você não vê, ela tem uma vida de velha. Você é muito gostosa, mas ela cada vez se cuida menos e parece mais velha.
—Não diga isso, homem!, se sua mãe passasse umas semanas comigo, eu a deixava como nova. nova. Eu obrigava ela a fazer esporte comigo, que um tempinho por dia não faz mal nenhum. Levava ela no salão, porque pelo que vi, faz meses que não vai… mas ela não quer… é muito teimosa — e no final acrescentou — e obrigado. Tão gostosa assim você me acha, meu amor? — Por que ela gostava tanto dos elogios do sobrinho? Não sabia.
— Quem dera você pudesse fazer isso com a mamãe, no fim a gente mata ela de verdade, eu cada vez tento incomodar menos ela — acrescentou no final — e bom… pra ser uma senhora de idade, você é gostosa sim…
Sergio levou um tapa no braço de brincadeira que ardeu de leve. A cara de Carmen fingindo estar emburrada fez ele saber que tinha merecido.
— O que você tem que fazer não é deixar ela em paz, é amar ela cada vez mais, isso vai dar vida a ela, tenta fazer coisas com ela, obriga ela a sair. Você trata ela como me trata?
— Sei lá… acho que não… com você é outra coisa, sai natural, mais de amigo, como se tivesse mais intimidade.
— Somos amigos? Não sabia disso, então espero que me leve com seus amigos pra balada. — terminou rindo e voltou ao assunto da irmã — sério, Sergio, você devia ter essa intimidade com ela, dar amor pra ela, é o que ela precisa.
— Se você quiser, te levo com maior prazer — ele olhou pra ela imaginando a cena, seria bem estranho aparecer na frente dos amigos com a tia — Sobre a mamãe, entendo o que você diz, você já sentiu falta disso alguma vez?
— Se você lembrar da conversa que tivemos sobre seu tio, pode deduzir que muitas vezes — sentenciou — mas, desde que entrei no carro, tenho que dizer que não me falta amor nenhum.
— Por minha causa? — ele se surpreendeu e olhou nos olhos da tia.
— Sim — ela correspondeu com um olhar intenso.
— Não entendi? Também não te tratei de um jeito especial, ou pelo menos acho que não…
— Eu sempre me divirto pra caralho com você, você é a porra da gostosa, querido! — como Carmen se sentiu jovem com essa frase — embora nesse trajeto, eu estive especialmente feliz. Ri como nunca e me diverti pra caramba, até tô de saída molhada e com os peitos de fora. Quase ao vivo! E olha, não tenho vergonha de te dizer.
—Fico feliz, embora com a Carmen eu não tenha feito nada, sou sempre assim.
—Outras vezes também ficamos sozinhos e te conheço muito bem. Mas assim, tão perto, sozinhos por horas… nunca. Você passou sua vitalidade pra mim, Sergio, juro. Até te contei sobre o Pedro — as palavras saíam sinceras da boca dela, nem ela acreditava como se sentia bem— me sinto… como você mesmo disse… como com uma amiga. Pode ser que você tenha razão sobre a nossa amizade.
—Eu também, embora sempre te vi como algo mais que uma parente, por isso te falei sobre a Marta.
—Espero que minhas coisas de velha maluca não tenham te entediado, é que eu me sentia tão bem.
—Sou uma boa Sergiocina? — disse o jovem, sorrindo de orelha a orelha.
—Como?
—Se sou um bom remédio, Sergio mais remédio…
—Ah! Tá… Que piada ruim, amor — ela riu depois, de forma estridente— pode ser.
Houve um breve silêncio e Sergio viu o momento perfeito para dizer algo que tinha decidido de última hora, num instante em que aquela felicidade que os cercava os envolveu por completo.
—Mais ou menos, podemos dizer que o tio volta daqui a uma semana?
—Isso espero, mas nunca se sabe, se demorar vou ficar puta.
—Carmen, me diz sinceramente, você gostaria que eu ficasse na sua casa? — ele não entendia a vergonha que sentia ao perguntar, até a própria tia tinha dito que ele podia.
—Claro — respondeu com um tom sério e firme.
—Se você não me der mais aqueles tapas, que ardem… eu fico com você.
—Não prometo nada… — ela continuou a brincadeira e no final acrescentou— adoro a ideia.
—Se a gente tivesse tempo, até gostaria que minha mãe viesse, assim você podia fazer ela se divertir e relaxar.
—Até daria… mas ela tem que querer… e isso não vai acontecer — Carmen hesitou no começo, mas depois se aproximou do sobrinho. Sem pensar, encostou os lábios na bochecha do rapaz e deu um beijo carinhoso. Afastou-se, sentando-se de novo no banco. confortavelmente e prosseguiu— sério, minha vida, obrigado por ter ficado.
Sergio sentiu o perfume da tia quando o beijo esquentou sua bochecha. A pele se arrepiou e uma coceira começou a renascer onde fica a parte mais íntima de um homem. Seu “cérebro de baixo” tinha cochilado depois do incidente (ou quase incidente) do decote da tia e, de novo, dava as boas-vindas. Embora ele lutasse com toda a força de vontade, aquele órgão reprodutor já estava a caminho de atingir o auge.
— Acho que já chegamos — Carmen avistou a casa no fim da reta.
— Uma viagem longa, mas divertida, né?
— Por mais estranho que pareça, foi tão reconfortante que não me importaria de continuar mais um pouco.
****
Perto da entrada, Carmen pegou um controle pequeno e apertou um botão. O portão automatizado começou a se mover para o lado e deixou eles passarem para que, finalmente, chegassem ao destino. Com o outro botão, abriu a porta da garagem e, enquanto Sergio estacionava o carro lá dentro, se maravilhava com o tamanho da casa — todos os anos era a mesma coisa e, com certeza, no futuro também. Assim que o carro parou, o jovem começou a tirar as malas sem deixar a tia ajudar, um jeito peculiar de agradecer a hospedagem na casa dela.
A garagem ficava numa ala do prédio, com conexão direta para a casa através de uma porta. O interior, embora não fosse enorme, deixou o garoto maravilhado de novo. A sala de estar os recebeu assim que entraram, com a cozinha de um lado, equipada com o que havia de mais moderno, e outra porta que, se não me engano, era o banheiro do térreo.
Carmen pediu que ele deixasse as malas nos quartos das filhas dela — era lá que Sergio dormiria, afinal, as primas tinham desocupado aqueles cômodos há muitos anos. Depois de subir as escadas, ele deixou as malas no primeiro quarto.
O quarto ele conhecia, era onde os pais dele costumavam dormir quando a visita se estendia mais do que o normal, e com quatro Copas demais não podiam voltar pra casa da avó. Embora ela quase não tenha móveis, só a cama, duas mesinhas de cabeceira e o armário embutido, o quarto é o dobro do dela, e olha que nem vou falar da janela, por onde entrava uma claridade da qual seria difícil escapar.
Começaram a andar pelo corredor enquanto Sérgio admirava o andar gracioso da tia, que parecia mais um rebolado do que um passo normal, sem saber por que, ele adorava aquilo. Mas durou pouco, Carmen levantou o braço apontando a próxima porta, Sérgio sabia que era o banheiro de cima, nem precisava dessas explicações.
Pra finalizar, o lugar que o garoto menos conhecia, a tia levou ele pro quarto dela onde, finalmente, o jovem largou a mala pesada. No meio do cômodo uma cama dominava o quarto, que era enorme e combinava perfeitamente com a televisão… que mais parecia um cinema.
Duas portinhas estavam na frente, uma com espelho que dava pra um pequeno cômodo onde ficava o closet. A outra praticamente do lado, ligava com um banheiro, onde a tia comentou ao entrar que esse era o último capricho que ela tinha se dado. Sérgio alucinou ao ver o que tinha lá dentro, além do chuveiro e outras coisas óbvias de um banheiro, tinha um jacuzzi! O jovem não acreditava.
— Você é milionária, não importa o que você diga — Carmen não conseguiu evitar de rir.
— Não, querido, mas a gente tem bastante dinheiro, sim. Mas pensa que aqui as coisas são mais baratas, a casa em si, com os terrenos, pra você ter uma ideia, vale o mesmo que a de vocês. Na verdade, a gente tá nos arredores da cidade, se não tivesse a casa aqui, seria um descampado.
— É, mas aqui vocês construíram uma mansão.
— Onde a gente gastou dinheiro foi no que tem dentro, isso é verdade, mas a mão de obra também é mais barata, acho que vale menos do que você imagina. O que mais custou foi a piscina, e manter ela, claro, que a gente quase só enche de junho a setembro, o resto do ano fica vazia por razões. Óbvias.
—Tô com vontade de meter, já que tão gastando dinheiro com ela, tem que aproveitar —Carmen riu de novo. Junto do sobrinho, o sorriso não ia embora.
—Por enquanto, vamos comer alguma coisa, não acha? Mandei uma mensagem pra Sol pra ela fazer algo pra gente.
—Quem?
—Sol, a moça que cuida da casa, ajuda na limpeza e faz comida de vez em quando, é uma mulher maravilhosa, não mora longe daqui —Sergio fez cara de surpresa de novo. Antes que ele comentasse como eles eram ricos, a tia cortou— não faz essa cara que tô morrendo de vergonha de te contar as coisas. Anda, vamos lá pra baixo!
Desceram e na cozinha já estava tudo pronto, a mulher tinha deixado pra cada um um primeiro prato, um segundo e uma torta de sobremesa, um luxo. Devoraram tudo, estavam com tanta fome que durante a comida quase só soltaram uns grunhidos, melhor comer do que falar. Quando terminaram e lavaram a louça, cada um foi pro seu quarto descansar da longa viagem.
Sergio, antes de se jogar na cama, tirou da mochila umas roupas e deixou arrumadas pra mais tarde. Ainda tava na dúvida se ficava a semana toda, um dia, dois… se os amigos ligassem dizendo que chegavam mais cedo, ele teria que ir embora e não encher mais o saco da Carmen. Tava com uma vontade danada de sair pra farra, encher a cara e esquecer de tudo, e claro, fazer isso na casa da Carmen, por mais intimidade que tivessem, não parecia legal.
O mais estranho era que, na mente dele, passava quietinho, sem fazer barulho, outro pensamento que tava se firmando com força: e se ele ficasse com a tia e passasse aqueles dias junto dela?
Antes que pudesse refletir sobre essa ideiazinha, começou a fechar os olhos, entrando num mundo entre o sono e a realidade. Deixou a mente em branco, sem querer pensar em mais nada, já bastavam sensações pra uma única viagem.
Bem antes de cair completamente nos braços de Morfeu, uma imagem o assaltou. Era uma mulher, uma mulher gostosa que se aproximava dele com passos firmes e um olhar felino. Seu pareô colorido, sua pele dourada e uma silhueta de tirar o fôlego de qualquer um denunciavam quem era. A última imagem que sua mente projetou antes de dormir foi a de uma mulher linda, incrível… a Carmen, sua tia favorita.
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