Numa sociedade como a nossa, tão diretamente influenciada pelas instituições religiosas, é muito difícil falar sobre prostituição sem fazer julgamentos de valor, mesmo que a história de Jesus diante disso seja clara ao nos dizer: QUEM ESTIVER SEM PECADO QUE ATIRE A PRIMEIRA PEDRA. E quando falo de prostituição, não me refiro só à feminina, que é a que a gente mais vê, me refiro à prostituição de qualquer sexo com qualquer sexo.
Mas o assunto que quero tratar não é o do pecado, e sim o do sagrado. A prostituição em antigas sociedades matriarcais era praticada pelas melhores dançarinas, que também eram sacerdotisas. Treinadas na arte, conseguiam através do corpo aproximar seu parceiro ocasional da conexão com o sagrado e o sublime, e faz todo sentido, onde mais senão num orgasmo o ser humano está mais completo, mais integrado? Alguém consegue estar num momento diferente do presente no meio de um orgasmo? Além disso, nessas sociedades, era costume que um homem iniciado por uma das sacerdotisas fosse quem proporcionasse às mulheres prestes a se casar sua primeira experiência sexual. Quão diferente e divertido poderia ter sido o sexo para nossas mães ou avós se esse costume não tivesse se perdido.
Um dos filmes mais lindos que já vi é "Sexo por Compaixão". Nesse filme, uma mulher que beira a santidade acaba se prostituindo por pura compaixão pelos homens da cidade. Eles saíam de entre as pernas dela com uma visão diferente da vida, mais felizes e melhores, até mesmo para suas esposas.

A sexualidade é, na maioria dos casos, uma necessidade primária do ser humano. Quantas pessoas no mundo conseguem ter uma sexualidade amorosa? E se um cara dificilmente consegue seduzir outro por causa de baixa autoestima ou sei lá o quê, será que ele deveria abrir mão dessa comunhão dos corpos?… E se não acredita no amor de casal… será que alguém não poderia encontrar no pagamento por sexo uma relação mais honesta?
Os motivos pra buscar sexo através da prostituição podem ser vários. Os caras, principalmente, em algum momento da vida se veem na encruzilhada de ter que provar pros amigos que são homens de verdade. Se decidem não ir, tão no direito deles, mas é triste: a escolha vem mais da culpa do que da consciência. E se vão, às vezes é mais por pressão do grupo do que por tesão de verdade. Que bonito seria pegar qualquer um dos dois caminhos com uma convicção interna de que é isso que se quer, livre dos "eu deveria". Em situações mais familiares pra todo mundo, mas principalmente pras mulheres, mesmo sem cobrar grana, se cobra em espécie – ainda é uma troca de sexo por alguma coisa. Mais ainda: quantas vezes, dentro do casamento, a mulher dá o sexo por compaixão, sem vontade nenhuma? Ou, o que é ainda mais doloroso, por obrigação, porque o "santo dever" manda? Isso não é outra forma de se prostituir?
Imagino também, e já vivi isso: quantos de nós fantasia com a prostituição sem botar em prática? Ou quantas vezes a gente fantasia em ser a *slut*, mesmo que de um homem só?
Com todas essas perguntas, convido à reflexão aqueles que se acham pessoas melhores porque não têm contato direto com a prostituição ou não percebem o quão perto estão dela. Defendo quem decide vender o próprio corpo, seja lá pelo motivo que for, também quem decide comprar, quem troca por bens, quem faz por compaixão, quem fantasia e quem se abstém, defendendo acima de tudo o livre-arbítrio e a ausência de julgamento — dois princípios religiosos que dificilmente colocamos em prática. Tudo isso sem jamais desmerecer a sexualidade amorosa, consciente e livre, a mais sagrada de todas para mim, à qual muitos aspiramos, sem que esse ideal nos dê o direito de julgar qualquer outra variação.

Valeu pelos pontos e pelo comentário. Amo vocês.
* Nenhuma Mulher Nasce para ser puta. Nos fazem putas, nos transformam em putas.*
1 comentários - Bem-vindas, putas!