Por essa época, a gente se mudou pra aquela casa, um bairro que parecia parado numa tarde interminável: tranquilo, cheio de famílias normais, crianças de bicicleta e cachorros latindo sem parar. Era exatamente o que a gente queria: estabilidade, calma, uma rotina que a gente pudesse construir junto. Tudo cheirava a grama recém-cortada e a domingo, até no meio da semana.
Nossos vizinhos, Julián, o pai, devia ter uns 48. Parecia militar aposentado, firme na postura mas gentil no trato. A esposa dele, Amanda, uma senhora muito simpática da mesma idade que quase não aparecia por ali. Eu tinha 23. Poucos meses de casada com o Andrés, e com aquela sensação — ainda presente — de estar experimentando uma roupa que me servia meio folgada.
Se você me perguntasse há algumas semanas o que eu achava dele, eu teria dito que era só isso: o vizinho da frente. Correto, educado, com boa relação com o Andrés, com quem ele trocava umas palavras de vez em quando na calçada. Eu, por outro lado, mal dava um aceno de longe. Nunca teve nada além disso.
— Até aquela noite. —
Uma reunião simples, um churrasco no quintal deles, com outros vizinhos e alguns amigos dele. O Andrés aceitou na hora, e eu fui junto sem dar muita importância.
Vesti um vestido de linho cor creme, ajustado na cintura, com um decote quadrado que deixava à mostra o começo das minhas clavículas. As mangas caíam suavemente pelos meus ombros, e a barra terminava na metade da perna, comprido o bastante pra ser "apropriado", mas com um tecido leve o bastante pra deixar a brisa brincar com meus movimentos. Sem sutiã — porque não precisava com aquele corte —, e com umas sandálias de couro de tiras finas que me faziam sentir gostosa sem esforço nenhum. Prendi o cabelo num coque solto, deixando alguns fios escaparem. Não era pra impressionar ninguém, só queria me sentir confortável. Embora, de algum jeito, eu soubesse que tava bem pra caralho.
Pensei que seria só mais uma noite. E foi. em parte foi… mas também, foi o começo de algo que eu não soube nomear naquele momento. Algo que começou a mudar o jeito como eu olhava pra ele, embora eu ainda não soubesse.
A casa do Julián parecia diferente naquela noite. As luzes do quintal pendiam entre as árvores como vaga-lumes imóveis, e a música suave preenchia os espaços entre as conversas. Era uma reunião simples, com carne assando na churrasqueira e copos de vinho passando de mão em mão. Andrés estava encantado. Eu, na real, só me deixava levar.
Eu tinha cumprimentado o Julián assim que chegamos, como sempre: com um sorriso cordial, nada mais. Ele vestia uma camiseta cinza que marcava os ombros e o peito, e uma calça jeans simples. Durante a noite, as conversas entre os homens ficaram evidentes demais, e não tive escolha senão procurar algum grupo de senhoras não tão velhas pra bater um papo. Em algum momento da noite, tentei escapar pro banheiro e me dedicar a algo mais emocionante, olhar minhas redes sociais, ou tirar uma foto no espelho. Ao sair, cruzei com o Julián,
— Como tá a festa — disse com a voz grave enquanto passava por mim com uma taça de vinho na mão, desviando o corpo pro lado pra me dar passagem e cada um seguir seu caminho. Mas eu não consegui responder.
— Esse vestido deveria vir com aviso — falou, sem me olhar diretamente, como se o comentário fosse casual, só jogado no ar. E então se afastou, deixando o cheiro dele — de madeira, de algo limpo e masculino — pairando por alguns segundos atrás dele.
Me pegou de surpresa. Me virei, procurando ele, mas ele já estava conversando com outro grupo, como se não tivesse dito nada fora do lugar.
Olhei pra ele com um pouco de nojo.
Ele se movia com uma confiança que eu não tinha notado antes, como se tudo ao redor dele respondesse. Os braços dele, firmes, marcavam cada vez que ele pegava algo da mesa ou cortava carne. A risada dele era mais grave do que eu lembrava. De repente, nossos olhares se cruzaram de longe, notei que me sustentava os olhos um segundo a mais do que o necessário. Ele não desviou o olhar. Não sorriu. Só me encarou, direto. Como se já soubesse algo que eu estava começando a entender.
Desde aquele instante, me senti observada. Não assediada nem desconfortável… mas visível. Como se alguém tivesse acendido uma luz sobre mim, e aquela luz viesse dele.
Tentei disfarçar. Entrei numa conversa entre duas mulheres que falavam dos filhos, sorri, assenti… mas já não escutava direito. Meus olhos voltavam pra ele de vez em quando, procurando sem querer. Desde muito nova eu preferia experiências sexuais com homens mais velhos, aquela mistura de segurança, maturidade, desempenho e um não sei quê que sempre me deu tesão. Mas era absurdo. Um único comentário e ele já tinha remexido algo dentro de mim que agora perturbava minha paz.
Quando fomos embora, Julián se aproximou pra se despedir. Apertou a mão do meu marido Andrés com uma palmada firme e depois se virou pra mim. Não houve contato. Não houve duplo sentido. Só me sustentou o olhar enquanto dizia:
—Obrigado por vir, Tatiana.
Mas ele disse com uma voz tão medida, tão profunda, que meu nome pareceu ter outro peso. Soou diferente, como se eu nunca tivesse ouvido aquilo na boca de um homem.
Caminhamos de volta pra casa, e Andrés falava de como tinha se divertido, de como a carne estava gostosa. Eu respondia o mínimo, enquanto minha mente voltava uma e outra vez àquele comentário. Ao tom. Ao olhar. A como tudo mudou com uma única frase.
Cap 3: O roçar dos dias.
Os dias seguintes à reunião foram normais. A rotina seguia seu curso: as manhãs com café, o som do chuveiro do Andrés, minhas tarefas diárias em casa e no trabalho, alguma saída esporádica. Nada tinha mudado… exceto que agora, toda vez que eu passava pela sala, meus olhos se desviavam pra janela que dava pra frente.
A casa do Julián parecia mais presente do que antes. Às vezes eu o via sair cedo, com roupa esportiva, trotando pelo quarteirão com o cachorro dele. Ou carregando coisas na caçamba da caminhonete. Outras vezes, simplesmente o encontrava de pé no quintal, com uma xícara de café na mão, olhando para a rua. Para a minha janela.
Nem sempre eu conseguia ter certeza. Às vezes parecia que sim, que o olhar dele estava fixo no meu. Outras vezes, era eu que ficava observando demais, tentando adivinhar se havia intenção ou acaso nos gestos dele.
Num meio-dia qualquer, o encontrei na frente da casa dele, sozinho, regando as plantas do jardim. Eu saía para jogar umas sacolas de reciclagem. Assim que pisei na rua, ele me cumprimentou com aquela mesma voz grave e contida.
— Tatiana.
Só isso. Meu nome. E de novo aquele tom.
— Julián — respondi, tentando soar natural, embora sentisse minhas bochechas esquentando sem motivo.
Parei por um segundo. Não havia mais ninguém. Nenhum carro passando, nenhum outro vizinho na calçada. Só eu e ele, separados pela calçada e um pouco de grama recém-regada.
— Você ficou muito gostosa naquele vestido outro dia — disse ele, sem desviar o olhar. Não sorriu, não foi zombeteiro nem atrevido. Falou como se fosse um simples fato.
Meu estômago deu um nó.
— Obrigada — murmurei. Era só o que eu conseguia dizer. O olhar dele era tão direto, tão limpo, que me desarmou. Não era o tipo de homem que brincava com duplo sentido. Ele dizia o que via. O que pensava. E era exatamente isso que me desconcertava.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. A água continuava caindo nas plantas aos pés dele. O braço dele segurava a mangueira com uma calma que contrastava com meu pulso acelerado.
— Bom… vou indo antes que me expulsem de casa por me fazer de jardineira dos outros — brinquei, tentando quebrar a tensão.
Aí sim ele sorriu. De leve. Mas os olhos dele continuavam fixos nos meus.
— Andrés não te expulsaria nem se você transasse com outro — disse então, e baixou o olhar pela primeira vez para desligar a água.
Não soube se ele disse para mim ou para si mesmo, ou se simplesmente deixou escapar o pensamento. Mas eu ouvi. Ouvi tão claro que não respondi. Não sabia como. Virei-me devagar e atravessei a rua de volta, sentindo o olhar dele nas minhas costas até fechar a porta.
Não aconteceu nada.
Desde aquela conversa perto do jardim, algo tinha se desajustado dentro de mim. Não dizia em voz alta. Não escrevia, não admitia, mas estava ali, pulsando como uma nota grave entre as coisas do dia a dia. Agora, toda vez que passava pela janela, procurava por ele. Às vezes não estava. Às vezes estava.
Comecei a notar coisas. Que ele saía para correr quando eu tomava sol lá fora. Que passava caminhando pela minha calçada com o cachorro dele, bem na hora em que eu passeava com o meu ou saía para regar as plantas. Que demorava uns segundos a mais para me cumprimentar, como se se recusasse a deixar que aqueles encontros continuassem sendo acidentais.
Eu também fazia a minha parte, mesmo que custasse admitir.
Me vestia melhor para ir ao mercado. Me maquiava, pensando que ele poderia estar lá fora. Abria a cortina da sala com mais frequência. E quando ele me olhava do outro lado da rua, eu sustentava o olhar. Já não fingia surpresa. Já não baixava a vista. Comecei a vê-lo pelo que era, um homem maduro que me fazia ficar molhada criando fantasias.
Uma tarde, ao chegar do trabalho antes do Andrés, eu me dedicava a ser uma dona de casa ideal. A máquina de lavar roncava na cozinha, o sol entrava quentinho pela janela. Me curvei para pegar a roupa do cesto, distraída, quando ouvi uma batida suave na porta.
Abri.
Julián.
Camiseta preta justa, uma toalha no pescoço, suor nos braços. Parecia ter terminado de malhar. O peito subia e descia devagar, respirando fundo. Ele levou uns segundos antes de dizer qualquer coisa, como se me desse a chance de admirá-lo.
—Desculpa incomodar —disse por fim—. Você não teria um pouco de gelo aí? Fiquei sem nada e estou com o ombro meio pesado. Ele falava tranquilo, mas eu senti o ar faltando ao ver aquele corpo de homem calejado, tenso, que agora estava na minha porta. Pelo cheiro salgado e limpo do suor dele. Pelo jeito que a voz dele batia no meu peito, sem avisar.
—Claro, espera um segundo — falei, e me virei pra entrar.
Senti os olhos dele atrás de mim. Senti. Sabia que ele olhava de cima a baixo meu uniforme já amassado da companhia aérea, do qual mal tinha tirado os saltos.
Fui pra cozinha, peguei um saco de gelo do congelador e voltei. Ao entregar, nossos dedos se roçaram de leve. Um segundo. Uma descarga.
—Obrigado, vizinha — ele disse, e ficou um segundo a mais do que precisava. Vi os olhos dele descendo. Não de um jeito vulgar, não como qualquer homem. Desciam pra me olhar. De verdade.
E pela primeira vez, eu não me cobri. Não me mexi. Só olhei de volta.
—Tá bem? — ele perguntou, como se notasse algo na minha expressão.
—Eu tô... — me interrompi—. Sim. Só surpresa.
Talvez excitada fosse a palavra mais certa pro momento.
—Por quê?
—Porque eu não esperava visita.
Ele sorriu, como se entendesse mais do que eu dizia.
—Eu também não esperava ficar sem gelo.
E com isso, ele se virou. Caminhou até a casa dele sem pressa. Eu fechei a porta com as mãos tremendo e o coração martelando no peito.
Nada aconteceu. De novo, nada. Mas aquele "nada" começava a se encher de tudo.
A chuva caía. Não era forte, mas era constante, como se o céu estivesse com calma pra deixar a gente sentir cada gota. A janela estava levemente aberta e o som da chuva no telhado tinha me hipnotizado a tarde toda. Ouvi uns latidos bem quando terminava de sair do banho. Eram insistentes, urgentes. Me enrolei como pude com uma toalha e fui até a janela. Lá estava meu cachorro, Max, molhado, se agitando na frente do jardim do Julián, um Yorkshire Terrier latindo como se estivesse defendendo a honra dele diante de um pastor. alemão que o olhava com desprezo atrás das grades.
Não fazia ideia de como ele tinha escapado. Ainda sem terminar de me secar, vesti a calça de moletom e uma blusa, abri a porta pra sair correndo, mas trombei com uma silhueta na entrada. Era o Julián. Com o Max no colo como uma criança, os dois encharcados.
— Ele entrou até a porta e não parava de latir — disse, sorrindo, a voz meio abafada pela chuva —. Achei melhor trazer ele de volta antes que arrumasse uma briga.
Ele tava com uma camiseta branca colada no peito, molhada, que deixava à mostra sem pudor o relevo do torso. Como se fosse um comercial de Coca – Booty: Eu via a água escorrendo pelas têmporas dele, descendo pelo pescoço, pelos braços definidos, em câmera lenta, te dando uma sede que você não tinha antes de ver o comercial.
— Desculpa — falei, rindo nervosa —. Não sei como ele escapou.
— Relaxa. Não é a primeira vez que um cachorro me mete em encrenca.
A gente se olhou por uns segundos. O som da chuva lá fora preenchia os silêncios. O Julián tava a um passo de mim, a respiração mais acelerada que o normal, e eu ainda tinha o cabelo úmido do banho e a roupa grudada no corpo por causa da umidade da pele com que vesti na pressa de sair correndo.
— Quer uma toalha? — ofereci, me virando.
— Ou um guarda-chuva, pelo menos — disse, me seguindo.
— Melhor uma toalha. Você tá encharcado.
Ele entrou. Fechei a porta.
Fui na frente até o banheiro e voltei com uma das toalhas grandes, brancas. Estendi pra ele. Ele pegou sem tirar os olhos de mim. Os dedos dele roçaram os meus. O toque foi leve, mas me fez inspirar mais fundo do que eu queria.
— Obrigado — disse, mas não se secou na hora. Me olhou de cima a baixo. Não com atrevimento, mas com atenção. Como se só agora estivesse me vendo de verdade. E eu… eu já não conseguia mais fingir que não tinha notado antes. Aquele corpo. Aquela maneira calma de falar. Aquela tensão invisível toda vez que Estávamos perto e nada acontecia.
— Quer se secar no banheiro? — perguntei. Não reconheci minha voz.
Ele negou com a cabeça. Deixou a toalha sobre a mesa e deu um passo. Depois outro. Eu não recuei.
Quando ficou na minha frente, me olhou com uma intensidade contida. A mão dele roçou minha bochecha, de leve. Não foi brusco. Foi um teste. E eu não me afastei.
— Você sabe que eu não deveria estar aqui — murmurou, a voz baixa, rouca.
— Eu também não — sussurrei.
Não houve outra permissão. Nem mais dúvidas.
Ele me beijou com força, como se estivesse se segurando há semanas. Minhas costas bateram contra a parede. O corpo dele, úmido e quente, se apoiou no meu, me impedindo de fugir, senti o volume dele. As mãos dele me agarraram pela cintura e pelos quadris. Ele apertava o corpo dele contra o meu. Subiu as mãos por baixo da minha blusa molhada, mas não parou para pegar nos meus peitos, levantou ela completamente até tirar, eu ergui meus braços para facilitar o trabalho dele. Os lábios dele desceram pelo meu pescoço, vi como inconscientemente eu tinha colocado minha mão na nuca dele, apertando ele contra mim. Eu arfava em silêncio, sem pensar em nada além daquela boca, daquele peito, daquele jeito de me tomar como se não pudesse parar mesmo se quisesse.
E eu também não queria.
Com a boca, ele deixava meu pescoço para morder minha clavícula, eu fazia força com minha mão guiando ele até meus seios.
Capítulo 2
Nossos vizinhos, Julián, o pai, devia ter uns 48. Parecia militar aposentado, firme na postura mas gentil no trato. A esposa dele, Amanda, uma senhora muito simpática da mesma idade que quase não aparecia por ali. Eu tinha 23. Poucos meses de casada com o Andrés, e com aquela sensação — ainda presente — de estar experimentando uma roupa que me servia meio folgada.
Se você me perguntasse há algumas semanas o que eu achava dele, eu teria dito que era só isso: o vizinho da frente. Correto, educado, com boa relação com o Andrés, com quem ele trocava umas palavras de vez em quando na calçada. Eu, por outro lado, mal dava um aceno de longe. Nunca teve nada além disso.
— Até aquela noite. —
Uma reunião simples, um churrasco no quintal deles, com outros vizinhos e alguns amigos dele. O Andrés aceitou na hora, e eu fui junto sem dar muita importância.
Vesti um vestido de linho cor creme, ajustado na cintura, com um decote quadrado que deixava à mostra o começo das minhas clavículas. As mangas caíam suavemente pelos meus ombros, e a barra terminava na metade da perna, comprido o bastante pra ser "apropriado", mas com um tecido leve o bastante pra deixar a brisa brincar com meus movimentos. Sem sutiã — porque não precisava com aquele corte —, e com umas sandálias de couro de tiras finas que me faziam sentir gostosa sem esforço nenhum. Prendi o cabelo num coque solto, deixando alguns fios escaparem. Não era pra impressionar ninguém, só queria me sentir confortável. Embora, de algum jeito, eu soubesse que tava bem pra caralho.
Pensei que seria só mais uma noite. E foi. em parte foi… mas também, foi o começo de algo que eu não soube nomear naquele momento. Algo que começou a mudar o jeito como eu olhava pra ele, embora eu ainda não soubesse.
A casa do Julián parecia diferente naquela noite. As luzes do quintal pendiam entre as árvores como vaga-lumes imóveis, e a música suave preenchia os espaços entre as conversas. Era uma reunião simples, com carne assando na churrasqueira e copos de vinho passando de mão em mão. Andrés estava encantado. Eu, na real, só me deixava levar.
Eu tinha cumprimentado o Julián assim que chegamos, como sempre: com um sorriso cordial, nada mais. Ele vestia uma camiseta cinza que marcava os ombros e o peito, e uma calça jeans simples. Durante a noite, as conversas entre os homens ficaram evidentes demais, e não tive escolha senão procurar algum grupo de senhoras não tão velhas pra bater um papo. Em algum momento da noite, tentei escapar pro banheiro e me dedicar a algo mais emocionante, olhar minhas redes sociais, ou tirar uma foto no espelho. Ao sair, cruzei com o Julián,
— Como tá a festa — disse com a voz grave enquanto passava por mim com uma taça de vinho na mão, desviando o corpo pro lado pra me dar passagem e cada um seguir seu caminho. Mas eu não consegui responder.
— Esse vestido deveria vir com aviso — falou, sem me olhar diretamente, como se o comentário fosse casual, só jogado no ar. E então se afastou, deixando o cheiro dele — de madeira, de algo limpo e masculino — pairando por alguns segundos atrás dele.
Me pegou de surpresa. Me virei, procurando ele, mas ele já estava conversando com outro grupo, como se não tivesse dito nada fora do lugar.
Olhei pra ele com um pouco de nojo.
Ele se movia com uma confiança que eu não tinha notado antes, como se tudo ao redor dele respondesse. Os braços dele, firmes, marcavam cada vez que ele pegava algo da mesa ou cortava carne. A risada dele era mais grave do que eu lembrava. De repente, nossos olhares se cruzaram de longe, notei que me sustentava os olhos um segundo a mais do que o necessário. Ele não desviou o olhar. Não sorriu. Só me encarou, direto. Como se já soubesse algo que eu estava começando a entender.
Desde aquele instante, me senti observada. Não assediada nem desconfortável… mas visível. Como se alguém tivesse acendido uma luz sobre mim, e aquela luz viesse dele.
Tentei disfarçar. Entrei numa conversa entre duas mulheres que falavam dos filhos, sorri, assenti… mas já não escutava direito. Meus olhos voltavam pra ele de vez em quando, procurando sem querer. Desde muito nova eu preferia experiências sexuais com homens mais velhos, aquela mistura de segurança, maturidade, desempenho e um não sei quê que sempre me deu tesão. Mas era absurdo. Um único comentário e ele já tinha remexido algo dentro de mim que agora perturbava minha paz.
Quando fomos embora, Julián se aproximou pra se despedir. Apertou a mão do meu marido Andrés com uma palmada firme e depois se virou pra mim. Não houve contato. Não houve duplo sentido. Só me sustentou o olhar enquanto dizia:
—Obrigado por vir, Tatiana.
Mas ele disse com uma voz tão medida, tão profunda, que meu nome pareceu ter outro peso. Soou diferente, como se eu nunca tivesse ouvido aquilo na boca de um homem.
Caminhamos de volta pra casa, e Andrés falava de como tinha se divertido, de como a carne estava gostosa. Eu respondia o mínimo, enquanto minha mente voltava uma e outra vez àquele comentário. Ao tom. Ao olhar. A como tudo mudou com uma única frase.
Cap 3: O roçar dos dias.
Os dias seguintes à reunião foram normais. A rotina seguia seu curso: as manhãs com café, o som do chuveiro do Andrés, minhas tarefas diárias em casa e no trabalho, alguma saída esporádica. Nada tinha mudado… exceto que agora, toda vez que eu passava pela sala, meus olhos se desviavam pra janela que dava pra frente.
A casa do Julián parecia mais presente do que antes. Às vezes eu o via sair cedo, com roupa esportiva, trotando pelo quarteirão com o cachorro dele. Ou carregando coisas na caçamba da caminhonete. Outras vezes, simplesmente o encontrava de pé no quintal, com uma xícara de café na mão, olhando para a rua. Para a minha janela.
Nem sempre eu conseguia ter certeza. Às vezes parecia que sim, que o olhar dele estava fixo no meu. Outras vezes, era eu que ficava observando demais, tentando adivinhar se havia intenção ou acaso nos gestos dele.
Num meio-dia qualquer, o encontrei na frente da casa dele, sozinho, regando as plantas do jardim. Eu saía para jogar umas sacolas de reciclagem. Assim que pisei na rua, ele me cumprimentou com aquela mesma voz grave e contida.
— Tatiana.
Só isso. Meu nome. E de novo aquele tom.
— Julián — respondi, tentando soar natural, embora sentisse minhas bochechas esquentando sem motivo.
Parei por um segundo. Não havia mais ninguém. Nenhum carro passando, nenhum outro vizinho na calçada. Só eu e ele, separados pela calçada e um pouco de grama recém-regada.
— Você ficou muito gostosa naquele vestido outro dia — disse ele, sem desviar o olhar. Não sorriu, não foi zombeteiro nem atrevido. Falou como se fosse um simples fato.
Meu estômago deu um nó.
— Obrigada — murmurei. Era só o que eu conseguia dizer. O olhar dele era tão direto, tão limpo, que me desarmou. Não era o tipo de homem que brincava com duplo sentido. Ele dizia o que via. O que pensava. E era exatamente isso que me desconcertava.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. A água continuava caindo nas plantas aos pés dele. O braço dele segurava a mangueira com uma calma que contrastava com meu pulso acelerado.
— Bom… vou indo antes que me expulsem de casa por me fazer de jardineira dos outros — brinquei, tentando quebrar a tensão.
Aí sim ele sorriu. De leve. Mas os olhos dele continuavam fixos nos meus.
— Andrés não te expulsaria nem se você transasse com outro — disse então, e baixou o olhar pela primeira vez para desligar a água.
Não soube se ele disse para mim ou para si mesmo, ou se simplesmente deixou escapar o pensamento. Mas eu ouvi. Ouvi tão claro que não respondi. Não sabia como. Virei-me devagar e atravessei a rua de volta, sentindo o olhar dele nas minhas costas até fechar a porta.
Não aconteceu nada.
Desde aquela conversa perto do jardim, algo tinha se desajustado dentro de mim. Não dizia em voz alta. Não escrevia, não admitia, mas estava ali, pulsando como uma nota grave entre as coisas do dia a dia. Agora, toda vez que passava pela janela, procurava por ele. Às vezes não estava. Às vezes estava.
Comecei a notar coisas. Que ele saía para correr quando eu tomava sol lá fora. Que passava caminhando pela minha calçada com o cachorro dele, bem na hora em que eu passeava com o meu ou saía para regar as plantas. Que demorava uns segundos a mais para me cumprimentar, como se se recusasse a deixar que aqueles encontros continuassem sendo acidentais.
Eu também fazia a minha parte, mesmo que custasse admitir.
Me vestia melhor para ir ao mercado. Me maquiava, pensando que ele poderia estar lá fora. Abria a cortina da sala com mais frequência. E quando ele me olhava do outro lado da rua, eu sustentava o olhar. Já não fingia surpresa. Já não baixava a vista. Comecei a vê-lo pelo que era, um homem maduro que me fazia ficar molhada criando fantasias.
Uma tarde, ao chegar do trabalho antes do Andrés, eu me dedicava a ser uma dona de casa ideal. A máquina de lavar roncava na cozinha, o sol entrava quentinho pela janela. Me curvei para pegar a roupa do cesto, distraída, quando ouvi uma batida suave na porta.
Abri.
Julián.
Camiseta preta justa, uma toalha no pescoço, suor nos braços. Parecia ter terminado de malhar. O peito subia e descia devagar, respirando fundo. Ele levou uns segundos antes de dizer qualquer coisa, como se me desse a chance de admirá-lo.
—Desculpa incomodar —disse por fim—. Você não teria um pouco de gelo aí? Fiquei sem nada e estou com o ombro meio pesado. Ele falava tranquilo, mas eu senti o ar faltando ao ver aquele corpo de homem calejado, tenso, que agora estava na minha porta. Pelo cheiro salgado e limpo do suor dele. Pelo jeito que a voz dele batia no meu peito, sem avisar.
—Claro, espera um segundo — falei, e me virei pra entrar.
Senti os olhos dele atrás de mim. Senti. Sabia que ele olhava de cima a baixo meu uniforme já amassado da companhia aérea, do qual mal tinha tirado os saltos.
Fui pra cozinha, peguei um saco de gelo do congelador e voltei. Ao entregar, nossos dedos se roçaram de leve. Um segundo. Uma descarga.
—Obrigado, vizinha — ele disse, e ficou um segundo a mais do que precisava. Vi os olhos dele descendo. Não de um jeito vulgar, não como qualquer homem. Desciam pra me olhar. De verdade.
E pela primeira vez, eu não me cobri. Não me mexi. Só olhei de volta.
—Tá bem? — ele perguntou, como se notasse algo na minha expressão.
—Eu tô... — me interrompi—. Sim. Só surpresa.
Talvez excitada fosse a palavra mais certa pro momento.
—Por quê?
—Porque eu não esperava visita.
Ele sorriu, como se entendesse mais do que eu dizia.
—Eu também não esperava ficar sem gelo.
E com isso, ele se virou. Caminhou até a casa dele sem pressa. Eu fechei a porta com as mãos tremendo e o coração martelando no peito.
Nada aconteceu. De novo, nada. Mas aquele "nada" começava a se encher de tudo.
A chuva caía. Não era forte, mas era constante, como se o céu estivesse com calma pra deixar a gente sentir cada gota. A janela estava levemente aberta e o som da chuva no telhado tinha me hipnotizado a tarde toda. Ouvi uns latidos bem quando terminava de sair do banho. Eram insistentes, urgentes. Me enrolei como pude com uma toalha e fui até a janela. Lá estava meu cachorro, Max, molhado, se agitando na frente do jardim do Julián, um Yorkshire Terrier latindo como se estivesse defendendo a honra dele diante de um pastor. alemão que o olhava com desprezo atrás das grades.
Não fazia ideia de como ele tinha escapado. Ainda sem terminar de me secar, vesti a calça de moletom e uma blusa, abri a porta pra sair correndo, mas trombei com uma silhueta na entrada. Era o Julián. Com o Max no colo como uma criança, os dois encharcados.
— Ele entrou até a porta e não parava de latir — disse, sorrindo, a voz meio abafada pela chuva —. Achei melhor trazer ele de volta antes que arrumasse uma briga.
Ele tava com uma camiseta branca colada no peito, molhada, que deixava à mostra sem pudor o relevo do torso. Como se fosse um comercial de Coca – Booty: Eu via a água escorrendo pelas têmporas dele, descendo pelo pescoço, pelos braços definidos, em câmera lenta, te dando uma sede que você não tinha antes de ver o comercial.
— Desculpa — falei, rindo nervosa —. Não sei como ele escapou.
— Relaxa. Não é a primeira vez que um cachorro me mete em encrenca.
A gente se olhou por uns segundos. O som da chuva lá fora preenchia os silêncios. O Julián tava a um passo de mim, a respiração mais acelerada que o normal, e eu ainda tinha o cabelo úmido do banho e a roupa grudada no corpo por causa da umidade da pele com que vesti na pressa de sair correndo.
— Quer uma toalha? — ofereci, me virando.
— Ou um guarda-chuva, pelo menos — disse, me seguindo.
— Melhor uma toalha. Você tá encharcado.
Ele entrou. Fechei a porta.
Fui na frente até o banheiro e voltei com uma das toalhas grandes, brancas. Estendi pra ele. Ele pegou sem tirar os olhos de mim. Os dedos dele roçaram os meus. O toque foi leve, mas me fez inspirar mais fundo do que eu queria.
— Obrigado — disse, mas não se secou na hora. Me olhou de cima a baixo. Não com atrevimento, mas com atenção. Como se só agora estivesse me vendo de verdade. E eu… eu já não conseguia mais fingir que não tinha notado antes. Aquele corpo. Aquela maneira calma de falar. Aquela tensão invisível toda vez que Estávamos perto e nada acontecia.
— Quer se secar no banheiro? — perguntei. Não reconheci minha voz.
Ele negou com a cabeça. Deixou a toalha sobre a mesa e deu um passo. Depois outro. Eu não recuei.
Quando ficou na minha frente, me olhou com uma intensidade contida. A mão dele roçou minha bochecha, de leve. Não foi brusco. Foi um teste. E eu não me afastei.
— Você sabe que eu não deveria estar aqui — murmurou, a voz baixa, rouca.
— Eu também não — sussurrei.
Não houve outra permissão. Nem mais dúvidas.
Ele me beijou com força, como se estivesse se segurando há semanas. Minhas costas bateram contra a parede. O corpo dele, úmido e quente, se apoiou no meu, me impedindo de fugir, senti o volume dele. As mãos dele me agarraram pela cintura e pelos quadris. Ele apertava o corpo dele contra o meu. Subiu as mãos por baixo da minha blusa molhada, mas não parou para pegar nos meus peitos, levantou ela completamente até tirar, eu ergui meus braços para facilitar o trabalho dele. Os lábios dele desceram pelo meu pescoço, vi como inconscientemente eu tinha colocado minha mão na nuca dele, apertando ele contra mim. Eu arfava em silêncio, sem pensar em nada além daquela boca, daquele peito, daquele jeito de me tomar como se não pudesse parar mesmo se quisesse.
E eu também não queria.
Com a boca, ele deixava meu pescoço para morder minha clavícula, eu fazia força com minha mão guiando ele até meus seios.
Capítulo 2
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