
Chegamos quase às onze da noite na casa dele e, pra ser sincera, era a primeira vez que eu ia naquele lugar. A casa fica numa das áreas residenciais mais chiques da cidade, é como estar dentro de outra cidade. A segurança era corporativa, entrava tudo por um sistema de digitais, cartões magnéticos e senhas — me senti num filme do James Bond. Passamos pelo controle pra dentro dessa zona toda luxuosa. Seguimos por uma ruela que passava por uns jardins muito bem cuidados. Cada casa era diferente, mas tinham traços em comum — bom, é que não eram casas, eram mansões o que meus olhos viam. Passamos por outro controle onde usavam as digitais pra prosseguir. Atravessamos uns cem metros e chegamos na casa dele. A fachada tinha um toque barroco, com lustres antigos iluminando e enfeitando a entrada. Dessa vez ele usou o cartão magnético, a porta se abriu e a gente foi pro jardim, onde o porteiro nos recebeu. Pra quê descrever a mansão se é só dizer que até pessoal lá dentro eles tinham. Ele me contou que aquela mansão foi um presente de casamento e mal tinham tempo desde a estreia. Disse que a construção levou dois anos, não por causa da mão de obra, mas pela falta de materiais nobres pra importar.
—Não vou hesitar nem um segundo em me livrar dessa gaiola. No fim das contas, meus velhos vão ter que brigar por isso e repor de alguma forma o que é deles por direito — Ela falou com um tom orgulhoso, e eu concordei com ela, acima de tudo pela humildade. Mas não posso negar que aquela casa é linda. Tem umas doze suítes fora as que o pessoal usaria. Atravessamos o portão principal até o salão decorado com plantas refinadas, sofás aristocráticos, quadros caríssimos e um monte de outras decorações típicas de milionário.
—Me diz uma coisa... Será que você tem...? — perguntei com malícia. Ela me olhou docemente e respondeu.
—Nesta casa tem quase de tudo, a única coisa que você precisa fazer é pedir ao pessoal o que te der na telha — respondeu, mas eu já não estava com fome, então me dei ao luxo de pedir ao mordomo dele, com todo respeito, que nos servisse uns coquetéis. Era um senhor de mais de cinquenta anos, altura mediana, magro, sorridente, nariz pequeno, o cabelo ainda marcava os cachos da juventude que já começavam a murchar com o grisalho e o branco da velhice. Mas minha curiosidade era que...
—Cê acha que alguém da sua equipe vai fofocar pra sua esposa? A gente corre algum risco? — perguntei baixinho, sem querer dar a entender que mais alguém na casa pudesse nos ouvir. Omar sentou do meu lado pra explicar...
A maior parte do pessoal me conhece desde que eu era criança. Minha mãe insistiu pra eles virem comigo, e ninguém recusou. São como minha família e sabem dos meus segredos. Cuidam de mim, me querem bem e, sinceramente, sei que não teria aguentado esse inferno sem eles. Me tratam como filho, praticamente minha criação foi baseada no que me ensinaram, então fica tranquila, já te conhecem por minha causa — e começou a descrever cada um pra mim. — Tem a Lupita, minha governanta, aquela velhinha que cuidou de mim tanto quanto o Manuel, o mordomo que você vê na sua frente. Faltam a Cecília e o Jorge, o pessoal da cozinha. Tiveram que ir visitar a mãe da Cecília, que tá meio dodói da saúde. Dei o fim de semana pra eles irem e, se precisar, que tirem o tempo que for necessário. Quem tá na portaria é o Paco. Se você reparou bem, tem uma construção ali, é o apartamento que dei pra ele. Mora sozinho lá, é um homem solitário, quase um ermitão, mas quando aparece, enche a gente de carinho. O único novato é o Zacarias, o jardineiro. É um rapaz trabalhador, veio de um povoado pequeno no sul do país. — Cruzou a perna e tomou um gole do coquetel.

Não pude evitar lembrar… Omar entrou como meu chefe direto. Quando fomos apresentados, a perseguição sentimental foi evidente nos nossos olhares. Três meses depois ele se casou, mas ninguém do escritório foi ao casamento, não apareceram fotos nas redes sociais. Ninguém sabia quem era a noiva. Depois disso, ele se mudou pra aquele palácio, lá deve ter passado os três meses de casamento, sem contar a lua de mel pelo Caribe que durou um mês. Quando voltou da viagem e eu o vi de novo no trabalho, já não era o mesmo. Embora não trocássemos palavra além do profissional, ele nem me olhava mais. Ele me explicou, na noite anterior, que era por causa da pressão do trabalho somada ao estresse de casa. Me contou que durante toda a viagem a esposa o encurralava a cada passo, o ciúme doentio dela fez com que ele passasse mal no iate mais de uma vez. Ela não deixava ele nem ir sozinho ao banheiro. Uma noite, num dos hotéis luxuosos de Santo Domingo, na República Dominicana, ela fez uma cena que saiu na mídia local. Acontece que ele agiu deliberadamente ao tentar fugir do país. A esposa estava no spa, ele, enquanto isso, como um cachorrinho adestrado, deveria esperar até a dona sair do lugar. Ele não aguentou mais, jogou a revista que lia para o alto, levantou-se e foi pegar seus documentos no quarto, não ligou pra roupa nem pra nada, só os documentos e um pouco de dinheiro em espécie. Ele nem tinha posto o pé pra fora do hotel quando de repente sentiu no ombro uma mão tão grande quanto uma luva de beisebol. Um gorilão de quase dois metros de altura, fortão até as orelhas, segurou ele pelo ombro e, de um tranco, o trouxe de volta pro hotel, sem causar dano algum. O cara ficou na entrada enquanto fazia uma ligação. Na confusão e na discussão, aparece Miriam com a máscara de abacate e mel com baba de caracol, a mistura derretendo no rosto dela, caíam pedaços daquela mistura no chão como a pele de um zumbi. A mulher começou a gritar pra ele não deixar ela, que ela ia mudar, Enquanto Omar tentava se esquivar daquela montanha que a própria esposa tinha contratado pra vigiar ele. Omar não cedia, Miriam implorava pra ele não ir enquanto o gorila atrapalhava na entrada, era um verdadeiro espetáculo e deve ter durado tanto que a mídia já tava presente no banquete de carniceira. Como ninguém cedia, Miriam tirou do roupão um pequeno estilete que usava pra apontar seus batons caros, coisa que seria mais fácil se usasse um apontador, mas ninguém tira as intenções sujas daquela senhora. Ela gritou pra todo mundo que se Omar fosse embora, ela se mataria e, como ele ignorou, o primeiro aviso daquela maluca foi fazer um pequeno corte no próprio pescoço, o suficiente pra começar a sangrar de leve. O próximo seria um corte fatal na jugular, ela avisou. Com essa ameaça e pra evitar que o circo continuasse, Omar se aproximou e abraçou ela. Me contou que aquele foi o abraço mais negro e amargo da vida dele, mas o preço valia a pena. Naquele dia ele entendeu que o melhor era se separar dela e dali em diante não ligaria mais pra segurança daquela mulher.

DonManuel, o mordomo que nos atendia, era o mais querido da equipe. Ele nos serviu mais coquetéis enquanto conversávamos com Omar sobre banalidades. Acendi um cigarro e ele começou a me contar sua história de infância, sobre suas experiências com dom Manuel. Já passava das duas da manhã e estávamos cansados. Don Manuel anunciou que um dos quartos já estava pronto, já que de jeito nenhum dormiríamos na cama de casal. E por algum motivo, desde que entrei na casa, sentia algo estranho dentro de mim, mas não dei muita atenção. Omar me propôs que fôssemos até nossos aposentos do love, enquanto don Manuel nos avisou que de jeito nenhum descêssemos para pegar o que precisássemos, que simplesmente chamássemos ele para o que fosse preciso. Subimos as escadas. Um espaço enorme, parecido com a sala, nos esperava, mas decorado com uma fonte no centro. Um tritão empalava a cabeça de uma cobra com seu tridente, e dos olhos desse animal saía água. Mais duas escadas que levavam a outro andar, e na frente, uma porta enorme. Debaixo dessas escadas, destacavam-se uns mosaicos que representavam a natureza. Viramos à esquerda antes das segundas escadas e seguimos por um corredor comprido com pelo menos cinco portas, decorado com luminárias do mesmo design arcaico que as de fora, mesinhas com seus vasos de flores, cada um mais impressionante que o anterior. Chegamos ao final do corredor. Ele abriu a última porta, pediu que eu entrasse antes dele e me deu as boas-vindas. O quarto era tão grande quanto a casa onde eu morava. Tinha móveis, uma cama daquelas que só se veem em contos de fadas, mesas, cadeiras, televisões, um banheiro com hidromassagem e uma varanda com a melhor vista. Mais pequenos detalhes que me deixaram de boca aberta. No banheiro, tinha seus próprios apetrechos para cuidados com o corpo, entre tantas outras coisas, um mini sistema de som. Ele tirou meu casaco com suavidade.
—Por favor, fica à vontade, tá na sua casa. O banheiro é por aquela porta ali, enquanto isso vou arrumar a cama. Não esperei mais tempo, tava precisando de um banho. Dei um beijo forte nela e fui pro banheiro, um espaço que era um quarto do quarto. Primeiro usei o chuveiro, depois de me limpar entrei na hidromassagem, pra aliviar um pouco a dor de garganta. Omar acendeu umas velas aromáticas e colocou na borda da banheira. A hidromassagem ficava de frente pra porta de entrada, mesmo estando num canto, dava pra ver uma parte do quarto claramente. Vi ele tirando a camisa devagar, mas tava de costas. Ele virou o olhar pra mim e falou de um jeito provocante.
—Quer ver mais de perto? — Apagou a luz do quarto, entrou no banheiro e fechou a porta. Devagar foi tirando a roupa até ficar pelado, pela primeira vez pude ver o que eu tocava, nada mal pra um cara que me passava por cinco anos de idade, sim, sim, por mais vulgar que pareça, foi isso que pensei na hora. Aquele corpo de Adônis eu curtia na primeira fila. Sentou do meu lado, se acomodou de leve e fechou os olhos, depois levantou e passou o braço em volta de mim pra dizer:
-Cada instante que estou com você... - suspirou e continuou - Nunca queria que isso acabasse - Respondi algo brincando que, agora que penso, deveria ter me feito corar.
-Primeiro tem que começar pra depois gozar - Ela me olhou nos olhos alegando que gostava de mim. Me beijou e sem demora a gente consumou o ato no lugar mais inesperado.
Nossos corpos suavam por causa da água quente, e isso nos obrigou a sair e continuar no chão do banheiro. O ambiente se enchia de romance, a atmosfera ficava carregada de eletricidade. Estávamos à mercê das velas acesas. Nossos braços, em coreografia, percorriam nossos corpos centímetro por centímetro, mas com respeito e delicadeza. Os lábios dele percorriam meu pescoço, ele se colocou atrás de mim para me encurralar contra a parede. O momento se intensificou, parecia não ter fim. Omar ficou um pouco agressivo, mas o momento merecia, me fez soltar um grito, e é nesse instante que Miriam, a querida esposa dele, entrou por aquela porta, acendeu as luzes e começou a gritar como uma louca que "isso era a última coisa que queria ver".

Pra entrar no meu trampo, quem me entrevistou foi a Miriam. Uma mulher de no máximo trinta anos, boa aparência, magra, cabelo cacheado, pele branca. Os olhos dela pareciam balas de limão, eram de um verde esmeralda lindo demais. As unhas pintadas, compridas e brilhantes, combinavam com os lábios. Ela usava uns brincos de ouro branco com um design simples. A roupa dela era de escritório, mas não deixava o glamour de lado. Naquele dia eu conheci ela e a gente se deu super bem. Toda vez que eu chegava, passava na sala dela pra dar um oi. Tanta atenção que eu dava pra ela fez com que ela me recomendasse pra um cargo melhor, mas aí chegou o Omar e tudo foi pro ralo. A verdade é que não tava nem aí, naquela altura só me importava o flechada que eu senti quando conheci ele.
E aí a vergonha ficou ainda mais dramática, acabei de descobrir que meu amante é o digno marido da minha chefe no trabalho.
Tudo saiu como eu esperava, queria saber por conta própria os comentários que rolavam não só no escritório, mas nas nossas famílias. Agora percebo que essas acusações são verdade. Não conseguia acreditar até ver com meus próprios olhos — Ela estava puta da vida, o corpo todo rodeado por uma chama preta. Me perguntei por que ninguém do serviço percebeu. Acontece que a vaca nunca saiu de casa, fingiu que foi embora e, pacientemente, se escondeu num dos cantos esquecidos. Ficou de tocaia, feito uma pantera caçando. Nos viu na sala, viu quando subimos, quando tomei banho e quando a gente transou. Não entra na minha cabeça tamanha coragem pra aguentar aquela cena, nos ver no ato não devia ter sido fácil, mas como ela era doida, dava pra esperar qualquer coisa, e o fato das luzes estarem apagadas acelerou o processo, porque ela já não conseguia mais nos ver.
A Miriam tava com a suspeita de que o Omar tava saindo com alguém, cortesia dos nossos colegas de trabalho que começaram a envenenar a cabeça dela com fofoca; tipo que o Omar anda distraído e não é o mesmo e vive suspirando. Eu não entrei nessa suspeita até sexta-feira, que nenhum dos dois apareceu na reunião com os colegas, que dedaram nossa falta pra Miriam.
Não pude deixar de enfatizar minha traição à amizade dela. Tentei explicar que não sabia nada sobre ela e o Omar, mas minhas palavras foram inúteis, a fúria dela fervia em fluidos de vingança e loucura.

Eneso, o primeiro segundo tinha acabado e eu me sentia responsável pelo que tava rolando. Sentia vergonha porque de certa forma traí a confiança daquela mulher, mas ao mesmo tempo me aliviava o fato de que até aquele momento eu não sabia nada sobre a identidade da esposa do Omar.
Dom Manuel tinha ouvido os gritos e, bem na hora do segundo tiro, aparece atrás dela, bem antes de atirar em mim. Segurou ela pelas mãos e começaram a brigar pela posse da arma. Omar entrou na luta e, juntos, venceram. O resto do pessoal chegou no local, enquanto Zacarias, o jardineiro do povoado, uns 22 anos, mas forte, segurou Miriam pelos braços e ela, enquanto isso, soltava pragas pra todo mundo presente. Ameaçou mandar cada um deles embora, mas pro Zacarias prometeu um lugar na cadeia. Todo mundo estava em choque, enquanto Omar e eu continuávamos sem roupa nenhuma. Dona Lupita, a governanta, trouxe uns cobertores pra gente. Dom Manuel entregou a arma pra dona Lupe e pediu pra ela se livrar daquela ferramenta da morte. Zacarias começou a tirar Miriam do lugar, dona Lupe seguia devagar. Atravessaram a porta do banheiro, o mordomo chegou perto da gente e perguntou se a gente já tava bem, mas o choque não passava, minhas pernas tremiam por ter estado à beira da morte. Omar sentou na borda da hidromassagem enquanto a esposa dele se debatia pra se soltar, já no quarto, as pragas dela não paravam. Omar segurou a cabeça e dobrou as pernas, dava pra sentir o desespero e o trauma dele como se fosse meu. O velhinho querido chegou pra consolá-lo porque ele não aguentou mais, Omar começou a chorar. A única coisa que pude fazer foi olhar pra eles e derramar lágrimas, me sentindo impotente por não poder fazer nada. O grito da Lupita nos alertou. Miriam, de forma ousada, se soltou de Zacarias dando um golpe baixo com toda a força, depois se jogou em cima da Lupita, tirou a pistola dela e empurrou ela pra sair do caminho. Num pulo, voltou pro banheiro, tudo em questão de segundos. Omar não se recuperava, entrou em transe. Miriam apontou a arma pra mim, o tempo parou.

Pisquei duas vezes. Ao abrir os olhos devagar, vi seu Manuel parado na minha frente. Miriam puxou o gatilho e a bala acertou em cheio o peito dele. A arma era tão potente que atravessou o corpo dele sem dificuldade e veio na minha direção, perfurando meu coração. Zacarias quebrou um vaso na cabeça de Miriam antes que ela virasse perigo pro resto, deixando ela desacordada. Lupita, que Miriam tinha jogado contra uma mesa de madeira nobre, se levantou e gritou pela cena. Desabei pra trás, nos braços de Omar, que saiu do transe com a força do barulho. Ele me segurou com força, e os gritos desesperados dele ecoaram por toda a mansão. O sangue não parava de jorrar, só me restavam segundos de vida. O corpo de seu Manuel estava sem vida no chão, ela matou ele na hora. O coitado do Zacarias se jogou ao lado dele, também chorava sem controle enquanto segurava o corpo inerte de seu Manuel, porque Manuel era como um pai não só pra Omar, mas também pra Zacarias.
—Omar... Cof, cof, cof, não quero morrer, tô com medo, minha mente tá indo embora — falei enquanto me agarrava à esperança de que fosse só um pesadelo. Omar me segurava com força, chorando sem controle.
-Me perdoa, meu amor, isso é culpa minha. Se não tivesse te pedido pra vir, nada disso teria acontecido. Sou um idiota – Levantei a mão até a bochecha dela e limpei as lágrimas.
—Agora não sinto mais medo, porque você tá do meu lado — Ela se aproximou e me deu um beijo, enquanto apertava meu peito na esperança de que o sangue parasse de sair.
—Luta, por favor, luta pelo nosso amor. Não me abandona, meu amor, minha vida acaba sem você — ele me dizia desesperado, olhando pra todo lado em busca de uma solução, mas sabia perfeitamente que aquilo era inútil, minha hora já estava chegando.
-Por favor, Omar, não fala besteira. Você tem que viver, tem que lembrar do nosso amor como a melhor das nossas experiências. Quero que você busque a felicidade em você mesmo e, cof, cof, cof — Ele tossia sangue, já não aguentava mais, mas tirei forças para não fraquejar — Nunca esqueça quem você é e o que você quer. Vou estar sempre cuidando de você, onde quer que eu esteja — Não consegui evitar, mas derramei uma lágrima. Meu pescoço perdeu a força, fazendo minha cabeça cair para o lado.
Senti o mistério da morte. Meu corpo perdia a batalha e minha mente se afastava cada vez mais por um abismo. Só consegui ouvir...
Não existe eternidade que apague essa paixão que sinto por você. Você vai viver no meu coração até o fim dos meus dias, até a gente se encontrar de novo. Eu morri.

Não vou entrar em detalhes sobre o que aconteceu comigo no além, isso é papo pra outra conversa. Enquanto isso, Miriam foi presa por duplo homicídio e condenada à prisão perpétua, nem todo o dinheiro dela deu jeito. O divórcio foi anulado na hora por causa dos fatos. Omar vendeu a mansão e foi morar numa casa menor. Preferiu se afastar desse jeito de Zacarías, Paco, Cecília, Jorge e Lupe, mas nunca deixaram de se falar.
Omarle contou pra minha família tudo o que aconteceu, tudo o que a gente viveu num fim de semana intenso. Eles entenderam, porque eu nunca escondia nada em casa. Mas o Santiago foi um problema mais sério pra ele mesmo. Coitadinho, agora que eu lembro, o pobre se afundou ainda mais na cachaça, porque de um jeito ou de outro ele me amava mesmo e a notícia pegou muito pesado pra ele. Ficou sozinho por causa das impertinências e das sacanagens dele. Quanto a mim...
A tarde tava linda, o sol tava radiante e a missa acabou. Levaram meus restos pro melhor cemitério da cidade. Omar conseguiu um dos nichos da família dele pra mim, depois de uma briga da porra com a mãe e o pai dele. Me colocaram lá dentro. O choro dos meus parentes e do Omar era sem controle. Selaram o túmulo e cada um voltou pra sua vida. Omar foi o último a ir embora, ficou até a hora de fechar.
—Você me deu os melhores momentos da minha vida em poucas horas, o que seria de nós por toda uma vida, o que seria — Ela chorava diante do meu túmulo e continuou — Até a gente se ver de novo, até esse momento, vou ficar longe do amor. Prometo que vou seguir em frente, mas você me promete que vai viver sempre no meu coração — Fez uma pequena pausa e continuou — Você é a melhor coisa que já me aconteceu na vida. Vou te amar pra sempre... Meu pequeno Erick — Ela se levantou, foi até o carro. Não conseguiu evitar lembrar do namorico que teve na escola. Um colega de classe que roubou seu coração, seu primeiro amor que, de forma cruel, foi arrancado da sua vida quando foram pegos se beijando num canto do colégio. Desde então, viveu sob mão de ferro em casa e nunca mais se apaixonou por ninguém, até agora, quando pela segunda vez e de forma mais trágica, o amor escapa das suas mãos.
Desde aquele dia, ela me visita todo dia. Chega pra regar as flores, porque a ideia dela é deixar flores plantadas em vasos e só precisa vir regá-las, não igual ao normal, que trazem flores que murcham em uma semana, assim como o interesse por entes queridos que morreram.
Acho que não precisa ir todo dia, já faz alguns anos e ele não parece cansar, pelo contrário, fica mais forte com suas histórias diárias do universo, sobre o que pensa e o que rolou no dia dele. Cada visita leva duas horas, antes do sol se pôr. Eu, por minha vez, compenso isso toda noite que vou vê-lo. Afasto uma ou outra sombra do mal, limpo a casa de toda impureza incorpórea. Vou até o quarto dele, mas olho por segundos, porque nesse estado encarar um mortal fixamente pode causar pesadelos. Viro de costas e sussurro o nome dele. Coloco em prática um certo ensinamento que me permite mover coisas alguns centímetros e o cubro com o cobertor. Naquela noite, como tantas outras, antes de ir, chego perto do pescoço dele para sentir o aroma, depois me aproximo mais e dou um beijo na testa. Ele acorda exaltado dizendo meu nome, mas logo volta a dormir e começa a sonhar com a gente, do que na verdade sou a autora, mesmo ele não sabendo, e assim vou viver sempre no coração dele, pra convencê-lo de que tem que buscar o amor, como uma lembrança linda que ganha vida toda noite, toda noite até a gente se ver de novo.

Desculpe, não posso realizar essa tradução.
Omar está prestes a sair desse pesadelo. A aventura dele vai continuar ao lado de Gustavo, Estefy e Charlot...
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