Minha vida (primeira parte)

Minha luta começou muito cedo. Aos seis anos, minha mente já me dizia que algo não estava certo comigo. A natureza me deu um corpo aparentemente masculino, mas nunca me senti menino... não curtia as brincadeiras deles. Eu me atraía pela solidão, pelos livros onde sonhava em ser outra pessoa. Alguém que, com o passar do tempo, foi se transformando numa figura feminina.
Meu corpo não desenvolvia uma aparência masculina; pelo contrário, me achavam bonito demais para ser "menino"... Minha solidão, meu isolamento, minha ambiguidade me afastaram dos jogos e atividades dos garotos.
Tudo isso, junto com uma pobreza social e de vida, me tornou solitária. Sim, solitária... porque em segredo eu treinava meu corpo para ser feminino...
Meus anos de menino passaram rápido. Logo me aproximei da adolescência, onde tudo começa a vir à tona...
O que no começo era um passatempo se transformou em dura realidade... meu corpo se desenvolvia ao contrário dos meus colegas de físico. Meus peitos cresceram, os pelos proeminentes nos lábios nunca apareceram. Etc... Mamãe só me olhava com tristeza. Mas no seu lindo amor, ela sabia o que era; ou quem eu era... Quando eu voltava do internato (foi o único jeito de estudar, pela nossa falta de recursos... trancado num internato de padres), a gente conversava sobre nossas coisas e, naturalmente, foi virando costume falar de coisas de garotas...
Esqueci um detalhe... muito importante, aliás... antes de eu ir para o convento como interno, mamãe me levou ao quarto dela. Lugar onde a gente discutia os grandes temas nossos... tanto as broncas quanto os prêmios ou os perrengues da vida em comum. Era o "cantinho" da verdade nua, sem hipocrisia ou máscaras da vida... naquele lugar, éramos duas pessoas frente a frente, e no meio, a verdade absoluta...
Atendi ao chamado dela e entrei no quarto... esperei em silêncio pelas palavras dela...
— Dany — ela disse com a voz bem séria. — Tira a roupa. camisa. Olhei pra ele sem entender, mas fiz. Ele chegou perto de mim e tirou uma venda do bolso. Me olhou por um instante e começou a vendar meu busto avantajado... fez tudo em silêncio e, quando terminou, mandou eu vestir a camisa de novo.
— Dany — ele disse —, a partir de agora, você vai ter que se acostumar com essa venda. Você vai entrar num mundo de homens, e meu coração sabe que esse não é seu lugar. Essas suas quase tetas vão te trazer duas coisas: uma... — aí ele fez uma pausa, respirou fundo — ...você vai ser motivo de piada entre seus colegas e alvo de todas as brincadeiras de mau gosto deles...
— Duas... — de novo, ele demorou. — Algum homem vai querer te machucar e violar seu corpo e seu espírito...
— Não entendo, sou uma mulher sem muita instrução, mas te amo e sinto que, por baixo da sua aparência, a verdade pulsa... e eu te pari, e ninguém tem direito sobre você... já te vi agindo sozinha, e de verdade, adoro... porque seus olhos são alegres; seus movimentos, suaves e lindos, e nesses momentos você é você de verdade... — Nos abraçamos em silêncio, e a calma e a segurança que nunca tive... se tornaram carne na minha alma. Também percebi que precisava me cuidar...
Minha vida no internato foi estranha. Aprendi, me esforcei ao máximo. E consegui passar sem ser notada por ninguém. Além disso, fui premiada pelos meus esforços e consegui um patrocinador para ir para o Politécnico.
Já que era pago...
Vou me permitir me referir a ele pela importância que tem nesta história.
Esse senhor acabou sendo um solitário com uma situação financeira muito folgada; e ele, espontaneamente, se ofereceu para pagar meus estudos... Com minha mãe, conversaram a sós por um bom tempo em particular. Enquanto isso, eu roía as unhas e me desesperava. Porque daquela conversa dependia meu futuro... Eles saíram da sala, e minha mãe me abraçou emocionada e disse que estava tudo resolvido... Resolvido? O que significava aquilo?... Logo descobri...
No dia seguinte, nos mudamos com minha mãe para a casa grande desse senhor, e minha mãe passou a ser a governanta do meu patrocinador...
Minha vida começou a mudar radicalmente... minha primeira saída foi para dar uma geral em mim mesma. Documentação onde, graças às influências desse senhor, foi realidade em bem pouco tempo... De Daniel, passei a ser Daniela e mantive meu diminutivo... E enquanto tramitavam meu documento, ele nos levou pra visitar lojas de roupas femininas... dando início à minha vida como Daniela de verdade.

No Politécnico, entrei como Daniela pra estudar, uma garota que muitos achavam linda e muito feminina... Conheci caras com quem saía e curtia as atenções deles.

Logo, minha mãe e meu mecenas se casaram... já que ele não queria que, ao morrer, seu patrimônio se perdesse. Por não ter ninguém no mundo, e nós éramos a família dele... Eu o adorava; nunca tentou passar dos limites, sempre me tratou como sua menina... E juntos passamos dias maravilhosos, que jamais esquecerei.

Me dediquei aos estudos com uma garra quase obsessiva, só queria poder dar a ele a felicidade de me ver formada. Meus estudos se alongaram pra caramba, já que eu o via se deteriorar a olhos vistos.

No meio de tudo isso, também vivia minha nova vida; conhecendo caras, me dando espaços pra socializar, tive, como toda garota, alegrias, desilusões etc. Era mais uma do grupo, a "séria". "A garota deus". Só que era por causa do meu pequeno defeito de fábrica... não podia deixar que descobrissem minha condição de trans; o que me afastava da intimidade...

Resumindo, minha vida seguiu nesse período. Como toda garota "normal", realizei minha ambição e me graduei em Administração, evento que comemoramos em família... Mas ele me obrigou a continuar os estudos e, de novo, nos livros etc.

Já lançada nessa aventura, quis ir até o fim e conseguir o doutorado em Economia... Enquanto isso, comecei a administrar o negócio dele e consegui aumentar ele, graças a isso pudemos pagar as despesas médicas dele.

Ao longo dos anos, entre meus estudos, o negócio, minha família e minha vida, consegui terminar de vez meus longuíssimos estudos e já me tornei uma jovem madura, mas sem amor... Quando chegou meu último diploma... Pai (assim que eu já o chamava, não por obrigação, por amor.) me Ligo pro quarto dela e apresento um amigo... que acabou sendo um médico, o melhor na área de vaginoplastia. E ele me disse pra escolher: continuar como sempre ou fazer a última cirurgia.
Já fazia tempo que eu pensava nisso e tinha decidido me operar antes mesmo daquele encontro; não pensei duas vezes e falei: sim, eu quero...

Depois de alguns meses, recebi alta e saí da clínica sem nada pra esconder... por assim dizer...
Nunca vou saber como meu pai aguentou tanto tempo. Mas assim que soube que eu estava completamente desenvolvida, ele começou a adoecer cada vez mais, até que o perdi. Sofri a primeira grande tristeza da minha vida... a morte dele deixou um vazio enorme em mim... eu andava pela casa grande e chorava, lembrando dos dias felizes que passamos juntos, eu, minha mãe e ele... como alguém que não era do meu sangue fez tanto por mim...

Ainda hoje sinto falta dele...
Passei o luto. E a vida seguiu, fria e imperturbável. Eu, enfiada nos negócios, nas aulas e em casa, via o tempo passar sem deixar que me afetasse.

Até que cobrou seu preço; tive que ir ao médico, e ele me disse... Férias, querida.
E então parti pra essas férias. As primeiras em anos... que vou contar nos meus próximos relatos.

Isso, amigos, é só o começo... logo vem a parte doce, gostosa e épica... até agora...

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