O despertador do celular me acorda. Estico um braço e tento pegar, mas cai da mesinha de centro no chão. Entre xingamentos, pego ele e passo o dedo na tela toda pra ver se quebrou, sorte que não. Ligo e, com um olho só, vejo as horas. São 6:45 da manhã. Deixo ele de lado e viro de barriga pra cima. "Como o verão passou rápido", falo comigo mesmo, "hoje o Fede volta pra Argentina". Fico um tempão olhando pro teto, pensando que tenho que acompanhar ele até o terminal. Odeio despedidas. De repente, meu celular acende, é uma mensagem do Fede: "Acordado?" Respondo: "Sim. Vem me buscar em 10." Levanto correndo, me visto e penteio do jeito que dá, e saio pra rua. Sento na guia pra esperar ele. O ar fresquinho vai me trazendo de volta à realidade, porque ainda tô meio dormindo. Em poucos minutos, ouço uma buzinada, olho pra esquerda e era o Fede no Wolsvagen Gol dele parado na esquina. Levanto rápido e vou até ele. Assim que abro a porta, ele fala:
- Tava te esperando na esquina, otário, como eu falei. Tá vendo que cê tá dormindo.
- Pô, acordei zumbi hoje.
Dou um beijo nele e me acomodo no banco. Ele tá especialmente alegre, cantando e com o som do rádio no talo. Eu tô calado, de braços cruzados, olhando pra frente, pro nada. Num momento, ele abaixa o volume da música e fala:
- E aí? Como cê dormiu?
- Bem, deitei um pouco tarde. Me enrolei no PC e o tempo passou. E você?
- Bem. Deitei cedo, já tinha arrumado as malas e tudo antes. O problema é que me joguei na cama e não conseguia dormir. Sempre fico ansioso quando tenho que viajar. Aí pedi pra mãe um dos remédios pra dormir dela. Tomei metade e apaguei.
- Eu, se tomar um quarto de remédio, acho que durmo uma semana.
- Haha. Eu falava a mesma coisa. Cara, valeu por me acompanhar. Não queria encher o saco dos meus velhos, é domingo e é o dia que eles podem acordar tarde.
- Sem problemas.
- Você leva a chave do carro pro meio-dia, quando Chegando em casa, já vai se jogar na cama de novo.
- Acho que não. No máximo tiro um cochilo.
- E o que você vai fazer?
- Vou jogar um pouco no PC, fazer um café, te mandar mensagem enchendo o saco pra você não conseguir dormir.
- Haha. Que maldade. Nem fui embora e você já tá pensando em como me perturbar. Olha que fiquei um ano sem te ver.
- Já tô planejando, Fede.
- Você vai sentir minha falta?
- Vou. Pra caralho.
- Não fica emotivo ainda que a gente nem chegou na estação.
- Relaxa, vou chorar quando você já estiver no ônibus e não puder me ver.
- Haha. Você é um caso. Mas pode vir me visitar. Na república onde eu moro, deixam os familiares ficar, no máximo uma semana. A gente fala que você é meu primo e pronto. Assim pelo menos você vem me ver. Saímos pra dançar, tomar umas, pegar umas minas. Tem muita mulher gostosa por lá. O que você acha?
- A ideia é boa. Só me avisa quando você estiver de boa com a faculdade.
- Geralmente no meio do ano.
- E você vai sentir minha falta?
- Vou. Claro que sim. Você é mais que meu amigo, é meu irmão. Aliás, lembro de uma coisa que a mãe falou há anos e ficou gravada em mim. A gente era moleque, uns 14 anos. Estávamos montando algo com umas madeiras no fundo de casa, não lembro o que era. Sei que a gente brigou, se xingou feio e cada um foi pra um canto do quintal. Depois de um tempo a gente se reconciliou e continuou montando. A mãe chegou com dois copos de suco e me disse: "Quando você era menor, pedia um irmão pra brincar. Acho que você já encontrou." E ela tinha razão, e ainda tem.
- Você vai me deixar mal com essas coisas que fala. E ainda conta tudo minutos antes de ir embora.
- Não era a intenção, Maxi. Só veio essa lembrança na cabeça.
- Queria voltar pra aquela época.
- Eu também.
- Seria foda voltar com a cabeça que a gente tem hoje, com os aprendizados. Acho que a gente voaria, não acha?
- Eu não gostaria de voltar com essa cabeça. Me sinto muito cheio de conflitos e não ia aproveitar do mesmo jeito.
- Conflitos com o quê?
- Coisas minhas, sei lá. É. Agora fico dramática por qualquer besteira, é isso que quero dizer. Antes nem tanto.
- Então você voltaria com a mente de 14 anos. Agora, não gostaria de fazer as coisas diferente? Consertar algumas cagadas, agir diferente, sei lá.
- Me colocou numa situação difícil. Sei lá, talvez escolhesse não complicar a cabeça como agora e curtir igual aos 14, mas sabendo o futuro. Seria tipo uma opção do meio, talvez.
- Gostei do que você disse, pode ser. Mas eu voltaria com a minha cabeça, a de agora. Faria as coisas diferente, falaria mais. Quantas vezes fiquei calado e devia ter aberto a boca.
- Tipo o quê?
- Sei lá, chegar numa gostosa, por exemplo. Fiquei na mão várias vezes.
- Bom, mas você não é o único. Ninguém nasce sabendo.
- Sim, mas mesmo assim. Será que com você não rola a mesma coisa, de pensar nas vezes que podia ter falado mas não falou?
- Já tá se pagando de filósofo e não bebeu nada.
- Tô te perguntando sério.
- É, mas não dá mais pra fazer nada. O que não foi dito morreu e pronto.
- Mesmo assim, acho que os silêncios também falam e dizem muita coisa.
- Claro. É que às vezes é mais fácil não falar nada do que falar alguma coisa. Às vezes as coisas se entendem melhor no silêncio. E outras vezes não dá pra tocar no assunto.
- Acho que às vezes a gente tem medo de falar.
- Não sei se medo de falar ou medo do que pode dar nisso.
- Eu sei. Vivi isso nesse verão.
Fede sorri. Eu também, baixo a cabeça e ficamos em silêncio um tempo.
- Fiquei com um monte de perguntas pra te fazer, Fede. Queria um dia bater um papo de boa sem baseado no meio, você aguentaria uma conversa assim?
- Acho que sim. Tenho um monte de nó na cabeça, mas aos poucos vou desembolando os fios.
- Você se arrepende de algo que rolou nesse verão?
- Não seja mau, Maxi, essa pergunta agora não. Te respondo outro dia…
Continua.
Você pode ler as três primeiras partes aqui:
Parte 1: http://www.poringa.net/posts/gay/2683634/Relato-O-segredo-dos-amigos.html
Parte 2: http://www.poringa.net/posts/gay/2684081/Relato-2a-parte-O-segredo-dos-amigos.html
Parte 3: http://www.poringa.net/posts/gay/2688502/Relato-3a-parte-O-segredo-dos-amigos.html
Compartilhei esses relatos com algum amigo ou conhecido, a leitura fica bem mais gostosa de dois...
- Tava te esperando na esquina, otário, como eu falei. Tá vendo que cê tá dormindo.
- Pô, acordei zumbi hoje.
Dou um beijo nele e me acomodo no banco. Ele tá especialmente alegre, cantando e com o som do rádio no talo. Eu tô calado, de braços cruzados, olhando pra frente, pro nada. Num momento, ele abaixa o volume da música e fala:
- E aí? Como cê dormiu?
- Bem, deitei um pouco tarde. Me enrolei no PC e o tempo passou. E você?
- Bem. Deitei cedo, já tinha arrumado as malas e tudo antes. O problema é que me joguei na cama e não conseguia dormir. Sempre fico ansioso quando tenho que viajar. Aí pedi pra mãe um dos remédios pra dormir dela. Tomei metade e apaguei.
- Eu, se tomar um quarto de remédio, acho que durmo uma semana.
- Haha. Eu falava a mesma coisa. Cara, valeu por me acompanhar. Não queria encher o saco dos meus velhos, é domingo e é o dia que eles podem acordar tarde.
- Sem problemas.
- Você leva a chave do carro pro meio-dia, quando Chegando em casa, já vai se jogar na cama de novo.
- Acho que não. No máximo tiro um cochilo.
- E o que você vai fazer?
- Vou jogar um pouco no PC, fazer um café, te mandar mensagem enchendo o saco pra você não conseguir dormir.
- Haha. Que maldade. Nem fui embora e você já tá pensando em como me perturbar. Olha que fiquei um ano sem te ver.
- Já tô planejando, Fede.
- Você vai sentir minha falta?
- Vou. Pra caralho.
- Não fica emotivo ainda que a gente nem chegou na estação.
- Relaxa, vou chorar quando você já estiver no ônibus e não puder me ver.
- Haha. Você é um caso. Mas pode vir me visitar. Na república onde eu moro, deixam os familiares ficar, no máximo uma semana. A gente fala que você é meu primo e pronto. Assim pelo menos você vem me ver. Saímos pra dançar, tomar umas, pegar umas minas. Tem muita mulher gostosa por lá. O que você acha?
- A ideia é boa. Só me avisa quando você estiver de boa com a faculdade.
- Geralmente no meio do ano.
- E você vai sentir minha falta?
- Vou. Claro que sim. Você é mais que meu amigo, é meu irmão. Aliás, lembro de uma coisa que a mãe falou há anos e ficou gravada em mim. A gente era moleque, uns 14 anos. Estávamos montando algo com umas madeiras no fundo de casa, não lembro o que era. Sei que a gente brigou, se xingou feio e cada um foi pra um canto do quintal. Depois de um tempo a gente se reconciliou e continuou montando. A mãe chegou com dois copos de suco e me disse: "Quando você era menor, pedia um irmão pra brincar. Acho que você já encontrou." E ela tinha razão, e ainda tem.
- Você vai me deixar mal com essas coisas que fala. E ainda conta tudo minutos antes de ir embora.
- Não era a intenção, Maxi. Só veio essa lembrança na cabeça.
- Queria voltar pra aquela época.
- Eu também.
- Seria foda voltar com a cabeça que a gente tem hoje, com os aprendizados. Acho que a gente voaria, não acha?
- Eu não gostaria de voltar com essa cabeça. Me sinto muito cheio de conflitos e não ia aproveitar do mesmo jeito.
- Conflitos com o quê?
- Coisas minhas, sei lá. É. Agora fico dramática por qualquer besteira, é isso que quero dizer. Antes nem tanto.
- Então você voltaria com a mente de 14 anos. Agora, não gostaria de fazer as coisas diferente? Consertar algumas cagadas, agir diferente, sei lá.
- Me colocou numa situação difícil. Sei lá, talvez escolhesse não complicar a cabeça como agora e curtir igual aos 14, mas sabendo o futuro. Seria tipo uma opção do meio, talvez.
- Gostei do que você disse, pode ser. Mas eu voltaria com a minha cabeça, a de agora. Faria as coisas diferente, falaria mais. Quantas vezes fiquei calado e devia ter aberto a boca.
- Tipo o quê?
- Sei lá, chegar numa gostosa, por exemplo. Fiquei na mão várias vezes.
- Bom, mas você não é o único. Ninguém nasce sabendo.
- Sim, mas mesmo assim. Será que com você não rola a mesma coisa, de pensar nas vezes que podia ter falado mas não falou?
- Já tá se pagando de filósofo e não bebeu nada.
- Tô te perguntando sério.
- É, mas não dá mais pra fazer nada. O que não foi dito morreu e pronto.
- Mesmo assim, acho que os silêncios também falam e dizem muita coisa.
- Claro. É que às vezes é mais fácil não falar nada do que falar alguma coisa. Às vezes as coisas se entendem melhor no silêncio. E outras vezes não dá pra tocar no assunto.
- Acho que às vezes a gente tem medo de falar.
- Não sei se medo de falar ou medo do que pode dar nisso.
- Eu sei. Vivi isso nesse verão.
Fede sorri. Eu também, baixo a cabeça e ficamos em silêncio um tempo.
- Fiquei com um monte de perguntas pra te fazer, Fede. Queria um dia bater um papo de boa sem baseado no meio, você aguentaria uma conversa assim?
- Acho que sim. Tenho um monte de nó na cabeça, mas aos poucos vou desembolando os fios.
- Você se arrepende de algo que rolou nesse verão?
- Não seja mau, Maxi, essa pergunta agora não. Te respondo outro dia…
Continua.
Você pode ler as três primeiras partes aqui:
Parte 1: http://www.poringa.net/posts/gay/2683634/Relato-O-segredo-dos-amigos.html
Parte 2: http://www.poringa.net/posts/gay/2684081/Relato-2a-parte-O-segredo-dos-amigos.html
Parte 3: http://www.poringa.net/posts/gay/2688502/Relato-3a-parte-O-segredo-dos-amigos.html
Compartilhei esses relatos com algum amigo ou conhecido, a leitura fica bem mais gostosa de dois...
7 comentários - (Relato) 4ta parte:El secreto de los amigos
Muy buenos todos