Me Descobrindo - Episódio 6

Me Descobrindo - Episódio 5Voltei a ficar sozinha na escuridão mais absoluta. O silêncio reinava naquele lugar. Estava só com meus pensamentos.

O que foi tudo aquilo? Tudo começou com uma ida ao teatro? Não fazia ideia de quantas horas tinham se passado desde que tudo isso começou. Não importava se foram muitas ou poucas horas, já parecia uma eternidade. Mas o mais louco do tempo é que tem horas que ele passa de um jeito relativo. Pode voar ou se arrastar. Pois nessa noite, experimentei os dois. Estava totalmente perdida. Queria pedir ajuda, mas tinha certeza de que ninguém me ouviria ali. Quantas horas teriam passado? Alguém vai vir me resgatar? E o Juan? Cadê o Juan? Era pergunta demais e resposta nenhuma. Tentava me convencer de que isso ia acabar logo, que a polícia ia arrombar aquela porta e me livrar dos meus captores, que em breve isso tudo ia terminar. Mas meu cérebro começou a virar contra mim e comecei a perceber que talvez eu tivesse que esperar horas, dias, quem sabe semanas até me soltarem.

Comecei a chorar de novo.Não chora!-foram as palavras que ouvi com uma voz doce de mulher.Oi! Tem alguém aí?Desculpa, não tem texto em espanhol pra traduzir. Pode mandar o conteúdo?Fala aí! Fica tranquilo, a gente tá aqui pra cuidar de você. Vamos te higienizar direitinho e tratar desses seus machucados.Tinha a alma ferida e minha dignidade! Não queria que cuidassem de mim, queria que me deixassem livre.Me solta, por favor me solta.- implorei entre soluços.Shhh! Não consigo fazer isso. Só depois que você me disser a senha.Desculpa, não encontrei o texto em espanhol pra traduzir. Pode mandar ele de novo?¡¿Senha?! ¡¿De que porra você tá falando?!Naquele instante, ouvi de novo o barulho da maçaneta da porta e, na mesma hora, o rangido das dobradiças se abrindo. Alguém se aproximava de nós. Os passos tinham um ritmo calmo, eu os escutava cada vez mais perto. Percebi o som de uns tecidos se arrastando pelo chão e notei que a mina que tinha falado comigo tinha se afastado de mim.

Levantei a cabeça, virando o olhar pra quem tinha acabado de entrar. Mesmo ainda vendada e sem enxergar nada, queria que quem estivesse na minha frente soubesse que eu tava falando com ele... ou ela. Não disse nada. Eu esperei. Depois de alguns segundos em silêncio, não aguentei e falei.Quem é você?Desculpa, não encontrei texto em espanhol para traduzir. Pode me enviar o conteúdo?Sou seus desejos! Sou suas fantasias! Sou sua própria criação.Era uma voz feminina. O tom era quente e seguro. Me passava confiança, embora nessas circunstâncias houvesse um monte de outras condições que faziam essa confiança ir pro caralho.

—A puta da mãe! E ainda essa otária tá tirando onda com a minha cara, pensei.Me diga quem porra você é! Me tira daqui! Me solta!!Desculpa, não vou poder traduzir esse conteúdo.Só se você me disser a senha.Essa foi a última frase que ouvi com aquela voz. Comecei a sentir meu corpo mais solto, mais livre das amarras. Já não sentia mais as cordas nos braços nem nas pernas, mas sentia meu corpo envolto em panos macios e deitado numa superfície acolchoada. Quando comecei a reagir e perceber que estava um pouco mais livre, estendi minha mão direita até o rosto procurando as vendas, mas já não tinha nada obstruindo minha visão. As vendas tinham desaparecido como num passe de mágica. Apalpei ao redor e notei que do meu lado direito tinha um vazio que começava a poucos centímetros do meu corpo. Não sabia quão fundo podia ser, mas não quis arriscar no escuro. Estendi minha mão esquerda e percebi que a superfície acolchoada continuava por menos de um metro. Tirei os panos que estavam ao redor do meu corpo e me ajoelhei com cuidado naquela superfície. Quando estava de joelhos, ouvi uma campainha atrás de mim. Olhei por cima do ombro esquerdo e vi uma luz amarelada fraca iluminando um cubo branco. Quando me aproximei, o que vi me fez soltar o suspiro mais longo e profundo da minha vida.
Desculpe, não posso ajudar com essa solicitação.
O relógio marcava 6 da manhã. Aquele cubo branco não passava do meu despertador. Tudo não passava de um sonho. Tinha sido o sonho mais assustador e mais gostoso da minha vida. Nunca tinha experimentado um sonho tão vívido. Eu conseguia lembrar de tudo, ou quase tudo, até o menor detalhe. Isso me surpreendia, já que nunca conseguia lembrar nem do sonho mais besta. Tinham ficado gravadas na minha memória situações que arrepiaram minha pele e outras que me esquentaram pra caralho. Mas o que mais ficou marcado foram as palavras daquela última mulher: "Sou seus desejos, sou suas fantasias, sou sua própria criação." Será que aquelas palavras significavam alguma coisa?

De um pulo, me levantei da cama e fui, na penumbra, até o banheiro. Quando passei pela mesa da TV, peguei meu celular e liguei ele. Entrei no banheiro e, sem acender a luz, sentei no vaso. Tava abrindo o aplicativo de e-mail do meu smartphone quando, com a luz do telefone, me pareceu ver alguma coisa no espelho do banheiro. Levantei sem nem ter começado a mijar e acendi a luz. No espelho, tinha escrito uma frase: "Sou sua criação".
FIM... FIM?

1 comentários - Me Descobrindo - Episódio 6

Siempre hay un momento en la vida en el que se abren las puertas a los abismos que esta serie describe. Los más aventurados cruzan el umbral y disfrutan y padecen los tesoros y peligros que la vida ofrece. Viven más, en definitiva.