Bom, aqui vai a próxima parte... espero que gostem.
Já molhada naquele momento, parecia querer acolher o visitante lá dentro. Acariciei como se fosse meu novo bichinho de estimação, com doçura, tentando acalmá-lo pra ver se, com a tranquilidade dele e minha confiança, ele ficava à minha mercê.
Me abaixei até ficar a alguns milímetros do rosto dela. Senti o ar apressado saindo do nariz dela e varrendo meu rosto. Quando sentiu o meu, acelerou o dela. Quando meus lábios roçaram os dela, ela relaxou. Se deixou levar. Pensei que reagiria com força, querendo tomar conta da minha boca, mas simplesmente abriu passagem pra minha língua procurar os tesouros escondidos que ela tinha pra mim.
Sem parar de beijá-la, subi na cama e me acomodei entre as pernas dela. Ela me acolheu do jeito mais passivo que já tinha feito até então. Entendi que daquela vez ela só ia se deixar fazer amor. Talvez precisasse se concentrar no próprio prazer. Esquecer o mundo inteiro e reduzi-lo, mesmo que egoísta, a ela mesma. E devo admitir que até me agradou pensar que ela me escolheu pra aquele momento.
Infelizmente, naquela hora, eu me sentia um servo fiel, sem liberdade pra nada. Não podia mudar a posição dela. Não podia brincar, nem improvisar, mas pensei que ela merecia mais do que aquilo. Então desci beijando o corpo todo dela até chegar na buceta.
Lambi como se fosse um sorvete, pra minha língua encontrar o ponto exato do clitóris dela. Apertei ele fazendo pressão com meus lábios enquanto minha língua brincava com ele.
Enfiei dois dedos da mão direita, acariciando por dentro, no mesmo ritmo que minha língua brincava com o clitóris dela. Logo senti que ela ia gozar, e não sei como me veio na cabeça, mas resolvi acariciar o cu dela.
O fato é que ela arqueou as costas. Me fez prisioneiro entre as pernas dela, que me apertavam com força enquanto ela parecia ter uma série de convulsões que a deixaram exausta em cima da cama. Quando me levantei, vi que ela estava com os braços cruzados sobre o rosto. As algemas eram pouco mais que um brinquedo de plástico do qual ela se soltou às portas do prazer sem muita dificuldade. Não falei nada. Não queria estragar o momento dela com reclamações. Simplesmente me deitei no peito dela, esperando um gesto que acabasse, dessa vez de verdade, com o fim de semana louco.
Pouco depois, sem dizer nada, ela começou a acariciar meu cabelo. Não queríamos falar nada, mas acabou sendo necessário, conscientes como estávamos de que o tempo que nos restava era curto.
— "Valeu, tete" — ela interrompeu. Não era costume ela me chamar assim, mas não me incomodou nem um pouco.
— "Bom, acho que você merecia um presente, mesmo que fosse pela sua insistência."
— "Acho que sim" — ela disse rindo — "a verdade é que de teimosa ninguém me ganha."
— "Gostaria que você não me forçasse de novo. Sabe que se tentar, vai conseguir. Veria isso como uma prova de respeito."
— "Fica tranquilo. Tudo bem. Vou tentar me comportar."
— "Valeu. E quem sabe um dia eu entro no seu quarto, de noite e escondido, pra dividir a cama com você."
— "Sempre vai ter um lugar pra você do meu lado."
— "Bom, tudo a seu tempo. Vou tomar um banho antes que os senhores feudais cheguem."
— "Vai lá. Toma banho que eles chegam logo" — me surpreendeu tanto o tom amigável que ela usou quanto o fato de não ter se juntado a mim no chuveiro, mas talvez tivesse chegado ao fim, dessa vez de verdade.
Tomei banho e me arrumei pra ir ver o Carlos assim que visse meus pais entrando pela porta. Logicamente, ia omitir certos detalhes, mas essa história tinha que contar pra alguém.
Lavado e vestido, apareci triunfante na cozinha, onde encontrei minha mãe enumerando uma lista interminável de defeitos que via na casa. Não era culpa minha e da minha irmã, era culpa da simples necessidade de uma mulher de se sentir indispensável na própria casa.
— "Assim que saio pela porta, vira a bagunça" — ela disse me dando um beijo.
— "Sabe que é verdade, mãe. Te Precisamos" — ia começar a falar.
— "Pois já tá na hora de vocês se ligarem."
— "Ainda somos seus filhinhos, mãe."
— "Quando te convém. Anda, ajuda teu pai a descarregar o carro."
Se quiser, a gente analisa juntos como são as voltas dos pais depois das férias. Pra mim é um saco. Quase sempre seria melhor eles ficarem no hotel, mas não dá pra falar, tem que sorrir e dizer algo tipo: "sentimos saudades de vocês" e pensar por dentro "ou demais". Enfim, uma quer se sentir útil e o outro quer ser líder, então... é sofrer na chegada mesmo.
— "Filho, leva as malas pra entrada, aquele pacote pra garagem e o outro... blá blá blá" — será que ele acha mesmo que eu tô ouvindo? Se nem me deu um oi.
— "Sim, pai. Fica tranquilo, pai. Eu cuido disso, pai."
E o que vocês querem que eu diga. Eu conto a história e pronto. Não vamos descobrir os problemas de comunicação da juventude com os pais agora. Hoje é o quê? De botão? Me chama de sacarina, gata, que daqui sai minha mesada.
— "Bom, senhores" — falei entrando na cozinha — "eu fuck you, minha moto, e como se fosse o próprio Doohan, apareço na casa do Carlos."
— "Menino, de onde você tirou uma moto?" — perguntou a sempre oportuna mãe.
— "Mulher, ele tá falando da motoca dele" — sentenciou o sábio do bigode.
— "Não sabia que era uma moto."
Não precisava de mais resposta além das minhas costas, então vazei. Como a dor de cabeça no comercial, como o Figo no Real Madrid, como a tranquilidade na chegada daqueles carcereiros.
— "Por que você não vai ver a Sônia em vez do Carlos?" — gritou da cozinha.
"Porque pra Sônia não posso contar" — pensei comigo — "Fode um sexo se eu fizer isso" — e caí na risada pela besteira que tinha acabado de pensar.
A verdade é que não era uma moto. Era uma yamaha jog. Pode parecer uma merda de moto. Mais que isso, é. Mas naquele dia eu era o puto imperador do céu e aquelas eram minhas asas. Era o cara mais feliz que já montou numa merda dessas. Qualquer um teria dado aquela risadinha idiota. Puta merda! Carlos ia pirar.
Quando eu tava entrando em Mataró, meu celular tocou. Parei a moto e atendi. Era o toque que eu tinha pra ele, então era importante atender.
- "Fala, parceirão. Como é que cê tá? Tá sumido."
- "Fala. Tava indo te ver pra te contar."
- "Porra. Eu tava te ligando pra você me pagar aquele favor."
- "Como assim?"
- "Álibi."
- "Beleza, mano, de boa. Pode falar."
- "Valeu."
- "De nada. Então…, não vamo se ver hoje?"
- "Tô cheio de bucha, cara. Depois me conta."
- "Falou…, boa sorte aí."
- "Até mais."
- "Tchau."
Porra. Não podia reclamar, mas que merda. Pra quem eu ia contar essa pussy agora? Pra alguém de um chat? Ou escrevia e postava em algum site? Não me fode, tem que ser mais original que isso. Ou não. Pelo visto não…
Enfim. Como não pude contar muitos detalhes pra ninguém, escrevi tudo, que é a mesma coisa. Fiquei sem risadas nem tapinhas nas costas…, mas foda-se. Parece impossível como não contar tirou a graça da parada, mas não tava afim de reclamar. Alguém vai ler isso um dia, né? Que cara de otário vou ficar se não for assim.
O fato é que eu já tinha pego a moto (olha só, senhores da Argentina, eu já tinha pegado a moto, não pegado na moto, porque essa parada do espanhol ser tão internacional pode causar confusão, tô na Espanha e aqui o verbo "coger" não tem esse sentido, só faltava eu pegar na moto!) Já me perdi de novo.
Eu já tinha pego a moto. Então tinha que ir pra algum lugar. Duas opções. Visita surpresa pra uma certa mulher solitária, ou visita prometida pra uma certa mina ansiosa pela minha chegada. Aceitaria votos, mas naquele momento tava sozinho contra o mundo e agora não posso voltar atrás, claro, se quiserem eu minto…, não, melhor não.
Algo me fez escolher a Sonia. Aceito as reclamações. Aquilo podia me custar uma chance ou outra de molhar o biscoito e não era o que eu queria fazer. É verdade, mas naquela época eu ainda não tinha descoberto o Jorge Bucay (grande…, muito grande Jorge, você é tudo que eu aspiro ser), então não fiz o que queria ou desejava, fiz o que supostamente deveria fazer.
Apareci, de capacete na mão, na casa da Sônia e, depois de chamar no interfone, respondi um simples: “Sou o Arnau” para uma voz curiosa que perguntava o nome do anônimo perturbador de sonecas.
— “Já vou descer” — respondeu uma voz nervosa.
O pior foi não ter certeza se era a Nuria ou a Sônia. Que situaçãozinha se fosse a Nuria! As vozes eram muito parecidas, mas o dilema parecia ter um desfecho rápido. Só faltava esperar uma das duas irmãs aparecer na porta. Sônia. Bom, as coisas são como devem ser.
Dei um beijo na bochecha dela e começamos a andar sem dizer nada. Pouco depois, ela pegou na minha mão. Pensei que ia me incomodar, mas não foi assim. Até certo ponto, acho que esperava por aquilo, queria aquele momento. Nunca me achei capaz de segurar uma mão na minha sem me sentir invadido, mas foi o que aconteceu. Não me senti desconfortável com a situação.
Já estávamos andando há alguns minutos e ainda não tínhamos dito uma palavra. Sabia que, assim que começássemos a falar, o discurso planejado se dissolveria em palavras mais sinceras. O difícil era o jeito de começar, a primeira palavra, e ela não queria sair, estava escondida em algum canto escuro que compartilhávamos naquele momento.
Andamos o suficiente para chegar ao porto, e uma vez lá… continuamos andando, em silêncio, até onde uma pedra é a primeira a enfrentar o mar. Fomos procurá-la. Pulamos um muro baixo que tem entre as pedras e o calçadão e procuramos aquela que fosse grande e plana o bastante para nos acomodar os dois.
De lá, víamos o mesmo lado da cidade que o sol descobre ao amanhecer. Víamos o sol se pôr não muito longe, atrás de onde, imagino, deve ficar Argentona. Procurei entre as palmeiras pela Laia, a arqueira, mas ela não apareceu. Me contentei com uma lua bem branca, pequenininha. que subia do Sul. Ainda não sei por que, mas quis cumprimentá-la:
- "Oi"
- "Oi, já era hora de você dizer alguma coisa" — respondeu, dando voz a uma lua muito tímida.
- "Começar era difícil" — falei, meio confuso.
- "Quer que eu te ajude?"
- "Em quê?"
- "A começar. A começar comigo, se é isso que você decidiu."
- "Não decidi nada. Desculpa."
- "Bom, também não era uma escolha de vida ou morte. Quer ajuda?"
- "Pra quê?"
- "A se decidir."
- "O que você vai fazer? Decidir por mim?"
- "Não, que nada" — disse sorrindo — "se fosse isso, você já estaria nos meus braços."
- "Imagino…"
- "De qualquer forma…" — continuou sorrindo e abrindo os braços — "se você quiser…" e eu quis. Abracei ela timidamente e fiquei olhando o mar. Esperando que ela levasse o peso da conversa.
- "Sabe, Arnau?" — fez uma pausa e continuou — "Muitas vezes as coisas são mais simples do que parecem."
- "O que você quer dizer?"
- "Não fica remoendo. Não pensa em nada. O que você quer?"
- "Não sei."
- "Eu te agrado? Você quer mais momentos como esse comigo?"
- "Sim, você sabe que sim."
- "Então… o que te assusta?"
- "Tudo. Que minha vida mude, que eu mude, que nossa amizade mude, que morra."
- "Não pretendo deixar de ser sua amiga. Só quero ser isso e algo mais."
- "Quanto a mais?"
- "Só um pouco mais de você, e um pouco mais disso."
- "E se acabar?"
- "Não sou uma boneca de vidro. Não vou quebrar. Não sofre por mim."
- "E eu?"
- "Você também não vai quebrar. Eu cuido disso."
- "Não sei."
- "Você se atreve a ser sincero?"
- "Sim."
- "Não tô falando se você vai responder minhas perguntas. Quero que você se solte, que me diga o que pensa, o que sente."
- "Não sei por onde começar."
- "Começa por mim. Como você me vê?"
- "Bem. Brincadeira. Você é uma amiga, e eu gosto de você. Talvez você tenha razão. Eu também não me contentaria em te ter só como amiga. Te vejo… e quero te beijar, só isso. Te beijar e te abraçar por um tempão." "Mas tem todo o resto. Minha vida. Meus amigos. Não Até que ponto você cabe. Não leva a mal. Mas pra alguém como você, tem que reservar um espaço grande."
— "Valeu, mas não. Não preciso nem quero muito. Quero seguir com minha vida, mesmo que a gente esteja junto."
— "E eu também, mas quero te ligar de noite depois da aula, ou quando me sentir sozinho. Quero sair pra passear segurando sua mão. Quero dormir abraçado em você. Te ver acordar e ser a primeira coisa que você vê ao descobrir um novo dia. Quero me surpreender com suas ilusões e suas fantasias. E quero ser o primeiro a saber tudo o que você é."
— "Uffff" — ela disse, me abraçando um pouco mais forte — "e o que te segura? Foda-se, faz tudo isso sem negociar."
— "Não sei."
— "Sabe" — ela disse, falando bem calma — "outro dia eu li 'Quem Mexeu no Meu Queijo', é um conto que talvez você devesse ler. E tem uma hora que o protagonista fala uma coisa que talvez você devesse aplicar" — ela parou de falar e se afastou um pouco de mim — "O que você faria se não tivesse medo?"
Era tudo que eu precisava ouvir. Me aproximei, ainda carregando o medo, devagar, e beijei ela. Muito timidamente. Esperando, idiota que sou, pela resposta dela.
Me afastei de novo. Quis olhar nos olhos dela. Adivinhei eles na escuridão, porque mesmo com a noite caindo, aquelas duas estrelinhas tinham se erguido até o rosto dela. Ela sorria feliz. Aquelas joias brilhavam, meio úmidas talvez. Acariciei bem devagar o rosto dela e beijei ela de novo.
O beijo durou, durou a noite inteira e de certo modo, ainda dura. O eco dele ainda ressoa no meu coração. Ao amanhecer, a gente foi embora dali. Pra onde é outra história que hoje não vou contar.
Gostaria de pensar que posso tirar muita coisa dessa história, mas acho que não. Fiz o que fiz em cada momento sem seguir nenhuma ordem ou regra. Simplesmente é minha história, não tem lição ou moral nela.
Não posso contar mais pra vocês nem esperar que nela resolvam alguma dúvida, então pra dar algum sentido às horas de leitura, vou me permitir, de novo pobre de mim, dar um conselho: Continuem andando, o caminho tá na frente de vocês esperando ser descoberto.
Com isso me despeço dessa história... se vocês gostaram, espero os comentários e que me sigam e avaliem..
Porque prometo voltar com outra história.. já que essa aconteceu quando eu era jovem.. e agora na maturidade tem histórias melhores..
Um abraço e espero vocês
Já molhada naquele momento, parecia querer acolher o visitante lá dentro. Acariciei como se fosse meu novo bichinho de estimação, com doçura, tentando acalmá-lo pra ver se, com a tranquilidade dele e minha confiança, ele ficava à minha mercê.
Me abaixei até ficar a alguns milímetros do rosto dela. Senti o ar apressado saindo do nariz dela e varrendo meu rosto. Quando sentiu o meu, acelerou o dela. Quando meus lábios roçaram os dela, ela relaxou. Se deixou levar. Pensei que reagiria com força, querendo tomar conta da minha boca, mas simplesmente abriu passagem pra minha língua procurar os tesouros escondidos que ela tinha pra mim.
Sem parar de beijá-la, subi na cama e me acomodei entre as pernas dela. Ela me acolheu do jeito mais passivo que já tinha feito até então. Entendi que daquela vez ela só ia se deixar fazer amor. Talvez precisasse se concentrar no próprio prazer. Esquecer o mundo inteiro e reduzi-lo, mesmo que egoísta, a ela mesma. E devo admitir que até me agradou pensar que ela me escolheu pra aquele momento.
Infelizmente, naquela hora, eu me sentia um servo fiel, sem liberdade pra nada. Não podia mudar a posição dela. Não podia brincar, nem improvisar, mas pensei que ela merecia mais do que aquilo. Então desci beijando o corpo todo dela até chegar na buceta.
Lambi como se fosse um sorvete, pra minha língua encontrar o ponto exato do clitóris dela. Apertei ele fazendo pressão com meus lábios enquanto minha língua brincava com ele.
Enfiei dois dedos da mão direita, acariciando por dentro, no mesmo ritmo que minha língua brincava com o clitóris dela. Logo senti que ela ia gozar, e não sei como me veio na cabeça, mas resolvi acariciar o cu dela.
O fato é que ela arqueou as costas. Me fez prisioneiro entre as pernas dela, que me apertavam com força enquanto ela parecia ter uma série de convulsões que a deixaram exausta em cima da cama. Quando me levantei, vi que ela estava com os braços cruzados sobre o rosto. As algemas eram pouco mais que um brinquedo de plástico do qual ela se soltou às portas do prazer sem muita dificuldade. Não falei nada. Não queria estragar o momento dela com reclamações. Simplesmente me deitei no peito dela, esperando um gesto que acabasse, dessa vez de verdade, com o fim de semana louco.
Pouco depois, sem dizer nada, ela começou a acariciar meu cabelo. Não queríamos falar nada, mas acabou sendo necessário, conscientes como estávamos de que o tempo que nos restava era curto.
— "Valeu, tete" — ela interrompeu. Não era costume ela me chamar assim, mas não me incomodou nem um pouco.
— "Bom, acho que você merecia um presente, mesmo que fosse pela sua insistência."
— "Acho que sim" — ela disse rindo — "a verdade é que de teimosa ninguém me ganha."
— "Gostaria que você não me forçasse de novo. Sabe que se tentar, vai conseguir. Veria isso como uma prova de respeito."
— "Fica tranquilo. Tudo bem. Vou tentar me comportar."
— "Valeu. E quem sabe um dia eu entro no seu quarto, de noite e escondido, pra dividir a cama com você."
— "Sempre vai ter um lugar pra você do meu lado."
— "Bom, tudo a seu tempo. Vou tomar um banho antes que os senhores feudais cheguem."
— "Vai lá. Toma banho que eles chegam logo" — me surpreendeu tanto o tom amigável que ela usou quanto o fato de não ter se juntado a mim no chuveiro, mas talvez tivesse chegado ao fim, dessa vez de verdade.
Tomei banho e me arrumei pra ir ver o Carlos assim que visse meus pais entrando pela porta. Logicamente, ia omitir certos detalhes, mas essa história tinha que contar pra alguém.
Lavado e vestido, apareci triunfante na cozinha, onde encontrei minha mãe enumerando uma lista interminável de defeitos que via na casa. Não era culpa minha e da minha irmã, era culpa da simples necessidade de uma mulher de se sentir indispensável na própria casa.
— "Assim que saio pela porta, vira a bagunça" — ela disse me dando um beijo.
— "Sabe que é verdade, mãe. Te Precisamos" — ia começar a falar.
— "Pois já tá na hora de vocês se ligarem."
— "Ainda somos seus filhinhos, mãe."
— "Quando te convém. Anda, ajuda teu pai a descarregar o carro."
Se quiser, a gente analisa juntos como são as voltas dos pais depois das férias. Pra mim é um saco. Quase sempre seria melhor eles ficarem no hotel, mas não dá pra falar, tem que sorrir e dizer algo tipo: "sentimos saudades de vocês" e pensar por dentro "ou demais". Enfim, uma quer se sentir útil e o outro quer ser líder, então... é sofrer na chegada mesmo.
— "Filho, leva as malas pra entrada, aquele pacote pra garagem e o outro... blá blá blá" — será que ele acha mesmo que eu tô ouvindo? Se nem me deu um oi.
— "Sim, pai. Fica tranquilo, pai. Eu cuido disso, pai."
E o que vocês querem que eu diga. Eu conto a história e pronto. Não vamos descobrir os problemas de comunicação da juventude com os pais agora. Hoje é o quê? De botão? Me chama de sacarina, gata, que daqui sai minha mesada.
— "Bom, senhores" — falei entrando na cozinha — "eu fuck you, minha moto, e como se fosse o próprio Doohan, apareço na casa do Carlos."
— "Menino, de onde você tirou uma moto?" — perguntou a sempre oportuna mãe.
— "Mulher, ele tá falando da motoca dele" — sentenciou o sábio do bigode.
— "Não sabia que era uma moto."
Não precisava de mais resposta além das minhas costas, então vazei. Como a dor de cabeça no comercial, como o Figo no Real Madrid, como a tranquilidade na chegada daqueles carcereiros.
— "Por que você não vai ver a Sônia em vez do Carlos?" — gritou da cozinha.
"Porque pra Sônia não posso contar" — pensei comigo — "Fode um sexo se eu fizer isso" — e caí na risada pela besteira que tinha acabado de pensar.
A verdade é que não era uma moto. Era uma yamaha jog. Pode parecer uma merda de moto. Mais que isso, é. Mas naquele dia eu era o puto imperador do céu e aquelas eram minhas asas. Era o cara mais feliz que já montou numa merda dessas. Qualquer um teria dado aquela risadinha idiota. Puta merda! Carlos ia pirar.
Quando eu tava entrando em Mataró, meu celular tocou. Parei a moto e atendi. Era o toque que eu tinha pra ele, então era importante atender.
- "Fala, parceirão. Como é que cê tá? Tá sumido."
- "Fala. Tava indo te ver pra te contar."
- "Porra. Eu tava te ligando pra você me pagar aquele favor."
- "Como assim?"
- "Álibi."
- "Beleza, mano, de boa. Pode falar."
- "Valeu."
- "De nada. Então…, não vamo se ver hoje?"
- "Tô cheio de bucha, cara. Depois me conta."
- "Falou…, boa sorte aí."
- "Até mais."
- "Tchau."
Porra. Não podia reclamar, mas que merda. Pra quem eu ia contar essa pussy agora? Pra alguém de um chat? Ou escrevia e postava em algum site? Não me fode, tem que ser mais original que isso. Ou não. Pelo visto não…
Enfim. Como não pude contar muitos detalhes pra ninguém, escrevi tudo, que é a mesma coisa. Fiquei sem risadas nem tapinhas nas costas…, mas foda-se. Parece impossível como não contar tirou a graça da parada, mas não tava afim de reclamar. Alguém vai ler isso um dia, né? Que cara de otário vou ficar se não for assim.
O fato é que eu já tinha pego a moto (olha só, senhores da Argentina, eu já tinha pegado a moto, não pegado na moto, porque essa parada do espanhol ser tão internacional pode causar confusão, tô na Espanha e aqui o verbo "coger" não tem esse sentido, só faltava eu pegar na moto!) Já me perdi de novo.
Eu já tinha pego a moto. Então tinha que ir pra algum lugar. Duas opções. Visita surpresa pra uma certa mulher solitária, ou visita prometida pra uma certa mina ansiosa pela minha chegada. Aceitaria votos, mas naquele momento tava sozinho contra o mundo e agora não posso voltar atrás, claro, se quiserem eu minto…, não, melhor não.
Algo me fez escolher a Sonia. Aceito as reclamações. Aquilo podia me custar uma chance ou outra de molhar o biscoito e não era o que eu queria fazer. É verdade, mas naquela época eu ainda não tinha descoberto o Jorge Bucay (grande…, muito grande Jorge, você é tudo que eu aspiro ser), então não fiz o que queria ou desejava, fiz o que supostamente deveria fazer.
Apareci, de capacete na mão, na casa da Sônia e, depois de chamar no interfone, respondi um simples: “Sou o Arnau” para uma voz curiosa que perguntava o nome do anônimo perturbador de sonecas.
— “Já vou descer” — respondeu uma voz nervosa.
O pior foi não ter certeza se era a Nuria ou a Sônia. Que situaçãozinha se fosse a Nuria! As vozes eram muito parecidas, mas o dilema parecia ter um desfecho rápido. Só faltava esperar uma das duas irmãs aparecer na porta. Sônia. Bom, as coisas são como devem ser.
Dei um beijo na bochecha dela e começamos a andar sem dizer nada. Pouco depois, ela pegou na minha mão. Pensei que ia me incomodar, mas não foi assim. Até certo ponto, acho que esperava por aquilo, queria aquele momento. Nunca me achei capaz de segurar uma mão na minha sem me sentir invadido, mas foi o que aconteceu. Não me senti desconfortável com a situação.
Já estávamos andando há alguns minutos e ainda não tínhamos dito uma palavra. Sabia que, assim que começássemos a falar, o discurso planejado se dissolveria em palavras mais sinceras. O difícil era o jeito de começar, a primeira palavra, e ela não queria sair, estava escondida em algum canto escuro que compartilhávamos naquele momento.
Andamos o suficiente para chegar ao porto, e uma vez lá… continuamos andando, em silêncio, até onde uma pedra é a primeira a enfrentar o mar. Fomos procurá-la. Pulamos um muro baixo que tem entre as pedras e o calçadão e procuramos aquela que fosse grande e plana o bastante para nos acomodar os dois.
De lá, víamos o mesmo lado da cidade que o sol descobre ao amanhecer. Víamos o sol se pôr não muito longe, atrás de onde, imagino, deve ficar Argentona. Procurei entre as palmeiras pela Laia, a arqueira, mas ela não apareceu. Me contentei com uma lua bem branca, pequenininha. que subia do Sul. Ainda não sei por que, mas quis cumprimentá-la:
- "Oi"
- "Oi, já era hora de você dizer alguma coisa" — respondeu, dando voz a uma lua muito tímida.
- "Começar era difícil" — falei, meio confuso.
- "Quer que eu te ajude?"
- "Em quê?"
- "A começar. A começar comigo, se é isso que você decidiu."
- "Não decidi nada. Desculpa."
- "Bom, também não era uma escolha de vida ou morte. Quer ajuda?"
- "Pra quê?"
- "A se decidir."
- "O que você vai fazer? Decidir por mim?"
- "Não, que nada" — disse sorrindo — "se fosse isso, você já estaria nos meus braços."
- "Imagino…"
- "De qualquer forma…" — continuou sorrindo e abrindo os braços — "se você quiser…" e eu quis. Abracei ela timidamente e fiquei olhando o mar. Esperando que ela levasse o peso da conversa.
- "Sabe, Arnau?" — fez uma pausa e continuou — "Muitas vezes as coisas são mais simples do que parecem."
- "O que você quer dizer?"
- "Não fica remoendo. Não pensa em nada. O que você quer?"
- "Não sei."
- "Eu te agrado? Você quer mais momentos como esse comigo?"
- "Sim, você sabe que sim."
- "Então… o que te assusta?"
- "Tudo. Que minha vida mude, que eu mude, que nossa amizade mude, que morra."
- "Não pretendo deixar de ser sua amiga. Só quero ser isso e algo mais."
- "Quanto a mais?"
- "Só um pouco mais de você, e um pouco mais disso."
- "E se acabar?"
- "Não sou uma boneca de vidro. Não vou quebrar. Não sofre por mim."
- "E eu?"
- "Você também não vai quebrar. Eu cuido disso."
- "Não sei."
- "Você se atreve a ser sincero?"
- "Sim."
- "Não tô falando se você vai responder minhas perguntas. Quero que você se solte, que me diga o que pensa, o que sente."
- "Não sei por onde começar."
- "Começa por mim. Como você me vê?"
- "Bem. Brincadeira. Você é uma amiga, e eu gosto de você. Talvez você tenha razão. Eu também não me contentaria em te ter só como amiga. Te vejo… e quero te beijar, só isso. Te beijar e te abraçar por um tempão." "Mas tem todo o resto. Minha vida. Meus amigos. Não Até que ponto você cabe. Não leva a mal. Mas pra alguém como você, tem que reservar um espaço grande."
— "Valeu, mas não. Não preciso nem quero muito. Quero seguir com minha vida, mesmo que a gente esteja junto."
— "E eu também, mas quero te ligar de noite depois da aula, ou quando me sentir sozinho. Quero sair pra passear segurando sua mão. Quero dormir abraçado em você. Te ver acordar e ser a primeira coisa que você vê ao descobrir um novo dia. Quero me surpreender com suas ilusões e suas fantasias. E quero ser o primeiro a saber tudo o que você é."
— "Uffff" — ela disse, me abraçando um pouco mais forte — "e o que te segura? Foda-se, faz tudo isso sem negociar."
— "Não sei."
— "Sabe" — ela disse, falando bem calma — "outro dia eu li 'Quem Mexeu no Meu Queijo', é um conto que talvez você devesse ler. E tem uma hora que o protagonista fala uma coisa que talvez você devesse aplicar" — ela parou de falar e se afastou um pouco de mim — "O que você faria se não tivesse medo?"
Era tudo que eu precisava ouvir. Me aproximei, ainda carregando o medo, devagar, e beijei ela. Muito timidamente. Esperando, idiota que sou, pela resposta dela.
Me afastei de novo. Quis olhar nos olhos dela. Adivinhei eles na escuridão, porque mesmo com a noite caindo, aquelas duas estrelinhas tinham se erguido até o rosto dela. Ela sorria feliz. Aquelas joias brilhavam, meio úmidas talvez. Acariciei bem devagar o rosto dela e beijei ela de novo.
O beijo durou, durou a noite inteira e de certo modo, ainda dura. O eco dele ainda ressoa no meu coração. Ao amanhecer, a gente foi embora dali. Pra onde é outra história que hoje não vou contar.
Gostaria de pensar que posso tirar muita coisa dessa história, mas acho que não. Fiz o que fiz em cada momento sem seguir nenhuma ordem ou regra. Simplesmente é minha história, não tem lição ou moral nela.
Não posso contar mais pra vocês nem esperar que nela resolvam alguma dúvida, então pra dar algum sentido às horas de leitura, vou me permitir, de novo pobre de mim, dar um conselho: Continuem andando, o caminho tá na frente de vocês esperando ser descoberto.
Com isso me despeço dessa história... se vocês gostaram, espero os comentários e que me sigam e avaliem..
Porque prometo voltar com outra história.. já que essa aconteceu quando eu era jovem.. e agora na maturidade tem histórias melhores..
Um abraço e espero vocês
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