Montero, Rosa. O Encontro e Outros Contos de Mulheres Infiéis
O Cuck Confortado
GIOVANNI BOCCACCIO
Não faz muito tempo, vivia em Perúgia um sujeito riquíssimo chamado Pedro Vinciolo, muito conhecido por seu gosto pelos prazeres, mas tocado por uma indiferença pelos que as mulheres proporcionavam.
Para afastar do ânimo de seus conterrâneos essas suspeitas, aliás muito fundadas, resolveu se casar, tomando por esposa uma moça adequada para colocá-lo no bom caminho. Era jovem, alta, robusta, olhos vivos, paixões ardentes, numa palavra, a compleição que precisava não de um marido, mas de dois. Por infelicidade dela, aquele a quem dera a mão de esposa estava muito pouco disposto a satisfazer os desejos naturais do casamento: seus gostos e inclinações o afastavam das mulheres, de modo que se relacionava com a sua o mínimo possível, e só para não lhe despertar suspeitas sobre o vício vergonhoso do qual era apaixonadíssimo. Tal conduta estava longe de contentar a senhora, que se via instigada por seu temperamento. Como não podia acusar o marido de impotente, já que ele era vigoroso e estava na flor da idade, suspeitou de sua depravação, o que lhe causou um grande desgosto. Começou repreendendo-o e terminou por xingá-lo. Diariamente se renovavam os debates e a guerra naquele casamento. Por fim, vendo que todas aquelas brigas não levavam a nada além de prejudicar sua saúde, sem conseguir reformar seu indigno consorte, resolveu castigá-lo por sua indiferença.
— Já que esse infeliz — disse para si — não se comporta comigo como é obrigado, e me abandona assim na flor da idade para satisfazer uma má inclinação, é justo que eu arranje um amante, para me compensar dos prazeres que ele me nega. Se lhe trouxe um bom dote e o aceitei como marido, foi porque acreditei que era homem, e que gostava do que os outros gostam e devem gostar. Sabia que eu era mulher; se não estimava meu sexo, não devia me tomar por esposa. esposa. Ah, que infame! Nunca vou perdoar ele por ter me enganado desse jeito. Se quisesse renunciar aos prazeres mundanos, teria ido pra um convento; mas já que não renunciei, por que vou me privar deles? Será que devo deixar minha juventude passar sem aproveitar o melhor dela? Quando eu ficar velha, ninguém vai me querer. Então, vamos aproveitar os anos floridos pra que depois não tenhamos que nos arrepender do passado, quando nossos encantos já tiverem ido embora. Ele mesmo me dá o exemplo. Minha infidelidade não vai ser tão criminosa quanto a dele: eu só vou faltar com as regras da conveniência, enquanto meu marido falta com essas e com as da natureza.
Com a cabeça cheia desses propósitos tão louváveis, ela só pensava em como realizar seu plano, tentando não se comprometer aos olhos do marido. Pra isso, foi falar com uma velha intrometida, que parecia uma santinha, pelo que mostrava por fora. Essa mulher vivia com o terço na mão e passava a maior parte do tempo nas igrejas; só abria a boca pra bendizer o Senhor, elogiar a vida dos santos, ou falar das chagas de São Francisco; resumindo, ao vê-la, já dava pra canonizar. A jovem tomou suas precauções pra abrir o coração pra essa hipócrita, contando o que tava rolando e o que ela tinha decidido fazer.
— Minha filha — respondeu a velha beata —, aprovo suas intenções; e mesmo que seu marido não fosse tão culpado, você faria muito bem em aproveitar os momentos preciosos da juventude. Pra qualquer mulher que pense um pouco, não tem pesar mais doloroso do que ter desperdiçado o fruto dos seus bons anos.
A jovem tava impaciente pra que a falsa santarrona terminasse o discurso, pra poder dizer que, se ela encontrasse por acaso um jovem que costumava passar sempre pelo bairro dela, e cujo retrato ela descreveu, tentasse sondar ele pra saber se ele ia gostar de conseguir os favores de certa dama. Assim combinado, deu pra velha um pedaço de carne. salada e a despediu.
Ela se virou tão bem que não demorou pra trazer o rapaz: poucos dias depois arranjou outro, e depois outro, e mais outro, conforme a fantasia da donzela, que, pelo visto, era vidrada em variedade. Mas tomava bem suas medidas pra que o marido não percebesse a nova vida que levava, apesar de toda a reclamação que fazia dele.
Como tinha um baita apetite, multiplicava e prolongava o máximo que podia as visitas dos galãs, pra não perder tempo, seguindo os bons conselhos que a velha alcoviteira tinha dado. Certo dia, quando o marido foi convidado pra jantar na casa de um amigo dele chamado Ercolano, ela achou que devia aproveitar a chance, mandando a velha trazer um rapaz dos mais bonitos e gostosos de Perúgia, o que a hipócrita fez sem hesitar. Mal a patroa e o novo galã sentaram à mesa pra jantar, Vinciolo bateu na porta pedindo pra abrirem: ao ouvir a voz do marido, que não esperava tão cedo, ela se achou perdida; mesmo assim, pensou em esconder o amante, que também não sabia o que fazer. Seja porque não teve tempo de escondê-lo direito, seja porque o susto não deixou ela raciocinar, meteu o cara numa espécie de varanda perto da sala onde jantavam, debaixo de uma gaiola de galinhas, que cobriu com um saco recém-costurado. Enquanto isso, a criada, que, como dá pra perceber, tava por dentro de tudo, tirou a mesa e, depois disso, correu pra abrir a porta pro Vinciolo.
— Como? Já voltou? — disse a mulher dele. — O jantar foi curto.
— Não jantei nada — respondeu o marido.
— É possível! — retrucou ela. — E por que não jantou?
— Um acidente que botou a casa do Ercolano toda em polvorosa nos impediu de fazer isso.
Mal sentamos à mesa, ele, a mulher dele e eu, ouvimos alguém espirrar perto da gente. Na primeira vez, não ligamos; Porém, não foi pequena nossa surpresa ao ouvir o mesmo barulho cinco ou seis vezes seguidas e até mais. Não vendo ninguém ao nosso redor, não sabíamos o que pensar e nossa surpresa crescia a cada instante; então Ercolano, que já estava irritado com a mulher por nos ter feito esperar um tempão na porta da casa, perguntou furioso o que significava aquilo. E como ela não respondesse e parecesse confusa, ele se levantou da mesa e foi em direção a uma escada perto do cômodo onde estávamos, embaixo da qual havia um quartinho feito de tábuas, de onde ele achava que tinham saído os espirros.
Mal abriu a porta daquele cubículo (que não falta em quase nenhuma casa), saiu dele um cheiro insuportável, que já tínhamos sentido, e Ercolano reclamou; mas a mulher se desculpou dizendo que não era nada além do vapor de um pouco de enxofre que ela tinha queimado para clarear umas roupas que estendera naquele lugar, pra ficarem perfumadas. Depois que a fumaça se dissipou um pouco, Ercolano revistou o esconderijo e viu quem tinha espirrado, e que acabava de espirrar de novo por causa da força do mineral, cujos vapores subiam na cabeça dele, quase o sufocando. Então o marido, virando-se pra mulher, disse: "Agora entendo por que você nos fez esperar tanto tempo na porta. Esse procedimento merece uma recompensa, e sou justo demais pra te negar: vai ser tão boa que me orgulho de você não esquecer enquanto viver". Ao ouvir essas palavras, a mulher fugiu sem nem tentar se justificar: Ercolano, ignorando a esposa, repetiu várias vezes pro espirrador sair do esconderijo; porém, como ele estava mais morto que vivo, não se mexeu; então ele agarrou a perna dele e o arrastou pra fora, e depois foi pegar a espada com a intenção de matá-lo. O medo de me ver envolvido num caso de assassinato me fez pular pra cima dele. me peguei me opondo a ele machucar aquele homem. Meus gritos e o barulho que fiz pra defender o culpado chamaram a atenção de alguns vizinhos, que, vendo o rapaz mais morto que vivo, o levaram não sei pra onde. Essa foi a nossa ceia. Só tinha engolido a primeira garfada quando essa cena começou; então, julguem se vou ter apetite.
Esse relato fez a senhora entender que não era só ela que tinha amantes, apesar dos perigos que eles traziam. De boa vontade teria desculpado a mulher de Ercolano; mas, como achava que criticando os erros das outras seria mais fácil esconder os seus, começou a criticar sua modelo nestes termos:
— Que conduta! Quem diria! Eu a tinha como a mulher mais honesta, virtuosa e santa. Confiem nessas devotas, que se fazem de santinhas só pra esconder melhor suas tramoias! E ninguém pode desculpar essa, que não é jovem nem mal casada. Temos que concordar que ela dá um belo exemplo pras outras mulheres. Maldita a hora em que nasceu! Que essa mulher impura seja amaldiçoada, já que vive atolada no crime e na putaria! Criatura indigna! É a vergonha e a desgraça do nosso sexo. Essa é a recompensa que ela reservou pra honestidade do marido, daquele homem geralmente respeitado que a tratava com toda consideração e carinho possível? Ingrata! Em troca dos benefícios dele, não hesitou em se desonrar.
Mulheres desse tipo mereciam ser queimadas vivas, sem pena nenhuma.
Depois desse discurso, e sem esquecer que o seu galã continuava debaixo da gaiola, disse ao marido que era hora de ir pra cama. Ele, que tava com mais vontade de comer do que de dormir, perguntou se não tinha sobrado alguma coisa da ceia.
— Da minha ceia! — respondeu ela —, na verdade não costumo me empanturrar quando você tá longe de mim. Sem dúvida você me confunde com a mulher de Ercolano... Vai dormir, eu já disse, e Amanhã você vai almoçar com muito mais apetite.
Naquela mesma noite, os colonos de Vinciolo tinham trazido alguns objetos de uma de suas fazendas e colocaram seus jumentos, sem dar água a eles, num pequeno estábulo que dava para a galeria onde o galã estava enjaulado. Aconteceu que um daqueles animais, instigado pela sede, se soltou e saiu do estábulo, farejando de um lado para o outro em busca de água. Vagando assim, o quadrúpede passou perto da jaula onde o jovem apaixonado estava escondido e pisou nos dedos dele, que estavam um pouco para fora do esconderijo, pois o coitado era obrigado, pela forma da jaula, a ficar curvado de cara no chão, apoiando as mãos para não se cansar tanto. A dor que a patada do jumento causou fez ele soltar um grito doloroso. Vinciolo ouviu e ficou surpreso ao pensar que não podia vir de outro lugar senão da casa dele. Então, saiu do quarto e, como o galã continuava se queixando, já que o asno ainda estava com as patas em cima dos dedos dele, perguntou:
— Quem está aí? — e correu direto para a jaula. Levantou-a e encontrou o passarinho, que tremia que nem vara verde, morrendo de medo de que o marido irritado fizesse ele passar um mau bocado. Mas, como Vinciolo o reconheceu — por ele mesmo ter dado em cima dele por muito tempo, sem sucesso —, se limitou a perguntar o que ele vinha fazer na casa dele. A única resposta que conseguiu do rapaz foi um pedido para que não fizesse mal nenhum a ele.
— Levanta — disse então Vinciolo — e não teme nada; mas com a condição de me dizer por que meios e por que veio à minha casa — o que o jovem fez sem hesitar.
O marido, tão satisfeito por ter encontrado seu Adônis quanto triste e aflita estava sua cara-metade, pegou-o pela mão e o levou até a presença da infiel, cujo medo e agitação não é fácil explicar.
— E então, minha querida — disse ele, encarando-a —, como é que você vai se justificar agora? Ainda acha que devem ser Queimadas todas as mulheres da laia da Ercolano? Será que tava certo vocês se exaltarem tanto contra ela, sendo que vocês têm os mesmos defeitos? Será que vocês honram mais o próprio sexo? Só criticaram aquela com tanto ardor pra esconder melhor a sua intriga. É assim que são todas as mulheres: nenhuma vale mais que a outra. Tomara que o demônio "leve vocês todas juntas!
Vendo a donzela que ele só a maltratava de palavra, e achando que sairia daquela enrascada com menos custo do que imaginava, não teve dúvida de que o marido tava muito contente por ter fisgado um moço tão bonitão. Essa ideia deu um gás nela, e respondeu sem o menor constrangimento:
— Você queria que o diabo levasse a gente toda! Não duvido, e isso não me surpreende nem um pouco, já que você odeia o nosso sexo; mas, graças a Deus, seus desejos não vão se realizar. E acrescento, já que chegou a hora dos esclarecimentos, que suas pragas não me assustam em nada. No fim das contas, você pode reclamar da minha conduta com razão? Há uma grande diferença entre a mulher da Ercolano e a sua: aquela é uma beata, uma hipócrita, uma verdadeira fera, que o marido dá tudo que ela pede: ela não faz jejum nenhum, apesar da idade. Comigo é bem diferente. Concordo que em matéria de roupas e enfeites tenho pouco a invejar das outras; mas será que pra uma mulher da minha idade isso basta? Você não ignora há quanto tempo não me dá o menor carinho... Preferia andar descalça e mal vestida, contanto que você cumprisse seus deveres de marido, do que ser a mais arrumada da cidade toda. Me escuta, Pedro; já que tenho que falar na lata, quero que saiba de uma vez por todas que sou mulher como as outras: o que elas querem, eu também quero; como elas, tenho tesão e tenho que dar um jeito de satisfazê-lo. Se você não quer me contentar, pode achar ruim que eu recorra a outros? Pelo menos te honro na minha escolha, já que não me entrego a criados nem a qualquer um. Chanfana. Não pode negar que o gato que escolhi é um baita gostosão.
O marido, que, como já disse, odiava as mulheres e já começava a se cansar da gritaria da sua, interrompeu-a assim:
— Vamos, mulher, chega de falar nisso; espero que esteja satisfeita comigo nesse aspecto. Você sabe que sou manso como um cordeiro; então, chega de reclamação pra todo lado. A única coisa que peço é jantar, porque acho que esse moço está de estômago vazio igual a mim.
— É verdade — respondeu a senhora —; a gente tinha acabado de sentar à mesa quando, infelizmente pra nós, vocês bateram.
— Então despacha — retrucou Vinciolo — e nos dá de jantar; depois eu arrumo as coisas de um jeito que você não tenha motivo pra reclamar de mim.
A boa senhora, vendo o marido acalmado, mandou na hora cobrir a mesa, e jantou tranquilamente com o infeliz corno e o jovem galã. Contar o que se passou entre esses três depois da comida é coisa que minha caneta não dá conta.
Basta dizer que, no dia seguinte, os fofoqueiros da praça de Perúgia estavam confusos e não sabiam dizer qual dos três — o marido, a mulher ou o galã — tinha passado a noite mais gostosa.
O Cuck Confortado
GIOVANNI BOCCACCIO
Não faz muito tempo, vivia em Perúgia um sujeito riquíssimo chamado Pedro Vinciolo, muito conhecido por seu gosto pelos prazeres, mas tocado por uma indiferença pelos que as mulheres proporcionavam.
Para afastar do ânimo de seus conterrâneos essas suspeitas, aliás muito fundadas, resolveu se casar, tomando por esposa uma moça adequada para colocá-lo no bom caminho. Era jovem, alta, robusta, olhos vivos, paixões ardentes, numa palavra, a compleição que precisava não de um marido, mas de dois. Por infelicidade dela, aquele a quem dera a mão de esposa estava muito pouco disposto a satisfazer os desejos naturais do casamento: seus gostos e inclinações o afastavam das mulheres, de modo que se relacionava com a sua o mínimo possível, e só para não lhe despertar suspeitas sobre o vício vergonhoso do qual era apaixonadíssimo. Tal conduta estava longe de contentar a senhora, que se via instigada por seu temperamento. Como não podia acusar o marido de impotente, já que ele era vigoroso e estava na flor da idade, suspeitou de sua depravação, o que lhe causou um grande desgosto. Começou repreendendo-o e terminou por xingá-lo. Diariamente se renovavam os debates e a guerra naquele casamento. Por fim, vendo que todas aquelas brigas não levavam a nada além de prejudicar sua saúde, sem conseguir reformar seu indigno consorte, resolveu castigá-lo por sua indiferença.
— Já que esse infeliz — disse para si — não se comporta comigo como é obrigado, e me abandona assim na flor da idade para satisfazer uma má inclinação, é justo que eu arranje um amante, para me compensar dos prazeres que ele me nega. Se lhe trouxe um bom dote e o aceitei como marido, foi porque acreditei que era homem, e que gostava do que os outros gostam e devem gostar. Sabia que eu era mulher; se não estimava meu sexo, não devia me tomar por esposa. esposa. Ah, que infame! Nunca vou perdoar ele por ter me enganado desse jeito. Se quisesse renunciar aos prazeres mundanos, teria ido pra um convento; mas já que não renunciei, por que vou me privar deles? Será que devo deixar minha juventude passar sem aproveitar o melhor dela? Quando eu ficar velha, ninguém vai me querer. Então, vamos aproveitar os anos floridos pra que depois não tenhamos que nos arrepender do passado, quando nossos encantos já tiverem ido embora. Ele mesmo me dá o exemplo. Minha infidelidade não vai ser tão criminosa quanto a dele: eu só vou faltar com as regras da conveniência, enquanto meu marido falta com essas e com as da natureza.
Com a cabeça cheia desses propósitos tão louváveis, ela só pensava em como realizar seu plano, tentando não se comprometer aos olhos do marido. Pra isso, foi falar com uma velha intrometida, que parecia uma santinha, pelo que mostrava por fora. Essa mulher vivia com o terço na mão e passava a maior parte do tempo nas igrejas; só abria a boca pra bendizer o Senhor, elogiar a vida dos santos, ou falar das chagas de São Francisco; resumindo, ao vê-la, já dava pra canonizar. A jovem tomou suas precauções pra abrir o coração pra essa hipócrita, contando o que tava rolando e o que ela tinha decidido fazer.
— Minha filha — respondeu a velha beata —, aprovo suas intenções; e mesmo que seu marido não fosse tão culpado, você faria muito bem em aproveitar os momentos preciosos da juventude. Pra qualquer mulher que pense um pouco, não tem pesar mais doloroso do que ter desperdiçado o fruto dos seus bons anos.
A jovem tava impaciente pra que a falsa santarrona terminasse o discurso, pra poder dizer que, se ela encontrasse por acaso um jovem que costumava passar sempre pelo bairro dela, e cujo retrato ela descreveu, tentasse sondar ele pra saber se ele ia gostar de conseguir os favores de certa dama. Assim combinado, deu pra velha um pedaço de carne. salada e a despediu.
Ela se virou tão bem que não demorou pra trazer o rapaz: poucos dias depois arranjou outro, e depois outro, e mais outro, conforme a fantasia da donzela, que, pelo visto, era vidrada em variedade. Mas tomava bem suas medidas pra que o marido não percebesse a nova vida que levava, apesar de toda a reclamação que fazia dele.
Como tinha um baita apetite, multiplicava e prolongava o máximo que podia as visitas dos galãs, pra não perder tempo, seguindo os bons conselhos que a velha alcoviteira tinha dado. Certo dia, quando o marido foi convidado pra jantar na casa de um amigo dele chamado Ercolano, ela achou que devia aproveitar a chance, mandando a velha trazer um rapaz dos mais bonitos e gostosos de Perúgia, o que a hipócrita fez sem hesitar. Mal a patroa e o novo galã sentaram à mesa pra jantar, Vinciolo bateu na porta pedindo pra abrirem: ao ouvir a voz do marido, que não esperava tão cedo, ela se achou perdida; mesmo assim, pensou em esconder o amante, que também não sabia o que fazer. Seja porque não teve tempo de escondê-lo direito, seja porque o susto não deixou ela raciocinar, meteu o cara numa espécie de varanda perto da sala onde jantavam, debaixo de uma gaiola de galinhas, que cobriu com um saco recém-costurado. Enquanto isso, a criada, que, como dá pra perceber, tava por dentro de tudo, tirou a mesa e, depois disso, correu pra abrir a porta pro Vinciolo.
— Como? Já voltou? — disse a mulher dele. — O jantar foi curto.
— Não jantei nada — respondeu o marido.
— É possível! — retrucou ela. — E por que não jantou?
— Um acidente que botou a casa do Ercolano toda em polvorosa nos impediu de fazer isso.
Mal sentamos à mesa, ele, a mulher dele e eu, ouvimos alguém espirrar perto da gente. Na primeira vez, não ligamos; Porém, não foi pequena nossa surpresa ao ouvir o mesmo barulho cinco ou seis vezes seguidas e até mais. Não vendo ninguém ao nosso redor, não sabíamos o que pensar e nossa surpresa crescia a cada instante; então Ercolano, que já estava irritado com a mulher por nos ter feito esperar um tempão na porta da casa, perguntou furioso o que significava aquilo. E como ela não respondesse e parecesse confusa, ele se levantou da mesa e foi em direção a uma escada perto do cômodo onde estávamos, embaixo da qual havia um quartinho feito de tábuas, de onde ele achava que tinham saído os espirros.
Mal abriu a porta daquele cubículo (que não falta em quase nenhuma casa), saiu dele um cheiro insuportável, que já tínhamos sentido, e Ercolano reclamou; mas a mulher se desculpou dizendo que não era nada além do vapor de um pouco de enxofre que ela tinha queimado para clarear umas roupas que estendera naquele lugar, pra ficarem perfumadas. Depois que a fumaça se dissipou um pouco, Ercolano revistou o esconderijo e viu quem tinha espirrado, e que acabava de espirrar de novo por causa da força do mineral, cujos vapores subiam na cabeça dele, quase o sufocando. Então o marido, virando-se pra mulher, disse: "Agora entendo por que você nos fez esperar tanto tempo na porta. Esse procedimento merece uma recompensa, e sou justo demais pra te negar: vai ser tão boa que me orgulho de você não esquecer enquanto viver". Ao ouvir essas palavras, a mulher fugiu sem nem tentar se justificar: Ercolano, ignorando a esposa, repetiu várias vezes pro espirrador sair do esconderijo; porém, como ele estava mais morto que vivo, não se mexeu; então ele agarrou a perna dele e o arrastou pra fora, e depois foi pegar a espada com a intenção de matá-lo. O medo de me ver envolvido num caso de assassinato me fez pular pra cima dele. me peguei me opondo a ele machucar aquele homem. Meus gritos e o barulho que fiz pra defender o culpado chamaram a atenção de alguns vizinhos, que, vendo o rapaz mais morto que vivo, o levaram não sei pra onde. Essa foi a nossa ceia. Só tinha engolido a primeira garfada quando essa cena começou; então, julguem se vou ter apetite.
Esse relato fez a senhora entender que não era só ela que tinha amantes, apesar dos perigos que eles traziam. De boa vontade teria desculpado a mulher de Ercolano; mas, como achava que criticando os erros das outras seria mais fácil esconder os seus, começou a criticar sua modelo nestes termos:
— Que conduta! Quem diria! Eu a tinha como a mulher mais honesta, virtuosa e santa. Confiem nessas devotas, que se fazem de santinhas só pra esconder melhor suas tramoias! E ninguém pode desculpar essa, que não é jovem nem mal casada. Temos que concordar que ela dá um belo exemplo pras outras mulheres. Maldita a hora em que nasceu! Que essa mulher impura seja amaldiçoada, já que vive atolada no crime e na putaria! Criatura indigna! É a vergonha e a desgraça do nosso sexo. Essa é a recompensa que ela reservou pra honestidade do marido, daquele homem geralmente respeitado que a tratava com toda consideração e carinho possível? Ingrata! Em troca dos benefícios dele, não hesitou em se desonrar.
Mulheres desse tipo mereciam ser queimadas vivas, sem pena nenhuma.
Depois desse discurso, e sem esquecer que o seu galã continuava debaixo da gaiola, disse ao marido que era hora de ir pra cama. Ele, que tava com mais vontade de comer do que de dormir, perguntou se não tinha sobrado alguma coisa da ceia.
— Da minha ceia! — respondeu ela —, na verdade não costumo me empanturrar quando você tá longe de mim. Sem dúvida você me confunde com a mulher de Ercolano... Vai dormir, eu já disse, e Amanhã você vai almoçar com muito mais apetite.
Naquela mesma noite, os colonos de Vinciolo tinham trazido alguns objetos de uma de suas fazendas e colocaram seus jumentos, sem dar água a eles, num pequeno estábulo que dava para a galeria onde o galã estava enjaulado. Aconteceu que um daqueles animais, instigado pela sede, se soltou e saiu do estábulo, farejando de um lado para o outro em busca de água. Vagando assim, o quadrúpede passou perto da jaula onde o jovem apaixonado estava escondido e pisou nos dedos dele, que estavam um pouco para fora do esconderijo, pois o coitado era obrigado, pela forma da jaula, a ficar curvado de cara no chão, apoiando as mãos para não se cansar tanto. A dor que a patada do jumento causou fez ele soltar um grito doloroso. Vinciolo ouviu e ficou surpreso ao pensar que não podia vir de outro lugar senão da casa dele. Então, saiu do quarto e, como o galã continuava se queixando, já que o asno ainda estava com as patas em cima dos dedos dele, perguntou:
— Quem está aí? — e correu direto para a jaula. Levantou-a e encontrou o passarinho, que tremia que nem vara verde, morrendo de medo de que o marido irritado fizesse ele passar um mau bocado. Mas, como Vinciolo o reconheceu — por ele mesmo ter dado em cima dele por muito tempo, sem sucesso —, se limitou a perguntar o que ele vinha fazer na casa dele. A única resposta que conseguiu do rapaz foi um pedido para que não fizesse mal nenhum a ele.
— Levanta — disse então Vinciolo — e não teme nada; mas com a condição de me dizer por que meios e por que veio à minha casa — o que o jovem fez sem hesitar.
O marido, tão satisfeito por ter encontrado seu Adônis quanto triste e aflita estava sua cara-metade, pegou-o pela mão e o levou até a presença da infiel, cujo medo e agitação não é fácil explicar.
— E então, minha querida — disse ele, encarando-a —, como é que você vai se justificar agora? Ainda acha que devem ser Queimadas todas as mulheres da laia da Ercolano? Será que tava certo vocês se exaltarem tanto contra ela, sendo que vocês têm os mesmos defeitos? Será que vocês honram mais o próprio sexo? Só criticaram aquela com tanto ardor pra esconder melhor a sua intriga. É assim que são todas as mulheres: nenhuma vale mais que a outra. Tomara que o demônio "leve vocês todas juntas!
Vendo a donzela que ele só a maltratava de palavra, e achando que sairia daquela enrascada com menos custo do que imaginava, não teve dúvida de que o marido tava muito contente por ter fisgado um moço tão bonitão. Essa ideia deu um gás nela, e respondeu sem o menor constrangimento:
— Você queria que o diabo levasse a gente toda! Não duvido, e isso não me surpreende nem um pouco, já que você odeia o nosso sexo; mas, graças a Deus, seus desejos não vão se realizar. E acrescento, já que chegou a hora dos esclarecimentos, que suas pragas não me assustam em nada. No fim das contas, você pode reclamar da minha conduta com razão? Há uma grande diferença entre a mulher da Ercolano e a sua: aquela é uma beata, uma hipócrita, uma verdadeira fera, que o marido dá tudo que ela pede: ela não faz jejum nenhum, apesar da idade. Comigo é bem diferente. Concordo que em matéria de roupas e enfeites tenho pouco a invejar das outras; mas será que pra uma mulher da minha idade isso basta? Você não ignora há quanto tempo não me dá o menor carinho... Preferia andar descalça e mal vestida, contanto que você cumprisse seus deveres de marido, do que ser a mais arrumada da cidade toda. Me escuta, Pedro; já que tenho que falar na lata, quero que saiba de uma vez por todas que sou mulher como as outras: o que elas querem, eu também quero; como elas, tenho tesão e tenho que dar um jeito de satisfazê-lo. Se você não quer me contentar, pode achar ruim que eu recorra a outros? Pelo menos te honro na minha escolha, já que não me entrego a criados nem a qualquer um. Chanfana. Não pode negar que o gato que escolhi é um baita gostosão.
O marido, que, como já disse, odiava as mulheres e já começava a se cansar da gritaria da sua, interrompeu-a assim:
— Vamos, mulher, chega de falar nisso; espero que esteja satisfeita comigo nesse aspecto. Você sabe que sou manso como um cordeiro; então, chega de reclamação pra todo lado. A única coisa que peço é jantar, porque acho que esse moço está de estômago vazio igual a mim.
— É verdade — respondeu a senhora —; a gente tinha acabado de sentar à mesa quando, infelizmente pra nós, vocês bateram.
— Então despacha — retrucou Vinciolo — e nos dá de jantar; depois eu arrumo as coisas de um jeito que você não tenha motivo pra reclamar de mim.
A boa senhora, vendo o marido acalmado, mandou na hora cobrir a mesa, e jantou tranquilamente com o infeliz corno e o jovem galã. Contar o que se passou entre esses três depois da comida é coisa que minha caneta não dá conta.
Basta dizer que, no dia seguinte, os fofoqueiros da praça de Perúgia estavam confusos e não sabiam dizer qual dos três — o marido, a mulher ou o galã — tinha passado a noite mais gostosa.
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