Crônica de um Consentimento Parte 3

Às oito e meia da manhã, saí do quarto tentando não acordá-la, pendurei a placa de "não perturbe" na porta e tomei um café da manhã rápido no buffet do hotel; ao chegar no curso, encontrei o Pablo saindo da sala.
"Bom dia, ia tomar um café, bora?" – claro que eu ia, se me oferecia a chance de começar o jogo antes do previsto.
"Pois é" – falei, fingindo um bocejo – "um café duplo não vai me fazer mal."
"Noite puxada?" – ele tinha caído na isca, olhei pra ele e sorri com cumplicidade.
"Simmm, nem sei a que horas voltei pro hotel" – usei o singular de propósito, mas ele pareceu não perceber.
"A sobremesa se esticou, valeu a pena?" – Por onde eu devia pegar esse comentário? Não queria ir direto ao ponto.
"Valeu a pena, sim senhor" – desviei a atenção pro garçom pra pedir outro sachê de açúcar, já que tinha derramado o meu no balcão.
"Receio que hoje você não vai estar muito atento ao curso, se eu te ver dormindo, te dou um cotovelo."
"Sim, por favor!" – Fez-se um silêncio, era óbvio que o Pablo media as palavras, mas também tava claro que queria saber mais.
"Que sorte ter vindo pra um lugar onde você conhece gente, isso deixa as tardes… e as noites… mais agradáveis. Amigos da faculdade, você disse, né?"
"Sim, colegas daquela época com quem mantenho contato sempre que venho pra cá ou eles vão pra Madrid."
"Ou seja, vocês se juntaram em vários casais" – ele tentava me sondar e eu, claro, me deixava.
"Não, só caras… bom, menos a Maria" – a isca tava lançada, mas o Pablo se movia com cuidado, provavelmente o fora que eu dei no dia anterior o deixava cauteloso.
"E ela não ficou entediada no meio de tanto homem? Você sabe como são essas coisas, tanto futebol, tanto carro, certeza que falaram de trabalho" – fiz um sinal pro garçom pagar e cortei a intenção dele de pagar os cafés.
"Te garanto que ela não ficou entediada nem um segundo" – falei, tentando dar ao meu olhar uma certa dose de intenção. o suficiente pra ser entendida, mas menos do que deixaria evidente; bem na hora a gente tava saindo da cafeteria, foi aí que pensei que devia encerrar o assunto pra deixar ele com uma certa ansiedade – "Essa manhã a gente tem a sessão com o Álvarez, né?" – Pablo se deixava levar feito um cordeirinho, sacou a mudança de assunto e seguiu minha conversa sobre o palestrante da manhã.

Durante o coffee break me afastei do Pablo fingindo fazer umas ligações profissionais, mas disquei o número da Maria, ela atendeu na hora.
"Oi, amor, como tá a manhã?" – a voz dela tava alegre, descontraída.
"Bem, querida, e você: tá ardendo?"
"Um pouco, você me deixou destruída. E você, não dormiu na aula?"
"Por pouco não" – esperava que ela desse o primeiro passo, eu não ia falar nada sobre o Pablo até que ela falasse – "Onde você tá?"
"Agora mesmo tomando um café numa pracinha linda, tô tirando fotos" – conheço ela bem e sabia que ela tava seguindo a mesma estratégia que eu: esperar que eu começasse a falar do que a gente tava morrendo de vontade.
"Bom, vou te deixar, já tenho que entrar, um beijinho, você vem almoçar, né?"
"Sim, às duas... ei... e o Pablo? ele falou alguma coisa?" – ela tinha vencido a parada.
"Dei a entender que a gente tava ontem à noite com uns amigos, tudo cara e você"
"Que bruto! Não exagera, pelo amor"
"Você não me conhece? Não curto vulgaridades... foxy" – ouvi a risada dela pelo telefone.
"Tá, mas não passa do ponto, hein?"
"Fica tranquila, não tô te colocando de putona, só de slut"
"De slut, hein? Imagino você se gabando pro Pablo por ter me comido"
"Pois não tinha feito, mas você acabou de me dar uma ideia"
"Seu filho da puta!"
"Um beijo, amor, até logo, te amo"
"Te amo"

Voltei pra sala quando a sessão ainda não tinha começado, Pablo tava fumando num canto do hall.
"Bom, finalmente achei a Maria, não sabia onde ela tava"
"E ela tá bem, né?"
"Ótima, tava saindo do hotel, de dormir um pouco" – Pablo Ele percebeu que tava dando corda pra ela
"Deve ser incansável"
"É sim, cansa qualquer um e ainda continua… pedindo guerra" – a gente riu e se afastou um pouco de um grupo que tinha se formado perto
"Bom, sempre dá pra pedir reforço – Resolvi aceitar o desafio e apostei pesado, de novo a sacanagem falava mais alto que o bom senso
"Acaba com os reforços, te falo" – Pablo me olhou sorrindo
"Tão… selvagem assim?" – o chamado pra sala me salvou de perder o chão, não sei onde essa conversa ia parar se durasse mais um pouco.
Às duas em ponto a sessão foi encerrada e começamos a guardar as coisas, fui eu quem deu o primeiro passo.
"Vou esperar a Maria, vem junto?" – dessa vez ele nem hesitou
"Claro, lógico"
Descemos as escadarias e lá estava ela, com uma camiseta preta justa de manga curta, uma calça jeans e um tênis, o cabelo preso num coque alto, linda demais, apoiada num pilar de pedra. A camiseta deixava à mostra um piercing de ouro no umbigo que eu tinha dado pra ela uns dias antes da viagem.
"Porra, não aparenta mais que vinte e um, vinte e dois" – Pablo falou quando viu ela
"Ela se cuida pra caralho, vai na academia todo dia, dança também… não para" – eu descia as escadas devagar, tentando prolongar aquele momento em que Maria não sabia que tava sendo observada, e que dava espaço pra mais intimidade entre eu e Pablo
"Tem família?"
"Filhos? Não, e nem quer"
"Por isso que é tão gostosa" – Pablo falou quebrando mais uma barreira comigo, e eu aceitei a aproximação
"É gostosa mesmo, né?" – falar da Maria daquele jeito me dava um tesão do caralho
"Pelo que dá pra ver… sim, uma delícia"
"E o que você não vê, melhor ainda" – quanto mais eu me abria com o Pablo, maior era o prazer; A intensidade das sensações que eu tava sentindo e a facilidade com que eu tava encarando essa situação me deixavam desnorteado.
Quando cheguei lá embaixo, Maria levantou os olhos da revista que tava lendo e sorriu ao nos ver, levantou do banco e veio na nossa direção
"Olha só que Vocês são uns demorados, tô aqui há dez minutos ou mais" – ela deu dois beijos no Pablo que, dessa vez sem dúvida nenhuma, se aproximou demais dela, segurou ela pela cintura, tentando tocar a pele nua dela e a manteve por uns segundos enquanto a olhava de cima a baixo.
"Você tá linda, como você consegue?" – Maria não se afastou e sorriu.
"Conseguir o quê?"
"Estar tão… perfeita" – Pablo e eu rimos com uma certa cumplicidade que não passou despercebida pra Maria, a troca que ele acabou de fazer da palavra ‘gostosa’ tinha provocado nossas risadas; Antes que Maria perguntasse o motivo, eu intervim.
"Seus sacrifícios custam caro, né?" – falei me aproximando dela e beijando ela na boca, Maria se deixou beijar sem aquele pudor que outras vezes a fez encurtar meu beijo – "Vamos comer?"
Caminhamos conversando até a área onde tinha vários restaurantes, Maria ia no meio de nós dois segurando meu braço e, como no dia anterior, Pablo tentava monopolizar a atenção dela. De repente, Maria se virou pra mim.
"Você acordou cedo hoje, quando voltei pro hotel você já tinha ido embora" – eu congelei, Maria tinha jogado uma bomba na mesa, eu tinha pedido pra ela me surpreender e com certeza ela tinha acabado de conseguir. Me pegou tão de surpresa que demorei pra reagir, nunca imaginei que Maria fosse capaz de… Naquele momento, vi pelo canto do olho a expressão do Pablo, mil imagens e mil expectativas passavam pela cabeça dele: se essa mulher era capaz de largar o amante e passar a noite com outros caras, talvez ele tivesse muito mais chances do que pensava; Tudo acontecia em frações de segundo, embora pra mim parecesse uma eternidade até que consegui montar uma resposta, olhei nos olhos dela, ela tinha uma expressão linda de menina safada.
"Pois não acordei tão cedo assim, mais ou menos como ontem, quando vi que você não vinha, desci pra tomar café e vim embora" – eu comecei a me recuperar da surpresa e consegui me agarrar ao argumento dela, queria saber até onde ela era capaz de ir – "Perdi você de vista lá pelas Duas e meia, por volta das três, como não te encontrava, fui embora, achei que te deixava em boas mãos" – meu coração batia forte, vi como os olhos de Maria brilhavam, ela estava excitada, nós dois sabíamos que estávamos sendo observados por Pablo, nós dois sabíamos a ideia que ele estava formando sobre Maria.
"Em boas mãos pra caralho" – ela continuava me surpreendendo, estava soltinha, metida no personagem, curtindo pra valer. Se eu achei por um momento que, ao aumentar a aposta dela, ia derrotá-la, estava enganado; mal tive tempo de processar a frase dela quando ela foi além com a seguinte – "A gente tava no andar de cima, Jaime, Esteban... mais um ou dois que não lembro e eu, você podia ter subido".

Achei cômico: ela citava nossos amigos mais próximos, suponho que pra não inventar uns nomes dos quais esqueceria fácil. Naquele momento, Pablo era um brinquedo pra nós, Maria e eu vivíamos aquela cena intensamente, nos provocando cada vez mais alto. Meu objetivo era ela, e eu era o dela; e Pablo era só mais um elemento do jogo que ajudava a aumentar o tesão.
"Você sabe que não gosto de atrapalhar, te vi bem ocupada antes de sumir e preferi te deixar na sua" – Pablo acompanhava nossa conversa quase de boca aberta, a expressão de excitação e surpresa dele era um poema.

Durante o almoço, ele se mostrou sedutor sem ser chato, nossa conversa tinha mexido com ele, agora ele olhava Maria de outro jeito, menos respeitoso talvez, mais direto. Ela já não era só a amante do colega de curso, agora era uma gostosa que não tinha problema em transar com dois, três, cinco caras. Maria não tinha percebido essa mudança, estava relaxada, à vontade, mesmo quando os olhos de Pablo paravam demais no peito dela; em alguns momentos, enquanto Maria falava, ele mantinha os olhos fixos nos dela, de um jeito que em qualquer outra situação eu mesmo teria cortado na hora.

Mas ali não éramos um casal, Maria era uma Liguei que ela tinha me trazido pra Sevilha escondido do marido e ver como era assediada por aquele cara que a considerava uma foda possível me deixava num estado de tensão sexual constante.
Quando estávamos nos cafés, recebi uma ligação do escritório que me obrigou a sair da mesa por alguns minutos; apesar da minha impaciência, meu chefe me prendeu com a verborragia interminável dele. Naquela noite, Maria me contou o que aconteceu na minha ausência.
Quando me levantei e saí do salão pra evitar o barulho do ambiente, Pablo deve ter se sentido com o caminho livre pra tentar avançar com Maria.
"Então, Maria, o que você tá achando de Sevilha?" – ele disse enquanto se aproximava um pouco dela.
"Pra ser sincera, é uma cidade linda, já conhecia, mas nunca tinha tido chance de explorar com tanta calma" – ela estava apoiada na mesa, Pablo se aproximou mais e ela ficou na dúvida se recuava pra trás pra criar distância, mas a ideia de ver minha reação quando eu entrasse e os visse tão perto a fez ficar; ela se sentia lisonjeada ao ver o efeito que causava em Pablo, embora ao mesmo tempo se sentisse inquieta, era a primeira vez que brincava sem me ter por perto.
"E ontem à noite… festa, né? Você deve estar exausta" – ele sorriu com malícia.
"Bom, assim que cheguei no hotel, tomei um banho e fui pra cama."
"E dessa vez sozinha" – Pablo soltou esse comentário tentando dar um tom sugestivo à voz, Maria ficou gelada, mas reagiu com firmeza, seu rosto ficou sério e ela o encarou com dureza; Pablo não pisava em terreno firme e entendeu que tinha pisado na bola; tentou consertar como pôde.
"Desculpa, desculpa, isso foi fora de lugar, é que às vezes não resisto a brincar com um trocadilho" – ela entendeu perfeitamente a desculpa dele porque isso é algo muito comum entre nós, mesmo assim o comentário pareceu extremamente ofensivo… pra uma mulher decente, pensou; Por um momento, analisou o papel dela nessa história e entendeu que nós dois tínhamos dado. Pablo interpretou o silêncio dela como raiva e continuou se desculpando.
"Me desculpa, María, não tive má intenção, foi só uma piada idiota, nada mais" – ele parecia sinceramente arrasado, talvez porque via seus avanços com ela em risco.
"Vamos fingir que você não disse nada, tá?" – María suavizou um pouco o tom sério.
"Combinado: rebobina e corta essa cena. Olha, você disse que chegou no hotel, tomou banho e foi pra cama, e aí eu falo..." – Pablo exagerou uma expressão de derrota – "Porra, María, é que só me vêm coisas... muito X" – María caiu no charme quase infantil de Pablo e sorriu.
"Deixa pra lá, deixa, senão você vai estragar mais ainda" – Pablo se aproximou dela de novo.
"É que não consigo parar de te imaginar fazendo aquilo" – María ergueu as sobrancelhas com a ambiguidade da frase.
"Aquilo?" – Pablo pareceu se dar conta do que disse.
"Poxa, hoje não acerto uma, tava falando que quando você disse que tomou banho e foi pra cama... mulher, é impossível não colocar imagem nessa frase!" – María sorriu relaxada, se sentia desejada, cortejada, se sentia assediada por um homem que agia com a liberdade de saber que ela era infiel. Pablo notou a mudança na atitude dela e continuou jogando suas cartas.
"O outro 'aquilo' que você pensou que eu tava falando... enfim, vou me calar pra não ter que mentir."
"E você sabe o que eu pensei?" – Ele olhou pra ela com incredulidade nos olhos.
"María, não mente, se você visse a cara que fez quando eu falei..." – ele sorriu e contagiou María.
"Sobre esse 'aquilo'... não costumo falar."
Ela tava flertando? Lembrou que eu tinha dito isso, embora ela não se reconhecesse fazendo, mas naquele momento percebeu o tom de voz, a intenção das frases, como brincava com o desejo de Pablo.
"Nem com o Carlos? Também não fala com ele?"
Do que ele tava falando? Das supostas aventuras dela com os amigos dele? Se era por aí que as fantasias de Pablo iam, ela quis... dar corda pra ela.
"Carlos e eu conversamos sobre tudo"
"Tudo, Maria? Até o que rolou ontem à noite?"
"O que você acha que aconteceu ontem à noite?" – Ela se sentia estranhamente segura, dominava a situação; Pablo recostou na cadeira e abriu as mãos como quem mostra uma evidência
"Me permite repetir, com minhas palavras, o que vocês estavam falando antes, você e o Carlos?" – Maria assentiu – "Vamos ver, se não entendi errado, vocês foram juntos pra uma festa" – ele corrigiu ao ver a expressão dela – "bem, uma festa, um jantar, algo assim, com uns amigos, acho que você era a única mulher, tô errado?" – Maria balançou a cabeça, se divertindo em saber o que Pablo tinha imaginado – "… A coisa se estende, e lá pelas duas da manhã o Carlos perdeu você de vista, não! Antes disso, o Carlos te vê… como ele disse? Muito ‘ocupada’ com alguns dos seus amigos" – ele fez uma pausa olhando pra ela, esperando alguma explicação – "Vejo que não vai me dar pistas, enfim, se me permite ser sincero e prometer não ficar brava comigo, te conto o que entendi por ‘muito ocupada’"
"Não vou ficar brava… espero" – A excitação dela crescia a cada instante, era a primeira vez que alguém a tratava abertamente como uma… puta? Pablo, encorajado pela atitude receptiva dela, aproximou a cadeira um pouco e baixou o tom de voz
"Quando o Carlos disse que tinha te visto muito ocupada… enfim, Maria, você vai entender que…" – ele tateava enquanto escolhia as palavras, ela tinha um meio sorriso no rosto – "te imaginei talvez dançando, talvez sentada num sofá, rodeada por alguns dos seus amigos…" – ele baixou ainda mais a voz e aproximou o rosto, ela não pensava em recuar, continuava sorrindo e seu olhar tinha se tornado profundo, sugestivo, firme, aquele olhar que surge do fundo da minha mulher nos momentos de intensidade emocional, aquele olhar que cativa e faz perder a cabeça, e Pablo não foi exceção
"Deus, mataria por esses olhos!... enfim, o que queria dizer é que te imaginei muito ocupada, sim, nos braços de um dos seus amigos, ou de vários… — Pablo dizia essas frases com cautela, verificando o efeito que causavam antes de continuar. Maria, por sua vez, permanecia impassível, sem dar pistas, com um esboço de sorriso nos lábios — “…aproveitando o momento, talvez dançando com um enquanto ele te beija e acaricia esse corpo deusa” — os olhos dele desceram direto para os peitos dela — “ou talvez… rodeada por vários dos seus amigos se deixando querer, enquanto os outros morrem de inveja… esperando a vez deles” — Pablo calou, esperando o veredito de Maria. Ele tinha arriscado muito, e sua expressão mostrava, além de desejo, preocupação com a possível reação. Ela sabia disso e evitou mostrar o que pensava. Após uma pausa que pra ele deve ter sido uma tortura, Maria disse: “Nossa, vejo que você tem uma imaginação bem fértil.”

Minha entrada na sala interrompeu a conversa. Quando entrei, vi os dois tão perto um do outro que meu coração deu um pulo. A expressão de Maria olhando pra ele era de pura sensualidade. O que tinha acontecido? Eu tava morrendo de vontade de puxar ela de lado pra me contar. Amaldiçoei meu chefe por me afastar dessa cena, embora tenha pensado que, se eu não tivesse saído, talvez a situação pra isso não tivesse rolado, fosse lá o que fosse. Maria me viu me aproximando, e Pablo, ao notar o olhar dela, virou o rosto pra mim e instintivamente se afastou.

“Tô interrompendo algo?” — usei de propósito a mesma frase que Pablo tinha usado no dia anterior num momento parecido.

“A gente tava se conhecendo um pouco melhor, né Maria?” — Tava claro que Pablo não me via como rival, mas quase como um cúmplice diante dela. Será que minhas alusões e comentários tinham sido tão óbvios assim?

Saímos do restaurante e, como no dia anterior, ele nos acompanhou até a porta. Chegando lá, peguei Maria pela cintura e beijei ela na boca uma, duas vezes.

“Te vejo mais tarde, linda.”

Quando me afastei dela, Pablo se aproximou e também a pegou pela cintura, beijando-a na bochecha, praticamente na comissura dos lábios dela. lábios.
"Até logo, María, foi um prazer conversar com você"
"Te pego no hotel?" – aquela frase era uma desculpa pra me aproximar dela de novo e mandar um olhar intenso de tesão
"Melhor a gente conversar, talvez eu saia pra dar uma volta" – aí, devolvi o susto que ela me deu quando chegou
"Você marcou algo?" – pisquei um olho pra ela
"Não, talvez eu ligue pra eles depois, agora quero descansar um pouco, tô exausta" – era incrível, ela nunca recuava, não conseguia deixar ela encurralada.

Subimos metade da escadaria em silêncio, eu sentia que o Pablo estava tramando algo. No fim da escada, ele parou e se virou pra mim
"Carlos, posso te perguntar uma coisa, em confiança?" – um arrepio subiu pela minha espinha
"Carlos, posso te perguntar uma coisa, em confiança?" – um arrepio subiu pela minha espinha
"María e você… enfim, tenho a impressão de que vocês têm uma relação muito… digamos, liberal"
"Dentro de um limite, sim; a gente gosta de experimentar coisas novas" – eu improvisava na hora, embora nos últimos dias tivesse imaginado uma cena assim umas cem vezes, não estava totalmente preparado.
"Eu ouvi vocês conversando antes, quando a gente ia pro restaurante" – sorri, dando a entender que sabia do que ele tava falando – "Bom, entendi que você deixou a María com os amigos de vocês e que ela passou a noite fora, com eles… quer dizer…" – eu o interrompi, já tinha uma frase pronta desde o dia anterior, uma frase que queria ouvir eu mesmo dizer
"Olha, Pablo: a María não é minha esposa, nem minha namorada, nem minha irmã, ela decide quando e com quem, a gente só se dá bem, tem química e dá uma trepada de vez em quando" – esperava que não desse pra perceber o tremor que percorria meu corpo
"Então você não se importaria se eu…" – ele fez uma pausa, dava pra ver que tava nervoso – "…bom, acho que eu caí no gosto dela, a gente ficou conversando enquanto você falava no telefone e tenho a impressão de que ela não se importaria de ir mais longe comigo, se você não tiver problema" – eu tava completamente sem chão a emoção, aquilo era muito mais do que eu podia imaginar dessa viagem, agora era hora de controlar a parada pra não sair do controle e deixar só como um tesão pro Pablo e uma aventura pra nós dois.
"Isso é coisa da Maria, não tenho nada a objetar" – parecia mentira eu estar falando aquilo, minha razão mandava parar, enrolando, mas minhas palavras pareciam responder a outra pessoa.
"Puxa, fico muito feliz, não quero atrapalhar nem me meter se estiver sobrando"
"Só uma coisa, Pablo" – ele me olhou na expectativa – "Não se apresse, Maria odeia vulgaridade e pressa, assim você não consegue nada" – ele concordou com a cabeça.
"Valeu, Carlos, vou levar em conta" – eu tava tentando ganhar tempo, fazer com que o Pablo não se precipitasse significava que o jogo duraria mais antes de eu ter que acabar com ele.
Seguimos andando até a sala, mas naquela tarde nem ele nem eu aproveitamos nada da exposição. Minha mente repetia sem parar a conversa em que eu tinha dado sinal verde pra ele tentar transar com minha esposa, uma hora me arrependia, outra me excitava; Decidi avisar a Maria naquela mesma noite.
Quando a sessão acabou, o Pablo me chamou pra umas cervejas, mas me desculpei, precisava falar com ela na hora.
"Beleza, e se a gente se encontrar mais tarde pra tomar algo?" – Pablo insistia, não via a hora de ter ela de novo ao alcance.
"Me liga mais tarde e se a gente estiver por perto, a gente se vê" – não tinha sido essa minha primeira intenção, mas de novo o tesão de ver o Pablo assediando minha esposa me venceu.
No caminho pro hotel, a Maria me ligou, tava numa cafeteria perto e combinei de subir no quarto pra trocar de roupa antes de encontrar ela.
Caminhei até a cafeteria e a encontrei sentada na varanda lendo um livro pelos óculos escuros; Ela tava com um vestido branco soltinho, de alças largas e decote reto, tinha as pernas cruzadas e a visão das coxas me lembrou o sortudo que sou. Me abaixei pra beijar ela.
"Oi Querido, como foi a tarde?"
"Boa, uma sessão meio chata, e você? O que fez?"
"Voltei pro hotel, fiquei um tempinho deitada vendo TV, depois me arrumei e desci pra ler aqui."
"Muitos mosquitos?" – Maria sorriu.
"Com o mosquito principal que nos enfiaram, já tenho o suficiente" – foi ela quem trouxe o Pablo à tona, tinha certeza de que ela queria saber se a gente tinha conversado.
"O que você fez com ele enquanto eu tava fora? Ele tava elétrico" – vi os olhos dela brilharem.
"Sério? O que ele te disse?"
"Primeiro você, me conta o que conversaram."

Maria me contou calmamente as provocações do Pablo, parecia inacreditável estar ouvindo aquilo e mais inacreditável ainda como ela tava vivendo aquilo. Dava pra ver que ela tava empolgada, feliz, animada. Enquanto ela me relatava como o Pablo tinha se aproximado dela quase encostando no rosto dela e como ela esperava que eu a visse assim… entendi que ela já não era a mesma que tinha saído de Madrid há apenas três dias.

"Ele te tratou como uma puta, sabe disso, né?" – os olhos dela ficaram perversos.
"Eu sei" – me aproximei dela.
"E quando você chegou no hotel, teve que trocar aquela calcinha molhada."
"Imediatamente não" – olhei pra ela sem saber do que tava falando – "Sabe? Eu gostava da sensação de umidade, ali" – ela acompanhou essa palavra com um gesto provocador dos olhos em direção à buceta – "enquanto andava na rua, sentia a calcinha molhada." – Não podia acreditar, Maria tava muito mais metida no papel dela do que eu imaginava, ela viu meu rosto de surpresa e riu abertamente – "Te incomoda?"
"De jeito nenhum, pelo contrário, adoro" – me aproximei mais dela e baixei a voz – "Adoro que você seja tão puta" – os olhos dela mostraram a emoção que essas palavras causavam – "Convencemos ele de que ontem à noite você esteve pouco menos que numa orgia."
"Somos loucos" – ela me disse sorrindo.
"Ele me perguntou como é nossa relação."
"O que ele quer dizer com isso?" – Maria não entendia direito.
"Se eu sou ciumento, se me incomoda que ontem à noite você tenha ficado com todo mundo. Esses homens" – falei essas palavras fazendo gestos exagerados, ela riu de novo.
"E o que você disse pra ele?" – não sabia bem como abordar o assunto, sabia que tinha deixado o caminho aberto pra ela e duvidava da reação da Maria diante da minha atitude tão arriscada.
"Falei que você não é minha esposa, nem minha namorada, nem minha irmã."
"Que bruto! Você tá passando dos limites" – a expressão dela ficou séria por um momento, mas o brilho nos olhos não tinha sumido – "e como ele reagiu?"
"Ele me perguntou se eu teria algum problema em..." – parei a frase, Maria não acreditava no que eu tava dizendo, sorri, ela abriu a boca pra falar, mas continuou me olhando por mais um instante, depois fez um gesto com a mão pra eu continuar, ela tava linda, percorri o corpo dela tentando enxergar como o Pablo a via; Reparei nos peitos dela, soltos por baixo do vestido.
"Vejo que você não colocou sutiã hoje à tarde."
"Não muda de assunto."
"Falei pra ele que isso era problema seu e dele" – ficou um silêncio, eu não conseguia adivinhar pela expressão dela o que tava passando na cabeça dela, por fim ela começou a falar.
"Isso já foi longe demais Carlos, acabou" – o tom firme dela, no entanto, não mostrava raiva.
"Não tô querendo te jogar na cama dele, querida, é só um jogo."
"Não Carlos, não, é um jogo que pode ficar complicado."
"O Pablo não vai te estuprar, você é quem tem que botar os limites e tenho certeza que ele não vai ultrapassá-los, enrole ele, ainda temos uns dois dias aqui, deixa ele entrever que talvez na última noite..."
"Isso é perverso, você tá brincando com uma pessoa, não é um boneco."
"Eu sei, mas me diz uma coisa: além dessa primeira reação de... sensatez que te invadiu agora, como você se sente quando sabe que ele quer te comer e acha que tem chance? Como você se sente quando ele olha pras suas tetas sem vergonha, quando te beija na bochecha roçando seus lábios como fez hoje?" – pela expressão da Maria, deduzi que ela achava que eu não tinha percebido aquilo. detalhe.
Houve uma pequena pausa em que ficamos nos olhando, nos analisando, tentando decifrar o que se passava em nossas mentes.
"Tenho certeza de que você nunca sentiu com tanta intensidade" – ele me olhou de novo nos olhos.
"Nunca?" – eu sabia onde ele queria chegar e ponderei.
"Nunca é muito dizer, talvez no começo do nosso relacionamento, mas isso é diferente, Maria. Nem melhor nem pior, nem mais nem menos, é diferente do nosso."
"Você acha que a gente estagnou, que não nos excitamos mais como antes?"
"Eu não disse isso, querida, nem falei nem penso, mas é evidente que esse jogo traz um nível de risco e de tesão que faz a excitação ser nova, diferente."
Maria continuava pensativa, matutando sobre meus argumentos; continuei:
"Me diz uma coisa: ontem, quando você se apoiou na mesa, eu mesmo vi seus peitos quase por inteiro, faltou pouco pra ver a cor da aréola" – exagerei, e a vi corar, fiquei fascinado com aquele vestígio de pudor – "mas você não se afastou, mesmo sabendo que o Pablo estava te olhando, certo?" – ela assentiu com a cabeça – "O que você sentiu? Não foi algo... extremamente intenso?" – Maria lembrou por uns instantes e depois me olhou nos olhos.
"Eu não conseguia me mexer, me dizia que tinha que mudar de posição, mas queria aguentar só mais um pouco. Além disso, você estava olhando e eu sabia que estava te deixando louco ver ele me encarando."
"E o que você sentiu?" – Maria suspirou e ergueu os olhos, relembrando.
"Foi muito forte, não sei explicar, parecia que não era eu. Mas era, sim, era eu. Eu estava me deixando olhar e não conseguia parar."
Deixei um longo silêncio firmar o que acabávamos de conversar. O som do meu celular interrompeu aquele momento.
"Alô?... Ah, oi Pablo..." – Maria chamou minha atenção e começou a balançar a cabeça negativamente – "sim, estamos tomando algo num bar..." – olhei de novo pra Maria, pedindo permissão. Ela negava, mas conheço bem quando ela fecha totalmente pra algo, e não era o caso – "Sim, perto do hotel," – me virei. pra olhar a placa da rua e antes de falar pra ela, olhei de novo pra Maria, ela fez uma careta de resignação e então dei o endereço pro Pablo
"Em quinze minutos ele tá aqui"
"Você já tinha preparado isso? – o tom dela era de raiva de novo, mas pela minha expressão ela sacou claramente que aquilo não era uma armadilha
"De jeito nenhum, Maria, antes ele me propôs tomar algo juntos e combinamos de nos ligar, tudo dependia de você" – Maria riu com sarcasmo
"Que ironia! Dependia de mim? – ela se recostou na cadeira, mal-humorada, eu peguei meu celular de novo e comecei a procurar as últimas chamadas recebidas
"O que você tá fazendo?"
"Cancelar, vou falar que temos outros planos" – tentei não soar sério, não podia mostrar raiva nem decepção, não podia, não devia. Continuei procurando no celular
"Porra, Carlos! Você não entende?" – larguei o celular na mesa
"Tudo bem, amor, tá tranquilo, isso acabou, não quero te ver desconfortável" – fiz o gesto de pegar o celular e Maria segurou minha mão
"E se a gente não conseguir controlar isso? E se ele se sentir enganado e... sei lá, ficar puto ou violento?" – não era nada provável, e eu senti que os medos de Maria não eram por aí
"Você tem medo dele... ou não confia em mim... ou tem medo de si mesma?" – tinha acertado em cheio nos pensamentos dela, ela me olhou se sentindo descoberta
"Você acha que eu quero transar com ele?"
"Você acha que eu quero que você transe com ele?" – Maria me olhou incrédula e sorriu – "Você se engana, Maria, não sou louco, não vou colocar nosso casamento em risco, reconheço que adoraria te ver dando, você sabe bem..." – Maria fez um sinal pra eu baixar a voz – "mas não é o momento, nem você nem eu estamos prontos pra algo assim ainda" – me recostei na cadeira – "Nem sei se algum dia vamos estar"
Percebi que Maria relaxou, minhas palavras eram totalmente sinceras, ela me conhece o suficiente pra saber disso. Toda a putaria que me dava ver Maria flertando com Pablo não me fazia perder o chão, a última coisa que eu queria era uma situação em que nós dois nos deixássemos levar pelo desejo e pela excitação e depois ficássemos nos arrependendo a vida inteira. Não era esse meu objetivo e foi o que eu disse a ele.
Pablo tinha corrido; Ainda estávamos falando sobre isso quando eu o vi aparecer no fim da rua tentando nos localizar.
"Já não tem escolha, ele vem aí" – notei ela tensa, preocupada, mas quando ele chegou perto de nós, Maria mostrava a mesma compostura de sempre.
"Boa tarde, ainda bem que o trânsito estava milagrosamente tranquilo" – ele se abaixou para beijá-la, colocou a mão na bochecha dela e a beijou de um jeito que por um momento pensei que tinha sido nos lábios. Maria me olhou, baixou os olhos e se recuperou.
Ele estava com a respiração ofegante, sinal de que a desculpa do trânsito era mentira, na verdade tinha dado uma corrida pra chegar logo. Eu estava sentado de frente pra Maria e ele ocupou uma cadeira perto dela.
"Vestido lindo, fica maravilhosa nele, bom, como em tudo que você veste" – os olhos dele voavam uma e outra vez pros mamilos dela marcados no tecido do vestido. Ele só me olhou uma vez pra ver minha reação, depois deve ter lembrado da nossa conversa e não teve mais receio.
Começamos a conversar sobre tudo um pouco, mas tava claro que ele só tinha olhos e palavras pra Maria. Ela se deixava elogiar e aos poucos fui vendo como a tensão dos primeiros momentos sumia.
Pablo aproveitava qualquer chance pra se aproximar dela e até uma vez, depois de contar uma piada, deixou a mão pousar de leve na coxa dela. Maria me olhou como se tivesse levado um choque, eu sorri pra ela tentando acalmar.
Passou pela minha cabeça a ideia de deixar eles sozinhos de novo, dar a chance do Pablo se soltar ainda mais. Maria já não mostrava nenhum sinal de medo ou tensão.
"Se me dão licença um momento, já volto" – levantei e fui em direção à cafeteria, entrei no banheiro e me tranquei num dos cubículos, me apoiei na parede e fechei os olhos. Na minha mente passaram imagens em as que Pablo acariciava a coxa de Maria e ela me olhava enquanto se deixava fazer, ou então via Pablo chegando na cafeteria e dando um beijo na boca dela.
Senti a excitação apertando na minha calça e por um momento quis me masturbar, mas saí de lá. Quando cheguei no balcão, olhei pro terraço; estavam de costas pra cafeteria, na diagonal em relação a mim, e vi Pablo se aproximando dela pra falar, Maria não se afastava, queria muito poder ver o rosto dela. De repente, vi Pablo se esticar na cadeira e colocar o braço por trás de Maria, o coração começou a bater desenfreado, Maria não reagiu e ele, vendo que não era rejeitado, virou-se pra ela e continuou falando enquanto o braço dele roçava as costas nuas dela.

Um garçom estava falando comigo há um tempo, nem sei quanto, não dava pra justificar minha presença no balcão já que eu estava numa mesa, no fim pedi um maço de cigarro, paguei e saí, guardando no bolso.

Quando cheguei na mesa, Pablo não fez questão de mudar de posição, ainda me olhou buscando alguma reação minha, mas eu estava focado em Maria, que me olhava de olhos bem abertos.

"Tava comentando com Maria meu plano de convidar vocês pra jantar antes disso acabar, vocês não vão me dizer que não, né! Além disso, depois posso mostrar alguns dos melhores lugares noturnos de Sevilha"
"Nada de tablaos, por favor, muito clichê pra mim" – falei, dando a entender que aceitava o convite
"Prometido, nada de tablaos, mas um pouco de dança, hein?" – disse virando-se pra Maria, a mão dele subiu até o ombro dela – "Carlos me disse que você dança superbem" – ela virou a cabeça e sorriu pra ele, mas percebi que não tava confortável. Não sabia como quebrar aquele momento sem causar uma situação tensa, mas antes que eu pudesse fazer algo, Maria se levantou

"Vou… comprar um bilhete dos cegos, ver se tenho sorte" – foi uma desculpa totalmente improvisada na hora pra se livrar de Pablo, Maria nunca joga.
"Vou com você, pra ver se me dá sorte — Pablo se levantou e pegou ela pela cintura pra deixar ela passar; me virei e vi que ele não tinha soltado a presa, mas na hora se afastou como se tivesse queimado, imaginei que a María tinha botado ele no lugar.
"Cê não acha que tá indo rápido demais?" — falou María com a voz mais fria dela, Pablo soltou ela na hora.
"Desculpa, María, não queria te incomodar, achei que... sei lá, parecia que você não me achava um cara ruim, que a gente..." — María pensou por um momento em deixar tudo claro, mas alguma coisa segurou ela, naquela noite ela não soube me explicar o que tinha segurado.
"Você não queria abrir mão do jogo, ainda não" — falei eu.
A gente continuou conversando, o clima tinha ficado menos tenso e Pablo tinha parado de pressionar ela e tava mostrando de novo o jeito simpático dele, a gente tava confortável.
Já eram quase nove da noite quando sugeri a gente ir embora, Pablo ainda tentou sem sucesso jantar com a gente naquela noite, mas no fim desistiu, na hora de se despedir da María ele foi mais cuidadoso do que quando chegou.
A gente caminhava pro hotel sem falar nada, eu esperava que ela desse o primeiro passo, mas ela tava calada.
"Você cortou ele, bem feito" — María não respondeu.
"Tá bem?" — ela me olhou por um segundo e voltou os olhos pra frente de novo.
"Tô, tô bem."
"Não parece" — peguei ela pelo ombro com meu braço e ela se apertou contra mim.
"Não, sério, tô bem, só que..."
"Com medo?" — ela reagiu como eu esperava.
"Quando você me viu com medo?"
"Então?"
"Isso foi rápido demais."
"Já foi embora, sem problema, aconteceu o que eu sabia: ele passou do ponto e você cortou."
"Talvez eu devia ter cortado antes, na varanda, quando ele colocou o braço atrás de mim."
"Podia ter feito, é verdade, mas você tava gostando" — ela começou a balançar a cabeça.
"Não achei um jeito de fazer sem parecer... caretice."
"Sim, mas além disso, você tava gostando, vi na sua cara."
"É uma sensação parecida com vertigem" — eu sorri, era a mesma sensação que eu tava sentindo.
"Então... lá estava você, com seu amante na sua frente e com outro cara que se Morre de vontade de te foder"
"E vai ficar só na vontade"
"Já sei"
"Amanhã não quero almoçar com ele, ok? A gente come sozinhas"
"Claro"
Na manhã seguinte, quando cheguei na sala, não vi o Pablo. Não dei importância até a aula começar e ele não aparecer. Aí tive um pressentimento: e se...? No intervalo, liguei pra Maria.
"Oi" – ela nunca é tão seca quando sabe que sou eu ligando, e minhas suspeitas aumentaram
"Oi, amor, é impressão minha ou você tem companhia?"
"Acertou"
"Que filho da puta!" – meu tom não era de raiva, mas sim de surpresa pela ousadia dele – "Como foi?" – Ouvi a voz do Pablo perguntando: 'uma torrada, finalmente?'
"Apareceu no hotel, ligou da recepção"
"Onde vocês estão?"
"No Parque Maria Luisa, num terraço" – meu coração apertou. Será que eu queria tanto que a Maria desse esses passos que, quando ela tomou a iniciativa sem mim, veio a dor e o ciúme?
"Então você foi com ele?"
"Você acha ruim?"
"Não, querida, sabe que não. Tô... não sei explicar... é muito forte"
"Daqui a pouco vou deixar ele e volto pro hotel. Depois a gente almoça, eu e você, ok?"
"Me diz uma coisa: ele passou a mão em você como ontem?" – a pausa depois dessa pergunta me fez ter certeza que sim
"Um pouco, sim, mas lidei bem. Ele já tá voltando"
"Um beijo, meu amor. Aproveita, você manda aí, não se preocupa. Depois me conta... a gente almoça melhor no hotel?"
"Como você quiser. Um beijo"
Fiquei com o telefone na mão, sem reação. Do Pablo eu podia esperar algo assim. O que me deixou sem chão foi a Maria ter aceitado sair com ele. O que será que o Pablo fez? Como ele passou dos limites?..
...
Maria estava terminando de secar o cabelo quando o telefone do quarto tocou. Saiu do banheiro e atendeu.
"Alô?"
"Bom dia" – ela reconheceu a voz do Pablo na hora. Não conseguiu evitar que uma sensação de inquietação a invadisse. Era besteira, mas ela ainda estava nua, e falar com ele a deixava nervosa, como se ele pudesse adivinhar. Bom dia, por que você tá me ligando?"
"Tô aqui embaixo, na recepção, esperava que você quisesse tomar café da manhã comigo" – Maria sentiu os nervos tomarem conta do estômago dela.
"O que você tá fazendo aqui?" – o tom dele era sério, como se falasse com um moleque mimado.
"Tava com vontade de passar mais um tempo com você, batendo papo, tomando um café e uma torrada, depois vou pro curso e já viu como com pouca coisa você me faria feliz" – ela olhou as horas.
"Você já não devia estar no curso?"
"Tô matando aula por sua causa" – um sorriso brotou espontâneo no rosto dela, parecia ingênuo, quase infantil.
"Só um café e você vai embora, combinado?" – ela se debatia entre recusar ou deixar ele cortejá-la de novo, aquela sensação agradava. Sabia dos desejos dele, das intenções, e isso dava uma carga de tesão extraordinária a esse encontro.
"Prometo" – a voz dele soou alegre.
"Ainda vou demorar, tava secando o cabelo quando você ligou"
"Um milhão pra te ver pelo buraco da fechadura!" – Maria sorriu de novo, um comentário veio à cabeça mas ela descartou; e sem saber como, se viu falando.
"Não tô apresentável" – ela flertava, de novo flertava.
"Claro que tá, acabou de sair do banho, tô errado?" – Pablo queria brincar, intuía a boa disposição de Maria.
"Tá certo" – um arrepio de prazer acompanhou essa frase.
"Continuo adivinhando: certeza que a única roupa que você tá usando é... uma toalha na cabeça"
"E como você quer que eu seque o cabelo com uma toalha na cabeça?" – ela disse, divertida.
"Muito melhor, então a única roupa que você tá usando é... o secador de cabelo na mão" – Maria curtia aquele jogo safado.
"Acertou de novo" – ao se declarar nua, uma onda de prazer nasceu na barriga dela e se espalhou por toda a pele, arrepiando ela.
"Viu como tava apresentável? Maravilhosamente apresentável" – Maria se forçou a cortar a conversa.
"Anda, se não me deixar ir, nunca chego no curso"
"Te espero no saguão"
Maria desligou e discou meu número no celular, mas não chegou a ligar. Pensou que a única coisa O que ia conseguir era ficar nervoso e me desconcentrar; largou o celular e entrou de novo no banheiro, onde terminou de secar o cabelo. Tava nervosa e, mesmo dizendo pra si mesma que não tinha motivo, não conseguia controlar a ansiedade. Duvidou sobre que roupa vestir: primeiro escolheu uma saia jeans e uma camiseta vermelha, pegou uma calcinha e um sutiã, e quando vestiu, se olhou no espelho, mas algo não batia. Tirou a roupa íntima e pegou uma tanga e um sutiã bem leve; quando colocou a camiseta e a saia, achou que tava curta demais e escolheu uma calça, mas antes de terminar de abotoar, tirou tudo, jogou no sofá e vestiu a minissaia de novo. Se olhou no espelho e sentou na cama pra ver até onde subia.

"Mas o que que há comigo? Pareço uma colegial!" – exclamou em voz alta.

Tirou o sutiã e olhou o efeito da camiseta sem ele; era demais, não podia sair assim, como é que tinha pensado nisso? Vestiu de novo e trocou a tanga por uma calcinha, se recriminando por ter escolhido aquilo. Maria era um emaranhado de nervos.

No fim, saiu do quarto com a minissaia jeans, umas sandálias de salto, a camiseta vermelha e uma bolsa combinando.

Quando chegou no hall, Pablo se levantou. Maria avançou até ele, vendo o olhar de desejo e admiração dele; adorava aquela sensação, não conseguia evitar, gostava de se sentir desejada, gostava de interpretar aquele papel de mulher liberal, infiel, descaradamente livre.

"Valeu a pena esperar, você tá impressionante" – Maria sorriu com o elogio e se aproximou pra dar um beijo nele. Ele a pegou pela cintura e fez um movimento que a obrigou a mudar a posição do rosto, então a beijou rapidamente nos lábios.

"Não faz isso de novo" – disse, tentando esconder o constrangimento atrás de uma máscara de frieza. Começou a andar em direção à saída do hotel, esperando que ninguém da recepção tivesse visto aquilo.

"Precisava fazer isso, mesmo que seja a última coisa que eu faça na vida, tinha que provar essa boca" – ele era um bajulador. Sabia, mas não conseguia ignorar o efeito das palavras dele. Tentava se sentir ofendida, mas não rolou.
"Não gosto que me enganem"
"Eu nunca te enganei, María. Desde o começo, nunca escondi o que sinto por você"

Enquanto isso, saíram do hotel. María não queria ficar ali, onde já eram conhecidos.
"Vou te levar pra tomar café num lugar que você vai amar"
"Você não tem muito tempo, tem que voltar pro curso"
"Foda-se o curso, prefiro mil vezes ficar com você"
"Um café, um tempinho e nada mais, foi isso que combinamos"
"Tá bom, como você quiser"

Pablo tinha o carro na porta do hotel. Quando María viu, já começou a pensar em recusar — não tinha a menor intenção de entrar num carro com ele. O carro estava estacionado em área proibida, e Pablo teve que discutir com um guarda que no fim deu uma multa e mandou tirar o carro dali na hora.
"Estaciona e volta, eu espero"

Pablo parecia arrasado depois da bronca do guarda. Com a multa ainda na mão, tentou rebater, mas ficou sem palavras. Parecia tão indefeso que María não conseguiu evitar sentir uma certa ternura por ele.
— Tá, tudo bem, mas não quero ir longe, por favor — sentou-se, tentando cuidar pra saia justa não subir demais, mas era missão impossível. Pablo dirigiu por uma avenida larga e, de vez em quando, os olhos dele iam pras coxas dela.
"Olha o trânsito, não quero que a gente bata" — ela gostava cada vez mais de se sentir olhada do jeito que ele olhava. Só desejo, não tinha mais nada: nem carinho, nem amor... puro desejo. Também não sentia perigo. Pablo era insistente, mas ela não se sentia atacada.

Chegaram perto do parque e logo ele conseguiu estacionar. Dali foram andando e conversando até o parque. A manhã ainda estava fresca e agradável, mas depois viria o calor sufocante daquele julho extremamente quente. Caminhavam por uma trilha entre acácias e flores quando as mãos deles se roçaram. Nenhum dos dois disse nada. Diante daquele roçar casual, mas no terceiro encontro das mãos, Maria entendeu que já não era acaso; no tropeço seguinte, Pablo a segurou com suavidade, quase sem apertar. Maria se surpreendeu, não esperava de jeito nenhum que Pablo ousasse tanto, mas além da surpresa, descobriu outras emoções que não esperava; naquele momento, bastaria um leve movimento do braço para que se soltassem; mas seu corpo não obedecia às suas ordens, em vez de afastar a mão, ela o encarou.

"O que você está fazendo?" – Pablo sorriu com doçura.

"Te tocando, sentindo sua pele, seu toque, seu calor" – Maria não entendia por que não se soltava, ele mal a pressionava, ela podia sem esforço separar a mão e ficar livre. Sabia o que a Maria de sempre devia fazer, do que não tinha tanta certeza era do que faria essa outra Maria, a casada infiel em viagem com o amante.

"Você não acha que está passando dos limites?" – sua voz não era convincente, não soava a raiva, nem sequer a reprovação.

"Por quê? Por levar de mão dada uma mulher gostosa pelo jardim mais bonito da cidade?" – Pablo, ao ver que ela não oferecia resistência firme, abriu a mão, que mal roçava os dedos dela, e a estendeu para agarrar toda a palma da mão dela.

"Fica quieto" – essa frase, mal dita, lhe pareceu ridícula, incoerente com o tipo de mulher que representava, imediatamente se arrependeu de tê-la dito. Pablo a confrontou com sua realidade.

"Você é que está quieta, menina, mal te seguro, és livre para se soltar quando quiser… o que acontece é que você não quer, né?"

Maria olhava para frente, sem falar; Ele tinha razão, bastava um movimento e estariam separados, mas ela não fez. Pablo sorriu e apertou um pouco mais a mão dela; apontou com um dedo para um casal que se aproximava de frente.

"Olha esses que vêm na nossa direção, com certeza pensam que somos um casal, talvez marido e mulher" – Maria sentiu alívio ao pensar que aquilo acontecia longe de Madri, numa cidade. onde não podia encontrar ninguém conhecido.
Continuava lutando, pensando que quanto mais tempo tolerasse aquela situação, mais esperanças estava dando ao Pablo; mas aguentava, só queria saborear aquilo um pouco mais, só um pouco mais. O tesão era tão intenso quanto uma droga.
Caminharam de mãos dadas, conversando, Maria tinha a pele toda sensibilizada e sentia o contato com ele de uma forma extraordinariamente forte; De repente, Pablo levou o braço para trás arrastando a mão de Maria até a cintura dele, largou ali e subiu o braço até pegá-la pelos ombros, a mão de Maria tinha ficado mole, mal roçando a cintura de Pablo, enquanto isso ele mexia o polegar no ombro nu dela, uma carícia lenta e constante; Maria sentiu as batidas do coração socando o peito, precisava dizer algo, precisava fazer algo, por que não se afastava dele? O que a impedia?
"Você não está indo rápido demais?" – ela percebeu a incoerência daquela frase ao mesmo tempo que não recusava o abraço dele
"Não, amor, ir rápido demais seria algo assim" – ele parou, fez ela virar-se para ele e a beijou na boca.
O tempo parou, Maria sabia que não devia deixar aquilo acontecer, a cabeça dela mandava avisos enquanto sentia a pressão nos lábios; Sentiu a novidade, a diferença daquele beijo em relação aos que já conhecia, os meus; A mente dela ia a mil como é que podia, naquele momento, fazer comparações? Pablo acariciava as bochechas dela enquanto a beijava e ela descobriu que as mãos, respondendo a um gesto habitual comigo, tinham se movido até envolver as costas dele, sem saber como, sem saber quando.
Pablo terminou o beijo e olhou nos olhos dela, bem perto, Maria mal conseguiu murmurar
"Pablo, não…" – mas de novo sentiu os lábios dele na boca e percebeu que dessa vez não estava só se deixando beijar, estava beijando ele; as mãos dela, que pareciam se mexer sozinhas, acariciavam as costas dele..
Foi tudo tão rápido e a tão intenso... de repente recuperou a sanidade e se afastou bruscamente
— "Pablo, chega, por favor"
Ela baixou a cabeça, evitou olhar pra ele e começou a andar no mesmo passo lento que tinham levado até então
"Maria, Maria, o que foi? Você quer tanto quanto eu, me diz que não é assim e não vou mais te incomodar" – ela mal o ouvia, imersa nas próprias contradições, sentiu Pablo pegar sua mão de novo e o rejeitou, mas ele não desistiu e pegou de novo, dessa vez Maria não resistiu, se debatia entre seus desejos, que a levavam a se deixar levar, e sua sensatez, que pedia pra parar com aquilo; No meio dessa batalha, apareciam na mente dela minhas palavras, meus desejos, minhas pressões pra que ela aproveitasse, 'me surpreenda' eu tinha dito, ela lembrava bem e pensou que com certeza ia me surpreender, e muito
"Você é a mulher mais gostosa que já conheci, mas se fosse só isso... é que além disso você é inteligente, simpática, engenhosa, tem classe e exala sensualidade, tem um jeito de entender o sexo, os relacionamentos... você é perfeita, Maria" – Pablo descrevia uma mulher com quem ela mal se identificava, mas se sentia tão lisonjeada... Cada vez se sentia mais indecisa, menos disposta a perder aquele momento doce em que se sentia tão desejada, tão valorizada, mil desculpas surgiam na mente dela pra adiar o instante em que inevitavelmente teria que parar o avanço de Pablo.
Ela pensava que não tinha acontecido nada que não pudesse parar, só uns beijos, só umas mãos dadas, não era nada, quase nada; Essa era a desculpa dela pra se deixar levar pelo prazer incomum que aquela situação provocava, andando ao lado de Pablo de mãos dadas, ainda sentia na boca o contato dos lábios dele, tão diferentes, de novo aquela ideia louca, aquele beijo tinha um gosto diferente, nem melhor, nem pior, diferente: novo.
Talvez aí estivesse a questão: a novidade; No nosso casamento não surgiu cansaço nem monotonia; a rotina não se instalou nas nossas vidas, mas a novidade daqueles beijos, a sensação nova de se sentir mulher e não esposa diante dos homens, provocava nela emoções fortes, mais fortes que o normal; ela lembrou que esse tinha sido meu raciocínio na tarde anterior.
Pablo continuava falando com ela, tentando seduzi-la com suas palavras, embora ela mal o escutasse, absorta nesses pensamentos; Ele a pegou pelos ombros de novo e não percebeu nenhuma reação de rejeição nela, então pegou sua mão novamente e a levou até a cintura dele e, ao ver que ela se deixava fazer, a apertou contra si. Maria tentava encontrar argumentos que fossem válidos para a mulher que ela supostamente era; se não tinha tido problema em transar com os amigos de Sevilha, até mesmo passar a noite com eles, que argumento poderia dar a ele para não fazer o mesmo? Sentia o estômago tenso de nervoso, sua atenção se concentrava nos estímulos que representavam algo novo: o toque da mão no ombro, o leve roçar dos quadris ao andar, o tato da cintura de Pablo em sua mão…
Eles tinham chegado a um terraço e foram para uma mesa afastada do quiosque, sentaram-se um ao lado do outro, ela à esquerda dele. Maria cruzou as pernas, fracassando na tentativa de manter a saia cobrindo as coxas, e de novo Pablo pegou a mão dela entre as suas. Maria olhou nos olhos dele, mas não encontrou nada para dizer; estava preocupada em frear aquilo, desejava que nunca acabasse, mas o tempo jogava contra ela. Sabia que Pablo não pararia por ali; quanto mais demorasse a pará-lo, mais difícil seria. Ele não podia interpretar a conduta dela senão como a da mulher que achava ter à frente: liberal, sem preconceitos…
Naquele momento, o garçom se aproximou; antes que pudessem pedir, meu tocou no celular dela. Enquanto conversávamos, Pablo pediu dois cafés e umas torradas.
Maria se levantou para continuar nossa conversa e, quando terminamos, voltou para a mesa; Minhas palavras ecoavam na cabeça dela: ‘aproveita…’ E depois me conta", pensou que nada a impedia de dar vazão ao seu desejo, se deixar seduzir, provar o prazer proibido… eu não era um obstáculo, pelo contrário, parecia incentivá-la sem se importar com as consequências; Mas ela não era tão louca, ela sim pensava nas consequências, além disso teve que admitir algo que não queria ver até aquele momento: ela, a mulher autossuficiente, de personalidade, autônoma, se sentia frágil e insegura sem mim ao seu lado.
"Era o Carlos?" – perguntou Pablo, ela confirmou com um gesto – "Você disse a ele que estava comigo?"
"Não precisei, ele imaginava" – Pablo sorriu balançando a cabeça.
"Você não para de me surpreender" – ele se virou para ela, olhando como se tentasse captar até o menor detalhe do corpo dela, Maria se deixou olhar, aproveitou aquele momento, livre de preconceitos via como os olhos de Pablo desenhavam sua figura. Seguia seus caminhos, notava suas longas paradas nas coxas ou nos peitos. E ela sentia aquilo quase como uma carícia. Como parecia diferente! Poucos dias antes e ela teria se sentido desconfortável nessa situação.
"O que eu tenho que fazer?" – Maria não entendeu o alcance da pergunta que Pablo acabara de fazer e mostrou sua estranheza arqueando as sobrancelhas – "Me diz, o que eu tenho que fazer pra você me querer um pouquinho?" – Maria sorriu.
"Você não tá atrás de que eu te queira"
"O atrito gera carinho, a gente pode começar se roçando" – ele estendeu a mão até que as pontas dos dedos indicador e médio roçaram a coxa dela seguindo a borda da saia, Maria sentiu de novo aquela incapacidade de fazer o corpo obedecer às ordens que vinham da mente, queria se mexer, se afastar daquela mão, dizer pra ele parar e no entanto estava muda, parada, sentindo aquele toque na pele nua, sabendo que aquele silêncio era um sinal claro pra Pablo que deslizava bem devagar os dedos mal roçando a pele dela, desenhando o limite marcado pela saia, Maria estava sentada à esquerda dele e tinha cruzado a perna direita sobre a esquerda. esquerda, o vaguear dos dedos de Pablo inevitavelmente acabou deslizando para a coxa esquerda.
O garçom chegou com os cafés e as torradas, e Pablo finalizou o carinho; enquanto preparavam as torradas, Pablo disse:
"Depois vou dar uma passada no curso, quero propor ao Carlos que a gente saia pra jantar hoje à noite, mas antes quero contar com sua aceitação" – Pablo tinha largado os talheres no prato e novamente dirigiu a mão para a coxa de Maria, que fixou o olhar no avanço da mão. Pablo parou a poucos centímetros da pele dela, e seus olhares se cruzaram.
"Me diz pra não ir mais longe."
"Você sabe que não deve ir mais longe."
"Não foi isso que eu te pedi" – Maria deixava os segundos passarem, e a cada um que se perdia em seu silêncio, ela declarava aos berros o que seu corpo pedia. Uma tortura que não devia ter durado mais de cinco segundos, mas que Maria viveu como uma eternidade, com os olhos de Pablo cravados nos dela, sem emitir uma palavra, até que sentiu a palma quente da mão dele pousar em sua coxa. Seus olhos não se desviaram; se olhavam em silêncio enquanto sentia os dedos pressionarem aleatoriamente, como um pianista executando uma pequena fuga.
"O que você está fazendo comigo, Maria?" – a mão dele se movia com suavidade, devagar, percorrendo pequenas distâncias da borda da saia até o joelho, apalpando, capturando cada sensação. Maria gritava para si mesma: 'acaba com isso agora, para com isso', mas continuava paralisada, quase uma espectadora dos acontecimentos, vivendo-os de duas perspectivas, como se estivesse fora de si mesma se observando.
"Vou te beijar" – se Pablo tivesse tentado sem avisar, talvez a reação instintiva dela o tivesse parado, mas assim ele a tornava consciente da intenção e, por alguma razão que ela não conseguia entender, isso a impedia de agir como teria feito impulsivamente.
Ela o viu se aproximar, viu ele olhar para a boca dela enquanto se aproximava e, quando os lábios se uniram, ela soube que o maior O perigo que a espreitava era ela mesma. Quando sentiu os lábios de Pablo se afastarem, abriu os olhos, ele ainda estava perto. Sem pensar, se adiantou e deu um beijinho nele, e outro.

1 comentários - Crônica de um Consentimento Parte 3

Simplemente espectacular que narrativa tan pura, tan erótica, definitivamente eres todo un escritor que maravilloso trabajo gracias por compartir
Disculpa no he podido cargar el capítulo 4 se va a publicidad
Puedes revisarlo para seguir la secuencia d e tu genial historia