Os anos 70, a era maravilhosa do pornô.Nos anos setenta, o pornô atingiu seu auge artístico; deixou de ser um produto limitado ao velho "mete e tira" para explorar tramas tão complexas quanto uma obra de Jean-Paul Sartre. Seus consumidores viraram figurinhas tão chiques quanto Norman Mailer e Jackie Kennedy, e suas estreias mereciam um tapete vermelho interminável.
Por Simón Posada
Se os anos sessenta foram a década do rock, dos Beatles, dos Rolling Stones e de Woodstock, os setenta foram a década do pornô. Nunca antes, nem depois, o pornô esteve tão perto da arte. Antes e depois dessa década, o pornô foi só uma ferramenta pra bater punheta, mas naqueles anos, ir ao cinema com a namorada era tão normal quanto ver Star Wars. E o pornô bombava.
Antes dessa década, circulavam pequenos curtas conhecidos como stag films. Vinham em formato Super 8 mm, não duravam mais de dez minutos e eram vistos em casa ou em repúblicas universitárias. Nesses curtas, os protagonistas eram o encanador, o médico, o padre e todas as fantasias sexuais que povoam o mundinho caseiro. Esse gênero era comum desde a invenção do cinematógrafo. Dizem que os primeiros foram feitos na França, outros falam que na Argentina, mas o certo é que sempre foram a mesma coisa: pequenos clipes sexuais que só serviam pra bater uma.
Mas será que o pornô serve pra algo mais que a punheta? Os cineastas dos anos setenta mostraram que sim. A lei era clara: o juiz William J. Brennan escreveu em 1957 que tudo que é obsceno devia ser censurado, e o obsceno podia ser definido como aquilo que não tem nenhuma importância social. A solução era, então, quebrar a regra.
Tudo começou em 1971 nas duas pontas dos Estados Unidos. Os irmãos Jim e Artie Mitchell, de São Francisco, estudavam cinema e trabalhavam numa sala X. Ao ver o quanto o negócio era lucrativo, criaram o O'Farrell Theatre, uma sala de cinema X onde rodavam só filmes de mulheres se masturbando. O negócio prosperou, mas eles tinham medo de serem pegos, e por isso interpretaram a lei do jeito deles. Precisavam fazer um filme artístico, com história, pra poder argumentar que tinha importância social e não ser censurados.
Do outro lado, em Nova York, Gerard Damiano, um cabeleireiro bem-sucedido do Bronx, decidiu entrar numa escola de cinema por influência de um amigo. Naquela época, em Hollywood mal tava começando a grande indústria cinematográfica com Spielberg, Lucas e Coppola, enquanto em Nova York as únicas produções eram pequenos curtas pornográficos e alguns filmes independentes. Por isso, Damiano encontrou no pornô o único jeito de fazer cinema, e vários fatores abriram caminho pra ele realizar sua obra-prima.
A estreia de *Blow Up*, do Antonioni, em 1966, ajudou um pouco a preparar o público pra invasão do pornô nas salas de cinema, já que foi o primeiro filme a mostrar pelos pubianos. Três anos depois, em 1969, estreou nos Estados Unidos *I'm Curious (Yellow)*, do Vilgot Sjöman, uma crítica à sociedade sueca intercalada com cenas de sexo explícito.
No mesmo ano, o ex-oficial da força aérea americana Alex de Renzy viajou pra Copenhague pra rodar um documentário sobre a primeira feira erótica na Dinamarca, depois da legalização da pornografia naquele país. Intitulado *Pornography in Denmark*, o documentário virou o jeito mais eficaz e sacana de projetar nas salas de cinema de Nova York penetrações e atos sexuais explícitos.
Graças ao sucesso, Renzy fez *A History of the Blue Movie*, outro pornô disfarçado de documentário, onde mostrava os curtas pornográficos mais populares antes dos anos setenta. No mesmo ano, o presidente Lyndon B. Johnson contratou um grupo de especialistas pra estudar os efeitos da pornografia no ser humano. O relatório, conhecido como *President's Commission on Obscenity and Pornography*, concluiu que não existia evidência de que a pornografia alterasse o comportamento humano nem desse margem a atos de violência sexual. Na verdade, na Dinamarca, um ano após a legalização, a taxa de homicídios sexuais caiu consideravelmente.
Enquanto dirigia seu carro por uma das pontes de Nova York, Gerard Damiano, de algum lugar da cabeça, teve uma ideia: uma mulher não consegue ter orgasmos e um médico descobre que ela tem o clitóris na garganta. Essa ideia, a mulher que só sente prazer ao praticar sexo oral, talvez tenha surgido do fanatismo que existe nos Estados Unidos por essa prática, popular graças ao puritanismo americano que faz com que as adolescentes satisfaçam seus namorados sem precisar perder a virgindade. Em *Lolita*, de Nabokov; *Sexus*, de Henry Miller; e no musical *Hair*, são exemplos da obsessão americana por boquete, que teve seu auge no escândalo midiático de Bill Clinton e Monica Lewinsky.
Damiano conseguiu que seu amigo Butchie Peraino, filho de um figurão da máfia italiana, financiasse as filmagens de *Garganta Profunda*. Com 25 mil dólares, viajaram para Miami, se instalaram num hotel na Biscayne Boulevard e filmaram em um fim de semana o filme mais lucrativo da história do cinema, com uma bilheteria de 600 milhões de dólares. Dizem até que poderia ter sido mais, mas como a distribuição ficou sob ordens da máfia, o valor completo é desconhecido.
Jackie Kennedy, Jack Nicholson e dezenas de celebridades foram assisti-lo nos teatros de Nova York. Sua atriz, Linda Lovelace, que recebeu apenas 1.200 dólares pela atuação, saiu nas capas da *Esquire* e da *Playboy*. O filme foi um sucesso total e se tornou um marco do cinema. Sua história é, talvez, a única que precisa do sexo para se desenvolver. Seus diálogos e situações hilárias fazem dele um dos poucos filmes pornô que os espectadores querem ver até o fim sem precisar pular. No entanto, nem tudo deu certo.
Seis meses após a estreia de *Garganta Fundo, os irmãos Mitchell lançaram em São Francisco *Behind the Green Door*, um filme que mostra a jornada ao orgasmo de uma mulher virgem em um ritual orgiástico. As cenas de sexo se misturam com imagens psicodélicas, transformando o filme em um pornô cult. A intenção de fazer cinema de autor ajudou os irmãos Mitchell a evitar a censura. A atriz deles, Marilyn Chambers, virou uma atriz pornô cobiçada e foi uma das poucas que conseguiu papéis respeitáveis no cinema convencional, em filmes como *Rabid*, de David Cronenberg.
*Garganta Profunda* e *Behind the Green Door*, assim como os Beatles e os Rolling Stones na música, dividiram a história do pornô em duas. Em 1973, Damiano lançou o terceiro grande filme pornô dos anos 70, *The Devil in Miss Jones*. Inspirado numa peça de Sartre, conta a história de Justine Jones — interpretada por Georgina Spelvin —, uma mulher virgem que se suicida na banheira aos trinta anos.
No purgatório, um funcionário do além explica o dilema: não pode mandá-la para o céu, porque Deus não perdoa o suicídio, mas também não pode mandá-la para o inferno, porque ela morreu virgem, sem pecado algum. Pra resolver a situação, Justine Jones é enviada de volta à Terra na companhia de um demônio que vai ensinar a ela as práticas sexuais mais sombrias.
No final, quando a mulher se torna uma ninfomaníaca, é condenada a viver num quarto do inferno com um homem que não pode transar com ela porque está obcecado, por toda a eternidade, em matar as moscas que voam no quarto.
Mas a história do pornô nos anos 70 não terminou nada bem. Linda Lovelace, a protagonista de *Garganta Profunda*, denunciou num dos seus livros, *Ordeal*, que foi forçada a atuar com uma arma apontada na cabeça. Nenhuma das pessoas que estiveram no set concordou com essa versão, mas as feministas usaram ela como bandeira de uma grande cruzada nacional. contra a prostituição.
Anos depois, em 2002, morreu num acidente de carro em Denver. Enquanto isso, o ator Harry Reems, que fez o papel do médico que encontra o clitóris na garganta da Linda, foi preso várias vezes e sofreu uma perseguição judicial, assim como o Damiano, que morreu pobre e esquecido numa cidadezinha da Flórida, apesar de ter dirigido o filme mais lucrativo da história do cinema. Em fevereiro de 1991, Jim Mitchell, sob efeito de cocaína, deu um tiro na cabeça do irmão, Artie. Ao sair da cadeia, seis anos depois, criou uma fundação para reabilitação de drogados e morreu em 2007 de um ataque cardíaco. Hoje está enterrado ao lado do irmão.
E o pornô também teve um final trágico. Como conta o filme *Boogie Nights*, do Paul Thomas Anderson, a chegada do vídeo acabou com a indústria. O pessoal parou de ir às salas X e começou a ir mais às locadoras de vídeo. Estima-se que nos Estados Unidos tinha 894 salas X em 1980. Cinco anos depois, só restavam 250. Qualquer um podia gravar um filme com uns trocados. Até com a queda do preço das câmeras de vídeo nasceu o pornô amador, um pornô sem graça, sem histórias nem lendas, só com casais anônimos que ajudam outros a se masturbar com suas performances fracassadas.
Mas o vídeo também chegou ao fim. Com a internet, o auge do pornô no final dos anos noventa acabou com as locadoras. O streaming é o meio ideal pra ver pornô sem vírus e sem deixar rastros nos computadores de casa. Ninguém hoje em dia vê um filme completo, só clipes masturbatórios de no máximo dez minutos, como os *stag films* de antes dos gloriosos anos setenta.
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2 comentários - Porno como arte: não perca, mais filmes
yo pasé y comenté tu post, vos pasaste y comentaste el mío?