CAPÍTULO DOIS: FUGA E CONVICÇÃOMe agachei e fiquei escondida atrás da bancada da cozinha. Mal dava pra ouvir o que eles tavam falando de onde eu tava, mas era óbvio que era sobre mina, bebida e sexo. E acho que foi por isso que o Júlio, o branquelo, subiu as escadas falando:
— Não sei vocês, mas eu vou dormir, tô com a pica doendo de tanto que aquela puta chupou no banheiro…
Depois disso, ouvi ele abrir a porta do quarto e fechar, pronto pra sumir da noite. Na sala ficaram o Mateo e o Lucas, o moreno claro e o pretão. Tavam resmungando alguma coisa, mas não entendi do quê, só consegui captar “bêbado” e “vômito” e não quis imaginar que um deles tinha terminado a noite assim.
De repente, vi o Lucas subir as escadas. Tava sem camisa e, mesmo no escuro, dava pra ver o peito dele e a barriga e… puta merda! Esse homem é uma delícia. Com os gominhos marcados e os peitorais bem definidos. Sinceramente, um gostoso. A cada minuto que passava, o Lucas só me mostrava que os negros têm um poder de outro planeta.
Ouvi a porta bater, sabia que ele já tava no quarto dele. Isso deixava o Mateo no caminho, pronto pra eu dar o fora, e se todo mundo tava indo embora, só me restava esperar ele sair pra eu escapar pro meu quarto.
Espiei um pouco por cima da bancada, aproveitando a escuridão, e me surpreendi ao ver o Mateo largado no sofá, roncando. Me agachei e sorri vendo ele daquele jeito. Balancei a cabeça pra afastar o pensamento e voltei à realidade. Beleza, ele tava dormindo, era minha chance de vazar dali.
Comecei a sentir um friozinho, tava quase pelada, e lingerie não é exatamente algo que esquenta em lugar aberto. Me movi agachada como dava até a saída da cozinha que dava pras escadas. Olhei pra cima, tentando ver se nenhum dos caras tava descendo, depois olhei pro Mateo e ele continuava dormindo. Era minha chance.
Respirei fundo e saí disparada pras escadas, correndo quase na ponta dos pés pra não fazer barulho, e quando cheguei No segundo degrau, meu coração parou. Ouvi um barulho atrás de mim, como se alguém estivesse se mexendo no sofá. Congelei ali mesmo, mas, como pude e sem virar o corpo, olhei por cima do ombro e dei uma olhada rápida pra escada. Mateo estava sentado no sofá, me encarando.
Fiquei dura que nem pedra, sem saber o que fazer. Então, continuando com o risco, já pensando que qualquer coisa podia rolar, segui subindo as escadas, mas dessa vez rebolando devagar e sensual, esperando que Mateo não me reconhecesse e, muito menos, não me seguisse. Se tudo desse certo, ali no meio da noite e na penumbra, eu poderia passar por uma ilusão da cabeça dele. E esse pensamento foi por água abaixo quando, ao chegar no penúltimo degrau, ouvi ele roncar de novo.
A menina dentro de mim deu pulinhos de alegria e, num surto de adrenalina, corri pro meu quarto e me tranquei, batendo a porta.
— Porra! — soltei, encostando as costas na porta e deslizando por ela. Fiquei com a buceta nua no chão de cerâmica. Tava frio, dei um pulo, mas fiquei ali de novo, era o de menos depois do que tinha acontecido.
Suspirei aliviada e me deixei cair de lado. Foi por pouco, definitivamente por pouco. Quase fui descoberta, e fico pensando no que teria rolado se os três tivessem percebido naquele momento que o colega de quarto deles se veste de puta em segredo porque no fundo quer ser fodido como uma mulherzinha. Talvez os eventos que vieram depois não tivessem acontecido do jeito que aconteceram.
Depois de uns minutos, levantei do chão e peguei meu celular. Era quase três da manhã, xinguei baixinho, tava tarde e ia dormir pouco pra trabalhar no dia seguinte. Coloquei o alarme pras 7:30 da manhã e fechei os olhos com pesar quando vi que faltavam quatro horas e pouco pra ele tocar. Deixei o celular de lado, na mesinha de cabeceira, e comecei a tirar a lingerie.
E enquanto me despia, veio na minha cabeça a imagem do Lucas sem camisa subindo a escada. Com os abdominais e o peitoral definido, com os braços fortes e aquelas mãos grandes. E eu fiquei de pau duro. E não sei se foi a adrenalina de quase ser pega ou o fato de que aquele cara era tão gostoso, mas aquilo me excitou tanto que, pela primeira vez em muito tempo, eu estava me masturbando sem precisar usar nada além da minha imaginação.
Me vi de várias formas. Em uma, eu estava de quatro, com ele me segurando pela cintura pra meter toda aquela rola no meu cu, que eu imaginava grande, cheia de veias e grossa, preta com a cabeça rosada. Depois imaginei ele de frente, comigo na cama e ele no chão, nos olhando enquanto me penetrava, segurando minhas pernas pra me abrir completamente. Também veio na minha cabeça a cena do boquete. Me vi chupando e curtindo a rola dele com luxúria e paixão, lambendo até os ovos pretos e grandes. Caralho, realmente me vi de várias formas com ele, me via como essas garotas brancas transando com negões. Foi tão gostoso que me fez gozar rápido. Sem perceber, eu estava na cama, deitada, enchendo minha barriga de porra de novo, desejando que fosse a dele.
Suspirei ao terminar e pensei no pecado que estava sendo. Me limpei com os lenços umedecidos e joguei tudo no chão. Logo o sono me venceu, só fechei os olhos e dormi. Me vi andando por um corredor. Tinha portas dos dois lados, mas nenhuma me interessava mais do que aquela no final. Caminhei com certeza, sem hesitar. De repente, me sentia mais tranquila que o normal, mais harmonia interior. Olhei pra baixo e vi que tava usando um vestido amarelo, daqueles com saia rodada que balançam com o vento. Era curto, mas não me importava se levantasse, não entendo por quê. E então cheguei na porta e, quando fui abri-la, acordei.
Tava na minha cama, olhando pro teto do meu quarto. E aí pensei em casa, nos meus pais, meus irmãos, e lembrei por que tava longe. Sorri com desilusão e me virei na cama. Nesse momento, percebi que ainda tava usando a lingerie.
— Que absurdo… vai acabar estragando — foi tudo que falei pra mim mesma ao perceber que já tava há mais de oito horas com essa roupa.

Olhei pro relógio do celular e vi que tinha acordado antes do despertador tocar. Me sentia bem, nem cansada nem sonolenta, como se tivesse dormido a noite inteira. E aí lembrei daquela parada dos ciclos de sono e pensei que isso ia me pegar lá pras três ou quatro da tarde. Sem pensar duas vezes, me despi e fui tomar banho.
Tomei banho rápido, lavando cada parte do meu corpo, e saí enrolada na toalha até o peito. Escolhi minha roupa e, talvez por tudo que rolou na noite anterior, coloquei uma fio-dental junto com a calcinha boxer. Olhei o relógio e já eram sete e quinze. Tinha 45 minutos pra chegar no escritório. Me vesti na hora e me olhei no espelho. Nem em um milhão de anos alguém imaginaria que eu sou uma putinha doida por paus.
Saí do quarto, tranquei a porta, e desci as escadas, vendo Lucas e Julio cozinhando alguma coisa. O cheiro era uma delícia, e pelo visto era o Julio quem tava cozinhando, o Lucas só esperava e puxava papo com o amigo.
— Ei! Como cê tá? — o Lucas me perguntou quando me viu, sorrindo bem gostoso. Olhei pro Julio e ele só cumprimentou com um aceno de cabeça.
— Bem, bem. E vocês? — perguntei, sentando num dos banquinhos na frente da bancada da cozinha. Deixei minhas coisas de lado.
— Meio de ressaca, mas aqui vamos nós, prontos pra começar mais um dia — respondeu o Lucas numa boa, gostava do jeito dele, alegre e simpático.
— Quer um café? — perguntou o Julio, pegando uma xícara e a cafeteira com café preto.
— Aceito, sim — respondi quando ele se aproximou com as duas coisas.
Me servi um pouco e ele levou a cafeteira de volta. O Lucas me passou o açúcar e o creme em pó.
— Cê dormiu cedo ontem à noite? — o Lucas perguntou, olhando nos meus olhos.
— Digamos que sim — respondi, balançando a cabeça. — Mas ouvi vocês chegarem.
— Sério? A gente tava numa bagunça danada, né? — respondeu o Julio, virando uns ovos estrelados.
— Hehe, não tanto assim, mas ouvi vocês, sim.
— Quem se ferrou foi o Mateo, ainda tá deitado, acho que vai ligar falando que tá doente ou algo assim. —disse Lucas.
—Sério? O que aconteceu com ele?
—Ele bebeu pra caramba ontem à noite, e o negócio é que o Mateo tem problema pra controlar o álcool, sempre foi um problema desde o colégio.
—Desde tão novo ele bebe? —perguntei surpreso.
—Sim, ha, ha. Bom, a parada é que na casa dele não eram os mais certinhos, então talvez ele só aprendeu o que via todo dia, não sei se você me entende —disse Lucas dando de ombros.
—Te entendo.
E aí pensei na noite anterior e no Mateo me vendo de bunda de fora, ou talvez não. Não sabia. Talvez ele só estivesse tentando se levantar da bebedeira que tava, ou quem sabe foi só um ato reflexo. Bom, isso eu poderia descobrir depois, agora o importante era tomar café e ir trabalhar. E foi aí que pensei nas palavras que o Lucas disse.
—Vocês se conhecem há muito tempo? —perguntei interessado.
—Pode-se dizer. O Júlio e eu fomos colegas no colégio, o Mateo tava em outras turmas, mas a gente tinha quase o mesmo círculo de amigos, então sim, nos conhecemos.
Porra! Quem esperava uma informação dessas? Isso abria a possibilidade pra um monte de coisas, todas piores que as anteriores. E se o Mateo realmente me viu na noite passada? E se ele contar pros caras? Mas, com aquela bebedeira toda e no escuro, duvido muito que ele tenha conseguido ver alguma coisa.
—Entendo —respondi—. E você trabalha com o quê?
—Na construtora da cidade, a que tá fazendo a ponte nova.
—Ah, entendo. Tá ficando bem bonita, por sinal.
—Ha, ha, valeu, mas isso já é coisa dos chineses, eles que tiveram a ideia do projeto e tudo.
—Verdade… E você trabalha com o quê, Júlio?
O Júlio terminou de cozinhar e serviu tudo em três pratos. Eram ovos estrelados, bacon e pão torrado.
—Bom… trabalho como eletricista pra uma das empresas da cidade. Tudo tranquilo.
—Interessante. Então, construtor e eletricista —falei quando os dois se sentaram no outro lado da bancada do café.
—Isso aí. E você faz exatamente o quê? Bom apetite, por sinal —disse Julio pegando um garfo pra atacar o café da manhã.
—Valeu —falamos eu e Lucas na mesma hora, e eu continuei—. Então, meu trampo é inserir dados, mexer com tabelas do Excel, lidar com um sistema de códigos e ficar de olho no que rola com o sistema da empresa onde trabalho.
—Pô, você estudou alguma engenharia de computação ou algo assim? —perguntou Lucas depois de dar um gole no café.
—Não, nada disso, só tenho 21. É só uma parada que treinaram a gente na empresa, não tem nada a ver com informática nem nada do tipo, na real é mais sobre contabilidade e rastreamento de umas coisas.
—Então, mais ou menos te entendo —disse Julio—. Então cê tem 21?
—Sim.
—Quantos anos cê tem, Lucas?
—Hehe, tenho 27, e você?
—26 —respondeu Julio.
—Vocês têm 26 e 27 anos? —perguntei surpreso.
—Sim —disse Lucas—. Me surpreendi quando você disse que tem 21, mas cê parece a idade que fala.
—Mas vocês não parecem ter essa idade, achei que fossem mais novos.
—Ha, ha, ha, valeu pelo elogio —disse Lucas todo faceiro. De repente, ao saber a idade dos dois, algo em mim começou a se espalhar pelo corpo todo. Se tem uma coisa que eu curto, é quando a outra pessoa é mais velha que eu. Não entendo por quê.
—De nada, mas não foi um elogio.
—É verdade, a real é que também não estamos velhos, são só uns anos a mais que você.
—Isso é verdade —falei pro Julio.
E era verdade. Não estavam velhos e nem de longe pareciam ruins, sinceramente tavam no auge e olha que não tinham nada pra invejar de ninguém.
Terminamos de tomar café, faltava pouco mais de vinte minutos pras oito da manhã, ainda tinha tempo. Uma coisa que agradeci foi que o escritório ficava a uns dez minutos, então não tava nem apressado nem desesperado pra ir, mas eles sim. Me ofereci pra lavar a louça pelo café da manhã, eles disseram que beleza e se despediram falando que a gente se via daqui a pouco. Saíram um por um, fechando a porta atrás de si e me deixando sozinho na cozinha.
Pensei um pouco em tudo que a gente tinha conversado e considerei seriamente o rolê da noite anterior. Esse tipo de erro não podia se repetir. Não sabia o que podiam pensar de mim e, considerando tudo que tava rolando no mundo, não fazia ideia de como iam reagir se descobrissem a verdade. Suspirei aliviado ao saber que o Mateo não tinha contado nada ainda, e o melhor, que ele tava tão bêbado que não lembrava de nada da noite anterior. Tava tudo indo de maravilha, ou pelo menos era o que eu achava até ouvir um barulho atrás de mim. Mantendo a calma, virei a cabeça devagar e vi o Mateo sentado na bancada da cozinha.
— Bom dia — falei tranquilo, voltando pro que tava fazendo.
— Bom dia — ele respondeu, mas na cara dele dava pra ver que tava na merda. Quem sabe o tamanho da ressaca que ele tava sentindo.
— Como cê tá? — perguntei de boa, terminando de lavar o último prato.
— Não muito bem, mano, tô me sentindo bem mal — ele disse, se jogando na bancada.
— Sério? Cê bebeu muito ontem? O que rolou?
— Sei lá, a gente tava se divertindo e tal, e de repente tomei alguma coisa e... bom, fiquei muito bêbado.
— Tomou alguma coisa? — perguntei curioso, enquanto arrumava a louça.
— Sim.
— Algo diferente do que os outros tavam bebendo?
— Não... todo mundo tava tomando a mesma coisa, mas... sabe o quê? Melhor deixar pra lá, não quero falar disso agora, talvez seja só paranoia minha.
— Paranoia de quê? Cê acha que botaram algo na sua bebida ou algo assim?
O garoto levantou a cabeça e concordou de leve, depois se deitou de novo.
— O quê? Mas quem poderia ter feito isso? Os caras fizeram? Cê não tava bebendo com eles?
— São muitas perguntas e é muito cedo... mas não, não foram eles. Comecei a beber com eles, mas em certo momento da noite me afastei um pouco pra ficar com uma mina e... não sei se foi ali...
— Sério? E cê lembra dela?
— Não muito... acho que ela me roubou também.
— O quê?
— É... mas não importa. porque eu tava com pouco dinheiro, mas o que me preocupa são os cartões e tal... Que merda! Tá doendo minha cabeça.
Procurei no armário algo pra ele tomar e achei um Alka Seltzer preto, embora vi vários, com certeza era pras ressaca que eles tinham direto. Aos poucos, eu começava a conhecer meus acompanhantes. Entreguei dissolvido num copo d'água.
— Valeu...
— De nada — suspirei —. Não sabia que você tinha tido uma noite tão pesada. Acho que por isso não vou em festas.
— Ha... mas você não passou mal, que se diga, convidou alguém pra te acompanhar...
Senti um frio na barriga ao ouvir isso. Por que ele tinha dito aquilo? Será que me viu?
— Como? — perguntei mantendo a compostura, ainda não tava nada confirmado.
— É, verdade que ontem tava cheio de álcool até o talo, mas me pareceu ver uma gatinha linda de lingerie subindo essas escadas, acho que entrou no seu quarto... e pelo que vi, sinceramente era uma mina deliciosa... você guardava bem escondido, safado, comeu bem enquanto a gente não tava... Fuck! Que dor de cabeça...
— Mas... — então não era o que eu tava pensando? Será que ele achou que era outra pessoa?
— Relaxa, relaxa, não vou contar pra ninguém, se é isso que te preocupa, só... só manda ela trazer umas amigas na próxima... e que não sejam tão bandidas... ha, ha... melhor eu não rir. Vou dormir, se cuida, até mais — ele falou antes de levantar e ir pro quarto dele.
E enquanto eu olhava ele se afastar, não entendia como tudo isso tinha acontecido em questão de horas. Fazia menos de um dia que eu tinha me mudado pra lá e já alguém tinha visto minha bunda e de lingerie e... Ele me confundiu com uma garota? Embora, se a coisa era assim, eu podia usar isso a meu favor e dizer que sim, que convidei alguém e que essa pessoa andou por aí antes deles chegarem. Era a melhor coartada de todas. Agradeci ao Mateo por ter me dado essa ideia, sem saber o que tinha feito, e saí de lá. Já tava em cima da hora, era hora de ir pro trampo.
No entanto, não lembro de nada relevante que tenha acontecido depois disso. a não ser que eu descobrisse que o chefe estava comendo uma das assistentes. Carolina, uma colega minha, uma mina de vinte e poucos anos, com umas pernões e olhos verdes, me disse que odiava a Laura, outra das garotas, porque ela se achava a última bolacha do pacote só pelo tratamento que o chefe dava a ela, e o Luís respondeu dizendo que era porque eles estavam transando. Carolina rebateu que não podia ser verdade já que o chefe era casado, e o Luís disse que era mais anormal o chefe não dar em cima de uma das assistentes, ela soltou um bufado e se afastou de mim, o Luís me mandou olhar pra Laura e soltou: "Mas é que, com esse corpanzil, quem não ia querer se aproveitar do cargo dela na empresa". E olha que ele tinha razão. Laura era uma dessas minas de revista masculina, alta, de pernas longas, magra e com uma carinha de puta gostosa que nem preciso contar. Fiquei pensando um tempo nisso e me perguntei se o chefe era tão bom na cama pra eles fazerem aquilo ou se era só o dinheiro. Porque feio ele não era, e até malhava. Era cheiroso e tinha um bom perfume. Além do fato de ter grana, ele realmente tinha boa aparência e podia cair nas graças de qualquer um. Enfim, fiquei com uma dúvida existencial sobre isso, que se apagou assim que saí do escritório, subi no meu carro e fui direto pra casa, não sem antes passar num lugar especial. Antes de me mudar pra essa cidade, fiz umas quantas incursões pelas ruas dela. Tinha ouvido falar que era um bom lugar pra viver pra alguém com meu perfil, jovem, independente e com vontade de crescer. Então, se era, eu precisava confirmar. E em uns fins de semana em que me perdi pelas ruas, encontrei dois lugares interessantes, um pra minhas putarias noturnas e outro pra quando você só precisa pisar no freio e parar um momento à beira do caminho. E lá estava eu. Estacionei e, depois de deixar o carro num lugar adequado, desci e caminhei pelo estacionamento até a entrada do estabelecimento. Tinha umas Quantas escadas subiam até uma plataforma de madeira, que servia de chão pro lugar inteiro. De dentro vinha a música pop que tocava de fundo, bem estilo 2010-2015. Era tipo um galpão espaçoso, com paredes de madeira e janelonas por onde entrava muito vento, dando uma refrescada nas mesas espalhadas da entrada até a parede do fundo. Do meu lado direito ficava a cozinha e o balcão, onde a gente fazia os pedidos. Me aproximei e vi um cara jovem e gato atendendo, do lado dele uma mina branquinha de cabelo comprido e liso, muito gostosa, entregando uns pedidos pra um casal.
Olhei o cardápio em cima das cabeças deles e me deu vontade de um café gelado com uns donuts. Fiz meu pedido e o cara, com a testa franzida e um par de olhos que me pareceram dominadores, falou que em alguns minutos meu pedido ficaria pronto, pra eu sentar. A mina do lado dele reparou em mim e me deu um sorriso. Puta que pariu, era linda demais.
Sentei numa das mesas perto e fiquei olhando a estrada pelas janelas. De repente, aquele lugar me lembrou muito, mesmo não sendo igual, o lugar onde Dominic Toretto e Bryan O’Conner conversaram e comeram no primeiro filme de Velozes e Furiosos. Peguei meu celular e entrei no Facebook por um tempo. Fiquei vendo as publicações das pessoas que eu tinha adicionado e de algumas páginas. E aí recebi uma mensagem no WhatsApp.
Quando abri, vi que o número não estava salvo. Achei estranho, porque geralmente não recebo mensagem de número desconhecido. Normalmente eu ignoro essas mensagens, mas talvez fosse a espera ou o fato de estar num momento de desligamento que, contra meus princípios, entrei no chat e respondi.
— Oi, boa tarde — dizia a mensagem.
— Oi, boa tarde, quem tá falando? — perguntei no tom mais formal possível que se usa por mensagem.
— Uma amiga — respondeu. Depois disso, vi o “digitando” embaixo do número, e aí apareceu a mensagem dela —. Uma das minas que tava na sua casa quando a gente visitou o Mateo, o Lucas e o Júlio.
Franzi a testa. Franzi a testa com isso. Lembrava das minas, mas não entendia por que uma delas estaria me mandando mensagem. Aí pensei na garota que tinha piscado o olho pra mim.
— Ah, e aí? A que devo a honra? — respondi.
— Então… queria saber se a gente podia tomar alguma coisa.
— Tomar alguma coisa?
— É, sabe, só sair, tomar um drink e curtir a noite.
Levantei uma sobrancelha. Esperava mesmo que fosse algo tranquilo.
— Beleza, sem problema. Mas não vai ter treta com o Júlio, né? — perguntei.
— Ah, não, claro que não. Eu e o Júlio não somos um casal, só amigos. De vez em quando a gente sai e tal. Então… vamos sair?
Esperei um pouco pra responder. Valia a pena? A mina não era nada feia. Se eu passasse pelo filtro de um jovem hétero e bem tarado, diria que ela era do jeito que queria. Rabudinha, baixinha e com umas pernas de matar. Imaginei ela de lingerie e, puta merda, era uma delícia. E depois de confirmar que era ela, pensei bem e vi que seria bom sair com alguém pra variar.
— Beleza, no fim de semana, porque essa semana vou estar cheio de trampo. Te serve?
— Tá bom, assim a gente faz. Eu te ligo quando estiver pronta — ela disse, e aí mandou um emoji de beijo com um diabinho. Balancei a cabeça de leve e sorri.
— Beleza, tenha uma boa noite.
— Igualmente.
E depois disso, ela parou de responder. De repente, a mina atrás do balcão me chamou pelo pedido e fui pegar. Saboreei aquele café como nunca. E sem conseguir evitar, pensei em casa e na minha família. Tomara que as coisas não tivessem dado tão errado como deram. Se existisse o multiverso, queria que num deles a gente estivesse todo junto, sem nenhum problema entre nós.
Quando terminei, voltei pra casa umas oito da noite e, ao chegar, vi os caras vendo um filme. Cumprimentei e eles responderam. Perguntaram se eu ia ficar com eles e respondi que tava cansado, que ia descansar um pouco. Aceitaram sem discussão e me deixaram subir. E enquanto subia, não parava de Pensar naquele momento vergonhoso que passei de madrugada, quando subi vestida de lingerie e o Mateo olhou pra minha bunda e achou que tava lindíssima. Senti uma pulsação na bunda e outra no meu pau. Aquilo me excitou. Parei de prestar atenção nisso e continuei meu caminho até o quarto. Quanto tempo mais aquela segunda vida ia durar? Quanto tempo mais ia passar até o Mateo falar alguma coisa ou descobrirem que aquela garota que subiu as escadas era eu? Por enquanto, só me restava fugir e convencer.
Continua...
— Não sei vocês, mas eu vou dormir, tô com a pica doendo de tanto que aquela puta chupou no banheiro…
Depois disso, ouvi ele abrir a porta do quarto e fechar, pronto pra sumir da noite. Na sala ficaram o Mateo e o Lucas, o moreno claro e o pretão. Tavam resmungando alguma coisa, mas não entendi do quê, só consegui captar “bêbado” e “vômito” e não quis imaginar que um deles tinha terminado a noite assim.
De repente, vi o Lucas subir as escadas. Tava sem camisa e, mesmo no escuro, dava pra ver o peito dele e a barriga e… puta merda! Esse homem é uma delícia. Com os gominhos marcados e os peitorais bem definidos. Sinceramente, um gostoso. A cada minuto que passava, o Lucas só me mostrava que os negros têm um poder de outro planeta.
Ouvi a porta bater, sabia que ele já tava no quarto dele. Isso deixava o Mateo no caminho, pronto pra eu dar o fora, e se todo mundo tava indo embora, só me restava esperar ele sair pra eu escapar pro meu quarto.
Espiei um pouco por cima da bancada, aproveitando a escuridão, e me surpreendi ao ver o Mateo largado no sofá, roncando. Me agachei e sorri vendo ele daquele jeito. Balancei a cabeça pra afastar o pensamento e voltei à realidade. Beleza, ele tava dormindo, era minha chance de vazar dali.
Comecei a sentir um friozinho, tava quase pelada, e lingerie não é exatamente algo que esquenta em lugar aberto. Me movi agachada como dava até a saída da cozinha que dava pras escadas. Olhei pra cima, tentando ver se nenhum dos caras tava descendo, depois olhei pro Mateo e ele continuava dormindo. Era minha chance.
Respirei fundo e saí disparada pras escadas, correndo quase na ponta dos pés pra não fazer barulho, e quando cheguei No segundo degrau, meu coração parou. Ouvi um barulho atrás de mim, como se alguém estivesse se mexendo no sofá. Congelei ali mesmo, mas, como pude e sem virar o corpo, olhei por cima do ombro e dei uma olhada rápida pra escada. Mateo estava sentado no sofá, me encarando.
Fiquei dura que nem pedra, sem saber o que fazer. Então, continuando com o risco, já pensando que qualquer coisa podia rolar, segui subindo as escadas, mas dessa vez rebolando devagar e sensual, esperando que Mateo não me reconhecesse e, muito menos, não me seguisse. Se tudo desse certo, ali no meio da noite e na penumbra, eu poderia passar por uma ilusão da cabeça dele. E esse pensamento foi por água abaixo quando, ao chegar no penúltimo degrau, ouvi ele roncar de novo.
A menina dentro de mim deu pulinhos de alegria e, num surto de adrenalina, corri pro meu quarto e me tranquei, batendo a porta.
— Porra! — soltei, encostando as costas na porta e deslizando por ela. Fiquei com a buceta nua no chão de cerâmica. Tava frio, dei um pulo, mas fiquei ali de novo, era o de menos depois do que tinha acontecido.
Suspirei aliviada e me deixei cair de lado. Foi por pouco, definitivamente por pouco. Quase fui descoberta, e fico pensando no que teria rolado se os três tivessem percebido naquele momento que o colega de quarto deles se veste de puta em segredo porque no fundo quer ser fodido como uma mulherzinha. Talvez os eventos que vieram depois não tivessem acontecido do jeito que aconteceram.
Depois de uns minutos, levantei do chão e peguei meu celular. Era quase três da manhã, xinguei baixinho, tava tarde e ia dormir pouco pra trabalhar no dia seguinte. Coloquei o alarme pras 7:30 da manhã e fechei os olhos com pesar quando vi que faltavam quatro horas e pouco pra ele tocar. Deixei o celular de lado, na mesinha de cabeceira, e comecei a tirar a lingerie.
E enquanto me despia, veio na minha cabeça a imagem do Lucas sem camisa subindo a escada. Com os abdominais e o peitoral definido, com os braços fortes e aquelas mãos grandes. E eu fiquei de pau duro. E não sei se foi a adrenalina de quase ser pega ou o fato de que aquele cara era tão gostoso, mas aquilo me excitou tanto que, pela primeira vez em muito tempo, eu estava me masturbando sem precisar usar nada além da minha imaginação.
Me vi de várias formas. Em uma, eu estava de quatro, com ele me segurando pela cintura pra meter toda aquela rola no meu cu, que eu imaginava grande, cheia de veias e grossa, preta com a cabeça rosada. Depois imaginei ele de frente, comigo na cama e ele no chão, nos olhando enquanto me penetrava, segurando minhas pernas pra me abrir completamente. Também veio na minha cabeça a cena do boquete. Me vi chupando e curtindo a rola dele com luxúria e paixão, lambendo até os ovos pretos e grandes. Caralho, realmente me vi de várias formas com ele, me via como essas garotas brancas transando com negões. Foi tão gostoso que me fez gozar rápido. Sem perceber, eu estava na cama, deitada, enchendo minha barriga de porra de novo, desejando que fosse a dele.
Suspirei ao terminar e pensei no pecado que estava sendo. Me limpei com os lenços umedecidos e joguei tudo no chão. Logo o sono me venceu, só fechei os olhos e dormi. Me vi andando por um corredor. Tinha portas dos dois lados, mas nenhuma me interessava mais do que aquela no final. Caminhei com certeza, sem hesitar. De repente, me sentia mais tranquila que o normal, mais harmonia interior. Olhei pra baixo e vi que tava usando um vestido amarelo, daqueles com saia rodada que balançam com o vento. Era curto, mas não me importava se levantasse, não entendo por quê. E então cheguei na porta e, quando fui abri-la, acordei.
Tava na minha cama, olhando pro teto do meu quarto. E aí pensei em casa, nos meus pais, meus irmãos, e lembrei por que tava longe. Sorri com desilusão e me virei na cama. Nesse momento, percebi que ainda tava usando a lingerie.
— Que absurdo… vai acabar estragando — foi tudo que falei pra mim mesma ao perceber que já tava há mais de oito horas com essa roupa.

Olhei pro relógio do celular e vi que tinha acordado antes do despertador tocar. Me sentia bem, nem cansada nem sonolenta, como se tivesse dormido a noite inteira. E aí lembrei daquela parada dos ciclos de sono e pensei que isso ia me pegar lá pras três ou quatro da tarde. Sem pensar duas vezes, me despi e fui tomar banho.
Tomei banho rápido, lavando cada parte do meu corpo, e saí enrolada na toalha até o peito. Escolhi minha roupa e, talvez por tudo que rolou na noite anterior, coloquei uma fio-dental junto com a calcinha boxer. Olhei o relógio e já eram sete e quinze. Tinha 45 minutos pra chegar no escritório. Me vesti na hora e me olhei no espelho. Nem em um milhão de anos alguém imaginaria que eu sou uma putinha doida por paus.
Saí do quarto, tranquei a porta, e desci as escadas, vendo Lucas e Julio cozinhando alguma coisa. O cheiro era uma delícia, e pelo visto era o Julio quem tava cozinhando, o Lucas só esperava e puxava papo com o amigo.
— Ei! Como cê tá? — o Lucas me perguntou quando me viu, sorrindo bem gostoso. Olhei pro Julio e ele só cumprimentou com um aceno de cabeça.
— Bem, bem. E vocês? — perguntei, sentando num dos banquinhos na frente da bancada da cozinha. Deixei minhas coisas de lado.
— Meio de ressaca, mas aqui vamos nós, prontos pra começar mais um dia — respondeu o Lucas numa boa, gostava do jeito dele, alegre e simpático.
— Quer um café? — perguntou o Julio, pegando uma xícara e a cafeteira com café preto.
— Aceito, sim — respondi quando ele se aproximou com as duas coisas.
Me servi um pouco e ele levou a cafeteira de volta. O Lucas me passou o açúcar e o creme em pó.
— Cê dormiu cedo ontem à noite? — o Lucas perguntou, olhando nos meus olhos.
— Digamos que sim — respondi, balançando a cabeça. — Mas ouvi vocês chegarem.
— Sério? A gente tava numa bagunça danada, né? — respondeu o Julio, virando uns ovos estrelados.
— Hehe, não tanto assim, mas ouvi vocês, sim.
— Quem se ferrou foi o Mateo, ainda tá deitado, acho que vai ligar falando que tá doente ou algo assim. —disse Lucas.
—Sério? O que aconteceu com ele?
—Ele bebeu pra caramba ontem à noite, e o negócio é que o Mateo tem problema pra controlar o álcool, sempre foi um problema desde o colégio.
—Desde tão novo ele bebe? —perguntei surpreso.
—Sim, ha, ha. Bom, a parada é que na casa dele não eram os mais certinhos, então talvez ele só aprendeu o que via todo dia, não sei se você me entende —disse Lucas dando de ombros.
—Te entendo.
E aí pensei na noite anterior e no Mateo me vendo de bunda de fora, ou talvez não. Não sabia. Talvez ele só estivesse tentando se levantar da bebedeira que tava, ou quem sabe foi só um ato reflexo. Bom, isso eu poderia descobrir depois, agora o importante era tomar café e ir trabalhar. E foi aí que pensei nas palavras que o Lucas disse.
—Vocês se conhecem há muito tempo? —perguntei interessado.
—Pode-se dizer. O Júlio e eu fomos colegas no colégio, o Mateo tava em outras turmas, mas a gente tinha quase o mesmo círculo de amigos, então sim, nos conhecemos.
Porra! Quem esperava uma informação dessas? Isso abria a possibilidade pra um monte de coisas, todas piores que as anteriores. E se o Mateo realmente me viu na noite passada? E se ele contar pros caras? Mas, com aquela bebedeira toda e no escuro, duvido muito que ele tenha conseguido ver alguma coisa.
—Entendo —respondi—. E você trabalha com o quê?
—Na construtora da cidade, a que tá fazendo a ponte nova.
—Ah, entendo. Tá ficando bem bonita, por sinal.
—Ha, ha, valeu, mas isso já é coisa dos chineses, eles que tiveram a ideia do projeto e tudo.
—Verdade… E você trabalha com o quê, Júlio?
O Júlio terminou de cozinhar e serviu tudo em três pratos. Eram ovos estrelados, bacon e pão torrado.
—Bom… trabalho como eletricista pra uma das empresas da cidade. Tudo tranquilo.
—Interessante. Então, construtor e eletricista —falei quando os dois se sentaram no outro lado da bancada do café.
—Isso aí. E você faz exatamente o quê? Bom apetite, por sinal —disse Julio pegando um garfo pra atacar o café da manhã.
—Valeu —falamos eu e Lucas na mesma hora, e eu continuei—. Então, meu trampo é inserir dados, mexer com tabelas do Excel, lidar com um sistema de códigos e ficar de olho no que rola com o sistema da empresa onde trabalho.
—Pô, você estudou alguma engenharia de computação ou algo assim? —perguntou Lucas depois de dar um gole no café.
—Não, nada disso, só tenho 21. É só uma parada que treinaram a gente na empresa, não tem nada a ver com informática nem nada do tipo, na real é mais sobre contabilidade e rastreamento de umas coisas.
—Então, mais ou menos te entendo —disse Julio—. Então cê tem 21?
—Sim.
—Quantos anos cê tem, Lucas?
—Hehe, tenho 27, e você?
—26 —respondeu Julio.
—Vocês têm 26 e 27 anos? —perguntei surpreso.
—Sim —disse Lucas—. Me surpreendi quando você disse que tem 21, mas cê parece a idade que fala.
—Mas vocês não parecem ter essa idade, achei que fossem mais novos.
—Ha, ha, ha, valeu pelo elogio —disse Lucas todo faceiro. De repente, ao saber a idade dos dois, algo em mim começou a se espalhar pelo corpo todo. Se tem uma coisa que eu curto, é quando a outra pessoa é mais velha que eu. Não entendo por quê.
—De nada, mas não foi um elogio.
—É verdade, a real é que também não estamos velhos, são só uns anos a mais que você.
—Isso é verdade —falei pro Julio.
E era verdade. Não estavam velhos e nem de longe pareciam ruins, sinceramente tavam no auge e olha que não tinham nada pra invejar de ninguém.
Terminamos de tomar café, faltava pouco mais de vinte minutos pras oito da manhã, ainda tinha tempo. Uma coisa que agradeci foi que o escritório ficava a uns dez minutos, então não tava nem apressado nem desesperado pra ir, mas eles sim. Me ofereci pra lavar a louça pelo café da manhã, eles disseram que beleza e se despediram falando que a gente se via daqui a pouco. Saíram um por um, fechando a porta atrás de si e me deixando sozinho na cozinha.
Pensei um pouco em tudo que a gente tinha conversado e considerei seriamente o rolê da noite anterior. Esse tipo de erro não podia se repetir. Não sabia o que podiam pensar de mim e, considerando tudo que tava rolando no mundo, não fazia ideia de como iam reagir se descobrissem a verdade. Suspirei aliviado ao saber que o Mateo não tinha contado nada ainda, e o melhor, que ele tava tão bêbado que não lembrava de nada da noite anterior. Tava tudo indo de maravilha, ou pelo menos era o que eu achava até ouvir um barulho atrás de mim. Mantendo a calma, virei a cabeça devagar e vi o Mateo sentado na bancada da cozinha.
— Bom dia — falei tranquilo, voltando pro que tava fazendo.
— Bom dia — ele respondeu, mas na cara dele dava pra ver que tava na merda. Quem sabe o tamanho da ressaca que ele tava sentindo.
— Como cê tá? — perguntei de boa, terminando de lavar o último prato.
— Não muito bem, mano, tô me sentindo bem mal — ele disse, se jogando na bancada.
— Sério? Cê bebeu muito ontem? O que rolou?
— Sei lá, a gente tava se divertindo e tal, e de repente tomei alguma coisa e... bom, fiquei muito bêbado.
— Tomou alguma coisa? — perguntei curioso, enquanto arrumava a louça.
— Sim.
— Algo diferente do que os outros tavam bebendo?
— Não... todo mundo tava tomando a mesma coisa, mas... sabe o quê? Melhor deixar pra lá, não quero falar disso agora, talvez seja só paranoia minha.
— Paranoia de quê? Cê acha que botaram algo na sua bebida ou algo assim?
O garoto levantou a cabeça e concordou de leve, depois se deitou de novo.
— O quê? Mas quem poderia ter feito isso? Os caras fizeram? Cê não tava bebendo com eles?
— São muitas perguntas e é muito cedo... mas não, não foram eles. Comecei a beber com eles, mas em certo momento da noite me afastei um pouco pra ficar com uma mina e... não sei se foi ali...
— Sério? E cê lembra dela?
— Não muito... acho que ela me roubou também.
— O quê?
— É... mas não importa. porque eu tava com pouco dinheiro, mas o que me preocupa são os cartões e tal... Que merda! Tá doendo minha cabeça.
Procurei no armário algo pra ele tomar e achei um Alka Seltzer preto, embora vi vários, com certeza era pras ressaca que eles tinham direto. Aos poucos, eu começava a conhecer meus acompanhantes. Entreguei dissolvido num copo d'água.
— Valeu...
— De nada — suspirei —. Não sabia que você tinha tido uma noite tão pesada. Acho que por isso não vou em festas.
— Ha... mas você não passou mal, que se diga, convidou alguém pra te acompanhar...
Senti um frio na barriga ao ouvir isso. Por que ele tinha dito aquilo? Será que me viu?
— Como? — perguntei mantendo a compostura, ainda não tava nada confirmado.
— É, verdade que ontem tava cheio de álcool até o talo, mas me pareceu ver uma gatinha linda de lingerie subindo essas escadas, acho que entrou no seu quarto... e pelo que vi, sinceramente era uma mina deliciosa... você guardava bem escondido, safado, comeu bem enquanto a gente não tava... Fuck! Que dor de cabeça...
— Mas... — então não era o que eu tava pensando? Será que ele achou que era outra pessoa?
— Relaxa, relaxa, não vou contar pra ninguém, se é isso que te preocupa, só... só manda ela trazer umas amigas na próxima... e que não sejam tão bandidas... ha, ha... melhor eu não rir. Vou dormir, se cuida, até mais — ele falou antes de levantar e ir pro quarto dele.
E enquanto eu olhava ele se afastar, não entendia como tudo isso tinha acontecido em questão de horas. Fazia menos de um dia que eu tinha me mudado pra lá e já alguém tinha visto minha bunda e de lingerie e... Ele me confundiu com uma garota? Embora, se a coisa era assim, eu podia usar isso a meu favor e dizer que sim, que convidei alguém e que essa pessoa andou por aí antes deles chegarem. Era a melhor coartada de todas. Agradeci ao Mateo por ter me dado essa ideia, sem saber o que tinha feito, e saí de lá. Já tava em cima da hora, era hora de ir pro trampo.
No entanto, não lembro de nada relevante que tenha acontecido depois disso. a não ser que eu descobrisse que o chefe estava comendo uma das assistentes. Carolina, uma colega minha, uma mina de vinte e poucos anos, com umas pernões e olhos verdes, me disse que odiava a Laura, outra das garotas, porque ela se achava a última bolacha do pacote só pelo tratamento que o chefe dava a ela, e o Luís respondeu dizendo que era porque eles estavam transando. Carolina rebateu que não podia ser verdade já que o chefe era casado, e o Luís disse que era mais anormal o chefe não dar em cima de uma das assistentes, ela soltou um bufado e se afastou de mim, o Luís me mandou olhar pra Laura e soltou: "Mas é que, com esse corpanzil, quem não ia querer se aproveitar do cargo dela na empresa". E olha que ele tinha razão. Laura era uma dessas minas de revista masculina, alta, de pernas longas, magra e com uma carinha de puta gostosa que nem preciso contar. Fiquei pensando um tempo nisso e me perguntei se o chefe era tão bom na cama pra eles fazerem aquilo ou se era só o dinheiro. Porque feio ele não era, e até malhava. Era cheiroso e tinha um bom perfume. Além do fato de ter grana, ele realmente tinha boa aparência e podia cair nas graças de qualquer um. Enfim, fiquei com uma dúvida existencial sobre isso, que se apagou assim que saí do escritório, subi no meu carro e fui direto pra casa, não sem antes passar num lugar especial. Antes de me mudar pra essa cidade, fiz umas quantas incursões pelas ruas dela. Tinha ouvido falar que era um bom lugar pra viver pra alguém com meu perfil, jovem, independente e com vontade de crescer. Então, se era, eu precisava confirmar. E em uns fins de semana em que me perdi pelas ruas, encontrei dois lugares interessantes, um pra minhas putarias noturnas e outro pra quando você só precisa pisar no freio e parar um momento à beira do caminho. E lá estava eu. Estacionei e, depois de deixar o carro num lugar adequado, desci e caminhei pelo estacionamento até a entrada do estabelecimento. Tinha umas Quantas escadas subiam até uma plataforma de madeira, que servia de chão pro lugar inteiro. De dentro vinha a música pop que tocava de fundo, bem estilo 2010-2015. Era tipo um galpão espaçoso, com paredes de madeira e janelonas por onde entrava muito vento, dando uma refrescada nas mesas espalhadas da entrada até a parede do fundo. Do meu lado direito ficava a cozinha e o balcão, onde a gente fazia os pedidos. Me aproximei e vi um cara jovem e gato atendendo, do lado dele uma mina branquinha de cabelo comprido e liso, muito gostosa, entregando uns pedidos pra um casal.
Olhei o cardápio em cima das cabeças deles e me deu vontade de um café gelado com uns donuts. Fiz meu pedido e o cara, com a testa franzida e um par de olhos que me pareceram dominadores, falou que em alguns minutos meu pedido ficaria pronto, pra eu sentar. A mina do lado dele reparou em mim e me deu um sorriso. Puta que pariu, era linda demais.
Sentei numa das mesas perto e fiquei olhando a estrada pelas janelas. De repente, aquele lugar me lembrou muito, mesmo não sendo igual, o lugar onde Dominic Toretto e Bryan O’Conner conversaram e comeram no primeiro filme de Velozes e Furiosos. Peguei meu celular e entrei no Facebook por um tempo. Fiquei vendo as publicações das pessoas que eu tinha adicionado e de algumas páginas. E aí recebi uma mensagem no WhatsApp.
Quando abri, vi que o número não estava salvo. Achei estranho, porque geralmente não recebo mensagem de número desconhecido. Normalmente eu ignoro essas mensagens, mas talvez fosse a espera ou o fato de estar num momento de desligamento que, contra meus princípios, entrei no chat e respondi.
— Oi, boa tarde — dizia a mensagem.
— Oi, boa tarde, quem tá falando? — perguntei no tom mais formal possível que se usa por mensagem.
— Uma amiga — respondeu. Depois disso, vi o “digitando” embaixo do número, e aí apareceu a mensagem dela —. Uma das minas que tava na sua casa quando a gente visitou o Mateo, o Lucas e o Júlio.
Franzi a testa. Franzi a testa com isso. Lembrava das minas, mas não entendia por que uma delas estaria me mandando mensagem. Aí pensei na garota que tinha piscado o olho pra mim.
— Ah, e aí? A que devo a honra? — respondi.
— Então… queria saber se a gente podia tomar alguma coisa.
— Tomar alguma coisa?
— É, sabe, só sair, tomar um drink e curtir a noite.
Levantei uma sobrancelha. Esperava mesmo que fosse algo tranquilo.
— Beleza, sem problema. Mas não vai ter treta com o Júlio, né? — perguntei.
— Ah, não, claro que não. Eu e o Júlio não somos um casal, só amigos. De vez em quando a gente sai e tal. Então… vamos sair?
Esperei um pouco pra responder. Valia a pena? A mina não era nada feia. Se eu passasse pelo filtro de um jovem hétero e bem tarado, diria que ela era do jeito que queria. Rabudinha, baixinha e com umas pernas de matar. Imaginei ela de lingerie e, puta merda, era uma delícia. E depois de confirmar que era ela, pensei bem e vi que seria bom sair com alguém pra variar.
— Beleza, no fim de semana, porque essa semana vou estar cheio de trampo. Te serve?
— Tá bom, assim a gente faz. Eu te ligo quando estiver pronta — ela disse, e aí mandou um emoji de beijo com um diabinho. Balancei a cabeça de leve e sorri.
— Beleza, tenha uma boa noite.
— Igualmente.
E depois disso, ela parou de responder. De repente, a mina atrás do balcão me chamou pelo pedido e fui pegar. Saboreei aquele café como nunca. E sem conseguir evitar, pensei em casa e na minha família. Tomara que as coisas não tivessem dado tão errado como deram. Se existisse o multiverso, queria que num deles a gente estivesse todo junto, sem nenhum problema entre nós.
Quando terminei, voltei pra casa umas oito da noite e, ao chegar, vi os caras vendo um filme. Cumprimentei e eles responderam. Perguntaram se eu ia ficar com eles e respondi que tava cansado, que ia descansar um pouco. Aceitaram sem discussão e me deixaram subir. E enquanto subia, não parava de Pensar naquele momento vergonhoso que passei de madrugada, quando subi vestida de lingerie e o Mateo olhou pra minha bunda e achou que tava lindíssima. Senti uma pulsação na bunda e outra no meu pau. Aquilo me excitou. Parei de prestar atenção nisso e continuei meu caminho até o quarto. Quanto tempo mais aquela segunda vida ia durar? Quanto tempo mais ia passar até o Mateo falar alguma coisa ou descobrirem que aquela garota que subiu as escadas era eu? Por enquanto, só me restava fugir e convencer.
Continua...
6 comentários - Fui la novia secreta de mis compañeros de cuarto (Parte II)
mmm que excitante y que bella sos!!