Meu Primeiro Dia. (Continuação de A Natureza me fez mulher)
Na história passada eu tinha contado como foi meu dilema. Minha família e eu decidimos me dar a chance de ver como seria minha vida como garota por um ano, já que a própria natureza fez meus peitos crescerem, e por alguma razão eu me tornei feminina em vez de crescer como um garoto normal da minha idade. Meus pais me matricularam em uma escola nova onde eu teria liberdade de ser quem eu quisesse sem problema algum. Então lá estava eu, entrando pela primeira vez na minha nova escola.
Ao chegar pela primeira vez como garota na escola, ninguém pareceu se importar. Eu tinha quatorze anos quando isso aconteceu. "Meu plano de passar despercebida está funcionando", pensei. Aquela era uma escola onde a gente tinha que usar uniforme escolar, então eu estava de saia colegial (xadrez vermelha e preta), blusa branca com um colete igual à saia, sapatilhas pretas e meias brancas. Minha aparente "invisibilidade" começou a desaparecer quando, aos poucos, fui me aproximando da minha sala de aula, onde estavam os garotos da minha idade. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas eles não paravam de me olhar, e comecei a me sentir muito estranha. Na primeira oportunidade que tive, virei e entrei no banheiro feminino. Esse banheiro era um cômodo grande, com uns cinco lavatórios, um espelho grande, e não sei quantos vasos sanitários, mas era grande o suficiente para várias pessoas estarem lá ao mesmo tempo. Ao entrar, fui correndo me olhar no espelho, pensei que talvez tivesse algo estranho no meu rosto, ou que estava mal vestida, ou que talvez eles tivessem descoberto meu segredo. Por um minuto, meu mundo se fechou e pensei que não valia mais a pena nada, entrei em pânico.
Naquele momento, uma garota, que eu não tinha percebido que estava ali, notou meu nervosismo e me consolou dizendo:
- "Você é nova aqui, né?" eu concordei, com vontade de chorar e sem conseguir articular palavra alguma.
- "Mas por que Por que você tá tão nervosa? Não se preocupa com as aulas, os professores são gente boa e sempre ajudam."
—"Não são os professores que me preocupam," falei com a boca tremendo, "o problema é o povo, os outros, os caras, acho que vão zoar de mim," terminei dizendo.
—"Zoar de você?" ela falou com um olhar estranho, "como assim zoar de você?, por que fariam isso?" continuou confusa.
—"Ué, do jeito que eu sou," respondi pra ela, achando que ela tinha descoberto meu segredo.
Nisso, o tom amigável dela mudou, e ficando irritada, ela quase gritou comigo:
—"Não sei o que você pensa de si mesma, mas acho que você é uma metida a besta, muita mina queria ser que nem você, com essa cor de pele, esse corpo, esse cabelo e essa cara bonita, você é quem quer zoar das outras minas daqui, você é tão falsa, já conheço mina que nem você, %#&^" e me deixando sozinha, saiu do banheiro batendo a porta com força.
"O que acabou de acontecer comigo?" pensei comigo mesma, chocada com a confusão que tinha rolado. Definitivamente, esse não é o melhor jeito de começar o dia nem de fazer novos amigos.
Fiquei mais uns minutos no banheiro, minha mente encheu de mil pensamentos, será que eu continuava com minha aventura, com minha nova vida ou não? Mas encontrei uma ajuda nas palavras que aquela mina louca gritou pra mim, "Ela disse que eu era bonita, pelo menos foi o que entendi" pensava, "como uma moreninha que nem eu vai ser bonita?" me perguntava. De repente, um momento de inspiração veio naquele segundo, me senti decidida, segura e feliz com o que ia fazer, me olhei de novo no espelho, sequei minhas lágrimas, retoquei minha maquiagem leve e sutil, me encomendei a Deus e com uma força que não sei de onde veio, decidi abrir a porta e encarar meu destino, falei pra mim mesma, "vim até aqui pra seguir em frente com minha nova vida, e não vou embora até conseguir," se antes eu tinha dúvidas ou perguntas sobre o que devia A partir de agora, tudo ficou claro pra mim: eu não precisava decidir se queria ser mulher ou não, eu já era uma mulher! E era assim que eu queria continuar pelo resto da minha vida. E a partir daquele momento, entreguei minha alma, meu coração, minhas forças e todo o meu corpo pra ser a mulher que a natureza criou em mim.
O cenário todo mudou de repente. Ao sair do banheiro feminino, os olhares já não me faziam sentir estranha ou esquisita; uma sensação de calma e paz me acompanhou o caminho todo até eu chegar na minha nova sala de aula. Entrei alguns minutos antes da primeira aula começar, então já não tinha muitos lugares disponíveis. Naquela sala, os alunos sentavam em umas carteiras cinzas feias pra duas pessoas, e só tinha dois lugares vagos na primeira carteira da fileira da frente. Odeio sentar na frente, mas não tive escolha a não ser sentar ali. O sinal tocou pra começar a aula e o professor chegou, fazendo com que todos os alunos finalmente se calassem.
O professor pediu que cada um de nós se apresentasse, dissesse o nome e de onde era, pra gente se conhecer melhor. Como eu estava sentada na frente, ele começou perguntando pra mim. Me apresentei dizendo meu nome: "Me chamo Carolina". Não teve problema nenhum, embora claro que não virei pra trás pra ver a cara dos meus colegas. Mas, quando terminei de me apresentar, me senti muito feliz, e até me parabenizei, porque tinha acabado de me apresentar publicamente como mulher pela primeira vez na vida. Isso foi um grande passo pra mim. Meu sorriso desapareceu logo, quando percebi que a menina doida que gritou comigo no banheiro também estava ali, na mesma sala que eu. "Me chamo Vanessa", disse ela ao se apresentar na aula, com uma voz prepotente, enquanto eu, por dentro, desejava que ela morresse de todos os males da terra.
Bem antes de terminar, enquanto eu olhava os outros se apresentando, alguém chegou na salão.
—"Bom dia, desculpa, mestre, cheguei atrasado" — disse o garoto que acabara de entrar, em quem eu não tinha reparado.
—"Vou deixar você entrar desta vez, jovem, mas não faça de novo" — o mestre o advertiu.
—"Não, mestre" — disse o garoto, que só então eu vi. "Pobre coitado, não sabe como se vestir" — pensei, julgando por dentro, porque ele estava com a camisa para fora, calças caídas e todo despenteado. Embora fosse meio alto, loiro, olhos claros, parecia que gostava de natação, porque tinha ombros largos, e, mesmo não parecendo muito forte, dava para ver que mantinha o corpo em forma.
—"Vai e senta com a Carolina" — ordenou o mestre. Não tinha percebido que o assento ao lado do meu era o único vago. O garoto, sem me olhar, foi se sentar ao meu lado, mas um instante antes de se sentar, o mestre pediu que ele se apresentasse para a turma.
—"Oi, me chamo Michelle e sou de Marselha" — disse o garoto cheiroso. "Marselha, e onde fica essa cidade?" — pensei.
Michelle finalmente sentou ao meu lado, mas não me dirigiu palavra alguma. Seguimos com a aula até chegar a hora do recreio por alguns minutos.
Michelle, que não tinha falado comigo (e aparentemente nem me olhado também), me olhou de soslaio. Notei o que ele fez, mas não disse nada. Ele me olhou de novo, bem sutilmente, mas fingiu que não. Assim ele passou alguns minutos. Chegou o outro professor, tivemos a outra aula, chegou o recreio de novo, e Michelle fez a mesma coisa. Como me cansei do jogo, perguntei educadamente e sem estar irritada: "Onde fica Marselha?" Michelle parou de me olhar de soslaio e fez contato direto com meus olhos pela primeira vez. Ao tentar articular palavras, Michelle hesitou um pouco:
—"Na França, Marselha fica na França" — respondeu timidamente.
—"Na França? E o que você faz aqui, tão longe?" — perguntei, agora curiosa.
E começando com essas perguntas, Michelle e eu viramos amigos. Ele era novo na escola. assim como eu. Ele me disse que o pai dele tinha uma empresa na cidade, e eles tinham uma grana. Parecia que a mãe dele nunca estava em casa, e então o coitado do Michelle tinha que fazer tudo (por isso que ele não sabia se vestir, tadinho). Também percebi que ele era gentil e bonzinho, depois de muitos dias sentando juntos na aula, começamos a compartilhar várias coisas. Claro, que eu nunca pensava em contar meu segredo pra ele.
Enquanto isso, na minha casa, meu pai começou a se acostumar mais a me ver e me tratar como uma adolescente. Minha mãe percebeu na hora a mudança na minha atitude e no meu jeito de ser nessas primeiras semanas que eu estava na escola. "Já tá agindo que nem uma mocinha" ela dizia quando notava minha rebeldia, meu jeito de responder e pensar. Aos poucos, minha mãe começou a me levar mais pra rua, lojas, e outros lugares como a filha adolescente dela. Quando encontrávamos alguém conhecido, minha mãe me apresentava como filha dela, e embora alguns ficassem com cara de estranhamento ou confusos, me cumprimentavam numa boa. Depois de uns três meses que eu comecei a escola, meu pai também começou a sair com a gente, já éramos uma família completa e feliz.
Na escola, Michelle e eu continuávamos sendo bons amigos. Por um tempo, tenho que confessar, eu fiz o papel de mãe pro Michelle, porque eu lembrava ele de fazer a lição, às vezes levava alguma comida que eu mesma preparava, e também ajudei ele a se vestir melhor. Aos poucos, fui lapidando o diamante bruto do Michelle, e cada dia ele ficava mais bonito. Embora a gente começasse a fazer novos amigos na escola, Michelle e eu mantivemos nossa amizade nos meses que se seguiram ao primeiro dia de aula. Era mês de novembro, e um dos nossos professores passou um trabalho em grupo. Outros dois colegas, Juan e Linda, além de Michelle e eu, tínhamos que nos reunir na casa do Michelle pra fazer essa tarefa.
Minha mãe me levou no horário combinado pra casa do Michelle (5 da tarde), não sem antes me alertar, como uma boa mãe que ela é, não deixou que me vesti do jeito que eu queria, e tive que usar uma calça jeans, uma blusa rosa forte (isso sim, sem mangas, mas não decotada) e consegui o que queria levando um tênis de salto. Minha mãe me avisou para me comportar e me deixou lá. Então entrei na casa, onde Michelle, que já me esperava, me ofereceu um copo d'água para beber, e me disse que nem Juan nem Linda iam poder vir porque tinham outras coisas para fazer, mas que a gente podia começar o trabalho sozinhos. Foi assim, e começamos a fazer nossa tarefa por um tempo. Como adolescentes que éramos, começamos a brincar e a falar coisas um para o outro de forma de zoação. Eu falava coisas tipo, "você é tão branco que parece fantasma" e ele falava coisas tipo "você é tão baixinha que parece um esquilo", além de que a gente roubava e escondia os utensílios, livros e outras coisas para trabalhar. Pela primeira vez, a gente se divertiu pra caralho fora da sala de aula. Depois de brincar um pouco, incrivelmente terminamos nossa parte do trabalho, eram umas 6 da tarde, e sentados do jeito que estávamos, Michelle me disse do nada que tinha algo importante para me falar:
— "Cary, você é uma garota maravilhosa, inteligente, e muito gostosa" ele confessou me olhando nos olhos.
No começo, fiquei muito surpresa do Michelle começar a falar assim comigo, até então a gente era mais como irmãos do que outra coisa, eu tava cuidando dele e ajudando em tudo, de onde ele tirou essas palavras? pensava enquanto na minha mente choviam um monte de pensamentos e meu coração começou a bater a mil por hora.
— "Você realmente se importa comigo, não como outras pessoas na escola, ou aqui mesmo na minha casa, eu sou alguém para você, e isso significa muito para mim" continuou explicando Michelle junto com várias outras palavras e explicações. Naquele momento, baixei minha guarda, meu coração parou de bater forte e minha mente se acalmou, pensando que Michelle só queria era me agradecer, e dizer que quer ser meu Amigo pra sempre e toda essa coisa que os adolescentes fazem. Devo admitir que já estava ficando entediada, quando de repente, Michelle concluiu toda a longa explicação dela dizendo:
— "Então, Caro, Carolina, gostosa, quero que você seja minha namorada!" — Michelle falou rápido e nervoso.
Eu, que já tinha baixado a guarda, recebi essa declaração como uma bala perdida, e o jeito que meu corpo reagiu (leitor, não vai tirar sarro de mim por isso...) foi com uma ereção. (A parte boa é que estávamos sentados do lado de uma mesa). Talvez tenha sido pela surpresa do momento, talvez porque pela primeira vez na minha vida alguém me via como uma mulher 100% real, alguém que, mesmo que por um instante, queria amar. Tudo isso foi tão inesperado, rápido e confuso pra mim.
— "Michelle, o que você acabou de me dizer?" — falei, agora nervosa e tremendo.
— "Que quero que você seja minha namorada! Te amo" — disse Michelle, se levantando do lugar e vindo na minha direção com uma segurança de homem que não sei de onde surgiu, mas que num segundo mudou a forma como eu via aquele garoto tímido e desajeitado, transformando ele num cara atraente, confiante e corajoso.
E sem dizer uma palavra, ele fixou o olhar nos meus olhos cor de mel, enquanto eu, com um sorriso, o convidei, olhando direto nos olhos azul profundo dele, a vir até mim. Com nossas bocas a apenas alguns suspiros de distância, ele se aproximou devagar dos meus lábios, me dando finalmente o presente de um beijo doce e inocente. Quando o beijinho gostoso terminou num segundo, com nossas boquinhas fechadas, Michelle voltou a sentar no lugar dele, e eu fiquei nas nuvens.
— "Agora somos namorados, né?...." — continuou falando e perguntando Michelle, enquanto eu queria que ele calasse a boca e a gente continuasse no beijo. Como eu ainda estava nas nuvens, minha resposta pra pergunta dele foi só um sorriso.
— "Beleza," — disse Michelle... — "e agora, o que vem depois?" — terminou me perguntando, como se eu soubesse o que fazer em casos assim. Naquela hora, alguém... Bateram na porta, e quebrando meu transe, finalmente desci das nuvens, era minha mãe, puta da vida, na porta de casa, já eram 10 da noite! O tempo voa com essas coisas, pensei, e me despedindo da Michelle, fui pra casa com a minha mãe chata pra caralho.
— "Ah! O que é o amor..." — falei comigo mesma, subindo pras nuvens de novo, revivendo na mente aquele beijo gostoso da Michelle. Que lindo que é o amor de adolescente...
C
Não esquece de comentar ou me escrever se você curtiu minha história...
Na história passada eu tinha contado como foi meu dilema. Minha família e eu decidimos me dar a chance de ver como seria minha vida como garota por um ano, já que a própria natureza fez meus peitos crescerem, e por alguma razão eu me tornei feminina em vez de crescer como um garoto normal da minha idade. Meus pais me matricularam em uma escola nova onde eu teria liberdade de ser quem eu quisesse sem problema algum. Então lá estava eu, entrando pela primeira vez na minha nova escola.
Ao chegar pela primeira vez como garota na escola, ninguém pareceu se importar. Eu tinha quatorze anos quando isso aconteceu. "Meu plano de passar despercebida está funcionando", pensei. Aquela era uma escola onde a gente tinha que usar uniforme escolar, então eu estava de saia colegial (xadrez vermelha e preta), blusa branca com um colete igual à saia, sapatilhas pretas e meias brancas. Minha aparente "invisibilidade" começou a desaparecer quando, aos poucos, fui me aproximando da minha sala de aula, onde estavam os garotos da minha idade. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas eles não paravam de me olhar, e comecei a me sentir muito estranha. Na primeira oportunidade que tive, virei e entrei no banheiro feminino. Esse banheiro era um cômodo grande, com uns cinco lavatórios, um espelho grande, e não sei quantos vasos sanitários, mas era grande o suficiente para várias pessoas estarem lá ao mesmo tempo. Ao entrar, fui correndo me olhar no espelho, pensei que talvez tivesse algo estranho no meu rosto, ou que estava mal vestida, ou que talvez eles tivessem descoberto meu segredo. Por um minuto, meu mundo se fechou e pensei que não valia mais a pena nada, entrei em pânico.
Naquele momento, uma garota, que eu não tinha percebido que estava ali, notou meu nervosismo e me consolou dizendo:
- "Você é nova aqui, né?" eu concordei, com vontade de chorar e sem conseguir articular palavra alguma.
- "Mas por que Por que você tá tão nervosa? Não se preocupa com as aulas, os professores são gente boa e sempre ajudam."
—"Não são os professores que me preocupam," falei com a boca tremendo, "o problema é o povo, os outros, os caras, acho que vão zoar de mim," terminei dizendo.
—"Zoar de você?" ela falou com um olhar estranho, "como assim zoar de você?, por que fariam isso?" continuou confusa.
—"Ué, do jeito que eu sou," respondi pra ela, achando que ela tinha descoberto meu segredo.
Nisso, o tom amigável dela mudou, e ficando irritada, ela quase gritou comigo:
—"Não sei o que você pensa de si mesma, mas acho que você é uma metida a besta, muita mina queria ser que nem você, com essa cor de pele, esse corpo, esse cabelo e essa cara bonita, você é quem quer zoar das outras minas daqui, você é tão falsa, já conheço mina que nem você, %#&^" e me deixando sozinha, saiu do banheiro batendo a porta com força.
"O que acabou de acontecer comigo?" pensei comigo mesma, chocada com a confusão que tinha rolado. Definitivamente, esse não é o melhor jeito de começar o dia nem de fazer novos amigos.
Fiquei mais uns minutos no banheiro, minha mente encheu de mil pensamentos, será que eu continuava com minha aventura, com minha nova vida ou não? Mas encontrei uma ajuda nas palavras que aquela mina louca gritou pra mim, "Ela disse que eu era bonita, pelo menos foi o que entendi" pensava, "como uma moreninha que nem eu vai ser bonita?" me perguntava. De repente, um momento de inspiração veio naquele segundo, me senti decidida, segura e feliz com o que ia fazer, me olhei de novo no espelho, sequei minhas lágrimas, retoquei minha maquiagem leve e sutil, me encomendei a Deus e com uma força que não sei de onde veio, decidi abrir a porta e encarar meu destino, falei pra mim mesma, "vim até aqui pra seguir em frente com minha nova vida, e não vou embora até conseguir," se antes eu tinha dúvidas ou perguntas sobre o que devia A partir de agora, tudo ficou claro pra mim: eu não precisava decidir se queria ser mulher ou não, eu já era uma mulher! E era assim que eu queria continuar pelo resto da minha vida. E a partir daquele momento, entreguei minha alma, meu coração, minhas forças e todo o meu corpo pra ser a mulher que a natureza criou em mim.
O cenário todo mudou de repente. Ao sair do banheiro feminino, os olhares já não me faziam sentir estranha ou esquisita; uma sensação de calma e paz me acompanhou o caminho todo até eu chegar na minha nova sala de aula. Entrei alguns minutos antes da primeira aula começar, então já não tinha muitos lugares disponíveis. Naquela sala, os alunos sentavam em umas carteiras cinzas feias pra duas pessoas, e só tinha dois lugares vagos na primeira carteira da fileira da frente. Odeio sentar na frente, mas não tive escolha a não ser sentar ali. O sinal tocou pra começar a aula e o professor chegou, fazendo com que todos os alunos finalmente se calassem.
O professor pediu que cada um de nós se apresentasse, dissesse o nome e de onde era, pra gente se conhecer melhor. Como eu estava sentada na frente, ele começou perguntando pra mim. Me apresentei dizendo meu nome: "Me chamo Carolina". Não teve problema nenhum, embora claro que não virei pra trás pra ver a cara dos meus colegas. Mas, quando terminei de me apresentar, me senti muito feliz, e até me parabenizei, porque tinha acabado de me apresentar publicamente como mulher pela primeira vez na vida. Isso foi um grande passo pra mim. Meu sorriso desapareceu logo, quando percebi que a menina doida que gritou comigo no banheiro também estava ali, na mesma sala que eu. "Me chamo Vanessa", disse ela ao se apresentar na aula, com uma voz prepotente, enquanto eu, por dentro, desejava que ela morresse de todos os males da terra.
Bem antes de terminar, enquanto eu olhava os outros se apresentando, alguém chegou na salão.
—"Bom dia, desculpa, mestre, cheguei atrasado" — disse o garoto que acabara de entrar, em quem eu não tinha reparado.
—"Vou deixar você entrar desta vez, jovem, mas não faça de novo" — o mestre o advertiu.
—"Não, mestre" — disse o garoto, que só então eu vi. "Pobre coitado, não sabe como se vestir" — pensei, julgando por dentro, porque ele estava com a camisa para fora, calças caídas e todo despenteado. Embora fosse meio alto, loiro, olhos claros, parecia que gostava de natação, porque tinha ombros largos, e, mesmo não parecendo muito forte, dava para ver que mantinha o corpo em forma.
—"Vai e senta com a Carolina" — ordenou o mestre. Não tinha percebido que o assento ao lado do meu era o único vago. O garoto, sem me olhar, foi se sentar ao meu lado, mas um instante antes de se sentar, o mestre pediu que ele se apresentasse para a turma.
—"Oi, me chamo Michelle e sou de Marselha" — disse o garoto cheiroso. "Marselha, e onde fica essa cidade?" — pensei.
Michelle finalmente sentou ao meu lado, mas não me dirigiu palavra alguma. Seguimos com a aula até chegar a hora do recreio por alguns minutos.
Michelle, que não tinha falado comigo (e aparentemente nem me olhado também), me olhou de soslaio. Notei o que ele fez, mas não disse nada. Ele me olhou de novo, bem sutilmente, mas fingiu que não. Assim ele passou alguns minutos. Chegou o outro professor, tivemos a outra aula, chegou o recreio de novo, e Michelle fez a mesma coisa. Como me cansei do jogo, perguntei educadamente e sem estar irritada: "Onde fica Marselha?" Michelle parou de me olhar de soslaio e fez contato direto com meus olhos pela primeira vez. Ao tentar articular palavras, Michelle hesitou um pouco:
—"Na França, Marselha fica na França" — respondeu timidamente.
—"Na França? E o que você faz aqui, tão longe?" — perguntei, agora curiosa.
E começando com essas perguntas, Michelle e eu viramos amigos. Ele era novo na escola. assim como eu. Ele me disse que o pai dele tinha uma empresa na cidade, e eles tinham uma grana. Parecia que a mãe dele nunca estava em casa, e então o coitado do Michelle tinha que fazer tudo (por isso que ele não sabia se vestir, tadinho). Também percebi que ele era gentil e bonzinho, depois de muitos dias sentando juntos na aula, começamos a compartilhar várias coisas. Claro, que eu nunca pensava em contar meu segredo pra ele.
Enquanto isso, na minha casa, meu pai começou a se acostumar mais a me ver e me tratar como uma adolescente. Minha mãe percebeu na hora a mudança na minha atitude e no meu jeito de ser nessas primeiras semanas que eu estava na escola. "Já tá agindo que nem uma mocinha" ela dizia quando notava minha rebeldia, meu jeito de responder e pensar. Aos poucos, minha mãe começou a me levar mais pra rua, lojas, e outros lugares como a filha adolescente dela. Quando encontrávamos alguém conhecido, minha mãe me apresentava como filha dela, e embora alguns ficassem com cara de estranhamento ou confusos, me cumprimentavam numa boa. Depois de uns três meses que eu comecei a escola, meu pai também começou a sair com a gente, já éramos uma família completa e feliz.
Na escola, Michelle e eu continuávamos sendo bons amigos. Por um tempo, tenho que confessar, eu fiz o papel de mãe pro Michelle, porque eu lembrava ele de fazer a lição, às vezes levava alguma comida que eu mesma preparava, e também ajudei ele a se vestir melhor. Aos poucos, fui lapidando o diamante bruto do Michelle, e cada dia ele ficava mais bonito. Embora a gente começasse a fazer novos amigos na escola, Michelle e eu mantivemos nossa amizade nos meses que se seguiram ao primeiro dia de aula. Era mês de novembro, e um dos nossos professores passou um trabalho em grupo. Outros dois colegas, Juan e Linda, além de Michelle e eu, tínhamos que nos reunir na casa do Michelle pra fazer essa tarefa.
Minha mãe me levou no horário combinado pra casa do Michelle (5 da tarde), não sem antes me alertar, como uma boa mãe que ela é, não deixou que me vesti do jeito que eu queria, e tive que usar uma calça jeans, uma blusa rosa forte (isso sim, sem mangas, mas não decotada) e consegui o que queria levando um tênis de salto. Minha mãe me avisou para me comportar e me deixou lá. Então entrei na casa, onde Michelle, que já me esperava, me ofereceu um copo d'água para beber, e me disse que nem Juan nem Linda iam poder vir porque tinham outras coisas para fazer, mas que a gente podia começar o trabalho sozinhos. Foi assim, e começamos a fazer nossa tarefa por um tempo. Como adolescentes que éramos, começamos a brincar e a falar coisas um para o outro de forma de zoação. Eu falava coisas tipo, "você é tão branco que parece fantasma" e ele falava coisas tipo "você é tão baixinha que parece um esquilo", além de que a gente roubava e escondia os utensílios, livros e outras coisas para trabalhar. Pela primeira vez, a gente se divertiu pra caralho fora da sala de aula. Depois de brincar um pouco, incrivelmente terminamos nossa parte do trabalho, eram umas 6 da tarde, e sentados do jeito que estávamos, Michelle me disse do nada que tinha algo importante para me falar:
— "Cary, você é uma garota maravilhosa, inteligente, e muito gostosa" ele confessou me olhando nos olhos.
No começo, fiquei muito surpresa do Michelle começar a falar assim comigo, até então a gente era mais como irmãos do que outra coisa, eu tava cuidando dele e ajudando em tudo, de onde ele tirou essas palavras? pensava enquanto na minha mente choviam um monte de pensamentos e meu coração começou a bater a mil por hora.
— "Você realmente se importa comigo, não como outras pessoas na escola, ou aqui mesmo na minha casa, eu sou alguém para você, e isso significa muito para mim" continuou explicando Michelle junto com várias outras palavras e explicações. Naquele momento, baixei minha guarda, meu coração parou de bater forte e minha mente se acalmou, pensando que Michelle só queria era me agradecer, e dizer que quer ser meu Amigo pra sempre e toda essa coisa que os adolescentes fazem. Devo admitir que já estava ficando entediada, quando de repente, Michelle concluiu toda a longa explicação dela dizendo:
— "Então, Caro, Carolina, gostosa, quero que você seja minha namorada!" — Michelle falou rápido e nervoso.
Eu, que já tinha baixado a guarda, recebi essa declaração como uma bala perdida, e o jeito que meu corpo reagiu (leitor, não vai tirar sarro de mim por isso...) foi com uma ereção. (A parte boa é que estávamos sentados do lado de uma mesa). Talvez tenha sido pela surpresa do momento, talvez porque pela primeira vez na minha vida alguém me via como uma mulher 100% real, alguém que, mesmo que por um instante, queria amar. Tudo isso foi tão inesperado, rápido e confuso pra mim.
— "Michelle, o que você acabou de me dizer?" — falei, agora nervosa e tremendo.
— "Que quero que você seja minha namorada! Te amo" — disse Michelle, se levantando do lugar e vindo na minha direção com uma segurança de homem que não sei de onde surgiu, mas que num segundo mudou a forma como eu via aquele garoto tímido e desajeitado, transformando ele num cara atraente, confiante e corajoso.
E sem dizer uma palavra, ele fixou o olhar nos meus olhos cor de mel, enquanto eu, com um sorriso, o convidei, olhando direto nos olhos azul profundo dele, a vir até mim. Com nossas bocas a apenas alguns suspiros de distância, ele se aproximou devagar dos meus lábios, me dando finalmente o presente de um beijo doce e inocente. Quando o beijinho gostoso terminou num segundo, com nossas boquinhas fechadas, Michelle voltou a sentar no lugar dele, e eu fiquei nas nuvens.
— "Agora somos namorados, né?...." — continuou falando e perguntando Michelle, enquanto eu queria que ele calasse a boca e a gente continuasse no beijo. Como eu ainda estava nas nuvens, minha resposta pra pergunta dele foi só um sorriso.
— "Beleza," — disse Michelle... — "e agora, o que vem depois?" — terminou me perguntando, como se eu soubesse o que fazer em casos assim. Naquela hora, alguém... Bateram na porta, e quebrando meu transe, finalmente desci das nuvens, era minha mãe, puta da vida, na porta de casa, já eram 10 da noite! O tempo voa com essas coisas, pensei, e me despedindo da Michelle, fui pra casa com a minha mãe chata pra caralho.
— "Ah! O que é o amor..." — falei comigo mesma, subindo pras nuvens de novo, revivendo na mente aquele beijo gostoso da Michelle. Que lindo que é o amor de adolescente...
C
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5 comentários - Mi primer día.
me encanta esta historia ❤️
a muchos les parecerá demasiado light, pero no importa, sigue relatando porque está buenísima.
Yo comenté tu post, por favor comentá el mio.
Los comentarios son caricias al alma de los posteadores