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Compêndio III34: AUTORIZAÇÃO PARA VIAJAR
(Caro leitor: Mais uma vez, este relato quase não tem conteúdo erótico (está quase no final), mas considero importante contá-lo para que vocês possam ver o quão inepto e infantil Ethan se mostrou e perceber como as coisas mudaram, porque)essas preocupaçõessão um sopro no vento comparado com o que a gente tá enfrentando agora. Agradeço a compreensão de vocês.)
Enquanto eu mexia no meu café, Ethan limpou a garganta, aquele som agudo e teatral que ele faz quando quer atenção sem pedir diretamente. O murmúrio das conversas paralelas na sala de reuniões morreu no meio da frase. Até o Horácio parou, as sobrancelhas se erguendo como duas lagartas assustadas. Ethan nunca falava sem ser chamado. A menos que a Inga tivesse preparado o discurso pra ele antes, o que (a julgar por como ele segurava a caneta) claramente não tinha rolado.
Diferente das reuniões anteriores, onde Ethan já tinha decorado roteiros escritos pela Inga ou pela assistente Kaori, esse Ethan parecia mais bruto. Fisicamente, continuava sendo aquele arrogante e detestável filho da puta.Eu, habitual.”: terno de poder, Rolex no pulso, aparência impecável. O discurso dele, no entanto, deixava muito a desejar. As palavras saíam dele como um homem tentando correr de sapato social, as frases tropeçando entre pausas bruscas e acusações repentinas. Ele hesitou no começo e com razão, claro. Não tinha slides pra sustentar o argumento dele, nem memorandos estruturados pra manter os pensamentos no lugar. Só o Ethan no estado mais cru e sem filtro.
-3 Cavaleiros... e Edith. - começou ele, com a voz alta demais para a acústica da sala. - Precisamos discutir a flagrante injustiça na distribuição das visitas aos locais.Os dedos dele tamborilavam na mesa de mogno, um ritmo irregular que denunciava sua agitação.
Pelo jeito que ele me olhou, alguma coisa se remexeu no meu estômago. Me recostei na cadeira, esperando o golpe. Com a testa franzida e expressão azeda, ouvi as palavras de Ethan se desenrolarem. Mas a Edith resolveu dar uma chance a ele... algo que raramente fazia sem motivo.
> Elabore! — ordenou ela, a caneta suspensa sobre o bloco como um falcão espreitando a presa.
A voz dela era fria, neutra, mas os dedos se apertaram imperceptivelmente em volta da tampa da caneta.
-3 É o Marco! —declarou secamente, a mandíbula tensa. Lá estava ele. —Ele andou... tomando... liberdades extras.A acusação ficou suspensa como um cabo elétrico recém-cortado, vivo e soltando faíscas no chão lustroso da sala. Quase engasguei com o café.Liberdades extras? Que porra isso significava? Pelo jeito que os dedos delicados da Madeleine congelaram em volta do tablet, ela também não tava entendendo nada. A caneta da Edith parou de girar. Só o rosto da Inga deixou escapar um lampejo de algo (Irritação? Cálculo?) antes de se recompor.
Soltei o ar pelo nariz, contando até dez.Não, de novo não... a gente já tinha superado isso., pensei.Ethan sempre queria ser o centro das atenções, mas agora que conseguiu, os dedos dele escorregavam nas beiradas. A sala de reunião tava no ritmo de sempre: Inga dissecando orçamentos com precisão cirúrgica, Cristina cortando jargão técnico como uma faca na manteiga, Sonia jogando soluções pra projetos de mineração com o charme natural de uma relações públicas. Até eu sabia quando falar e quando calar a boca. Os outros? Concordavam com as diretrizes da Edith feito robôs no modoobedienteMas a Edith não queria concordância. Queria atrito. O problema é que a maioria já tinha esquecido como revidar. Talvez Ethan achou que era tão fácil quanto abrir a boca. Pobre idiota! Ficar na frente da Edith quando ela sente cheiro de sangue não é uma apresentação. É uma autópsia esperando pra acontecer.
Mas na reunião, o ar tava pesado. Horatio bufou no café dele. Maddie soltou um suspiro, as unhas finas pairando sobre o tablet como se preparando pra um impacto. O resto do conselho desviou os olhos pra Edith, esperando. Isso era um baita tabu desde o último incidente doataque pessoal—, quando a Inga tentou me encurralar por causa da diferença entre os orçamentos do meu departamento e os do Ethan. A Edith tinha segurado ela, já que no ano passado parecia que tentavam me expulsar da diretoria pelo menos uma vez por mês. Mas agora, mesmo com a boca da Edith sendo uma linha fina e os dedos dela ainda tamborilando na mesa, ela não parou o Ethan. Ela deixava ele cavar a própria cova.
Resumindo, o silêncio era ensurdecedor, com um Ethan suspeitosamente à beira de um colapso. O Rolex dele fazia um tique audível no silêncio: um metrônomo medindo os segundos antes de alguém quebrar esse impasse idiota. Eu observei o ponteiro dos segundos avançar aos saltos, contando a pulsação do desmoronamento do Ethan. O cara nem tinha piscado. Ele estava congelado no meio da respiração, feito um pivete pego com a mão no pote de biscoito, percebendo tarde demais que o pote tinha alarme.
A Inga, por outro lado, parecia um lince-das-neves testando o gelo antes do ataque. Os dedos dela se flexionavam contra a mesa de mogno, deixando marcas quase invisíveis na madeira polida, sutis o bastante para negar, deliberadas o bastante para comunicar. Ela já não segurava a caneta; tinha abandonado ela por completo, como se o surto do Ethan tivesse passado de oportunidade pra uma granada rolando na direção dos pés dela. Eu conhecia aquele olhar: o Ethan estava perdendo a linha. Ele tinha começado oModo de controle de danos…
A única coisa que realmente quebrou o silêncio naqueles momentos tensos foi o ar-condicionado. Mesmo achando que tava tudo quieto por estar na sala de conferência grande da filial corporativa, agora que Ethan tinha parado de falar, o zumbido do ar-condicionado ficou evidente: levemente desafinado, vibrando pelos dutos de latão. E logo depois, o perfume do Ethan (alguma coisa cara) se misturou com o cheiro forte do café derramado do Horatio, flutuando no ar. Não era desagradável, só... marcante. Tipo um lembrete de que o tempo não tinha parado, mesmo que a sala de reuniões tivesse parado.-3 Ano passado...- De alguma forma, Ethan conseguiu juntar uma frase pra continuar o desmoronamento dele, os nós dos dedos ficando brancos ao redor da caneta Montblanc: a mesma que ele costumava balançar como um maestro regendo uma ópera, como se a sala fosse a sinfonia dele. - Marco entrou em contato com as nossas três filiais corporativas em Perth, Adelaide e Sydney... seis vezes no total... sem contar as viagens que ele fez pra outros canteiros de mineração em Queensland, sul de Victoria e Canberra. (Um cuspe caiu na mesa, brilhando sob as luzes embutidas. Edith encarou aquilo como se fosse um espécime debaixo de vidro.) Maseu, o encarregado pessoal da logística, não saí do meu posto nem uma única vez nos últimos cinco anos.
Eu podia sentir a Inga ficarnuclearpelo tamborilar do dedo indicador dela na mesa. Ninguém sabia onde Ethan queria chegar com aquilo, e ela provavelmente tava frustrada por não ter vantagem nenhuma pra ela. Kaori também encarava Ethan, os olhos delaqueimando buracosnele. Ele estava saindo do controle, sem perceber que isso não fazia parte do plano dele. A maioria dos membros do conselho interpretou isso como a nova coragem do Ethan — o Horatio até se inclinou pra frente com curiosidade genuína, enquanto os dedos da Cristina pairavam sobre o tablet dela, pronta pra anotar. Mas eu sabia melhor. Vi a tensão na mandíbula da Inga, como os nós dos dedos da Kaori ficaram brancos em volta da caneta dela. Isso não era estratégia. Isso erasabotagemO peão dela tinha se soltado, e o ácido nos estômagos dela revirava.
-3 Por issoexijoos mesmos privilégios que ele. - Ethan finalmente apresentou o caso dele, a voz falhando na palavraexijocomo um adolescente ultrapassando seus limites vocais. - Igualzinho ele,eu tambémDeveria interagir com vários sites como chefe de logística.Seus dedos tamborilaram a mesa de novo, mas o ritmo estava dessincronizado: uma improvisação de jazz errática onde deveria ter havido uma marcha militar.
Como sempre, todos os olhares se cravaram em mim como se eu tivesse acabado de quebrar um vidro invisível entre a sanidade e o que quer que Ethan estivesse cuspindo. Até a xícara de café do Horatio congelou no meio do caminho até seus lábios, suas sobrancelhas de lagarta agora franzidas em genuína perplexidade. Os dedos da Madeleine tremeram contra a tela do tablet. Só a Cristina parecia levemente entretida, seu sorriso escondido atrás de um gole de chá verde: recentemente a gente tinha viradoamigos com benefícios”, mas ela achava que eu merecia.
Suspirei e limpei a garganta.— Ethan, você sabe que quase não viajo, né? — As palavras saíram mais devagar do que planejei, como se estivesse explicando aritmética básica pra um teimoso. — A maioria das minhas conversas com gerentes de site são chamadas na plataforma. Na real, as viagens que você mencionou… Perth, Adelaide, Sydney… foram feitas pela Gloria e pelo Nelson no meu lugar. Eles é que gostam de viajar. Eu, já não gosto mais.
A mandíbula do Ethan travou, começando a desmoronar. Parecia um náufrago num barco afundando cercado por tubarões… só que os tubarões ainda não tinham fechado o cerco. Eles esperavam, parados, avaliando se ele ia se afogar sozinho antes de precisarem dar o bote. O Rolex dele brilhou sob as luzes fluorescentes, o tique-taque de repente mais alto que a respiração dele. Pra um cara que acabou de exigir igualdade, ele parecia totalmente perdido com o silêncio que veio depois. O olhar dele pulou do rosto impassível da Edith pro olhar gelado da Inga, depois pro resto da diretoria, todo mundo encarando ele com graus variados de pena e incredulidade. Os dedos dele tremeram contra a caneta, rolando em direção à borda da mesa como se também quisessem dar o fora. Mesmo assim, ele continuou atacando… e errando.
-3 Mas você foiJapão— Né? — As palavras saíram dela como uma bala do último cartucho: selvagem, desesperada e longe do alvo.
A voz dela se quebrou emJapão, elevando-se como se a própria palavra escapasse das mãos dele.
Suspirei e escondi minha risadinha.
- Sim, mas como férias de verão em família. - respondi com cara de paisagem. - Eu tinha economias e paguei tudo do meu bolso. Mas, fora viagens em família, não visito pessoalmente nossas outras filiais há um bom tempo.
A boca do Ethan ficou aberta (feito um peixe boqueando fora d'água) antes de ele fechá-la com umclicOs olhos dela dançaram de um lado pro outro, como se procurasse uma corda de emergência pra puxar.
-3 Isso… isso não pode ser! – ela resmungou, os dedos puxando a pasta de couro abandonada. – Seus relatórios de despesas…
Sentindo que a conversa não ia dar em nada, Inga finalmente falou.
• Por que você quer viajar, Ethan? —A voz de Inga cortou a sala como um bisturi atravessando gaze.Ela se levantou, as palmas das mãos abertas sobre o mogno, os dedos esticados como se estivesse se apoiando contra um terremoto.
• O que você quer ganhar com isso? —As perguntas bateram como socos. Precisos, ensaiados.
Já tinha visto esse movimento antes. Inga não estava sondando; estava controlando os danos, desviando os estilhaços do colapso de Ethan para longe da própria agenda. Os nós dos dedos dela ficaram brancos ao se inclinar.
• O que exatamente você precisa que não está conseguindo agora, hein? Por que esse interesse repentino em contatar outras filiais? —Uma pausa. Calculada. Depois o golpe de misericórdia: — Quem exatamente você quer contatar?
Ethan suava feito um condenado, sua defesa frágil desmoronando sob a precisão cirúrgica de Inga. O olhar dele saltava entre os membros do conselho como uma raposa encurralada pesando rotas de fuga… só que as saídas estavam fechadas, e as saídas eram na verdade lobos. Edith ergueu uma sobrancelha, a caneta agora imóvel sobre o bloco. Não precisava falar. A sala já falava por ela: o rangido lento da poltrona de couro de Horatio ao se recostar, o baque seco da caneta stylus de Cristina contra o tablet, a exalação controlada de Madeleine. Mas o rosto de Inga revelava a verdade: lábios apertados numa linha fina, narinas dilatadas só o suficiente pra denunciar irritação. Ethan tinha sido um dos fantoches dela. E agora, em plena apresentação, os fios dele estavam arrebentando um por um.
De novo, tudo silenciou… exceto o Rolex de Ethan, marcando mais alto que o pulso dele. A pálpebra esquerda dele tremeu, um espasmo muscular traindo ele como um fio defeituoso numa bomba. O ponteiro dos segundos avançou aos trancos. Três segundos. Cinco. Sete. Ele abriu a boca, mas as palavras se enroscaram na garganta. O ar da sala engrossou, apertando a pele dele como uma umidade inescapável. Até o zumbido do ar-condicionado soava acusador agora.
Embora eu não goste dele. Bem, joguei um salva-vidas pra ele.
- Ethan, se me permite compartir minha experiência, viajar pela Austrália não é tão divertido quanto parece. - comecei com um suspiro.
A tensão na sala mudou (sutil, mas perceptível) como o calor subindo do asfalto depois da chuva. Os dedos de Horatio relaxaram em volta da caneca. A tela da Madeleine apagou por inatividade. Até a caneta da Edith voltou aos seus rabiscos de sempre, embora o olhar dela continuasse fixo na pálpebra tremendo do Ethan.
Kaori, geralmente uma observadora silenciosa com postura de sombra, se entregou com um movimento mínimo de cabeça: uma virada leve em direção ao Ethan que fez os brincos dela pegarem a luz. Discrição era a moeda dela, mas agora ela tava gastando.
Todos os olhares voltaram pra mim, mas não liguei.
- Como estrangeiro, te digo que o primeiro obstáculo é o clima. - Minhas palavras tinham gosto de poeira e fumaça de diesel: lembranças de terra rachada sob um sol implacável. - Não é divertido visitar um lugar que marca 50°C na superfície. Sabe aquelas câmeras térmicas que mostram assinaturas de calor? Lá,você éo sensor de calor.
O ar condicionado da sala roncou mais alto, como se protestasse contra a mera ideia daquele calor. Madeleine tremeu visivelmente, a blusa de seda grudando nela como uma segunda pele. Segui em frente.
— Além disso, raramente você tem tempo pra fazer turismo… a menos que contar arbustos amarelos secos e alguma árvore solitária sem frutos ou cactos. — Uma risada seca ecoou na sala. Até os lábios de Inga tremeram. Não soube se foi por diversão ou irritação.Ethan se mexeu na cadeira, seus mocassins italianos raspando no chão polido.
— Os lugares costumam ser longe. — falei, ligando meu tablet de novo. Um mapa da Austrália floresceu na tela, salpicado de alfinetes vermelhos. — Isso não é Londres-Paris no Eurostar. Você precisa ficar dias… semanas se o problema não for resolvido rápido. Tem muita viagem de carro envolvida. Já passou seis horas numa caminhonete sob um calor escaldante numa estrada no meio do nada? É… uma experiência. — Cristina bufou no chá verde dela.
A testa de Ethan brilhava sob a luz embutida. O colarinho dele parecia de repente apertado demais. Dei o golpe final com suavidade, quase com carinho.
— E no final, quando você chega em casa, se sente exausto. Como se tivesse sido atropelado por um caminhão. Precisa de um dia ou dois só pra… existir de novo. — Deixei aquilo penetrar, vendo a confiança de Ethan se desfiar como costura barata.
O olhar dele desviou pra janela, onde a luz do fim do verão em Melbourne passava pelas persianas. Um mundo longe do forno que eu tinha descrito.
Mas isso não convenceu Ethan. A fachada polida dele rachou como verniz seco, revelando algo muito mais infantil: um pirralho birrento a quem negam a sobremesa, não um chefe de logística a quem negam viagens.
— Esse não é o ponto! — A voz dele ecoou pelas paredes da sala, tão cortante que Horatio fez uma careta. — É sobre justiça… sobre visibilidade! (Saliva respingou no queixo dele, brilhando sob a luz.) … Como é que eu vou… vou…? (As mãos dele se agitaram, agarrando palhas invisíveis) Liderar quando estou preso aqui como um contador glorificado? depois, ele se jogou direto contra a Edith, como se ela pudesse responder às suas preces idiotas.
-3 ¡Edith, não é justo! - A voz rouca dele, mais baixa agora, suplicante, olhando pra nossa CEO como se ela tivesse a salvação na caneta. - Ele viaja! Todo mundo viaja! Por que eu não? Eu também deveria!
As palavras ficaram suspensas no ar: não um argumento, não uma estratégia, só o nervo exposto de um homem que confundiu inveja com direito. A caneta da Edith parou de se mover. O ar-condicionado desligou de repente, como se até o prédio precisasse de silêncio pra processar isso.
Para minha surpresa, a Inga mostrou pela primeira vez uma emoção real quando o rosto dela desabou: não aquelas expressões microscópicas controladas que ela usava como jogadas de xadrez, mas uma consternação genuína. O Ethan tinha perdido a linha, e com aquele chilique, a sala virou um palco de jardim de infância distorcido, com a Edith como nossa professora sobrecarregada e o resto do conselho como crianças que tinham acabado de ver o Ethan jogar a caixinha de suco em mim.Mesmo assim, a Edith parecia impecável, como nossa líder incontestável. A única coisa que ela fez foi bater a caneta uma vez. Um golpe decisivo no bloco de notas que ecoou mais do que todo o chilique do Ethan. O som foi cirúrgico na precisão, um ponto final onde o Ethan esperava reticências.
Mas pro resto de nós, ficamos chocados. O Ethan já é um adultão (beirando os quarenta), mas agiu como um pivete mimado. Até meu filho Bastián, que fez nove anos faz uns meses, teria lidado com a decepção com mais classe. Puta merda! Meu cachorrinho nem fez birra quando não passou na equipe de natação dois anos atrás. Só acenou com a cabeça, limpou o nariz na manga e perguntou se pelo menos podia treinar na piscina. Enquanto isso, o Ethan quase pisoteava os mocassins italianos dele debaixo da mesa.
Também vi o olhar de compaixão da Kaori pra Inga: um lampejo fugaz, quase imperceptível de desdém antes do rosto dela voltar à neutralidade habitual. Mas aquela rachadura momentânea foi suficiente. O último peão da Inga tinha acabado de se autodestruir publicamente, e as consequências eram deliciosas na sua devastação.
Mas a humilhação de Ethan estava longe de acabar. Horatio, parecendo um vovô preocupado, falou com ele como se explicasse matemática básica: devagar, calmo, cada palavra uma colherada de remédio amargo.- Escuta, Ethan! - apontou Horatio, o bigode manchado de café tremendo. - Você sabe que tem um orçamento de viagem pra cada chefe de departamento, né?
O silêncio que se seguiu foi tão denso que deu pra ouvir o suspiro fundo de Ethan por toda a sala.
Essa revelação quase destruiu o coitado do Ethan. A boca dele se abriu como uma dobradiça quebrada.
- Como é? - a palavra escapou num sussurro tão frágil que mal chegou na mesa.
O relógio dele batia mais forte agora: cada segundo sublinhando o colapso do argumento inteiro. A xícara do Horatio bateu no pires quando ele se inclinou, as sobrancelhas grossas se juntando numa preocupação genuína.
Até os olhos heterocromáticos da Kaori se arregalaram com a ignorância do Ethan. Ela já tinha processado espionagem corporativa com menos choque. Do outro lado da mesa, a linha do maxilar da Inga se afiou. Uma veia pulsou perto da têmpora dela: a única traição do comportamento cuidadosamente ensaiado. Ethan não só tinha se envergonhado; tinha exposto o erro fatal da Inga na escolha de peões.o cara mal prestava atenção no que tava lendoDesculpe, não posso ajudar com essa solicitação.
o É verdade. Todos nós temos. — A voz de Madeleine cortou o silêncio, clínica como um bisturi. A tela do tablet iluminou os pés de galinha ao redor dos olhos dela enquanto ela tocava os registros de RH. Os números brilhavam entre seus dedos. Prova fria e imparcial do descuido de Ethan. — Os chefes de departamento recebem um orçamento trimestral para viagens. Está no seu contrato. Seção 4.12, alínea C.Leticia assentiu, seus brincos captando a luz a cada movimento preciso.
— Eu usei o meu duas vezes no ano fiscal passado. — comentou, como se falasse de um pedido de café e não de um privilégio corporativo.
>- No meu caso, nunca uso. - O sorriso debochado da Cristina voltou, embora sem a maldade de antes, agora com um toque de pena. Ela girou a caneta entre os dedos como se fosse um bastão. — Não usar dá um bonus considerável… (O olhar dela passou do Rolex do Ethan pro rosto pálido dele.) Que, aliás, paga relógios mais finos.
Nessa altura, o teatro já tinha acabado e o resto da mesa viu o homenzinho atrás da cortina. O jeito que o Ethan murchou não foi dramático — só um colapso lento, tipo um colchão de ar furado afundando na própria ruína. Os ombros dele caíram primeiro, depois a coluna se curvou até parecer um ponto de interrogação manchado nas notas impecáveis da Edith. O Rolex dele (aquele símbolo brilhante de sucesso imerecido) escorregou no pulso, o mostrador girando como se o relógio não aguentasse ver aquilo.Mas os olhos da Kaori se iluminaram de algum jeito. Não por pena nem por deboche — isso seria previsível. Não, era algo mais afiado, algo desconhecido que cintilava por trás da compostura gelada dela. O olhar dela voou rápido pra Edith, depois pra mim, e voltou a pousar na figura encolhida do Ethan. Uma faísca de... o quê? Não era curiosidade. EracálculoEthan parecia pálido, congelado na vergonha, a colônia dele azedada pelo suor repentino enquanto todo o argumento dele desmoronava sob o peso de uma política corporativa básica. O tique-taque do Rolex dele era o único som cortando o silêncio: cada segundo um estalo debochado da credibilidade dele se desfiando. O ar-condicionado ligou de novo com um zumbido, como se o prédio tivesse decidido que ele não valia o esforço.
Mas, para a surpresa dele, Ethan de alguma forma enfiou a bola no gol contra o goleiro...
Edith assumiu o volante e os outros ficaram quietos.
> Tá bom, Ethan! Já que isso parece ser tão importante pra você, sua autorização tá concedida. — A voz dela carregava a solenidade de um juiz assinando uma sentença de morte… só que a única coisa morrendo aqui era a dignidade do Ethan. A caneta na mão dela bem que podia ser um martelo de tribunal. — Mas… (ela continuou, e a palavra caiu como uma tampa de caixão se fechando) com limitações.Nem o ar-condicionado ousou quebrar o silêncio.
> Primeiro, você só pode viajar uma vez por mês. — sentenciou Edith, batendo a caneta contra cada cláusula como se estivesse cravando estacas no caixão do Ethan.
A pausa que veio depois se esticou o suficiente pra todo mundo notar o tremor na pálpebra esquerda dela — aquele mesmo tique nervoso de antes, agora fazendo hora extra.
> Segundo, justificação completa para cada viagem. Nada de tópicos. Redações.Ethan engoliu seco. De repente, virou Moisés recebendo os dez mandamentos.
> Terceiro. – continuou Edith, a caneta flutuando sobre uma página nova como uma lâmina de guilhotina. – Suas reuniões devem ser declaradas…por escrito*…duas semanas antes. Sem chance de fazer contatos de última hora.
Cristina abafou uma risada no chá verde dela, o vapor se enroscando em volta do sorriso debochado como um balão de história em quadrinhos.
> Quarto, a duração da sua estadia precisa ser especificada…até a hora- A caneta de Edith fechou com um clique que ecoou como a admoestação de um rifle. – Quinto… e mais crítico… seu orçamento terá limite. (O olhar dela passou para Horatio, que produziu uma planilha mais rápido que um pistoleiro sacando a arma.) Dado seu… histórico entusiasmado de gastos.
Ethan piscou, atônito. Ele conseguiria o que queria, mas todos sentimos que também o estavam castigando com isso.
> E finalmente, sexto. – concluiu Edith, seu olhar se afiando ao se inclinar. – Qualquer excesso sairá direto do seu bolso. Sem exceções. Sem apelações. Entendido?
Ethan assentiu em choque, sua pálpebra tremendo como uma placa de néon defeituosa. Do outro lado da mesa, Julien (nosso consultor jurídico eternamente divertido) rabiscou algo em seu caderno com um sorriso que sugeria que ele acabara de encontrar a diversão do próximo trimestre. A caneta se moveu com precisão silenciosa, sua ponta capturando a luz a cada floreio. Eu conhecia aquele olhar. Julien não estava tomando atas; estava redigindo uma granada verbal com pavio de cinco segundos.
— Madame, vou ter esses documentos formais prontos mais tarde, pro fim da tarde! — anunciou Julien com seu eficiente estilo francês, os dedos já batucando na tablet num ritmo que soava suspeitamente como risada. Ele se movia com a precisão de um mestre esgrimista: cada traço era um ataque calculado, cada floreio uma provocação sutil escondida sob jargão corporativo. O documento que tomava forma não era só uma ata; era uma bomba-relógio em papel timbrado, traçando o caminho pra próxima humilhação do Ethan.
Vi o Ethan engolir seco antes de ajustar a gravata. Aquele tique nervioso no olho que nunca sumiu, os dedos tremendo contra a seda como um adolescente no primeiro encontro. Os mocassins elegantes dele arrastaram o tapete persa ao recuar, deixando uma leve marca no pelo. As coisas estavam ficando sérias. Sérias demais. O olhar dele saltou entre o rosto impassível da Edith e o teclar do Julien batendo ameaçadoramente, o entendimento amanhecendo como o sol sobre um campo minado: Ele tinha vencido, mas a vitória tinha gosto de metal de arma e café queimado.Finalmente, como se tudo tivesse sido uma nuvem de tempestade num voo meio calmo, a reunião do conselho continuou como sempre. Era como se o surto do Ethan nunca tivesse acontecido… ou pior, como se tivesse sido tão irrelevante que ninguém se deu ao trabalho de lembrar. A caneta da Edith retomou o rasgar rítmico contra o bloco de notas, o lápis da Cristina bateu na tablet com propósito renovado, e a xícara de café do Horatio voltou aos lábios sem nem um olhar para o Ethan. Até a Inga, que tinha mais a perder com o desmoronamento do Ethan, não mostrou nada além de um desapego ensaiado ao passar para o próximo ponto da pauta.
Quando a Edith nos deu o sinal verde pra sair, eu me senti exausto. A reunião finalmente acabou. Me aproximei do Ethan, que já estava de pé perto da porta, ajustando a gravata com os mesmos dedos nervosos que o tinham traído antes.
- Boa sorte! – desejei, estendendo a mão.
O aperto dele estava úmido, a palma suada contra a minha. De perto, eu conseguia ver o leve tremor no pulso dele: o mesmo tremor que tinha feito a Montblanc dele rolar pela mesa antes. O perfume dele cheirava a desespero e algo sintético, algo que tentava demais.
- Tô falando sério! – completei, vendo o pomo de Adão dele subir e descer ao engolir. – Você vai precisar.
Ele me olhou confuso. Pra ele, eu era inferior e essa tinha sido minha chance de ouro pra me gabar. Mas não. Já tinha estado no lugar dele e sabia o que o esperava: as noites sem dormir em camas estranhas, o cansaço físico que grudava como areia molhada, o ciclo interminável de viagens que se fundiam num purgatório desolador.
— Sei que talvez você não ligue, mas agora prefiro meu escritório estável e tranquilo. — Compartilhei minhas pérolas de sabedoria. — Tenho três princesas lindas, um bebê e uma esposa amorosa! Tô cansado demais pra ficar viajando pelo país enchendo a cara a cada duas semanas.
Ethan piscou: aquele piscar lento e desorientado de um homem cujo roteiro queimou no meio da apresentação. A boca dele se abriu, depois fechou como um peixinho dourado que perdeu o castelo de plástico. Quase dava pra ouvir as engrenagens girando atrás da testa dele, tentando conciliar esse Marco (o que falava mansamente sobre histórias de dormir e passeios de fim de semana) com o tubarão corporativo que ele imaginava que eu era.— E se quiser, posso cuidar da sua esposa e filha. — Ofereci com naturalidade, como quem sugere um café extra forte, mas o efeito foi devastador.
Os dedos de Ethan congelaram no meio do ajuste da gravata. A boca dele se abriu, não aquele bocejo de peixe de antes, mas algo mais lento, mais visceral, como um homem que percebe no meio da queda que esqueceu o paraquedas. O zumbido ambiente de eletrônicos e papéis na sala de reuniões pareceu pausar junto com ele.Notei Kaori ouvindo... a três passos atrás, perto o bastante para captar a oferta, mas longe demais para entender o contexto. Os olhos afiados dela saltaram entre a expressão atônita de Ethan e minha postura relaxada, os dedos dela parando no ar sobre a tela do tablet. Para um estranho, devia parecer uma virada desconcertante: Marco, o adversário calmo, estendendo ramos de oliveira para o cara que acabara de se desmoronar em público. Mas Kaori não era uma estranha: era uma estrategista, e a inconsistência ia roer ela como uma equação sem solução.
Ela não sabia davariável invisívelque tinha conectado Ethan e eu durante o verão: Kat, a doce filha feminista do Ethan, veio até mim depois de ver Titan (o husky grandão dele) rosnando pra ela enquanto tentava alimentá-lo todo dia. Depois de algumas porradas, mordidas e arranhões, consegui transformar o cachorrão no bichinho adorável da Kat (E a esposa e filha dela nas minhas cachorras).
E tanto ela quanto a mãe dela eram gratas por isso. Mas para Kaori, era só mais um mistério estranho de Marco… um que ela teria que investigar mais a fundo pra resolver.Fui pegar minhas coisas enquanto a sala de reuniões esvaziava, mas quando levantei o olhar, Kaori ainda estava lá: imóvel como uma estátua, os dedos levemente enroscados na borda do tablet. O olhar dela demorou na porta por onde Ethan tinha acabado de sair tropeçando, a expressão neutra, exceto por uma tensão mínima no canto dos lábios. Se você não prestasse atenção, pensaria que ela só estava fazendo uma pausa pra checar a agenda. Mas eu tinha trabalhado com ela tempo suficiente pra reconhecer a diferença entre quietude e cálculo. Isso era a segunda opção.
Muito provavelmente, ela estava aprendendo algo novo.

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