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Capítulo 01.
O Pombero.
A mansão Var Kavian se ergue imponente no meio de uma floresta densa e solitária, cercada por um muro de pedra e um portão de ferro. Rebecca Korvacik se sente atraída pelo charme decadente da casa, que ainda guarda vestígios do seu antigo esplendor. Ela tá convencida de que esse lugar é perfeito pra começar uma vida nova, longe dos problemas e das preocupações que pesavam nela na cidade. Sonha em restaurar a mansão e transformá-la num lar acolhedor e cheio de amor, onde os filhos dela possam crescer felizes e a irmã consiga se recuperar da depressão.
—É deprimente —disse Catriel, o único filho homem de Rebeca.
A fachada é cinza e suja, com janelas quebradas e portas caindo aos pedaços. As telhas, que um dia foram cinzas, agora estão cobertas de teias de aranha… e algumas nem aguentaram o tempo passar.
— Ouvi dizer que o povo da vila evita se aproximar da mansão — comentou Inara.
— É verdade — apoiou Lilén, sua irmã gêmea —. Dizem que aqui acontecem coisas estranhas: barulhos, luzes, sombras, aparições… Por que a gente tem que morar aqui, mãe?
—E se tiver fantasmas? —Perguntou Inara, de olhos bem arregalados.
—Não sejam tão chorões —disse Mailén, a mais velha dos quatro irmãos, de forma cortante—. Também não tô muito animada de morar aqui, porque sinto que vou ficar entediada o dia inteiro. Mas de resto… é só uma casa velha.
—Fantasma não me assusta não — garantiu Catriel —. O que me preocupa são os ratos.
—Ai, não… — gritaram Inara e Lilén em uníssono —. Ratos, não!
—Não imaginava que a casa estivesse tão caindo aos pedaços — comentou Soraya, a irmã mais velha da Rebeca—. Peço desculpas.
De perto, a mansão era imponente. Por ter sido construída no topo de uma colina, não tinha muito espaço de largura, então dava a impressão de que a casa inteira tinha se amontoado no centro.
É uma estrutura de dois andares e meio, com uma torre no centro, bem em cima da entrada principal, coroada por um telhado piramidal. Foi construída quase inteiramente com pedra cinza. O resto do telhado é de quatro águas e tem várias mansardas, a maioria delas aninhadas em pontões. Dá pra ver uma sacada saindo no centro da torre e um terraço pequeno no telhado da ala direita. Mailén pensou que, se aquele lugar estivesse limpo e bem iluminado, seria perfeito pra sentar e tomar uma gelada nas noites de verão.
Apesar de pouquíssimas poderem ser vistas de frente, o telhado da mansão é atravessado por mais de uma dúzia de chaminés, algumas já meio caindo aos pedaços.
—Vai ser um desafio restaurar ela —disse Rebeca—, mas não esqueçam que vocês decidiram começar esse… negócio.
—Nós? —Perguntou Catriel—. Se quem queria sair da cidade era você.
—Sim, mas foi vocês que tiveram a ideia de comprar uma casa, reformar ela e vender.
—Na verdade, foi ideia da tia Soraya — comentou Lilén —. A gente topou porque achou que era melhor do que procurar emprego.
— Acho que a gente cometeu um erro — disse Inara.
—Por acaso vocês pretendiam ficar a vida inteira sem fazer nada? —Soraya mostrou uma expressão séria que só aparecia quando tentava dar uma lição de vida aos seus sobrinhos.
—Nunca me incomodou a ideia de trabalhar —garantiu Mailén—; mas, tia, sem querer ofender… com o que a mamãe ganha com as obras de arte dela… a gente consegue viver duas vidas sem precisar trabalhar.
—Não é questão de dinheiro —interveio Soraya—, mas sim de aprenderem a assumir responsabilidades. E a partir de hoje, esta casa é responsabilidade de vocês. No dia em que a restaurarem, poderão vendê-la… ou simplesmente morar nela.
—Ufa… a gente vai terminar de restaurar isso quando estiver mais velha que a tia —reclamou Lilén—. Não é justo.
—Ei… o que você quer dizer com isso? Quantos anos você acha que eu tenho?
—Mais velha que a casa —respondeu Inara, e as duas gêmeas começaram a rir.
—Mal-educadas —disse Soraya, de queixo erguido, cheia de orgulho—. Essa casa tem mais de setenta anos.
—Igual que você, tia —disse Catriel, fazendo as gêmeas rirem ainda mais alto.
—Tenho quarenta e oito! —Respondeu, estoica; mas ninguém pareceu se importar.
Começaram a arrastar as malas até a varanda. A fechadura da porta dupla cedeu na hora quando Rebeca usou a chave grande de bronze, mas Catriel e Mailén tiveram que puxar cada uma das folhas com força pra conseguir abrir.
—Nossa, é impressionante —disse Catriel.
—Viram? Falei que por dentro era mais agradável — comentou Rebeca, enquanto entrava carregando uma das malas.
—Tô falando que é impressionante a sujeira que tem nessa casa. Vamos levar um milhão de anos pra limpar essa porra.
—Ei, vocês podem dar uma amenizada? — Reclamou Rebeca —. Resolvi me afastar da cidade pra fugir das energias negativas… mas parece que vocês trouxeram todas elas.
—Tá bom, mãe… —disse Mailén—. Vamos te dar uma trégua. Pelo menos vamos tentar encarar isso com bom humor. Vai levar tempo, mas não temos outra coisa pra fazer. Além disso, sempre podemos contratar alguém da vila pra nos dar uma mão.
— Preferia que vocês cuidassem de tudo — disse Rebeca —. Mas podem contratar alguém pra alguma tarefa especializada. Por exemplo: se quiserem fazer um reparo elétrico, ou algo assim.
—Posso cuidar da eletricidade —garantiu Mailén—. Sempre fui boa com fios e conexões.
—E assim você queimou uma geladeira pra gente —disse Inara—. E uma máquina de lavar.
—E uma televisão — completou Lilén —. E o ferro de passar da vovó…
—E quase te eletrocutou duas vezes — completou Catriel.
—Tudo isso me serviu pra aprender.
—Você não vai encostar em nenhum fio elétrico, Mailén —decretou Rebeca—. Pra isso a gente contrata alguém. O resto vocês podem fazer.
Mailén não insistiu porque sabia que seria inútil. Já podia convencer a mãe mais tarde, quando ela se acalmasse um pouco. Decidiu mudar de assunto.
—Quantos quartos tem a casa? — Ela perguntou.
—Doce; mas tem uma que tá fechada. Pelo menos foi o que me falaram na imobiliária. Tá lacrada há mais de trinta anos.
—Vai ter que arrombar a fechadura —disse Catriel—. Depois a gente troca.
—Essas fechaduras são muito antigas —comentou Soraya—. Seria melhor não quebrá-las, devem custar uma fortuna. Quanto mais peças originais a casa tiver, mais caro vocês podem vendê-la. Vamos tentar encontrar outro jeito de abri-la.
Estavam terminando de colocar todas as malas quando a Mailén encontrou o interruptor da luz. Era um botão preto, bem antigo. Custou pra ela levantar. Ouviu um zumbido elétrico e o lustre que pendia no meio do hall de entrada acendeu.
Uai, é um milagre" —disse Mailén—. "Vários focinhos estão queimados, mas alguns ainda funcionam.
Graças à iluminação fraca e ao fato de terem corrido as cortinas pesadas e sujas de duas janelas, puderam admirar melhor o hall de entrada.
Era amplo e bem na frente da porta principal, tinha duas escadas que levavam ao mesmo destino. Elas se encontravam no segundo andar, onde tinha uma grade e uma espécie de varanda que se projetava para a frente.
—De lá, os donos da casa recebiam os convidados —comentou Soraya—. É um jeito bem ostentoso de se apresentar.
—O hall é muito grande e está muito vazio —disse Rebeca—. Espero que, depois de arrumar ele, decorem um pouco. Não cairia nada mal ter umas plantas.
—Além do quarto trancado, tem mais alguma surpresa que a gente pode encontrar? —Perguntou Catriel.
— Não acredito — respondeu Rebeca —. Embora quando falei de quartos, estava me referindo só aos dormitórios. Tem muitas salas na casa.
—Tipo o quê? —Perguntou Inara—. Uma biblioteca? Tomara que tenha uns livros antigos, de coisas estranhas… tipo bruxaria ou magia negra. Essa casa tem toda cara de ter esse tipo de livro.
Não, Ave Maria cheia de graça..." — Soraya se benzeu, um reflexo dos tempos de freira —. "Espero que não tenha nada parecido.
—Sei que tem uma biblioteca, me falaram dela —disse Rebeca—, mas não sei onde fica. Vocês vão ter que procurar. Também sei que tem porão… por enquanto, não cheguem perto. Antes a gente precisa fumigar um pouco. Também tem um salão de jantar grande, um salão de festas, e umas “salas de estar” espalhadas pela casa. Escolham o quarto que mais gostarem, eu vou usar o escritório, que me disseram que é bem espaçoso, pra montar meu ateliê de pintura.
—E tem banheiro? —Perguntou Lilén, assustada—. Me diz por favor que tem banheiro…
—Sim, todos os quartos têm seu próprio banheiro… e sei que tem mais. Devem ter uns vinte banheiros no total.
—Ufa… isso me tranquiliza. Tava com medo de ter que usar um banheiro no meio do mato.
—Aqui encontrei a sala de jantar —disse Inara, depois de abrir uma porta da ala direita—. A mesa serve e acho que as cadeiras também.
—Uai, vamos sentar… —disse Rebeca—. Tô com as pernas doendo de tanto viajar.
Pra chegar naquele povoado remoto chamado El Pombero, tiveram que pegar uma balsa por três horas nos braços sem fim do Paraná. Não faziam ideia exata de onde estavam, só sabiam que tavam em algum lugar na fronteira de Entre Ríos com Corrientes.
—Meu Deus do céu, precisava sentar —exclamou Soraya quando conseguiu se sentar, a cadeira era confortável e bem macia. Estava meio suja pelo acúmulo de poeira; mas naquele momento ela não ligou.
—Muito bem, qual é o plano de ação? —perguntou Rebeca aos seus filhos.
—A gente devia dar prioridade pros cômodos que vamos usar —comentou Catriel—. Os quartos que a gente escolher, o ateliê de arte, e a cozinha… porque imagino que vai ter uma cozinha.
—Com certeza —disse Soraya—. Também deve ter um depósito, pra guardar a comida.
—E falando em comida —disse Inara—. Alguém sabe que porra a gente vai comer? Já acabaram os sanduíches.
—Podemos pegar umas comidas no povoado, pra passar uns dias —disse Rebeca—, pelo menos até a gente conseguir fazer as compras.
—Tem um supermercado por perto? —Perguntou Lilén.
—Hmm… não, filha… aqui não tem supermercado. O pessoal vive da caça e da pesca. Se a gente quiser comprar alguma coisa, tem que encomendar com antecedência.
—Ai, meu deus… a gente mudou de estado ou de época? —ironizou Lilén—. A gente viajou pra idade média?
— Não é tão grave quanto você imagina — disse Rebeca. — É só questão de se acostumar a pedir comida em grandes quantidades. Pra isso serve o depósito da cozinha. Me disseram que a gente tem um frigorífico próprio. Por sorte, a cidade toda tem luz elétrica, então não dependemos de geradores. Mas é bom ter combustível estocado, caso a energia acabe.
—Mmm… isso tudo não me anima muito —disse Lilén—. Mas agora só consigo pensar em comida. Tô morrendo de fome. Vamos pra cidade, arrumar alguma coisa.
—É… hum… prefiro que a Mailén vá, o Catriel pode acompanhar ela.
—Por que eu, mãe? —Perguntou Mailén.
—Olha… isso vai parecer besteira pra vocês, mas nessa cidade tem gente muito supersticiosa. A dona da imobiliária me aconselhou a não morarmos no El Pombero… por causa da cor do nosso cabelo.
—Hã? Que porra isso tem a ver? —Perguntou Inara.
—Nessa cidade, eles acham que gente ruiva dá azar —disse Soraya—. É, é uma bobagem, como a Rebeca falou bem; mas é assim. Por isso é melhor vocês não chegarem perto da cidade, pelo menos por enquanto.
As gêmeas se olharam uma para a outra, foi como se ver num espelho que só mudava a cor da roupa. As duas tinham um cabelo laranja intenso e olhos verdes enormes. Seria impossível disfarçar esses traços, a menos que pintassem… até as sobrancelhas.
—Isso significa que não podemos sair de casa? —Quis saber Lilén—. E você, mamãe, também não… e a tia Soraya… somos todas ruivas.
—Eles vão conseguir sair, sim —garantiu Rebeca—. Só que é melhor ir devagar, quando o pessoal da cidade já tiver se acostumado com gente nova. Por enquanto, é melhor que todos os assuntos com os locais sejam resolvidos por esses dois. A Mailén tem cabelo preto, e o do Catriel é meio avermelhado, mas bem escuro. Parece castanho. Acho que ninguém vai perceber.
—Repito: A gente tá vivendo na idade média?
—Sei que não vai ser fácil no começo —disse Rebeca—. Mas me falaram que o pessoal da vila costuma ser hospitaleiro… pelo menos a maioria. Só que me avisaram que são super supersticiosos… e que têm umas crenças meio estranhas. Não importa o que falarem pra vocês, só vão na onda e não discutam.
—Isso é especificamente pra você, Mailén —comentou Catriel—. Você adora discutir com os outros… principalmente com quem tem “crenças absurdas”.
—Vou dar o meu máximo pra não discutir com ninguém — garantiu Mailén —. Mas fico meio com medo de que minha mãe acabe acreditando nas superstições do povo da cidade. Espero que isso não aconteça, já tenho que aturar os discursos sobre chakras e “energias positivas”.
—E com a religião da tia — comentou Indara.
—A tia eu aturo um pouco mais —disse Mailén, como se a mãe e a Soraya não estivessem ali—. Ela foi freira por muitos anos; mas largou… por algum motivo deve ser. Dá pra ver que já não acredita tanto como antes.
—Os problemas de fé que eu tenho ou possa ter, vou tratar com o Senhor —disse Soraya—. Larguei o hábito porque achei que essa vida já não era pra mim, não porque parei de acreditar.
—Bom, voltando ao que interessa —interveio Inara—. Como é que a gente vai dormir? Se essa casa tá há vinte anos abandonada, os colchões devem estar um bagaço.
—Por isso não se preocupem —disse Rebeca—. Antes de viajar pra cá, pedi pra trazerem umas coisas básicas. Comprei um colchão novo pra cada um, além de vários jogos de lençol. Também toalhas e toalhões. Tudo deve estar guardado em algum lugar da casa, me garantiram que já tinham entregado.
—E as coisas que eu encomendei? — Perguntou Catriel.
—Isso também deve estar em algum lugar.
—O que você pediu? —Perguntou Lilén.
—Ferramentas que podem nos ajudar a começar a restauração. Duas lavadoras de alta pressão; dois aspiradores industriais; dois aspiradores de mão; serrote, pregos, martelos, chaves de fenda… ah, e lâmpadas novas. Pedi várias dessas.
—Ufa, melhor assim… não quero andar por essa casa com as luzes apagadas —disse Lilén—. De noite deve estar cheio de fantasmas…
—Não fala bobagem —disse Rebeca, que sentiu um arrepio só de imaginar vendo uma sombra se mexendo na noite—. Nessa casa a gente não corre perigo nenhum. Mas… não se enfiem muito no mato que tem atrás. A gente tá no meio do nada, pode ter bicho perigoso pra caramba, tipo jacaré ou onça.
—Nesta área pode ter onça-pintada —disse Mailén—. Não sei se são mais ou menos perigosas que as onças-pardas; mas mesmo assim dão medo.
—Também tem capivaras — disse Inara.
—Ai, que nojo —exclamou a Lilén—. Odeio capivara. Morro se eu vir uma.
A irmã gêmea dela, que já sabia disso, começou a cair na gargalhada.
—Não entendo como você pode ter medo de capivara, elas são uma graça.
—Literalmente são os maiores ratos do mundo.
—Ratas, não —disse Mailén—. Roedores. São os maiores roedores do mundo.
—É a mesma merda!
—Bom, vou trocar de roupa —disse Mailén—, tô toda suada. A umidade e o calor são insuportáveis. Depois a gente vai buscar algo pra comer.
*¨*¨*¨*¨*¨*
Catriel foi dar uma olhada pra garantir que as ferramentas estavam em perfeito estado. Encontrou elas num lugar que parecia uma garagem velha, achou estranho aquela mansão ter um espaço pra guardar veículos, porque não tinha estrada de terra pra sair da cidade. O Pombero é cercado por um rio que serpenteia pelo oeste, norte e leste. O sul é todo coberto de árvores e mato, impossível dirigir por lá. Pensou que talvez a garagem servisse pra guardar barcos, mesmo estando bem longe da margem mais próxima.
Tudo tinha sido entregue em condições impecáveis, os colchões também estavam lá, e ela gostou de ver que eram de excelente qualidade. Pelo menos poderiam dormir confortáveis… se não fizesse muito calor. A mansão não parecia ter sinal de ar-condicionado.
Viu que a mãe dela tinha se abastecido com telas, cavaletes, pincéis e tintas acrílicas e a óleo. Era pouca coisa, comparado com a quantidade que ela costumava usar; mas pelo menos serviria pra manter ela ativa por algumas semanas.
Depois de verificar, foi procurar a irmã, subiu uma das escadas e chegou a um corredor. Havia quartos dos dois lados, ele virou à direita porque viu uma luz acesa. Quando espiou, levou um baita susto. Encontrou Mailén com o torso nu. Ficou paralisado, mas por sorte a irmã estava passando a blusa pela cabeça, então não conseguiu vê-lo. Catriel se escondeu na hora no corredor e ficou com a imagem das tetas da irmã gravada na retina. Estava chocado. Aqueles bicos pareciam estacas apontando para cima. Os peitos de Mailén não eram tão grandes quanto os da Rebeca, ou os da Soraya; mas eram perfeitamente redondos e exageradamente firmes. Catriel se perguntou quando foi que a irmã cresceu tanto. Ela já tem vinte e um anos e ele nunca tinha percebido, até agora, que ela já era toda uma mulher. Inara e Lilén, que já têm dezoito, não têm um corpo tão chamativo quanto o da Mailén, e muito menos tetas tão redondas e firmes.
Quando a Mailén saiu do quarto, o Catriel viu que ela tinha vestido uma blusa esportiva com um decote bem pronunciado. Dava pra ver a parte de cima dos peitos e dava pra adivinhar o volume dos bicos por baixo.
—Hmm… você vai sair com essa roupa?
— O que tem de errado? — Perguntou Mailén, olhando pros peitos dela.
—É que… seus peitos tão muito à mostra, mana. E cê já deve imaginar que nessa cidade o povo é meio bitolado, daqueles bem antigos. Acho que não é prudente andar com tanto decote assim.
—Isso é problema deles. Tô morrendo de calor, Catriel.
—Nem vai colocar um sutiã?
—Não, o sutiã é a pior coisa. Deve estar fazendo quarenta e cinco graus, com mais de 90% de umidade. Isso é um inferno…
—Tá bom, mas depois não fala que não te avisei.
A Mailén achou legal que o irmão dela cuidasse dela desse jeito; mas ela não gosta que fiquem dizendo o que ela pode ou não fazer.
Desceram pela encosta do morro, a estrada tava bem detonada e chegaram à conclusão de que deviam restaurar ela o quanto antes. Colocar pedras novas, cortar o mato e tirar uns troncos caídos no caminho.
A primeira visão que tiveram d'O Pombero foi a de várias casas com telhados de telha vermelha de duas águas. Pareciam casas coloniais, embora a maioria estivesse em bom estado. Só uma ou outra tinha caído no abandono. Uma das casas tinha uma árvore saindo do telhado.
—Acho que ninguém mora mais ali — comentou a Mailén.
—É uma pena que esteja tão abandonada. A gente podia descobrir de quem é a propriedade, comprar e restaurar.
—Acho que primeiro devíamos focar na mansão.
—Vou anotar isso como um projeto pra frente.
—Olha, ali tem um açougue… não acredito —o rosto da Mailén se iluminou de alegria—. Mas parece meio velhinho…
—Vamos aproveitar, porque deve ser a única da cidade toda.
Entraram pela porta da frente, o açougue não era diferente das outras casas, a não ser pela placa grande de madeira pendurada na altura do teto. Só tinha sido adaptado com uns balcões refrigerados. A maioria estava vazia, e isso decepcionou a Mailén.
—Oi? —Disse Catriel.
Quase na mesma hora, um homem apareceu pela porta atrás do balcão. Era grandalhão, barbudo e com cabelo preto grisalho. Olhou pra eles com uma cara de poucos amigos.
—Quem são vocês? — Perguntou o homem, com uma voz grave e grossa.
—Oi, meu nome é Mailén Korvacik e esse aqui é meu irmão Catriel. Acabamos de nos mudar pra cidade. Vamos morar na mansão Var Kavian.
O homem quase arrancou os olhos das órbitas, de repente a atitude ameaçadora dele sumiu e ele pareceu assustado.
—Tão loucos? Quem no seu juízo perfeito moraria naquela casa?
—Sabemos que está meio deteriorada —disse Catriel—; mas vamos restaurar ela.
—Acho que telha solta e tábua quebrada não são o maior problema daquela mansão — comentou o cara, enquanto passava o pano no balcão, no automático.
—Se você está se referindo aos boatos de que ali rolam "coisas estranhas", isso não nos assusta.
—Fala por ti, mana… porque a Inara e a Lilén tão morrendo de medo.
—Vocês deviam levar esses boatos mais a sério —sentenciou o homem, voltando a mostrar um semblante sério—, por algum motivo eles começaram.
—Tá bom, a gente vai levar isso em consideração —disse Mailén—. Por enquanto, queremos focar em algo mais urgente: a comida. O que você tem pra oferecer?
—Nada demais. Aquilo ali —apontou para vários cortes no balcão da esquerda—, é carne de veado. Bem fresquinha. Aquilo ali —apontou para o balcão da direita—, é pato recém-caçado.
—Hmm... e não tem nada de carne de vaca? Ou frango?
—Se quiserem frango, podem pedir pra dona Gregória matar uma galinha. Mais fresco que isso, impossível.
—Mmm… —pra Mailén não pareceu nada legal a ideia de sacrificar uma galinha só porque ela tava com fome. Os frangos do supermercado ela não precisava ouvir cacarejar.
—E vaca… pode ser que eu tenha algo na câmara frigorífica. Esperem.
O cara sumiu de vista por uns minutos. Mailén e Catriel discutiram se compravam um pouco de veado, que até que tinha uma cara boa; mas ficaram com medo de que Inara e Lilén recusassem a comer. Por sorte, o açougueiro voltou com um saco enorme que parecia uma pata quase inteira de uma vaca.
—Tá aqui. Tá congelado… é o único jeito de conservar a carne por essas bandas. Mas com o calor que faz, se deixarem fora, em poucas horas já tá pronta pra cortar. Só que, uma vez descongelada, vão ter que cozinhar tudo. Tô cansado de explicar pros ignorantes da cidade que se a carne perde a cadeia de frio, não adianta congelar de novo… porque estraga do mesmo jeito.
—É um montão —disse Catriel—. Quantos quilos isso tem?
O açougueiro colocou a sacola na balança e depois disse:
—Quatorze quilos.
—Porra... não dá pra comer tanto assim. Não tem porções menores?
—Desculpa, mas não. A gente tava guardando isso pra alguma ocasião especial… um aniversário ou algo assim.
—Vamos levar o veado —disse Catriel—. Se a Inara e a Lilén reclamarem, que fiquem sem comer.
—Quanto vão levar?
—Umas três quilos —disse Catriel, calculando meio quilo por pessoa—. E você, como se chama?
— Arturo Blasi, prazer em conhecê-los — disse ele, enquanto preparava os cortes —. Como vão pagar?
—Em dinheiro —disse Mailén.
—Mmm… isso não adianta muito aqui. Dinheiro só serve pra comprar na cidade. Por aqui a gente geralmente usa troca. Dessa vez aceito o dinheiro de vocês, mas recomendo que da próxima vez arrumem algo pra trocar.
—Ah, já entendi… e que tipo de artefatos eles usam pra fazer a troca?
—Comida, roupa, móveis, livros… ou serviços.
A Mailén ficou muito incomodada com ele ter dito "serviços" bem na hora em que olhou pras tetas dela. Já tava se arrependendo de não ter dado ouvidos ao irmão.
—Tá bom, a gente vai levar em consideração —disse Catriel, pegando a sacola com a carne. Mailén entregou o dinheiro pra ele—. Na próxima vez, a gente traz algo mais útil pra você. Muito obrigado.
—Tchau… e se vocês valorizam a sanidade de vocês, não fiquem por muito tempo. Essa casa come a mente de quem mora ali.
—Muito obrigada pelo aviso, mas por enquanto a gente vai ficar —disse Mailén—. Onde a gente encontra uma verdureira?
—O mais perto disso é o mercadinho dos Zapata, a cem metros daqui —respondeu Arturo Blasi, apontando pro norte—. Tem um pouco de tudo… e muito de nada.
Essa frase se mostrou bem verdadeira. No mercadinho em questão, quem atendeu foi um cara muito magro que se apresentou como Ciro Zapata, o dono. As prateleiras eram poucas e tavam quase vazias. Compraram um quilo e meio de batata, que era tudo que tinha na categoria "verduras", e a Mailén perguntou se ele vendia erva-mate.
—Cê vai tomar mate com esse calor? —Perguntou Catriel— Cê tá doida?
—Gosto de tomar chimarrão, não me dá calor. E me ajuda a pensar.
—Me desculpa muito, mas não tenho — disse Ciro Zapata —. Se quiserem erva-mate ou alguma outra coisa que não tenha no mercadinho, vão ter que pedir pra Marina e Jorge Catena. Eles cuidam de viajar pra cidade uma vez a cada duas semanas pra comprar tudo que o pessoal da vila pede. E recomendo que se apressem, porque depois de amanhã eles saem, senão vão ter que esperar mais duas semanas.
—Muito obrigada pela informação —disse Mailén.
Saiu do mercadinho com o irmão sentindo, mais uma vez, que estavam vivendo na idade média. Passaram a vida inteira num bairro bem de boa de Rosário, lá era muito fácil conseguir de tudo. Não podia acreditar que tinha que esperar vários dias pra conseguir um mísero pacote de erva-mate. A vida em El Pombero ia ser mais difícil do que ela tinha imaginado.
*¨*¨*¨*¨*¨*
Voltaram pra mansão com a carne e, como já imaginavam, a Inara e a Lilén reclamaram.
—Wacala, não quero comer veado —gritou Lilén.
—Nem eu — a irmã gêmea dela concordou.
—Não sejam birrentas —disse Soraya—. Tenho certeza de que nunca provaram carne de veado. Não sabem o gostoso que é.
—Além disso, é a única coisa que tem — esclareceu Catriel —. Se não gostarem, podem comer batata pura… ou nada. — As gêmeas olharam pra carne com nojo, mas a ideia de ficar sem comer assustava mais que a aventura culinária —. Vou grelhar tudo. Agradeceria se juntassem um pouco de lenha… e se apressassem, porque já tá escurecendo.
Mais uma vez, Inara e Lilén reclamaram por terem que ser elas a juntar a lenha; mas os irmãos mais velhos se defenderam, dizendo que eles tinham conseguido o mais importante: a comida.
Começaram a juntar galhos secos nos fundos da casa. Aproveitaram pra perder tempo jogando umas pedrinhas no riacho que cortava todo o quintal de lado a lado.
—Pelo menos isso é bonito —disse Lilén—. Se cortarmos um pouco o mato, vai ficar um quintal bonito com riacho.
—Sim, mesmo que a floresta dê um pouco de medo… não se vê nada… e quando escurecer de vez, vai dar pra ver menos ainda.
—O pior de tudo é que a maioria dos cômodos tem janelas com vista pra floresta —disse Lilén—. E vi umas com espelhos enormes… não sei pra que servem.
—Espelhos?
—Sim, ocupam uma parede quase inteira. Vi três quartos com isso.
—Que estranho… pra que vão querer espelhos tão grandes? Bom, vamos juntar a lenha, antes que escureça mais. Essa floresta já tá me dando medo.
Lilén começou a juntar o monte de lenha e galhos que tinha conseguido acumular e, no momento em que se ergueu de novo, notou que algo se mexia entre as árvores… era uma figura humana… uma silhueta, cortando a penumbra.
—Ai, a buceta da minha mãe… ai, não… não…!!
Lilén jogou tudo pro alto, os galhos voaram pelos ares e, antes mesmo de tocarem o chão, a garota já tinha cruzado metade da distância que a separava de casa. Inara não fazia a menor ideia do que podia ter assustado tanto a irmã, mas não quis ficar pra descobrir. Jogou a lenha e correu atrás de Lilén o mais rápido que conseguiu.
—O que foi, o que foi? —Perguntou Rebeca, quando viu as filhas entrarem em pânico.
—Um fantasma, mãe… eu vi um fantasma… juro… era horrível. Todo preto… a puta que pariu, quero vazar daqui.
Lilén estava à beira das lágrimas e Inara olhava para todos os lados, pálida e com os olhos arregalados.
—Não fala besteira —interveio a Mailén, que tava lavando as batatas com a ajuda da tia dela—. Como é que você vai ver um fantasma, se nem existe?
—Existem sim —disse Lilén, fazendo biquinho—. Eu vi. Tá ali fora… na floresta, do outro lado do riacho.
Catriel largou a faca em cima da mesa, limpou as mãos com um pano úmido e saiu da cozinha em direção à escada principal. A família inteira foi atrás dele.
—Vem cá, Lilén… me diz onde você viu esse fantasma —disse o rapaz ao entrar num dos muitos cômodos.
Lilén, agarrada no braço da mãe, se aproximou da janela com cuidado. Todos analisaram o cenário, mas só tinha mata, sombras e o zumbido constante do riacho.
—Tá vendo? Não tem nada —disse Mailén—. Falei que fantasma não exist…
—Ali está! —Gritou Lilén, apontando pra um ponto específico da floresta—. Ali está… tão vendo? Tão vendo?
Por mais que a Mailén não acredite em fantasmas, ela não conseguiu evitar que o sangue gelasse nas veias. Um arrepio subiu pela espinha e ela sentiu os ovários subirem até a garganta. Ela também conseguia ver aquilo.
Era uma silhueta meio borrada, mas sem dúvida parecia humana. Dava pra identificar uma cabeça, uma pele extremamente pálida e uns olhos brilhantes. A figura se mexeu rápido e sumiu de vista num instante.
—Ai, minha mãezinha querida —disse Soraya, e começou a se persignar de forma compulsiva—. Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco…
— Viram, né? Hein? Porque eu não sou louca, sei o que vi…
—Sim, filha… a gente viu —disse Rebeca, tão pálida quanto a própria criatura que tinham visto na floresta—. Soraya, quero crucifixos em todos os quartos que a gente usar pra dormir. Se não tiver tantos, improvisa com o que encontrar: paus, tábuas, pincéis… o que for.
—Já vou cuidar disso — Soraya saiu do quarto num passo rápido.
—Crucifixo me dá medo —disse Lilén, apertando o braço da mãe.
—Você tem medo de tudo —disse Inara, que não estava menos assustada que a irmã—. Não se preocupa, vou dormir com você.
—Isso você diz porque não quer dormir sozinha — disse Mailén.
—Tanto faz —respondeu Lilén—. Quero que alguém durma comigo. E amanhã mesmo vamos embora daqui… pra sempre.
—Desculpa, filha —Rebeca acariciou o cabelo ruivo da filha—. Não podemos desistir tão fácil. Pode ser que nessa casa tenha umas paradas… estranhas; mas é a nossa casa. Se a gente tiver que chamar um exorcista, a gente chama.
—Não sejam tão exagerados — disse Mailén, revirando os olhos.
—Cala a boca, sua puta —gritou Lilén—, você viu a mesma coisa que a gente. Era um fantasma. Como você queria que a gente reagisse?
—Se todos nós conseguimos ver, então é porque alguém estava lá —respondeu Mailén—. Não é um fantasma. Tem que ser uma pessoa… talvez alguém da vila.
—Essa é uma possibilidade —disse Catriel—, embora também não descarte que possa ser um fantasma. Tem que ter cuidado. A tia consegue arrumar um pouco de água benta? Isso pode ajudar.
—Talvez nesta vila tenha algum padre… e uma capela — disse Inara—. Amanhã vamos procurá-lo, eu te acompanho… vou cobrir o cabelo com alguma coisa, se for necessário.
*¨*¨*¨*¨*¨*
O jantar passou praticamente em silêncio. Catriel teve que cortar toda a carne e as batatas em pedaços pequenos, porque ele foi o único com juízo suficiente pra levar uma faca de cozinha e um garfo. Nem pratos eles tinham. As outras tiveram que espetar a comida com palitos de dente, direto da tábua de churrasco do Catriel.
O cara, irritado com essa falta de organização, disse que deveriam colocar no topo da lista de compras pratos, copos e talheres.
—Desculpa —disse Rebeca—. Achei que a casa teria tudo isso. Me surpreendi ao encontrar os móveis da cozinha completamente vazios. A carne de veado ficou uma delícia, é uma das melhores coisas que comi em meses.
Mesmo ainda perturbada pelo encontro com o fantasma, Lilén também achou a carne uma delícia, mas não falou nada. O primeiro dia na casa nova tinha sido um desastre e ela tava com medo de que a situação piorasse ainda mais.
*¨*¨*¨*¨*¨*
Catriel não tinha certeza do que tinha visto na floresta; mas tinha alguma coisa ali… algo potencialmente perigoso. Antes de ir dormir, e sem falar nada pra família, ele saiu pela porta dos fundos pra dar uma pequena ronda de vigia com a lanterna na mão.
Ele atravessou o riacho e iluminou o chão numa tentativa absurda de encontrar pegadas. "É, claro... como se eu fosse um rastreador profissional", se recriminou. Por mais que custasse admitir, ele é um bicho de cidade. Não tá preparado pra encarar o mato, a escuridão...
Clareou entre as árvores e só se deparou com aquilo… mais árvores. Não tinha nada ali. O sangue gelou só de imaginar que, a qualquer momento, um par de olhos espectrais ia encará-lo do fundo daquele abismo de escuridão; mas não aconteceu nada. O som era incessante, mas tranquilizador. Cigarras e grilos cantando em coro, sapos coaxando, algum pássaro noturno cantando… uma coruja piando. Nada pra se preocupar.
Apagou a lanterna e atravessou o riacho de novo. Quando tava chegando perto da mansão, viu que a janela do segundo andar tava acesa. Era a de uma esquina. Dentro daquele quarto, viu a mãe dele.
Rebeca não percebeu a presença do filho. Ela se aproximou da janela, olhou em direção à floresta e começou a tirar a roupa. Catriel ficou paralisado ao ver as tetonas da mãe aparecendo atrás da janela. Não era a primeira vez que as via, Rebeca já tinha tido outros acidentes assim no passado; mas dessa vez foi mais longe, porque Catriel pôde testemunhar a mãe ficar completamente nua. Ele chegou até a ver os pelinhos ruivos da buceta coroando a xereca dela.
Merda… isso não é bom — lamentou-se Catriel —. Espero que nessa cidade tenha umas minas gostosas, senão vou passar mal pra caralho.
Catriel tava acostumado a ter sorte com as mulheres, principalmente com as transas de uma noite só. Ele era um cara muito gostoso pro sexo feminino e na cidade nunca teve dificuldade de encontrar alguém pra foder. Mas aqui… no meio do nada? Num povoado tão conservador?
Sem dúvida, ver as tetas da mãe dele… ou as da irmã, não ajudava em nada.
Seguiu seu caminho, antes que Rebeca o descobrisse. Não queria assustá-la.
*¨*¨*¨*¨*¨*
A Mailén não gostou nadinha de ter que dormir com um crucifixo pendurado na parede na frente da cama dela.
—É para o seu próprio bem — disse Soraya, enquanto o pendurava.
Ele tinha feito aquilo com dois galhos secos, amarrados com várias voltas do barbante de embalagem que estava entre as ferramentas do Catriel.
—Mas eu sou ateia —protestou Mailén—. Não acredito nessas coisas.
—Não me diga isso, me faz muito mal e você sabe. Preferia ter uma sobrinha sapatão do que uma ateia.
—Não sou lésbica, mas com essa coisa de ateia você vai ter que se acostumar. Vou deixar pra essa noite, pra você ficar tranquila. Assim que eu cansar, vou tirar.
—Tá bom, mas nem pense em jogar isso no lixo. Improvisado ou não, ainda é um crucifixo, e é sagrado.
Mailén revirou os olhos. Não conseguia entender como dois gravetos que juntaram no mato de repente podiam virar um objeto sagrado.
Continua no próximo Post:A Mansão da Luxúria[01]- Parte 02[/01]
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Capítulo 01.
O Pombero.
A mansão Var Kavian se ergue imponente no meio de uma floresta densa e solitária, cercada por um muro de pedra e um portão de ferro. Rebecca Korvacik se sente atraída pelo charme decadente da casa, que ainda guarda vestígios do seu antigo esplendor. Ela tá convencida de que esse lugar é perfeito pra começar uma vida nova, longe dos problemas e das preocupações que pesavam nela na cidade. Sonha em restaurar a mansão e transformá-la num lar acolhedor e cheio de amor, onde os filhos dela possam crescer felizes e a irmã consiga se recuperar da depressão.
—É deprimente —disse Catriel, o único filho homem de Rebeca.
A fachada é cinza e suja, com janelas quebradas e portas caindo aos pedaços. As telhas, que um dia foram cinzas, agora estão cobertas de teias de aranha… e algumas nem aguentaram o tempo passar.
— Ouvi dizer que o povo da vila evita se aproximar da mansão — comentou Inara.
— É verdade — apoiou Lilén, sua irmã gêmea —. Dizem que aqui acontecem coisas estranhas: barulhos, luzes, sombras, aparições… Por que a gente tem que morar aqui, mãe?
—E se tiver fantasmas? —Perguntou Inara, de olhos bem arregalados.
—Não sejam tão chorões —disse Mailén, a mais velha dos quatro irmãos, de forma cortante—. Também não tô muito animada de morar aqui, porque sinto que vou ficar entediada o dia inteiro. Mas de resto… é só uma casa velha.
—Fantasma não me assusta não — garantiu Catriel —. O que me preocupa são os ratos.
—Ai, não… — gritaram Inara e Lilén em uníssono —. Ratos, não!
—Não imaginava que a casa estivesse tão caindo aos pedaços — comentou Soraya, a irmã mais velha da Rebeca—. Peço desculpas.
De perto, a mansão era imponente. Por ter sido construída no topo de uma colina, não tinha muito espaço de largura, então dava a impressão de que a casa inteira tinha se amontoado no centro.
É uma estrutura de dois andares e meio, com uma torre no centro, bem em cima da entrada principal, coroada por um telhado piramidal. Foi construída quase inteiramente com pedra cinza. O resto do telhado é de quatro águas e tem várias mansardas, a maioria delas aninhadas em pontões. Dá pra ver uma sacada saindo no centro da torre e um terraço pequeno no telhado da ala direita. Mailén pensou que, se aquele lugar estivesse limpo e bem iluminado, seria perfeito pra sentar e tomar uma gelada nas noites de verão.
Apesar de pouquíssimas poderem ser vistas de frente, o telhado da mansão é atravessado por mais de uma dúzia de chaminés, algumas já meio caindo aos pedaços.
—Vai ser um desafio restaurar ela —disse Rebeca—, mas não esqueçam que vocês decidiram começar esse… negócio.
—Nós? —Perguntou Catriel—. Se quem queria sair da cidade era você.
—Sim, mas foi vocês que tiveram a ideia de comprar uma casa, reformar ela e vender.
—Na verdade, foi ideia da tia Soraya — comentou Lilén —. A gente topou porque achou que era melhor do que procurar emprego.
— Acho que a gente cometeu um erro — disse Inara.
—Por acaso vocês pretendiam ficar a vida inteira sem fazer nada? —Soraya mostrou uma expressão séria que só aparecia quando tentava dar uma lição de vida aos seus sobrinhos.
—Nunca me incomodou a ideia de trabalhar —garantiu Mailén—; mas, tia, sem querer ofender… com o que a mamãe ganha com as obras de arte dela… a gente consegue viver duas vidas sem precisar trabalhar.
—Não é questão de dinheiro —interveio Soraya—, mas sim de aprenderem a assumir responsabilidades. E a partir de hoje, esta casa é responsabilidade de vocês. No dia em que a restaurarem, poderão vendê-la… ou simplesmente morar nela.
—Ufa… a gente vai terminar de restaurar isso quando estiver mais velha que a tia —reclamou Lilén—. Não é justo.
—Ei… o que você quer dizer com isso? Quantos anos você acha que eu tenho?
—Mais velha que a casa —respondeu Inara, e as duas gêmeas começaram a rir.
—Mal-educadas —disse Soraya, de queixo erguido, cheia de orgulho—. Essa casa tem mais de setenta anos.
—Igual que você, tia —disse Catriel, fazendo as gêmeas rirem ainda mais alto.
—Tenho quarenta e oito! —Respondeu, estoica; mas ninguém pareceu se importar.
Começaram a arrastar as malas até a varanda. A fechadura da porta dupla cedeu na hora quando Rebeca usou a chave grande de bronze, mas Catriel e Mailén tiveram que puxar cada uma das folhas com força pra conseguir abrir.
—Nossa, é impressionante —disse Catriel.
—Viram? Falei que por dentro era mais agradável — comentou Rebeca, enquanto entrava carregando uma das malas.
—Tô falando que é impressionante a sujeira que tem nessa casa. Vamos levar um milhão de anos pra limpar essa porra.
—Ei, vocês podem dar uma amenizada? — Reclamou Rebeca —. Resolvi me afastar da cidade pra fugir das energias negativas… mas parece que vocês trouxeram todas elas.
—Tá bom, mãe… —disse Mailén—. Vamos te dar uma trégua. Pelo menos vamos tentar encarar isso com bom humor. Vai levar tempo, mas não temos outra coisa pra fazer. Além disso, sempre podemos contratar alguém da vila pra nos dar uma mão.
— Preferia que vocês cuidassem de tudo — disse Rebeca —. Mas podem contratar alguém pra alguma tarefa especializada. Por exemplo: se quiserem fazer um reparo elétrico, ou algo assim.
—Posso cuidar da eletricidade —garantiu Mailén—. Sempre fui boa com fios e conexões.
—E assim você queimou uma geladeira pra gente —disse Inara—. E uma máquina de lavar.
—E uma televisão — completou Lilén —. E o ferro de passar da vovó…
—E quase te eletrocutou duas vezes — completou Catriel.
—Tudo isso me serviu pra aprender.
—Você não vai encostar em nenhum fio elétrico, Mailén —decretou Rebeca—. Pra isso a gente contrata alguém. O resto vocês podem fazer.
Mailén não insistiu porque sabia que seria inútil. Já podia convencer a mãe mais tarde, quando ela se acalmasse um pouco. Decidiu mudar de assunto.
—Quantos quartos tem a casa? — Ela perguntou.
—Doce; mas tem uma que tá fechada. Pelo menos foi o que me falaram na imobiliária. Tá lacrada há mais de trinta anos.
—Vai ter que arrombar a fechadura —disse Catriel—. Depois a gente troca.
—Essas fechaduras são muito antigas —comentou Soraya—. Seria melhor não quebrá-las, devem custar uma fortuna. Quanto mais peças originais a casa tiver, mais caro vocês podem vendê-la. Vamos tentar encontrar outro jeito de abri-la.
Estavam terminando de colocar todas as malas quando a Mailén encontrou o interruptor da luz. Era um botão preto, bem antigo. Custou pra ela levantar. Ouviu um zumbido elétrico e o lustre que pendia no meio do hall de entrada acendeu.
Uai, é um milagre" —disse Mailén—. "Vários focinhos estão queimados, mas alguns ainda funcionam.
Graças à iluminação fraca e ao fato de terem corrido as cortinas pesadas e sujas de duas janelas, puderam admirar melhor o hall de entrada.
Era amplo e bem na frente da porta principal, tinha duas escadas que levavam ao mesmo destino. Elas se encontravam no segundo andar, onde tinha uma grade e uma espécie de varanda que se projetava para a frente.
—De lá, os donos da casa recebiam os convidados —comentou Soraya—. É um jeito bem ostentoso de se apresentar.
—O hall é muito grande e está muito vazio —disse Rebeca—. Espero que, depois de arrumar ele, decorem um pouco. Não cairia nada mal ter umas plantas.
—Além do quarto trancado, tem mais alguma surpresa que a gente pode encontrar? —Perguntou Catriel.
— Não acredito — respondeu Rebeca —. Embora quando falei de quartos, estava me referindo só aos dormitórios. Tem muitas salas na casa.
—Tipo o quê? —Perguntou Inara—. Uma biblioteca? Tomara que tenha uns livros antigos, de coisas estranhas… tipo bruxaria ou magia negra. Essa casa tem toda cara de ter esse tipo de livro.
Não, Ave Maria cheia de graça..." — Soraya se benzeu, um reflexo dos tempos de freira —. "Espero que não tenha nada parecido.
—Sei que tem uma biblioteca, me falaram dela —disse Rebeca—, mas não sei onde fica. Vocês vão ter que procurar. Também sei que tem porão… por enquanto, não cheguem perto. Antes a gente precisa fumigar um pouco. Também tem um salão de jantar grande, um salão de festas, e umas “salas de estar” espalhadas pela casa. Escolham o quarto que mais gostarem, eu vou usar o escritório, que me disseram que é bem espaçoso, pra montar meu ateliê de pintura.
—E tem banheiro? —Perguntou Lilén, assustada—. Me diz por favor que tem banheiro…
—Sim, todos os quartos têm seu próprio banheiro… e sei que tem mais. Devem ter uns vinte banheiros no total.
—Ufa… isso me tranquiliza. Tava com medo de ter que usar um banheiro no meio do mato.
—Aqui encontrei a sala de jantar —disse Inara, depois de abrir uma porta da ala direita—. A mesa serve e acho que as cadeiras também.
—Uai, vamos sentar… —disse Rebeca—. Tô com as pernas doendo de tanto viajar.
Pra chegar naquele povoado remoto chamado El Pombero, tiveram que pegar uma balsa por três horas nos braços sem fim do Paraná. Não faziam ideia exata de onde estavam, só sabiam que tavam em algum lugar na fronteira de Entre Ríos com Corrientes.
—Meu Deus do céu, precisava sentar —exclamou Soraya quando conseguiu se sentar, a cadeira era confortável e bem macia. Estava meio suja pelo acúmulo de poeira; mas naquele momento ela não ligou.
—Muito bem, qual é o plano de ação? —perguntou Rebeca aos seus filhos.
—A gente devia dar prioridade pros cômodos que vamos usar —comentou Catriel—. Os quartos que a gente escolher, o ateliê de arte, e a cozinha… porque imagino que vai ter uma cozinha.
—Com certeza —disse Soraya—. Também deve ter um depósito, pra guardar a comida.
—E falando em comida —disse Inara—. Alguém sabe que porra a gente vai comer? Já acabaram os sanduíches.
—Podemos pegar umas comidas no povoado, pra passar uns dias —disse Rebeca—, pelo menos até a gente conseguir fazer as compras.
—Tem um supermercado por perto? —Perguntou Lilén.
—Hmm… não, filha… aqui não tem supermercado. O pessoal vive da caça e da pesca. Se a gente quiser comprar alguma coisa, tem que encomendar com antecedência.
—Ai, meu deus… a gente mudou de estado ou de época? —ironizou Lilén—. A gente viajou pra idade média?
— Não é tão grave quanto você imagina — disse Rebeca. — É só questão de se acostumar a pedir comida em grandes quantidades. Pra isso serve o depósito da cozinha. Me disseram que a gente tem um frigorífico próprio. Por sorte, a cidade toda tem luz elétrica, então não dependemos de geradores. Mas é bom ter combustível estocado, caso a energia acabe.
—Mmm… isso tudo não me anima muito —disse Lilén—. Mas agora só consigo pensar em comida. Tô morrendo de fome. Vamos pra cidade, arrumar alguma coisa.
—É… hum… prefiro que a Mailén vá, o Catriel pode acompanhar ela.
—Por que eu, mãe? —Perguntou Mailén.
—Olha… isso vai parecer besteira pra vocês, mas nessa cidade tem gente muito supersticiosa. A dona da imobiliária me aconselhou a não morarmos no El Pombero… por causa da cor do nosso cabelo.
—Hã? Que porra isso tem a ver? —Perguntou Inara.
—Nessa cidade, eles acham que gente ruiva dá azar —disse Soraya—. É, é uma bobagem, como a Rebeca falou bem; mas é assim. Por isso é melhor vocês não chegarem perto da cidade, pelo menos por enquanto.
As gêmeas se olharam uma para a outra, foi como se ver num espelho que só mudava a cor da roupa. As duas tinham um cabelo laranja intenso e olhos verdes enormes. Seria impossível disfarçar esses traços, a menos que pintassem… até as sobrancelhas.
—Isso significa que não podemos sair de casa? —Quis saber Lilén—. E você, mamãe, também não… e a tia Soraya… somos todas ruivas.
—Eles vão conseguir sair, sim —garantiu Rebeca—. Só que é melhor ir devagar, quando o pessoal da cidade já tiver se acostumado com gente nova. Por enquanto, é melhor que todos os assuntos com os locais sejam resolvidos por esses dois. A Mailén tem cabelo preto, e o do Catriel é meio avermelhado, mas bem escuro. Parece castanho. Acho que ninguém vai perceber.
—Repito: A gente tá vivendo na idade média?
—Sei que não vai ser fácil no começo —disse Rebeca—. Mas me falaram que o pessoal da vila costuma ser hospitaleiro… pelo menos a maioria. Só que me avisaram que são super supersticiosos… e que têm umas crenças meio estranhas. Não importa o que falarem pra vocês, só vão na onda e não discutam.
—Isso é especificamente pra você, Mailén —comentou Catriel—. Você adora discutir com os outros… principalmente com quem tem “crenças absurdas”.
—Vou dar o meu máximo pra não discutir com ninguém — garantiu Mailén —. Mas fico meio com medo de que minha mãe acabe acreditando nas superstições do povo da cidade. Espero que isso não aconteça, já tenho que aturar os discursos sobre chakras e “energias positivas”.
—E com a religião da tia — comentou Indara.
—A tia eu aturo um pouco mais —disse Mailén, como se a mãe e a Soraya não estivessem ali—. Ela foi freira por muitos anos; mas largou… por algum motivo deve ser. Dá pra ver que já não acredita tanto como antes.
—Os problemas de fé que eu tenho ou possa ter, vou tratar com o Senhor —disse Soraya—. Larguei o hábito porque achei que essa vida já não era pra mim, não porque parei de acreditar.
—Bom, voltando ao que interessa —interveio Inara—. Como é que a gente vai dormir? Se essa casa tá há vinte anos abandonada, os colchões devem estar um bagaço.
—Por isso não se preocupem —disse Rebeca—. Antes de viajar pra cá, pedi pra trazerem umas coisas básicas. Comprei um colchão novo pra cada um, além de vários jogos de lençol. Também toalhas e toalhões. Tudo deve estar guardado em algum lugar da casa, me garantiram que já tinham entregado.
—E as coisas que eu encomendei? — Perguntou Catriel.
—Isso também deve estar em algum lugar.
—O que você pediu? —Perguntou Lilén.
—Ferramentas que podem nos ajudar a começar a restauração. Duas lavadoras de alta pressão; dois aspiradores industriais; dois aspiradores de mão; serrote, pregos, martelos, chaves de fenda… ah, e lâmpadas novas. Pedi várias dessas.
—Ufa, melhor assim… não quero andar por essa casa com as luzes apagadas —disse Lilén—. De noite deve estar cheio de fantasmas…
—Não fala bobagem —disse Rebeca, que sentiu um arrepio só de imaginar vendo uma sombra se mexendo na noite—. Nessa casa a gente não corre perigo nenhum. Mas… não se enfiem muito no mato que tem atrás. A gente tá no meio do nada, pode ter bicho perigoso pra caramba, tipo jacaré ou onça.
—Nesta área pode ter onça-pintada —disse Mailén—. Não sei se são mais ou menos perigosas que as onças-pardas; mas mesmo assim dão medo.
—Também tem capivaras — disse Inara.
—Ai, que nojo —exclamou a Lilén—. Odeio capivara. Morro se eu vir uma.
A irmã gêmea dela, que já sabia disso, começou a cair na gargalhada.
—Não entendo como você pode ter medo de capivara, elas são uma graça.
—Literalmente são os maiores ratos do mundo.
—Ratas, não —disse Mailén—. Roedores. São os maiores roedores do mundo.
—É a mesma merda!
—Bom, vou trocar de roupa —disse Mailén—, tô toda suada. A umidade e o calor são insuportáveis. Depois a gente vai buscar algo pra comer.
*¨*¨*¨*¨*¨*
Catriel foi dar uma olhada pra garantir que as ferramentas estavam em perfeito estado. Encontrou elas num lugar que parecia uma garagem velha, achou estranho aquela mansão ter um espaço pra guardar veículos, porque não tinha estrada de terra pra sair da cidade. O Pombero é cercado por um rio que serpenteia pelo oeste, norte e leste. O sul é todo coberto de árvores e mato, impossível dirigir por lá. Pensou que talvez a garagem servisse pra guardar barcos, mesmo estando bem longe da margem mais próxima.
Tudo tinha sido entregue em condições impecáveis, os colchões também estavam lá, e ela gostou de ver que eram de excelente qualidade. Pelo menos poderiam dormir confortáveis… se não fizesse muito calor. A mansão não parecia ter sinal de ar-condicionado.
Viu que a mãe dela tinha se abastecido com telas, cavaletes, pincéis e tintas acrílicas e a óleo. Era pouca coisa, comparado com a quantidade que ela costumava usar; mas pelo menos serviria pra manter ela ativa por algumas semanas.
Depois de verificar, foi procurar a irmã, subiu uma das escadas e chegou a um corredor. Havia quartos dos dois lados, ele virou à direita porque viu uma luz acesa. Quando espiou, levou um baita susto. Encontrou Mailén com o torso nu. Ficou paralisado, mas por sorte a irmã estava passando a blusa pela cabeça, então não conseguiu vê-lo. Catriel se escondeu na hora no corredor e ficou com a imagem das tetas da irmã gravada na retina. Estava chocado. Aqueles bicos pareciam estacas apontando para cima. Os peitos de Mailén não eram tão grandes quanto os da Rebeca, ou os da Soraya; mas eram perfeitamente redondos e exageradamente firmes. Catriel se perguntou quando foi que a irmã cresceu tanto. Ela já tem vinte e um anos e ele nunca tinha percebido, até agora, que ela já era toda uma mulher. Inara e Lilén, que já têm dezoito, não têm um corpo tão chamativo quanto o da Mailén, e muito menos tetas tão redondas e firmes.
Quando a Mailén saiu do quarto, o Catriel viu que ela tinha vestido uma blusa esportiva com um decote bem pronunciado. Dava pra ver a parte de cima dos peitos e dava pra adivinhar o volume dos bicos por baixo.
—Hmm… você vai sair com essa roupa?
— O que tem de errado? — Perguntou Mailén, olhando pros peitos dela.
—É que… seus peitos tão muito à mostra, mana. E cê já deve imaginar que nessa cidade o povo é meio bitolado, daqueles bem antigos. Acho que não é prudente andar com tanto decote assim.
—Isso é problema deles. Tô morrendo de calor, Catriel.
—Nem vai colocar um sutiã?
—Não, o sutiã é a pior coisa. Deve estar fazendo quarenta e cinco graus, com mais de 90% de umidade. Isso é um inferno…
—Tá bom, mas depois não fala que não te avisei.
A Mailén achou legal que o irmão dela cuidasse dela desse jeito; mas ela não gosta que fiquem dizendo o que ela pode ou não fazer.
Desceram pela encosta do morro, a estrada tava bem detonada e chegaram à conclusão de que deviam restaurar ela o quanto antes. Colocar pedras novas, cortar o mato e tirar uns troncos caídos no caminho.
A primeira visão que tiveram d'O Pombero foi a de várias casas com telhados de telha vermelha de duas águas. Pareciam casas coloniais, embora a maioria estivesse em bom estado. Só uma ou outra tinha caído no abandono. Uma das casas tinha uma árvore saindo do telhado.
—Acho que ninguém mora mais ali — comentou a Mailén.
—É uma pena que esteja tão abandonada. A gente podia descobrir de quem é a propriedade, comprar e restaurar.
—Acho que primeiro devíamos focar na mansão.
—Vou anotar isso como um projeto pra frente.
—Olha, ali tem um açougue… não acredito —o rosto da Mailén se iluminou de alegria—. Mas parece meio velhinho…
—Vamos aproveitar, porque deve ser a única da cidade toda.
Entraram pela porta da frente, o açougue não era diferente das outras casas, a não ser pela placa grande de madeira pendurada na altura do teto. Só tinha sido adaptado com uns balcões refrigerados. A maioria estava vazia, e isso decepcionou a Mailén.
—Oi? —Disse Catriel.
Quase na mesma hora, um homem apareceu pela porta atrás do balcão. Era grandalhão, barbudo e com cabelo preto grisalho. Olhou pra eles com uma cara de poucos amigos.
—Quem são vocês? — Perguntou o homem, com uma voz grave e grossa.
—Oi, meu nome é Mailén Korvacik e esse aqui é meu irmão Catriel. Acabamos de nos mudar pra cidade. Vamos morar na mansão Var Kavian.
O homem quase arrancou os olhos das órbitas, de repente a atitude ameaçadora dele sumiu e ele pareceu assustado.
—Tão loucos? Quem no seu juízo perfeito moraria naquela casa?
—Sabemos que está meio deteriorada —disse Catriel—; mas vamos restaurar ela.
—Acho que telha solta e tábua quebrada não são o maior problema daquela mansão — comentou o cara, enquanto passava o pano no balcão, no automático.
—Se você está se referindo aos boatos de que ali rolam "coisas estranhas", isso não nos assusta.
—Fala por ti, mana… porque a Inara e a Lilén tão morrendo de medo.
—Vocês deviam levar esses boatos mais a sério —sentenciou o homem, voltando a mostrar um semblante sério—, por algum motivo eles começaram.
—Tá bom, a gente vai levar isso em consideração —disse Mailén—. Por enquanto, queremos focar em algo mais urgente: a comida. O que você tem pra oferecer?
—Nada demais. Aquilo ali —apontou para vários cortes no balcão da esquerda—, é carne de veado. Bem fresquinha. Aquilo ali —apontou para o balcão da direita—, é pato recém-caçado.
—Hmm... e não tem nada de carne de vaca? Ou frango?
—Se quiserem frango, podem pedir pra dona Gregória matar uma galinha. Mais fresco que isso, impossível.
—Mmm… —pra Mailén não pareceu nada legal a ideia de sacrificar uma galinha só porque ela tava com fome. Os frangos do supermercado ela não precisava ouvir cacarejar.
—E vaca… pode ser que eu tenha algo na câmara frigorífica. Esperem.
O cara sumiu de vista por uns minutos. Mailén e Catriel discutiram se compravam um pouco de veado, que até que tinha uma cara boa; mas ficaram com medo de que Inara e Lilén recusassem a comer. Por sorte, o açougueiro voltou com um saco enorme que parecia uma pata quase inteira de uma vaca.
—Tá aqui. Tá congelado… é o único jeito de conservar a carne por essas bandas. Mas com o calor que faz, se deixarem fora, em poucas horas já tá pronta pra cortar. Só que, uma vez descongelada, vão ter que cozinhar tudo. Tô cansado de explicar pros ignorantes da cidade que se a carne perde a cadeia de frio, não adianta congelar de novo… porque estraga do mesmo jeito.
—É um montão —disse Catriel—. Quantos quilos isso tem?
O açougueiro colocou a sacola na balança e depois disse:
—Quatorze quilos.
—Porra... não dá pra comer tanto assim. Não tem porções menores?
—Desculpa, mas não. A gente tava guardando isso pra alguma ocasião especial… um aniversário ou algo assim.
—Vamos levar o veado —disse Catriel—. Se a Inara e a Lilén reclamarem, que fiquem sem comer.
—Quanto vão levar?
—Umas três quilos —disse Catriel, calculando meio quilo por pessoa—. E você, como se chama?
— Arturo Blasi, prazer em conhecê-los — disse ele, enquanto preparava os cortes —. Como vão pagar?
—Em dinheiro —disse Mailén.
—Mmm… isso não adianta muito aqui. Dinheiro só serve pra comprar na cidade. Por aqui a gente geralmente usa troca. Dessa vez aceito o dinheiro de vocês, mas recomendo que da próxima vez arrumem algo pra trocar.
—Ah, já entendi… e que tipo de artefatos eles usam pra fazer a troca?
—Comida, roupa, móveis, livros… ou serviços.
A Mailén ficou muito incomodada com ele ter dito "serviços" bem na hora em que olhou pras tetas dela. Já tava se arrependendo de não ter dado ouvidos ao irmão.
—Tá bom, a gente vai levar em consideração —disse Catriel, pegando a sacola com a carne. Mailén entregou o dinheiro pra ele—. Na próxima vez, a gente traz algo mais útil pra você. Muito obrigado.
—Tchau… e se vocês valorizam a sanidade de vocês, não fiquem por muito tempo. Essa casa come a mente de quem mora ali.
—Muito obrigada pelo aviso, mas por enquanto a gente vai ficar —disse Mailén—. Onde a gente encontra uma verdureira?
—O mais perto disso é o mercadinho dos Zapata, a cem metros daqui —respondeu Arturo Blasi, apontando pro norte—. Tem um pouco de tudo… e muito de nada.
Essa frase se mostrou bem verdadeira. No mercadinho em questão, quem atendeu foi um cara muito magro que se apresentou como Ciro Zapata, o dono. As prateleiras eram poucas e tavam quase vazias. Compraram um quilo e meio de batata, que era tudo que tinha na categoria "verduras", e a Mailén perguntou se ele vendia erva-mate.
—Cê vai tomar mate com esse calor? —Perguntou Catriel— Cê tá doida?
—Gosto de tomar chimarrão, não me dá calor. E me ajuda a pensar.
—Me desculpa muito, mas não tenho — disse Ciro Zapata —. Se quiserem erva-mate ou alguma outra coisa que não tenha no mercadinho, vão ter que pedir pra Marina e Jorge Catena. Eles cuidam de viajar pra cidade uma vez a cada duas semanas pra comprar tudo que o pessoal da vila pede. E recomendo que se apressem, porque depois de amanhã eles saem, senão vão ter que esperar mais duas semanas.
—Muito obrigada pela informação —disse Mailén.
Saiu do mercadinho com o irmão sentindo, mais uma vez, que estavam vivendo na idade média. Passaram a vida inteira num bairro bem de boa de Rosário, lá era muito fácil conseguir de tudo. Não podia acreditar que tinha que esperar vários dias pra conseguir um mísero pacote de erva-mate. A vida em El Pombero ia ser mais difícil do que ela tinha imaginado.
*¨*¨*¨*¨*¨*
Voltaram pra mansão com a carne e, como já imaginavam, a Inara e a Lilén reclamaram.
—Wacala, não quero comer veado —gritou Lilén.
—Nem eu — a irmã gêmea dela concordou.
—Não sejam birrentas —disse Soraya—. Tenho certeza de que nunca provaram carne de veado. Não sabem o gostoso que é.
—Além disso, é a única coisa que tem — esclareceu Catriel —. Se não gostarem, podem comer batata pura… ou nada. — As gêmeas olharam pra carne com nojo, mas a ideia de ficar sem comer assustava mais que a aventura culinária —. Vou grelhar tudo. Agradeceria se juntassem um pouco de lenha… e se apressassem, porque já tá escurecendo.
Mais uma vez, Inara e Lilén reclamaram por terem que ser elas a juntar a lenha; mas os irmãos mais velhos se defenderam, dizendo que eles tinham conseguido o mais importante: a comida.
Começaram a juntar galhos secos nos fundos da casa. Aproveitaram pra perder tempo jogando umas pedrinhas no riacho que cortava todo o quintal de lado a lado.
—Pelo menos isso é bonito —disse Lilén—. Se cortarmos um pouco o mato, vai ficar um quintal bonito com riacho.
—Sim, mesmo que a floresta dê um pouco de medo… não se vê nada… e quando escurecer de vez, vai dar pra ver menos ainda.
—O pior de tudo é que a maioria dos cômodos tem janelas com vista pra floresta —disse Lilén—. E vi umas com espelhos enormes… não sei pra que servem.
—Espelhos?
—Sim, ocupam uma parede quase inteira. Vi três quartos com isso.
—Que estranho… pra que vão querer espelhos tão grandes? Bom, vamos juntar a lenha, antes que escureça mais. Essa floresta já tá me dando medo.
Lilén começou a juntar o monte de lenha e galhos que tinha conseguido acumular e, no momento em que se ergueu de novo, notou que algo se mexia entre as árvores… era uma figura humana… uma silhueta, cortando a penumbra.
—Ai, a buceta da minha mãe… ai, não… não…!!
Lilén jogou tudo pro alto, os galhos voaram pelos ares e, antes mesmo de tocarem o chão, a garota já tinha cruzado metade da distância que a separava de casa. Inara não fazia a menor ideia do que podia ter assustado tanto a irmã, mas não quis ficar pra descobrir. Jogou a lenha e correu atrás de Lilén o mais rápido que conseguiu.
—O que foi, o que foi? —Perguntou Rebeca, quando viu as filhas entrarem em pânico.
—Um fantasma, mãe… eu vi um fantasma… juro… era horrível. Todo preto… a puta que pariu, quero vazar daqui.
Lilén estava à beira das lágrimas e Inara olhava para todos os lados, pálida e com os olhos arregalados.
—Não fala besteira —interveio a Mailén, que tava lavando as batatas com a ajuda da tia dela—. Como é que você vai ver um fantasma, se nem existe?
—Existem sim —disse Lilén, fazendo biquinho—. Eu vi. Tá ali fora… na floresta, do outro lado do riacho.
Catriel largou a faca em cima da mesa, limpou as mãos com um pano úmido e saiu da cozinha em direção à escada principal. A família inteira foi atrás dele.
—Vem cá, Lilén… me diz onde você viu esse fantasma —disse o rapaz ao entrar num dos muitos cômodos.
Lilén, agarrada no braço da mãe, se aproximou da janela com cuidado. Todos analisaram o cenário, mas só tinha mata, sombras e o zumbido constante do riacho.
—Tá vendo? Não tem nada —disse Mailén—. Falei que fantasma não exist…
—Ali está! —Gritou Lilén, apontando pra um ponto específico da floresta—. Ali está… tão vendo? Tão vendo?
Por mais que a Mailén não acredite em fantasmas, ela não conseguiu evitar que o sangue gelasse nas veias. Um arrepio subiu pela espinha e ela sentiu os ovários subirem até a garganta. Ela também conseguia ver aquilo.
Era uma silhueta meio borrada, mas sem dúvida parecia humana. Dava pra identificar uma cabeça, uma pele extremamente pálida e uns olhos brilhantes. A figura se mexeu rápido e sumiu de vista num instante.
—Ai, minha mãezinha querida —disse Soraya, e começou a se persignar de forma compulsiva—. Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco…
— Viram, né? Hein? Porque eu não sou louca, sei o que vi…
—Sim, filha… a gente viu —disse Rebeca, tão pálida quanto a própria criatura que tinham visto na floresta—. Soraya, quero crucifixos em todos os quartos que a gente usar pra dormir. Se não tiver tantos, improvisa com o que encontrar: paus, tábuas, pincéis… o que for.
—Já vou cuidar disso — Soraya saiu do quarto num passo rápido.
—Crucifixo me dá medo —disse Lilén, apertando o braço da mãe.
—Você tem medo de tudo —disse Inara, que não estava menos assustada que a irmã—. Não se preocupa, vou dormir com você.
—Isso você diz porque não quer dormir sozinha — disse Mailén.
—Tanto faz —respondeu Lilén—. Quero que alguém durma comigo. E amanhã mesmo vamos embora daqui… pra sempre.
—Desculpa, filha —Rebeca acariciou o cabelo ruivo da filha—. Não podemos desistir tão fácil. Pode ser que nessa casa tenha umas paradas… estranhas; mas é a nossa casa. Se a gente tiver que chamar um exorcista, a gente chama.
—Não sejam tão exagerados — disse Mailén, revirando os olhos.
—Cala a boca, sua puta —gritou Lilén—, você viu a mesma coisa que a gente. Era um fantasma. Como você queria que a gente reagisse?
—Se todos nós conseguimos ver, então é porque alguém estava lá —respondeu Mailén—. Não é um fantasma. Tem que ser uma pessoa… talvez alguém da vila.
—Essa é uma possibilidade —disse Catriel—, embora também não descarte que possa ser um fantasma. Tem que ter cuidado. A tia consegue arrumar um pouco de água benta? Isso pode ajudar.
—Talvez nesta vila tenha algum padre… e uma capela — disse Inara—. Amanhã vamos procurá-lo, eu te acompanho… vou cobrir o cabelo com alguma coisa, se for necessário.
*¨*¨*¨*¨*¨*
O jantar passou praticamente em silêncio. Catriel teve que cortar toda a carne e as batatas em pedaços pequenos, porque ele foi o único com juízo suficiente pra levar uma faca de cozinha e um garfo. Nem pratos eles tinham. As outras tiveram que espetar a comida com palitos de dente, direto da tábua de churrasco do Catriel.
O cara, irritado com essa falta de organização, disse que deveriam colocar no topo da lista de compras pratos, copos e talheres.
—Desculpa —disse Rebeca—. Achei que a casa teria tudo isso. Me surpreendi ao encontrar os móveis da cozinha completamente vazios. A carne de veado ficou uma delícia, é uma das melhores coisas que comi em meses.
Mesmo ainda perturbada pelo encontro com o fantasma, Lilén também achou a carne uma delícia, mas não falou nada. O primeiro dia na casa nova tinha sido um desastre e ela tava com medo de que a situação piorasse ainda mais.
*¨*¨*¨*¨*¨*
Catriel não tinha certeza do que tinha visto na floresta; mas tinha alguma coisa ali… algo potencialmente perigoso. Antes de ir dormir, e sem falar nada pra família, ele saiu pela porta dos fundos pra dar uma pequena ronda de vigia com a lanterna na mão.
Ele atravessou o riacho e iluminou o chão numa tentativa absurda de encontrar pegadas. "É, claro... como se eu fosse um rastreador profissional", se recriminou. Por mais que custasse admitir, ele é um bicho de cidade. Não tá preparado pra encarar o mato, a escuridão...
Clareou entre as árvores e só se deparou com aquilo… mais árvores. Não tinha nada ali. O sangue gelou só de imaginar que, a qualquer momento, um par de olhos espectrais ia encará-lo do fundo daquele abismo de escuridão; mas não aconteceu nada. O som era incessante, mas tranquilizador. Cigarras e grilos cantando em coro, sapos coaxando, algum pássaro noturno cantando… uma coruja piando. Nada pra se preocupar.
Apagou a lanterna e atravessou o riacho de novo. Quando tava chegando perto da mansão, viu que a janela do segundo andar tava acesa. Era a de uma esquina. Dentro daquele quarto, viu a mãe dele.
Rebeca não percebeu a presença do filho. Ela se aproximou da janela, olhou em direção à floresta e começou a tirar a roupa. Catriel ficou paralisado ao ver as tetonas da mãe aparecendo atrás da janela. Não era a primeira vez que as via, Rebeca já tinha tido outros acidentes assim no passado; mas dessa vez foi mais longe, porque Catriel pôde testemunhar a mãe ficar completamente nua. Ele chegou até a ver os pelinhos ruivos da buceta coroando a xereca dela.
Merda… isso não é bom — lamentou-se Catriel —. Espero que nessa cidade tenha umas minas gostosas, senão vou passar mal pra caralho.
Catriel tava acostumado a ter sorte com as mulheres, principalmente com as transas de uma noite só. Ele era um cara muito gostoso pro sexo feminino e na cidade nunca teve dificuldade de encontrar alguém pra foder. Mas aqui… no meio do nada? Num povoado tão conservador?
Sem dúvida, ver as tetas da mãe dele… ou as da irmã, não ajudava em nada.
Seguiu seu caminho, antes que Rebeca o descobrisse. Não queria assustá-la.
*¨*¨*¨*¨*¨*
A Mailén não gostou nadinha de ter que dormir com um crucifixo pendurado na parede na frente da cama dela.
—É para o seu próprio bem — disse Soraya, enquanto o pendurava.
Ele tinha feito aquilo com dois galhos secos, amarrados com várias voltas do barbante de embalagem que estava entre as ferramentas do Catriel.
—Mas eu sou ateia —protestou Mailén—. Não acredito nessas coisas.
—Não me diga isso, me faz muito mal e você sabe. Preferia ter uma sobrinha sapatão do que uma ateia.
—Não sou lésbica, mas com essa coisa de ateia você vai ter que se acostumar. Vou deixar pra essa noite, pra você ficar tranquila. Assim que eu cansar, vou tirar.
—Tá bom, mas nem pense em jogar isso no lixo. Improvisado ou não, ainda é um crucifixo, e é sagrado.
Mailén revirou os olhos. Não conseguia entender como dois gravetos que juntaram no mato de repente podiam virar um objeto sagrado.
Continua no próximo Post:A Mansão da Luxúria[01]- Parte 02[/01]
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1 comentários - La Mansión de la Lujuria [01] (Parte 1).