Na manhã seguinte, Loung me acordou com um beijo. Achando que ela queria continuar de onde paramos, eu a abracei, mas ela, evitando minhas carícias e com lágrimas nos olhos, me informou:
―Don Manuel, isso nunca mais vai se repetir. Cometi um erro, porque agora vai ser mais difícil cumprir meu dever, pois toda vez que olhar para você, vou querer ser sua e saberei que é impossível.
―Não te entendo ― respondi irritado ― achei que você tinha gostado.
―E eu gostei, mas a partir de hoje, vai ter outra mulher na sua casa― disse enquanto fugia chorando do quarto.
Naquele momento, não a entendi e, acreditando que uma vez em Madri teria a chance de repetir quando aquela gostosa estivesse longe de Samoya, decidi não ir atrás dela pelo hotel.
Ao descer para o hall, Loung já havia colocado a máscara de burocrata e, com um gesto sério, me cumprimentou.
Seu carro está pronto para levá-lo ao aeropuerto. Informaram que sua cunhada já está nos esperando na sala de embarque.
Eu já tinha aceitado que teria que cuidar daquela desconhecida e, entendendo que não era culpa dela, direcionei todo o meu ódio contra o governo dela. O que eu não esperava era que, ao chegar, minha cunhada estivesse escoltada por dois policiais e sua atitude deixou claro que ela não estava indo por vontade própria. Por isso, aproveitando que nos deixaram sozinhos por um minuto, eu disse pra ela não se preocupar, porque eu ia me virar pra garantir que não faltasse nada pra ela.
―Sinto ser um fardo ― respondeu quase chorando, com um sotaque marcado: ― como o único homem que considero da minha família, devo respeito a você e procurarei servi-lo no que puder, sempre que me permita continuar com o trabalho do seu irmão da Espanha.
Sem entender o alcance das suas palavras, eu reforcei que minha casa seria a dela e que, claro, ela poderia continuar a obra que Alberto havia começado. A viúva sorriu ao me ouvir, mas não disse nada porque os agentes haviam voltado e ela temia que nos ouvissem.
O silêncio dela me permitiu observá-la. Embora a raça oriental não fosse especialmente do meu agrado, tive que reconhecer que aquele metro e meio abrigava tudo que um homem pode sonhar. Gostosa e com um corpo bem feito, seu sorriso era cativante. Ninguém que olhasse para ela deixaria de notar que aquela mulher era uma verdadeira gata.
Alberto sempre teve bom gosto", pensei ao vê-la caminhar com passos felinos pelos corredores do aeroporto e, amaldiçoando meus pensamentos, me repreendi por achar que a viúva dele devia dar um bom foda.
Curiosamente, Loung manteve distância enquanto estávamos em solo samoiano, mas assim que as portas do avião se fecharam, ele se ajoelhou diante dela e, na língua dele, soltou uma falação que eu não entendi. Sovann, ao perceber que ela não compreendia, disse:
―Em português, o irmão do meu marido deve descobrir quem eu sou.
Loung se desculpou e, já em espanhol, repetiu:
―Princesa, o governo atual não representa o povo. Considere-me sua súdita leal, juro dar minha vida por você.
―Loung Sen, seu pai me fez chegar seu desejo de me servir e, em agradecimento à sua lealdade, a partir deste momento aceito você como minha secretária pessoal.
Então entendi tudo. O rei, o tio dele e o presidente haviam se livrado de um membro da família real incômodo em silêncio e sem alarde, por isso tantas facilidades e tantas honrarias. Eles queriam que o povo jamais soubesse do seu exílio. Dessa forma, mandando ela com o cunhado dela para Madri, evitavam rumores e, principalmente, manifestações de apoio.
Analisando as conversas com meu irmão, lembrei que Samoya era uma monarquia eletiva e que, quando o rei morria, o conselho de sábios decidia seu substituto. Senti um calafrio ao pensar que minha cunhada, sem dúvida, devia ser a favorita do povo e, vendo a saúde frágil do atual monarca, a mandaram exilada para o outro lado do mundo.
Sem saber o que dizer ou fazer, mantendo um respeito escrupuloso, perguntei:
―Sua alteza, como devo chamá-la?
Exibindo um dos seus melhores sorrisos, aquela gostosa me respondeu:
―Cunhada? Sovann? Tanto faz, contanto que você me trate por "você". O Alberto já me avisou que o irmão mais velho dele era meio metido.
Sua resposta me fez rir e, sem me importar que Loung estivesse presente, peguei sua mão enquanto dizia:
―Acho que vou continuar te chamando de Princesa.
―Como você quiser, mas na Espanha vai soar estranho se na intimidade você chamar sua cunhada desse jeito― e, entreabrindo os olhos, disse com malícia: ―Podem achar que o carinho que vou te mostrar é de outro tipo.
Embora eu tenha visto que Loung ficou irritada com a brincadeira, pra mim, a piada dele foi engraçada e me deixou mais animado, então me acomodei melhor no assento. Sovann e sua secretária aproveitaram as catorze horas de voo para estabelecer a estratégia de oposição que iriam desenvolver e, antes que eu percebesse, já tinham marcado uma coletiva de imprensa na minha casa. Mesmo reconhecendo que aquilo tudo me sobrecarregou, decidi cumprir minha palavra e não reclamei de usarem minha casa como base. Aterrorizado, porque não tinha dúvidas de que meu irmão tinha sido assassinado por ser marido daquela dissidente, tentei pegar no sono.
Desde que conheci aquelas duas mulheres, minha vida virou de cabeça pra baixo, e a prova disso foi que, ao chegarmos em Barajas, na porta do avião, fomos recebidos por um comandante da Guarda Civil que, após uma breve apresentação, nos informou que o Ministério do Interior havia designado ele para ser nosso escolta na Espanha.
―Entendo que queiram proteger a princesa, mas acha mesmo necessário ter uma presença permanente na minha casa? ― protestei ao saber que dois agentes à paisana ficariam de plantão no jardim do meu chalé.
―Claro que sim ― respondeu o militar: ― Tanto o senhor quanto a senhora podem ser alvo de um atentado, e é minha missão evitá-lo.
Não precisei ser um gênio para entender que toda vez que eu saísse, um policial estaria grudado nos meus calcanhares. Lamentando minha independência perdida, afundei num silêncio desconfortável, do qual só saí quando a viúva pegou minha mão e, sussurrando no meu ouvido, me disse:
―Desculpa. Vou saber te compensar.
Naquele momento, eu não fazia ideia de como, poucas horas depois, aquela mulher iria cumprir sua promessa de um jeito tão genuíno.
Assumindo meu papel de coadjuvante, peguei minha mala e também a bagagem farta da minha cunhada, e submissamente entrei no carro que haviam colocado à nossa disposição, enquanto um policial levava meu Audi carregado com nossas roupas. Ao chegar na casa de campo, já nos esperavam os agentes que iriam cuidar da nossa proteção e, pedindo permissão, começaram a instalar uma porrada de câmeras e outros aparelhos que nem quis saber pra que serviam. Antes que eu percebesse, invadiram minha garagem deixando-a praticamente inutilizável, já que decidiram montar ali a central de onde espionariam tudo que acontecesse no perímetro.
Mas o cúmulo foi quando entrei no "meu" escritório e descobri que Loung tinha tomado posse dele. Por isso, puto da vida e arrependido de ter oferecido minha casa, fui para o meu quarto. Tava tão nervoso que nem tirei os sapatos quando me joguei na cama para ver TV, mas nem meu quarto foi um refúgio, porque cinco minutos depois, Sovann chegou e, vendo que eu não tinha tirado os sapatos, me repreendeu com doçura e disse:
―Manuel, preciso da sua ajuda. Onde vamos receber a imprensa?
Usa o salão dos fundos, entre as cadeiras e os sofás dá pra enfiar mais de trinta pessoas. Eu sei porque já fiz muita festa e tenho certeza que cabe.
―Mas você não vai me acompanhar? ― sussurrou, abaixando os cílios ― Como irmão do Alberto, você deveria estar ao meu lado.
O olhar de socorro dela me desarmou e, descendo do colchão, me comprometi não só a ajudá-la a preparar a sala, mas a servir de apoio durante a entrevista. Naquele momento, achei que minha presença ali seria apenas testemunhal, mas em poucas horas descobri o quão enganado eu estava.
Embora sua secretária tenha chamado alguns compatriotas, o trabalho foi árduo e completamente exaustivo. Às três, decidi que chega e, pegando minha cunhada pelo braço, disse que estava com fome e a convidei para comer.
―Não temos tempo de sair para comer. Por que você não pede algo para entregar?
―Se você quiser ficar aqui, o problema é seu, Princesa, eu vou embora.
Sem dar o braço a torcer, ela me pediu para trazer algo na volta. Afundado na miséria, deixei um policial me levar a um shopping e lá soltei toda minha tensão ficando louco num mexicano. Quando acabei, pedi uns tacos vegetarianos para viagem e voltei para minha antiga casa pacata.
Na porta, me esperava minha cunhada de mau humor, mas assim que me viu, seu rosto se suavizou. Pegando a sacola de comida da minha mão, ela disse suavemente:
―Querido, tomei a liberdade de escolher a roupa que você deve usar durante a coletiva de imprensa ― e antecipando a surpresa que eu teria, explicou: ― Pense que nossas fotos serão vistas pelo meu povo e você deve aparecer como merece seu status.
― Meu cargo? ― exclamei.
―Sim! Eu sou sua princesa! E como estou sob sua proteção, você também deve aparecer diante dos olhos deles como um membro da realeza.
Sem entender nada da cultura dela, resolviir entrar na onda, mas quando entrei no meu quarto e vi um traje cerimonial do país dela em cima da cama, caguei pros mortos dela. Puto da vida, tomei um banho com a cabeça girando por causa da confusão em que me meti. Depois de seco, fiquei olhando pra porra da roupa e, sem saber por onde começar, chamei a Loung pra me ajudar.
A porra da mina riu ao ver meu problema e, sem reclamar, me ajudou a me vestir. Como vocês podem imaginar, ver a mulher que me tinha dado na noite anterior de joelhos na minha frente, enquanto abotoava minha calça, me pareceu muito excitante e, pressionando sua cabeça contra minha buceta, perguntei se ela não queria repetir:
―Don Manuel, não insista. O que aconteceu ontem à noite foi um erro.
Mais afetada do que suas palavras deixavam transparecer, a garota se apressou em terminar, depois disso, desapareceu correndo escada abaixo. Sozinho e agitado, me olhei no espelho. Demorei a me recompor ao ver a imagem refletida do sujeito grotesco fantasiado de marajá oriental que eu era. Até a faca dourada não faltava, aquela que, nos romances de Salgari, era o símbolo do poder. Estava a ponto de mandar tudo para a puta que pariu quando minha queridíssima cunhada apareceu na porta:
―Você está lindíssimo ― disse e com lágrimas nos olhos, exclamou chorando: ― Como você se parece com meu marido! Não é só pela sua altura, você tem a mesma postura majestosa pela qual me apaixonei.
―Esse terno é do meu irmão? ― perguntei, sem acreditar que o Alberto tivesse topado usar essa cafonice.
―Sim, é com ele que eu casei.
Fiquei com urgencia de cagar só de pensar que era o "smoking de casamento" dele, por isso perguntei se ele não tinha outro.
―Desculpa. É o único que tem a coragem necessária para a ocasião.
Alheio ao que me esperava, tive pena da dor dela e aceitei descer vestido daquele jeito. Vocês não têm ideia da vergonha que senti ao receber os jornalistas naquela situação, sentado na minha poltrona enquanto minha cunhada permanecia ao meu lado com uma mão apoiada no meu ombro. Perdoem, mas não contei que a Sovann também estava com um vestido típico do país dela, de seda selvagem rosa, e enfeitando o cabelo, usava uma pequena tiara em forma de coroa. Os fotógrafos aproveitaram nossa pose para tirar uma porrada de fotos e só quando estavam todos, a coletiva de imprensa começou.
A princesa, minha cunhada, tomou a palavra e, depois de fazer um elogio ao rei e ao merda do seu presidente, falou sobre o trabalho do seu falecido marido e prometeu que continuaria com mais força lutando pelo bem do seu povo. Em seu breve discurso, não poupou críticas ao governo atual e destacou as dificuldades e privações que os camponeses e pobres do seu país enfrentam.
Quando acabou, ela me olhou com cumplicidade, mas não retribuí o olhar porque estava puto dela ter bajulado o tio dela, o monarca, o mesmo que a havia exilado. No fundo, eu sabia que era uma questão política, mas mesmo assim, me irritou o servilismo dela.
Até aí tudo foi normal, mas o pior foram as perguntas. O primeiro a perguntar foi um jornalista do "El País" que, ignorando completamente a presença da minha cunhada, me perguntou diretamente:
―Don Manuel, é verdade que seu irmão morreu de um infarto ou, pelo contrário, foi assassinado?
Antes de responder, senti a mão da minha cunhada apertando meu ombro, me avisando para manter a versão oficial.
―Que fique claro, Alberto Cifuentes morreu como viveu, servindo ao povo que o acolheu como seu ― respondi sem esclarecer nada.
O repórter não ficou satisfeito e insistiu na pergunta.
― Do que seu irmão morreu?
―Já falei pra você, quando o coração do meu irmão parou de bater, a alma dele ainda tava lutando pelos pobres.
Vendo que não ia conseguir arrancar nenhuma manchete de mim e muito menos que eu confirmaria a causa da morte, ele passou o microfone para outro jornalista. Esse começou sendo mais diplomático e, dirigindo-se à minha cunhada, perguntou sobre a permanência dela na Espanha.
―Tanto Manuel quanto eu viveremos neste país enquanto nosso rei achar conveniente – e, encerrando a resposta, disse: ―Próxima pergunta.
Fiquei de pedra quando ele me incluiu nos planos dele, mas comecei a suar frio quando o mesmo cara perguntou pra ele:
―Então confirma a informação do palácio?
―Qual? ― respondeu Sovann com tom duro.
―De acordo com o porta-voz do rei, após o período de luto e seguindo os costumes do seu povo, você se casará com o irmão do seu marido.
―Sim, é verdade. Por mais estranho que possa parecer sob a ótica ocidental, a família real samoyana segue rigorosamente o levirato e seu povo espera isso. Tanto Manuel quanto eu juramos continuar o trabalho de Alberto e colocar nossas vidas a serviço do nosso povo.
A cara que eu devo ter feito deve ter sido um poema, mas mantendo a compostura, fiquei calado, mesmo que lá no fundo eu desejasse estrangular com as minhas próprias mãos tanto a princesa quanto a secretária dela.
Ninguém me contou sobre o "pequeno" detalhe de que, na cultura deles, se um marido morresse sem filhos, o irmão dele era obrigado a se casar com a viúva.
Como vocês podem imaginar, o resto da coletiva de imprensa não me importou mais, eu só queria que acabasse para cobrar explicações daquelas duas cobras em forma de mulher. Infelizmente para mim, as perguntas se prolongaram por uma hora. Hora em que minha supostamente noiva se dedicou a esboçar as medidas que tomaria caso fosse nomeada rainha, sem citá-lo. Estritamente eram conselhos para o atual rei, mas nenhum observador esperto deixaria de entender que essa seria sua linha de governo.
Mesmo sendo uma piranha, ela é inteligente!", tive que admitir ao ouvi-la.
Assim que a coletiva terminou, ainda tive que acompanhar a princesa até a porta e me despedir da imprensa. Assim que o último jornalista foi embora e como Loung tinha sumido, encarei a princesa, agarrei ela e exigi explicações:
―Você está me machucando! ― protestou ― Me solta que eu posso explicar.
Foi aí que percebi que, levado pela raiva, eu estava torcendo o braço dela. Envergonhado, soltei-a, e ela aproveitou o momento para ir até meu escritório e tirar uma carta da bolsa.
Depois de colocar na minha mão, ela disse:
―Eu não te contei nada porque o Alberto me aconselhou a não fazer isso. Ele falou da sua teimosia, mas também do seu senso de honra e que, se chegasse esse momento, você faria a coisa certa. Se não acredita em mim: leia a mensagem do meu marido!
Olhando o envelope que ele me havia dado, reconheci a letra do meu irmão e, ansioso por explicações, li:
Manuel:
Se você está lendo isso, significa que eu morri. Faz dois anos que eu temo um atentado e por isso me antecipei e escrevi essa carta pra você. Considere como meu testamento. Não deixo bens, nunca me importei com isso, mas te deixo algo mais importante que é uma missão.
Como você já deve ter descoberto que eu me casei e minha esposa é a princesa Sovann. Sinto que você tenha ficado sabendo assim, mas não te contei nada porque não queria te colocar na mira dos inimigos dela.
Nosso casamento foi por amor, mas não consigo esquecer que minha esposa representa o futuro do seu povo. Só ela será capaz de tirar seu país da idade média e levá-lo ao século XXI. Por isso, peço que você a ajude, mesmo que isso signifique seu sacrifício.
Sacrifício inevitável, porque nenhuma mulher pode acessar o trono sem estar casada e no dia em que eu faltar, serás tu o único com quem ela poderá fazê-lo. Lembras das vezes que, quando crianças, trocávamos de papéis? É isso que te peço:
“Pega meu lugar.”
Um irmão que te adorava em vida
Alberto.
Reli sua carta um monte de vezes porque me custava acreditar que meu irmão concordasse com essa loucura. Quando assimilei suas palavras, fiquei escandalizada ao saber que, de acordo com seus ideais, uma vida só tinha sentido se tivesse uma missão e que, ignorando minha opinião, ele me legava a dele.
Quem diabos ele pensa que é pra me foder assim!", eu amaldiçoei enquanto guardava o papel no bolso.
Sovann, que tinha ficado quieto até então, me perguntou:
― Você vai realizar o desejo dele? Posso considerar que você vai continuar a luta dele?
Traindo as bases do que tinha sido minha existência até aquele momento, não pude negar ao meu irmão morto aquele último favor e por isso, indignado, respondi:
Sim, mas não espere que eu me meta entre suas pernas. Você é a viúva do meu irmão e mesmo que a gente assine um papel, você vai continuar sendo.
A mulher sorriu e, tendo obtido minha promessa, me deixou sozinho...
―Don Manuel, isso nunca mais vai se repetir. Cometi um erro, porque agora vai ser mais difícil cumprir meu dever, pois toda vez que olhar para você, vou querer ser sua e saberei que é impossível.
―Não te entendo ― respondi irritado ― achei que você tinha gostado.
―E eu gostei, mas a partir de hoje, vai ter outra mulher na sua casa― disse enquanto fugia chorando do quarto.
Naquele momento, não a entendi e, acreditando que uma vez em Madri teria a chance de repetir quando aquela gostosa estivesse longe de Samoya, decidi não ir atrás dela pelo hotel.
Ao descer para o hall, Loung já havia colocado a máscara de burocrata e, com um gesto sério, me cumprimentou.
Seu carro está pronto para levá-lo ao aeropuerto. Informaram que sua cunhada já está nos esperando na sala de embarque.
Eu já tinha aceitado que teria que cuidar daquela desconhecida e, entendendo que não era culpa dela, direcionei todo o meu ódio contra o governo dela. O que eu não esperava era que, ao chegar, minha cunhada estivesse escoltada por dois policiais e sua atitude deixou claro que ela não estava indo por vontade própria. Por isso, aproveitando que nos deixaram sozinhos por um minuto, eu disse pra ela não se preocupar, porque eu ia me virar pra garantir que não faltasse nada pra ela.
―Sinto ser um fardo ― respondeu quase chorando, com um sotaque marcado: ― como o único homem que considero da minha família, devo respeito a você e procurarei servi-lo no que puder, sempre que me permita continuar com o trabalho do seu irmão da Espanha.
Sem entender o alcance das suas palavras, eu reforcei que minha casa seria a dela e que, claro, ela poderia continuar a obra que Alberto havia começado. A viúva sorriu ao me ouvir, mas não disse nada porque os agentes haviam voltado e ela temia que nos ouvissem.
O silêncio dela me permitiu observá-la. Embora a raça oriental não fosse especialmente do meu agrado, tive que reconhecer que aquele metro e meio abrigava tudo que um homem pode sonhar. Gostosa e com um corpo bem feito, seu sorriso era cativante. Ninguém que olhasse para ela deixaria de notar que aquela mulher era uma verdadeira gata.
Alberto sempre teve bom gosto", pensei ao vê-la caminhar com passos felinos pelos corredores do aeroporto e, amaldiçoando meus pensamentos, me repreendi por achar que a viúva dele devia dar um bom foda.
Curiosamente, Loung manteve distância enquanto estávamos em solo samoiano, mas assim que as portas do avião se fecharam, ele se ajoelhou diante dela e, na língua dele, soltou uma falação que eu não entendi. Sovann, ao perceber que ela não compreendia, disse:
―Em português, o irmão do meu marido deve descobrir quem eu sou.
Loung se desculpou e, já em espanhol, repetiu:
―Princesa, o governo atual não representa o povo. Considere-me sua súdita leal, juro dar minha vida por você.
―Loung Sen, seu pai me fez chegar seu desejo de me servir e, em agradecimento à sua lealdade, a partir deste momento aceito você como minha secretária pessoal.
Então entendi tudo. O rei, o tio dele e o presidente haviam se livrado de um membro da família real incômodo em silêncio e sem alarde, por isso tantas facilidades e tantas honrarias. Eles queriam que o povo jamais soubesse do seu exílio. Dessa forma, mandando ela com o cunhado dela para Madri, evitavam rumores e, principalmente, manifestações de apoio.
Analisando as conversas com meu irmão, lembrei que Samoya era uma monarquia eletiva e que, quando o rei morria, o conselho de sábios decidia seu substituto. Senti um calafrio ao pensar que minha cunhada, sem dúvida, devia ser a favorita do povo e, vendo a saúde frágil do atual monarca, a mandaram exilada para o outro lado do mundo.
Sem saber o que dizer ou fazer, mantendo um respeito escrupuloso, perguntei:
―Sua alteza, como devo chamá-la?
Exibindo um dos seus melhores sorrisos, aquela gostosa me respondeu:
―Cunhada? Sovann? Tanto faz, contanto que você me trate por "você". O Alberto já me avisou que o irmão mais velho dele era meio metido.
Sua resposta me fez rir e, sem me importar que Loung estivesse presente, peguei sua mão enquanto dizia:
―Acho que vou continuar te chamando de Princesa.
―Como você quiser, mas na Espanha vai soar estranho se na intimidade você chamar sua cunhada desse jeito― e, entreabrindo os olhos, disse com malícia: ―Podem achar que o carinho que vou te mostrar é de outro tipo.
Embora eu tenha visto que Loung ficou irritada com a brincadeira, pra mim, a piada dele foi engraçada e me deixou mais animado, então me acomodei melhor no assento. Sovann e sua secretária aproveitaram as catorze horas de voo para estabelecer a estratégia de oposição que iriam desenvolver e, antes que eu percebesse, já tinham marcado uma coletiva de imprensa na minha casa. Mesmo reconhecendo que aquilo tudo me sobrecarregou, decidi cumprir minha palavra e não reclamei de usarem minha casa como base. Aterrorizado, porque não tinha dúvidas de que meu irmão tinha sido assassinado por ser marido daquela dissidente, tentei pegar no sono.
Desde que conheci aquelas duas mulheres, minha vida virou de cabeça pra baixo, e a prova disso foi que, ao chegarmos em Barajas, na porta do avião, fomos recebidos por um comandante da Guarda Civil que, após uma breve apresentação, nos informou que o Ministério do Interior havia designado ele para ser nosso escolta na Espanha.
―Entendo que queiram proteger a princesa, mas acha mesmo necessário ter uma presença permanente na minha casa? ― protestei ao saber que dois agentes à paisana ficariam de plantão no jardim do meu chalé.
―Claro que sim ― respondeu o militar: ― Tanto o senhor quanto a senhora podem ser alvo de um atentado, e é minha missão evitá-lo.
Não precisei ser um gênio para entender que toda vez que eu saísse, um policial estaria grudado nos meus calcanhares. Lamentando minha independência perdida, afundei num silêncio desconfortável, do qual só saí quando a viúva pegou minha mão e, sussurrando no meu ouvido, me disse:
―Desculpa. Vou saber te compensar.
Naquele momento, eu não fazia ideia de como, poucas horas depois, aquela mulher iria cumprir sua promessa de um jeito tão genuíno.
Assumindo meu papel de coadjuvante, peguei minha mala e também a bagagem farta da minha cunhada, e submissamente entrei no carro que haviam colocado à nossa disposição, enquanto um policial levava meu Audi carregado com nossas roupas. Ao chegar na casa de campo, já nos esperavam os agentes que iriam cuidar da nossa proteção e, pedindo permissão, começaram a instalar uma porrada de câmeras e outros aparelhos que nem quis saber pra que serviam. Antes que eu percebesse, invadiram minha garagem deixando-a praticamente inutilizável, já que decidiram montar ali a central de onde espionariam tudo que acontecesse no perímetro.
Mas o cúmulo foi quando entrei no "meu" escritório e descobri que Loung tinha tomado posse dele. Por isso, puto da vida e arrependido de ter oferecido minha casa, fui para o meu quarto. Tava tão nervoso que nem tirei os sapatos quando me joguei na cama para ver TV, mas nem meu quarto foi um refúgio, porque cinco minutos depois, Sovann chegou e, vendo que eu não tinha tirado os sapatos, me repreendeu com doçura e disse:
―Manuel, preciso da sua ajuda. Onde vamos receber a imprensa?
Usa o salão dos fundos, entre as cadeiras e os sofás dá pra enfiar mais de trinta pessoas. Eu sei porque já fiz muita festa e tenho certeza que cabe.
―Mas você não vai me acompanhar? ― sussurrou, abaixando os cílios ― Como irmão do Alberto, você deveria estar ao meu lado.
O olhar de socorro dela me desarmou e, descendo do colchão, me comprometi não só a ajudá-la a preparar a sala, mas a servir de apoio durante a entrevista. Naquele momento, achei que minha presença ali seria apenas testemunhal, mas em poucas horas descobri o quão enganado eu estava.
Embora sua secretária tenha chamado alguns compatriotas, o trabalho foi árduo e completamente exaustivo. Às três, decidi que chega e, pegando minha cunhada pelo braço, disse que estava com fome e a convidei para comer.
―Não temos tempo de sair para comer. Por que você não pede algo para entregar?
―Se você quiser ficar aqui, o problema é seu, Princesa, eu vou embora.
Sem dar o braço a torcer, ela me pediu para trazer algo na volta. Afundado na miséria, deixei um policial me levar a um shopping e lá soltei toda minha tensão ficando louco num mexicano. Quando acabei, pedi uns tacos vegetarianos para viagem e voltei para minha antiga casa pacata.
Na porta, me esperava minha cunhada de mau humor, mas assim que me viu, seu rosto se suavizou. Pegando a sacola de comida da minha mão, ela disse suavemente:
―Querido, tomei a liberdade de escolher a roupa que você deve usar durante a coletiva de imprensa ― e antecipando a surpresa que eu teria, explicou: ― Pense que nossas fotos serão vistas pelo meu povo e você deve aparecer como merece seu status.
― Meu cargo? ― exclamei.
―Sim! Eu sou sua princesa! E como estou sob sua proteção, você também deve aparecer diante dos olhos deles como um membro da realeza.
Sem entender nada da cultura dela, resolviir entrar na onda, mas quando entrei no meu quarto e vi um traje cerimonial do país dela em cima da cama, caguei pros mortos dela. Puto da vida, tomei um banho com a cabeça girando por causa da confusão em que me meti. Depois de seco, fiquei olhando pra porra da roupa e, sem saber por onde começar, chamei a Loung pra me ajudar.
A porra da mina riu ao ver meu problema e, sem reclamar, me ajudou a me vestir. Como vocês podem imaginar, ver a mulher que me tinha dado na noite anterior de joelhos na minha frente, enquanto abotoava minha calça, me pareceu muito excitante e, pressionando sua cabeça contra minha buceta, perguntei se ela não queria repetir:
―Don Manuel, não insista. O que aconteceu ontem à noite foi um erro.
Mais afetada do que suas palavras deixavam transparecer, a garota se apressou em terminar, depois disso, desapareceu correndo escada abaixo. Sozinho e agitado, me olhei no espelho. Demorei a me recompor ao ver a imagem refletida do sujeito grotesco fantasiado de marajá oriental que eu era. Até a faca dourada não faltava, aquela que, nos romances de Salgari, era o símbolo do poder. Estava a ponto de mandar tudo para a puta que pariu quando minha queridíssima cunhada apareceu na porta:
―Você está lindíssimo ― disse e com lágrimas nos olhos, exclamou chorando: ― Como você se parece com meu marido! Não é só pela sua altura, você tem a mesma postura majestosa pela qual me apaixonei.
―Esse terno é do meu irmão? ― perguntei, sem acreditar que o Alberto tivesse topado usar essa cafonice.
―Sim, é com ele que eu casei.
Fiquei com urgencia de cagar só de pensar que era o "smoking de casamento" dele, por isso perguntei se ele não tinha outro.
―Desculpa. É o único que tem a coragem necessária para a ocasião.
Alheio ao que me esperava, tive pena da dor dela e aceitei descer vestido daquele jeito. Vocês não têm ideia da vergonha que senti ao receber os jornalistas naquela situação, sentado na minha poltrona enquanto minha cunhada permanecia ao meu lado com uma mão apoiada no meu ombro. Perdoem, mas não contei que a Sovann também estava com um vestido típico do país dela, de seda selvagem rosa, e enfeitando o cabelo, usava uma pequena tiara em forma de coroa. Os fotógrafos aproveitaram nossa pose para tirar uma porrada de fotos e só quando estavam todos, a coletiva de imprensa começou.
A princesa, minha cunhada, tomou a palavra e, depois de fazer um elogio ao rei e ao merda do seu presidente, falou sobre o trabalho do seu falecido marido e prometeu que continuaria com mais força lutando pelo bem do seu povo. Em seu breve discurso, não poupou críticas ao governo atual e destacou as dificuldades e privações que os camponeses e pobres do seu país enfrentam.
Quando acabou, ela me olhou com cumplicidade, mas não retribuí o olhar porque estava puto dela ter bajulado o tio dela, o monarca, o mesmo que a havia exilado. No fundo, eu sabia que era uma questão política, mas mesmo assim, me irritou o servilismo dela.
Até aí tudo foi normal, mas o pior foram as perguntas. O primeiro a perguntar foi um jornalista do "El País" que, ignorando completamente a presença da minha cunhada, me perguntou diretamente:
―Don Manuel, é verdade que seu irmão morreu de um infarto ou, pelo contrário, foi assassinado?
Antes de responder, senti a mão da minha cunhada apertando meu ombro, me avisando para manter a versão oficial.
―Que fique claro, Alberto Cifuentes morreu como viveu, servindo ao povo que o acolheu como seu ― respondi sem esclarecer nada.
O repórter não ficou satisfeito e insistiu na pergunta.
― Do que seu irmão morreu?
―Já falei pra você, quando o coração do meu irmão parou de bater, a alma dele ainda tava lutando pelos pobres.
Vendo que não ia conseguir arrancar nenhuma manchete de mim e muito menos que eu confirmaria a causa da morte, ele passou o microfone para outro jornalista. Esse começou sendo mais diplomático e, dirigindo-se à minha cunhada, perguntou sobre a permanência dela na Espanha.
―Tanto Manuel quanto eu viveremos neste país enquanto nosso rei achar conveniente – e, encerrando a resposta, disse: ―Próxima pergunta.
Fiquei de pedra quando ele me incluiu nos planos dele, mas comecei a suar frio quando o mesmo cara perguntou pra ele:
―Então confirma a informação do palácio?
―Qual? ― respondeu Sovann com tom duro.
―De acordo com o porta-voz do rei, após o período de luto e seguindo os costumes do seu povo, você se casará com o irmão do seu marido.
―Sim, é verdade. Por mais estranho que possa parecer sob a ótica ocidental, a família real samoyana segue rigorosamente o levirato e seu povo espera isso. Tanto Manuel quanto eu juramos continuar o trabalho de Alberto e colocar nossas vidas a serviço do nosso povo.
A cara que eu devo ter feito deve ter sido um poema, mas mantendo a compostura, fiquei calado, mesmo que lá no fundo eu desejasse estrangular com as minhas próprias mãos tanto a princesa quanto a secretária dela.
Ninguém me contou sobre o "pequeno" detalhe de que, na cultura deles, se um marido morresse sem filhos, o irmão dele era obrigado a se casar com a viúva.
Como vocês podem imaginar, o resto da coletiva de imprensa não me importou mais, eu só queria que acabasse para cobrar explicações daquelas duas cobras em forma de mulher. Infelizmente para mim, as perguntas se prolongaram por uma hora. Hora em que minha supostamente noiva se dedicou a esboçar as medidas que tomaria caso fosse nomeada rainha, sem citá-lo. Estritamente eram conselhos para o atual rei, mas nenhum observador esperto deixaria de entender que essa seria sua linha de governo.
Mesmo sendo uma piranha, ela é inteligente!", tive que admitir ao ouvi-la.
Assim que a coletiva terminou, ainda tive que acompanhar a princesa até a porta e me despedir da imprensa. Assim que o último jornalista foi embora e como Loung tinha sumido, encarei a princesa, agarrei ela e exigi explicações:
―Você está me machucando! ― protestou ― Me solta que eu posso explicar.
Foi aí que percebi que, levado pela raiva, eu estava torcendo o braço dela. Envergonhado, soltei-a, e ela aproveitou o momento para ir até meu escritório e tirar uma carta da bolsa.
Depois de colocar na minha mão, ela disse:
―Eu não te contei nada porque o Alberto me aconselhou a não fazer isso. Ele falou da sua teimosia, mas também do seu senso de honra e que, se chegasse esse momento, você faria a coisa certa. Se não acredita em mim: leia a mensagem do meu marido!
Olhando o envelope que ele me havia dado, reconheci a letra do meu irmão e, ansioso por explicações, li:
Manuel:
Se você está lendo isso, significa que eu morri. Faz dois anos que eu temo um atentado e por isso me antecipei e escrevi essa carta pra você. Considere como meu testamento. Não deixo bens, nunca me importei com isso, mas te deixo algo mais importante que é uma missão.
Como você já deve ter descoberto que eu me casei e minha esposa é a princesa Sovann. Sinto que você tenha ficado sabendo assim, mas não te contei nada porque não queria te colocar na mira dos inimigos dela.
Nosso casamento foi por amor, mas não consigo esquecer que minha esposa representa o futuro do seu povo. Só ela será capaz de tirar seu país da idade média e levá-lo ao século XXI. Por isso, peço que você a ajude, mesmo que isso signifique seu sacrifício.
Sacrifício inevitável, porque nenhuma mulher pode acessar o trono sem estar casada e no dia em que eu faltar, serás tu o único com quem ela poderá fazê-lo. Lembras das vezes que, quando crianças, trocávamos de papéis? É isso que te peço:
“Pega meu lugar.”
Um irmão que te adorava em vida
Alberto.
Reli sua carta um monte de vezes porque me custava acreditar que meu irmão concordasse com essa loucura. Quando assimilei suas palavras, fiquei escandalizada ao saber que, de acordo com seus ideais, uma vida só tinha sentido se tivesse uma missão e que, ignorando minha opinião, ele me legava a dele.
Quem diabos ele pensa que é pra me foder assim!", eu amaldiçoei enquanto guardava o papel no bolso.
Sovann, que tinha ficado quieto até então, me perguntou:
― Você vai realizar o desejo dele? Posso considerar que você vai continuar a luta dele?
Traindo as bases do que tinha sido minha existência até aquele momento, não pude negar ao meu irmão morto aquele último favor e por isso, indignado, respondi:
Sim, mas não espere que eu me meta entre suas pernas. Você é a viúva do meu irmão e mesmo que a gente assine um papel, você vai continuar sendo.
A mulher sorriu e, tendo obtido minha promessa, me deixou sozinho...
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