CASCABEL
1. Clerkenwell
O bairro de Clerkenwell foi, no começo do século passado, um dos mais pobres de Londres. A doença e a miséria apareciam em cada esquina, e não havia pessoa que não tivesse um doente na família ou conhecesse alguém que estivesse. Naqueles tempos de fome e aperto, os choros e lamentos viraram a música de fundo de um cenário escurecido pela sombra da morte. Era fácil encontrar pelas ruas do bairro um grupo de pessoas carregando nos ombros um caixão com os restos mortais de algum parente, que era, geralmente, criança ou velho. Quem passasse com certa frequência pelo bairro teria visto uma cena parecida quase todo santo dia; foi por isso que, de tanto ver, muitos ficaram insensíveis a ela.
De noite se ouvia o choro de uma criança; na manhã seguinte, o mesmo choro era substituído por outro: o choro de uma mãe que percorria as ruas com o rosto pálido e os olhos inchados.
Tem gente que, sem merecer, consegue enganar a morte. Outras, porém, têm menos sorte e nem veem ela chegar. Ela se instala em casa, num canto escuro, onde espera em silêncio a hora marcada para sair ao encontro do moribundo.
Na fachada da igreja, junto a uma das pilastras que ladeiam o portão de entrada, o padre pendurou um cartaz cujas letras rezavam a seguinte oração:
"Se com tua boca confessas
a Jesus como Senhor,
e com teu coração crês
que Deus o ressuscitou,
alcançarás a salvação."
O coração de Claudine se apertava toda vez que passava por ali com os remédios vagabundos que o médico dava pra filha dela. "Eu creio, Senhor, eu creio; mas salva ela, por favor, eu te imploro, salva ela", dizia pra si mesma, como se no fundo da alma as súplicas dela fossem ser atendidas. No entanto, apesar de todos os seus pedidos e choros, a menina, que com apenas seis anos se agarrava à vida com todas as suas forças, parecia definhar dia após dia. Claudine vigiava ela noite e dia, esperando como um raio de luz divina um pequeno sinal de melhora que despertasse suas esperanças e afrouxasse a angústia que apertava seu peito. Ao longo de todos esses dias, a jovem mãe perdeu muito peso, e com isso, parte da beleza que tinha não muito tempo atrás. Claudine, que sempre andava pela rua com um sorriso no rosto, cumprimentando amigavelmente todos os vizinhos, agora caminhava encurvada, arrastando o olhar pelo chão e com a boca entreaberta. 2. Claudine A vida de Claudine sempre foi uma mancha borrada na obra do Senhor. Passou a maior parte da infância num orfanato nos arredores de Londres. Lá aprendeu duas coisas muito importantes; duas coisas que, sem ela saber, seriam de grande utilidade ao longo da vida: uma, costurar, e a outra, levar porrada. Essas porradas, dadas na maioria das vezes de maneira injusta pelas freiras responsáveis pelo orfanato, fizeram de Claudine uma menina medrosa e retraída, uma menina silenciosa, fechada em si mesma, que parecia viver num mundo alheio ao que existia dentro daquelas paredes. Ela se relacionava muito pouco com as colegas, e em todo o tempo que ficou no orfanato não teve outra amizade além da de um vira-lata faminto que todo dia, na mesma hora da manhã, entrava no jardim para receber um pouco de comida, sobras que Claudine juntava do prato e guardava especialmente pra ele. Um certo dia foi descoberta por uma das freiras dando comida ao vira-lata. Como castigo, levou 25 chibatadas na palma das mãos e ficou sem almoço e sem janta. No dia seguinte de manhã não teve nada pra levar pro amigo, e se limitou a acariciar a cabeça dele. No mesmo dia, na hora do almoço, guardou ração dobrada pra compensar no dia seguinte. Era o coração de Claudine o mais nobre de todos que havia no orfanato. Se Deus tivesse reparado Naquele lugar, ela teria descoberto entre suas servas a melhor de suas representantes.
A coitada, já que não conhecia outro modo de vida senão aquele, via tudo o que lhe acontecia como algo normal, e todo dia, quando rezava, agradecia pela sorte que as freiras a faziam acreditar que tinha.
Quando fez dezesseis anos, coincidindo com uma chegada em massa de crianças ao orfanato, arranjaram-lhe trabalho numa oficina de costura e um teto pra dormir.
No centro de Londres, não muito longe do bairro de Clerkenwell, existia um velho e imundo prédio chamado "Atalaia", batizado assim por sua altura. Seus donos, o senhor e a senhora Pikets, alugavam os cômodos por um preço baixo, pois estes, devido ao tempo e à pouca manutenção que recebiam, estavam em condições deploráveis. Tais condições atraíram todo tipo e espécie de gente, vindas em sua maioria das camadas mais baixas da sociedade. Entre elas, Claudine, que, pela metade do salário, foi ocupar um dos três quartos que formavam o sótão.
Embora bem pequeno, com o teto inclinado, feito de tábuas de madeira, e as paredes em péssimo estado, era equipado com cama, mesa, duas cadeiras, um armário, fogão a lenha e uma janelinha oval que dava uma vista privilegiada da parte baixa da cidade. Era um cenário úmido e cinzento, que intimidava Claudine.
O sonho dela, desde bem novinha, era ter uma casa e formar uma família. Aquele quarto era, nos seus 16 anos de vida, o que mais se aproximava do seu ideal de vida.
Poucos dias depois de chegar, usando o pouco dinheiro que tinham adiantado no trabalho, decidiu dar um pouco de calor ao quarto, algo que o deixasse mais aconchegante. Um dia, ao sair do trabalho, comprou um quadro no mercado. Ao chegar em casa, deitou na cama e visualizou o quadro pendurado na parede que tinha na frente. Era uma parede pequena, cortada em Diagonal pelo teto, com uma pequena clareira que deixava os tijolos à mostra. Ela achou uma boa ideia tapar aquele defeito com o quadro, e assim tirar o dobro de proveito do seu investimento.
Lembrou de ter visto, dois andares abaixo, atravessando o papel velho que revestia a parede do corredor, um prego bem enferrujado.
Desceu para pegá-lo e, assim que o localizou, começou a puxar. Vendo que não adiantava nada, parou por um instante, esfregou a ponta dos dedos no vestido e tentou de novo, dessa vez com as mãos. Nem usando toda a força conseguiu mexer o prego. Ela se dedicou tanto àquela pequena tarefa que nem percebeu que alguém, bem atrás dela, a observava com curiosidade. Do esforço, Claudine começava a suar. Dando por impossível sua missão, e irritada por ver seu projeto decorativo adiado, soltou o prego e, ao se virar, soltou uma palavra feia que aprendera no orfanato, uma expressão vulgar e indecente, imprópria para uma moça da sua idade. Foi nesse instante que descobriu um jovem atrás dela. Era um jovem bonito, de cabelo castanho e rosto sereno. Claudine tapou a boca, envergonhada pelo que acabara de dizer, e ficou vermelha.
— Quer ajuda? — perguntou o jovem.
Claudine balançou a cabeça que sim. O jovem se aproximou do prego, agarrou com força, balançou de um lado para o outro e depois puxou. Não sem esforço, o prego saiu.
— Aqui está.
— Obrigada — disse Claudine, pegando o prego.
Eles sorriram um para o outro e o jovem seguiu seu caminho. Enquanto descia a escada, Claudine se inclinou na grade e disse:
— Espera…
O jovem parou e olhou para cima.
— Qual é o seu nome? — perguntou Claudine.
— Roger; me chamo Roger.
— Eu me chamo Claudine.
— Prazer, Claudine — disse Roger, sorrindo —. A gente se vê logo…
E o jovem seguiu seu caminho.
No dia seguinte, enquanto Claudine voltava do trabalho, foi observando as pedras que encontrava pelo Caminho. Procurava uma que fosse firme e, se possível, tivesse alguma borda lisa. Encontrou uma pouco antes de chegar ao prédio. Escondeu debaixo da roupa e subiu pro quarto. Pegou o prego, que tava guardado numa gaveta, a mesma onde guardava os pratos e talheres, apoiou na parede, bem na parte descascada, e bateu com a pedra. O prego afundou no gesso até chegar no tijolo, mas não era o suficiente pra aguentar o peso do quadro. Claudine partiu pra cima do prego com força; mas usou tanta que, por causa do estado ruim da parede, um pedaço se soltou e caiu no chão do quarto vizinho. Um buraco do tamanho da pedra que Claudine tinha na mão se abriu na parede.
Assustada, largou a pedra no chão e espiou pelo buraco. Não viu ninguém no quarto. Nas poucas semanas que a moça tava morando ali, ainda não tinha esbarrado com o vizinho; mas sabia que ele existia, porque toda tarde, pouco antes de escurecer, ouvia o portão batendo quando ele entrava.
Por um tempo, Claudine ficou pensando nas várias consequências do acidente. A primeira, a que mais preocupava, era ser expulsa do apartamento; e a outra, menos grave que a primeira, a raiva do vizinho.
Angustiada com esses pensamentos, se deitou na cama, esperando o vizinho. Depois de um tempo, achou melhor esperar ele lá fora, no hall onde davam os três quartos e a escada terminava, pra contar o que aconteceu antes que ele visse.
Claudine sentou no chão e esperou. Já tava quase dormindo quando ouviu uns passos. Levantou rápido ao distinguir a figura de um homem, e sentiu um baita alívio ao reconhecer o jovem que tinha ajudado ela a tirar o prego da parede. Roger ergueu a cabeça e viu Claudine, que de cima olhava pra ele e sorria. Antes que o jovem tivesse tempo de cumprimentar, Claudine disse:
— Você mora aí, né? Chegou na altura da Claudine.
— Se eu moro aí? — disse Roger, apontando pra porta que ficava entre as outras duas.
— Aham — disse Claudine, balançando a cabeça.
— Não. Eu moro naquela ali.
Claudine sentou de novo no chão, tapou o rosto com as mãos e começou a chorar. Roger se abaixou, surpreso com aquela reação repentina, apoiou a mão no ombro de Claudine e perguntou:
— O que foi?
Entre soluços, com a voz embargada, Claudine respondeu:
— Vão me botar pra fora.
— De onde?
— Daqui.
— Da sua casa? Não consegue pagar?
Claudine enxugou as lágrimas na manga do vestido, pegou Roger pela mão e levou ele pra dentro do quarto dela.
— É por isso — disse Claudine, apontando pro buraco na parede. — Assim que o senhor Pikets souber, vai fazer um escândalo; vai me expulsar, tenho certeza, e não tenho pra onde ir. Não sei o que fazer. Só me resta confiar no nosso vizinho, que ele não conte nada e me ajude a esconder a cagada até eu ter grana pra consertar.
Roger olhava pro buraco, pensativo.
— O Butler é um velho rabugento que vive puto com todo mundo. Butler é nosso vizinho.
— E o que eu vou fazer, então? Quando esse velho chegar e descobrir o buraco…
— E acho que não demora; ele costuma chegar nessa hora.
Claudine sentou na cama, cabisbaixa, e suspirou.
Roger, enquanto isso, pegou a pedra do chão e bateu na parede. Claudine, ao ouvir o barulho, deu um pulo.
— Mas…! O que cê tá fazendo?
Roger olhou pra Claudine e, enquanto tomava impulso pra bater de novo na parede, disse:
— Um buraco maior.
E bateu na parede de novo. Pedaços de tijolo caíram do outro lado da divisória.
Claudine ficou completamente paralisada.
— Você passa por aqui? — perguntou Roger depois de várias batidas. — Temos que ir rápido. O velho Butler não vai demorar pra chegar. É preciso que você passe pro outro quarto e jogue os entulhos pra cá.
— Pra que fazer isso, Roger?
— Confia em mim. Vamos, eu te ajudo a passar. Claudine enfiou os braços e a cabeça pelo buraco e, com a ajuda do amigo, foi passando para o outro lado.
Durante essa operação, Roger fez de tudo pra não tocar em nada além da cintura da moça e, além disso, pra que a saia do vestido dela não levantasse, porque acima de tudo, por mais extrema que fosse a situação, ele não queria faltar com o respeito.
Na queda, Claudine bateu a testa nos escombros e fez um arranhão.
— Tá bem? — perguntou Roger.
A moça se levantou do chão. Tinha um pouco de sangue na testa, mas estava tão nervosa que nem percebeu o machucado. Ela balançou a cabeça que sim e, sem perder um segundo, começou a catar os escombros.
Roger, enquanto isso, arrastou a cama até a parede, deixando a cabeceira bem perto do buraco, e pediu pra Claudine passar primeiro os pedaços maiores e deixar os menores por último. Cada resto de parede que Claudine entregava, Roger ia colocando em cima da cama.
De vez em quando, Roger espiava pela porta e ficava de ouvido atento pra ver se o senhor Butler chegava.
Claudine tava passando os últimos restos do desastre quando Roger achou que ouviu uns passos. Pensou que podia ser qualquer outro vizinho, mas que não valia a pena arriscar.
— Deixa pra lá, Claudine. Vamos, vou te ajudar a passar.
Roger pegou as mãos de Claudine, que já tinha enfiado os braços e a cabeça pelo buraco, e puxou ela até trazê-la de volta.
— Temos que ser rápidos. Mexe a cama e coloca ela debaixo do buraco.
Roger se aproximou do móvel que ficava perto do fogão, abriu a gaveta e tirou de lá um pano cor de terra e uma faca que parecia estar afiada. Claudine terminou de mexer a cama e se virou bem na hora em que Roger fechava os olhos, pegava com o punho a lâmina da faca e, com um movimento rápido, a puxava. Claudine tapou a boca com a mão e abafou um grito.
Roger, sem prestar atenção em Claudine, limpou com o pano o sangue da faca e, depois, com o mesmo pano, se tampou o ferimento na mão dela.
—É melhor eu falar, tá? A partir de agora, não diz nada.
Ele se aproximou de Claudine, colocou o pano encharcado de sangue na testa dela e, sem soltar, passou o braço em volta dela e a tirou do quarto. Lá fora, procurando a chave pra entrar no próprio quarto, estava o senhor Butler. Ele, ao ver o sangue escorrendo da cabeça da moça, franziu a testa e exclamou:
—Santo céu bendito! O que aconteceu com ela?
—Caiu uma parede em cima dela enquanto dormia —respondeu Roger—. Vamos, me ajuda a descer ela.
—Maldito prédio! —gritou o velho—. Você tá bem?
—Não é nada —disse Roger—, mas ela precisa ver um médico.
Os três desceram até o primeiro andar. Butler bateu várias vezes na porta dos Pikets.
A porta foi aberta por um velho míope. Era o senhor Pikets.
—Olha só o que o seu prédio caindo aos pedaços fez com essa pobre coitada!
O senhor Pikets ficou mudo e de boca aberta ao ver o sangue. As mãos tremiam e os olhos brilhavam.
—Vamos pra polícia agora mesmo! —continuou o senhor Butler, furioso.
—Mas... vocês podem me explicar o que aconteceu? —conseguiu perguntar o senhor Pikets.
—Você não tá vendo? Caiu uma parede das suas paredes em cima dela enquanto a pobre dormia —disse Butler.
—Por sorte eu tava no meu quarto e ouvi tudo, e consegui ajudar ela —interveio Roger.
—Mas... —disse Pikets—, pra polícia? Essa moça precisa é ver um médico.
—E a polícia também! —disse o velho.
—Tá bom, tá bom, mas primeiro ela precisa de um médico —disse Pikets—. Não se preocupem com os gastos do médico. Eu cuido disso, e... bom, ela vai ter um quarto melhor, e... pelo mesmo preço, claro.
—Claro que vai! —berrou Butler.
—Mas... não vai precisar chamar a polícia.
—Conversem entre vocês —interrompeu Roger—; eu vou levar ela pra ver um médico, e chamar ou não a polícia vai ser decisão dela.
Roger saiu do prédio com Claudine, deixando os dois velhos sozinhos. Já do lado de fora, com o problema resolvido, Claudine se atreveu a falar.
— Não vamos pro médico, né? — perguntou.
Roger sorriu.
— Claro que não. Vamos na casa de um amigo, se você topar. Ele vai emprestar o que a gente precisa pra cuidar desses ferimentos e esconder esse arranhão. Depois, se você quiser, a gente pode dar um rolê no parque.
3. Marie
Ninguém faltou na festa. Amigos e familiares quiseram estar presentes num dia tão especial pra Marie. Ela tava fazendo quinze anos.
Filha única de Eduard e Margaret Connell, Marie tinha uns pais que eram a inveja de todas as amigas dela, que, várias vezes, tinham dito: “quem me dera meus pais fossem que nem os seus”. Pro casal Connell, a filha era tudo. Mesmo sendo uma menina que nunca tinha passado necessidade, como era boa filha, se contentava com pouco e nunca reclamava de nada.
Naquela manhã, vendo o sol nascer, os pais da Marie decidiram fazer a festa no jardim. O dia tinha amanhecido limpo, o que, junto com a temperatura amena, fazia prever um dia bonito de primavera.
No começo da tarde, as mesas já estavam perfeitamente arrumadas pelo pátio, cheias de bebidas e petiscos que os convidados iam escolhendo e colocando nos pratos. As folhas das cercas vivas que rodeavam o pátio brilhavam calmas sob o sol, e nem uma brisa tímida ousava incomodá-las.
Um gramofone, em cima de uma mesa debaixo da varanda, animava a festa com um estilo novo de música chamado fox-trot. O vinil, presente da tia Rose, tinha sido comprado de um grupo de soldados americanos em troca de algumas moedas e de uma certa informação sobre onde gastar o dinheiro à toa, ou, em outras palavras: em mulher, acordo que Rose topou de boa.
Mas esse presente, igual a todos os outros, não despertou muito interesse em Marie, porque foi ofuscado por um muito mais especial: um filhote acinzentado de pelo lanudo, olhos pequenos e orelhas caídas: era um Um filhote de raça barbet. E embora ela tenha ficado igualmente grata pelo resto dos presentes, mal prestou atenção neles, não só pela imensa alegria que o filhote lhe deu, mas porque esse presente vinha de alguém muito especial para ela: seu amigo Darrell, de quem, importante dizer, ela estava apaixonada em segredo; tão em segredo que nem ele sabia.
Darrell, que na época tinha vinte e um anos, era um jovem bonito, educado e culto; virtudes que carregava com muita humildade. Recém-promovido a sargento do exército britânico, Darrell tinha um futuro brilhante pela frente.
Com o filhote nos braços, Marie vasculhou o pátio com o olhar em busca do amigo. Avistou ele rapidamente conversando com os pais dela, o senhor e a senhora Tilman, junto com os pais dele, o senhor e a senhora Connell. Ficou feliz com a boa relação entre eles, e corou ao pensar que, no futuro, os laços pudessem se estreitar.
Decidiu se aproximar quando uma mão, agarrando seu braço, a parou.
— Finalmente te encontro. Me diz, querida: você gosta de música?
— Muito, tia Rose; muito obrigada.
— Te vejo diferente. Você está se tornando toda uma mulher.
Marie corou.
— Não sei, tia Rose. Acho que não…
— É verdade.
Sua prima Shelly, filha de Rose, se juntou a elas.
— Você já tem idade suficiente pra ter um namorado — continuou tia Rose —, embora isso não seja algo que deva te preocupar agora; como você diz, ainda é uma garota. Shelly na sua idade não tinha namorado, e olha que ela, na época, passava por uma jovem de vinte anos, né, Shelly? Mas isso sim: não faltavam pretendentes; aliás, Marie, sabia que o Darrell convidou a Shelly pra sair?
A cor de Marie passou do rosa ao branco, e uma angústia terrível tomou conta dela.
— Eles formam um casal estupendo — continuou tia Rose —, não acha?
Marie não conseguiu conter a dor, e sentindo os olhos se encherem d'água, baixou a cabeça e disse:
— Sim, a Fazem, tia…
E antes que as primeiras lágrimas brotassem, ela foi pra dentro de casa, deixando mãe e filha plantadas ali.
Subiu pro quarto, se jogou na cama, abraçou o cachorro e chorou como não lembrava de ter chorado há muito tempo.
Depois de um tempo, a mãe entrou no quarto e, vendo que a menina dela tava chorando, sentou na cama, estranhando, e perguntou o que tinha acontecido. Marie, sem parar de chorar, tirou a cabeça do travesseiro, olhou pra mãe e começou a sorrir.
— Nada, mãe; é que tô muito feliz que tanta gente veio.
— Ai, minha vida! Todo mundo te ama muito.
— Eu sei, mãe; por isso que tô feliz.
— E o que esse aqui tá dizendo? — perguntou, acariciando a cabeça do filhote.
— Ele tá se perguntando se você vai deixar ele dormir comigo, na minha cama…
— A gente vê; vamos perguntar pro papai. Me diz, você já deu um nome pra ele?
— Não, ainda não.
— E você já agradeceu o Darrell? Foi ideia dele te dar de presente.
Marie, que até então tinha sorrido pra não chatear a mãe, ficou séria.
— Não, mãe.
— Então devia fazer isso.
— Eu sei… mas…
— Vamos, Marie; ele é seu amigo, e eu sei que ele se deu ao trabalho de fazer isso pra te dar de presente.
A senhora Connell pegou a mão da filha, e sem que ela soltasse o cachorro, levou ela de volta pro jardim.
Logo encontraram o Darrell conversando com o senhor Connell.
— Tô te procurando pela casa toda, querido — disse a senhora Connell pro marido —. Vem; preciso te mostrar uma coisa…
E os dois se afastaram, deixando o casal sozinho.
— Oi, Marie — disse Darrell.
Marie desviou o olhar. Apesar dos anos que se conheciam e da boa relação entre os dois, ela sentiu ele muito distante dela, quase como um estranho.
— Você já deu um nome pra ele? — perguntou Darrell.
— Ainda não.
Sem saber o que mais dizer, os dois ficaram em silêncio por um tempo.
— Como é que tá a festa? — perguntou Darrell, finalmente.
— Bem, acho… Como você tá vendo?
— Tá boa! Veio muita gente. E essa música aí… Soa... é genial.
—É um presente da tia Rose; e bom, da Shelly também, acho. Fox-trot.
—Como?
—É assim que chama: fox-trot.
—Ah; soa muito bom mesmo.
—Ei, Darrell...
—Fala?
—Queria te dizer uma coisa...
Eles se aproximaram de um banco de pedra, na frente de uns roseirais, e sentaram. Marie lembrou das palavras da tia, que a fizeram se sentir mais menina do que realmente era, e se sentiu uma idiota.
—Minha prima Shelly é uma gostosa.
Darrell pareceu ficar desconfortável.
—É verdade; a Shelly é uma gostosa.
—E já é uma mulher... —Marie passou de se sentir idiota a ridícula, e vendo que não tinha coragem de dizer o que pensava, continuou:— Sério, muito obrigada; foi o melhor presente de todos. Me promete uma coisa, Darrell?
—Tô te achando estranha, Marie; aconteceu alguma coisa?
—Só quero que me prometa uma coisa.
—O que você pedir.
—Me promete que sempre vai ser meu amigo, que a gente nunca vai perder a confiança que tem um no outro.
Darrell olhou pra ela meio desconfiado, e antes que ele pudesse responder, Marie deu um beijo na bochecha dele e foi embora.
4. Um pedido desesperado.
Uma noite, enquanto Claudine jantava com o marido, aconteceu o seguinte:
—Roger... —ela disse. Silêncio. Roger mexia a sopa com a colher sem tirar os olhos do prato—. Roger —repetiu Claudine pro marido, com o mesmo tom de voz sofrido—. Você tem que fazer alguma coisa.
Roger não disse nada; levantou da cadeira e foi pro quarto onde a filha dormia. Ajoelhou-se ao lado dela, e quando os olhos se acostumaram com a escuridão, observou-a com cuidado. Quando ela respirava, soltava um assobio rouco que apertava o coração do pai. Ele beijou a bochecha dela e voltou pra cama, pensativo.
No dia seguinte, como toda manhã, Roger foi pro trabalho: uma fábrica onde trabalhava desde pouco antes de conhecer a esposa naquele prédio caindo aos pedaços. Nas primeiras duas horas do expediente, do seu posto, ficou vigiando as idas e vindas. Vindas do supervisor de zona. Numa dessas, Roger largou o posto e foi até ele.
—Com licença, senhor; queria perguntar... bom, queria saber se tão precisando de homem pro turno da noite.
—Não. Volta pro seu posto.
—Mesmo que seja...
—Não tem, Roger; volta pro seu posto.
Desabado com a recusa, se atreveu a pedir uma conversa com o senhor Wallace, dono do negócio e chefe dos cento e quarenta e três trabalhadores que tinha na fábrica, mas ele negou na maior firmeza, sem dar chance de insistir. Conhecia a situação do Roger e sacava as intenções dele, então preferiu não encher o saco do patrão com esses assuntos chatos, porque sabia o quanto irritavam ele.
Lá pela metade da manhã, saindo da rotina, o senhor Wallace largou o escritório pra dar uma volta pelos andares da indústria próspera dele. Não era algo que fizesse sempre, mas de vez em quando pra aparecer pros funcionários e eles lembrarem quem pagava o pão que alimentava os filhos deles.
Se a gente fosse fundo na personalidade do senhor Wallace, ia ver que era um sujeito mesquinho, que a vida sorria sem merecer, que a sorte, o destino, a providência, o capricho de um ser divino, tudo junto ou nada, tinha enriquecido e que a sociedade respeitava.
O senhor Wallace, um homem baixinho, quase sem pescoço, avermelhado, e com uns quilos a mais, passou bem perto do Roger de cabeça erguida e braços cruzados. Roger, quando viu, largou o serviço e foi falar com ele.
—Senhor, preciso falar com o senhor — disse, tentando manter a calma —. Minha filha tá... tá morrendo. Pelo amor de Deus, senhor, se o senhor deixasse... eu podia trabalhar de noite na fábrica. Pelo amor de Deus, senhor, preciso...
O senhor Wallace parou e, sem olhar na cara dele, falou:
—Você quer trabalhar dia e noite? Se for assim, seu rendimento ia ser tão baixo que eu teria que te mandar embora. Continua no Trabalho que ele tem, que não é pouco.
E, virando-lhe as costas, seguiu seu caminho pela fábrica.
Roger ficou ali parado, vendo sua única esperança se afastar de mãos dadas com o senhor Wallace. Segundos depois, voltava desolado para seu posto. Por mais estranho que pareça, não sentia ódio, nem rancor, nem nada de ruim contra o chefe; isso iria contra sua natureza, e, por outro lado, a preocupação que sentia era tão grande que não deixava espaço para outros sentimentos.
O dia não passava nunca. Roger fazia seu trabalho como um robô, alheio a tudo ao seu redor.
Não comeu. Nem sequer saiu do seu posto quando, ao meio-dia, a sirene tocou anunciando a hora do almoço. Ficou ali, com sua dor, transtornado.
Parecia que a sorte mostrava sua face mais amarga e o deixava cair no poço do desespero; mas, como se sabe, não existe poço sem fundo, e naquela mesma tarde, para sua surpresa, o supervisor se aproximou e pediu que o acompanhasse, pois o chefe queria vê-lo. A esperança iluminava pela primeira vez em muito tempo seu caminho.
Roger seguiu o supervisor até a sala do chefe. Depois de bater na porta, entrou. O senhor Wallace, recostado em sua poltrona de couro, atrás de uma grande escrivaninha, ofereceu-lhe um assento. Fumava charuto com solenidade, erguendo a cabeça a cada baforada.
— Sacrifiquei parte da minha vida nesta empresa — disse o senhor Wallace. — Ter o que tenho me custou muito. Não pense que não sei o que é passar fome. Vê este charuto? Sabe quanto custa? Ah, claro que não! Que besteira estou falando! É um H. Upmann, já ouviu falar? Já ouviu, né? Escuta… se eu fosse uma pessoa permissiva, como você está me pedindo que seja, agora não teria nada. Sabe do que estou falando? Agora mesmo não poderia fumar este charuto, nem pagar os caprichos da minha esposa, que não são poucos nem baratos, nem os da minha adorável filha, que não são menos caros que os da minha mulher. Sei o que você passa; o senhor Frost me contou tudo, e não pense que fico indiferente a uma situação como a sua. No fundo, essas coisas me afetam mais do que você imagina. Olha… vou te propor algo: preciso de uma empregada em casa; uma empregada que esteja disposta a… como dizer?… que esteja disposta a tudo. — Roger olhava confuso para o chefe. — Vou ser claro: quero a vida da sua esposa em troca da vida da sua filha. Vou pagar os melhores médicos, bancar os melhores remédios, e tudo isso em troca da sua esposa por um período não superior a três meses.
— A vida da minha esposa? Como assim, senhor? Não… não entendi direito…
— Já vi que não entendeu bem; o que peço em troca da vida da sua filha é o corpo da sua esposa. É bem simples de entender…
— Mas, senhor!…
— Vou bancar o melhor médico de toda a Inglaterra; remédios, e duas enfermeiras que cuidem dia e noite da sua filha. Se existe uma única chance de sua filha se salvar, ela passa por essa solução. Vá pra casa. Tire a tarde de folga. Converse com sua esposa; pensem bem; depois me diga algo quando tiverem tomado uma decisão. Não tenho pressa.
Essas palavras desestabilizaram o estado de espírito de Roger. Havia alguém que estendia a mão, que freava sua queda naquele poço, mas que, para isso, puxava a corda que tinha apertada no pescoço.
Ele saiu do escritório e voltou pra casa, remoendo a proposta do senhor Wallace. Quando chegou, ele e a esposa discutiram o assunto até altas horas. “Mas… o que é ‘tudo’, Roger?” perguntava Claudine, perturbada, sem obter uma resposta clara do marido. Na verdade, ambos tinham suas dúvidas sobre a proposta do senhor Wallace — ela mais do que ele —; mas ambos concordaram que aceitariam.
5. A boa notícia.
Marie mal comia, dormia pouco e passava a maior parte do tempo ausente, com a mente vaga e sonhadora. Às vezes, deixava o tempo passar sentada na banqueta da penteadeira, olhando a rua. Pela janela do quarto dela, brincando com os cachos do cabelo. De vez em quando, acordava do sonho, pegava o cachorro no colo, esfregava a bochecha na dele e, entre suspiros, apertava ele sem pena contra o peito dela.
Na hora da comida, também ficava igualmente ausente. O pai dela, que vinha observando o comportamento estranho da filha há vários dias, começou a ficar preocupado e não parava de perguntar sobre a falta de apetite dela. Marie, com alguns segundos de atraso, sempre respondia: “É por causa do verão, esse calor danado!”.
Um dia, quando Marie se levantou da mesa e foi pro quarto, Howard disse pra esposa:
— Essa menina tá com alguma coisa. Sou o pai dela e percebo.
— Você é o pai e percebe, mas se fosse a mãe como eu, saberia também o que ela tem.
— E o que é que ela tem, posso saber?
— Bom, ela tá apaixonada.
De manhã, quando não tinha aula, Marie descia pro jardim e passava o tempo ali, olhando as borboletas voando entre os lírios, as mimosas e os alecrins que enfeitavam o lugar, com uma melancolia tão profunda que muitas vezes pensava no pouco sentido que a vida teria se não pudesse compartilhá-la com Darrell, e que, se fosse assim, mais valia parar de viver. Às vezes, dizia pra si mesma: “Shelly é mais gostosa do que eu; e além disso, Darrell ainda me vê como uma garotinha”, e depois se recriminava: “Você foi uma idiota por pensar que um dia poderia…”, acreditando que, pensando daquele jeito pessimista, enterraria todas as ilusões que tinha tido até então e, portanto, a dor desapareceria.
Mas a verdade, que ela desconhecia, era que Darrell tinha um encontro com Shelly sem querer ter, e sim querendo ter com Marie, mesmo sendo esta última menos bonita que a primeira. Darrell via em Marie a ternura, a bondade e a inocência; em Shelly, via tudo ao contrário, o que o irritava pra caralho.
Uma noite, dois dias antes do encontro com Shelly, Darrell entrou no escritório de —Aquela garota… Shelly, não acham ela meio estranha?
Sem tirar os olhos dos papéis que tinha sobre a mesa, mexendo-os de um lado para o outro, o pai de Darrell respondeu:
—Estranha?
—Sim. Quero dizer que… sei lá, ela não é como as outras garotas.
—Ahã; e daí?
—É que ela me incomoda. Não quero sair com ela.
Ainda remexendo os papéis:
—Fala com sua mãe; foi ela quem combinou tudo com a mãe daquela garota… como é o nome dela? Isso, Shelly; mas se você não quer sair com ela, não precisa. Cancela o encontro mandando suas desculpas com um buquê de flores e pronto. Mas, filho, não vejo que mal um encontro com ela pode te fazer.
—Eu sei, pai, mas é que… tem algo a mais.
—Ahã…
—Queria pedir permissão aos pais de outra garota para sair com ela.
—Então vai em frente, filho. Confio que…
—É sobre os Connell — interrompeu Darrell o pai, que de repente parou de mexer nos papéis para fixar o olhar no filho.
—Os Connell? Você está falando da pequena Marie?
—Sim, pai.
—Isso é… isso é fantástico! — O pai de Darrell levantou da cadeira e se aproximou do filho. — Os Connell são uma família excepcional, e a Marie parece ser uma garota excelente. Acho uma decisão acertadíssima. Fico muito feliz mesmo, filho.
Ambos, satisfeitos, se abraçaram.
6. O acordo.
Dois dias depois, já de noite, Elisabeth e Joseph — os senhores Wallace — presidiam a mesa no amplo jantar de sua casa. Seus dois convidados, Roger e sua esposa, sentados um de frente para o outro, mal levantavam a cabeça do prato, enquanto Emily, filha dos Wallace, jantava sentada ao lado do pai.
Pouco se falou durante o jantar; qualquer tentativa de conversa morria no começo. A tensão de Roger e sua esposa, por mais que tentassem disfarçar, foi notória desde que chegaram na casa.
Finalmente, enquanto um dos mordomos servia a sobremesa, o senhor Wallace abordou o assunto que os havia levado a se reunir:
—Relaxem; pensem na filha de vocês. Se preparem pra ideia de que logo mais vão estar curtindo a felicidade dela.
Roger levantou o olhar do prato e encarou a esposa. No olhar dele dava pra ver a preocupação; no dela, a incerteza de quem sente o perigo chegando mas não saca a real gravidade da parada.
Virando-se pro senhor Wallace, Roger respondeu:
—Sim, senhor, mas não temos certeza se isso é…
—Besteira! —interrompeu o senhor Wallace, erguendo a voz—, não precisa se preocupar com nada; vou trazer o melhor médico do país. Não sei se devia falar isso… não gosto de me adiantar… mas enfim: ontem conversei com o doutor Herbert Khol; caso não saibam, o doutor Khol é um dos médicos mais renomados de toda a Europa. Perguntei se ele, como um favor pessoal, claro, poderia cuidar do caso da filha de vocês, e tenho que informar que ele topou de bom grado; mais que isso: se mostrou bem otimista e interessado.
—Mas senhor, o que o senhor nos pede em troca é…
—Um sacrifício pequeno, querido amigo, nada mais que isso: um sacrifício pequeno. Ou vocês têm algo melhor pra oferecer?
Roger ficou em silêncio. O senhor Wallace continuou:
—A vida da filha de vocês está nas mãos de vocês. Vocês decidem.
—Tá bem —disse Claudine—. Aceito. Não sei direito o que querem de mim, mas aceito.
—Chega de besteira e mistério —interrompeu a senhora Wallace, com desdém—. Queremos você, querida, queremos uma escrava. Sua vida em troca da vida da sua filha. Se aceitar, fica; se não, Eugene leva vocês de volta pra casa.
Claudine olhou pra cada um deles, apavorada, e reafirmou a decisão:
—Aceito, senhora.
—Bem, querida; vamos ver isso.
Toda essa cena, amparada pela maldita circunstância que a necessidade traz, era acompanhada com atenção pelos dois mordomos que serviam na casa, ambos de pé junto à porta de entrada. O salão de jantar. Um se chamava Eugene; o outro, Fabian. O primeiro era um homem de meia-idade, meio robusto, de traços suaves e atraentes, com uma daquelas caras que transmitem calma e inspiram confiança. O segundo, diferente do primeiro, era um homem magro, de rosto estreito, olhos fundos, feio que nem um lagarto, cuja expressão séria e sombria era o reflexo fiel da sua alma.
A senhora Wallace fez um gesto com a cabeça para Eugene, que, vendo o sinal da patroa, se posicionou atrás de Claudine, segurou seu braço e a obrigou a se levantar. Claudine olhou para o marido, e ele, sem conseguir sustentar o olhar, baixou a cabeça. A situação parecia tão absurda que ela chegou a pensar que nada daquilo estava realmente acontecendo.
— Abaixa o vestido dela até a cintura — ordenou a senhora Wallace.
Claudine cruzou os braços na altura do peito.
— Assim não vai dar certo — disse a senhora Wallace —. Melhor vocês voltarem pra casa e deixarem a menina nas mãos de Deus. É menos confiável que um médico, mas bem mais barato.
Claudine deixou os braços caírem. Eugene olhou para a senhora Wallace e, vendo que ela concordava com a cabeça, desatou o laço que fechava o vestido da jovem mãe e o abaixou até a cintura.
— O sutiã; tira também.
O mordomo desabotoou a peça e a removeu. Não houve resistência, mas Claudine teve que fazer um esforço enorme para não cobrir os peitos com os braços. Era tanta vergonha e humilhação que ela sentia, que desejou morrer. Enquanto isso, o marido a olhava de vez em quando, dividido entre a curiosidade mórbida, pela qual se sentiria culpado pelo resto da vida, e a dor que aquilo lhe causava.
Emily, enquanto isso, tinha deixado os talheres sobre a mesa e alternava o olhar entre Claudine e o marido, se deliciando como nenhum dos presentes jamais conseguiria com o horror e o sofrimento estampados nos rostos deles.
— Amarra ela — ordenou Elisabeth. Eugene amarrou as mãos dela nas costas com uma corda que tirou do bolso, dando várias voltas nos pulsos, sem apertar demais, e se afastou.
Todos, especialmente Elisabeth, apreciaram a beleza dos peitos dela, brancos como a porra, e a extrema magreza da barriga, fruto de má alimentação. As costelas estavam suavemente marcadas na pele. Isso era bem pouco atraente, mas não aos olhos dos Wallace, que viam com prazer e regozijo os estragos da miséria e da desgraça.
— Fabián — disse a senhora Wallace —. Aproxime-se.
O outro mordomo, o que tinha um aspecto mais terrível, se colocou atrás de Claudine.
— Toque ela — continuou a senhora Wallace.
Fabián a envolveu com os braços e agarrou os peitos dela, beliscando os mamilos, que eram pequenos e rosados.
— Mais forte.
Claudine fechou os olhos e contraiu o rosto de dor.
— Mais.
A dor, essa estranha e incômoda percepção da qual quase todo ser humano foge, se tornou mais insuportável.
— Já chega — disse a senhora Wallace —. Levante o vestido dela até a cintura e abaixe a calcinha até os joelhos para que possamos vê-la de corpo inteiro.
Roger, que até então observava a cena de modo furtivo, mantendo uma luta interna para se controlar e não parar aquela aberração, desviou definitivamente o olhar para a janela, vencido pela dor.
— Eugene — disse a senhora Wallace, se dirigindo ao mordomo —, nosso convidado deseja ir embora. Leve ele para casa.
Por um lado, Claudine desejou com todas as forças que o marido não presenciasse tamanha humilhação lamentável, mas, por outro, ficar sozinha a aterrorizava.
Com as mãos amarradas nas costas, o vestido amassado na cintura como o fole de uma sanfona, e a calcinha enrolada na altura dos joelhos, Claudine viu o marido se afastar.
— Roger, por favor… — conseguiu dizer, quase sem fôlego.
Antes que ele saísse da sala de jantar, no instante exato em que Fabián dobrava o O corpo de Claudine sobre a mesa, Roger se virou para contemplar pela última vez sua esposa, e a imagem que viu causou tamanho impacto nele que assim a lembraria por muito tempo. E não era só aquela imagem que o torturaria, pois pouco depois, enquanto atravessava o jardim em direção à rua, ouviu algo que o paralisou e que também lembraria durante todo aquele tempo e muito mais, se é que algum dia chegou a esquecer.
6. Um grito vale mais que uma imagem.
Enquanto Roger saía de casa, Claudine se convencia de que algo aconteceria naquele exato instante que a salvaria de toda aquela depravação; mas conforme o tempo passava e, principalmente, viu que o sorriso da senhora Wallace ganhava um ar malicioso, suas esperanças foram se derretendo como um pedaço de gelo na palma da mão. Só quando, por debaixo de suas pernas nuas, viu Fabián baixar as calças e sentiu o roçar do pau dele na entrada da sua buceta, disse a si mesma: "Ai, meu Deus! O que ele vai fazer comigo?". A resposta, se alguém tivesse ouvido sua pergunta e respondido com sinceridade, teria sido que iam estuprá-la.
Nada podia parar o que estava prestes a acontecer. O mordomo segurou-a pelos quadris e se jogou sobre ela. Claudine, que sentiu o corpo se abrir de uma vez, não conseguiu segurar um grito que ecoou além dos limites da propriedade dos Wallace e que, como já foi dito, seu marido ouviu enquanto se afastava pelo jardim.
Superado o primeiro obstáculo, Fabián começou a se mover, encontrando um imenso prazer na resistência que a secura do canal forçado oferecia.
Claudine começou então a chorar, e pouco depois a implorar que ele parasse. Mas Fabián, longe de parar, acelerou o ritmo e, para maior tortura da vítima, levantou-lhe a cabeça pelo cabelo, para que todos pudessem contemplar o sofrimento em seu rosto.
A serenidade de quem curtia aquela cena era Tremenda. Olhavam para ela com atenção, mas com uma passividade assustadora, como quem olha o cardápio de um bom restaurante.
Fabián endureceu as estocadas; tanto que, quando o corpo da jovem ficou banhado pelo fluido daquele desconhecido, a coitada sentiu que a qualquer momento ia desmaiar.
A senhora Wallace levantou da cadeira, se aproximou dela e, agarrando-a pelo cabelo, a separou da mesa. As pernas de Claudine tremiam e sua buceta doía.
—Fica de joelhos.
Claudine, com a ajuda de Fabián, que estava ao lado dela com o pau manchado de porra, se ajoelhou.
—Abre a boca e não ouse fechar.
Dito isso, a mão dela foi bater com violência na bochecha de Claudine, que fechou a boca com o impacto. Em seguida, levou outro tapa na mesma bochecha, com a mesma força que o anterior.
—Eu disse para não fechar a boca! —gritou a senhora Wallace.
Claudine começou a chorar de novo, resistindo em obedecer. Ainda parecia impossível estar vivendo tudo aquilo, que realmente estivesse acontecendo com ela. A senhora Wallace levantou o braço com um gesto implacável e severo; só então ela obedeceu. A senhora Wallace aproximou a boca da de Claudine, parou bem perto e cuspiu dentro dela. A saliva escorreu por dentro, o que provocou nela um nojo profundo, uma sensação desagradável de repulsa. A senhora Wallace se afastou para que Fabián pudesse enfiar na boca dela o pau manchado. Claudine, sentindo a boca também ultrajada, fechou os olhos com força e deixou que a violentassem também por ali sem oferecer resistência.
Enquanto o pau entrava e saía, o mesmo pau que tinha aberto sua carne, a senhora Wallace começou a andar pela sala com passo lento mas firme, de braços cruzados e semblante sério. Depois continuou falando com um tom de voz que cortava o ar:
—Sua vida não vale nem uma décima parte do Dinheiro que vocês vão receber. Por mais que você sofra, e por mais doloroso e degradante que seja o que você vai viver nesta casa e fora dela, você deve se mostrar grata. Não sabe como? Não se preocupe; eu vou te ensinar, não só a mostrar, mas a ser grata. Também vou te ensinar muitas outras coisas que, para o seu bem, é melhor você lembrar. Nada do que você sente ou pensa importa mais. Sua vida agora não vale nada. De um jeito ou de outro, você será submetida à minha vontade e à da minha família, seja na base do amor ou na base da dor. Três meses; depois você será livre. Lembre-se disto: qualquer pessoa pode usar seu corpo, a menos que eu não queira, e você nunca vai dizer não aos pedidos das pessoas com quem lidar, seja dentro desta casa, seja fora dela. Faça as coisas errado, e você será duramente castigada. Continue fazendo as coisas errado, e você será entregue a Lord Keyworth.
— Se ela não sabe quem é Lord Keyworth, mamãe — interveio a pequena Emily. — Se soubesse, não teria ficado.
— Cala a boca, Emily. E você, Fabian, já chega; deixa ela respirar.
Fabian tirou o pau da boca de Claudine, soltou as mãos dela e a ajudou a sentar na cadeira.
Encolhida, apertando as mãos entre as pernas e escondendo a buceta recém-profana e dolorida, Claudine não parava de chorar. O corpo inteiro tremia. A senhora Wallace envolveu a cabeça dela com os braços e a apertou com doçura contra a barriga.
— Vamos, se acalma; aos poucos você vai se acostumar — disse enquanto acariciava o cabelo dela. — Tudo vai ficar bem se você se comportar direito. A pior coisa que você pode fazer é pensar; quanto menos pensar, menos vai sofrer. Obedeça e faça as coisas certas; você vai evitar um monte de problemas.
Depois de um tempo, quando Claudine parou de chorar, a senhora Wallace a afastou. Ela estava com uma coleira de couro preto com várias argolas, e de uma delas pendia um pequeno guizo prateado. Depois tirou do bolso mais umas tiras de couro preto também, com guizos. todas elas, embora um pouco menores que a primeira.
Enquanto colocava o colar no pescoço dela, pediu que Emily colocasse o resto das pulseiras pelo corpo, o que ela fez nos pulsos e tornozelos. Depois Eugene a cobriu com uma capa verde.
— Durante sua estadia, você vai usar elas o tempo todo — disse a Sra. Wallace, se referindo às tiras. — Não vai tirar por nada. O barulho dos guizos vai avisar a gente da sua presença, onde quer que você esteja. — A Sra. Wallace começou a passar a mão nos peitos de Claudine. — A partir de hoje, você não se chama mais Claudine; agora você é Guizo.
— Elisabeth — interrompeu o marido —; não se apegue a ela; ela só vai ficar três meses com a gente.
A Sra. Wallace olhou pra ele com dureza, algo que o marido interpretou como uma bronca por ter comprado uma mulher tão gostosa e sofrida por um período tão curto.
— Emily — disse a Sra. Wallace, se virando pra filha. — Leva ela esta noite. É sua. Divirta-se com ela, mas sem machucar; nada de porrada nem sodomia. Usa a boca dela pro que quiser, e se ela não obedecer, me avisa.
Claudine tremeu, e o tilintar dos guizos, que não parou desde que foram colocados nela, ficou mais alto em toda a sala.
8. Uma noite perfeita.
Uns dias depois de Darrell anunciar a intenção de pedir permissão aos Conell pra sair com Marie, e antes de colocar em prática, os pais dele marcaram um jantar com os pais dela no Rules, um restaurante chique da cidade, no bairro de Covent Garden. Aproveitando a confiança e a grande amizade entre os dois casais, o Sr. Tillman revelou entre um copo e outro de vinho a intenção do filho. Todos ficaram empolgados com a ideia, e brindaram por ela.
Depois do jantar, foram ao Royal Princess’s Theatre, na número 73 da Oxford Street, ver uma peça muito popular da época: The Fatal Wedding.
De volta pra casa, o Chevrolet no que viajavam quebrou entre os bairros de Holborn e Clerckenwell, lugar que anunciava sua hostilidade com a falta de luz.
Howard desceu do carro coçando a barba.
— Howard, querido — disse a senhora Conell —, vamos voltar andando até o teatro; lá a gente encontra um táxi.
Uma mulher da rua, também chamada de pública ou de vida alegre, que Howard, por carregar debaixo do braço um ramo de rosas bem murchas, confundiu com uma florista ambulante, parou para contemplar a cena.
— Vamos, Howard — insistiu a esposa —; vamos embora daqui.
Naquele momento, se desprendendo da neblina suave que a envolvia, a jovem prostituta se aproximou.
— Quer uma rosa, senhor?
— Uma rosa pode me levar pra casa?
— Acho que não, mas se comprar o ramo inteiro, talvez sim...
Howard contemplou a garota. Era linda aos olhos de um cego, cujas mãos seriam incapazes de enxergar a sujeira do pescoço dela, as manchas lívidas no rosto e o desejo escuro do inalcançável no olhar. Era aquela figura desengonçada uma alma que tinha renunciado ao corpo e um corpo que tinha esquecido a existência da alma. Tinha a voz doce, quase quente, a boca bonita e os dentes, na maioria, podres.
— Posso levar vocês na casa de um cocheiro — continuou a jovem —. Mora perto daqui.
— Quanto você quer pelo ramo?
— 50 pence.
— São seus; nos leva.
A senhora Connell se aproximou do marido e agarrou o braço dele. Seguiram a jovem por uma rua estreita e cheia de poças que bem poderiam ser de mijo, o que explicaria o fedor forte que pairava no ar.
A jovem parou ao lado de uma fachada de triste aparência de tijolos, como a de uma fábrica em ruínas, figura reta, com três janelas nuas, uma delas, a que ficava na parte triangular do telhado, ovalada, e uma velha porta de madeira sem fechadura.
— Me dá mais alguns pence, senhor? Ajuda a acordar aquele vagabundo.
Howard revirou nos bolsos. Num deles encontrou umas moedas que deu na hora pra garota. Ela, de costas pra porta, contou uma por uma com o dedo e guardou no bolso da saia. Satisfeita com a quantia, sorriu pro Howard e, enquanto fazia uma reverência elegante pro casal, empurrou a porta devagar com a sola do pé, de costas pra ela, e sumiu num piscar de olhos.
O casal esperou em silêncio na frente da porta. Cinco minutos, dez, quinze... Depois desse tempo, Helen disse: "Howard: ela não vai querer nos levar, ou pode ser que aquela garota nos enganou". Howard se arriscou a empurrar a porta, esperando entrar numa casa, e não encontrou nada além de um beco comprido e estreito, formado por duas paredes de tijolo, cheio de curvas, portas e entradas pra outros becos.
— Aquela sem-vergonha nos roubou! — rosnou o senhor Connell, indignado.
— Não se estressa, amor. Vamos voltar pro teatro. A gente acha um táxi que nos leve. Esse lugar não me agrada. Vamos embora, por favor.
Então, eles pegaram o caminho de volta; um caminho silencioso entre poças d'água e latas de lixo. Só de longe se ouvia um barulho parecido com choro, mas que na verdade era o miado de uma gata no cio.
O casal passava pela rua mais escura e estreita de todas por onde tinham andado com a prostituta, quando uma figura, vinda de não sei onde, se aproximou por trás.
Howard sentiu de repente a presença dela e parou. A esposa, que segurava firme o braço dele, virou-se pra ele.
— Vamos, amor... — disse a senhora Howard no exato instante em que um braço envolvia o pescoço do marido e a lâmina de uma faca o degolava.
A senhora Howard não acreditou no que os olhos mostravam. Levou as mãos à boca, deu uns passos pra trás e começou a tremer, apavorada. Não pensou em gritar, porque a mente dela tinha travado de choque, e pelo mesmo motivo também não pensou em fugir. Um momento depois, vendo o sangue jorrando do pescoço do marido já sem vida, ela desmaiou.
De repente acordou. Recobrou a consciência deitada de bruços no chão frio de algum lugar desconhecido. Era um lugar escuro e apertado, com cheiro de mofo. Tentou se virar, mas um peso enorme colocado nas suas costas, mais ou menos na altura do cóccix, impedia. Tentou pedir socorro, mas um lenço enfiado na boca e preso com uma corda não deixava. Tentou virar a cabeça, e não encontrando nenhum obstáculo que atrapalhasse, fez isso, indo se deparar cara a cara com o rosto do marido, que tinha os olhos abertos, o olhar vazio e a boca sem fôlego. A senhora Connell fechou os olhos com força e virou a cabeça de novo.
Aquela sombra surgida do nada tinha arrastado eles da rua para dentro de um portão e os escondido no vão da escada. Tinha amordaçado a mulher com um lenço sujo e puído, e como ela tinha parecido uma mulher gostosa, elegante e bem perfumada, ele tinha se sentado em cima dela pra se divertir um pouco. Naquele momento a senhora Connell acordava e via o marido.
— Não se mexe, puta — disse uma voz estragada pelo álcool.
A mão fria daquele assassino levantou a saia dela até a cintura. Depois se deitou sobre a vítima e ela começou a se contorcer como um peixe no convés de um navio. Viu o peixe na frente dele uma faca, a mesma que tinha tirado a vida do marido, e indo encontrar o pescoço dela, ouviu a voz que dizia:
— Se você se mexer, te faço um cachecol, entendeu, puta?
A senhora Connell parou. Não podia fazer nada. A vida dela estava nas mãos daquele lixo da natureza, e sabia que não cumprir o que ele dizia era encurtar o caminho que a separava da morte. Devia fazer tudo que ele pedisse, pensou, não por ela, nem pela vida dela, mas pela filha, porque deixá-la sozinha neste mundo de miséria e desgraça a apavorava mais que a própria morte.
A faca parou de pressionar a garganta dela pra ir Cortou a calcinha dela. De um puxão, a peça se soltou do corpo dela e foi parar no chão.
Ela tentou implorar por clemência. Nessa hora, o homem já estava pronto pra sujar o corpo dela, e com a mesma firmeza que tinha usado pra cortar o pescoço do marido, enfiou a pica no buraco mais apertado que ele podia usar.
A senhora Connell, sentindo a mesma dor como se tivesse levado uma facada, tensionou os músculos do corpo e mordeu o lenço.
Cinco minutos depois, o selvagem sentiu vontade de gozar, e puxando o cabelo da vítima com uma mão e tapando o nariz dela com a outra, acelerou as estocadas. A mãe de Marie, sem conseguir respirar, começou a se debater de um lado pro outro em desespero. Essa resistência irritou o homem, então ele puxou o cabelo com mais força e endureceu os movimentos. Segundos depois, o homem viu a excitação saciada no exato instante em que a vítima desabava no chão, já sem vida.
O lixo sumiu da cena e voltou depois de um tempo com um carrinho de mão. Revistou a bolsa da mulher, tirou um dinheirinho, e arrancou do pescoço dela um pingente de ouro com o desenho de um pássaro toh, de plumagem bonita com tons azuis, verdes e canela. Depois, carregou o corpo no carrinho, cobriu com um cobertor e foi pro cais do Tâmisa, onde, depois de se certificar de que ninguém tava vendo, jogou o corpo semidespido. Voltou pro portão, revistou o marido, de quem tirou ainda mais dinheiro, carregou ele no carrinho e levou pra um ponto do rio não muito longe de onde tinha jogado a esposa, e lá, sem mais, jogou o marido também. Depois, com toda a grana no bolso, foi pra taverna. Lá, pra justificar o sangue na roupa, contou que um cachorro tinha atacado ele, e que pra se defender, tinha atravessado o bicho com uma faca. Bebeu até ficar bêbado, cantando músicas com o resto dos beberrões que ele tinha convidado, e de Voltando pra casa, pouco antes de chegar, perdeu o equilíbrio, caiu no chão, deu o último gole na garrafa de uísque “The Macallan” e apagou.
1. Clerkenwell
O bairro de Clerkenwell foi, no começo do século passado, um dos mais pobres de Londres. A doença e a miséria apareciam em cada esquina, e não havia pessoa que não tivesse um doente na família ou conhecesse alguém que estivesse. Naqueles tempos de fome e aperto, os choros e lamentos viraram a música de fundo de um cenário escurecido pela sombra da morte. Era fácil encontrar pelas ruas do bairro um grupo de pessoas carregando nos ombros um caixão com os restos mortais de algum parente, que era, geralmente, criança ou velho. Quem passasse com certa frequência pelo bairro teria visto uma cena parecida quase todo santo dia; foi por isso que, de tanto ver, muitos ficaram insensíveis a ela.
De noite se ouvia o choro de uma criança; na manhã seguinte, o mesmo choro era substituído por outro: o choro de uma mãe que percorria as ruas com o rosto pálido e os olhos inchados.
Tem gente que, sem merecer, consegue enganar a morte. Outras, porém, têm menos sorte e nem veem ela chegar. Ela se instala em casa, num canto escuro, onde espera em silêncio a hora marcada para sair ao encontro do moribundo.
Na fachada da igreja, junto a uma das pilastras que ladeiam o portão de entrada, o padre pendurou um cartaz cujas letras rezavam a seguinte oração:
"Se com tua boca confessas
a Jesus como Senhor,
e com teu coração crês
que Deus o ressuscitou,
alcançarás a salvação."
O coração de Claudine se apertava toda vez que passava por ali com os remédios vagabundos que o médico dava pra filha dela. "Eu creio, Senhor, eu creio; mas salva ela, por favor, eu te imploro, salva ela", dizia pra si mesma, como se no fundo da alma as súplicas dela fossem ser atendidas. No entanto, apesar de todos os seus pedidos e choros, a menina, que com apenas seis anos se agarrava à vida com todas as suas forças, parecia definhar dia após dia. Claudine vigiava ela noite e dia, esperando como um raio de luz divina um pequeno sinal de melhora que despertasse suas esperanças e afrouxasse a angústia que apertava seu peito. Ao longo de todos esses dias, a jovem mãe perdeu muito peso, e com isso, parte da beleza que tinha não muito tempo atrás. Claudine, que sempre andava pela rua com um sorriso no rosto, cumprimentando amigavelmente todos os vizinhos, agora caminhava encurvada, arrastando o olhar pelo chão e com a boca entreaberta. 2. Claudine A vida de Claudine sempre foi uma mancha borrada na obra do Senhor. Passou a maior parte da infância num orfanato nos arredores de Londres. Lá aprendeu duas coisas muito importantes; duas coisas que, sem ela saber, seriam de grande utilidade ao longo da vida: uma, costurar, e a outra, levar porrada. Essas porradas, dadas na maioria das vezes de maneira injusta pelas freiras responsáveis pelo orfanato, fizeram de Claudine uma menina medrosa e retraída, uma menina silenciosa, fechada em si mesma, que parecia viver num mundo alheio ao que existia dentro daquelas paredes. Ela se relacionava muito pouco com as colegas, e em todo o tempo que ficou no orfanato não teve outra amizade além da de um vira-lata faminto que todo dia, na mesma hora da manhã, entrava no jardim para receber um pouco de comida, sobras que Claudine juntava do prato e guardava especialmente pra ele. Um certo dia foi descoberta por uma das freiras dando comida ao vira-lata. Como castigo, levou 25 chibatadas na palma das mãos e ficou sem almoço e sem janta. No dia seguinte de manhã não teve nada pra levar pro amigo, e se limitou a acariciar a cabeça dele. No mesmo dia, na hora do almoço, guardou ração dobrada pra compensar no dia seguinte. Era o coração de Claudine o mais nobre de todos que havia no orfanato. Se Deus tivesse reparado Naquele lugar, ela teria descoberto entre suas servas a melhor de suas representantes.
A coitada, já que não conhecia outro modo de vida senão aquele, via tudo o que lhe acontecia como algo normal, e todo dia, quando rezava, agradecia pela sorte que as freiras a faziam acreditar que tinha.
Quando fez dezesseis anos, coincidindo com uma chegada em massa de crianças ao orfanato, arranjaram-lhe trabalho numa oficina de costura e um teto pra dormir.
No centro de Londres, não muito longe do bairro de Clerkenwell, existia um velho e imundo prédio chamado "Atalaia", batizado assim por sua altura. Seus donos, o senhor e a senhora Pikets, alugavam os cômodos por um preço baixo, pois estes, devido ao tempo e à pouca manutenção que recebiam, estavam em condições deploráveis. Tais condições atraíram todo tipo e espécie de gente, vindas em sua maioria das camadas mais baixas da sociedade. Entre elas, Claudine, que, pela metade do salário, foi ocupar um dos três quartos que formavam o sótão.
Embora bem pequeno, com o teto inclinado, feito de tábuas de madeira, e as paredes em péssimo estado, era equipado com cama, mesa, duas cadeiras, um armário, fogão a lenha e uma janelinha oval que dava uma vista privilegiada da parte baixa da cidade. Era um cenário úmido e cinzento, que intimidava Claudine.
O sonho dela, desde bem novinha, era ter uma casa e formar uma família. Aquele quarto era, nos seus 16 anos de vida, o que mais se aproximava do seu ideal de vida.
Poucos dias depois de chegar, usando o pouco dinheiro que tinham adiantado no trabalho, decidiu dar um pouco de calor ao quarto, algo que o deixasse mais aconchegante. Um dia, ao sair do trabalho, comprou um quadro no mercado. Ao chegar em casa, deitou na cama e visualizou o quadro pendurado na parede que tinha na frente. Era uma parede pequena, cortada em Diagonal pelo teto, com uma pequena clareira que deixava os tijolos à mostra. Ela achou uma boa ideia tapar aquele defeito com o quadro, e assim tirar o dobro de proveito do seu investimento.
Lembrou de ter visto, dois andares abaixo, atravessando o papel velho que revestia a parede do corredor, um prego bem enferrujado.
Desceu para pegá-lo e, assim que o localizou, começou a puxar. Vendo que não adiantava nada, parou por um instante, esfregou a ponta dos dedos no vestido e tentou de novo, dessa vez com as mãos. Nem usando toda a força conseguiu mexer o prego. Ela se dedicou tanto àquela pequena tarefa que nem percebeu que alguém, bem atrás dela, a observava com curiosidade. Do esforço, Claudine começava a suar. Dando por impossível sua missão, e irritada por ver seu projeto decorativo adiado, soltou o prego e, ao se virar, soltou uma palavra feia que aprendera no orfanato, uma expressão vulgar e indecente, imprópria para uma moça da sua idade. Foi nesse instante que descobriu um jovem atrás dela. Era um jovem bonito, de cabelo castanho e rosto sereno. Claudine tapou a boca, envergonhada pelo que acabara de dizer, e ficou vermelha.
— Quer ajuda? — perguntou o jovem.
Claudine balançou a cabeça que sim. O jovem se aproximou do prego, agarrou com força, balançou de um lado para o outro e depois puxou. Não sem esforço, o prego saiu.
— Aqui está.
— Obrigada — disse Claudine, pegando o prego.
Eles sorriram um para o outro e o jovem seguiu seu caminho. Enquanto descia a escada, Claudine se inclinou na grade e disse:
— Espera…
O jovem parou e olhou para cima.
— Qual é o seu nome? — perguntou Claudine.
— Roger; me chamo Roger.
— Eu me chamo Claudine.
— Prazer, Claudine — disse Roger, sorrindo —. A gente se vê logo…
E o jovem seguiu seu caminho.
No dia seguinte, enquanto Claudine voltava do trabalho, foi observando as pedras que encontrava pelo Caminho. Procurava uma que fosse firme e, se possível, tivesse alguma borda lisa. Encontrou uma pouco antes de chegar ao prédio. Escondeu debaixo da roupa e subiu pro quarto. Pegou o prego, que tava guardado numa gaveta, a mesma onde guardava os pratos e talheres, apoiou na parede, bem na parte descascada, e bateu com a pedra. O prego afundou no gesso até chegar no tijolo, mas não era o suficiente pra aguentar o peso do quadro. Claudine partiu pra cima do prego com força; mas usou tanta que, por causa do estado ruim da parede, um pedaço se soltou e caiu no chão do quarto vizinho. Um buraco do tamanho da pedra que Claudine tinha na mão se abriu na parede.
Assustada, largou a pedra no chão e espiou pelo buraco. Não viu ninguém no quarto. Nas poucas semanas que a moça tava morando ali, ainda não tinha esbarrado com o vizinho; mas sabia que ele existia, porque toda tarde, pouco antes de escurecer, ouvia o portão batendo quando ele entrava.
Por um tempo, Claudine ficou pensando nas várias consequências do acidente. A primeira, a que mais preocupava, era ser expulsa do apartamento; e a outra, menos grave que a primeira, a raiva do vizinho.
Angustiada com esses pensamentos, se deitou na cama, esperando o vizinho. Depois de um tempo, achou melhor esperar ele lá fora, no hall onde davam os três quartos e a escada terminava, pra contar o que aconteceu antes que ele visse.
Claudine sentou no chão e esperou. Já tava quase dormindo quando ouviu uns passos. Levantou rápido ao distinguir a figura de um homem, e sentiu um baita alívio ao reconhecer o jovem que tinha ajudado ela a tirar o prego da parede. Roger ergueu a cabeça e viu Claudine, que de cima olhava pra ele e sorria. Antes que o jovem tivesse tempo de cumprimentar, Claudine disse:
— Você mora aí, né? Chegou na altura da Claudine.
— Se eu moro aí? — disse Roger, apontando pra porta que ficava entre as outras duas.
— Aham — disse Claudine, balançando a cabeça.
— Não. Eu moro naquela ali.
Claudine sentou de novo no chão, tapou o rosto com as mãos e começou a chorar. Roger se abaixou, surpreso com aquela reação repentina, apoiou a mão no ombro de Claudine e perguntou:
— O que foi?
Entre soluços, com a voz embargada, Claudine respondeu:
— Vão me botar pra fora.
— De onde?
— Daqui.
— Da sua casa? Não consegue pagar?
Claudine enxugou as lágrimas na manga do vestido, pegou Roger pela mão e levou ele pra dentro do quarto dela.
— É por isso — disse Claudine, apontando pro buraco na parede. — Assim que o senhor Pikets souber, vai fazer um escândalo; vai me expulsar, tenho certeza, e não tenho pra onde ir. Não sei o que fazer. Só me resta confiar no nosso vizinho, que ele não conte nada e me ajude a esconder a cagada até eu ter grana pra consertar.
Roger olhava pro buraco, pensativo.
— O Butler é um velho rabugento que vive puto com todo mundo. Butler é nosso vizinho.
— E o que eu vou fazer, então? Quando esse velho chegar e descobrir o buraco…
— E acho que não demora; ele costuma chegar nessa hora.
Claudine sentou na cama, cabisbaixa, e suspirou.
Roger, enquanto isso, pegou a pedra do chão e bateu na parede. Claudine, ao ouvir o barulho, deu um pulo.
— Mas…! O que cê tá fazendo?
Roger olhou pra Claudine e, enquanto tomava impulso pra bater de novo na parede, disse:
— Um buraco maior.
E bateu na parede de novo. Pedaços de tijolo caíram do outro lado da divisória.
Claudine ficou completamente paralisada.
— Você passa por aqui? — perguntou Roger depois de várias batidas. — Temos que ir rápido. O velho Butler não vai demorar pra chegar. É preciso que você passe pro outro quarto e jogue os entulhos pra cá.
— Pra que fazer isso, Roger?
— Confia em mim. Vamos, eu te ajudo a passar. Claudine enfiou os braços e a cabeça pelo buraco e, com a ajuda do amigo, foi passando para o outro lado.
Durante essa operação, Roger fez de tudo pra não tocar em nada além da cintura da moça e, além disso, pra que a saia do vestido dela não levantasse, porque acima de tudo, por mais extrema que fosse a situação, ele não queria faltar com o respeito.
Na queda, Claudine bateu a testa nos escombros e fez um arranhão.
— Tá bem? — perguntou Roger.
A moça se levantou do chão. Tinha um pouco de sangue na testa, mas estava tão nervosa que nem percebeu o machucado. Ela balançou a cabeça que sim e, sem perder um segundo, começou a catar os escombros.
Roger, enquanto isso, arrastou a cama até a parede, deixando a cabeceira bem perto do buraco, e pediu pra Claudine passar primeiro os pedaços maiores e deixar os menores por último. Cada resto de parede que Claudine entregava, Roger ia colocando em cima da cama.
De vez em quando, Roger espiava pela porta e ficava de ouvido atento pra ver se o senhor Butler chegava.
Claudine tava passando os últimos restos do desastre quando Roger achou que ouviu uns passos. Pensou que podia ser qualquer outro vizinho, mas que não valia a pena arriscar.
— Deixa pra lá, Claudine. Vamos, vou te ajudar a passar.
Roger pegou as mãos de Claudine, que já tinha enfiado os braços e a cabeça pelo buraco, e puxou ela até trazê-la de volta.
— Temos que ser rápidos. Mexe a cama e coloca ela debaixo do buraco.
Roger se aproximou do móvel que ficava perto do fogão, abriu a gaveta e tirou de lá um pano cor de terra e uma faca que parecia estar afiada. Claudine terminou de mexer a cama e se virou bem na hora em que Roger fechava os olhos, pegava com o punho a lâmina da faca e, com um movimento rápido, a puxava. Claudine tapou a boca com a mão e abafou um grito.
Roger, sem prestar atenção em Claudine, limpou com o pano o sangue da faca e, depois, com o mesmo pano, se tampou o ferimento na mão dela.
—É melhor eu falar, tá? A partir de agora, não diz nada.
Ele se aproximou de Claudine, colocou o pano encharcado de sangue na testa dela e, sem soltar, passou o braço em volta dela e a tirou do quarto. Lá fora, procurando a chave pra entrar no próprio quarto, estava o senhor Butler. Ele, ao ver o sangue escorrendo da cabeça da moça, franziu a testa e exclamou:
—Santo céu bendito! O que aconteceu com ela?
—Caiu uma parede em cima dela enquanto dormia —respondeu Roger—. Vamos, me ajuda a descer ela.
—Maldito prédio! —gritou o velho—. Você tá bem?
—Não é nada —disse Roger—, mas ela precisa ver um médico.
Os três desceram até o primeiro andar. Butler bateu várias vezes na porta dos Pikets.
A porta foi aberta por um velho míope. Era o senhor Pikets.
—Olha só o que o seu prédio caindo aos pedaços fez com essa pobre coitada!
O senhor Pikets ficou mudo e de boca aberta ao ver o sangue. As mãos tremiam e os olhos brilhavam.
—Vamos pra polícia agora mesmo! —continuou o senhor Butler, furioso.
—Mas... vocês podem me explicar o que aconteceu? —conseguiu perguntar o senhor Pikets.
—Você não tá vendo? Caiu uma parede das suas paredes em cima dela enquanto a pobre dormia —disse Butler.
—Por sorte eu tava no meu quarto e ouvi tudo, e consegui ajudar ela —interveio Roger.
—Mas... —disse Pikets—, pra polícia? Essa moça precisa é ver um médico.
—E a polícia também! —disse o velho.
—Tá bom, tá bom, mas primeiro ela precisa de um médico —disse Pikets—. Não se preocupem com os gastos do médico. Eu cuido disso, e... bom, ela vai ter um quarto melhor, e... pelo mesmo preço, claro.
—Claro que vai! —berrou Butler.
—Mas... não vai precisar chamar a polícia.
—Conversem entre vocês —interrompeu Roger—; eu vou levar ela pra ver um médico, e chamar ou não a polícia vai ser decisão dela.
Roger saiu do prédio com Claudine, deixando os dois velhos sozinhos. Já do lado de fora, com o problema resolvido, Claudine se atreveu a falar.
— Não vamos pro médico, né? — perguntou.
Roger sorriu.
— Claro que não. Vamos na casa de um amigo, se você topar. Ele vai emprestar o que a gente precisa pra cuidar desses ferimentos e esconder esse arranhão. Depois, se você quiser, a gente pode dar um rolê no parque.
3. Marie
Ninguém faltou na festa. Amigos e familiares quiseram estar presentes num dia tão especial pra Marie. Ela tava fazendo quinze anos.
Filha única de Eduard e Margaret Connell, Marie tinha uns pais que eram a inveja de todas as amigas dela, que, várias vezes, tinham dito: “quem me dera meus pais fossem que nem os seus”. Pro casal Connell, a filha era tudo. Mesmo sendo uma menina que nunca tinha passado necessidade, como era boa filha, se contentava com pouco e nunca reclamava de nada.
Naquela manhã, vendo o sol nascer, os pais da Marie decidiram fazer a festa no jardim. O dia tinha amanhecido limpo, o que, junto com a temperatura amena, fazia prever um dia bonito de primavera.
No começo da tarde, as mesas já estavam perfeitamente arrumadas pelo pátio, cheias de bebidas e petiscos que os convidados iam escolhendo e colocando nos pratos. As folhas das cercas vivas que rodeavam o pátio brilhavam calmas sob o sol, e nem uma brisa tímida ousava incomodá-las.
Um gramofone, em cima de uma mesa debaixo da varanda, animava a festa com um estilo novo de música chamado fox-trot. O vinil, presente da tia Rose, tinha sido comprado de um grupo de soldados americanos em troca de algumas moedas e de uma certa informação sobre onde gastar o dinheiro à toa, ou, em outras palavras: em mulher, acordo que Rose topou de boa.
Mas esse presente, igual a todos os outros, não despertou muito interesse em Marie, porque foi ofuscado por um muito mais especial: um filhote acinzentado de pelo lanudo, olhos pequenos e orelhas caídas: era um Um filhote de raça barbet. E embora ela tenha ficado igualmente grata pelo resto dos presentes, mal prestou atenção neles, não só pela imensa alegria que o filhote lhe deu, mas porque esse presente vinha de alguém muito especial para ela: seu amigo Darrell, de quem, importante dizer, ela estava apaixonada em segredo; tão em segredo que nem ele sabia.
Darrell, que na época tinha vinte e um anos, era um jovem bonito, educado e culto; virtudes que carregava com muita humildade. Recém-promovido a sargento do exército britânico, Darrell tinha um futuro brilhante pela frente.
Com o filhote nos braços, Marie vasculhou o pátio com o olhar em busca do amigo. Avistou ele rapidamente conversando com os pais dela, o senhor e a senhora Tilman, junto com os pais dele, o senhor e a senhora Connell. Ficou feliz com a boa relação entre eles, e corou ao pensar que, no futuro, os laços pudessem se estreitar.
Decidiu se aproximar quando uma mão, agarrando seu braço, a parou.
— Finalmente te encontro. Me diz, querida: você gosta de música?
— Muito, tia Rose; muito obrigada.
— Te vejo diferente. Você está se tornando toda uma mulher.
Marie corou.
— Não sei, tia Rose. Acho que não…
— É verdade.
Sua prima Shelly, filha de Rose, se juntou a elas.
— Você já tem idade suficiente pra ter um namorado — continuou tia Rose —, embora isso não seja algo que deva te preocupar agora; como você diz, ainda é uma garota. Shelly na sua idade não tinha namorado, e olha que ela, na época, passava por uma jovem de vinte anos, né, Shelly? Mas isso sim: não faltavam pretendentes; aliás, Marie, sabia que o Darrell convidou a Shelly pra sair?
A cor de Marie passou do rosa ao branco, e uma angústia terrível tomou conta dela.
— Eles formam um casal estupendo — continuou tia Rose —, não acha?
Marie não conseguiu conter a dor, e sentindo os olhos se encherem d'água, baixou a cabeça e disse:
— Sim, a Fazem, tia…
E antes que as primeiras lágrimas brotassem, ela foi pra dentro de casa, deixando mãe e filha plantadas ali.
Subiu pro quarto, se jogou na cama, abraçou o cachorro e chorou como não lembrava de ter chorado há muito tempo.
Depois de um tempo, a mãe entrou no quarto e, vendo que a menina dela tava chorando, sentou na cama, estranhando, e perguntou o que tinha acontecido. Marie, sem parar de chorar, tirou a cabeça do travesseiro, olhou pra mãe e começou a sorrir.
— Nada, mãe; é que tô muito feliz que tanta gente veio.
— Ai, minha vida! Todo mundo te ama muito.
— Eu sei, mãe; por isso que tô feliz.
— E o que esse aqui tá dizendo? — perguntou, acariciando a cabeça do filhote.
— Ele tá se perguntando se você vai deixar ele dormir comigo, na minha cama…
— A gente vê; vamos perguntar pro papai. Me diz, você já deu um nome pra ele?
— Não, ainda não.
— E você já agradeceu o Darrell? Foi ideia dele te dar de presente.
Marie, que até então tinha sorrido pra não chatear a mãe, ficou séria.
— Não, mãe.
— Então devia fazer isso.
— Eu sei… mas…
— Vamos, Marie; ele é seu amigo, e eu sei que ele se deu ao trabalho de fazer isso pra te dar de presente.
A senhora Connell pegou a mão da filha, e sem que ela soltasse o cachorro, levou ela de volta pro jardim.
Logo encontraram o Darrell conversando com o senhor Connell.
— Tô te procurando pela casa toda, querido — disse a senhora Connell pro marido —. Vem; preciso te mostrar uma coisa…
E os dois se afastaram, deixando o casal sozinho.
— Oi, Marie — disse Darrell.
Marie desviou o olhar. Apesar dos anos que se conheciam e da boa relação entre os dois, ela sentiu ele muito distante dela, quase como um estranho.
— Você já deu um nome pra ele? — perguntou Darrell.
— Ainda não.
Sem saber o que mais dizer, os dois ficaram em silêncio por um tempo.
— Como é que tá a festa? — perguntou Darrell, finalmente.
— Bem, acho… Como você tá vendo?
— Tá boa! Veio muita gente. E essa música aí… Soa... é genial.
—É um presente da tia Rose; e bom, da Shelly também, acho. Fox-trot.
—Como?
—É assim que chama: fox-trot.
—Ah; soa muito bom mesmo.
—Ei, Darrell...
—Fala?
—Queria te dizer uma coisa...
Eles se aproximaram de um banco de pedra, na frente de uns roseirais, e sentaram. Marie lembrou das palavras da tia, que a fizeram se sentir mais menina do que realmente era, e se sentiu uma idiota.
—Minha prima Shelly é uma gostosa.
Darrell pareceu ficar desconfortável.
—É verdade; a Shelly é uma gostosa.
—E já é uma mulher... —Marie passou de se sentir idiota a ridícula, e vendo que não tinha coragem de dizer o que pensava, continuou:— Sério, muito obrigada; foi o melhor presente de todos. Me promete uma coisa, Darrell?
—Tô te achando estranha, Marie; aconteceu alguma coisa?
—Só quero que me prometa uma coisa.
—O que você pedir.
—Me promete que sempre vai ser meu amigo, que a gente nunca vai perder a confiança que tem um no outro.
Darrell olhou pra ela meio desconfiado, e antes que ele pudesse responder, Marie deu um beijo na bochecha dele e foi embora.
4. Um pedido desesperado.
Uma noite, enquanto Claudine jantava com o marido, aconteceu o seguinte:
—Roger... —ela disse. Silêncio. Roger mexia a sopa com a colher sem tirar os olhos do prato—. Roger —repetiu Claudine pro marido, com o mesmo tom de voz sofrido—. Você tem que fazer alguma coisa.
Roger não disse nada; levantou da cadeira e foi pro quarto onde a filha dormia. Ajoelhou-se ao lado dela, e quando os olhos se acostumaram com a escuridão, observou-a com cuidado. Quando ela respirava, soltava um assobio rouco que apertava o coração do pai. Ele beijou a bochecha dela e voltou pra cama, pensativo.
No dia seguinte, como toda manhã, Roger foi pro trabalho: uma fábrica onde trabalhava desde pouco antes de conhecer a esposa naquele prédio caindo aos pedaços. Nas primeiras duas horas do expediente, do seu posto, ficou vigiando as idas e vindas. Vindas do supervisor de zona. Numa dessas, Roger largou o posto e foi até ele.
—Com licença, senhor; queria perguntar... bom, queria saber se tão precisando de homem pro turno da noite.
—Não. Volta pro seu posto.
—Mesmo que seja...
—Não tem, Roger; volta pro seu posto.
Desabado com a recusa, se atreveu a pedir uma conversa com o senhor Wallace, dono do negócio e chefe dos cento e quarenta e três trabalhadores que tinha na fábrica, mas ele negou na maior firmeza, sem dar chance de insistir. Conhecia a situação do Roger e sacava as intenções dele, então preferiu não encher o saco do patrão com esses assuntos chatos, porque sabia o quanto irritavam ele.
Lá pela metade da manhã, saindo da rotina, o senhor Wallace largou o escritório pra dar uma volta pelos andares da indústria próspera dele. Não era algo que fizesse sempre, mas de vez em quando pra aparecer pros funcionários e eles lembrarem quem pagava o pão que alimentava os filhos deles.
Se a gente fosse fundo na personalidade do senhor Wallace, ia ver que era um sujeito mesquinho, que a vida sorria sem merecer, que a sorte, o destino, a providência, o capricho de um ser divino, tudo junto ou nada, tinha enriquecido e que a sociedade respeitava.
O senhor Wallace, um homem baixinho, quase sem pescoço, avermelhado, e com uns quilos a mais, passou bem perto do Roger de cabeça erguida e braços cruzados. Roger, quando viu, largou o serviço e foi falar com ele.
—Senhor, preciso falar com o senhor — disse, tentando manter a calma —. Minha filha tá... tá morrendo. Pelo amor de Deus, senhor, se o senhor deixasse... eu podia trabalhar de noite na fábrica. Pelo amor de Deus, senhor, preciso...
O senhor Wallace parou e, sem olhar na cara dele, falou:
—Você quer trabalhar dia e noite? Se for assim, seu rendimento ia ser tão baixo que eu teria que te mandar embora. Continua no Trabalho que ele tem, que não é pouco.
E, virando-lhe as costas, seguiu seu caminho pela fábrica.
Roger ficou ali parado, vendo sua única esperança se afastar de mãos dadas com o senhor Wallace. Segundos depois, voltava desolado para seu posto. Por mais estranho que pareça, não sentia ódio, nem rancor, nem nada de ruim contra o chefe; isso iria contra sua natureza, e, por outro lado, a preocupação que sentia era tão grande que não deixava espaço para outros sentimentos.
O dia não passava nunca. Roger fazia seu trabalho como um robô, alheio a tudo ao seu redor.
Não comeu. Nem sequer saiu do seu posto quando, ao meio-dia, a sirene tocou anunciando a hora do almoço. Ficou ali, com sua dor, transtornado.
Parecia que a sorte mostrava sua face mais amarga e o deixava cair no poço do desespero; mas, como se sabe, não existe poço sem fundo, e naquela mesma tarde, para sua surpresa, o supervisor se aproximou e pediu que o acompanhasse, pois o chefe queria vê-lo. A esperança iluminava pela primeira vez em muito tempo seu caminho.
Roger seguiu o supervisor até a sala do chefe. Depois de bater na porta, entrou. O senhor Wallace, recostado em sua poltrona de couro, atrás de uma grande escrivaninha, ofereceu-lhe um assento. Fumava charuto com solenidade, erguendo a cabeça a cada baforada.
— Sacrifiquei parte da minha vida nesta empresa — disse o senhor Wallace. — Ter o que tenho me custou muito. Não pense que não sei o que é passar fome. Vê este charuto? Sabe quanto custa? Ah, claro que não! Que besteira estou falando! É um H. Upmann, já ouviu falar? Já ouviu, né? Escuta… se eu fosse uma pessoa permissiva, como você está me pedindo que seja, agora não teria nada. Sabe do que estou falando? Agora mesmo não poderia fumar este charuto, nem pagar os caprichos da minha esposa, que não são poucos nem baratos, nem os da minha adorável filha, que não são menos caros que os da minha mulher. Sei o que você passa; o senhor Frost me contou tudo, e não pense que fico indiferente a uma situação como a sua. No fundo, essas coisas me afetam mais do que você imagina. Olha… vou te propor algo: preciso de uma empregada em casa; uma empregada que esteja disposta a… como dizer?… que esteja disposta a tudo. — Roger olhava confuso para o chefe. — Vou ser claro: quero a vida da sua esposa em troca da vida da sua filha. Vou pagar os melhores médicos, bancar os melhores remédios, e tudo isso em troca da sua esposa por um período não superior a três meses.
— A vida da minha esposa? Como assim, senhor? Não… não entendi direito…
— Já vi que não entendeu bem; o que peço em troca da vida da sua filha é o corpo da sua esposa. É bem simples de entender…
— Mas, senhor!…
— Vou bancar o melhor médico de toda a Inglaterra; remédios, e duas enfermeiras que cuidem dia e noite da sua filha. Se existe uma única chance de sua filha se salvar, ela passa por essa solução. Vá pra casa. Tire a tarde de folga. Converse com sua esposa; pensem bem; depois me diga algo quando tiverem tomado uma decisão. Não tenho pressa.
Essas palavras desestabilizaram o estado de espírito de Roger. Havia alguém que estendia a mão, que freava sua queda naquele poço, mas que, para isso, puxava a corda que tinha apertada no pescoço.
Ele saiu do escritório e voltou pra casa, remoendo a proposta do senhor Wallace. Quando chegou, ele e a esposa discutiram o assunto até altas horas. “Mas… o que é ‘tudo’, Roger?” perguntava Claudine, perturbada, sem obter uma resposta clara do marido. Na verdade, ambos tinham suas dúvidas sobre a proposta do senhor Wallace — ela mais do que ele —; mas ambos concordaram que aceitariam.
5. A boa notícia.
Marie mal comia, dormia pouco e passava a maior parte do tempo ausente, com a mente vaga e sonhadora. Às vezes, deixava o tempo passar sentada na banqueta da penteadeira, olhando a rua. Pela janela do quarto dela, brincando com os cachos do cabelo. De vez em quando, acordava do sonho, pegava o cachorro no colo, esfregava a bochecha na dele e, entre suspiros, apertava ele sem pena contra o peito dela.
Na hora da comida, também ficava igualmente ausente. O pai dela, que vinha observando o comportamento estranho da filha há vários dias, começou a ficar preocupado e não parava de perguntar sobre a falta de apetite dela. Marie, com alguns segundos de atraso, sempre respondia: “É por causa do verão, esse calor danado!”.
Um dia, quando Marie se levantou da mesa e foi pro quarto, Howard disse pra esposa:
— Essa menina tá com alguma coisa. Sou o pai dela e percebo.
— Você é o pai e percebe, mas se fosse a mãe como eu, saberia também o que ela tem.
— E o que é que ela tem, posso saber?
— Bom, ela tá apaixonada.
De manhã, quando não tinha aula, Marie descia pro jardim e passava o tempo ali, olhando as borboletas voando entre os lírios, as mimosas e os alecrins que enfeitavam o lugar, com uma melancolia tão profunda que muitas vezes pensava no pouco sentido que a vida teria se não pudesse compartilhá-la com Darrell, e que, se fosse assim, mais valia parar de viver. Às vezes, dizia pra si mesma: “Shelly é mais gostosa do que eu; e além disso, Darrell ainda me vê como uma garotinha”, e depois se recriminava: “Você foi uma idiota por pensar que um dia poderia…”, acreditando que, pensando daquele jeito pessimista, enterraria todas as ilusões que tinha tido até então e, portanto, a dor desapareceria.
Mas a verdade, que ela desconhecia, era que Darrell tinha um encontro com Shelly sem querer ter, e sim querendo ter com Marie, mesmo sendo esta última menos bonita que a primeira. Darrell via em Marie a ternura, a bondade e a inocência; em Shelly, via tudo ao contrário, o que o irritava pra caralho.
Uma noite, dois dias antes do encontro com Shelly, Darrell entrou no escritório de —Aquela garota… Shelly, não acham ela meio estranha?
Sem tirar os olhos dos papéis que tinha sobre a mesa, mexendo-os de um lado para o outro, o pai de Darrell respondeu:
—Estranha?
—Sim. Quero dizer que… sei lá, ela não é como as outras garotas.
—Ahã; e daí?
—É que ela me incomoda. Não quero sair com ela.
Ainda remexendo os papéis:
—Fala com sua mãe; foi ela quem combinou tudo com a mãe daquela garota… como é o nome dela? Isso, Shelly; mas se você não quer sair com ela, não precisa. Cancela o encontro mandando suas desculpas com um buquê de flores e pronto. Mas, filho, não vejo que mal um encontro com ela pode te fazer.
—Eu sei, pai, mas é que… tem algo a mais.
—Ahã…
—Queria pedir permissão aos pais de outra garota para sair com ela.
—Então vai em frente, filho. Confio que…
—É sobre os Connell — interrompeu Darrell o pai, que de repente parou de mexer nos papéis para fixar o olhar no filho.
—Os Connell? Você está falando da pequena Marie?
—Sim, pai.
—Isso é… isso é fantástico! — O pai de Darrell levantou da cadeira e se aproximou do filho. — Os Connell são uma família excepcional, e a Marie parece ser uma garota excelente. Acho uma decisão acertadíssima. Fico muito feliz mesmo, filho.
Ambos, satisfeitos, se abraçaram.
6. O acordo.
Dois dias depois, já de noite, Elisabeth e Joseph — os senhores Wallace — presidiam a mesa no amplo jantar de sua casa. Seus dois convidados, Roger e sua esposa, sentados um de frente para o outro, mal levantavam a cabeça do prato, enquanto Emily, filha dos Wallace, jantava sentada ao lado do pai.
Pouco se falou durante o jantar; qualquer tentativa de conversa morria no começo. A tensão de Roger e sua esposa, por mais que tentassem disfarçar, foi notória desde que chegaram na casa.
Finalmente, enquanto um dos mordomos servia a sobremesa, o senhor Wallace abordou o assunto que os havia levado a se reunir:
—Relaxem; pensem na filha de vocês. Se preparem pra ideia de que logo mais vão estar curtindo a felicidade dela.
Roger levantou o olhar do prato e encarou a esposa. No olhar dele dava pra ver a preocupação; no dela, a incerteza de quem sente o perigo chegando mas não saca a real gravidade da parada.
Virando-se pro senhor Wallace, Roger respondeu:
—Sim, senhor, mas não temos certeza se isso é…
—Besteira! —interrompeu o senhor Wallace, erguendo a voz—, não precisa se preocupar com nada; vou trazer o melhor médico do país. Não sei se devia falar isso… não gosto de me adiantar… mas enfim: ontem conversei com o doutor Herbert Khol; caso não saibam, o doutor Khol é um dos médicos mais renomados de toda a Europa. Perguntei se ele, como um favor pessoal, claro, poderia cuidar do caso da filha de vocês, e tenho que informar que ele topou de bom grado; mais que isso: se mostrou bem otimista e interessado.
—Mas senhor, o que o senhor nos pede em troca é…
—Um sacrifício pequeno, querido amigo, nada mais que isso: um sacrifício pequeno. Ou vocês têm algo melhor pra oferecer?
Roger ficou em silêncio. O senhor Wallace continuou:
—A vida da filha de vocês está nas mãos de vocês. Vocês decidem.
—Tá bem —disse Claudine—. Aceito. Não sei direito o que querem de mim, mas aceito.
—Chega de besteira e mistério —interrompeu a senhora Wallace, com desdém—. Queremos você, querida, queremos uma escrava. Sua vida em troca da vida da sua filha. Se aceitar, fica; se não, Eugene leva vocês de volta pra casa.
Claudine olhou pra cada um deles, apavorada, e reafirmou a decisão:
—Aceito, senhora.
—Bem, querida; vamos ver isso.
Toda essa cena, amparada pela maldita circunstância que a necessidade traz, era acompanhada com atenção pelos dois mordomos que serviam na casa, ambos de pé junto à porta de entrada. O salão de jantar. Um se chamava Eugene; o outro, Fabian. O primeiro era um homem de meia-idade, meio robusto, de traços suaves e atraentes, com uma daquelas caras que transmitem calma e inspiram confiança. O segundo, diferente do primeiro, era um homem magro, de rosto estreito, olhos fundos, feio que nem um lagarto, cuja expressão séria e sombria era o reflexo fiel da sua alma.
A senhora Wallace fez um gesto com a cabeça para Eugene, que, vendo o sinal da patroa, se posicionou atrás de Claudine, segurou seu braço e a obrigou a se levantar. Claudine olhou para o marido, e ele, sem conseguir sustentar o olhar, baixou a cabeça. A situação parecia tão absurda que ela chegou a pensar que nada daquilo estava realmente acontecendo.
— Abaixa o vestido dela até a cintura — ordenou a senhora Wallace.
Claudine cruzou os braços na altura do peito.
— Assim não vai dar certo — disse a senhora Wallace —. Melhor vocês voltarem pra casa e deixarem a menina nas mãos de Deus. É menos confiável que um médico, mas bem mais barato.
Claudine deixou os braços caírem. Eugene olhou para a senhora Wallace e, vendo que ela concordava com a cabeça, desatou o laço que fechava o vestido da jovem mãe e o abaixou até a cintura.
— O sutiã; tira também.
O mordomo desabotoou a peça e a removeu. Não houve resistência, mas Claudine teve que fazer um esforço enorme para não cobrir os peitos com os braços. Era tanta vergonha e humilhação que ela sentia, que desejou morrer. Enquanto isso, o marido a olhava de vez em quando, dividido entre a curiosidade mórbida, pela qual se sentiria culpado pelo resto da vida, e a dor que aquilo lhe causava.
Emily, enquanto isso, tinha deixado os talheres sobre a mesa e alternava o olhar entre Claudine e o marido, se deliciando como nenhum dos presentes jamais conseguiria com o horror e o sofrimento estampados nos rostos deles.
— Amarra ela — ordenou Elisabeth. Eugene amarrou as mãos dela nas costas com uma corda que tirou do bolso, dando várias voltas nos pulsos, sem apertar demais, e se afastou.
Todos, especialmente Elisabeth, apreciaram a beleza dos peitos dela, brancos como a porra, e a extrema magreza da barriga, fruto de má alimentação. As costelas estavam suavemente marcadas na pele. Isso era bem pouco atraente, mas não aos olhos dos Wallace, que viam com prazer e regozijo os estragos da miséria e da desgraça.
— Fabián — disse a senhora Wallace —. Aproxime-se.
O outro mordomo, o que tinha um aspecto mais terrível, se colocou atrás de Claudine.
— Toque ela — continuou a senhora Wallace.
Fabián a envolveu com os braços e agarrou os peitos dela, beliscando os mamilos, que eram pequenos e rosados.
— Mais forte.
Claudine fechou os olhos e contraiu o rosto de dor.
— Mais.
A dor, essa estranha e incômoda percepção da qual quase todo ser humano foge, se tornou mais insuportável.
— Já chega — disse a senhora Wallace —. Levante o vestido dela até a cintura e abaixe a calcinha até os joelhos para que possamos vê-la de corpo inteiro.
Roger, que até então observava a cena de modo furtivo, mantendo uma luta interna para se controlar e não parar aquela aberração, desviou definitivamente o olhar para a janela, vencido pela dor.
— Eugene — disse a senhora Wallace, se dirigindo ao mordomo —, nosso convidado deseja ir embora. Leve ele para casa.
Por um lado, Claudine desejou com todas as forças que o marido não presenciasse tamanha humilhação lamentável, mas, por outro, ficar sozinha a aterrorizava.
Com as mãos amarradas nas costas, o vestido amassado na cintura como o fole de uma sanfona, e a calcinha enrolada na altura dos joelhos, Claudine viu o marido se afastar.
— Roger, por favor… — conseguiu dizer, quase sem fôlego.
Antes que ele saísse da sala de jantar, no instante exato em que Fabián dobrava o O corpo de Claudine sobre a mesa, Roger se virou para contemplar pela última vez sua esposa, e a imagem que viu causou tamanho impacto nele que assim a lembraria por muito tempo. E não era só aquela imagem que o torturaria, pois pouco depois, enquanto atravessava o jardim em direção à rua, ouviu algo que o paralisou e que também lembraria durante todo aquele tempo e muito mais, se é que algum dia chegou a esquecer.
6. Um grito vale mais que uma imagem.
Enquanto Roger saía de casa, Claudine se convencia de que algo aconteceria naquele exato instante que a salvaria de toda aquela depravação; mas conforme o tempo passava e, principalmente, viu que o sorriso da senhora Wallace ganhava um ar malicioso, suas esperanças foram se derretendo como um pedaço de gelo na palma da mão. Só quando, por debaixo de suas pernas nuas, viu Fabián baixar as calças e sentiu o roçar do pau dele na entrada da sua buceta, disse a si mesma: "Ai, meu Deus! O que ele vai fazer comigo?". A resposta, se alguém tivesse ouvido sua pergunta e respondido com sinceridade, teria sido que iam estuprá-la.
Nada podia parar o que estava prestes a acontecer. O mordomo segurou-a pelos quadris e se jogou sobre ela. Claudine, que sentiu o corpo se abrir de uma vez, não conseguiu segurar um grito que ecoou além dos limites da propriedade dos Wallace e que, como já foi dito, seu marido ouviu enquanto se afastava pelo jardim.
Superado o primeiro obstáculo, Fabián começou a se mover, encontrando um imenso prazer na resistência que a secura do canal forçado oferecia.
Claudine começou então a chorar, e pouco depois a implorar que ele parasse. Mas Fabián, longe de parar, acelerou o ritmo e, para maior tortura da vítima, levantou-lhe a cabeça pelo cabelo, para que todos pudessem contemplar o sofrimento em seu rosto.
A serenidade de quem curtia aquela cena era Tremenda. Olhavam para ela com atenção, mas com uma passividade assustadora, como quem olha o cardápio de um bom restaurante.
Fabián endureceu as estocadas; tanto que, quando o corpo da jovem ficou banhado pelo fluido daquele desconhecido, a coitada sentiu que a qualquer momento ia desmaiar.
A senhora Wallace levantou da cadeira, se aproximou dela e, agarrando-a pelo cabelo, a separou da mesa. As pernas de Claudine tremiam e sua buceta doía.
—Fica de joelhos.
Claudine, com a ajuda de Fabián, que estava ao lado dela com o pau manchado de porra, se ajoelhou.
—Abre a boca e não ouse fechar.
Dito isso, a mão dela foi bater com violência na bochecha de Claudine, que fechou a boca com o impacto. Em seguida, levou outro tapa na mesma bochecha, com a mesma força que o anterior.
—Eu disse para não fechar a boca! —gritou a senhora Wallace.
Claudine começou a chorar de novo, resistindo em obedecer. Ainda parecia impossível estar vivendo tudo aquilo, que realmente estivesse acontecendo com ela. A senhora Wallace levantou o braço com um gesto implacável e severo; só então ela obedeceu. A senhora Wallace aproximou a boca da de Claudine, parou bem perto e cuspiu dentro dela. A saliva escorreu por dentro, o que provocou nela um nojo profundo, uma sensação desagradável de repulsa. A senhora Wallace se afastou para que Fabián pudesse enfiar na boca dela o pau manchado. Claudine, sentindo a boca também ultrajada, fechou os olhos com força e deixou que a violentassem também por ali sem oferecer resistência.
Enquanto o pau entrava e saía, o mesmo pau que tinha aberto sua carne, a senhora Wallace começou a andar pela sala com passo lento mas firme, de braços cruzados e semblante sério. Depois continuou falando com um tom de voz que cortava o ar:
—Sua vida não vale nem uma décima parte do Dinheiro que vocês vão receber. Por mais que você sofra, e por mais doloroso e degradante que seja o que você vai viver nesta casa e fora dela, você deve se mostrar grata. Não sabe como? Não se preocupe; eu vou te ensinar, não só a mostrar, mas a ser grata. Também vou te ensinar muitas outras coisas que, para o seu bem, é melhor você lembrar. Nada do que você sente ou pensa importa mais. Sua vida agora não vale nada. De um jeito ou de outro, você será submetida à minha vontade e à da minha família, seja na base do amor ou na base da dor. Três meses; depois você será livre. Lembre-se disto: qualquer pessoa pode usar seu corpo, a menos que eu não queira, e você nunca vai dizer não aos pedidos das pessoas com quem lidar, seja dentro desta casa, seja fora dela. Faça as coisas errado, e você será duramente castigada. Continue fazendo as coisas errado, e você será entregue a Lord Keyworth.
— Se ela não sabe quem é Lord Keyworth, mamãe — interveio a pequena Emily. — Se soubesse, não teria ficado.
— Cala a boca, Emily. E você, Fabian, já chega; deixa ela respirar.
Fabian tirou o pau da boca de Claudine, soltou as mãos dela e a ajudou a sentar na cadeira.
Encolhida, apertando as mãos entre as pernas e escondendo a buceta recém-profana e dolorida, Claudine não parava de chorar. O corpo inteiro tremia. A senhora Wallace envolveu a cabeça dela com os braços e a apertou com doçura contra a barriga.
— Vamos, se acalma; aos poucos você vai se acostumar — disse enquanto acariciava o cabelo dela. — Tudo vai ficar bem se você se comportar direito. A pior coisa que você pode fazer é pensar; quanto menos pensar, menos vai sofrer. Obedeça e faça as coisas certas; você vai evitar um monte de problemas.
Depois de um tempo, quando Claudine parou de chorar, a senhora Wallace a afastou. Ela estava com uma coleira de couro preto com várias argolas, e de uma delas pendia um pequeno guizo prateado. Depois tirou do bolso mais umas tiras de couro preto também, com guizos. todas elas, embora um pouco menores que a primeira.
Enquanto colocava o colar no pescoço dela, pediu que Emily colocasse o resto das pulseiras pelo corpo, o que ela fez nos pulsos e tornozelos. Depois Eugene a cobriu com uma capa verde.
— Durante sua estadia, você vai usar elas o tempo todo — disse a Sra. Wallace, se referindo às tiras. — Não vai tirar por nada. O barulho dos guizos vai avisar a gente da sua presença, onde quer que você esteja. — A Sra. Wallace começou a passar a mão nos peitos de Claudine. — A partir de hoje, você não se chama mais Claudine; agora você é Guizo.
— Elisabeth — interrompeu o marido —; não se apegue a ela; ela só vai ficar três meses com a gente.
A Sra. Wallace olhou pra ele com dureza, algo que o marido interpretou como uma bronca por ter comprado uma mulher tão gostosa e sofrida por um período tão curto.
— Emily — disse a Sra. Wallace, se virando pra filha. — Leva ela esta noite. É sua. Divirta-se com ela, mas sem machucar; nada de porrada nem sodomia. Usa a boca dela pro que quiser, e se ela não obedecer, me avisa.
Claudine tremeu, e o tilintar dos guizos, que não parou desde que foram colocados nela, ficou mais alto em toda a sala.
8. Uma noite perfeita.
Uns dias depois de Darrell anunciar a intenção de pedir permissão aos Conell pra sair com Marie, e antes de colocar em prática, os pais dele marcaram um jantar com os pais dela no Rules, um restaurante chique da cidade, no bairro de Covent Garden. Aproveitando a confiança e a grande amizade entre os dois casais, o Sr. Tillman revelou entre um copo e outro de vinho a intenção do filho. Todos ficaram empolgados com a ideia, e brindaram por ela.
Depois do jantar, foram ao Royal Princess’s Theatre, na número 73 da Oxford Street, ver uma peça muito popular da época: The Fatal Wedding.
De volta pra casa, o Chevrolet no que viajavam quebrou entre os bairros de Holborn e Clerckenwell, lugar que anunciava sua hostilidade com a falta de luz.
Howard desceu do carro coçando a barba.
— Howard, querido — disse a senhora Conell —, vamos voltar andando até o teatro; lá a gente encontra um táxi.
Uma mulher da rua, também chamada de pública ou de vida alegre, que Howard, por carregar debaixo do braço um ramo de rosas bem murchas, confundiu com uma florista ambulante, parou para contemplar a cena.
— Vamos, Howard — insistiu a esposa —; vamos embora daqui.
Naquele momento, se desprendendo da neblina suave que a envolvia, a jovem prostituta se aproximou.
— Quer uma rosa, senhor?
— Uma rosa pode me levar pra casa?
— Acho que não, mas se comprar o ramo inteiro, talvez sim...
Howard contemplou a garota. Era linda aos olhos de um cego, cujas mãos seriam incapazes de enxergar a sujeira do pescoço dela, as manchas lívidas no rosto e o desejo escuro do inalcançável no olhar. Era aquela figura desengonçada uma alma que tinha renunciado ao corpo e um corpo que tinha esquecido a existência da alma. Tinha a voz doce, quase quente, a boca bonita e os dentes, na maioria, podres.
— Posso levar vocês na casa de um cocheiro — continuou a jovem —. Mora perto daqui.
— Quanto você quer pelo ramo?
— 50 pence.
— São seus; nos leva.
A senhora Connell se aproximou do marido e agarrou o braço dele. Seguiram a jovem por uma rua estreita e cheia de poças que bem poderiam ser de mijo, o que explicaria o fedor forte que pairava no ar.
A jovem parou ao lado de uma fachada de triste aparência de tijolos, como a de uma fábrica em ruínas, figura reta, com três janelas nuas, uma delas, a que ficava na parte triangular do telhado, ovalada, e uma velha porta de madeira sem fechadura.
— Me dá mais alguns pence, senhor? Ajuda a acordar aquele vagabundo.
Howard revirou nos bolsos. Num deles encontrou umas moedas que deu na hora pra garota. Ela, de costas pra porta, contou uma por uma com o dedo e guardou no bolso da saia. Satisfeita com a quantia, sorriu pro Howard e, enquanto fazia uma reverência elegante pro casal, empurrou a porta devagar com a sola do pé, de costas pra ela, e sumiu num piscar de olhos.
O casal esperou em silêncio na frente da porta. Cinco minutos, dez, quinze... Depois desse tempo, Helen disse: "Howard: ela não vai querer nos levar, ou pode ser que aquela garota nos enganou". Howard se arriscou a empurrar a porta, esperando entrar numa casa, e não encontrou nada além de um beco comprido e estreito, formado por duas paredes de tijolo, cheio de curvas, portas e entradas pra outros becos.
— Aquela sem-vergonha nos roubou! — rosnou o senhor Connell, indignado.
— Não se estressa, amor. Vamos voltar pro teatro. A gente acha um táxi que nos leve. Esse lugar não me agrada. Vamos embora, por favor.
Então, eles pegaram o caminho de volta; um caminho silencioso entre poças d'água e latas de lixo. Só de longe se ouvia um barulho parecido com choro, mas que na verdade era o miado de uma gata no cio.
O casal passava pela rua mais escura e estreita de todas por onde tinham andado com a prostituta, quando uma figura, vinda de não sei onde, se aproximou por trás.
Howard sentiu de repente a presença dela e parou. A esposa, que segurava firme o braço dele, virou-se pra ele.
— Vamos, amor... — disse a senhora Howard no exato instante em que um braço envolvia o pescoço do marido e a lâmina de uma faca o degolava.
A senhora Howard não acreditou no que os olhos mostravam. Levou as mãos à boca, deu uns passos pra trás e começou a tremer, apavorada. Não pensou em gritar, porque a mente dela tinha travado de choque, e pelo mesmo motivo também não pensou em fugir. Um momento depois, vendo o sangue jorrando do pescoço do marido já sem vida, ela desmaiou.
De repente acordou. Recobrou a consciência deitada de bruços no chão frio de algum lugar desconhecido. Era um lugar escuro e apertado, com cheiro de mofo. Tentou se virar, mas um peso enorme colocado nas suas costas, mais ou menos na altura do cóccix, impedia. Tentou pedir socorro, mas um lenço enfiado na boca e preso com uma corda não deixava. Tentou virar a cabeça, e não encontrando nenhum obstáculo que atrapalhasse, fez isso, indo se deparar cara a cara com o rosto do marido, que tinha os olhos abertos, o olhar vazio e a boca sem fôlego. A senhora Connell fechou os olhos com força e virou a cabeça de novo.
Aquela sombra surgida do nada tinha arrastado eles da rua para dentro de um portão e os escondido no vão da escada. Tinha amordaçado a mulher com um lenço sujo e puído, e como ela tinha parecido uma mulher gostosa, elegante e bem perfumada, ele tinha se sentado em cima dela pra se divertir um pouco. Naquele momento a senhora Connell acordava e via o marido.
— Não se mexe, puta — disse uma voz estragada pelo álcool.
A mão fria daquele assassino levantou a saia dela até a cintura. Depois se deitou sobre a vítima e ela começou a se contorcer como um peixe no convés de um navio. Viu o peixe na frente dele uma faca, a mesma que tinha tirado a vida do marido, e indo encontrar o pescoço dela, ouviu a voz que dizia:
— Se você se mexer, te faço um cachecol, entendeu, puta?
A senhora Connell parou. Não podia fazer nada. A vida dela estava nas mãos daquele lixo da natureza, e sabia que não cumprir o que ele dizia era encurtar o caminho que a separava da morte. Devia fazer tudo que ele pedisse, pensou, não por ela, nem pela vida dela, mas pela filha, porque deixá-la sozinha neste mundo de miséria e desgraça a apavorava mais que a própria morte.
A faca parou de pressionar a garganta dela pra ir Cortou a calcinha dela. De um puxão, a peça se soltou do corpo dela e foi parar no chão.
Ela tentou implorar por clemência. Nessa hora, o homem já estava pronto pra sujar o corpo dela, e com a mesma firmeza que tinha usado pra cortar o pescoço do marido, enfiou a pica no buraco mais apertado que ele podia usar.
A senhora Connell, sentindo a mesma dor como se tivesse levado uma facada, tensionou os músculos do corpo e mordeu o lenço.
Cinco minutos depois, o selvagem sentiu vontade de gozar, e puxando o cabelo da vítima com uma mão e tapando o nariz dela com a outra, acelerou as estocadas. A mãe de Marie, sem conseguir respirar, começou a se debater de um lado pro outro em desespero. Essa resistência irritou o homem, então ele puxou o cabelo com mais força e endureceu os movimentos. Segundos depois, o homem viu a excitação saciada no exato instante em que a vítima desabava no chão, já sem vida.
O lixo sumiu da cena e voltou depois de um tempo com um carrinho de mão. Revistou a bolsa da mulher, tirou um dinheirinho, e arrancou do pescoço dela um pingente de ouro com o desenho de um pássaro toh, de plumagem bonita com tons azuis, verdes e canela. Depois, carregou o corpo no carrinho, cobriu com um cobertor e foi pro cais do Tâmisa, onde, depois de se certificar de que ninguém tava vendo, jogou o corpo semidespido. Voltou pro portão, revistou o marido, de quem tirou ainda mais dinheiro, carregou ele no carrinho e levou pra um ponto do rio não muito longe de onde tinha jogado a esposa, e lá, sem mais, jogou o marido também. Depois, com toda a grana no bolso, foi pra taverna. Lá, pra justificar o sangue na roupa, contou que um cachorro tinha atacado ele, e que pra se defender, tinha atravessado o bicho com uma faca. Bebeu até ficar bêbado, cantando músicas com o resto dos beberrões que ele tinha convidado, e de Voltando pra casa, pouco antes de chegar, perdeu o equilíbrio, caiu no chão, deu o último gole na garrafa de uísque “The Macallan” e apagou.
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