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Compêndio IConfesso que é impressionante ver que já são quase 100 edições. Olhando pra trás, achava que seriam umas 30, mas tanta coisa aconteceu…
Mesmo assim, acho que continuo sendo o mesmo cara do começo: o garoto apaixonado pela namorada otaku, cujo amor já bastava pra ser feliz.
Não me vejo como um galã, um garanhão, muito menos um cara perfeito. Não me destaco pelo físico nem pela personalidade.
A única coisa que tenho é inteligência. Nada mais que me faça sobressair…
Mas as oportunidades apareceram e elas descobriram que o que eu dava era suficiente e o que precisavam. Eu tava bem ciente de que não merecia, que não tava procurando e, o mais importante, que não era o cara certo pra viver aquilo, mas as coisas foram acontecendo assim.
Essa era a separação mais difícil de todas. Todas eram complicadas, mas essa era de longe a que mais queríamos evitar.
As meninas gostaram de ver a mãe se arrumando pra sair num encontro. Verônica me olhava, como se buscasse minha aprovação, mas eu só sorria pra ela…
Não era minha mulher e acreditar no contrário seria viver em negação. Além disso, Ricardo parecia um cara legal, alguém que valorizaria o carinho dela…
Mas eu via nos olhos dela que ela não amava ele. Ela ficava com tesão por ele, sem dúvida, mas não era o mesmo olhar que me dava…
Apesar das promessas do Ricardo, concordei em pagar 40% das despesas. Como eu falo, a gente podia pagar o valor completo, mas eu tava ciente de que era um lugar chique e que cobravam uma boa comissão. Além disso, tinha gastos com pessoal, bebidas, eletricidade e outras coisas, que pesariam no bolso de qualquer um.
Mas eu fazia isso, acima de tudo, pra aliviar minha consciência, pra não pensar que a Verônica tava pagando com o corpo dela.
Visitar o Ricardo acelerou muito as coisas. Se quiséssemos o local, precisávamos pedir dentro de 3 semanas, já que não tinha muitas reservas por ser período de férias. Por isso, eu e a Marisol estávamos pressionados…
E isso estava, inexoravelmente, empurrando isso…
Nem eu nem meu rouxinol queríamos fazer isso. A gente tinha se esforçado pra chegar até aqui, pra depois ter que voltar atrás…
Mas não dava pra deixar aquela mentira continuar. Eu imaginava que ela já devia ter suas suspeitas… não tinha notícias minhas desde antes do Ano Novo…
Quando Pamela nos recebeu, não precisou de palavras. Ela também entendia que a visita da prima não era por capricho.
Simplesmente, significava que as coisas estavam saindo do nosso controle…
“Finalmente apareceu, Marco!” disse Lucia, ao me receber. “A gente pensou que tinha acontecido alguma coisa com você!”
“Não, senhora!” respondi, olhando pra Pamela. “Só surgiram uns imprevistos…”
“E quem é essa mocinha tão gostosa? É sua amante?” perguntou, ao ver Marisol.
Foi uma pergunta sem graça…
“Não, tia! Sou só eu!... vim visitar a senhora, porque senti muita falta da minha prima…” respondeu meu rouxinol.
“E vejo que você andou ocupada, menina!” exclamou Lucia, ao notar a barriga dela. “Pamelita, podia ter me dito que sua prima tava grávida!”
Marisol me olhou, me consultando se a gente tava fazendo a coisa certa…
Suspirei. Simplesmente, não dava pra deixar ela presa naquela mentira…
“Mãe!” exclamou a filha dela, bem sem graça. “Se a Marisol não te contou, devia ter um motivo…”
Era difícil pra gente. Pamela implorava com os olhos pra gente continuar com o teatro e, sinceramente, nós dois queríamos agradar ela, mas no fundo, eu sabia que mais cedo ou mais tarde a verdade ia vir à tona… e adiar isso só ia trazer mais problemas.
Lucia nos fez entrar na casa, sentar na sala de estar. Pediu pra Celeste trazer limonada fresca, o que ela fez, mas ficou na porta do cômodo, esperando alguma outra ordem da patroa. Ela não deixava de me olhar de canto, mas eu não podia retribuir as atenções dela.
“E quantos meses você tem, Marisol?” perguntou Lucia.
“Já passei dos 3 meses!” respondeu meu rouxinol “E tô esperando gêmeos!”.
“Gêmeos! Que emoção!” disse ela, abraçando a sobrinha com carinho. “E como Como é que o pai se comportou?"
"Mãe!" exclamou Pamela, muito nervosa.
"O que foi, Pamela?"
"Se ela não te disse que tava grávida... provavelmente, não é da sua conta!..." Respondeu Pamela, vermelha que nem um tomate.
"Desculpa, Marisol!... A Pamela tem razão!..." Pediu desculpas Lucia.
"Não se preocupa, tia!..." Respondeu Marisol, me olhando nos olhos pra me fazer desistir. "... O pai foi um cara muito responsável..."
"Que bom!" respondeu Lucia. "Então foi você que fez o papel de cupido..."
"Como é?" perguntou Marisol, sem entender.
"Ué, você apresentou a Pamela pro Marco! Não foi?" Esclareceu Lucia.
O "elefante" se recusava a sair da sala...
"Sim, tia!... foi assim..." respondeu meu rouxinol, sem conseguir olhar nos olhos dela.
As duas me olhavam enrascadas. Sabiam no fundo que era ideia minha, mas sempre tentei ser correto.
"Bom... Tô muito grata a você!..." disse Lucia, acariciando o rosto dela com carinho. "Minha Pamelinha mudou tanto depois que conheceu ele, que cada dia que passa, me surpreendo mais e mais..."
"Mãe!... não é pra tanto..." dizia Pamela, corada e tentando não me olhar.
"Mas é verdade!" disse Lucia, se irritando comigo. "E você!... Tão irresponsável pra não ligar pra sua namorada!"
"Desculpa, senhora!" exclamei. "Andei... ocupado!"
"Devia ter vergonha na cara!" me repreendeu, de um jeito carinhoso. "Minha coitadinha ficou impaciente, esperando você vir ou ligar pra ela!"
Essa era outra Lucia... a verdadeira... uma que envergonhava bastante a Pamela.
"Mãe, não exagera!" ela dizia, cobrindo o rosto.
E finalmente, ela reparou nos dedos do meu rouxinol...
"Que anel lindo! Onde conseguiu?" perguntou Lucia.
Marisol me olhou. Concordei com a cabeça, enquanto Pamela nos suplicava apavorada pra não fazer isso...
"Foi meu namorado que me deu..." respondeu meu rouxinol.
"O pai dos seus bebês?" Perguntou imprudentemente Lucia.
"Mãe!" a repreendeu Pamela de novo.
"Desculpa, Pamela!... mas a gente nunca sabe..." exclamou com genuína ingenuidade.
“E acha que ela deveria te contar?” perguntou Pamela, com bom senso.
“Sim, tia…” disse Marisol, tirando a tensão do comentário. “Ele foi meu namorado…”
“É tão lindo!” exclamou Lucia, examinando o golfinho de lápis-lazúli. “Não deve ter sido barato!”
“Bom… meu namorado é engenheiro…” explicou Marisol.
“Puxa, que surpresa!” exclamou Lucia, olhando pra gente. “Um engenheiro, igual a…!”
E então, caiu a ficha dela!…
“Pamela, o que está acontecendo aqui?” perguntou, começando a se irritar.
“Desculpa, mãe!” disse Pamela, começando a chorar.
“Sim, tia, nos perdoe!” suplicou Marisol. “Foi culpa minha!”
Mas pra Lucia, só tinha um culpado…
O tapa foi violento, seco e inesperado… mas eu merecia bem.
“Eu confiei em você!” ela me disse, começando a chorar.
Até Celeste ficou surpresa. Pamela e Marisol pularam pra me defender.
“Mãe, não bate nele!”
“Sim, tia!… Tudo é culpa minha!” exclamou Marisol.
Pedi pra Celeste servir um copo de limonada pra ela, pra acalmá-la. A gente tinha que contar a verdade.
“Sabia que não podia ser verdade! Sabia!” gritava Lucia, pros quatro cantos, furiosa. “Você me enganou, Pamela!… Me enganou de novo!… E ainda me fez de otária!”
“Mãe, me desculpa!” chorava Pamela.
“Não quero te ver agora!… Sai da minha frente!” ordenou Lucia, sem conseguir olhar na cara dela.
A cara de Pamela estava cheia de reprovação pra mim. Ela se levantou, tapando a boca, e foi chorar no quarto dela.
“Dona Lucia!… Ela não teve culpa!” eu a defendi.
“E você, não fala comigo!…” ela me disse, me olhando nos olhos, cheios de lágrimas. “Soube assim que te vi!… Não podia ser verdade!… Você é tão sem-vergonha quanto o Diego!…”
Baixei o olhar. Esse comentário eu também merecia…
“A senhora está errada, tia!” disse Marisol, com a cara virada pro chão. “O Marco nunca mentiu pra senhora!”
“Como você ousa me dizer isso?” gritou com ela, muito brava. “Você vem grávida pra minha casa… pra me dizer que esse idiota é seu namorado!…”
“Mas ele não é só meu Namorado!" exclamou Marisol, chorando, mas com um olhar bem sério. "Ele também é o namorado da Pamela!"
Lucia ficou surpresa com a determinação no olhar da minha rouxinol...
"Que porra você tá me dizendo?" exclamou.
E começou a contar toda essa confusão...
"O Marco e eu temos um relacionamento de 2 anos. Ele era meu professor pra passar no vestibular e eu comecei a me apaixonar por ele..."
"Você começou a se apaixonar por ele? Ele não te seduziu?" perguntou Lucia, incrédula.
"Não, tia... O Marco era muito tímido e a gente era amigo. Fui eu que beijei ele primeiro e, a partir daí, virei a namorada dele e a única mulher na vida dele..." explicou Marisol.
"Como você me diz isso? Acabou de falar que ele é namorado da Pamela!" resmungou Lucia.
"Sim... mas no começo ele não queria..." respondeu ela.
"A Pamela tinha um gênio horrível quando a conheci." Falei. Lucia ainda me olhava brava. "Era uma mina que queria chamar atenção de qualquer jeito, mas gostava pra caralho da Marisol. Nunca tinha tido um namorado sério, então desconfiava de mim e quis me testar..."
"E você foi tão gentil que se ofereceu como voluntário!" disse ela, com sarcasmo.
"Claro que não, tia!..." exclamou Marisol, envergonhada. "Fui eu que pedi..."
A cara de Lucia não aguentava tanta incredulidade.
"Você pediu pra Pamela te trair com seu namorado?"
"Não foi bem assim!" se defendeu Marisol. "Olha... O Marco sempre esteve comigo quando precisei, e eu sei que ele me ama de coração... mas você sabe como a Pamela é gostosa. Eu via que nenhum homem resistia a ela, mas meu amado Marco era especial. Ele nunca olhou pra ela com desejo..."
"Sinceramente, eu odiava ela! Achava que ela roubava a atenção da Marisol!" interrompi.
"Exato!... E a Pamela achava que todo homem era igual... me dava muita tristeza ver ela tão deprimida... então eu dei permissão pra ela usar ele também..."
"'Usar ele'? Você trata ele como um par de sapatos?" Disse Lucia, completamente pirada.
"Claro que não!" Respondeu Marisol, chorando ao ver que ele não acreditava nela. "Marco… é especial… ele não liga pra aparência… tem um bom coração e, mesmo que não goste das pessoas, sempre ajuda… por isso, pedi pra ele cuidar da Pamela… Tia, eu conheço sua filha e sei que tem muitas coisas boas!… mas estavam escondidas… atrás de máscaras de arrogância e insensibilidade… mas sabia que o Marco podia ajudá-la… pensei que, se ele a fizesse tão feliz… como me fez… a gente poderia mudá-la…"
Marisol era tão convincente que dava pra ver o impacto das palavras dela no rosto da Lúcia. Mas o senso comum da Pamela era algo herdado da mãe.
"Mas… por que assim? Por que você não falou com ela?"
Marisol sorriu…
"Bem… porque me excitava…" respondeu feliz, lembrando.
A cara de espanto da Lúcia era inacreditável.
"Você ficava excitada com a ideia de ser traída pelo seu namorado?"
"Não, tia!… me excitava a ideia de que… mesmo a Pamela sendo tão gostosa… o Marco ainda voltava pra mim…"
Era algo que a Lúcia não conseguia acreditar. Eu a entendia. Uns meses atrás, também estive no lugar dela…
"Como assim… isso?" disse Lúcia, horrorizada. "Você não sabe… a dor… de se sentir enganada?"
"É que isso torna meu amado Marco especial!" respondeu Marisol, toda animada. "Ele nunca quis fazer isso!"
"Senhora!" confessei com vergonha. "Eu tentei resistir… juro que tentei… mas a Marisol exigia provas maiores… e acabei cedendo aos meus instintos…"
"E essa é sua desculpa?" ela me cobrou, me olhando com ódio.
"Não, porque eu sempre soube com quem estaria!"
"O quê?" exclamou Lúcia, de novo surpresa.
"Pedi pra Pamela seduzir ele… queria que ela visse que o Marco era especial… quando o Marco me come, me sinto a única mulher no mundo dele… me sinto segura… protegida… e queria que ela sentisse isso também…" respondeu.
Lúcia me olhava de um jeito estranho. Ainda me rejeitava, mas as palavras da Marisol a faziam questionar…
"Sempre transamos com proteção e me preocupei com ela, pra que se sentisse bem, pra que não se sentisse Culpado..." expliquei.
Ela quis me responder, mas Marisol não deixou tempo...
"E, no fim, foi a Pamela quem me confessou o amor pelo meu namorado..." disse Marisol, com um sorriso amigável.
No entanto, a cara da Lúcia não aceitava nossa lógica.
"E eu devo presumir que, com tudo isso, está tudo resolvido?"
"Não, senhora. A senhora tem todo o direito do mundo de me odiar... mas não a sua filha." Respondi. "Ela estava sozinha e precisava de alguém que a apoiasse... infelizmente, ninguém estava lá... e fui eu quem a ajudou. Ela é boa, esforçada, e o que ela viu nestes dias foi porque nós a ajudamos..."
"Tia, eu amo ela como uma irmã!" acrescentou Marisol.
"E agora... ela tem medo que a senhora não a queira..." eu disse, começando a chorar. "Viemos esta tarde... porque a senhora merece saber a verdade... Marisol e eu vamos nos casar... e em poucos meses, vamos embora para o exterior... se quiser, não vamos mais incomodar a Pamela, mas, por favor, pedimos que a apoie... É sua filha e ela fez de tudo para ganhar o seu respeito!..."
Lúcia ficou em silêncio por um tempo.
"Vão embora!" ordenou. "Vão embora e não voltem mais!"
Nós nos olhamos, eu e Marisol, e nos levantamos, saindo em silêncio.
Celeste abriu a porta para nós e eu vi que ela me olhava diferente. Ela, sim, tinha acreditado na gente...
Na rua, Marisol chorava, se apoiando no meu peito.
"Marco, será que fizemos a coisa certa?" ela perguntou.
"Não sei, meu bem!" respondi, beijando seus lábios macios com gosto de limão. "Só posso te dizer que a gente precisava fazer isso..."
Mas, embora aquelas horas parecessem escuras e sem esperança, na verdade, nossa honestidade acabaria nos beneficiando na hora da cerimônia...
O perdão da Lúcia chegaria... e eu ainda teria uma última chance de romper com a Pamela, de um jeito mais romântico e significativo...
Afinal, ela foi chorar no quarto antes mesmo de a gente contar o motivo da nossa visita...Próximo post
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