As ficções do rádio
Já tinha prometido duas vezes pra Laura que, se alguma ouvinte ligasse pra rádio, eu não ia perguntar se ela tinha peitos grandes ou se já tinha transado com alguma mulher, ou alguma dessas merdas que eu sempre fazia. De novo não cumpri: essa noite ligou uma ouvinte e, sem rodeios, perguntei se ela tinha peitos grandes ou se realmente tinha feito sexo lésbico (se tinha feito um ménage, se fosse fazer de novo preferiria dois homens ou duas mulheres, etc). Ela me contou tudo, eu fiquei um pouco excitado.
Durante o intervalo perguntei pros meus colegas como tinha ficado a entrevista, se tinha sido divertida, e eles disseram que sim, que as mensagens não paravam. Pensei na Laura, que podia estar ouvindo.
Liguei pro celular dela, mas não atendeu. Liguei pra casa, mas também não. Quando tentei fazer uma terceira ligação – de novo pro celular, caso antes ela não tivesse conseguido atender – a produtora me avisou que em dez segundos voltávamos ao ar. Então deixei meu celular de lado e esperei a luz vermelha acender. Comecei a falar no microfone: falei das notícias do dia, de qual era a melhor maneira de fazer um ovo frito, de como conseguir dormir bem num ônibus, e de novo falei qual número os ouvintes podiam ligar. Imediatamente, outro ligou pra entrar no ar: “Atende que é uma mina”, me disse a produtora. “Ela diz que quer contar como trai o namorado. Se você fizer ela entrar na sua, ela conta tudo”. “Sim”, eu disse com a cabeça e atendi sem questionar, movido mais pelo hábito de obedecer uma mulher do que pelo simples fato de querer atender uma ligação. Quando ouvi a voz do outro lado, reconheci a voz da Laura, minha Laura, e quis não ter atendido e não ter nascido. Senti frio e vontade de voltar no tempo.
A Laura eu tinha aprendido a obedecer porque sim. Porque depois de dois anos morando juntos, aprendi a dizer “sim, meu amor”, “você tem razão”, sabendo que assim eu economizava horas de discussão psicanalítica sobre vínculos, comunicação, Freud e seu cachimbo.
Eu queria escrever. Terminar de trabalhar e escrever. Terminar de comer e escrever. Terminar de fazer amor e escrever. Não me importava com mais nada. Queria escrever o tempo todo, a toda hora, o dia inteiro. Laura, claro, me recriminava:
— Você trabalha escrevendo — ela dizia. — Não entendo como depois do trabalho você ainda quer continuar fazendo isso.
— Escrevo porque gosto, Laura. E além do mais, o que eu escrevo pro trabalho não é escrever de verdade; é só repetir o que outro pensou. Ainda não me pagam pra ter opiniões.
— É a mesma merda, Santiago!
— Não, não é a mesma coisa! Agora eu tô tipo uma puta que fica com tesão depois do expediente.
Falei como piada, mas ela não me ouviu, ou preferiu me ignorar.
— Você não entende o ponto! O que eu tô falando é que você passa mais horas na frente daquele computador do que comigo!
Era verdade. Eu ficava o dia todo na frente do computador. Escrevendo, construindo histórias. Conversando no chat e vendo fotos de mulheres no Facebook. Mas o que não era verdade era que eu fazia isso só porque gostava. Fazia também porque, assim, eu ganhava uma identidade. Um título de escritor, de artista. De algo que me deixasse um pouco mais satisfeito na hora de dar a mão e me apresentar pra alguém: Santiago Apenak, escritor. Porque identidade é aquilo que a gente fala depois do nome quando vai almoçar na casa da Mirta Legrand.
Laura e eu nos conhecíamos quatro anos antes, num fim de semana de janeiro, em frente à lagoa de Lobos. Ela, na época, tinha namorado, mas mesmo assim a gente se pegou. Ou melhor, passamos a noite deitados no chão, nos beijando, nos acariciando, olhando as estrelas, mas não chegamos a consumar o ato, propriamente dito.
Apesar do meu encantamento repentino — encantamento que, claro, não foi correspondido na hora — ela continuou no relacionamento e não me deu mais importância do que a de um amigo: a gente se via, conversava por telefone, mas Não passávamos disso. Às vezes, com sorte, ela me deixava beijá-la e lembrar do que havíamos vivido naquela noite, em frente à lagoa. Mas nada além disso. E eu morria de frio e solidão cada vez que a via se afastar.
De tanto sofrer por vê-la ir embora — e por ver outras que passaram no meio do caminho também irem — decidi ser eu a me afastar: um dia, enchi minha mochila com alguns exemplares do meu primeiro livro, várias mudas de roupa e uns trocados e peguei um trem pro Norte da Argentina. Fiquei vários meses viajando. Fingi ser espiritual. Peguei piolhos e uma crise de asma por fumar maconha na altitude. Me senti livre. Vendí artesanias. Vendí meu livro. E também troquei ele feliz por teto e comida. Me senti o eu Guevara. E me senti culpado por não ser, e porque vi injustiças e fiquei calado, parado: me senti um covarde. Tive frio. Fome. Vontade de voltar a ser pequeno e abraçar minha mãe. Tive mais asma. Tive vontade de chorar e chorei. Tive vontade de rir e ri. Tive vontade de transar com uma alemã loira de peitões enormes, mas não consegui. Lamentei não ter aprendido a falar alemão ou inglês ou qualquer idioma que me desse armas pra conquistar gringas que não falassem espanhol: me contentei com o que tinha. Aprendi a me contentar. Fiquei puto por aprender a fazer isso.
Também tive vontade de ver a Laura. Quis ligar pra ela, escrever um e-mail. Até que finalmente passei várias horas sentado na frente de um computador procurando coragem pra apagar o contato dela da minha lista de chat, e apaguei. Finalmente escrevi uma carta pra ela, à mão, mas queimei no topo de uma montanha coberta de neve. Me senti romântico e pensei em como um tema do Bryan Adams teria ficado lindo naquele momento. Me perguntei como a gente tinha chegado ao ponto de dar tanta importância a um contato do chat, mas não respondi. Lembrei das palavras "realidade virtual". E lembrei do meu psicólogo me sugerindo que vivesse mais "com os pés no chão", me dizendo que eu sofria de complexo de diretor de cinema: que eu gostava de inventar histórias, dirigir e ser o protagonista del roteiro. Às vezes, de contá-las. Quis ser o Woody Allen, mas não tinha minha Diane Keaton e meus óculos nem se pareciam com os dele.
Quis voltar. Não tinha grana e pedi dinheiro aos meus pais de uma cidade na Bolívia. Gastei a grana bebendo cerveja e tentando pegar outra alemã loira e peituda. Também não consegui, não tava com sorte. Então pedi dinheiro aos meus pais de novo e tive certeza de que me odiavam e sentiam vergonha de me ter como filho. Mesmo assim, mandaram a grana e finalmente pude voltar pra casa.
Ao voltar, tive vontade de ver a Laura. Me segurei. E como tinha aprendido a me contentar, comecei a namorar uma ex-colega do ensino médio. Fiz a mim mesmo acreditar que estava apaixonado. Aprendi a mentir pra mim mesmo.
Poucos meses depois, enquanto meu namoro fingido desmoronava e eu redigia um e-mail pra Laura engolindo meu orgulho palavra por palavra, um e-mail dela perguntando como eu estava chegou na minha caixa de entrada. Não me surpreendeu, essas coincidências de novela eram comuns entre a gente. Então, sem pensar muito, nos encontramos de novo e, dessa vez, também nos beijamos, nos acariciamos e falamos sobre coincidências e sobre o "amor de amigos". Mas não transamos. E eu me masturbei pensando nela quando cheguei em casa.
Naquela noite dormi feliz porque ela disse que tinha terminado com o namorado fazia um tempo, e eu respondi que se ela tinha me procurado, que assumisse o que sentia.
Começamos então a dormir um na casa do outro. Comemoramos meu aniversário. Ela conheceu minha família e eu conheci a dela. Fiquei nervoso e com vergonha. Começamos a ver filmes juntos e isso virou parte da nossa rotina diária. Eu ficava puto porque ela sempre, dez minutos depois de colocar o DVD, tinha que levantar pra fazer um chá. Perguntava por que ela não fazia antes se já sabia que íamos ver o filme. Ela não respondia e me oferecia chá e eu dizia que não e acabava comprando sorvete. Eu oferecia porque sabia que ela queria. Mas ela comia com culpa e me dizia que estava gorda, que não podia. Eu, claro, não negava, mas também não confirmava, e aproveitava pra comer tudo: ela insistia que eu me cuidasse e não comesse como um animal. Eu não dava bola.
A gente gostava de fazer compras juntos porque adorávamos brincar de ser um casal e fazer coisas de casal. Mesmo sem ter a menor ideia da responsabilidade que isso trazia. Limpar a casa era coisa de casal. E era uma aventura porque sempre limpávamos com música e eu aproveitava pra dançar, fazendo palhaçada, pra fazer o mínimo possível. Ela relevava.
Logo sentimos a necessidade de comprar uma cama de casal porque na cama dela já não cabíamos. E de quebra, compramos um sofá e uma mesinha de centro. Como eu passava a maior parte do tempo na casa dela, me vi obrigado a levar minha vadia Golden, já que não podia deixá-la sozinha tanto tempo. De repente, eu também parei de viver sozinho na minha casa e comecei a viver com ela na casa dela, onde antes ela morava sozinha. Agora vivíamos juntos: ela, eu, minha vadia Golden e a vadia dela.
Com o tempo, a convivência deixou de ser algo fantástico pra ser algo real. Já não fazíamos mais as compras juntos sempre. E ela não tolerava mais que eu dançasse enquanto limpávamos. Comecei a ter obrigações que ninguém nunca me disse que eu teria.
Na hora de comer, eu preferia hambúrgueres e Coca-Cola, e ela, milanesa de soja com polenta e água mineral. Eu não entendia como ela podia comer aquilo. E ela me repreendia porque dizia que eu não comia saudável. Discutíamos. Eu dizia que a soja estava destruindo o país. E ela me dizia que eu tinha os mesmos hábitos alimentares que o sobrinho dela de sete anos. Era verdade.
Com o tempo, ela começou a me recriminar — cada vez com mais veemência — por eu passar o dia todo escrevendo e não dar atenção suficiente quando ela me perguntava se aquela camiseta a deixava gorda, ou se aquela saia a... Ela estava ficando com um quadrilzão. Pra mim, ela sempre foi linda. Mas claramente o que ela reclamava era outra coisa.
Uma noite cheguei da rádio e a encontrei na porta de casa chorando e chutando a bunda de uns cachorros que se espojavam e tentavam deitar em cima das minhas roupas espalhadas na calçada.
"Você é um filho da puta", ela disse. "Eu aqui em casa sozinha e você no seu programinha de rádio ligando pra prostitutas pra perguntar os preços."
"É uma nova seção do programa, Laura. Uma zoeira."
"Com certeza você guardou os números e depois vai ligar pra elas pra pegar."
Comecei a rir.
"Não preciso pegar, Lau. São prostitutas."
"Vai embora da minha casa."
Tentei pensar em algo inteligente pra dizer, mas não me veio nada. Então recolhi minhas roupas e subi pro apartamento pra fazer a mala; meu plano era esperar ela se acalmar. Então o ritual foi o de sempre: ela chorava e me xingava da cozinha, enquanto eu ria de nervoso e fazia a mala o mais devagar possível, no quarto.
Depois de muitos xingamentos e reclamações, vendo que ela não se acalmava, disse tchau com a mala no ombro e saí batendo a porta. Tentando dar o máximo de drama possível. Como a conhecia, sentei na escada e esperei ela abrir a porta pra ver se eu ainda tava lá ou se tinha ido embora de verdade. Depois de alguns segundos, de fato ela abriu desesperada e nós dois começamos a rir.
"Viu que você não quer que eu vá?"
Abracei ela e sequei suas lágrimas. Depois ligamos pra locadora e pedimos uma porcaria japonesa que ela queria ver fazia tempo e eu liguei pra pizzaria e pedi empanadas e Coca-Cola. Isso era estar num relacionamento, negociar e entrar em acordo. Deixar as duas partes felizes: ela se sentiu culpada por comer tanta gordura e eu dormi meia hora depois do filme começar. Mas pelo menos tentamos.
Ela me fez prometer que não ia ligar mais pra nenhuma puta, nem ia fazer mais perguntas obscenas pra nenhuma gostosa. Eu prometi sabendo que ia Fiz mais por sair do que por convicção própria, mas fiz.
Algum tempo depois, aconteceu de novo. No programa, tínhamos uma seção onde fazíamos ligações aleatórias e, se alguém atendia, explicávamos que estávamos ligando para aumentar a audiência, já que ninguém nos ouvia. Se a pessoa se mostrava bem disposta, batíamos um papo. Embora nem sempre as pessoas reagissem bem, naquela noite tivemos sorte. A produtora discou um número qualquer e imediatamente atendeu uma mulher que, surpresa, disse que estava nos ouvindo.
Não sei se foi intuição ou simplesmente babação por causa da voz sensual dela, mas me deixei levar e imaginei que ela devia ser uma mulher impetuosa e comecei a fazer perguntas íntimas. Ela reagiu bem. Mostrou-se disposta e confortável no seu eventual papel de femme fatale. Não faltaram perguntas sobre os peitos dela ou sobre sexo lésbico. O papo terminou quinze minutos depois com uma música do Eric Clapton e com uma boa quantidade de mensagens masculinas, como nunca tínhamos tido antes. Fiquei feliz porque os ouvintes estavam felizes. E perguntei aos meus colegas como tinha ficado, se tinha sido divertido. Eles disseram que sim, só para me responder alguma coisa. E eu pensei na Laura, sabendo que ela poderia estar me ouvindo.
Quando cheguei em casa, Laura não estava. Ela tinha deixado um bilhete dizendo que eu era um filho da puta. Que não me aguentava mais. Que ia passar uns dias na casa da mãe até ficar um pouco mais calma. Não soube o que fazer. Pensei que se ela tinha escolhido ficar com a mãe em vez de ficar comigo, devia estar muito brava mesmo. Pensei em ir atrás dela, mas achei apropriado dar espaço para ela pensar com calma. E, ao mesmo tempo, achei que devia ir atrás para explicar que tudo era um jogo. Parte das ficções do rádio.
Não fiz nenhuma das duas coisas por decisão própria. Cinco minutos depois de chegar, recebi uma mensagem dela no celular dizendo para eu, por favor, não ir atrás dela. Que depois a gente conversava. E, sabendo o quão inútil eu parecia parado na frente da geladeira, tentando misturar as poucas coisas que tinha lá dentro para fazer uma refeição minimamente decente, recebi outra mensagem dela dizendo que no forno tinha uma torta de presunto e queijo. E que se eu precisasse de pratos, eles estavam na segunda prateleira do armário do meio. Me senti feliz por tê-la. E agradeci a Deus mesmo não sendo crente. Comi a torta inteira e tomei algumas cervejas. E me sentei no sofá para responder e-mails e ver TV.
No dia seguinte, acordei com o telefone. Olhei as horas. Eram meio-dia. Atendi disfarçando a voz de sono. Tinha vergonha de que a pessoa percebesse que eu estava dormindo. Era minha mãe:
— Oi, filho. Tava dormindo?
— Não. De jeito nenhum. Tava trabalhando.
— Você tá com voz de sono.
— Ah, é? Pode ser.
— É… Bom, vamos ver quando você vem ver seu pai, que ele quer te ver.
— Ela não queria me ver? Pra que me ligou?
— Essa semana eu vou aí porque tenho que levar umas coisas para o canal.
— E como tá indo isso?
— Bem. Trabalho muito e ganho pouco. Você sabe como é.
— Ai, filho. Com essa história de “direito de piso” eles abusam… Até quando você vai pagar direito de piso?
— Até eu ter talento, suponho.
Minha mãe riu e disse que seria bom se um dia essas piadas me dessem de comer. Eu fiz outra piada por não saber o que responder e disse que tinha que continuar trabalhando. Perguntei se eu podia levar algumas peças de roupa para ela passar e ela disse que levasse, e que comprasse um ferro de passar para a Laura.
Depois de combinar com minha mãe a gente se ver, me levantei e preparei um achocolatado. Revisei meu e-mail, ouvi música e terminei um trabalho que precisava ser finalizado. Às três da tarde não sabia o que fazer. Revisei meus e-mails de novo, escrevi piadas, me masturbei para não ficar entediado e liguei para um dos caras da rádio para comentar novas ideias. Logo comecei a ficar impaciente porque a Laura não chegava, não ligava. nem me mandava uma mensagem para me xingar. Quis ligar pra ela, mas pensei em respeitar o espaço dela. Me perguntei o que é respeitar o espaço do outro, onde terminava meu espaço e começava o dela. Me perguntei se ela, por não entender que o que eu fazia no rádio era ficção — parte de um jogo tácito que rolava com os ouvintes — não estava respeitando meu espaço. Claro que não respondi a mim mesmo e liguei pra perguntar. Quando atendeu, me disse que estava a duas quadras de casa, que vinha pra conversar. Duas quadras? Não dava mais tempo de arrumar nada. O que tinha pra conversar? Por que sempre tinha que conversar sobre alguma coisa? Fiquei com medo. Senti a mesma sensação de quando a diretora da escola me chamava na sala. Por que tinha que encarar os problemas?
Como conhecia ela, tirei a putinha da cama e sacudi os pelos dela. Amarrei o saco de lixo e juntei as migalhas que estavam sobre a mesa. Passei perfume e pentei o cabelo com os dedos. "Deve estar a uma quadra", pensei. "Não vou dar tempo". Juntei os copos e pratos sujos e levei pra cozinha. Queria que ela me encontrasse lavando.
Esperei ouvir a chave na porta, seus passos, depois vê-la entrar na cozinha e finalmente abraçá-la. Ver a putinha balançar a bunda e se jogar em cima da gente como sempre fazia quando a gente se abraçava. Mas lembrei que tinha deixado ela no quintal, então trouxe pra dentro pra aproveitar aquele momento. A gente achava fofo ver que ela também abraçava a gente. Esperei, esperei e esperei. "Duas quadras? Já devia ter chegado", pensei. Até que ouvi a campainha e fiquei feliz. Não só porque ela já estava em casa, mas porque toda vez que tocava a campainha, era porque tinha esquecido a chave. E isso, esse esquecer a chave, esse tocar a campainha com culpa — sabendo que me irritava demais — era parte do nosso mundo. Eram esses detalhes mínimos que eu tinha aprendido a amar nela.
Como a gente morava no primeiro andar de frente pra rua, abri a janela e joguei a chave. Como sempre, ela não pegou e deixou cair no chão. Laura, tá difícil pegar a chave? Vai quebrar.
Vai machucar minha mão. Além disso, não vai acontecer nada com ela. Não vai quebrar.
Vai sim. E quando quebrar, você vai chamar o chaveiro e vai pagar do seu bolso.
Ai, não exagera, meu bem… e se acontecer alguma coisa, eu pago.
Não tô exagerando. Você que exagera. É uma chave, não um tijolo.
A última frase que falei ela nem chegou a ouvir, já tinha entrado no prédio. Agora sim, pude ir pra cozinha, fingir que lavava as coisas e esperar pra vê-la entrar do jeito que eu queria. Quando entrou, a primeira coisa que lembrei foi que na nota ela tinha escrito que ia pra casa da mãe por uns dias: tinha passado só um.
Pensei que você ia vir daqui a uns dias.
Falei, e entendi que não era o comentário mais apropriado, porque ela podia achar que eu não queria que ela viesse.
O que, não queria que eu viesse?
Como te conheço, filha da puta!… Claro que queria que você viesse. Como não vou querer que você volte pra casa? Só falei porque me chamou a atenção.
Óbvio. É minha casa também. Posso vir quando quiser, sabe?
Ela serviu água.
Já sei que é sua casa também. Mas pensei que… Bom. Não importa…
Ficamos alguns segundos em silêncio, até que ela quebrou com raiva:
Me dá uma raiva! Sabe? Me dá raiva te ouvir falando com essas minas! O que, tá com tesão? Quer pegar elas?
Lembrei do personagem do Capusotto falando “miniiiiiiiiiitas” e me deu um ataque de riso que não consegui disfarçar.
Do que você tá rindo?
De nada, Lau. É que fico nervoso e dou risada. Você me conhece.
Ela me olhou com ódio.
Me dá muita raiva você falar assim no rádio. Igual quando escreveu aquele romance que falava da sua ex.
De novo com isso! Não falava da minha ex, Lau. Não falava de ninguém em especial. Era um romance. Uma ficção… Tá bom, admito, tava, sei lá, inspirado em algo real, mas só isso. Não significa que eu sinta saudade. Ou ame. Ou que seja sublime. Não significa nada. Era uma ficção, igual no rádio.
Não, não é a mesma coisa. Porque você passava horas escrevendo como a queria, e descrevia tudo igual ao que me contava quando ainda não éramos namorados.
Por que caralho eu tinha aberto a boca quando ainda éramos amigos? Eu devia aprender a calar a boca, ou que as mulheres têm muito mais memória que os homens.
Era um personagem! Um alter ego! Pelo amor de Deus, Laura!
Um personagem? Sua ex se chama Mariana e você colocou Marina no personagem! Você é um imbecil!
Não soube o que responder. Ela tinha razão; eu tinha colocado Marina no personagem, minha ex se chamava Mariana e eu era um imbecil. Fiquei em silêncio. Ela retomou:
Não sei. Me dá muita raiva, Santiago. Não consigo acreditar em você. É muito difícil confiar. Me deixa louca que em todos os seus textos você fode uma gostosa.
Eu não fodo ninguém!
Você ou seus putos personagens, é a mesma coisa!
Ela começou a chorar. A puta pulou nela e se agarrou na sua perna, para fazer com ela seu ato sexual.
Sai!
Ela tirou a gata de cima. Eu comecei a rir.
Lau. Já chega. Discutimos isso mil vezes. Você sabe que não acontece nada, meu amor.
Mas me dá raiva.
Eu sei que te dá raiva. Mas realmente não acontece nada. É parte do programa. Isso, ou a novela. Ou seja o que for. É parte de um personagem. De uma ficção.
Isso era uma meia verdade. Quase tudo que eu fazia, dizia ou escrevia, era baseado na realidade. Mas isso não significava que fosse real ou que eu estivesse envolvido sentimentalmente. Às vezes eu estava e outras não. Mas era algo relativo. Dava para viajar ao passado para lembrar de algo sentido com o simples propósito de expressar na hora de narrar, e depois voltar ao presente e se livrar daquele sentimento. Ela não acreditava que eu conseguisse fazer isso, nem que pudesse perguntar a uma gostosa se tinha peitos grandes ou se já tinha transado com uma mulher e não ficar excitado.
Mas não gosto que você fale com mulheres no programa. Nem que chame prostitutas para perguntar os preços.
Já te falei que é tudo parte do programa. Você quando atua e tem que beijar a Alguém, eu não fico bravo… Ou fico sim. Mas eu entendo e não falo nada. Porque você tá atuando.
Mas o que eu faço é sério! O teatro é algo milenar! O que você faz não é rádio, é fazer palhaçada na frente de um microfone!
Isso me ofendeu. Mas preferi ficar quieto e não abrir outra frente na discussão. Não queria passar os próximos duzentos e cinquenta mil anos brigando. Viver a dois era assim. O mundo funcionava assim. Se eu atacasse com alguma coisa, ela tinha que atacar com algo pior. Se eu revidasse com algo ainda pior, ela tinha que tirar de onde fosse um golpe ainda mais certeiro. Era assim. Com a competição de recriminações acontecia a mesma coisa. Ela procurava nos anais da relação, a lembrança de uma mulher que três anos atrás eu tinha olhado enquanto caminhávamos pela avenida Corrientes. E eu tinha que revirar quase sem sucesso nas gavetas bagunçadas da minha memória, até achar alguma coisa para apresentar a um juiz invisível que ditava quem era mais culpado. O problema era que eu nunca achava nada e que ela era uma especialista em acumular e arquivar recriminações.
Olha, Laura. Pra mim é sério o que eu faço. Eu dou o melhor de mim e isso conta. – Fiquei calado um instante e depois disse a maior besteira que podia dizer pra Laura – Além do mais, se eu for te trair não vou te trair no rádio, ao vivo e com tanta gente escutando.
Você é um babaca! Ou seja, me trairia mas escondido…
Não foi isso que eu quis dizer! Quis dizer que se eu quisesse fazer, teria feito, mas que não tenho necessidade de procurar gostosinhas no rádio!
Como assim se você quisesse…?
Chega, Laura, já deu! – A interrompi – Não vamos continuar, isso é uma bobagem.
Continuamos discutindo por um tempo. Aos poucos fomos nos acalmando e eu prometi que não faria mais essas ligações no rádio. Ela continuou chorando e assoou o nariz numa camiseta do Pink Floyd que eu tinha deixado sobre a escrivaninha. Disse que ela era uma nojenta e rimos quando a putinha pulou em cima da gente. nos abraçamos. Depois, fizemos amor. Tomamos banho juntos e eu disse a ela que essa história de tomar banho junto não era nada romântico e era uma mentira que a gente tinha que desmascarar, já que enquanto um ficava debaixo do chuveiro, o outro tinha que esperar do lado ensaboado e morrendo de frio.
Depois do banho, tomamos mate e fomos fazer compras juntos, enquanto passeávamos com a putinha.
Eu ficava empolgado com coisas bobas. Estava feliz porque havíamos comprado guloseimas para a sobremesa e porque tinha conseguido um disco do Benny Carter que ouviríamos durante o jantar. Contei tudo sobre o disco e sobre os benefícios de ouvir jazz enquanto se janta em um dia de chuva.
A convivência tinha deixado de ser algo fantástico para se tornar algo real. E esse algo real, com tudo o que isso implicava, era a coisa mais fantástica que podia nos acontecer. Naquela noite, tivemos um jantar romântico. Pedimos comida de fora. Mas não foram nem empadas nem milanesa de soja. Pedimos algo que agradasse aos dois. E usamos umas velas que encontramos em uma gaveta da cozinha, que sobraram de algum aniversário. A noite acabou maravilhosa. Terminamos de jantar e fizemos amor à luz de uma vela de setenta e quatro meio derretida, ao som do sopro magnífico do saxofone do Benny Carter. Até que ela se cansou de tanto jazz meloso e botou Fito, enquanto me dizia que, quando eu desse bobeira, ela ia jogar fora aquela cueca surrada que já não aguentava mais de tanto buraco.
Duas semanas depois, enquanto estava na rádio, aconteceu de novo, mas dessa vez o desfecho foi diferente: Uma ouvinte ligou e, sem rodeios, novamente perguntei se ela tinha peitos grandes ou se realmente tinha feito sexo lésbico, se tinha feito um ménage, se caso fosse fazer de novo preferiria dois homens ou mulheres. Ela me contou tudo, eu fiquei um pouco excitado.
De novo, durante o intervalo, perguntei aos meus colegas como tinha saído a entrevista, se tinha sido divertida, e eles me disseram que sim, as mensagens não paravam. E eu voltava a pensar na Laura, que certamente estaria ouvindo. Então liguei pro celular dela, mas ela não atendeu. Liguei pra casa dela, mas também não. Quando eu tentava fazer uma terceira ligação – de novo pro celular dela, caso antes ela não tivesse conseguido me atender – a produtora me avisou que em dez segundos a gente voltava ao ar. Então eu deixei meu celular de lado e esperei a luz vermelha acender. Falei das notícias do dia, de qual era o melhor jeito de fazer um ovo frito, de como conseguir dormir bem num ônibus, e de novo falei qual era o número que os ouvintes podiam ligar. Imediatamente, outro chamado entrou pra ir ao ar: "Atende que é uma mina", me disse a produtora. "Ela diz que quer contar como trai o namorado. Se você fizer ela entrar na confiança, ela conta tudo". "Sim", eu disse com a cabeça e atendi sem questionar. Quando ouvi a voz do outro lado, reconheci a voz da Laura, minha Laura, e quis não ter atendido e não ter nascido. Senti frio e vontade de voltar no tempo. Mas tive que atender, não tinha outra. Essa era a regra; não dizer não, dizer sempre sim. Aceitar, e com o que as circunstâncias nos apresentassem, construir ficção. Ainda que dessa vez, eu soubesse que não era:
Então você liga porque tem coisas pra contar?
Sim, tenho muitas coisas pra contar.
Tipo o quê? Começa me dizendo de onde você é.
Não importa de onde eu sou. O que importa é o que importa pra você. O que você pergunta pra todas as ouvintes.
Isso era muito ela. Entendi a reclamação disfarçada, mas não pude questionar nada. Tive que seguir em frente com a farsa.
E o que é que importa pra mim, então?
Não sei. Você não quer saber como são meus peitos, ou se eu já me deitei com alguma mulher? Você não gostaria que eu te contasse como eu engano meu namorado quando ele não tá?
Não, eu não queria saber. Dava vontade de vomitar só de pensar. Medo, frio, asma, tosse e pigarro, vertigem. Mas ao mesmo tempo sim, eu queria. Queria saber tudo. Cada detalhe. E me dava É foda querer saber e ter que continuar com essa farsa. As mensagens dos ouvintes homens começaram a chegar, sugerindo que eu fizesse todo tipo de perguntas obscenas. Eu queria matar todos eles. Um por um, se fosse necessário. Eles estavam falando da minha namorada, minha parceira, a mulher com quem eu dormia todas as noites. A que me abraçava como um ventre materno quando eu chorava em posição fetal porque o mundo não era aquele que eu sonhava quando criança. Era ela, era a Laura. A mesma que mil vezes me fez sair da cama no meio da noite (pelado e morrendo de frio) porque tinha ouvido um barulho estranho no quintal. A mesma que uma vez me chamou gritando e chorando da cozinha, me fazendo levantar da cama (pelado e morrendo de frio) porque tinha levado um choque ao abrir a geladeira descalça. A que uma noite me fez percorrer todos os dentistas de plantão da cidade porque estava com dor de dente. Enquanto eu a abraçava e consolava, ao mesmo tempo que xingava ela, porque no dia seguinte eu tinha que acordar cedo. A mesma que me xingava e me consolava quando a dor de dente era minha. A mesma com quem a gente se virava de outro jeito quando o sexo convencional não era possível. A que também me fez passar uma tarde inteira em todas as lojas de roupas hindus que fossem possíveis, só para conseguir aquela peça que parecesse hindu, mas que ao mesmo tempo não parecesse tanto. A mesma que, ao chegar em casa e se provar no espelho pela vigésima vez, começou a chorar dizendo que não gostava de como ficava nela. Aquela que se levantava para fazer um chá dez minutos depois do filme começar. A que me repreendia porque dizia que eu não comia saudável. A mesma que ficava brava porque eu não juntava nem a roupa, nem a toalha, nem a espuma, nem o barbeador quando eu tomava banho. Enquanto que, quando eu não estava, ela cheirava minha loção de barbear e minhas camisetas para não sentir tanta saudade. A mesma para quem eu contava tudo, até que aprendi que havia certas coisas que não eu tinha que contar pra ela. A mesma que me ouvia igual quando eu não queria ser ouvido. A mesma que gostava de ouvir que eu sempre queria ouvi-la. A mesma que eu amava, e que tinha começado a se sentir sozinha porque eu passava o dia todo escrevendo. A mesma que agora, no meu próprio programa de rádio, estava prestes a contar como me traía.
Eu sabia que aquilo era uma vingança. Ela tinha me avisado antes. Tinha me dado algum sinal que eu não soube entender. Estava me dizendo: "Preciso que você me dê mais atenção! Para de pensar em você por um momento!". Eu era acusado de ter parado de ouvi-la e agora, como se fosse uma condenação, não só eu tinha que ouvi-la, mas todos os ouvintes do rádio.
Naturalmente, o único que sabia que estava falando com Laura – minha Laura – era eu. O resto da equipe do programa, e claro, os ouvintes, não sabiam. Então, sem mais, agindo como um herói ou um imbecil, engolindo as vontades de chorar e sair correndo pra casa pra pedir explicações, conhecer a cruel verdade e me jogar no sofá pra chorar em posição fetal, continuei com a ligação:
– Então você tem muitas coisas pra contar?
– Sim, muitas.
– Comece, então, contando como você é.
– Linda, muito linda. Eu acho que se você me visse, se apaixonaria por mim.
– Você acha?
– Sim.
– E como você é?
– Como eu sou… Alta, magra, cabelo castanho… me pareço com uma personagem do seu livro.
Não soube o que responder. Tive medo que ela dissesse a que personagem se referia, de que conto, e que alguém da equipe pudesse perceber que se tratava de Laura, minha Laura. Quanto à voz dela, sabia que nenhum conhecido poderia perceber, já que, por mais familiar que pudesse soar, ninguém associaria Laura, minha Laura, com essa Laura. Ou seja, ninguém poderia imaginar que minha Laura estivesse me fazendo aquilo.
– Ah, é mesmo? E você gosta de ler?
– Sim, gosto muito de ler.
Laura gostava muito de ler, vivia lendo. Poesia e ensaios. Ficção ela não gostava. Talvez por isso não entendia o que eu fazia no rádio. Talvez por isso ela estava fazendo o que estava fazendo comigo. Tentei levar a conversa para o lado da poesia e do cinema. Terminar logo. No entanto, a produtora, a operadora e meus outros colegas de rádio começaram a me olhar sem entender o que eu estava fazendo. Então, através do retorno, de gestos incompreensíveis como mímicas desajeitadas, de bilhetes escritos rapidamente e trazidos para o estúdio em silêncio, de cartazes com caneta em folhas de caderno, eles começaram a me mandar perguntas que eu devia fazer e a guiar a conversa para o lado que interessava a eles e, claro, a todos os ouvintes.
Ela me contou que aproveitava cada vez que eu saía por um bom tempo para se reencontrar com aquele velho amor que ela já tinha tido. Me contou como eles faziam na cama. Como ele ouvia o que supostamente não me importava mais. Como eles riam. Como falavam de mim e da namorada dele. Como saíam. Como ele a levava para passear naquele carro novo que eu não tinha. Como ele trabalhava em um emprego onde não precisava perguntar às mulheres se tinham peitos grandes ou se já tinham transado com alguma mulher. Como ele não chamava prostitutas para fazer um programa de rádio. Como ele cumpria as promessas que fazia.
Eu fiquei atônito. Voltei a ser uma criança. Meu pau encolheu para o tamanho de um amendoim. Comecei a ver em mim cada defeito e nele cada virtude. Comecei a me sentir mal e a querer sair correndo. Meus olhos começaram a lacrimejar. Por sorte, a ligação já tinha terminado e o público tinha ficado satisfeito. Ninguém tinha percebido nada. Então camuflei minhas lágrimas fingindo um bocejo e fui ao banheiro. Lá dentro, quis fazer xixi mas não consegui, não tive vontade. Olhei para o meu pau e vi ele encolhido e enrugado. Pensei que o outro devia ser muito mais viril do que eu. Imaginei a Laura de quatro e ele metendo por trás, apressados, sem tirar a roupa, aproveitando o tempo em que eu não estava. Vi a cara de prazer dela e isso me deu nojo. Quis vomitar. mas não consegui, não sabia como fazer. Tive medo de me afogar no meu próprio vômito. Então só lavei o rosto com um pouco de água fria, sem sabão, e me olhei no espelho. Me vi feio, com a barba muito grande e com cara de otário, desarrumado. Ajeitei um pouco o cabelo, a barba e a gola da camisa, mas continuei com cara de otário. Pensei no outro, que era bonito e tinha carro novo. Pensei que devia pegar um táxi para chegar mais rápido em casa. E que Deus os tinha inventado para salvar minha vida. Mas que naquela viagem iria parte do pouco dinheiro que me restava até o fim do mês. Pensei que estava demorando muito no banheiro e que alguém poderia suspeitar, então dei descarga para disfarçar que não tinha feito nada. Quando estava prestes a sair, a produtora veio me buscar:
Vamos, o intervalo já está acabando. Conversa um pouco, se despede e a gente vai embora… Tudo bem?
Hã? Sim. Tudo ótimo. Por quê?
Não sei, te acho estranho.
Gostei que ela perguntou isso. Por um momento me imaginei separado da Laura e chorando no ombro da minha produtora. A imaginei em cima de mim me comendo como uma besta, repetindo: "sou sua puta, sou sua puta".
Devo estar um pouco cansado. Muito trabalho.
É, pode ser. Todos estamos assim.
É…
Disse eu e não soube mais o que falar. Não me ocorreu nada, nenhuma piada para preencher o silêncio. Mas acrescentei, quando ela já estava indo embora:
Se não te incomodar, entro no ar, me despeço, e a gente coloca música até cumprir o horário. Estou um pouco tonto.
Ela me olhou de forma compreensiva, como se soubesse o que estava acontecendo comigo e disse que sim, que não tinha problema. Quando ela foi embora, olhei sua bunda. Não era grande coisa, mas sempre dava para fazer algo.
Poucos segundos depois, estava sentado novamente no estúdio. Comecei a desligar meu computador e esperei me darem sinal. Quando o microfone foi ligado, falei sobre como tinha sido o programa, sobre o que faríamos no próximo e agradeci e me despedi. Uma música do Oasis começou a tocar e Esperei o microfone ser desligado. Tirei os fones de ouvido, guardei minhas coisas, me despedi de todo mundo e em menos de cinco minutos já estava na rua.
Caminhei até Corrientes e 9 de Julio e, chegando lá, parei um táxi. O primeiro que parei parou. Entrei no banco de trás. Sabia que se sentasse na frente teria que falar com o motorista e contar tudo que estava acontecendo comigo, até ouvir seus conselhos ou, pior ainda, suas desgraças. Então, depois de dar as coordenadas, abri a janela, apoiei a cabeça no batente e me perdi na paisagem. Ver a avenida entupida de carros, suas luzes, os prédios cinzas, a gente e todo o grande caos que era Buenos Aires me fazia sentir menos sozinho. Me fazia pensar que entre tantas almas andando por aí, errantes, eu não seria o único sofrendo por amor. As grandes cidades são sempre um refúgio para a solidão.
Minha cabeça funcionava como uma serra elétrica ou como o motor de um carro de corrida. Não parava de imaginar, de disparar imagens e desfechos possíveis. Me perguntei se era capaz de perdoar uma infidelidade e me respondi que sim. Me odiei por responder isso. Me perguntei se, nesse caso, era capaz de perdoá-la e entendi que sim, que o que tinha me doído de verdade era a vingança, aquele acerto de contas no meu próprio território, não a infidelidade em si.
Me imaginei chegando em casa e encontrando ela com o outro, os dois sentados na minha cama, ou na minha poltrona, assistindo minha TV e me dizendo que não dava mais, que ele sim cumpria as promessas e a ouvia e que, como para facilitar as coisas pra mim, ele mesmo tinha embalado todas as minhas coisas e se oferecia para me levar no carro dele. Me imaginei entrando no carro dele, resignado, como quando tinha que acompanhar minha mãe a algum lugar contra a minha vontade. Me imaginei encontrando uma calcinha da minha namorada no banco de trás. E o cara me dizendo: "Eu te dou, não se preocupa". Me imaginei com raiva, matando ele na porrada, quebrando o carro dele e rindo à toa. Me imaginei derrotado, arrependido por não ter cumprido todas as promessas que fiz para Laura. Me vi sozinho, triste e patético, então comecei a revisar os contatos do meu celular em busca de nomes femininos. Luciana, Samanta, Natalia, Juliana, Alejandra. Procurei em todas as letras. Quando tive alguns nomes aceitáveis, escrevi uma mensagem genérica, algo tipo: "oi, quanto tempo! Como anda sua vida?" e enviei para várias mulheres de uma vez. Se eu ia me separar da Laura, precisava encontrar alguém que me sustentasse enquanto a esquecia.
Quando finalmente cheguei em casa, vi que as luzes estavam acesas e dava pra ouvir música. Paguei o táxi e guardei o troco sem olhar. Tinha saído mais barato do que imaginei. Não fiquei feliz. Procurei a chave na minha bolsa, abri a porta e entrei. Subi a escada com medo. À medida que subia, a música ficava mais alta. Entre a música — que nunca soube se era Soda ou Cerati — dava pra ouvir Laura cantando. Não entendi como ela podia estar cantando naquela situação, então subi os poucos degraus que faltavam a toda velocidade e enfiei a chave para abrir a porta. Quando tentei abri-la, senti que a trava estava colocada por dentro e comecei a tocar a campainha que nem louco. De repente, a música parou e ouvi Laura dizendo: "Já vou, já vou, neném, tava na cozinha", e depois ouvi seus passos em direção à porta e a vadia chorando porque me reconheceu. Quando ela abriu a porta, a vi: tinha o cabelo preso, minha camiseta do Pink Floyd, um shorts minúsculo e branco que sempre me excitava e um par de chinelos com meias. Ela estava sorrindo.
— Que rápido você veio! Veio de táxi?
Ela disse sorrindo, enquanto ia para a cozinha e a vadia pulou em cima de mim, chorando e rebolando a bunda.
— Me explica o que acabou de acontecer.
Tirei a vadia de cima de mim. Ela se jogou no chão com as pernas pra cima, esperando que eu a acariciasse.
— A comida já está pronta. Põe a mesa?
Eu entrei e deixei minha bolsa no sofá. Uma ou duas mensagens me chegaram no celular. Não conferi. Achei que fosse alguma das gostosas que tinha trocado mensagem no táxi.
Você pode me explicar que porra acabou de acontecer, Laura?
Não vai me dizer que acreditou naquela ligação.
Você tá de sacanagem?
Não, não tô de sacanagem. Não me diga que você achou que o que eu falei na ligação era sério—Ela fez uma pausa. Ao ver minha cara de perplexidade, completou:—Sério mesmo que você acreditou?
Como assim, "sério mesmo que você acreditou"? Não entendo nada. Que porra tá acontecendo? Era uma brincadeira?
Ela começou a rir. Naquele momento entendi tudo. Como se de repente um vento tivesse batido no meu rosto, a resposta veio à mente: uma vingança. Uma vingança que não tinha a ver com uma traição, já que se ela tivesse feito, teria garantido que eu não descobrisse; essa vingança era mais próxima e tinha a ver com sua reclamação constante e minha desculpa ou, mais que minha desculpa, minha verdade, minha realidade, minha premissa de que tudo que acontecia no rádio, ou na literatura, era ficção, pura e exclusivamente ficção. Uma ficção que ela tinha que aguentar e que eu me encarregava de manter no tempo através de promessas não cumpridas.
Dessa vez a coisa tinha virado. Para ela, aquela ligação tinha sido ficção e diversão. Para mim, tinha sido realidade e sofrimento. Simplesmente não consegui ficar com raiva, ela tinha sido esperta, tinha me colocado no lugar dela e tinha me mostrado o que ela sentia e eu não conseguia entender.
Naquele momento a abracei, senti seu coração bater entre meus braços. Me senti forte e viril. Sortudo de tê-la conhecido e de tê-la ao meu lado. Senti meu pau crescer e com ele minha hombridade. Senti seu cheiro, tive vontade de apertá-la e a apertei bem forte, como sempre fazia toda vez que sentia aquela eletricidade percorrendo meu corpo e precisava descarregar, enfiá-la dentro do meu peito.
O táxi você vai pagar.
Eu disse e nós rimos. A putinha começou a pular em cima da gente, até que se pendurou na perna da Laura e começou a esfregar na coxa. Laura tirou ela de cima e Me pegando pela mão, ele me levou até a cozinha. Tinha feito hambúrgueres e comprado Coca-Cola.
No freezer tem sorvete.
Ele disse quando a gente terminasse de comer.
Sério mesmo?
Perguntei, felizão.
Sim. Meu pai trouxe.
Que foda seu velho!
Ficamos uns segundos em silêncio, pensativos. Até que do nada ela falou:
É uma boa história. Pode contar ela, ou fazer um conto.
Que história?
Essa, a nossa. A ligação pra rádio e o desfecho. Tudo.
É verdade. Tem razão.
Fiquei pilhado. E assim que terminei a última mordida, levantei e fui ligar o computador.
De novo vai escrever?
Ela me encarou.
Não, não. Só vou ligar o computador.
Te conheço. Nem termina a sobremesa e já vai escrever.
Ligo o computador e já volto.
Tirei o notebook da mochila, coloquei na mesa e liguei na tomada. Quando estava prestes a ligar, Laura apareceu do meu lado com meu celular na mão.
Seu celular tá tocando. É a Samanta. Quem é Samanta, Santiago? Pode me explicar?
Eu queria escrever. Terminar de trabalhar e escrever. Terminar de comer e escrever. Terminar de fazer amor e escrever. Não me importava com mais nada. Queria escrever o tempo todo, a toda hora, o dia inteiro. Laura, claro, me recriminava:
— Você trabalha escrevendo — ela dizia. — Não entendo como depois do trabalho você ainda quer continuar fazendo isso.
— Escrevo porque gosto, Laura. E além do mais, o que eu escrevo pro trabalho não é escrever de verdade; é só repetir o que outro pensou. Ainda não me pagam pra ter opiniões.
— É a mesma merda, Santiago!
— Não, não é a mesma coisa! Agora eu tô tipo uma puta que fica com tesão depois do expediente.
Falei como piada, mas ela não me ouviu, ou preferiu me ignorar.
— Você não entende o ponto! O que eu tô falando é que você passa mais horas na frente daquele computador do que comigo!
Era verdade. Eu ficava o dia todo na frente do computador. Escrevendo, construindo histórias. Conversando no chat e vendo fotos de mulheres no Facebook. Mas o que não era verdade era que eu fazia isso só porque gostava. Fazia também porque, assim, eu ganhava uma identidade. Um título de escritor, de artista. De algo que me deixasse um pouco mais satisfeito na hora de dar a mão e me apresentar pra alguém: Santiago Apenak, escritor. Porque identidade é aquilo que a gente fala depois do nome quando vai almoçar na casa da Mirta Legrand.
Laura e eu nos conhecíamos quatro anos antes, num fim de semana de janeiro, em frente à lagoa de Lobos. Ela, na época, tinha namorado, mas mesmo assim a gente se pegou. Ou melhor, passamos a noite deitados no chão, nos beijando, nos acariciando, olhando as estrelas, mas não chegamos a consumar o ato, propriamente dito.
Apesar do meu encantamento repentino — encantamento que, claro, não foi correspondido na hora — ela continuou no relacionamento e não me deu mais importância do que a de um amigo: a gente se via, conversava por telefone, mas Não passávamos disso. Às vezes, com sorte, ela me deixava beijá-la e lembrar do que havíamos vivido naquela noite, em frente à lagoa. Mas nada além disso. E eu morria de frio e solidão cada vez que a via se afastar.
De tanto sofrer por vê-la ir embora — e por ver outras que passaram no meio do caminho também irem — decidi ser eu a me afastar: um dia, enchi minha mochila com alguns exemplares do meu primeiro livro, várias mudas de roupa e uns trocados e peguei um trem pro Norte da Argentina. Fiquei vários meses viajando. Fingi ser espiritual. Peguei piolhos e uma crise de asma por fumar maconha na altitude. Me senti livre. Vendí artesanias. Vendí meu livro. E também troquei ele feliz por teto e comida. Me senti o eu Guevara. E me senti culpado por não ser, e porque vi injustiças e fiquei calado, parado: me senti um covarde. Tive frio. Fome. Vontade de voltar a ser pequeno e abraçar minha mãe. Tive mais asma. Tive vontade de chorar e chorei. Tive vontade de rir e ri. Tive vontade de transar com uma alemã loira de peitões enormes, mas não consegui. Lamentei não ter aprendido a falar alemão ou inglês ou qualquer idioma que me desse armas pra conquistar gringas que não falassem espanhol: me contentei com o que tinha. Aprendi a me contentar. Fiquei puto por aprender a fazer isso.
Também tive vontade de ver a Laura. Quis ligar pra ela, escrever um e-mail. Até que finalmente passei várias horas sentado na frente de um computador procurando coragem pra apagar o contato dela da minha lista de chat, e apaguei. Finalmente escrevi uma carta pra ela, à mão, mas queimei no topo de uma montanha coberta de neve. Me senti romântico e pensei em como um tema do Bryan Adams teria ficado lindo naquele momento. Me perguntei como a gente tinha chegado ao ponto de dar tanta importância a um contato do chat, mas não respondi. Lembrei das palavras "realidade virtual". E lembrei do meu psicólogo me sugerindo que vivesse mais "com os pés no chão", me dizendo que eu sofria de complexo de diretor de cinema: que eu gostava de inventar histórias, dirigir e ser o protagonista del roteiro. Às vezes, de contá-las. Quis ser o Woody Allen, mas não tinha minha Diane Keaton e meus óculos nem se pareciam com os dele.
Quis voltar. Não tinha grana e pedi dinheiro aos meus pais de uma cidade na Bolívia. Gastei a grana bebendo cerveja e tentando pegar outra alemã loira e peituda. Também não consegui, não tava com sorte. Então pedi dinheiro aos meus pais de novo e tive certeza de que me odiavam e sentiam vergonha de me ter como filho. Mesmo assim, mandaram a grana e finalmente pude voltar pra casa.
Ao voltar, tive vontade de ver a Laura. Me segurei. E como tinha aprendido a me contentar, comecei a namorar uma ex-colega do ensino médio. Fiz a mim mesmo acreditar que estava apaixonado. Aprendi a mentir pra mim mesmo.
Poucos meses depois, enquanto meu namoro fingido desmoronava e eu redigia um e-mail pra Laura engolindo meu orgulho palavra por palavra, um e-mail dela perguntando como eu estava chegou na minha caixa de entrada. Não me surpreendeu, essas coincidências de novela eram comuns entre a gente. Então, sem pensar muito, nos encontramos de novo e, dessa vez, também nos beijamos, nos acariciamos e falamos sobre coincidências e sobre o "amor de amigos". Mas não transamos. E eu me masturbei pensando nela quando cheguei em casa.
Naquela noite dormi feliz porque ela disse que tinha terminado com o namorado fazia um tempo, e eu respondi que se ela tinha me procurado, que assumisse o que sentia.
Começamos então a dormir um na casa do outro. Comemoramos meu aniversário. Ela conheceu minha família e eu conheci a dela. Fiquei nervoso e com vergonha. Começamos a ver filmes juntos e isso virou parte da nossa rotina diária. Eu ficava puto porque ela sempre, dez minutos depois de colocar o DVD, tinha que levantar pra fazer um chá. Perguntava por que ela não fazia antes se já sabia que íamos ver o filme. Ela não respondia e me oferecia chá e eu dizia que não e acabava comprando sorvete. Eu oferecia porque sabia que ela queria. Mas ela comia com culpa e me dizia que estava gorda, que não podia. Eu, claro, não negava, mas também não confirmava, e aproveitava pra comer tudo: ela insistia que eu me cuidasse e não comesse como um animal. Eu não dava bola.
A gente gostava de fazer compras juntos porque adorávamos brincar de ser um casal e fazer coisas de casal. Mesmo sem ter a menor ideia da responsabilidade que isso trazia. Limpar a casa era coisa de casal. E era uma aventura porque sempre limpávamos com música e eu aproveitava pra dançar, fazendo palhaçada, pra fazer o mínimo possível. Ela relevava.
Logo sentimos a necessidade de comprar uma cama de casal porque na cama dela já não cabíamos. E de quebra, compramos um sofá e uma mesinha de centro. Como eu passava a maior parte do tempo na casa dela, me vi obrigado a levar minha vadia Golden, já que não podia deixá-la sozinha tanto tempo. De repente, eu também parei de viver sozinho na minha casa e comecei a viver com ela na casa dela, onde antes ela morava sozinha. Agora vivíamos juntos: ela, eu, minha vadia Golden e a vadia dela.
Com o tempo, a convivência deixou de ser algo fantástico pra ser algo real. Já não fazíamos mais as compras juntos sempre. E ela não tolerava mais que eu dançasse enquanto limpávamos. Comecei a ter obrigações que ninguém nunca me disse que eu teria.
Na hora de comer, eu preferia hambúrgueres e Coca-Cola, e ela, milanesa de soja com polenta e água mineral. Eu não entendia como ela podia comer aquilo. E ela me repreendia porque dizia que eu não comia saudável. Discutíamos. Eu dizia que a soja estava destruindo o país. E ela me dizia que eu tinha os mesmos hábitos alimentares que o sobrinho dela de sete anos. Era verdade.
Com o tempo, ela começou a me recriminar — cada vez com mais veemência — por eu passar o dia todo escrevendo e não dar atenção suficiente quando ela me perguntava se aquela camiseta a deixava gorda, ou se aquela saia a... Ela estava ficando com um quadrilzão. Pra mim, ela sempre foi linda. Mas claramente o que ela reclamava era outra coisa.
Uma noite cheguei da rádio e a encontrei na porta de casa chorando e chutando a bunda de uns cachorros que se espojavam e tentavam deitar em cima das minhas roupas espalhadas na calçada.
"Você é um filho da puta", ela disse. "Eu aqui em casa sozinha e você no seu programinha de rádio ligando pra prostitutas pra perguntar os preços."
"É uma nova seção do programa, Laura. Uma zoeira."
"Com certeza você guardou os números e depois vai ligar pra elas pra pegar."
Comecei a rir.
"Não preciso pegar, Lau. São prostitutas."
"Vai embora da minha casa."
Tentei pensar em algo inteligente pra dizer, mas não me veio nada. Então recolhi minhas roupas e subi pro apartamento pra fazer a mala; meu plano era esperar ela se acalmar. Então o ritual foi o de sempre: ela chorava e me xingava da cozinha, enquanto eu ria de nervoso e fazia a mala o mais devagar possível, no quarto.
Depois de muitos xingamentos e reclamações, vendo que ela não se acalmava, disse tchau com a mala no ombro e saí batendo a porta. Tentando dar o máximo de drama possível. Como a conhecia, sentei na escada e esperei ela abrir a porta pra ver se eu ainda tava lá ou se tinha ido embora de verdade. Depois de alguns segundos, de fato ela abriu desesperada e nós dois começamos a rir.
"Viu que você não quer que eu vá?"
Abracei ela e sequei suas lágrimas. Depois ligamos pra locadora e pedimos uma porcaria japonesa que ela queria ver fazia tempo e eu liguei pra pizzaria e pedi empanadas e Coca-Cola. Isso era estar num relacionamento, negociar e entrar em acordo. Deixar as duas partes felizes: ela se sentiu culpada por comer tanta gordura e eu dormi meia hora depois do filme começar. Mas pelo menos tentamos.
Ela me fez prometer que não ia ligar mais pra nenhuma puta, nem ia fazer mais perguntas obscenas pra nenhuma gostosa. Eu prometi sabendo que ia Fiz mais por sair do que por convicção própria, mas fiz.
Algum tempo depois, aconteceu de novo. No programa, tínhamos uma seção onde fazíamos ligações aleatórias e, se alguém atendia, explicávamos que estávamos ligando para aumentar a audiência, já que ninguém nos ouvia. Se a pessoa se mostrava bem disposta, batíamos um papo. Embora nem sempre as pessoas reagissem bem, naquela noite tivemos sorte. A produtora discou um número qualquer e imediatamente atendeu uma mulher que, surpresa, disse que estava nos ouvindo.
Não sei se foi intuição ou simplesmente babação por causa da voz sensual dela, mas me deixei levar e imaginei que ela devia ser uma mulher impetuosa e comecei a fazer perguntas íntimas. Ela reagiu bem. Mostrou-se disposta e confortável no seu eventual papel de femme fatale. Não faltaram perguntas sobre os peitos dela ou sobre sexo lésbico. O papo terminou quinze minutos depois com uma música do Eric Clapton e com uma boa quantidade de mensagens masculinas, como nunca tínhamos tido antes. Fiquei feliz porque os ouvintes estavam felizes. E perguntei aos meus colegas como tinha ficado, se tinha sido divertido. Eles disseram que sim, só para me responder alguma coisa. E eu pensei na Laura, sabendo que ela poderia estar me ouvindo.
Quando cheguei em casa, Laura não estava. Ela tinha deixado um bilhete dizendo que eu era um filho da puta. Que não me aguentava mais. Que ia passar uns dias na casa da mãe até ficar um pouco mais calma. Não soube o que fazer. Pensei que se ela tinha escolhido ficar com a mãe em vez de ficar comigo, devia estar muito brava mesmo. Pensei em ir atrás dela, mas achei apropriado dar espaço para ela pensar com calma. E, ao mesmo tempo, achei que devia ir atrás para explicar que tudo era um jogo. Parte das ficções do rádio.
Não fiz nenhuma das duas coisas por decisão própria. Cinco minutos depois de chegar, recebi uma mensagem dela no celular dizendo para eu, por favor, não ir atrás dela. Que depois a gente conversava. E, sabendo o quão inútil eu parecia parado na frente da geladeira, tentando misturar as poucas coisas que tinha lá dentro para fazer uma refeição minimamente decente, recebi outra mensagem dela dizendo que no forno tinha uma torta de presunto e queijo. E que se eu precisasse de pratos, eles estavam na segunda prateleira do armário do meio. Me senti feliz por tê-la. E agradeci a Deus mesmo não sendo crente. Comi a torta inteira e tomei algumas cervejas. E me sentei no sofá para responder e-mails e ver TV.
No dia seguinte, acordei com o telefone. Olhei as horas. Eram meio-dia. Atendi disfarçando a voz de sono. Tinha vergonha de que a pessoa percebesse que eu estava dormindo. Era minha mãe:
— Oi, filho. Tava dormindo?
— Não. De jeito nenhum. Tava trabalhando.
— Você tá com voz de sono.
— Ah, é? Pode ser.
— É… Bom, vamos ver quando você vem ver seu pai, que ele quer te ver.
— Ela não queria me ver? Pra que me ligou?
— Essa semana eu vou aí porque tenho que levar umas coisas para o canal.
— E como tá indo isso?
— Bem. Trabalho muito e ganho pouco. Você sabe como é.
— Ai, filho. Com essa história de “direito de piso” eles abusam… Até quando você vai pagar direito de piso?
— Até eu ter talento, suponho.
Minha mãe riu e disse que seria bom se um dia essas piadas me dessem de comer. Eu fiz outra piada por não saber o que responder e disse que tinha que continuar trabalhando. Perguntei se eu podia levar algumas peças de roupa para ela passar e ela disse que levasse, e que comprasse um ferro de passar para a Laura.
Depois de combinar com minha mãe a gente se ver, me levantei e preparei um achocolatado. Revisei meu e-mail, ouvi música e terminei um trabalho que precisava ser finalizado. Às três da tarde não sabia o que fazer. Revisei meus e-mails de novo, escrevi piadas, me masturbei para não ficar entediado e liguei para um dos caras da rádio para comentar novas ideias. Logo comecei a ficar impaciente porque a Laura não chegava, não ligava. nem me mandava uma mensagem para me xingar. Quis ligar pra ela, mas pensei em respeitar o espaço dela. Me perguntei o que é respeitar o espaço do outro, onde terminava meu espaço e começava o dela. Me perguntei se ela, por não entender que o que eu fazia no rádio era ficção — parte de um jogo tácito que rolava com os ouvintes — não estava respeitando meu espaço. Claro que não respondi a mim mesmo e liguei pra perguntar. Quando atendeu, me disse que estava a duas quadras de casa, que vinha pra conversar. Duas quadras? Não dava mais tempo de arrumar nada. O que tinha pra conversar? Por que sempre tinha que conversar sobre alguma coisa? Fiquei com medo. Senti a mesma sensação de quando a diretora da escola me chamava na sala. Por que tinha que encarar os problemas?
Como conhecia ela, tirei a putinha da cama e sacudi os pelos dela. Amarrei o saco de lixo e juntei as migalhas que estavam sobre a mesa. Passei perfume e pentei o cabelo com os dedos. "Deve estar a uma quadra", pensei. "Não vou dar tempo". Juntei os copos e pratos sujos e levei pra cozinha. Queria que ela me encontrasse lavando.
Esperei ouvir a chave na porta, seus passos, depois vê-la entrar na cozinha e finalmente abraçá-la. Ver a putinha balançar a bunda e se jogar em cima da gente como sempre fazia quando a gente se abraçava. Mas lembrei que tinha deixado ela no quintal, então trouxe pra dentro pra aproveitar aquele momento. A gente achava fofo ver que ela também abraçava a gente. Esperei, esperei e esperei. "Duas quadras? Já devia ter chegado", pensei. Até que ouvi a campainha e fiquei feliz. Não só porque ela já estava em casa, mas porque toda vez que tocava a campainha, era porque tinha esquecido a chave. E isso, esse esquecer a chave, esse tocar a campainha com culpa — sabendo que me irritava demais — era parte do nosso mundo. Eram esses detalhes mínimos que eu tinha aprendido a amar nela.
Como a gente morava no primeiro andar de frente pra rua, abri a janela e joguei a chave. Como sempre, ela não pegou e deixou cair no chão. Laura, tá difícil pegar a chave? Vai quebrar.
Vai machucar minha mão. Além disso, não vai acontecer nada com ela. Não vai quebrar.
Vai sim. E quando quebrar, você vai chamar o chaveiro e vai pagar do seu bolso.
Ai, não exagera, meu bem… e se acontecer alguma coisa, eu pago.
Não tô exagerando. Você que exagera. É uma chave, não um tijolo.
A última frase que falei ela nem chegou a ouvir, já tinha entrado no prédio. Agora sim, pude ir pra cozinha, fingir que lavava as coisas e esperar pra vê-la entrar do jeito que eu queria. Quando entrou, a primeira coisa que lembrei foi que na nota ela tinha escrito que ia pra casa da mãe por uns dias: tinha passado só um.
Pensei que você ia vir daqui a uns dias.
Falei, e entendi que não era o comentário mais apropriado, porque ela podia achar que eu não queria que ela viesse.
O que, não queria que eu viesse?
Como te conheço, filha da puta!… Claro que queria que você viesse. Como não vou querer que você volte pra casa? Só falei porque me chamou a atenção.
Óbvio. É minha casa também. Posso vir quando quiser, sabe?
Ela serviu água.
Já sei que é sua casa também. Mas pensei que… Bom. Não importa…
Ficamos alguns segundos em silêncio, até que ela quebrou com raiva:
Me dá uma raiva! Sabe? Me dá raiva te ouvir falando com essas minas! O que, tá com tesão? Quer pegar elas?
Lembrei do personagem do Capusotto falando “miniiiiiiiiiitas” e me deu um ataque de riso que não consegui disfarçar.
Do que você tá rindo?
De nada, Lau. É que fico nervoso e dou risada. Você me conhece.
Ela me olhou com ódio.
Me dá muita raiva você falar assim no rádio. Igual quando escreveu aquele romance que falava da sua ex.
De novo com isso! Não falava da minha ex, Lau. Não falava de ninguém em especial. Era um romance. Uma ficção… Tá bom, admito, tava, sei lá, inspirado em algo real, mas só isso. Não significa que eu sinta saudade. Ou ame. Ou que seja sublime. Não significa nada. Era uma ficção, igual no rádio.
Não, não é a mesma coisa. Porque você passava horas escrevendo como a queria, e descrevia tudo igual ao que me contava quando ainda não éramos namorados.
Por que caralho eu tinha aberto a boca quando ainda éramos amigos? Eu devia aprender a calar a boca, ou que as mulheres têm muito mais memória que os homens.
Era um personagem! Um alter ego! Pelo amor de Deus, Laura!
Um personagem? Sua ex se chama Mariana e você colocou Marina no personagem! Você é um imbecil!
Não soube o que responder. Ela tinha razão; eu tinha colocado Marina no personagem, minha ex se chamava Mariana e eu era um imbecil. Fiquei em silêncio. Ela retomou:
Não sei. Me dá muita raiva, Santiago. Não consigo acreditar em você. É muito difícil confiar. Me deixa louca que em todos os seus textos você fode uma gostosa.
Eu não fodo ninguém!
Você ou seus putos personagens, é a mesma coisa!
Ela começou a chorar. A puta pulou nela e se agarrou na sua perna, para fazer com ela seu ato sexual.
Sai!
Ela tirou a gata de cima. Eu comecei a rir.
Lau. Já chega. Discutimos isso mil vezes. Você sabe que não acontece nada, meu amor.
Mas me dá raiva.
Eu sei que te dá raiva. Mas realmente não acontece nada. É parte do programa. Isso, ou a novela. Ou seja o que for. É parte de um personagem. De uma ficção.
Isso era uma meia verdade. Quase tudo que eu fazia, dizia ou escrevia, era baseado na realidade. Mas isso não significava que fosse real ou que eu estivesse envolvido sentimentalmente. Às vezes eu estava e outras não. Mas era algo relativo. Dava para viajar ao passado para lembrar de algo sentido com o simples propósito de expressar na hora de narrar, e depois voltar ao presente e se livrar daquele sentimento. Ela não acreditava que eu conseguisse fazer isso, nem que pudesse perguntar a uma gostosa se tinha peitos grandes ou se já tinha transado com uma mulher e não ficar excitado.
Mas não gosto que você fale com mulheres no programa. Nem que chame prostitutas para perguntar os preços.
Já te falei que é tudo parte do programa. Você quando atua e tem que beijar a Alguém, eu não fico bravo… Ou fico sim. Mas eu entendo e não falo nada. Porque você tá atuando.
Mas o que eu faço é sério! O teatro é algo milenar! O que você faz não é rádio, é fazer palhaçada na frente de um microfone!
Isso me ofendeu. Mas preferi ficar quieto e não abrir outra frente na discussão. Não queria passar os próximos duzentos e cinquenta mil anos brigando. Viver a dois era assim. O mundo funcionava assim. Se eu atacasse com alguma coisa, ela tinha que atacar com algo pior. Se eu revidasse com algo ainda pior, ela tinha que tirar de onde fosse um golpe ainda mais certeiro. Era assim. Com a competição de recriminações acontecia a mesma coisa. Ela procurava nos anais da relação, a lembrança de uma mulher que três anos atrás eu tinha olhado enquanto caminhávamos pela avenida Corrientes. E eu tinha que revirar quase sem sucesso nas gavetas bagunçadas da minha memória, até achar alguma coisa para apresentar a um juiz invisível que ditava quem era mais culpado. O problema era que eu nunca achava nada e que ela era uma especialista em acumular e arquivar recriminações.
Olha, Laura. Pra mim é sério o que eu faço. Eu dou o melhor de mim e isso conta. – Fiquei calado um instante e depois disse a maior besteira que podia dizer pra Laura – Além do mais, se eu for te trair não vou te trair no rádio, ao vivo e com tanta gente escutando.
Você é um babaca! Ou seja, me trairia mas escondido…
Não foi isso que eu quis dizer! Quis dizer que se eu quisesse fazer, teria feito, mas que não tenho necessidade de procurar gostosinhas no rádio!
Como assim se você quisesse…?
Chega, Laura, já deu! – A interrompi – Não vamos continuar, isso é uma bobagem.
Continuamos discutindo por um tempo. Aos poucos fomos nos acalmando e eu prometi que não faria mais essas ligações no rádio. Ela continuou chorando e assoou o nariz numa camiseta do Pink Floyd que eu tinha deixado sobre a escrivaninha. Disse que ela era uma nojenta e rimos quando a putinha pulou em cima da gente. nos abraçamos. Depois, fizemos amor. Tomamos banho juntos e eu disse a ela que essa história de tomar banho junto não era nada romântico e era uma mentira que a gente tinha que desmascarar, já que enquanto um ficava debaixo do chuveiro, o outro tinha que esperar do lado ensaboado e morrendo de frio.
Depois do banho, tomamos mate e fomos fazer compras juntos, enquanto passeávamos com a putinha.
Eu ficava empolgado com coisas bobas. Estava feliz porque havíamos comprado guloseimas para a sobremesa e porque tinha conseguido um disco do Benny Carter que ouviríamos durante o jantar. Contei tudo sobre o disco e sobre os benefícios de ouvir jazz enquanto se janta em um dia de chuva.
A convivência tinha deixado de ser algo fantástico para se tornar algo real. E esse algo real, com tudo o que isso implicava, era a coisa mais fantástica que podia nos acontecer. Naquela noite, tivemos um jantar romântico. Pedimos comida de fora. Mas não foram nem empadas nem milanesa de soja. Pedimos algo que agradasse aos dois. E usamos umas velas que encontramos em uma gaveta da cozinha, que sobraram de algum aniversário. A noite acabou maravilhosa. Terminamos de jantar e fizemos amor à luz de uma vela de setenta e quatro meio derretida, ao som do sopro magnífico do saxofone do Benny Carter. Até que ela se cansou de tanto jazz meloso e botou Fito, enquanto me dizia que, quando eu desse bobeira, ela ia jogar fora aquela cueca surrada que já não aguentava mais de tanto buraco.
Duas semanas depois, enquanto estava na rádio, aconteceu de novo, mas dessa vez o desfecho foi diferente: Uma ouvinte ligou e, sem rodeios, novamente perguntei se ela tinha peitos grandes ou se realmente tinha feito sexo lésbico, se tinha feito um ménage, se caso fosse fazer de novo preferiria dois homens ou mulheres. Ela me contou tudo, eu fiquei um pouco excitado.
De novo, durante o intervalo, perguntei aos meus colegas como tinha saído a entrevista, se tinha sido divertida, e eles me disseram que sim, as mensagens não paravam. E eu voltava a pensar na Laura, que certamente estaria ouvindo. Então liguei pro celular dela, mas ela não atendeu. Liguei pra casa dela, mas também não. Quando eu tentava fazer uma terceira ligação – de novo pro celular dela, caso antes ela não tivesse conseguido me atender – a produtora me avisou que em dez segundos a gente voltava ao ar. Então eu deixei meu celular de lado e esperei a luz vermelha acender. Falei das notícias do dia, de qual era o melhor jeito de fazer um ovo frito, de como conseguir dormir bem num ônibus, e de novo falei qual era o número que os ouvintes podiam ligar. Imediatamente, outro chamado entrou pra ir ao ar: "Atende que é uma mina", me disse a produtora. "Ela diz que quer contar como trai o namorado. Se você fizer ela entrar na confiança, ela conta tudo". "Sim", eu disse com a cabeça e atendi sem questionar. Quando ouvi a voz do outro lado, reconheci a voz da Laura, minha Laura, e quis não ter atendido e não ter nascido. Senti frio e vontade de voltar no tempo. Mas tive que atender, não tinha outra. Essa era a regra; não dizer não, dizer sempre sim. Aceitar, e com o que as circunstâncias nos apresentassem, construir ficção. Ainda que dessa vez, eu soubesse que não era:
Então você liga porque tem coisas pra contar?
Sim, tenho muitas coisas pra contar.
Tipo o quê? Começa me dizendo de onde você é.
Não importa de onde eu sou. O que importa é o que importa pra você. O que você pergunta pra todas as ouvintes.
Isso era muito ela. Entendi a reclamação disfarçada, mas não pude questionar nada. Tive que seguir em frente com a farsa.
E o que é que importa pra mim, então?
Não sei. Você não quer saber como são meus peitos, ou se eu já me deitei com alguma mulher? Você não gostaria que eu te contasse como eu engano meu namorado quando ele não tá?
Não, eu não queria saber. Dava vontade de vomitar só de pensar. Medo, frio, asma, tosse e pigarro, vertigem. Mas ao mesmo tempo sim, eu queria. Queria saber tudo. Cada detalhe. E me dava É foda querer saber e ter que continuar com essa farsa. As mensagens dos ouvintes homens começaram a chegar, sugerindo que eu fizesse todo tipo de perguntas obscenas. Eu queria matar todos eles. Um por um, se fosse necessário. Eles estavam falando da minha namorada, minha parceira, a mulher com quem eu dormia todas as noites. A que me abraçava como um ventre materno quando eu chorava em posição fetal porque o mundo não era aquele que eu sonhava quando criança. Era ela, era a Laura. A mesma que mil vezes me fez sair da cama no meio da noite (pelado e morrendo de frio) porque tinha ouvido um barulho estranho no quintal. A mesma que uma vez me chamou gritando e chorando da cozinha, me fazendo levantar da cama (pelado e morrendo de frio) porque tinha levado um choque ao abrir a geladeira descalça. A que uma noite me fez percorrer todos os dentistas de plantão da cidade porque estava com dor de dente. Enquanto eu a abraçava e consolava, ao mesmo tempo que xingava ela, porque no dia seguinte eu tinha que acordar cedo. A mesma que me xingava e me consolava quando a dor de dente era minha. A mesma com quem a gente se virava de outro jeito quando o sexo convencional não era possível. A que também me fez passar uma tarde inteira em todas as lojas de roupas hindus que fossem possíveis, só para conseguir aquela peça que parecesse hindu, mas que ao mesmo tempo não parecesse tanto. A mesma que, ao chegar em casa e se provar no espelho pela vigésima vez, começou a chorar dizendo que não gostava de como ficava nela. Aquela que se levantava para fazer um chá dez minutos depois do filme começar. A que me repreendia porque dizia que eu não comia saudável. A mesma que ficava brava porque eu não juntava nem a roupa, nem a toalha, nem a espuma, nem o barbeador quando eu tomava banho. Enquanto que, quando eu não estava, ela cheirava minha loção de barbear e minhas camisetas para não sentir tanta saudade. A mesma para quem eu contava tudo, até que aprendi que havia certas coisas que não eu tinha que contar pra ela. A mesma que me ouvia igual quando eu não queria ser ouvido. A mesma que gostava de ouvir que eu sempre queria ouvi-la. A mesma que eu amava, e que tinha começado a se sentir sozinha porque eu passava o dia todo escrevendo. A mesma que agora, no meu próprio programa de rádio, estava prestes a contar como me traía.
Eu sabia que aquilo era uma vingança. Ela tinha me avisado antes. Tinha me dado algum sinal que eu não soube entender. Estava me dizendo: "Preciso que você me dê mais atenção! Para de pensar em você por um momento!". Eu era acusado de ter parado de ouvi-la e agora, como se fosse uma condenação, não só eu tinha que ouvi-la, mas todos os ouvintes do rádio.
Naturalmente, o único que sabia que estava falando com Laura – minha Laura – era eu. O resto da equipe do programa, e claro, os ouvintes, não sabiam. Então, sem mais, agindo como um herói ou um imbecil, engolindo as vontades de chorar e sair correndo pra casa pra pedir explicações, conhecer a cruel verdade e me jogar no sofá pra chorar em posição fetal, continuei com a ligação:
– Então você tem muitas coisas pra contar?
– Sim, muitas.
– Comece, então, contando como você é.
– Linda, muito linda. Eu acho que se você me visse, se apaixonaria por mim.
– Você acha?
– Sim.
– E como você é?
– Como eu sou… Alta, magra, cabelo castanho… me pareço com uma personagem do seu livro.
Não soube o que responder. Tive medo que ela dissesse a que personagem se referia, de que conto, e que alguém da equipe pudesse perceber que se tratava de Laura, minha Laura. Quanto à voz dela, sabia que nenhum conhecido poderia perceber, já que, por mais familiar que pudesse soar, ninguém associaria Laura, minha Laura, com essa Laura. Ou seja, ninguém poderia imaginar que minha Laura estivesse me fazendo aquilo.
– Ah, é mesmo? E você gosta de ler?
– Sim, gosto muito de ler.
Laura gostava muito de ler, vivia lendo. Poesia e ensaios. Ficção ela não gostava. Talvez por isso não entendia o que eu fazia no rádio. Talvez por isso ela estava fazendo o que estava fazendo comigo. Tentei levar a conversa para o lado da poesia e do cinema. Terminar logo. No entanto, a produtora, a operadora e meus outros colegas de rádio começaram a me olhar sem entender o que eu estava fazendo. Então, através do retorno, de gestos incompreensíveis como mímicas desajeitadas, de bilhetes escritos rapidamente e trazidos para o estúdio em silêncio, de cartazes com caneta em folhas de caderno, eles começaram a me mandar perguntas que eu devia fazer e a guiar a conversa para o lado que interessava a eles e, claro, a todos os ouvintes.
Ela me contou que aproveitava cada vez que eu saía por um bom tempo para se reencontrar com aquele velho amor que ela já tinha tido. Me contou como eles faziam na cama. Como ele ouvia o que supostamente não me importava mais. Como eles riam. Como falavam de mim e da namorada dele. Como saíam. Como ele a levava para passear naquele carro novo que eu não tinha. Como ele trabalhava em um emprego onde não precisava perguntar às mulheres se tinham peitos grandes ou se já tinham transado com alguma mulher. Como ele não chamava prostitutas para fazer um programa de rádio. Como ele cumpria as promessas que fazia.
Eu fiquei atônito. Voltei a ser uma criança. Meu pau encolheu para o tamanho de um amendoim. Comecei a ver em mim cada defeito e nele cada virtude. Comecei a me sentir mal e a querer sair correndo. Meus olhos começaram a lacrimejar. Por sorte, a ligação já tinha terminado e o público tinha ficado satisfeito. Ninguém tinha percebido nada. Então camuflei minhas lágrimas fingindo um bocejo e fui ao banheiro. Lá dentro, quis fazer xixi mas não consegui, não tive vontade. Olhei para o meu pau e vi ele encolhido e enrugado. Pensei que o outro devia ser muito mais viril do que eu. Imaginei a Laura de quatro e ele metendo por trás, apressados, sem tirar a roupa, aproveitando o tempo em que eu não estava. Vi a cara de prazer dela e isso me deu nojo. Quis vomitar. mas não consegui, não sabia como fazer. Tive medo de me afogar no meu próprio vômito. Então só lavei o rosto com um pouco de água fria, sem sabão, e me olhei no espelho. Me vi feio, com a barba muito grande e com cara de otário, desarrumado. Ajeitei um pouco o cabelo, a barba e a gola da camisa, mas continuei com cara de otário. Pensei no outro, que era bonito e tinha carro novo. Pensei que devia pegar um táxi para chegar mais rápido em casa. E que Deus os tinha inventado para salvar minha vida. Mas que naquela viagem iria parte do pouco dinheiro que me restava até o fim do mês. Pensei que estava demorando muito no banheiro e que alguém poderia suspeitar, então dei descarga para disfarçar que não tinha feito nada. Quando estava prestes a sair, a produtora veio me buscar:
Vamos, o intervalo já está acabando. Conversa um pouco, se despede e a gente vai embora… Tudo bem?
Hã? Sim. Tudo ótimo. Por quê?
Não sei, te acho estranho.
Gostei que ela perguntou isso. Por um momento me imaginei separado da Laura e chorando no ombro da minha produtora. A imaginei em cima de mim me comendo como uma besta, repetindo: "sou sua puta, sou sua puta".
Devo estar um pouco cansado. Muito trabalho.
É, pode ser. Todos estamos assim.
É…
Disse eu e não soube mais o que falar. Não me ocorreu nada, nenhuma piada para preencher o silêncio. Mas acrescentei, quando ela já estava indo embora:
Se não te incomodar, entro no ar, me despeço, e a gente coloca música até cumprir o horário. Estou um pouco tonto.
Ela me olhou de forma compreensiva, como se soubesse o que estava acontecendo comigo e disse que sim, que não tinha problema. Quando ela foi embora, olhei sua bunda. Não era grande coisa, mas sempre dava para fazer algo.
Poucos segundos depois, estava sentado novamente no estúdio. Comecei a desligar meu computador e esperei me darem sinal. Quando o microfone foi ligado, falei sobre como tinha sido o programa, sobre o que faríamos no próximo e agradeci e me despedi. Uma música do Oasis começou a tocar e Esperei o microfone ser desligado. Tirei os fones de ouvido, guardei minhas coisas, me despedi de todo mundo e em menos de cinco minutos já estava na rua.
Caminhei até Corrientes e 9 de Julio e, chegando lá, parei um táxi. O primeiro que parei parou. Entrei no banco de trás. Sabia que se sentasse na frente teria que falar com o motorista e contar tudo que estava acontecendo comigo, até ouvir seus conselhos ou, pior ainda, suas desgraças. Então, depois de dar as coordenadas, abri a janela, apoiei a cabeça no batente e me perdi na paisagem. Ver a avenida entupida de carros, suas luzes, os prédios cinzas, a gente e todo o grande caos que era Buenos Aires me fazia sentir menos sozinho. Me fazia pensar que entre tantas almas andando por aí, errantes, eu não seria o único sofrendo por amor. As grandes cidades são sempre um refúgio para a solidão.
Minha cabeça funcionava como uma serra elétrica ou como o motor de um carro de corrida. Não parava de imaginar, de disparar imagens e desfechos possíveis. Me perguntei se era capaz de perdoar uma infidelidade e me respondi que sim. Me odiei por responder isso. Me perguntei se, nesse caso, era capaz de perdoá-la e entendi que sim, que o que tinha me doído de verdade era a vingança, aquele acerto de contas no meu próprio território, não a infidelidade em si.
Me imaginei chegando em casa e encontrando ela com o outro, os dois sentados na minha cama, ou na minha poltrona, assistindo minha TV e me dizendo que não dava mais, que ele sim cumpria as promessas e a ouvia e que, como para facilitar as coisas pra mim, ele mesmo tinha embalado todas as minhas coisas e se oferecia para me levar no carro dele. Me imaginei entrando no carro dele, resignado, como quando tinha que acompanhar minha mãe a algum lugar contra a minha vontade. Me imaginei encontrando uma calcinha da minha namorada no banco de trás. E o cara me dizendo: "Eu te dou, não se preocupa". Me imaginei com raiva, matando ele na porrada, quebrando o carro dele e rindo à toa. Me imaginei derrotado, arrependido por não ter cumprido todas as promessas que fiz para Laura. Me vi sozinho, triste e patético, então comecei a revisar os contatos do meu celular em busca de nomes femininos. Luciana, Samanta, Natalia, Juliana, Alejandra. Procurei em todas as letras. Quando tive alguns nomes aceitáveis, escrevi uma mensagem genérica, algo tipo: "oi, quanto tempo! Como anda sua vida?" e enviei para várias mulheres de uma vez. Se eu ia me separar da Laura, precisava encontrar alguém que me sustentasse enquanto a esquecia.
Quando finalmente cheguei em casa, vi que as luzes estavam acesas e dava pra ouvir música. Paguei o táxi e guardei o troco sem olhar. Tinha saído mais barato do que imaginei. Não fiquei feliz. Procurei a chave na minha bolsa, abri a porta e entrei. Subi a escada com medo. À medida que subia, a música ficava mais alta. Entre a música — que nunca soube se era Soda ou Cerati — dava pra ouvir Laura cantando. Não entendi como ela podia estar cantando naquela situação, então subi os poucos degraus que faltavam a toda velocidade e enfiei a chave para abrir a porta. Quando tentei abri-la, senti que a trava estava colocada por dentro e comecei a tocar a campainha que nem louco. De repente, a música parou e ouvi Laura dizendo: "Já vou, já vou, neném, tava na cozinha", e depois ouvi seus passos em direção à porta e a vadia chorando porque me reconheceu. Quando ela abriu a porta, a vi: tinha o cabelo preso, minha camiseta do Pink Floyd, um shorts minúsculo e branco que sempre me excitava e um par de chinelos com meias. Ela estava sorrindo.
— Que rápido você veio! Veio de táxi?
Ela disse sorrindo, enquanto ia para a cozinha e a vadia pulou em cima de mim, chorando e rebolando a bunda.
— Me explica o que acabou de acontecer.
Tirei a vadia de cima de mim. Ela se jogou no chão com as pernas pra cima, esperando que eu a acariciasse.
— A comida já está pronta. Põe a mesa?
Eu entrei e deixei minha bolsa no sofá. Uma ou duas mensagens me chegaram no celular. Não conferi. Achei que fosse alguma das gostosas que tinha trocado mensagem no táxi.
Você pode me explicar que porra acabou de acontecer, Laura?
Não vai me dizer que acreditou naquela ligação.
Você tá de sacanagem?
Não, não tô de sacanagem. Não me diga que você achou que o que eu falei na ligação era sério—Ela fez uma pausa. Ao ver minha cara de perplexidade, completou:—Sério mesmo que você acreditou?
Como assim, "sério mesmo que você acreditou"? Não entendo nada. Que porra tá acontecendo? Era uma brincadeira?
Ela começou a rir. Naquele momento entendi tudo. Como se de repente um vento tivesse batido no meu rosto, a resposta veio à mente: uma vingança. Uma vingança que não tinha a ver com uma traição, já que se ela tivesse feito, teria garantido que eu não descobrisse; essa vingança era mais próxima e tinha a ver com sua reclamação constante e minha desculpa ou, mais que minha desculpa, minha verdade, minha realidade, minha premissa de que tudo que acontecia no rádio, ou na literatura, era ficção, pura e exclusivamente ficção. Uma ficção que ela tinha que aguentar e que eu me encarregava de manter no tempo através de promessas não cumpridas.
Dessa vez a coisa tinha virado. Para ela, aquela ligação tinha sido ficção e diversão. Para mim, tinha sido realidade e sofrimento. Simplesmente não consegui ficar com raiva, ela tinha sido esperta, tinha me colocado no lugar dela e tinha me mostrado o que ela sentia e eu não conseguia entender.
Naquele momento a abracei, senti seu coração bater entre meus braços. Me senti forte e viril. Sortudo de tê-la conhecido e de tê-la ao meu lado. Senti meu pau crescer e com ele minha hombridade. Senti seu cheiro, tive vontade de apertá-la e a apertei bem forte, como sempre fazia toda vez que sentia aquela eletricidade percorrendo meu corpo e precisava descarregar, enfiá-la dentro do meu peito.
O táxi você vai pagar.
Eu disse e nós rimos. A putinha começou a pular em cima da gente, até que se pendurou na perna da Laura e começou a esfregar na coxa. Laura tirou ela de cima e Me pegando pela mão, ele me levou até a cozinha. Tinha feito hambúrgueres e comprado Coca-Cola.
No freezer tem sorvete.
Ele disse quando a gente terminasse de comer.
Sério mesmo?
Perguntei, felizão.
Sim. Meu pai trouxe.
Que foda seu velho!
Ficamos uns segundos em silêncio, pensativos. Até que do nada ela falou:
É uma boa história. Pode contar ela, ou fazer um conto.
Que história?
Essa, a nossa. A ligação pra rádio e o desfecho. Tudo.
É verdade. Tem razão.
Fiquei pilhado. E assim que terminei a última mordida, levantei e fui ligar o computador.
De novo vai escrever?
Ela me encarou.
Não, não. Só vou ligar o computador.
Te conheço. Nem termina a sobremesa e já vai escrever.
Ligo o computador e já volto.
Tirei o notebook da mochila, coloquei na mesa e liguei na tomada. Quando estava prestes a ligar, Laura apareceu do meu lado com meu celular na mão.
Seu celular tá tocando. É a Samanta. Quem é Samanta, Santiago? Pode me explicar?
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