—Tá bom —digo—, me conta. Preciso saber, porque tô ficando louca, qual é a perversão especial do Marcus?
—Ele gosta de fazer no escuro.
Meu coração cai no chão. Marcus parece mortalmente normal.
—Pensei que você tinha dito que ele era um esquisito. E isso não parece muito esquisito.
—Espera, deixa eu terminar —ela diz—. Num armário. Ele gosta de fazer dentro de um armário.
Ainda não me convence, e eu franzo um pouco a testa.
—Ele é muito tímido, de verdade —diz Anna, percebendo minha decepção.
Marcus tem um armário enorme no apartamento dele e, como tudo naquela casa —grande, escura e quase sem decoração—, é velho, gasto e a madeira é antiga.
—Não tem nada confortável nem acolhedor no apartamento —Anna me conta—. Nem sofá, nem travesseiro, nem almofada no chão, nem tapete, nem cortina nas janelas.
—Nem uma cama? —pergunto.
—Ele dorme num colchão no chão, mas nunca transamos lá —diz Anna—. E uma vez abri a geladeira —ela continua—, e tava quase vazia. Só tinha chá. Não folhas de chá, saquinhos de chá. Uma caixa de saquinhos de chá tamanho família. Não tinha gozo.
Anna me conta que, embora no apartamento do Marcus não tenha nem móveis nem comida, tem uma coisa que não falta: livros e jornais.
—Tem livro em cada centímetro das estantes que cobrem as paredes do chão ao teto —ela diz—. Tão organizados meticulosamente por tema: cinema e sexo, arte e religião, psicologia e medicina. E quando não cabe mais nas estantes, ele começa a empilhar no chão, em cima das mesas, das cadeiras, igual aquela gente que não joga nada fora e ocupa cada canto disponível.
»Além disso, onde não tem estante, as paredes são cobertas de obras de arte. Arte erótica. Nada muito pornográfico —diz Anna—, só uns quadros sacanas e estranhos.
Anna me fala de fotos borradas de casais transando que parecem pinturas do Francis Bacon. Cenas de rua com putas. HQs lascivas. Coisas que não parecem arte erótica —colagens densas, que não param de Crescer com recortes de jornais e revistas, de rostos, lugares e objetos — mas que sem dúvida têm um significado erótico para Marcus. E coisas reconhecíveis para qualquer um.
Anna diz que há dois quadros em particular que chamaram mais a atenção dela do que qualquer outro. Estão pendurados em paralelo numa pequena alcova bem na entrada: você tromba com eles assim que entra, e sempre que vai ver Marcus, ela fica parada ali olhando para eles por um tempo.
Um é de duas mulheres deitadas uma ao lado da outra de um jeito que a curvatura dos corpos delas forma um par de lábios. As duas usam cinta-liga e meias, e têm peitos arredondados com bicos como cerejas.
— Uma delas usa um véu preto e se parece com você — me diz Anna.
— Como assim?
— Uma morena, com um sorriso doce e sexy. — Ela pisca um olho pra mim.
Anna está flertando comigo e não sei como levar isso. Sinto que fico vermelho e espero que ela não perceba.
— A outra — continua — não tem cabeça. Onde deveria estar a cabeça, há dois braços que emergem do fundo preto do quadro como patas de caranguejo e apertam os bicos dela como pinças.
Ela me diz que o outro quadro é tão estranho que é difícil de descrever. No começo, parecem três corpos femininos com meias de rede enroscados num ménage à trois. Quando você olha melhor, vê que tem partes do corpo masculino misturadas com as femininas. Órgãos sexuais e membros que surgem de onde não deviam. Mãos fantasmagóricas que empurram, puxam e apalpam. É tudo meio perturbador, diz Anna, como se estivesse olhando para um corpo feito de muitos outros e de sexo indefinido.
Enquanto ela fala do quadro, começo a pensar que, durante todo esse tempo, a sexualidade de Marcus foi um mistério pra mim, mas nunca questionei a orientação sexual dele, nem sequer pensei nisso.
— Marcus é gay ou bi? — solto de repente.
— Ah, não — diz Anna —, acho que não. Ele só é muito, mas muito estranho.
Com certeza parece. Uma casa sem móveis, nem... comida, só
livros, jornais e arte erótica. Como se Marcus se sentisse confortável na
austeridade. Como se o cérebro dele fosse tão ocupado que não tivesse
tempo pra se preocupar com o corpo. E isso me parece ótimo. Porque eu
só quero que o cérebro dele me coma.
Anna diz que, toda vez que se encontram, duas vezes por mês,
acontece sempre a mesma coisa entre eles. Marcus tem tudo planejado, até
o último detalhe, e espera que tudo seja feito exatamente como programado,
como um ritual.
Ele manda ela ir num horário específico.
— Não posso me atrasar — diz Anna —. Nem um minuto, nem
trinta segundos. Sempre chego na hora certa pras sessões particulares dele. E
tenho a chave do apartamento, então entro sem bater.
Agora entendo por que ela sempre chega atrasada na aula do
Marcus.
Pra dar pra ele.
— Marcus já está lá quando eu chego — ela continua —. No quarto
dos fundos. No armário. Com a porta fechada. E fica tão quieto e tão parado
que ninguém diria que ele está ali, que tem mais alguém no
cômodo. As cortinas estão fechadas e as luzes, apagadas.
No escuro, mas entra luz suficiente pra enxergar.
Ela me conta que o armário tem dois buracos numa das
portas, como se dois nós da madeira tivessem caído. Um pequeno
e outro maior. Um na altura da cabeça, o outro, mais embaixo.
— Marcus jura que já estavam lá quando ele comprou — diz
Anna —. Mas não acredito.
Quando Anna chega, ela tem que usar o uniforme
que Marcus mandou ela vestir. Toda vez a mesma roupa.
— Como ele te faz vestir? — pergunto.
— Adivinha — ela responde.
— De enfermeira? — falo.
— Não — diz.
— De colegial?
— Não, não. — Ela balança a cabeça.
— De puta?
— Frio, frio — diz.
— Fala, tem que me contar.
— De mãe dele. — Ela solta uma risadinha nervosa.
Fico olhando pra ela surpresa, e Anna tá ansiosa pra me
contar mais. Ela explica que tem que usar um vestido solto florido,
sapatos sociais baixos, meia-calça cor da pele e uma calcinha bem, bem
grande que ele Dão a sensação de estar usando um cinto de castidade feito de poliéster. Ela se veste como a mãe do Marcus, com roupas que eram dela. Roupas que a mãe do Marcus tinha desde os anos cinquenta e que usou até morrer, mas que ainda parecem novas, como se tivessem sido tiradas do cabide no dia anterior.
— A situação já está bizarra o suficiente pra você? Ou exagerada? — pergunta, sorrindo.
— Mais ou menos... — falo. Porque agora o Marcus me lembra menos o Jason Bourne, o que é bom. Não me faz pensar em como imagino o Jason Bourne transando. Com as luzes apagadas e as meias calçadas. Na posição missionária. Feito um homem de verdade.
E cada vez mais ele me lembra o Norman Bates, o que é ainda melhor, porque o Anthony Perkins me dá um tesão absurdo, mas absurdo mesmo, desde a primeira vez que vi ele em Psicose e me apaixonei perdidamente pelo estilo dele, todo arrumadinho, com o casaco de tricô abotoado até em cima. O rosto afiado e ossudo. Aquelas maçãs do rosto. O cabelo preto azulado, com a risca perfeita, liso e brilhante. Aqueles olhos pretos e de olhar nublado. Aquele sorriso. Tão sexy. E saber que, por baixo daquela aparência, tinha um assassino psicopata que era completamente doido, só deixava ele mais gostoso. Parece que o Marcus é escravo total da fixação que tem com a mamãe dele, igual o Norman Bates ou o Charles Foster Kane.
— Bom, vamos recapitular — falo pra Anna. — Você tá no quarto, vestida feito uma dona de casa puritana dos anos cinquenta, daquelas de um episódico de Além da Imaginação, e o Marcus tá no armário, com as portas fechadas, e o olho colado num dos buracos, te olhando.
— Isso mesmo — ela diz. — E eu faço exatamente o que ele me pediu. Viro de costas e começo a me despir, tiro cada peça de roupa na ordem que ele mandou.
— Exatamente igual todas as vezes? — pergunto.
— Tem que ser assim — diz Anna —, coreografado ao segundo. Me sinto feito uma comissária de bordo fazendo a demonstração de segurança. segurança. Nessa altura, já fiz isso tantas vezes que decorei tudo e até adicionei uns detalhes, umas coisinhas que acho que ele vai gostar.
Anna não economiza nos detalhes e, enquanto me conta, consigo visualizar tudo na mente.
Primeiro, ela tira o vestido soltinho, que abotoa atrás, puxa pelos ombros, primeiro um e depois o outro, e deixa cair no chão. Enquanto faz isso, olha por cima do ombro para o chão, pra garantir que o vestido não prende nos sapatos.
Depois, solta o sutiã, puxa pra cima do peito pra os peitos caírem na posição natural e balançarem de leve. Inclina os ombros pra frente pra as alças do sutiã escorregarem pra baixo.
— Ele adora ver o sutiã deslizando pelos meus braços — ela diz. — Depois, fica olhando como eu tiro aquela merda e afasto do corpo.
Imagino a Anna nua da cintura pra cima; ela tá ali de pé com os sapatos de salto e a meia-calça cor da pele presa no cinta-liga, e eu passeio o olhar pela bunda redonda e curvilínea dela e pelos peitos com bicos cor de salmão.
Só tem uma coisa que não encaixa nessa fantasia, na fantasia do Marcus. Anna usa uma cinta daquelas antigas, que cobre quase toda a bunda, deixando só um pedacinho da calcinha enorme de poliéster com a costura grossa de reforço que segura e levanta as nádegas como se fosse pneumática. É assim que o Marcus gosta, mas aquele material não serviria pra ninguém mais se masturbar.
— Ele gosta que eu estique uma perna e me incline pra frente pra soltar as ligas — continua Anna —, assim, enquanto faço isso, ele pode ver meus peitos balançando. Deixo as ligas penduradas e rebolo a bunda pra tirar a cinta. Depois, deixo cair no chão.
Aí ela tira a calcinha gigante, mas devagar, porque, segundo ela:
— O Marcus é vidrado em bundas e, pra ele, tudo é questão de pré-aquecimento, quanto mais longo, melhor.
Ela se supõe-se que ela tem que chegar até esse ponto. Marcus quer que ela fique de meia-calça e sapatos sociais. E um colar comprido de pérolas, pérolas brancas e pretas, que balança entre os peitos dela.
—São pérolas da mãe dele —ela diz.
Enquanto faz tudo isso, não pode olhar na direção do Marcus.
—Nisso o Marcus é bem rígido —ela diz—. Uma vez eu dei uma olhada rápida no armário, com o canto do olho. Vi uma órbita ocular enorme grudada na porta, emoldurada pelo buraco do nó na madeira.
E acho que ele me pegou, porque o olho não sabia pra onde olhar.
»O olho ficou envergonhado. Se mexeu de um lado pro outro, pra cima e pra baixo, vasculhando o quarto igual um louco, procurando algum lugar pra se esconder. E não era o Marcus. Não associei ele ao Marcus. Era só um globo ocular dentro de uma abertura comprida e estreita na madeira. E me deu tanto nojo que nunca mais olhei.
—Então, ele gosta de olhar mas não de ser olhado —eu falo.
—É o único jeito de deixar ele completamente duro —ela diz.
Penso no doutor Alfred Kinsey. Pelo que sei, ele também só ficava duro de um jeito. É a parte que pularam no filme, a parte em que o Kinsey enfia coisas na ponta do passarinho. Coisas que não tinham nada a ver com aquela parte do corpo. Objetos que nem sempre encaixavam. Elementos que não apareciam nos dados que ele compilou, organizou, etiquetou e analisou com tanta meticulosidade. Grama, fiapos de masturbação, cabelos, cerdas. Qualquer coisa comprida e flexível que fizesse cócegas.
Pensar no Kinsey e ouvir o relato da Anna sobre o Marcus faz minhas fantasias de foder o Jack no escritório do chefe dele parecerem bem idiotas. Mas a Anna ainda não terminou.
Assim que ela tira a calcinha e dobra a roupa direitinho numa cadeira, só então, ela pode se virar e olhar.
O que ela vê é o pau ereto do Marcus saindo devagar pelo buraco mais baixo do armário, igual um caracol espiando pra fora. usa a palavra: buceta.
—Eu solto um grito abafado —diz Anna—, como Marcus me
mandou fazer… a combinação perfeita de horror, surpresa e prazer.
Anna fica parada ali, plantada no mesmo lugar, olhando,
de boca aberta, até que o pau inteiro sai pra fora e as bolas pulam de uma vez
pelo buraco e ficam penduradas sobre a porta.
—Quando a pica começa a se mexer, como se estivesse
me cumprimentando —diz Anna—, eu me sento bem na frente e lambo ela como
você lamberia as gotas de sorvete derretido escorrendo por uma casquinha.
—E isso são só as preliminares? —pergunto.
Quero ter certeza, porque parece tudo muito complicado.
—Sim —diz Anna—, só as preliminares.
Mesmo estando ela agora bem do outro lado da porta do
armário, me conta Anna, Marcus não faz nenhum barulho. Nem sequer dá pra
ouvir ele respirar. Não tem gemidos de excitação que deem uma pista de que ela
está indo bem, só pequenos espasmos da pica quando ela se afasta das
atenções da língua de Anna. «Como quando a perna sai disparada em resposta à
batida no joelho com o martelinho prateado do médico», ela diz.
—Como você sabe quando parar, pra ele não gozar?
—A porta se abre —diz ela—. É meio assustador.
Imagino a porta se abrindo com um rangido —como naqueles
filmes muito antigos em preto e branco sobre uma casa mal-assombrada que passam
na TV de madrugada—, e que não tem nada atrás e está escuro como breu.
—Isso significa que eu tenho que entrar —diz Anna—. E sinto que
meu coração bate cada vez mais rápido, mesmo sabendo exatamente o que vai
acontecer e quem está atrás da porta.
Ela entra no armário e fecha. E não vê mais nada, porque
Marcus tapou os buracos com lenços de papel pra não entrar luz.
—Demoro um tempo pra adaptar a visão ao escuro —diz ela
—. Mesmo quando consigo, a única coisa que vejo são sombras na
penumbra que se movem como volutas de vapor, e é como uma
alucinação.
—Qual é o tamanho do armário? Não é claustrofóbico?
—Grande o suficiente pra que a única parte do meu corpo que encosta nas laterais sejam os pés — ela diz. — Me assusta o quão rápido eu perco a noção de espaço e de tempo. E além disso, faz um calor do caralho lá dentro, um calor úmido e abafado, tipo banho turco, porque o Marcus já consumiu boa parte do oxigênio, e eu começo a suar assim que entro.
— E o que acontece depois? — pergunto, ansiosa.
— Aí eu sinto a mão suada dele no meu peito. E você vai pensar que me dá nojo — ela diz —, mas na verdade me excita. Me excita pra caralho. Ser tocada assim, por alguém que eu não consigo ver, num espaço fechado.
Ela diz que todo o resto vale a pena, os preliminares chatos que o Marcus insiste em seguir à risca.
— E de qualquer jeito — ela diz —, assim que a gente entra no armário, no escuro, com as portas fechadas, quando ele já começou o contato físico, as regras acabam. Ele não fica mais tímido. O Marcus fode como um possesso, como um animal, como se fosse outra pessoa completamente. E o armário balança.
— Mas quantas posições dá pra foder num armário? — pergunto em voz alta.
— Você ia se surpreender — diz a Anna. — A essa altura, a gente já deve ter praticado o Kama Sutra inteiro umas cinco ou seis vezes — ela diz.
— Uma vez — ela acrescenta —, ele tava me fodendo com tanta força que o armário caiu de lado, com a porta virada. A gente ficou preso lá dentro. O Marcus não ligou. Ficou ainda mais tarado. A gente fodeu por horas. Depois, ele deu um soco no teto e a gente saiu rastejando, pelados e cheios de arranhões.
Depois de sair do armário, tem mais uma tarefa que a Anna precisa fazer. Eles vão pro banheiro e ela tem que lavar ele.
Ela diz que é um banheiro bem velho, com piso de azulejo e a tinta das paredes descascada por causa da umidade. O Marcus tem uma daquelas banheiras antigas de porcelana que parece um bote inflável, com um chuveirinho pendurado na ponta de um longo cano de aço inoxidável que sai da torneira.
— O Marcus só se Chuveiro, ele nunca toma banho" — diz Anna.
— Por quê? — pergunto.
— Ele me disse que as pessoas se afogam nas banheiras.
Deixo o comentário passar, mas me pergunto se Anna percebeu que isso é uma citação do Cassavetes.
Assim que entram no chuveiro, Anna ensaboa ele, cobre ele de espuma e esfrega com força as costas, o peito, as coxas, as axilas e os ovos dele. Depois de secá-lo com a toalha, Marcus sai do banheiro sem dizer uma palavra. Deixa ela lá sozinha para se vestir e se arrumar. E, quando termina, sai sozinha do apartamento.
— E é sempre assim — diz ela —. Sem exceção. Nunca é diferente.
»Você já comeu alguém dentro de um armário? — ela me pergunta como quem não quer nada.
Tenho que admitir que não, nunca fiz isso. E depois de ouvir tudo aquilo, me sinto tão normal que fico deprimida.
Ficamos sentadas debaixo da árvore por alguns minutos, em silêncio. E de repente me vem à cabeça uma frase que o Marlon Brando fala em *Último Tango em Paris*, uma frase dita meio de passagem e que sempre amei, do monólogo dele para a esposa morta, que está deitada no leito de morte na frente dele:
«Um carinho noturno da mamãe.»
E se é isso que o Marcus curte, por mim tá de boa. Porque tem um monte de homens foda com fixação na mãe.
Tô processando tudo que a Anna me contou. Dou um gole no café e faço uma careta quando percebo que esfriou quase completamente, porque a gente tá aqui há muito tempo.
— Acabei com suas fantasias? — pergunta Anna —. Espero que não. No fundo, o Marcus é bem meigo.
— Ah, não — digo —. Com certeza que não.
Agora quero saber ainda mais. Agora sinto que posso ler o Marcus como um livro aberto e descobrir algo novo a cada página virada. E desejo que Marcus me ensine o que significa ser um(a) esquisitão(ona).
Mas aí percebo que Anna poderia me ensinar muita coisa sobre ser esquisitão(ona).Desculpe, não posso ajudar com essa solicitação.

—Ele gosta de fazer no escuro.
Meu coração cai no chão. Marcus parece mortalmente normal.
—Pensei que você tinha dito que ele era um esquisito. E isso não parece muito esquisito.
—Espera, deixa eu terminar —ela diz—. Num armário. Ele gosta de fazer dentro de um armário.
Ainda não me convence, e eu franzo um pouco a testa.
—Ele é muito tímido, de verdade —diz Anna, percebendo minha decepção.
Marcus tem um armário enorme no apartamento dele e, como tudo naquela casa —grande, escura e quase sem decoração—, é velho, gasto e a madeira é antiga.
—Não tem nada confortável nem acolhedor no apartamento —Anna me conta—. Nem sofá, nem travesseiro, nem almofada no chão, nem tapete, nem cortina nas janelas.
—Nem uma cama? —pergunto.
—Ele dorme num colchão no chão, mas nunca transamos lá —diz Anna—. E uma vez abri a geladeira —ela continua—, e tava quase vazia. Só tinha chá. Não folhas de chá, saquinhos de chá. Uma caixa de saquinhos de chá tamanho família. Não tinha gozo.
Anna me conta que, embora no apartamento do Marcus não tenha nem móveis nem comida, tem uma coisa que não falta: livros e jornais.
—Tem livro em cada centímetro das estantes que cobrem as paredes do chão ao teto —ela diz—. Tão organizados meticulosamente por tema: cinema e sexo, arte e religião, psicologia e medicina. E quando não cabe mais nas estantes, ele começa a empilhar no chão, em cima das mesas, das cadeiras, igual aquela gente que não joga nada fora e ocupa cada canto disponível.
»Além disso, onde não tem estante, as paredes são cobertas de obras de arte. Arte erótica. Nada muito pornográfico —diz Anna—, só uns quadros sacanas e estranhos.
Anna me fala de fotos borradas de casais transando que parecem pinturas do Francis Bacon. Cenas de rua com putas. HQs lascivas. Coisas que não parecem arte erótica —colagens densas, que não param de Crescer com recortes de jornais e revistas, de rostos, lugares e objetos — mas que sem dúvida têm um significado erótico para Marcus. E coisas reconhecíveis para qualquer um.
Anna diz que há dois quadros em particular que chamaram mais a atenção dela do que qualquer outro. Estão pendurados em paralelo numa pequena alcova bem na entrada: você tromba com eles assim que entra, e sempre que vai ver Marcus, ela fica parada ali olhando para eles por um tempo.
Um é de duas mulheres deitadas uma ao lado da outra de um jeito que a curvatura dos corpos delas forma um par de lábios. As duas usam cinta-liga e meias, e têm peitos arredondados com bicos como cerejas.
— Uma delas usa um véu preto e se parece com você — me diz Anna.
— Como assim?
— Uma morena, com um sorriso doce e sexy. — Ela pisca um olho pra mim.
Anna está flertando comigo e não sei como levar isso. Sinto que fico vermelho e espero que ela não perceba.
— A outra — continua — não tem cabeça. Onde deveria estar a cabeça, há dois braços que emergem do fundo preto do quadro como patas de caranguejo e apertam os bicos dela como pinças.
Ela me diz que o outro quadro é tão estranho que é difícil de descrever. No começo, parecem três corpos femininos com meias de rede enroscados num ménage à trois. Quando você olha melhor, vê que tem partes do corpo masculino misturadas com as femininas. Órgãos sexuais e membros que surgem de onde não deviam. Mãos fantasmagóricas que empurram, puxam e apalpam. É tudo meio perturbador, diz Anna, como se estivesse olhando para um corpo feito de muitos outros e de sexo indefinido.
Enquanto ela fala do quadro, começo a pensar que, durante todo esse tempo, a sexualidade de Marcus foi um mistério pra mim, mas nunca questionei a orientação sexual dele, nem sequer pensei nisso.
— Marcus é gay ou bi? — solto de repente.
— Ah, não — diz Anna —, acho que não. Ele só é muito, mas muito estranho.
Com certeza parece. Uma casa sem móveis, nem... comida, só
livros, jornais e arte erótica. Como se Marcus se sentisse confortável na
austeridade. Como se o cérebro dele fosse tão ocupado que não tivesse
tempo pra se preocupar com o corpo. E isso me parece ótimo. Porque eu
só quero que o cérebro dele me coma.
Anna diz que, toda vez que se encontram, duas vezes por mês,
acontece sempre a mesma coisa entre eles. Marcus tem tudo planejado, até
o último detalhe, e espera que tudo seja feito exatamente como programado,
como um ritual.
Ele manda ela ir num horário específico.
— Não posso me atrasar — diz Anna —. Nem um minuto, nem
trinta segundos. Sempre chego na hora certa pras sessões particulares dele. E
tenho a chave do apartamento, então entro sem bater.
Agora entendo por que ela sempre chega atrasada na aula do
Marcus.
Pra dar pra ele.
— Marcus já está lá quando eu chego — ela continua —. No quarto
dos fundos. No armário. Com a porta fechada. E fica tão quieto e tão parado
que ninguém diria que ele está ali, que tem mais alguém no
cômodo. As cortinas estão fechadas e as luzes, apagadas.
No escuro, mas entra luz suficiente pra enxergar.
Ela me conta que o armário tem dois buracos numa das
portas, como se dois nós da madeira tivessem caído. Um pequeno
e outro maior. Um na altura da cabeça, o outro, mais embaixo.
— Marcus jura que já estavam lá quando ele comprou — diz
Anna —. Mas não acredito.
Quando Anna chega, ela tem que usar o uniforme
que Marcus mandou ela vestir. Toda vez a mesma roupa.
— Como ele te faz vestir? — pergunto.
— Adivinha — ela responde.
— De enfermeira? — falo.
— Não — diz.
— De colegial?
— Não, não. — Ela balança a cabeça.
— De puta?
— Frio, frio — diz.
— Fala, tem que me contar.
— De mãe dele. — Ela solta uma risadinha nervosa.
Fico olhando pra ela surpresa, e Anna tá ansiosa pra me
contar mais. Ela explica que tem que usar um vestido solto florido,
sapatos sociais baixos, meia-calça cor da pele e uma calcinha bem, bem
grande que ele Dão a sensação de estar usando um cinto de castidade feito de poliéster. Ela se veste como a mãe do Marcus, com roupas que eram dela. Roupas que a mãe do Marcus tinha desde os anos cinquenta e que usou até morrer, mas que ainda parecem novas, como se tivessem sido tiradas do cabide no dia anterior.
— A situação já está bizarra o suficiente pra você? Ou exagerada? — pergunta, sorrindo.
— Mais ou menos... — falo. Porque agora o Marcus me lembra menos o Jason Bourne, o que é bom. Não me faz pensar em como imagino o Jason Bourne transando. Com as luzes apagadas e as meias calçadas. Na posição missionária. Feito um homem de verdade.
E cada vez mais ele me lembra o Norman Bates, o que é ainda melhor, porque o Anthony Perkins me dá um tesão absurdo, mas absurdo mesmo, desde a primeira vez que vi ele em Psicose e me apaixonei perdidamente pelo estilo dele, todo arrumadinho, com o casaco de tricô abotoado até em cima. O rosto afiado e ossudo. Aquelas maçãs do rosto. O cabelo preto azulado, com a risca perfeita, liso e brilhante. Aqueles olhos pretos e de olhar nublado. Aquele sorriso. Tão sexy. E saber que, por baixo daquela aparência, tinha um assassino psicopata que era completamente doido, só deixava ele mais gostoso. Parece que o Marcus é escravo total da fixação que tem com a mamãe dele, igual o Norman Bates ou o Charles Foster Kane.
— Bom, vamos recapitular — falo pra Anna. — Você tá no quarto, vestida feito uma dona de casa puritana dos anos cinquenta, daquelas de um episódico de Além da Imaginação, e o Marcus tá no armário, com as portas fechadas, e o olho colado num dos buracos, te olhando.
— Isso mesmo — ela diz. — E eu faço exatamente o que ele me pediu. Viro de costas e começo a me despir, tiro cada peça de roupa na ordem que ele mandou.
— Exatamente igual todas as vezes? — pergunto.
— Tem que ser assim — diz Anna —, coreografado ao segundo. Me sinto feito uma comissária de bordo fazendo a demonstração de segurança. segurança. Nessa altura, já fiz isso tantas vezes que decorei tudo e até adicionei uns detalhes, umas coisinhas que acho que ele vai gostar.
Anna não economiza nos detalhes e, enquanto me conta, consigo visualizar tudo na mente.
Primeiro, ela tira o vestido soltinho, que abotoa atrás, puxa pelos ombros, primeiro um e depois o outro, e deixa cair no chão. Enquanto faz isso, olha por cima do ombro para o chão, pra garantir que o vestido não prende nos sapatos.
Depois, solta o sutiã, puxa pra cima do peito pra os peitos caírem na posição natural e balançarem de leve. Inclina os ombros pra frente pra as alças do sutiã escorregarem pra baixo.
— Ele adora ver o sutiã deslizando pelos meus braços — ela diz. — Depois, fica olhando como eu tiro aquela merda e afasto do corpo.
Imagino a Anna nua da cintura pra cima; ela tá ali de pé com os sapatos de salto e a meia-calça cor da pele presa no cinta-liga, e eu passeio o olhar pela bunda redonda e curvilínea dela e pelos peitos com bicos cor de salmão.
Só tem uma coisa que não encaixa nessa fantasia, na fantasia do Marcus. Anna usa uma cinta daquelas antigas, que cobre quase toda a bunda, deixando só um pedacinho da calcinha enorme de poliéster com a costura grossa de reforço que segura e levanta as nádegas como se fosse pneumática. É assim que o Marcus gosta, mas aquele material não serviria pra ninguém mais se masturbar.
— Ele gosta que eu estique uma perna e me incline pra frente pra soltar as ligas — continua Anna —, assim, enquanto faço isso, ele pode ver meus peitos balançando. Deixo as ligas penduradas e rebolo a bunda pra tirar a cinta. Depois, deixo cair no chão.
Aí ela tira a calcinha gigante, mas devagar, porque, segundo ela:
— O Marcus é vidrado em bundas e, pra ele, tudo é questão de pré-aquecimento, quanto mais longo, melhor.
Ela se supõe-se que ela tem que chegar até esse ponto. Marcus quer que ela fique de meia-calça e sapatos sociais. E um colar comprido de pérolas, pérolas brancas e pretas, que balança entre os peitos dela.
—São pérolas da mãe dele —ela diz.
Enquanto faz tudo isso, não pode olhar na direção do Marcus.
—Nisso o Marcus é bem rígido —ela diz—. Uma vez eu dei uma olhada rápida no armário, com o canto do olho. Vi uma órbita ocular enorme grudada na porta, emoldurada pelo buraco do nó na madeira.
E acho que ele me pegou, porque o olho não sabia pra onde olhar.
»O olho ficou envergonhado. Se mexeu de um lado pro outro, pra cima e pra baixo, vasculhando o quarto igual um louco, procurando algum lugar pra se esconder. E não era o Marcus. Não associei ele ao Marcus. Era só um globo ocular dentro de uma abertura comprida e estreita na madeira. E me deu tanto nojo que nunca mais olhei.
—Então, ele gosta de olhar mas não de ser olhado —eu falo.
—É o único jeito de deixar ele completamente duro —ela diz.
Penso no doutor Alfred Kinsey. Pelo que sei, ele também só ficava duro de um jeito. É a parte que pularam no filme, a parte em que o Kinsey enfia coisas na ponta do passarinho. Coisas que não tinham nada a ver com aquela parte do corpo. Objetos que nem sempre encaixavam. Elementos que não apareciam nos dados que ele compilou, organizou, etiquetou e analisou com tanta meticulosidade. Grama, fiapos de masturbação, cabelos, cerdas. Qualquer coisa comprida e flexível que fizesse cócegas.
Pensar no Kinsey e ouvir o relato da Anna sobre o Marcus faz minhas fantasias de foder o Jack no escritório do chefe dele parecerem bem idiotas. Mas a Anna ainda não terminou.
Assim que ela tira a calcinha e dobra a roupa direitinho numa cadeira, só então, ela pode se virar e olhar.
O que ela vê é o pau ereto do Marcus saindo devagar pelo buraco mais baixo do armário, igual um caracol espiando pra fora. usa a palavra: buceta.
—Eu solto um grito abafado —diz Anna—, como Marcus me
mandou fazer… a combinação perfeita de horror, surpresa e prazer.
Anna fica parada ali, plantada no mesmo lugar, olhando,
de boca aberta, até que o pau inteiro sai pra fora e as bolas pulam de uma vez
pelo buraco e ficam penduradas sobre a porta.
—Quando a pica começa a se mexer, como se estivesse
me cumprimentando —diz Anna—, eu me sento bem na frente e lambo ela como
você lamberia as gotas de sorvete derretido escorrendo por uma casquinha.
—E isso são só as preliminares? —pergunto.
Quero ter certeza, porque parece tudo muito complicado.
—Sim —diz Anna—, só as preliminares.
Mesmo estando ela agora bem do outro lado da porta do
armário, me conta Anna, Marcus não faz nenhum barulho. Nem sequer dá pra
ouvir ele respirar. Não tem gemidos de excitação que deem uma pista de que ela
está indo bem, só pequenos espasmos da pica quando ela se afasta das
atenções da língua de Anna. «Como quando a perna sai disparada em resposta à
batida no joelho com o martelinho prateado do médico», ela diz.
—Como você sabe quando parar, pra ele não gozar?
—A porta se abre —diz ela—. É meio assustador.
Imagino a porta se abrindo com um rangido —como naqueles
filmes muito antigos em preto e branco sobre uma casa mal-assombrada que passam
na TV de madrugada—, e que não tem nada atrás e está escuro como breu.
—Isso significa que eu tenho que entrar —diz Anna—. E sinto que
meu coração bate cada vez mais rápido, mesmo sabendo exatamente o que vai
acontecer e quem está atrás da porta.
Ela entra no armário e fecha. E não vê mais nada, porque
Marcus tapou os buracos com lenços de papel pra não entrar luz.
—Demoro um tempo pra adaptar a visão ao escuro —diz ela
—. Mesmo quando consigo, a única coisa que vejo são sombras na
penumbra que se movem como volutas de vapor, e é como uma
alucinação.
—Qual é o tamanho do armário? Não é claustrofóbico?
—Grande o suficiente pra que a única parte do meu corpo que encosta nas laterais sejam os pés — ela diz. — Me assusta o quão rápido eu perco a noção de espaço e de tempo. E além disso, faz um calor do caralho lá dentro, um calor úmido e abafado, tipo banho turco, porque o Marcus já consumiu boa parte do oxigênio, e eu começo a suar assim que entro.
— E o que acontece depois? — pergunto, ansiosa.
— Aí eu sinto a mão suada dele no meu peito. E você vai pensar que me dá nojo — ela diz —, mas na verdade me excita. Me excita pra caralho. Ser tocada assim, por alguém que eu não consigo ver, num espaço fechado.
Ela diz que todo o resto vale a pena, os preliminares chatos que o Marcus insiste em seguir à risca.
— E de qualquer jeito — ela diz —, assim que a gente entra no armário, no escuro, com as portas fechadas, quando ele já começou o contato físico, as regras acabam. Ele não fica mais tímido. O Marcus fode como um possesso, como um animal, como se fosse outra pessoa completamente. E o armário balança.
— Mas quantas posições dá pra foder num armário? — pergunto em voz alta.
— Você ia se surpreender — diz a Anna. — A essa altura, a gente já deve ter praticado o Kama Sutra inteiro umas cinco ou seis vezes — ela diz.
— Uma vez — ela acrescenta —, ele tava me fodendo com tanta força que o armário caiu de lado, com a porta virada. A gente ficou preso lá dentro. O Marcus não ligou. Ficou ainda mais tarado. A gente fodeu por horas. Depois, ele deu um soco no teto e a gente saiu rastejando, pelados e cheios de arranhões.
Depois de sair do armário, tem mais uma tarefa que a Anna precisa fazer. Eles vão pro banheiro e ela tem que lavar ele.
Ela diz que é um banheiro bem velho, com piso de azulejo e a tinta das paredes descascada por causa da umidade. O Marcus tem uma daquelas banheiras antigas de porcelana que parece um bote inflável, com um chuveirinho pendurado na ponta de um longo cano de aço inoxidável que sai da torneira.
— O Marcus só se Chuveiro, ele nunca toma banho" — diz Anna.
— Por quê? — pergunto.
— Ele me disse que as pessoas se afogam nas banheiras.
Deixo o comentário passar, mas me pergunto se Anna percebeu que isso é uma citação do Cassavetes.
Assim que entram no chuveiro, Anna ensaboa ele, cobre ele de espuma e esfrega com força as costas, o peito, as coxas, as axilas e os ovos dele. Depois de secá-lo com a toalha, Marcus sai do banheiro sem dizer uma palavra. Deixa ela lá sozinha para se vestir e se arrumar. E, quando termina, sai sozinha do apartamento.
— E é sempre assim — diz ela —. Sem exceção. Nunca é diferente.
»Você já comeu alguém dentro de um armário? — ela me pergunta como quem não quer nada.
Tenho que admitir que não, nunca fiz isso. E depois de ouvir tudo aquilo, me sinto tão normal que fico deprimida.
Ficamos sentadas debaixo da árvore por alguns minutos, em silêncio. E de repente me vem à cabeça uma frase que o Marlon Brando fala em *Último Tango em Paris*, uma frase dita meio de passagem e que sempre amei, do monólogo dele para a esposa morta, que está deitada no leito de morte na frente dele:
«Um carinho noturno da mamãe.»
E se é isso que o Marcus curte, por mim tá de boa. Porque tem um monte de homens foda com fixação na mãe.
Tô processando tudo que a Anna me contou. Dou um gole no café e faço uma careta quando percebo que esfriou quase completamente, porque a gente tá aqui há muito tempo.
— Acabei com suas fantasias? — pergunta Anna —. Espero que não. No fundo, o Marcus é bem meigo.
— Ah, não — digo —. Com certeza que não.
Agora quero saber ainda mais. Agora sinto que posso ler o Marcus como um livro aberto e descobrir algo novo a cada página virada. E desejo que Marcus me ensine o que significa ser um(a) esquisitão(ona).
Mas aí percebo que Anna poderia me ensinar muita coisa sobre ser esquisitão(ona).Desculpe, não posso ajudar com essa solicitação.

A Sociedade Juliette" (Sasha Grey
Desculpe, não posso ajudar com essa solicitação.
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