Passaram-se os dias, as semanas e eu não conseguia me livrar dessas ideias, continuava olhando para a María como se fosse uma mulher diferente, mais livre, mais audaciosa, até… menos minha. O fato de o Pablo ter tocado na buceta dela era o que mais me impactava; foi um antes e um depois pra mim. María era outra.
Por parte dela, a María também evoluía na forma de lembrar o que aconteceu; se no começo parecia sobrecarregada pelas lembranças, às vezes imersa num pudor que a fazia se surpreender com o que tinha sido capaz de viver, depois passou para uma fase em que, conforme o tempo a afastava do Pablo e de Sevilha, foi se libertando das censuras e preconceitos que no início limitavam de alguma forma o prazer profundo que ela sentia em compartilhar comigo a lembrança de Sevilha.
No começo, era eu quem começava o assunto durante os preliminares dos nossos momentos de sexo; a María resistia em entrar no jogo, mas sempre acabava jogando e curtindo os argumentos que eu criava, misturando a realidade vivida com meus desejos do que poderia ter acontecido.
Ela ficava intrigada em saber o que eu sentia ao vê-la com o Pablo, me perguntava e minhas respostas provocavam nela um prazer intenso; minha relação com a Elena era o outro assunto sobre o qual ela buscava detalhes, tive que superar a sombra de insegurança e remorso que me dava viver aquilo como uma mentira, mas cada detalhe que eu contava a mergulhava num prazer de uma intensidade inusitada que, por sua vez, disparava minha própria excitação. A gente dizia nessas horas coisas que, fora do quarto, éramos incapazes de admitir.
Pouco antes de sair de férias, numa sexta à tarde, encontramos meus cunhados pra sair pra jantar, estávamos no fim de julho, uma noite especialmente quente; deixei a María se arrumando e desci com o cachorro na rua, quando voltei a encontrei no quarto com uma calcinha fio-dental vinho que eu tinha dado pra ela dias antes. Ela estava pegando o vestido que usou na última noite em Sevilha, não tinha vestido ele desde então. Desde então, aquilo me deu um tesão doentio, ainda mais porque ela ia vestir sem sutiã, algo raro pra uma reunião com as irmãs e os cunhados. Quando ela vestiu, cheguei por trás e abracei ela, beijando o pescoço dela na frente do espelho do armário.
"Não lembrava como esse vestido fica tão bem em você" – Maria jogou a cabeça pra trás, oferecendo o pescoço
"Você gosta?"
"Demais, além disso me traz lembranças lindas"
"Sim" – virei ela pra mim e abracei, começando um movimento que imitava uma dança
"Eu dancei com você na última vez que usou ele" – Maria envolveu meu pescoço com os braços e começou a dançar também
"É verdade, não lembrava"
"Mentirosa" – Maria sorriu, eu tinha pegado ela. – "Ou talvez você só lembre que dançou com o Pablo"
"Não!" – ela protestou; minhas mãos desceram pra bunda dela, senti ela nua por baixo do tecido.
"Você tocava a Elena assim?" – uma onda de prazer me atingiu quando ouvi ela, fazia tempo que não falávamos sobre isso e a frase dela me fez entender que ela tinha aquilo tão presente quanto eu.
"Sim…" – acariciei suavemente a bunda dela – "assim, com cuidado, não tinha certeza se ela queria… e você?.. o Pablo te tocava assim?" – ela encostou a bochecha na minha.
"Ele era mais sem vergonha" – mudei minha carícia, deixei mais intensa – "…é, mais ou menos assim" – senti meu pau encostado na barriga dela, me apertei contra ela antes de perguntar
"E isso, você sentia também?" – Maria respondeu ao meu gesto apertando a buceta dela contra a minha
"Sim" – devagar, desci minha mão direita até achar a barra do vestido dela, rocei a coxa dela e comecei a subir arrastando o tecido.
"E subiu pela sua coxa assim, né?"
"Sim" – a voz dela tinha mudado, reconheci aquele tom grave que aparece quando ela tá excitada, continuei subindo devagar até sentir o começo da bunda dela, a forma redonda do glúteo, firme, sem uma dobra na pele que marcasse, imaginei o que o Pablo deve ter sentido ao ver ela tão entregue.
"E você não reclamou Quando cheguei aqui"
"Foi tudo muito rápido, não deu tempo de ver chegando" – lembrei que, segundo ela me contou, tinha acontecido lá fora enquanto saíam para nos procurar, ele a beijou e invadiu a saia dela, eu parei e a beijei enquanto subia minha mão até agarrar a bunda dela"
"Assim?"
"Sim, assim"
"E você não reclamou?"
"Não... sim... bom, falei que podiam nos ver" – meus dedos avançaram pro meio, tentando me enfiar entre as nádegas dela e roçar a buceta por trás – "não chegou a tanto" – ela sussurrou no meu ouvido.
"Mas você teria gostado" – ela calou, eu beijei ela de novo enquanto meus dedos alcançavam o sexo dela – "você teria gostado, né?"
"Sim" – enfiei um dedo pela tirinha da tanga e afastei, a respiração dela virou um gemido
"Assim que devia ter acontecido, assim que tinha que ser" – meu dedo, livre o caminho, acariciou o final dos lábios dela, buscando a umidade que os inundava
"Você queria que tivesse acontecido?" – precisava ouvir ela dizer isso uma e outra vez.
"Sim, ah sim!"
Parei, a emoção dessa afirmação rasgada me dominava, abracei ela e beijei com tanta força que quase gritei de prazer.
Naquela noite, jantando com meus cunhados, cada vez que nossos olhares se cruzavam, trocávamos mensagens de desejo, ela entendia o que eu pensava ao olhar pra ela e eu sabia bem o que ela pensava ao me olhar, não passou despercebido pros outros nossa conexão especial naquela noite.
Aquela viagem foi decisiva pros passos que demos em seguida; marcou uma mudança de mentalidade pra ela e meu primeiro enfrentamento do que significava ver minha esposa com outro homem. Nada teria sido igual se não existisse Sevilha, é provável que tivéssemos seguido esse caminho, mas com certeza teria custado mais tempo, mais erros, algum desentendimento e muito mais dúvidas e arrependimentos.
Depois de Sevilha, minha forma de ver a Maria tinha mudado, no começo atribuí à força das emoções que aqueles acontecimentos, tão recentes, me causavam, mas com o tempo entendi que aquilo não era fruto apenas da excitação.
Maria é uma mulher muito aberta, com poucos preconceitos, uma pessoa que valoriza a amizade acima de tudo e que, nessa perspectiva, se entrega sem se importar com a interpretação torta que os outros possam fazer dos gestos que ela faz inocentemente, sem nenhuma intenção oculta. O jeito dela abraçar os amigos, a maneira de se sentar sem se preocupar demais se está mostrando mais ou menos "chuchu"… são coisas que vêm da pureza da mente dela e que, quando provocam algum comentário de algum dos "afetados", só conseguem fazê-la rir, sem desconforto, sem vergonhas absurdas. Ela tem dificuldade em ver malícia nos outros porque ela não faz as coisas com malícia; mostrar um pouco a calcinha ao sentar ou exibir o peito mais do que o normal ao se inclinar não faz parte de um ritual de sedução para Maria, mas sim um sinal de que ela está à vontade entre os amigos.
Foi assim que eu sempre entendi, nunca me preocupou a espontaneidade dela; pelo contrário, me orgulho do jeito dela ser e, se alguma vez peguei alguém olhando, vivi aquilo não como ofensa, mas com indulgência e, se o sujeito era amigo, com alguma provocação que deixava ele sem graça.
Assim éramos nós até então.
Porque algo mudou, já não consigo ver Maria com a mesma perspectiva.
Percebi essa mudança aos poucos, quando captava algum olhar para o corpo dela ao entrar num restaurante, ou algum olhar para o decote ou para as pernas dela… Até nos primeiros encontros com amigos depois da nossa volta, meu jeito de perceber os olhares, os abraços apertados e os tapinhas leves de algum íntimo já não era o mesmo. De repente, entendi que antes eu via essas coisas pela perspectiva da Maria, que era a minha própria perspectiva: inocência, naturalidade, nenhuma intenção… Agora eu via pela perspectiva de quem ficava perturbado pela força sedutora da Maria. Como é que um homem podia não reagir quando Ele se via envolto pelos braços daquela mulher magnífica, que não hesitava em apertar o corpo dela contra o dele. Quem conseguiria resistir àquele olhar profundo que parecia insinuar mil prazeres?
Percebi que o costume me fez deixar de reconhecer o erotismo tão forte da personalidade de Maria; não que eu não sentisse isso em mim ou não valorizasse, simplesmente não media o efeito que essa força causava em quem se aproximava dela.
Comecei a observar as reações de quem a olhava, com discrição, tentando não ser descoberto; analisava a linguagem corporal e gestual dos homens e das mulheres que entravam no campo de influência de Maria.
E comecei a ver coisas que antes não via. Nos homens, desejo; contido com sucesso nos mais próximos e mais evidente nos desconhecidos ou naqueles que, sendo amigos ou parentes, não se sentiam traídos pelos olhares ou pelas palavras.
Nas mulheres, inveja, territorialidade, ameaça, muito bem disfarçadas, mas todas essas emoções apareciam em qualquer reunião de amigos ou ao cruzarmos com um casal na rua.
Me tornei um voyeur dos outros, jamais me reconheceria nesse papel, mas agora passava o dia espiando quem olhava para Maria.
A linguagem corporal é mais poderosa que as palavras, a ponto de ser muito comum sabermos mais de uma pessoa não pelo que ela diz, mas por como diz. A linguagem corporal é ancestral, pré-verbal, existe nos animais com um código muito parecido com o humano e, o mais importante, aprendemos e agimos pelo que percebemos sem perceber que percebemos.
E foi assim que, através da linguagem corporal, foi se construindo uma segunda personalidade em mim, uma personalidade da qual Maria não fazia ideia, mas que cada vez entrava em ação com mais frequência.
Tudo começou com a forma como eu manuseava minha conduta para que o sujeito que olhava para Maria não desistisse ao se sentir observado por mim; um olhar direto não precisa de mais ameaça. pra fazer com que o tarado da vez desviasse o olhar e fosse embora, mas era exatamente isso que eu não queria; Agia como um caçador rondando a presa; podia ser no shopping, fazendo compras com a Maria; Eu varria o cenário e logo pegava algum marido entediado atrás da mulher dele que por um segundo ficava vidrado no peito da Maria, ou na bunda dela, ou nas pernas… então eu evitava o confronto, desviava o olhar mas mantinha ele no meu campo de visão periférico, assim confirmava que os olhares voltavam rápidos, escondidos, cada vez mais frequentes; Esse é o momento em que tento me aproximar da vítima levando a Maria pra perto dele. O cara, ao vê-la por perto, toma mais cuidado pra não ser pego, mas o desejo é mais forte que a razão e, uma e outra vez, quase contra a vontade dele, os olhos voltam a se fixar na pele da minha esposa.
Foi aí que comecei a criar meus pequenos truques, como apontar algo pra Maria que estava numa prateleira mais baixa, uns sapatos, por exemplo, ela se abaixa e… zás! A presa cai no decote cavado da Maria, eu continuo fingindo que não vejo, que não percebo nada.
Nessa faceta de voyeur, comecei também a me envolver como ator coadjuvante, às vezes, quando a vítima já tá fisgada e se sente confiante de que "o marido não saca nada", é o momento em que eu pego a Maria pela cintura ao caminhar até outra estante e minha mão desliza até a bunda dela, um gesto bem calculado pra não levantar suspeitas na Maria e também não parecer vulgar pro tarado.
Com o tempo, fui agindo com naturalidade, se a Maria em algum momento reclamou do meu jeito de tocá-la em público, logo parou e se acostumou com minha falta de vergonha na cara diante dos outros; É verdade que nunca cheguei a ser vulgar, mas os olhos de quem nos observa denunciam o efeito que meu jeito de tocar a Maria causa neles. Nossos amigos, de vez em quando, assobiavam ou faziam comentários que sempre foram bem recebidos. recebidos pela Maria, alheia à minha intenção.
Naquele verão, passamos quinze dias em Lanzarote e minha nova forma de ver as coisas se consolidou ainda mais.
Por parte dela, a María também evoluía na forma de lembrar o que aconteceu; se no começo parecia sobrecarregada pelas lembranças, às vezes imersa num pudor que a fazia se surpreender com o que tinha sido capaz de viver, depois passou para uma fase em que, conforme o tempo a afastava do Pablo e de Sevilha, foi se libertando das censuras e preconceitos que no início limitavam de alguma forma o prazer profundo que ela sentia em compartilhar comigo a lembrança de Sevilha.
No começo, era eu quem começava o assunto durante os preliminares dos nossos momentos de sexo; a María resistia em entrar no jogo, mas sempre acabava jogando e curtindo os argumentos que eu criava, misturando a realidade vivida com meus desejos do que poderia ter acontecido.
Ela ficava intrigada em saber o que eu sentia ao vê-la com o Pablo, me perguntava e minhas respostas provocavam nela um prazer intenso; minha relação com a Elena era o outro assunto sobre o qual ela buscava detalhes, tive que superar a sombra de insegurança e remorso que me dava viver aquilo como uma mentira, mas cada detalhe que eu contava a mergulhava num prazer de uma intensidade inusitada que, por sua vez, disparava minha própria excitação. A gente dizia nessas horas coisas que, fora do quarto, éramos incapazes de admitir.
Pouco antes de sair de férias, numa sexta à tarde, encontramos meus cunhados pra sair pra jantar, estávamos no fim de julho, uma noite especialmente quente; deixei a María se arrumando e desci com o cachorro na rua, quando voltei a encontrei no quarto com uma calcinha fio-dental vinho que eu tinha dado pra ela dias antes. Ela estava pegando o vestido que usou na última noite em Sevilha, não tinha vestido ele desde então. Desde então, aquilo me deu um tesão doentio, ainda mais porque ela ia vestir sem sutiã, algo raro pra uma reunião com as irmãs e os cunhados. Quando ela vestiu, cheguei por trás e abracei ela, beijando o pescoço dela na frente do espelho do armário.
"Não lembrava como esse vestido fica tão bem em você" – Maria jogou a cabeça pra trás, oferecendo o pescoço
"Você gosta?"
"Demais, além disso me traz lembranças lindas"
"Sim" – virei ela pra mim e abracei, começando um movimento que imitava uma dança
"Eu dancei com você na última vez que usou ele" – Maria envolveu meu pescoço com os braços e começou a dançar também
"É verdade, não lembrava"
"Mentirosa" – Maria sorriu, eu tinha pegado ela. – "Ou talvez você só lembre que dançou com o Pablo"
"Não!" – ela protestou; minhas mãos desceram pra bunda dela, senti ela nua por baixo do tecido.
"Você tocava a Elena assim?" – uma onda de prazer me atingiu quando ouvi ela, fazia tempo que não falávamos sobre isso e a frase dela me fez entender que ela tinha aquilo tão presente quanto eu.
"Sim…" – acariciei suavemente a bunda dela – "assim, com cuidado, não tinha certeza se ela queria… e você?.. o Pablo te tocava assim?" – ela encostou a bochecha na minha.
"Ele era mais sem vergonha" – mudei minha carícia, deixei mais intensa – "…é, mais ou menos assim" – senti meu pau encostado na barriga dela, me apertei contra ela antes de perguntar
"E isso, você sentia também?" – Maria respondeu ao meu gesto apertando a buceta dela contra a minha
"Sim" – devagar, desci minha mão direita até achar a barra do vestido dela, rocei a coxa dela e comecei a subir arrastando o tecido.
"E subiu pela sua coxa assim, né?"
"Sim" – a voz dela tinha mudado, reconheci aquele tom grave que aparece quando ela tá excitada, continuei subindo devagar até sentir o começo da bunda dela, a forma redonda do glúteo, firme, sem uma dobra na pele que marcasse, imaginei o que o Pablo deve ter sentido ao ver ela tão entregue.
"E você não reclamou Quando cheguei aqui"
"Foi tudo muito rápido, não deu tempo de ver chegando" – lembrei que, segundo ela me contou, tinha acontecido lá fora enquanto saíam para nos procurar, ele a beijou e invadiu a saia dela, eu parei e a beijei enquanto subia minha mão até agarrar a bunda dela"
"Assim?"
"Sim, assim"
"E você não reclamou?"
"Não... sim... bom, falei que podiam nos ver" – meus dedos avançaram pro meio, tentando me enfiar entre as nádegas dela e roçar a buceta por trás – "não chegou a tanto" – ela sussurrou no meu ouvido.
"Mas você teria gostado" – ela calou, eu beijei ela de novo enquanto meus dedos alcançavam o sexo dela – "você teria gostado, né?"
"Sim" – enfiei um dedo pela tirinha da tanga e afastei, a respiração dela virou um gemido
"Assim que devia ter acontecido, assim que tinha que ser" – meu dedo, livre o caminho, acariciou o final dos lábios dela, buscando a umidade que os inundava
"Você queria que tivesse acontecido?" – precisava ouvir ela dizer isso uma e outra vez.
"Sim, ah sim!"
Parei, a emoção dessa afirmação rasgada me dominava, abracei ela e beijei com tanta força que quase gritei de prazer.
Naquela noite, jantando com meus cunhados, cada vez que nossos olhares se cruzavam, trocávamos mensagens de desejo, ela entendia o que eu pensava ao olhar pra ela e eu sabia bem o que ela pensava ao me olhar, não passou despercebido pros outros nossa conexão especial naquela noite.
Aquela viagem foi decisiva pros passos que demos em seguida; marcou uma mudança de mentalidade pra ela e meu primeiro enfrentamento do que significava ver minha esposa com outro homem. Nada teria sido igual se não existisse Sevilha, é provável que tivéssemos seguido esse caminho, mas com certeza teria custado mais tempo, mais erros, algum desentendimento e muito mais dúvidas e arrependimentos.
Depois de Sevilha, minha forma de ver a Maria tinha mudado, no começo atribuí à força das emoções que aqueles acontecimentos, tão recentes, me causavam, mas com o tempo entendi que aquilo não era fruto apenas da excitação.
Maria é uma mulher muito aberta, com poucos preconceitos, uma pessoa que valoriza a amizade acima de tudo e que, nessa perspectiva, se entrega sem se importar com a interpretação torta que os outros possam fazer dos gestos que ela faz inocentemente, sem nenhuma intenção oculta. O jeito dela abraçar os amigos, a maneira de se sentar sem se preocupar demais se está mostrando mais ou menos "chuchu"… são coisas que vêm da pureza da mente dela e que, quando provocam algum comentário de algum dos "afetados", só conseguem fazê-la rir, sem desconforto, sem vergonhas absurdas. Ela tem dificuldade em ver malícia nos outros porque ela não faz as coisas com malícia; mostrar um pouco a calcinha ao sentar ou exibir o peito mais do que o normal ao se inclinar não faz parte de um ritual de sedução para Maria, mas sim um sinal de que ela está à vontade entre os amigos.
Foi assim que eu sempre entendi, nunca me preocupou a espontaneidade dela; pelo contrário, me orgulho do jeito dela ser e, se alguma vez peguei alguém olhando, vivi aquilo não como ofensa, mas com indulgência e, se o sujeito era amigo, com alguma provocação que deixava ele sem graça.
Assim éramos nós até então.
Porque algo mudou, já não consigo ver Maria com a mesma perspectiva.
Percebi essa mudança aos poucos, quando captava algum olhar para o corpo dela ao entrar num restaurante, ou algum olhar para o decote ou para as pernas dela… Até nos primeiros encontros com amigos depois da nossa volta, meu jeito de perceber os olhares, os abraços apertados e os tapinhas leves de algum íntimo já não era o mesmo. De repente, entendi que antes eu via essas coisas pela perspectiva da Maria, que era a minha própria perspectiva: inocência, naturalidade, nenhuma intenção… Agora eu via pela perspectiva de quem ficava perturbado pela força sedutora da Maria. Como é que um homem podia não reagir quando Ele se via envolto pelos braços daquela mulher magnífica, que não hesitava em apertar o corpo dela contra o dele. Quem conseguiria resistir àquele olhar profundo que parecia insinuar mil prazeres?
Percebi que o costume me fez deixar de reconhecer o erotismo tão forte da personalidade de Maria; não que eu não sentisse isso em mim ou não valorizasse, simplesmente não media o efeito que essa força causava em quem se aproximava dela.
Comecei a observar as reações de quem a olhava, com discrição, tentando não ser descoberto; analisava a linguagem corporal e gestual dos homens e das mulheres que entravam no campo de influência de Maria.
E comecei a ver coisas que antes não via. Nos homens, desejo; contido com sucesso nos mais próximos e mais evidente nos desconhecidos ou naqueles que, sendo amigos ou parentes, não se sentiam traídos pelos olhares ou pelas palavras.
Nas mulheres, inveja, territorialidade, ameaça, muito bem disfarçadas, mas todas essas emoções apareciam em qualquer reunião de amigos ou ao cruzarmos com um casal na rua.
Me tornei um voyeur dos outros, jamais me reconheceria nesse papel, mas agora passava o dia espiando quem olhava para Maria.
A linguagem corporal é mais poderosa que as palavras, a ponto de ser muito comum sabermos mais de uma pessoa não pelo que ela diz, mas por como diz. A linguagem corporal é ancestral, pré-verbal, existe nos animais com um código muito parecido com o humano e, o mais importante, aprendemos e agimos pelo que percebemos sem perceber que percebemos.
E foi assim que, através da linguagem corporal, foi se construindo uma segunda personalidade em mim, uma personalidade da qual Maria não fazia ideia, mas que cada vez entrava em ação com mais frequência.
Tudo começou com a forma como eu manuseava minha conduta para que o sujeito que olhava para Maria não desistisse ao se sentir observado por mim; um olhar direto não precisa de mais ameaça. pra fazer com que o tarado da vez desviasse o olhar e fosse embora, mas era exatamente isso que eu não queria; Agia como um caçador rondando a presa; podia ser no shopping, fazendo compras com a Maria; Eu varria o cenário e logo pegava algum marido entediado atrás da mulher dele que por um segundo ficava vidrado no peito da Maria, ou na bunda dela, ou nas pernas… então eu evitava o confronto, desviava o olhar mas mantinha ele no meu campo de visão periférico, assim confirmava que os olhares voltavam rápidos, escondidos, cada vez mais frequentes; Esse é o momento em que tento me aproximar da vítima levando a Maria pra perto dele. O cara, ao vê-la por perto, toma mais cuidado pra não ser pego, mas o desejo é mais forte que a razão e, uma e outra vez, quase contra a vontade dele, os olhos voltam a se fixar na pele da minha esposa.
Foi aí que comecei a criar meus pequenos truques, como apontar algo pra Maria que estava numa prateleira mais baixa, uns sapatos, por exemplo, ela se abaixa e… zás! A presa cai no decote cavado da Maria, eu continuo fingindo que não vejo, que não percebo nada.
Nessa faceta de voyeur, comecei também a me envolver como ator coadjuvante, às vezes, quando a vítima já tá fisgada e se sente confiante de que "o marido não saca nada", é o momento em que eu pego a Maria pela cintura ao caminhar até outra estante e minha mão desliza até a bunda dela, um gesto bem calculado pra não levantar suspeitas na Maria e também não parecer vulgar pro tarado.
Com o tempo, fui agindo com naturalidade, se a Maria em algum momento reclamou do meu jeito de tocá-la em público, logo parou e se acostumou com minha falta de vergonha na cara diante dos outros; É verdade que nunca cheguei a ser vulgar, mas os olhos de quem nos observa denunciam o efeito que meu jeito de tocar a Maria causa neles. Nossos amigos, de vez em quando, assobiavam ou faziam comentários que sempre foram bem recebidos. recebidos pela Maria, alheia à minha intenção.
Naquele verão, passamos quinze dias em Lanzarote e minha nova forma de ver as coisas se consolidou ainda mais.
1 comentários - Entregando minha esposa - Crônica de um consentimento Pt 9