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Compêndio III68: GREGOS DANDO PRESENTES
À medida que o resto da diretoria se adaptava a essa nova dinâmica, em que uma Edith mais ativa começava a pressionar e exigir criatividade, os chefes de departamento começaram a reagir na mesma moeda: novas ideias e o diálogo começaram a fluir. O que aconteceu durante o mandato de Reginald foi parecido com uma criança aprendendo a andar de bicicleta com rodinhas. Com Edith de volta ao comando, essa mesma criança estava aprendendo a pedalar, incentivada pela mãe.
No entanto, ainda restavam resquícios da antiga diretoria, tentando se esconder atrás de sorrisos superficiais e traiçoeiros. Sentavam-se na periferia da sala de reuniões, com expressões impecáveis e profissionais, enquanto suas mentes trabalhavam em tempo integral para calcular como virar suas lealdades sem parecer oportunistas.
-> Eu gostaria de propor algo... bastante incomum. - começou Helen, levantando a mão. Sua voz era um instrumento seco e preciso que cortou o murmúrio persistente na sala. - Mas talvez uma conclusão lógica dos eventos que se desenrolaram durante o mandato de sir Reginald como nosso CEO interino.
Senti uma leve apreensão que me deixou em alerta. Era aquele tipo de formigamento na nuca que me lembrou o aviso sobre osgregos que trazem presentesPoderia se descrever a Helen dessa maneira. Está no final dos quarenta, talvez início dos cinquenta. Diferente de Maddie ou Cristina, que preferiam roupas reveladoras, Helen se mantém fiel a um regime rígido de ternos azul-marinho e um tablet segurado com precisão cirúrgica. Seu corte bob preto mantém um perímetro afiado como uma navalha ao redor de um rosto que impõe uma quietude eficiente. Não usava joias, nem uma maquiagem que gritasse por atenção; não precisava. Sob as armações severas dos óculos e a silhueta sóbria de sua alfaiataria, permanecia uma feminilidade suave, persistente e quase esquecida.> Pode falar! - encorajou Edith, com aquela centelha renovada de curiosidade que tinha se tornado a marca registrada de seu retorno.
Helen não sorriu; nem sequer piscou. Simplesmente desviou o olhar do tablet para o centro da mesa, baixando a voz a um registro de absoluta certeza.
-> Gostaria de propor o Marco como chefe do departamento de logística, substituindo o Ethan. - afirmou, e as palavras caíram como pedras pesadas num lago tranquilo.
A reunião começou a murmurar, um zumbido baixo de especulações que preenchia as lacunas do pesado silêncio da sala. Ethan exibia os olhos dilatados e frenéticos, parecendo um rato que acabou de perceber que o barco está afundando e encontra todos os botes salva-vidas já ocupados.
Mas talvez a reação mais surpreendente tenha sido a de Inga. Para uma mulher que tratava a compostura como uma fortaleza, ela parecia fragmentada. Um rubor súbito e intenso subiu pelo seu pescoço de porcelana e, pela primeira vez desde que a conhecia, uma mecha rebelde de cabelo loiro platinado havia escapado do seu corte reto perfeito, grudando teimosamente na bochecha. Ela não falou, mas seus olhos azul-gélido arderam com uma fúria silenciosa e concentrada, tanto quanto seu rosto inexpressivo permitia.
No entanto, os olhos de Helen permaneceram fixos em Edith, um foco calculado que me deixou com os nervos à flor da pele. Minha relação com a Chefe de Segurança estava tensa desde que eu apontei a tendência dela de ignorar as inspeções de segurança durante a gestão de Reginald. Portanto, umrepentino arranque de admiração profissionalda parte dele não era um presente; era um sinal.
> Que intrigante! - Edith se inclinou para frente, os olhos se estreitando com uma curiosidade predatória que costumava preceder uma reestruturação corporativa de grande porte. - Explique-se, Helen!
Foi então que Helen permitiu mostrar algo parecido com gratidão, porque sua jogada tinha dado certo.— Obrigada, Edith! — respondeu Helen, e sua voz recuperou aquela precisão clínica e rítmica. Ela não olhou para mim; manteve o olhar fixo na CEO, nos tratando como meras notas de rodapé em sua apresentação. — Como a senhora sabe, a gestão do Sir Reginald foi marcada por uma série de... atritos operacionais. A maioria foi amenizada pelo nosso gerente regional, mas um incidente em particular merece uma análise retrospectiva.
Helen inspecionou a sala, certificando-se de que todos os olhos estivessem nela, mantendo ainda seu sorriso mascarado.
— Sir Reginald exigiu uma análise minuciosa da logística — continuou Helen, com uma voz que ressoava com precisão rítmica. — A apresentação em si foi impecável, mas quando Sir Reginald pressionou por um esclarecimento sobre uma discrepância específica, Ethan jogou a responsabilidade inteira no Marco, reconhecendo explicitamente que o Marco dominava o fluxo operacional mais do que ele.
Ethan parecia literalmente desmoronado, sua postura entrando em colapso como se tivessem sugado o ar dos pulmões. Não estava simplesmente derrotado; estava sendo apagado fisicamente. Porque tudo o que Helen dizia era verdade. Mas enquanto o conselho desviava o olhar para mim, uma compreensão fria se instalou nas minhas entranhas. Lembrei daquela mesma reunião com Reginald (a que Helen acabara de citar) e lembrei do momento em que disse ao CEO que Helen vinha negligenciando os protocolos de verificação de segurança nos sites. Então Helen, me elogiando no seu momento de maior fraqueza, era mais preocupante do que lisonjeiro.-> Estatisticamente falando, as linhas de suprimento também melhoraram durante o período em que Marco trabalhou sob as ordens de Ethan. - continuou Helen, deslizando o dedo pelo vidro do tablet. Um gráfico apareceu na tela da sala de reuniões, uma linha quebrada de eficiência que subia constantemente. - Nossas políticas de entrega de segurança nem chegaram perto dos prazos críticos, sobrando tempo de sobra mesmo quando surgiram condições imprevistas. Além disso, a relação atual de Marco com os gerentes do site o torna um candidato mais viável para o comando do que Ethan.
Mais uma vez, eu era o centro de gravidade da sala, o ponto em torno do qual orbitava toda a curiosidade da diretoria. Enquanto meus amigos mostravam expressões de orgulho genuíno, com os olhos brilhando diante da perspectiva da minha promoção, eu já pressentia o fio de disparo oculto sob sua *tapete de boas-vindas*. 3- A Helen tá certa! - gaguejou Ethan, com uma voz que soava fraca e quebradiça. Estava suando através da sua cara camisa de algodão, e o tecido grudava nos ombros dele de um jeito que o fazia parecer menor, mais frágil. - Ele tem mais talento, já tem os contatos... e, francamente, é mais capaz do que eu de fazer o meu trabalho.
Isso piorava as coisas. Se o próprio Ethan estava desistindo, o caminho para a chefia de logística não estava simplesmente aberto; era um vazio, e o resto da diretoria já começava a me sugar para dentro dele.> Você apresenta argumentos sólidos e validados, Helen! - reconheceu Edith, com a voz vibrando com uma espécie de fascinação distante. Ela se recostou, desviando o olhar para mim como um predador que decide qual ângulo de ataque é o mais eficiente. - Qual é a sua opinião sobre esse assunto, Marco?
Inga parecia ter percebido, naquele exato instante, que estava pisando em areia movediça; seus traços de porcelana se tensionaram ao ver as engrenagens girarem. Soltei um suspiro lento e amargo, daqueles que carregam o peso de um homem que sabe exatamente qual armadilha lhe armaram.
- Eu me recuso! - exclamei, cravando meus olhos no olhar penetrante de Helen.A decisão pesou como uma âncora lançada conscientemente numa sala que tentava me arrastar para uma costa que eu não queria visitar. Edith apenas soltou uma risada suave e melódica que não chegou aos seus olhos, que permaneceram semicerrados com uma expressão de diversão predatória.
> Interessante! - exclamou, com uma voz que vibrava com uma curiosidade afiada como um bisturi. - Explique-se!
-> É isso, Marco! Explique-se! - insistiu Helen. Seu sorriso continuava perfeitamente calibrado, uma máscara profissional que não conseguia esconder a quietude predatória dos seus olhos. - Edith sempre elogiou seus valores e sua compostura durante uma crise. Você é, segundo todas as métricas mensuráveis, o candidato mais lógico para o cargo de Ethan. Sua sintonia com os mestres de obra é um ativo que não podemos ignorar. Recusar uma promoção dessas… especialmente quando o próprio Ethan admite sua superioridade… é, francamente, um absurdo.
Cocei a cabeça, soltando uma risadinha seca que soou um tanto enlouquecida até para mim mesmo. O quarto estava em silêncio, o ar carregado com a expectativa da minha promoção e, no entanto, eu estava resistindo.- Mas esse é exatamente o ponto: eu sei exatamente o que o trabalho do Ethan envolve e o quão exaustivo pode ser. - comecei, com minha voz ancorando a atmosfera da sala.
Fiz uma pausa e olhei para o Ethan. A essa altura, ele parecia um pedaço de madeira à deriva na esteira de um naufrágio, piscando numa mistura de terror e uma esperança repentina e desesperada.
- Ethan, eu sei que seu trabalho não é glamouroso! Você é quem briga com os empreiteiros, luta com os fornecedores e assina aprovações à meia-noite para garantir que o cronograma não atrase. Em resumo, você estabelece a base que permite o resto de nós sequer pisar na obra.
Depois me virei para olhar a Edith, mantendo a voz firme, ancorando a sala numa lógica que priorizava a estabilidade sobre a ambição.
- O problema é que, como a Helen mencionou, eu lido diretamente com os mestres de obra. - expliquei, soltando um suspiro de cansaço. - E depois de ter conhecido alguns deles, você sabe o quão teimosos esses caras podem ser, Edith. Uma simples discussão sobre os calendários de manutenção pode virar um debate de quatro horas. Eu simplesmente não tenho capacidade mental para adicionar procedimentos de assinatura e disputas com fornecedores à minha agenda diária.
Helen soltou um bufido desdenhoso, um som agudo e clínico que cortou a tensão da sala.
- Mas qual é, Marco! Seja sincero! Você não pode estar tão absorvido pelo trabalho! - Embora o sorriso dela permanecesse perfeitamente calibrado, eu podia sentir o veneno por trás dele. - Caso contrário, você não encontraria tempo para colaborar com outros departamentos, como nos seus projetos atuais com o TI. Você sempre aceita novos desafios; adora a emoção de resolvê-los! Tracei uma linha mental na areia.
- Mas essa é a diferença: esses projetos são situacionais. - expliquei, e minha voz recuperou sua cadência operacional e constante. - Pessoas como Nelson e eu somos cabeadas de um jeito diferente. Devido ao nosso pensamento crítico constante nas operações em campo, somos naturalmente impulsionados a resolver problemas ou melhorar soluções com as ferramentas que temos. Ethan, por outro lado, mantém o ritmo. Ele gerencia o passo, não as faíscas.
O sorriso fingido de Helen não vacilou, mas o silêncio que se seguiu à minha recusa começou a gerar ondas. Os outros membros da diretoria começaram a sussurrar, suas vozes transformadas num zumbido baixo e estático de incredulidade e curiosidade. Para eles, eu estava cometendo uma heresia profissional: recusar uma coroa numa sala cheia de gente lutando para dar uma olhada no trono.
- Ocupar o cargo do Ethan é um desafio que não estou disposto a assumir. - continuei, me recostando na cadeira para deixar claro que minha decisão era tão firme quanto o leito rochoso que a gente explorava. - E por mais contraditório que pareça, o motivo de eu recusar é que não tenho certeza de que consigo ganhar. É verdade que o Ethan tem margem pra melhorar… e de fato ele tá se esforçando, visitando os canteiros pra construir esses vínculos... Mas neste momento, eu já tô num papel que me mantém alerta. Se eu pulo pra cadeira dele, além da curva de aprendizado acentuada das responsabilidades administrativas específicas dele, existe um risco alto de colapso total do sistema logístico. Não tô disposto a apostar a estabilidade da empresa na minha própria ambição. Por isso, o Ethan tem que manter o cargo dele.Fora uma Inga angustiada, notei que a Kaori absorvia minhas palavras com quietude. Não piscava; os olhos heterocromáticos dela seguiam o movimento dos meus lábios como se estivesse decodificando um idioma estrangeiro. No mundo dela e da Inga, a escala corporativa era uma série de degraus descartáveis; as peças mais fracas não eram cultivadas, eram substituídas por modelos mais eficientes. Mas o meu mundo era construído sobre a graxa e a areia dos canteiros, onde um parafuso enferrujado ou uma bomba teimosa se mantinha no lugar por pura teimosia até simplesmente parar de funcionar. No Ethan eu não via um funcionário medíocre; via um componente que continuava funcionando, por mais barulhento que fosse.
Depois de ouvir os dois pontos de vista, tenho que ficar do lado do Marco nessa decisão. - concluiu Edith, recuperando na voz aquela firmeza fria e autoritária que indicava o fim da deliberação. Recostou-se na cadeira, lançando um olhar na direção do Ethan com uma intensidade que o fez recuar visivelmente. - Embora eu concorde que ele é capaz de absorver as responsabilidades do Ethan sem problema nenhum, também devo confiar no próprio critério dele. Mas que isso te sirva de lição, Ethan! Tanto a Helen quanto o Marco acham que você pode fazer um trabalho melhor e, provavelmente, o resto de nós pensa o mesmo. Então, tenta ficar à altura das nossas expectativas pra gente não se encontrar de novo nessa situação. A sessão está encerrada!3- S-sim, Edith! - gaguejou Ethan, e o som da voz dele ressoou como um pedaço de vidro frágil prestes a quebrar. Ele não parecia apenas aliviado; parecia como se tivessem lhe concedido um indulto de verdade por um crime que ele nem sabia que tinha cometido.
Mas assim que a reunião terminou, meus amigos me lançaram olhares de profunda confusão, em algum ponto entre a admiração e algo mais. Sonia e Nelson, no entanto, se limitaram a me dar um aceno cúmplice, tendo lidado comigo por mais tempo.No entanto, me apressei em direção ao elevador, tentando alcançar Inga e Kaori antes que desaparecessem no labirinto corporativo.
Inga caminhava com uma precisão rígida e rítmica, seus saltos altos ressoando contra o mármore polido, marcando os segundos da queda de outra pessoa. Ao seu lado, Kaori era uma sombra silenciosa, seus olhos heterocromáticos escaneando o corredor com uma neutralidade que parecia mais vigilância do que assistência. Elas se moviam como uma só unidade (a espada e sua bainha) e o ar ao redor delas parecia esfriar alguns graus.
- Inga, você tem um minuto? - perguntei, me colocando no caminho dela e levantando a mão para deter sua retirada sincronizada.
Sua primeira reação foi tensionar, seus nós dos dedos ficando brancos enquanto apertava os arquivos e o notebook contra o peito como se fossem um escudo. Ao seu lado, a habitual máscara de neutralidade de Kaori vacilou; seus olhos heterocromáticos se arregalaram, alternando entre mim e Inga com uma alerta súbita e aguda.
• O que você precisa? - perguntou Inga, com uma voz tão plana quanto um beco sem saída. Embora sua postura tivesse recuperado sua rígida simetria corporativa, havia um lampejo de irritação em seus olhos azul-gélidos, uma fissura capilar no mármore polido de sua fachada.- Você está trabalhando com a Helen? - perguntei, inclinando-me o suficiente para romper a bolha estéril do espaço pessoal dela.
A reação dela foi instantânea: uma inspiração brusca que fez sua pele de porcelana ficar ainda mais pálida. Por um momento, a máscara corporativa não apenas rachou; ela se dissolveu.
• Não, absolutamente não! - explodiu Inga, com uma rispidez que fez Kaori piscar. Um tom rosado iluminou suas bochechas de porcelana e seus olhos azul-gélidos se estreitaram até virarem frestas microscópicas. - Eu não tenho a mínima ideia de que tipo de jogo ela está jogando!
- Tá bom, tá bom! É bom saber disso! - respondi, sentindo uma onda genuína de alívio me percorrer.
Inga olhou para mim como se eu tivesse acabado de falar em uma língua morta, piscando seus olhos azul-gélidos num raro momento de desorientação genuína.
• Você... Você realmente acredita em mim? - perguntou Inga, com a voz suspensa num espaço estranho entre a suspeita e a perplexidade absoluta.
Ao lado dela, Kaori permanecia como uma estátua viva, embora seus olhos heterocromáticos tenham se voltado para mim com um traço de curiosidade.
- Sim, eu acredito em você. - disse, com uma leveza na voz que pareceu confundi-la. - Sua linguagem corporal é um livro aberto, Inga. A forma como você apertou aquelas pastas, a tensão nos seus ombros... não era a reação de uma co-conspiradora. Era a reação de alguém que estava igualmente atônita. O motivo de eu ter perguntado é que eu sei que você não suporta me ver; imaginei que finalmente teria encontrado uma forma de usar a Helen como arma para limpar seu tabuleiro.
E, pela primeira vez desde que a conhecia, Inga reagiu como uma mulher real em vez de como uma estátua de gelo corporativo. • Eu... na verdade não te odeio. — murmurou Inga, e sua voz perdeu aquele fio de navalha. Ela levantou a mão para afastar uma mecha rebelde de cabelo platinado que na verdade não precisava ajeitar, um gesto que beirava o nervosismo.
Mas tanto Kaori quanto eu sabíamos a verdade: Inga detestava absolutamente a minha existência. O que acontece com as pessoas que se enxergam como pilares da excelência profissional é que raramente se percebem como a vilã na história de alguém. Quando você as confronta com a realidade crua do desdém delas, elas não se sentem expostas; se sentem chocadas por você ter tido a audácia de perceber.- Você tem razão! Eu me retrato! - me corrigi, e a tensão entre nós se transformou em algo quase conversacional. - Você não gosta de mim, e tudo bem. Você tem direito à sua opinião. Isso não significa que a gente não possa trabalhar junto.
As duas mulheres me olharam, com as expressões congeladas num estado de genuíno desconcerto.
• Não...? - perguntou Inga, com uma voz que soava estranhamente frágil, como se o conceito de discordar sem desejar a aniquilação total fosse um idioma estrangeiro que ela custava a traduzir.
Por um momento, a geleira corporativa que era Inga vacilou, revelando um lampejo de algo quase parecido com uma emoção real.
- Sim, não significa isso. - respondi com uma risada suave, me relaxando um pouco. - Pra vocês duas, eu provavelmente sou o primo de terceiro grau esquisito que tem problema com bebida.
Minha analogia passou completamente batida pra elas...
• Eu... não tenho nenhum parente assim. - respondeu Inga, recuperando sua habitual persona polida.
Dei uma gargalhada, cujo som ecoou levemente no corredor.
- É, imaginei! - respondi, relaxando os ombros enquanto voltava ao assunto em questão. - O que quero dizer é que nossa abordagem pra resolver problemas é totalmente diferente, e eu reconheço isso. Tipo a Edith, na real não me importa como os objetivos são alcançados, desde que sejam cumpridos. Nesse sentido, você e eu estamos em pé de igualdade.
Surpreendentemente, esse breve lampejo de honestidade crua fez Inga parecer mais humana. A máscara de porcelana não quebrou, mas se deslocou, revelando um lampejo de irritação genuína.
• É só que... não entendo qual é o problema dela. - seus lábios quase franzidos no fantasma de um sorriso. Por um segundo fugaz, a armadura corporativa escorregou um centímetro para a esquerda, revelando uma mulher genuinamente desconcertada pela coreografia errática de outra pessoa. - Nós duas queremos que você saia da reunião, isso é certo. Mas meu objetivo é te despir da sua influência, não te entregar uma coroa numa bandeja de prata.
Sua última frase tinha ressoado com uma frustração genuína e áspera, um vislumbre raro da mulher por baixo do engomado. Mas tão rápido quanto o pano tinha subido, desceu de golpe. Inga recuperou uma postura rígida, e sua expressão voltou a se tornar uma máscara de indiferença corporativa.
- Exatamente! É por isso que eu queria perguntar! - repliquei, sustentando o olhar dos seus olhos azuis e gélidos.
Por um segundo fugaz, o ar entre nós mudou. Não era amizade (éramos teimosos demais pra isso), mas um momento de reconhecimento mútuo. Foi a conexão breve e silenciosa de dois generais postados em lados opostos de um campo de batalha, percebendo que ambos falavam a mesma língua de estratégia e conquista.
- Você e eu temos coincidido mais ultimamente! - apontei, matando o clima instantaneamente.
• Não, não temos! - disparou Inga. Recuou como se minha observação fosse uma mancha física no seu terno sob medida, e seus nós dos dedos ficaram brancos enquanto apertava suas pastas contra o peito. - Marco, não vou me rebaixar aos seus artifícios altamente emocionais, bárbaros e de terceiro mundo! Quero que você saia da reunião, e você sabe disso! Mas vai ser nas minhas condições! Nem nas do Reginald. Nem nas da Helen. Nas minhas! Entendeu?
Não pude evitar; uma gargalhada escapou de mim diante de uma agora perplexa Kaori. Por um momento, aRainha do Gelo Corporativatinha desaparecido, substituída por uma mulher genuína e apaixonadamente irritada porque sua estratégia para minha queda tinha sido antecipada pelo golpe desajeitado de outra pessoa.
- Ah, isso eu entendo! E também espero por isso! - respondi, com o riso ainda dançando no meu peito. - No entanto, você deveria prestar atenção na Helen.
Minhas palavras agiram como um balde de água gelada, apagando instantaneamente o fogo da Inga. O silêncio que se seguiu foi pesado, o tipo de silêncio que precede um deslizamento de terra. A Inga não respondeu bruscamente desta vez; em vez disso, inclinou a cabeça, com seus olhos azul-gélido se estreitando enquanto processava meu aviso. Ao lado dela, o olhar da Kaori se desviou de mim para a Inga.
- No meu país, tem um ditado que diz algo tipo: «Senhor, cuide de mim em águas tranquilas, porque nas tormentosas eu posso cuidar de mim mesmo— disse eu, e as palavras pousaram com uma ressonância carregada no corredor esterilizado. Inclinei-me uma fração, baixando a voz até transformá-la num zumbido conspirador. — E tenho o pressentimento de que Helen está escondendo muito mais do que vemos na superfície.
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