Transas Noturnas com Minha Mãe | Cap. IV

Transas Noturnas com Minha Mãe | Cap. IV


Quarta parte de Transas Noturnas com minha Mãe...


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>>>>>>><<<<<<<Eu já estava acordado. Estava acordado desde antes do sol nascer, rolando na cama, ouvindo os pássaros lá fora, sentindo o frio dos lençóis que eu não conseguia esquentar. Levantei, tomei banho, me vesti. Calça cinza, camisa branca, suéter azul-marinho. O uniforme de sempre. A máscara de sempre.

Antes de sair do quarto, revistei a gaveta do armário.

Não estava lá. Me alarmei, mas lembrei que tinha jogado no chão. Procurei embaixo da cama e lá estava. E na hora guardei no armário.

A calcinha fio-dental vermelha, ali. Amassada, com aquela mancha que não ia mais sair, escondida no meio da minha cueca. Olhei pra ela um segundo. Só um segundo. Depois cobri com uns boxers, fechei a gaveta.

Não queria pensar nisso. Mas o sonho ainda queimava atrás dos meus olhos.

Ela estava no meu quarto. De noite, com a luz da lua entrando pela janela. Uma camisola branca, minúscula, transparente, que mal chegava no meio das pernas. Marcava tudo. Os peitos, os mamilos, os quadris, o triângulo escuro embaixo. E o fio-dental vermelho aparecendo por baixo da barra, essa peça minúscula que mal cobria a buceta dela, apertada ali. Ela se aproximou devagar, mexendo os quadris como se soubesse o que estava fazendo comigo, e sussurrou meu nome.

John… Que braços fortes você tem…

Agora eu descia as escadas e ela estava na cozinha. Tinha que olhar pra cara dela como se nada disso tivesse acontecido.

Vamos, John. Controle.

Desci os últimos degraus e virei pra cozinha.

Ana estava de costas, tirando coisas da geladeira. Calça de moletom clara, que apesar de ser folgada, mesmo assim marcava aquele bundão, uma blusa branca de manga comprida, o cabelo solto caindo sobre os ombros. Nada especial. Nada como a camisola do sonho. Mas quando eu a vi, a imagem voltou. O branco transparente, o tecido colado na pele dela, os dedos dela se esticando na minha direção…

Pisquei. Limpei o rosto com uma mão, como se poderia apagar a imagem na porrada.
—Bom dia —eu disse.

Ela se virou.

E a gente ficou se olhando.

Um segundo. Talvez dois. Mas pareceram mais longos. Os olhos dela se moveram rápido pelo meu rosto, como se estivesse procurando alguma coisa. Tinha uma expressão estranha. Não era o incômodo da outra noite, não era a frieza do dia seguinte. Era algo mais suave. Parecia nervosa.

Ela sorriu. Mas não como sempre. Era um sorriso pequeno, contido. Quase tímido.

—Bom dia, John —disse ela.

A voz dela soou mais baixinha que o normal.

—Dormiu bem? —perguntei, só pra dizer alguma coisa, pra preencher o silêncio que estava ficando esquisito.

Ana piscou. As bochechas dela ficaram um pouco rosadas. E o sorriso cresceu uns milímetros, como se a pergunta tivesse agradado mais do que devia.

—Sim —disse—. Bem. E você?

Sonhei com você. Com aquela camisola branca que não existe mas que minha cabeça inventou. Com a calcinha fio-dental vermelha que eu roubei da sua gaveta. Acabei pensando em você antes do sol nascer.

—Bem —eu disse.

E me odiei um pouco pela facilidade com que menti.

—Senta —disse ela, se virando pra fogão—. Tá com fome?

—Tô.

Sentei na mesa. A mesma mesa de ontem, onde ela me serviu o jantar e ficou do meu lado, me olhando comer. E ela estava ali de novo, se movendo entre o fogão e a pia, preparando alguma coisa.

Alma já estava sentada na cadeirinha dela. O cabelo castanho claro ainda bagunçado, os olhos bem abertos, com uma mão enfiada dentro da caixa de cereal.

—Oi, John —disse ela, com a boca cheia de Choco Krispis.

—Oi, minha pequenininha —respondi, e baguncei o cabelo dela.

Ana pôs um prato na minha frente. Ovos mexidos, uma tortilla e café. Nada demais. Mas ela fez com cuidado, como se quisesse que ficasse perfeito.

—Valeu, mãe —eu disse.

Ela ficou de pé do meu lado um instante. Não sentou. Só ficou ali, me vendo dar a primeira mordida. Tinha as mãos cruzadas sobre o avental, os dedos inquietos, se movendo sem parar.  —Tá bom? —perguntou.  —Bom demais —falei. E era verdade.  Sorriu. Aquele sorriso largo agora, que mostrava seus dentes perfeitos e bem cuidados. Se virou e voltou pro fogão, mas não fez nada. Só mudou uma panela de lugar, colocou de volta onde estava, ajustou a tampa. Tava nervosa.  Não soube por quê. Ou soube. Ontem na cozinha, quando a abracei por trás e ela ficou no meu abraço. Quando disse "gosto disso" enquanto acariciava meu braço. Quando fez eu prometer que ia convidá-la pro cinema, como se a gente fosse…  Não. Não ia por aí.  Deixa pra lá, John.  Dei uma olhada na bunda dela. Era inevitável.  Pés na escada. Passos apressados, de adolescente que acorda atrasada. Valeria desceu como um furacão, com o uniforme meio posto, o coque desarrumado, o celular na mão.  —Já tô atrasada! —gritou, mais pra ela do que pra gente.  —Calma —disse Ana—, ainda dá tempo.  —Não dá, já são sete.  —Sua van passa às sete e quinze, senta.  Valeria bufou, pegou uma banana da fruteira, mordeu e sentou na minha frente.  —Ei —me disse, com a boca cheia—, amanhã você tá ocupado?  —Tô —menti.  —Pode me ajudar com o teclado? —disse se referindo ao instrumento musical dela—. É que não consigo tirar umas notas.  —Depois.  Matías desceu os degraus de três em três. Literalmente. Ouvi antes de ver, como um touro descontrolado.  —Vou ganhar a corrida do recreio! —anunciou, entrando na cozinha.  —Que corrida? —perguntou Valeria.  —A do recreio.  —Matías —falei—, não é nada.  Matías riu, pegou um copo de cum que minha mãe já tinha deixado pra ele, e tomou de um gole só. Com a cum escorrendo pelo queixo, se limpou com a manga.  —Matías —disse Ana—, o guardanapo.  —Ai, mãe.  A casa soava como sempre. Crianças bagunçadas, pratos se movendo, a TV de fundo na sala, o relógio marcando as horas. Tudo normal.  Mas Ana continuava inquieta. Ela me olhou algumas vezes do fogão. Olhares rápidos, que duravam menos de um segundo, e depois iam pro prato, pra janela, pra qualquer lugar. Como se não quisesse que eu soubesse que estava me olhando. E eu não conseguia parar de reparar nas mãos dela. As mãos que ontem acariciaram meu braço. Os dedos que apertaram meu bíceps. As unhas pintadas de uma cor clara, quase rosada. —John —disse de repente—. Você vai sair hoje? A pergunta soou casual. Casual demais. —Sim, vou pra academia —falei—. Por quê? —Nada. Só perguntando. Ela mordeu o lábio inferior e voltou pro fogão. Achei meio estranho. Mas lembrei que tinha chamado a Diana pra sair, pro cinema. Tinha esquecido. Os minutos passaram. Valeria subiu pra terminar de se arrumar. Matías começou a brincar com um carrinho no chão da cozinha, fazendo barulhos de motor com a boca. Alma terminou o cereal e ficou olhando um desenho na caixa, com os dedos grudados. Eu continuava comendo. Minha mãe continuava me olhando de canto. —Já vou —disse a voz do meu pai vinda da escada. Desceu com o terno cinza, a gravata bem posta, a maleta numa mão. A presença dele encheu a cozinha de outro jeito. Mais pesada. Mais séria. —Bom dia —disse, sem olhar pra ninguém em particular, e foi direto pra xícara de café que minha mãe já tinha deixado servida pra ele. —O café da manhã tá no fogão —disse ela, séria. —Não tô com fome. Tomou o café em pé, apoiado na bancada. Olhou o relógio. —John, em cinco minutos a gente vai. —Tá bom, pai. Terminei de comer rápido. Deixei o prato na pia. —Valeu, mãe —falei. Ela me olhou. De novo aquele olhar rápido, curto, que sumia antes que eu pudesse devolver. —De nada —disse, e vi um sorrisinho. Meu pai já estava na entrada, com a maleta debaixo do braço, o celular na mão, checando alguma coisa. Peguei minha mochila. —Até mais —falei pros meus irmãos. Alma mandou um beijinho de longe pra se despediu. Matías nem me escutou, continuou no quarto dele.

—Se cuida —disse Valeria, descendo as escadas de novo, já arrumada.

Saí. Meu pai já estava subindo na caminhonete, a Ford Ranger cinza que ele sempre dirigia com uma mão, como se o volante atrapalhasse. Entrei no banco do carona.

Antes de ele dar a partida, olhei para a casa.

Papai deu a partida. A caminhonete começou a se mover. E eu vi pelo retrovisor como a nossa casa ia ficando para trás, até que dobramos a esquina e ela desapareceu.

O que está acontecendo?

Não consegui responder a mim mesmo.

>>>>>>>

A tarde estava meio ensolarada. Tinha um monte de criança brincando enquanto eu passava pelo parque. O vento balançava as folhas das árvores.

As aulas já tinham acabado. Eu já tinha almoçado. Já estava vestido, perfumado, e caminhando até a casa da Diana com o nervosismo levemente bagunçado, mas sem querer admitir pra mim mesmo.

Eu tinha colocado uns jeans pretos justos, uma camisa de manga comprida cinza, as mãos bem perfumadas. Me olhei no espelho antes de sair e pensei: você está apresentável. Nada fora do normal, mas o suficiente. Minha mãe não estava quando cheguei. Só um bilhete colado na geladeira com a letra dela redonda e organizada:

"John, fui buscar a Alma no jardim. Tem comida na panela. Esquenta e come. Mamãe."

Normal. Tudo normal.

Mas enquanto eu caminhava sob o sol da tarde, com as mãos nos bolsos e a cabeça em outro lugar, não conseguia parar de remoer a mesma coisa.

O que está acontecendo com a minha mãe?

A mudança era nítida. Ontem à noite ela estava feliz, feliz demais, e eu com os braços em volta da cintura dela sentindo como ela se encostava em mim, como ela acariciava meu braço com aqueles dedos lentos, como ela me olhava como se eu fosse o centro de alguma coisa. E hoje de manhã, na cozinha, aquele sorriso tímido que não era o de sempre. Aquele jeito de me olhar rápido e desviar o olhar, como se tivesse vergonha de ser pega.

Talvez tenham sido os detalhes, pensei. As flores, os chocolates. Ela sentiu especial. Queria que fosse só isso. Virei a esquina e senti o frio na barriga. Aquele antes de algo importante, o das primeiras vezes. Respirei fundo e toquei a campainha. Lá dentro se ouviram passos. A porta se abriu. E lá estava ela. Diana sorria do batente da porta, e juro que a luz da rua ficou mais bonita só pra ajudar. Ela estava com um jeans escuro, bem justo, que marcava as pernas torneadas e retas. Uma blusa preta de manga comprida, simples, com um decote pequeno que deixava ver o começo dos ombros. O cabelo loiro estava solto, caindo sobre os ombros em ondas suaves. E os olhos… aqueles olhos azuis que pareciam mais brilhantes com a blusa preta, como se alguém tivesse acendido eles por dentro. —Oi —disse ela, e a voz soou um pouco mais aguda que o normal. —Oi —respondi, e com certeza soei igualmente nervoso. Ela deu um passo e me deu um beijo no rosto. Rápido, suave. A pele dela cheirava a creme, algo doce, tipo coco ou baunilha. Quando se afastou, estava com as bochechas um pouco coradas. —Pronta? —perguntei. —Sim —disse ela, pegou uma jaqueta do cabideiro e saiu fechando a porta atrás de si—. Aonde vamos primeiro? —Pensei em caminharmos um pouco, depois vamos ao cinema. —Parece bom. Começamos a andar. Ela se pôs ao meu lado, tão perto que nossos ombros se roçavam de vez em quando. No começo não aconteceu nada. Depois, sem que eu dissesse nada, ela enfiou a mão no vão do meu braço e se pendurou em mim, como se fôssemos namorados daqueles de filmes antigos. Não disse nada. Mas por dentro eu me derretia de prazer. —Ei —disse ela enquanto andávamos, olhando pra frente—, por que você demorou tanto pra me chamar? A pergunta me pegou de surpresa. —Como assim tanto? Se eu te chamei ontem. —Sim, mas a gente tava conversando há semanas —ela me olhou de esguelha, com um sorriso maroto—. Achei que você tava com medo. —Medo? De quê? —De mim. Ela soltou uma risada curta e Ela apertou meu braço contra o peito sem querer querendo. Senti a maciez do corpo dela através da blusa e tive que olhar pra rua pra não ficar vermelho.

—Você não me dá medo —falei—. Só queria encontrar o momento certo.

—E esse é o momento certo?

—Parece que sim.

Chegamos a um shopping próximo. Tinha gente andando, criança correndo, senhoras com sacola do supermercado. A tarde estava amena, sem o calorão feio do meio-dia. Caminhamos até a praça, sentamos num banco um tempo, falando de coisas sem importância: a escola, os professores, uma colega que tinha brigado com o namorado, a festa do fim de semana que alguém estava organizando.

Depois fomos ao cinema. Um filme de animação, comédia. Nada demais, mas ela ria com cada piada, às vezes mais alto do que a cena merecia, e isso me fazia rir também. Num momento do filme, quando tudo estava escuro, senti a mão dela procurar a minha sobre o apoio de braço. Peguei. Os dedos dela eram macios, frios. Entrelacei com os meus. E ficamos assim, sem dizer nada, olhando pra tela como se o mundo lá fora não importasse.

Quando saímos, já estava escurecendo.

—Vamos tomar um sorvete? —ela perguntou, sem soltar minha mão.

—Claro.

Fomos à sorveteria da esquina. Ela pediu um de morango com granulado. Eu de chocolate. Sentamos lá fora, numa mesinha pequena, e enquanto ela lambia o sorvete, não consegui evitar olhar pros lábios dela. Grossos, macios, rosados. Os mesmos lábios que eu vinha imaginando havia semanas.

Calma, falei pra mim mesmo. Não vai assustar ela.

Mas ela me olhou enquanto lambia o sorvete, e sorriu como se soubesse exatamente o que eu estava pensando.

—O quê? —perguntou.

—Nada —falei, e mordi meu casquinha—. Você tá gostosa hoje.

As bochechas dela ficaram vermelhas. Baixou o olhar por um instante, e quando levantou, os olhos brilhavam.

—Valeu —disse baixinho.

Terminamos o sorvete e caminhamos de volta pra casa dela casa. Já era noite. Os postes de luz da rua acesos, as casas com luzes acesas por dentro, algum cachorro latindo ao longe. Ela continuava com a mão no meu braço, e eu sentia o calor dela através da jaqueta.

Chegamos à porta da casa dela. Ficamos nos olhando por um momento. A luz da varanda iluminava o rosto dela de cima, fazendo sombra nas maçãs do rosto, deixando os olhos mais profundos.

—Obrigada pelo dia de hoje —disse ela—. Me diverti muito.

—Eu também.

—O filme foi engraçado.

—É, mas não vi metade.

—Por quê?

—Porque eu estava te olhando.

Ela ficou calada. Piscou. E o sorriso dela cresceu devagar, como se estivesse saboreando minhas palavras.

—Você é um bobo —disse ela.

—Eu já sei.

Ficamos em silêncio. Um silêncio daqueles que pesam mas não apertam, que pedem que você faça alguma coisa.

Cheguei mais perto dela.

Ela não recuou.

Inclinei a cabeça. Ela também. E então nossos lábios se encontraram.

Não foi rápido. Não foi desajeitado. Foi lento, suave, como se nós dois estivéssemos esperando por aquele momento e agora não houvesse pressa. A boca dela tinha gosto de morango, e o lábio inferior dela era tão macio quanto eu tinha imaginado. O meu se abriu um pouco, o dela também, e a língua apareceu como um cumprimento tímido, um roçar só. Um sabor doce, quente. Minha mão subiu até a bochecha dela. A dela pousou no meu peito.

Ficamos assim sabe-se lá quanto tempo. Um minuto. Talvez mais. Quando nos separamos, ela estava com o rosto corado, os lábios entreabertos, os olhos brilhando como duas pedras azuis molhadas.

Ela sorriu. Eu também.

—Boa noite, John —sussurrou ela.

—Boa noite, Diana.

Ela entrou em casa. Fiquei vendo a porta se fechar. Depois me virei e caminhei de volta, com as mãos nos bolsos, a boca ainda com o gosto dela, o peito quente.

Você conseguiu, pensei. Não fez merda.

Cheguei em casa com o sorriso ainda no rosto. Abri a porta e entrei.

A sala estava iluminada. Ana estava sentada no sofá, com os braços cruzados sobre o peito, vendo TV. Alma estava na frente dela, sobre o tapete do meio, brincando com uma boneca, também olhando para a tela de vez em quando.

—Cheguei —falei, deixando as chaves na entrada.

Minha mãe não respondeu.

Fiquei olhando pra ela um instante. Estava com a testa levemente franzida, os lábios apertados, o olhar fixo na televisão como se o que estivesse passando fosse a coisa mais importante do mundo. Mas não tinha nada importante. Era um programa de culinária.

—O que foi, mãe? —perguntei, como se nada.

Aí ela me olhou.

Os olhos dela percorreram meu corpo de cima a baixo. O jeans preto justo, a camisa cinza, o perfume que ainda dava pra sentir. A cara dela mudou. Não sei como explicar. Ficou mais dura. Mais fechada.

—Acho que você tinha dito que ia pra academia —disse. A voz soava plana, mas com um fio de faca por baixo.

Pisquei.

—Pra academia?

—É. Foi o que você me disse de manhã.

—Ah… é, mas —cocei a nuca— mas também te falei do cinema com a Diana, né? Ontem te contei. Esqueci de comentar de novo, mas…

—Você não me falou nada —me interrompeu. E o tom já não era plano. Era cortante—. Disse que ia pra academia. E chega vestido assim, perfumado, às oito da noite.

—Mãe, foi um rolê. Com a Diana. A menina que você…

—Já sei quem é.

A voz dela cortou o ar. Alma levantou o olhar da boneca, olhou pra gente um instante, e voltou pra brincadeira.

Eu fiquei parado na entrada da sala, sem saber o que dizer. Porque é verdade, sim, hoje de manhã não tinha falado especificamente que ia sair com ela. Mas ela sabia. Falei ontem na cozinha, quando a gente estava abraçado, quando ela me fez prometer que ia convidar ela pro cinema outro dia.

—Não entendo por que você tá se irritando —falei, e saiu mais duro do que eu queria—. É só um rolê.

—Não tô me irritando —disse, e cruzou os braços com mais força.

—Tá sim.

—John.

—O quê?

Ela me olhou. E nos olhos dela eu vi algo que eu não soube ler naquele momento. Não era só raiva. Era outra coisa. Algo mais confuso.
—Alma —disse, sem parar de me olhar—, pega sua boneca e sobe pra tomar banho.

—Mas mãe…

—Agora!

A menina se levantou entediada, pegou a boneca pelo cabelo e saiu da sala com passos curtos. Vi ela subir as escadas, toda encolhida, e senti uma raiva que não era contra ela.

Ana se levantou do sofá. Ficou me olhando do centro da sala, com os braços ainda cruzados, o maxilar travado.

—Você faz o que quer —disse—. Já é grandinha. Não precisa me avisar de nada.

—Então por que você fica com raiva?

—Não estou com raiva.

Ela se virou e caminou pra cozinha. Vi ela indo embora. O passo era rápido, enérgico, os quadris se movendo dentro da calça que ela estava usando. Não quis olhar. Mas olhei.

Ai, John…

Fiquei um momento na sala, escutando os barulhos da cozinha: uma porta que abre, um prato que bate no outro, a água correndo. Não falei mais nada. Ela também não.

Subi as escadas.

Passei na frente do quarto da Alma. A menina estava sentada na cama, com a boneca na mão, sem chorar mas com os olhos brilhando. Matías estava brincando, eles dividiam o quarto. Bati na porta.

—Tá tudo bem? —perguntei baixinho.

Ela assentiu.

—A mamãe ficou com raiva —disse.

—Foi, mas não foi por sua causa.

—Por causa de quem foi?

Não soube o que responder.

—De ninguém —falei—. Vai tomar banho agora, tá?

Fechei a porta do quarto dela e entrei no meu.

Me joguei na cama, de barriga pra cima, olhando o teto. Os lençóis cheiravam a amaciante. A casa soava como sempre: a TV lá embaixo, algum carro passando, o zumbido da geladeira.

Por que ela ficou tão puta?

Eu falei que ia sair. Falei ontem. Não era tão importante assim pra ela surtar desse jeito. E além do mais, o que ela tinha a ver com quem eu saía? Era a minha vida. Eu podia ir ao cinema com quem eu quisesse.

Mas quanto mais eu pensava, mais ficava uma sensação estranha no peito, como se eu tivesse feito algo errado sem saber o quê. Quem entende as mulheres. Soltei um suspiro, peguei o celular e vi uma mensagem da Diana. "Cheguei bem. Obrigada pelo hoje, amei." Sorri. Respondi: "Eu também. Descansa." Guardei o celular. Fechei os olhos. E lá embaixo, na cozinha, escutei a água correndo ainda. A Ana continuava lá. E eu continuava sem entender nada. >>>>>>> Descia as escadas com os olhos ainda meio fechados, bocejando, o cabelo bagunçado, a camiseta velha que uso pra dormir. Sábado. Sem pressa. Meu pai tinha saído bem cedo, escutei a porta lá pelas cinco da manhã. Viagem de negócios, disse ontem no jantar. Não volta até amanhã. Casa tranquila. Casa vazia, quase. Quando cheguei no último degrau, escutei a voz da minha mãe. Vinha da cozinha. Não falava alto, mas no silêncio da manhã dava pra ouvir claro. Estava puta. Não gritava, mas aquele tom que ela usava quando algo tirava ela do sério. Fiquei parado, sem fazer barulho. Sem querer interromper. Sem querer que ela soubesse que eu tava ouvindo. —Tô quase mandando ele embora. Tô quase mandando ele embora! O coração disparou. Eu? Ela quer me mandar embora? Minha cabeça começou a girar. Por que ela me mandaria embora? Pelo que aconteceu da outra vez? Pelo abraço na cozinha? Por ter saído com a Diana? Não fazia sentido. Mas o medo é burro, e o meu acordou de repente. Continuei ouvindo. —Não, não é isso —disse a Ana, e a voz dela baixou um pouco—. É ele. O Hernán. Respirei. Não era comigo. Mas então por que meu pai? Fiquei colado na parede do corredor, bem onde ela não podia me ver se virasse, mas onde eu podia ouvir cada palavra. A adrenalina tinha me acordado de vez. —De novo —disse a Ana. Escutei o barulho de uma xícara contra a mesa, como se ela tivesse soltado com força—. De novo com a mesma foxy. Você acha que eu não fico sabendo? Meu sangue gelou. foxy? Não era difícil entender o que ela tava dizendo. —Não sei quem é —continuou, e a voz dela soou mais afiada agora, mais afiada—. Mas eu vou encontrá-la. E quando eu encontrar… Fez uma pausa. Ouvi ela respirando fundo, como quando tenta se acalmar e não consegue. —Tô aguentando há meses, amiga. Meses. Desde o ano passado. Mas isso já… Se cortou. Ouvi ela se mexendo, puxando uma cadeira, sentando. —Não, como é que é? —disse, e o tom mudou. Já não era só raiva. Era cansaço. Tristeza—. Porque não adianta nada. Já confrontei ele antes. Já encarei. E ele mente na minha cara, jura que são só fofocas da fábrica, que as mulheres são invejosas. E eu sei que ele mente. Mas também sei que se eu confrontar de novo, vai acontecer a mesma coisa. Ele vai negar, eu vou ficar puta, ele vai sair pra trabalhar mais tarde, e no final… Silêncio. —No final eu sou a louca que termina sozinha nessa casa, enquanto ele anda por aí fazendo as porcarias dele. Aperto os punhos. Senti raiva. Raiva do meu pai. Que vivia na fábrica, que chegava tarde, que nunca estava, e que ainda por cima… Não conseguia acreditar ainda. Meu pai estava traindo minha mãe. A imagem explodiu na minha cabeça. Meu pai com outra mulher. Na fábrica, talvez. Naquele apartamento que ele tem lá em cima da fábrica. Ou sei lá onde. Mas com outra. E ela sabia. Fazia meses que sabia. —É, já sei o que você vai dizer —disse Ana, e a voz soou mais baixinha agora, como se tivesse vergonha—. Que eu também… Parou. Ouvi ela suspirando. Longo. Como se estivesse pensando se continuava ou desligava. —Bom, isso é diferente —disse no final. E não explicou o que era diferente—. Você sabe bem por que eu faço isso. Não entendi essa parte. Fazer o quê? Do que ela tava falando? Mas antes que eu pudesse continuar processando, Ana voltou a falar. —Não, não me arrependo… Bom, às vezes. Mas depois passa. Outra pausa. —Porque quando volto a vê-lo, lembrando de tudo que ele fez… esqueço qualquer culpa. Culpa. Ela falou de culpa. Que culpa? Não fazia sentido. Minha mãe não não tinha nada pelo que se sentir culpada. Por que ela falava de culpa?

—Ai, Mary, sei lá —disse, e a voz dela falhou um pouquinho —. Às vezes eu sinto que tudo isso é um desastre. Que eu devia fazer alguma coisa, mandar tudo pro caralho, mas…

Silêncio.

—Mas aí eu penso nas crianças. No John, na Valeria, nos pequenos. E não consigo. Não quero que eles paguem pelo que ele faz.

Isso me acertou em cheio no peito. Ela aguentava por nós. Engolindo a raiva, a tristeza, a humilhação, pra não destruir a família.

Mãe…

—É —disse ela, mais baixinho —. É, eu sei. Não sou a única. Mas ele dorme do meu lado toda noite. E eu sei que ele esteve com outra. E isso…

A voz dela cortou.

Eu a ouvi soluçar.

Um soluço pequeno, curto, como se ela estivesse segurando com todas as forças. Um som que me quebrou por dentro.

Dei um passo em direção à cozinha.

Vai. Consola ela. Abraça ela.

Meu corpo já estava se movendo quando ouvi passos atrás de mim.

—E você tá fazendo o quê aí?

Quase me deu um infarto.

Me virei e dei de cara com a Valeria no segundo degrau, com o celular na mão e a testa franzida, me olhando como se eu fosse um esquisito.

—Nada —disse, e minha voz saiu mais aguda que o normal —. Tava descendo pra tomar café.

—E por que você tá parado aí feito um idiota?

—Sei lá! Puf! Para de encher. Eu tava pensando.

Ela não acreditou, mas também não ligou o suficiente pra continuar perguntando. Desceu os degraus e passou do meu lado a caminho da cozinha.

Bem nessa hora, a Ana saiu.

A gente ficou os três no corredor. A Valeria com a cara de adolescente dela, eu com o olhar de quem ouviu o que não devia, e a Ana com o celular na mão, a cara séria, os olhos um pouco vermelhos, mas secos. Com certeza ela limpou as lágrimas antes de sair. Nos olhos dela, por trás daquela seriedade, tinha tristeza.

—Bom dia —disse ela. A voz soava normal, mas era uma normalidade fingida —. Vocês dois já desceram?

—Já, mãe —disse a Valeria, e passou pra cozinha como se nada tivesse acontecido —. O que tem de café da manhã?

A Ana foi atrás dela com a olhar. Depois ela me viu. Ficamos nos olhando por um momento. Só um momento. Os lábios dela se moveram como se quisessem dizer algo, mas não saiu nada. —Bom dia, John —disse ela afinal, com um tom mais suave. —Bom dia, mãe —respondi. Ela assentiu. Passou do meu lado. Senti o perfume dela ao cruzar, aquele perfume suave que ela sempre usava, e por um momento quis abraçá-la. Abraçar forte e dizer que ela não estava sozinha, que eu a entendia, que meu pai era um filho da puta por fazer isso com ela. Mas não disse nada. Fiquei vendo ela subir as escadas, devagar, com os ombros caídos. Ia acordar o Matías e a Alma. Seguir com a rotina. Como se não tivesse acabado de desabafar com a amiga dois minutos atrás. Como se não tivesse soluçado na cozinha. Valeria apareceu na entrada da cozinha com um copo de suco na mão. —Por que você fica aí olhando as escadas? —perguntou. —Não sei —respondi, e era verdade—. Não sei. Ela apertou os lábios como se achasse que eu estava estranho, mas não disse mais nada. Entrou na cozinha de novo, e eu fiquei no corredor, escutando os passos da Ana lá em cima, as portas se abrindo, as vozes das crianças acordando. Meu pai trai ela. A ideia não saía. E agora eu entendia um monte de coisas. Por que minha mãe às vezes olhava pra ele com aquela cara, como se não se importasse. Por que eles falavam tão pouco. Por que ele sempre estava na fábrica e ela sempre estava sozinha, se movendo entre a cozinha e as crianças, fingindo que tudo estava bem. Mas também tinha algo que não encaixava. Aquela frase: "Você sabe bem por que eu faço o que faço". Do que ela estava falando? O que ela fazia? E por que falou de culpa? Fiquei matutando, parado no corredor como um idiota, enquanto lá em cima se ouvia a vida normal da minha família. E eu já não tinha certeza de nada.>>>>>>><<<<<<<


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