A Confissão da Minha Madrasta | Cap. III

A Confissão da Minha Madrasta | Cap. III

/// Você pode ver essa história mais adiantada no link a seguir: A Confissão da Minha Madrasta ///
Algumas pessoas me perguntaram se eu tinha Patreon. É esteAnnie Zarel


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O barulho do liquidificador encheu a cozinha, quebrando o silêncio habitual da casa.

Era sábado.

Dava pra sentir.

A luz entrava mais direta, mais limpa, como se tudo estivesse mais exposto do que o normal. Não havia pressa no ambiente, mas também não havia tranquilidade. Era uma calma estranha, como se algo estivesse esperando.

Desliguei o liquidificador e fiquei um segundo com a mão apoiada no botão, escutando o zumbido se apagar de vez.

Silêncio de novo.

Servi o shake num copo alto, sem pressa. A mistura grossa caindo devagar, uniforme.

Não tinha fome, mas precisava fazer alguma coisa. Qualquer coisa.

Me apoiei na bancada e dei o primeiro gole. Frio. Neutro.

Tirei o celular do bolso. Tinha algumas mensagens novas.

Dele. Meu pai.

"Como você tá?"

"Tudo bem na casa?"

"Vai com calma. Não se pressiona com a faculdade ou o trabalho."

Deslizei a conversa pra cima. Tinha mais do mesmo nos últimos dias. Perguntas curtas. Respostas ainda mais curtas.

Meu dedo ficou suspenso sobre a tela. Não sabia o que responder. Nunca sabia.

"Tô bem."

Era isso que eu sempre acabava escrevendo.

"Tudo certo."

Mentira simples. Suficiente.

Desci mais um pouco no chat.

"Você podia vir no escritório um dia desses."

"Ver o que eu faço, se te interessar."

"É bom que você comece a se mexer."

Soltei uma expiração leve. Olhei o copo na minha mão.

Ver o que ele faz?

Eu nem sabia exatamente o que ele fazia. Sempre foi assim. Sabia que era executivo numa empresa, de algo com a China, negócios, reuniões… coisas que o mantinham fora quase o tempo todo.

Sempre fora. E agora… eu tinha que me encaixar ali?

Dei outro gole no shake.

Eu poderia fazer isso. Acho. Entrar nessa. Aprender. Acompanhar o ritmo dele. Mas só de pensar já me dava cansaço. Não pelo trabalho em si. Pelo que significava. Ser como ele. Ausente. Eficiente. Frio.

Apertei um pouco o copo.

—Não sei…

Falei em voz baixa, mais pra mim do que pra outra coisa. Apoiei o celular na bancada, de tela pra baixo. Não ia responder ainda. Fiquei ali, em silêncio, terminando o shake sem pensar muito em nada concreto. Até que escutei passos. Levantei a vista na hora. Sabia quem era. —Tomando café da manhã sozinho? Martha. Assenti de leve. —É. Ela entrou com aquele ritmo dela, firme mas sem fazer barulho demais. Trazia uma lista na mão, dobrada. —Vou sair pra fazer umas compras —disse, conferindo algo na folha—. Tá faltando tudo. Dei outro gole, sem muito interesse. —Aham. Ela parou um segundo, levantando o olhar pra mim. —Vem comigo? Não respondeu só com palavras. Tinha algo mais no tom. Como se não fosse só um convite. Olhei pra ela. —Pra quê? —Pra você sair um pouco —respondeu sem rodeios—. Você precisa. Não soou como conselho. Soou como fato. Baixei a vista pro copo. Não tava com vontade. Mas também não tava com vontade de ficar. —Tá bom. Ela assentiu, satisfeita. —Termina isso e a gente vai. Não discuti. Subi pra me trocar rápido. Jeans, camiseta, nada complicado. Quando desci, Martha já tava na porta com as chaves na mão. —Pronto? —Sim. Saímos. O contraste com o interior da casa foi imediato. Lá fora tava calor, mas não pesado. O sol batia direto, sem nuvem pra suavizar. O ar parecia… real. O trajeto foi curto. Martha dirigindo, eu olhando pela janela sem prestar muita atenção no que rolava lá fora. —Você falou com seu pai? —perguntou num momento. —Falei. —E? —O de sempre. Ela assentiu, sem insistir. —Ele quer que eu vá pra empresa. —É o lógico. —Acho. Silêncio. —E você, o que quer? A pergunta ficou no ar. Olhei pra fora de novo. —Não sei. E era verdade. Martha não respondeu de imediato. —Então começa decidindo o que você não quer —disse no fim. Olhei de canto de olho. —Isso eu já sei. —Então você não tá tão perdido. Não respondi. Não fazia sentido discutir isso com ele. As compras foram rápidas. Martha sabia exatamente o que precisava. Eu só fui atrás dela, carregando sacolas, respondendo quando ela me perguntava algo. Nada complicado. Nada que exigisse pensar demais. Quando saímos, o sol estava mais alto. Mais forte. Estávamos indo pro carro quando o vi. Encostado numa moto, óculos escuros, camiseta justa, como se estivesse posando sem tentar. Miguel? Levei um segundo pra processar. —Damián? Levantou a mão, tirando os óculos. O sorriso foi imediato. Aberto. Fácil demais. —O que você tá fazendo aqui, viado? Soltei uma risada curta sem conseguir evitar. —Voltei. Largou a moto e se aproximou, batendo o ombro no meu num gesto automático. —Já vi —disse, me olhando de cima a baixo—. Tá igual. —Você não. —Melhor, óbvio. Revirei os olhos. Nada tinha mudado. —Faz quanto tempo que você chegou? —Uns dias. —E não avisa? —Não sabia que tinha que me reportar. —Claro que tinha, idiota. Sorri de leve. Martha estava uns passos atrás, observando. Miguel a cumprimentou com um aceno de cabeça. —Como vai, dona Martha? —Bem, meu filho —respondeu ela—. E você? —Tudo bem. Miguel voltou a me olhar. —Vai ficar ou o quê? —Sim. —Perfeito. Não teve pausa. —Passo mais tarde na sua casa. Assim, direto. Como sempre. —Hoje? —O quê? Tem planos? Neguei. —Não. —Pronto. Passo ao meio-dia. Tá calor, a gente cai na piscina, fala merda. Falou como se fosse óbvio. Como se nada tivesse mudado. E talvez pra ele não tivesse mesmo. —Beleza. Aceitei sem pensar muito. —Fechou. Me deu outro tapa no ombro, mais forte. —Não some de novo. —Tá, tá. Se virou, voltando pra moto. —A gente se vê daqui a pouco. —Valeu. Foi embora. Simples assim. Fiquei um segundo olhando ele dar partida. —Esse menino não muda —disse Martha, indo em direção ao carro. —Não. —E isso nem sempre é bom. Abri a porta do carona. —Depende. —Depende do quê. —De quem você é. Martha não respondeu. Subimos. O caminho de volta foi mais curto do que eu lembrava. Talvez porque eu estivesse pensando em outra coisa. Miguel. A piscina. A casa. Entramos. O silêncio de sempre. Mas já não era a mesma coisa. Tinha algo diferente. Deixamos as sacolas na cozinha. Martha começou a organizar tudo sem perder tempo. Eu fiquei ali, passando as coisas de uma sacola pra outra, sem muita atenção. Até que senti. Antes de ver. Aquela mudança leve no ar. Levantei o olhar. Isabella. Ela parou na entrada da cozinha. E por um segundo… esqueci todo o resto. Estava de biquíni. Diferente do outro dia. Mais claro. Menor. Não exagerado. Mas suficiente. Demais. O cabelo solto, seco, caindo sobre os ombros. A pele… marcada pela luz que entrava do jardim. Tudo estava ali. Sem filtro. Sem distância. —Oi —disse, com naturalidade. Como se não tivesse nada de estranho. Como se eu não estivesse olhando pra ela daquele jeito. —Oi… Minha voz saiu mais seca do que eu queria. Ela se aproximou um pouco, o suficiente pra entrar no espaço. —Vocês saíram? —Sim. Resposta automática. Não parava de olhar pra ela. Não conseguia. Não com aquilo. Não daquele jeito. Meu olhar descia pros peitos dela, quase saindo do sutiã, que mal cobria o suficiente. E voltava a subir, tentando disfarçar. Ela se inclinou de leve em direção a uma das sacolas, olhando o que tinha. O movimento… Apertei os dedos sem perceber. —Vou ficar na piscina um pouco —disse, sem me olhar diretamente—. Tá quente demais. Assenti. Não disse nada. Não pensei em nada. Nada coerente. Isabella levantou o olhar então. Direto pra mim. E viu. Claro que viu. O jeito que eu estava olhando pra ela. O jeito que eu não estava pensando em outra coisa. Os lábios dela se curvaram de leve. Um sorriso mínimo. Curto. Mas suficiente. Não disse nada. Não fez nenhum comentário. Só aguentou aquele segundo. E depois— Se virou. —A gente se vê depois, Martha— Disse como cumprimento, virando-se pra olhar pra ela de novo. E saiu. Como se nada. Como se nada tivesse acontecido. Fiquei ali. Parado. Embevecido. Olhando a bunda dela. —Damián. A voz de Martha me trouxe de volta. —Hã? —As sacolas. Olhei minhas mãos. Não estava fazendo nada. —Sim. Voltei a me mexer. Automático. —O que você tem? —disse ela, sem levantar a vista. —Nada. —Aham. O tom dela não mudou. Mas também não insistiu. Continuava arrumando as coisas, com aquela calma que não era calma. Como se já soubesse. Como se estivesse vendo tudo sem dizer nada. Me passou uma sacola. —Termina isso. Assenti. —Tá. Mas minha cabeça já não estava ali. Estava em outro lugar. No jardim. Na piscina. E em algo que eu tinha esquecido de falar. Que a gente tinha visita hoje. Miguel. >>>>>>> A campainha tocou bem quando o silêncio da casa começava a ficar desconfortável de novo. Meio-dia. A luz já caía direto sobre tudo, sem sombras que suavizassem nada. Tudo estava mais exposto. Mais visível. Martha largou o que estava fazendo e foi até a porta sem pressa. Eu já sabia quem era. Não me mexi de imediato. Mas quando escutei a voz dele da entrada— —Miguel? —Martha! Sorri sem querer. Saí da cozinha pra sala, encontrando ele no meio do caminho. Vinha entrando como se nada, como se sempre tivesse tido o direito de fazer isso. —E aí, Damián? Nos cumprimentamos com o ombro de novo. Igual antes. Igual sempre. —Tudo bem —falei. —Tô vendo —respondeu, olhando em volta—. Não mudou tanto isso aqui. Não respondi. —Bom… na verdade mudou —se corrigiu, olhando melhor—. Tá mais… chique. —Aham. Martha apareceu atrás, fechando a porta. —Quer algo pra beber? Uma limonada? —Uma limonada seria top —respondeu Miguel sem pensar. —Já te trago uma. Foi pra cozinha. Miguel se jogou no sofá como se fosse dele, estirando as pernas. —Tá um calor do caralho. —É. Fiquei de pé, sem saber muito bem onde me enfiar. —E aí? Como você tá com tudo isso? Fez um gesto amplo com a mão, apontando pra casa. —Normal. —Normal? Ele riu. —Te conheço, Damián. Essa cara não é de "normal". Não respondi. Não tava a fim de explicar nada. Martha voltou com a limonada, deixando na mesa na frente dele. —Valeu, Martha. —De nada. Nem me olhou. Notei isso. Claro que notei. Miguel pegou o copo e deu um gole longo. —Uf… isso sim é vida. Se recostou de novo. —Ei, e a piscina? —Atrás. —Vamo ou não? Quero entrar logo. Não esperou resposta. Levantou de um impulso. —Vamo. Segui ele. Mais por inércia do que por vontade. Atravessamos a sala e saímos pro jardim. O calor bateu na hora. E lá estava ela. Isabella. Numa das espreguiçadeiras, recostada, com um chapéu amplo cobrindo parcialmente o rosto e uns óculos escuros. O corpo estendido, relaxado, como se não houvesse mais nada no mundo além daquele momento. Miguel parou. Literalmente. Ficou parado do meu lado. —Quem é aquela? A pergunta foi em voz baixa. Mas não precisou mais. Tava olhando. Sem disfarçar. —Minha madrasta. Virou a cabeça pra mim. —O quê? —Isso. Olhou pra ela de novo. Mais atentamente. —Tá de brincadeira? —Não. Soltou uma risada curta, incrédula. —Ufff… O olhar dele voltou pra ela. Mais fixo. Mais… direto. Senti algo estranho no peito. Não sabia exatamente o quê. —Vamo —falei, mais rápido do que o normal. Ele nem se mexeu. —Espera. Ele já tava andando na direção dela. —Miguel— Não me escutou. Ou não quis. Chegamos até onde ela estava. —Oi —falei. Ela virou a cabeça, levantando de leve os óculos. Primeiro me viu. Depois ele. E nesse segundo… mudou alguma coisa. Se ajeitou um pouco, apoiando nos cotovelos. —Oi. O olhar dela parou no Miguel. Avaliou. Rápido. Preciso. Eu não não consegui dizer nada. —Oi —disse ele, se adiantando—. Miguel. Estendeu a mão antes que eu pudesse apresentá-los. —Amigo do Damián. Isabella tirou os óculos de vez e se sentou, tirando também o chapéu com um gesto fluido. —Isabella. Pegou a mão dele. Levantou-se. Aí foi pior. Porque Miguel não disfarçava. Nada. —Prazer —disse, segurando a mão um segundo a mais do que o normal—. Sinceramente… não esperava isso. Sorriu. Do jeito dele. Direto. —Isso? —É —respondeu, sem soltar de vez—. Que o Damián tivesse uma madrasta assim. Direto. Sem filtro. Apertei o maxilar. Isabella não se incomodou. Pelo contrário. Um sorriso leve. Controlado. —Assim como? —Assim… —Miguel fez um gesto com a mão, percorrendo ela sem tocar—. Difícil de ignorar. Ela soltou uma risadinha. —Obrigada. Falou simples. Sem exagerar. Mas não rejeitou. Não freou. Nada. Eu tava ali. Sem dizer nada. —Você deixa a gente ir pra piscina, gostosa? —perguntou ele, como se nada. —Claro —respondeu Isabella sorrindo—. É a casa de vocês. Outro sorriso. Medido. Miguel soltou a mão dela finalmente. —Perfeito. Virou pra mim. —Tá vendo? Tudo em ordem. Não respondi. Tiramos a camiseta ali mesmo e entramos na piscina. A água tava fria. Bateu forte. Necessário. Nadamos um tempo sem dizer nada. Miguel mergulhou de cabeça, saiu rindo, espirrando água. Como sempre. Eu tentava me concentrar nisso. No básico. Me mexer. Não pensar. Não olhar. Não funcionou. —Damián… Chegou perto, apoiando os braços na borda. Olhando pra ela. —Tua madrasta é muito gostosa. Falou baixo. Mas claro. —Cala a boca. —Quê? Riu. —É verdade. Não respondi. —Sério… —insistiu—. Quantos anos ela tem? —Não sei. —Não fode. —Trinta e tantos. Assobiou. —Uf… Olhou pra ela de novo. —Que corpo… Passou a mão no cabelo molhado. —Que par de peitos… Apertei os dentes. —Miguel. —Quê? —encolheu os ombros ombros—. Só só digo.
Se inclinou mais pra mim.

—Não te incomoda se eu falar com ela?

Olhei pra ele.

—Faz o que quiser.

—Isso é um sim.

Ele riu.

—Vou começar a te chamar de enteado.

—Cala a boca.

—O quê? —soltou uma gargalhada—. Imagina… eu saindo com a tua madrasta.

Neguei com a cabeça.

—Você é doente.

—Você não ia gostar?

Mais risadas.

—Uma aventura… assim, casual.

Não respondi. Não tava com vontade.

—Relaxa, é brincadeira.

Mas não soava como brincadeira.

Nadamos mais. Competimos umas duas vezes. Tentei entrar nisso. No jogo. Mas não durava. Porque toda vez que eu subia pra respirar…

Lá estava ela. Isabella. Na espreguiçadeira. Mudando de posição. Ajustando o corpo ao sol.

E Miguel…

Olhando pra ela. Sempre.

Depois de um tempo, ele apoiou os braços na borda de novo.

—Ei, gostosa!

Falou com ela. Direto.

Ela virou a cabeça na nossa direção.

—Sim?

—Não vai entrar?

Isabella sorriu de leve.

—Não, obrigada.

—Certeza?

—Sim.

Ajeitou os óculos de novo.

—Prefiro ficar aqui.

Miguel assentiu. Mas não ficou ali. Saiu da piscina sem falar mais nada. Eu fiquei.

Vi ele caminhar até ela. Despreocupado. Confiante. Como sempre.

Parou do lado da espreguiçadeira. Disse algo que não escutei. Ela respondeu. Sentou um pouco. Virou pra ele.

Começaram a conversar. Normal. Fluido. Fácil demais.

Fiquei na água. Olhando pra eles. Tentando não fazer isso. Mas fazendo.

Miguel falava com as mãos, rindo, se inclinando de leve pra ela.

Isabella respondia. Sorria. Jogava o cabelo pra um lado. Se ajeitava. Tudo dentro daquele controle dela.

Mas não cortava. Não freava. Entrava no jogo. Do jeito dela.

Senti algo apertar no peito. De novo. Mais claro. Mais direto.

—O que você tá fazendo…?

Murmurei.

Mas não desviei o olhar. Miguel se inclinou mais um pouco. Perto demais. Ela não recuou. Só sustentou. Respondeu.

E num momento—

Virou a cabeça. Na minha direção. Tava me olhando. Direto. A através dos óculos escuros. Mas eu sabia. Eu sabia. Que ela estava me olhando. Que estava vendo tudo.

E não desviou o olhar. Pelo contrário. Sustentou. Um segundo a mais. E depois voltou pro Miguel. Como se nada.

Mas não era nada. Nada daquilo era nada. E foi aí que senti. Claro. Incômodo. Chato. Algo que eu não conseguia aceitar de vez. Mas que já estava ali.

Cansei. Não de nadar. De ficar ali metido, feito um idiota, fingindo que não acontecia nada enquanto os dois conversavam como se eu não existisse.

Saí da piscina num impulso, a água escorrendo sem que eu me importasse, e caminhei direto pra onde eles estavam.

Nem pensei no que ia dizer.

Só… não queria mais ver aquilo de longe.

—Tão falando do quê?

Minha voz saiu mais seca do que eu queria.

Miguel levantou o olhar primeiro.

—Nada, Dami. Vem.

Como se tudo fosse normal. Como se ele não estivesse grudado nela há um tempão.

Isabella virou a cabeça pra mim, apoiada de lado na espreguiçadeira. Os óculos continuavam no rosto, mas mesmo assim senti o olhar.

—Cansou?

—Um pouco.

Mentira. Não era cansaço. Era outra coisa.

Fiquei de pé, sem saber muito bem onde me enfiar. Miguel estava na espreguiçadeira do lado, relaxado, como se aquele espaço já fosse dele.

—A gente tava falando de viagens —disse ele—. A Isabella já foi pra uns lugares insanos.

—Alguns —respondeu ela, com um sorriso leve.

Miguel se inclinou um pouco na direção dela.

—Mas falta um importante.

—Ah, é?

—É. Um comigo.

Direto. Sem vergonha.

Isabella soltou uma risada curta.

—E por que seria importante?

—Porque eu faço qualquer lugar valer a pena.

Mais risadas. A risada dela.

Apertei a mandíbula.

—Que confiança —falei, sem conseguir evitar.

Miguel me olhou.

—A que dá.

Isabella girou levemente o corpo, se ajeitando na espreguiçadeira. O movimento foi lento, deliberado. O peito dela subiu de leve ao mudar de posição, o tecido do biquíni se ajustando mais.

Demais.

Não desviei o olhar a tempo. Eu vi. Claro. Vi como os seios dela subiram. Mostrando mais do que já mostravam. E o pior… É que eu sabia que ela estava fazendo de propósito. Que não era casual. Que estava medindo. Miguel também não disfarçou. —Caralho… —murmurou, baixo o suficiente pra só eu ouvir. —Cala a boca —falei entre dentes. —Quê? —riu—. Você também tá olhando. Não respondi. Isabella voltou a intervir, como se nada. —E você, Damián? —perguntou—. Gosta de viajar? Olhei pra ela. —Sim… acho que sim. —"Acho que sim" não soa muito convencido. —Não viajei tanto assim. —Então devia. Miguel se meteu de novo. —Eu te levo —disse, olhando pra ela—. Aonde você quiser. Ela olhou pra ele. Sustentou. —Você é bem insistente. —Funciona. Outro sorriso. Outra risada. De novo aquela sensação no peito. Mais forte. Passei a mão na nuca, desconfortável. Não me encaixava ali. Não daquele jeito. Tentei entrar na conversa, dizer algo, qualquer coisa, mas tudo soava forçado na minha cabeça antes de sair. E quando saía… Não tinha peso. Miguel ocupava todo o espaço. Com a voz dele. Com o jeito dele de se mover. Com essa facilidade absurda de dizer qualquer coisa sem pensar nas consequências. —Além disso —continuou—, Damián não aproveita. —Não aproveito o quê? —Isso. Apontou em volta. Mas não era o jardim. Não era a casa. Era ela. Claro que era ela. Isabella abaixou um pouco os óculos, me olhando por cima. —Não aproveita? Não respondi. Não sabia o que dizer sem me meter em algo pior. —É que ele é muito sério —disse Miguel—. Sempre foi. —Não parece —respondeu ela, sem parar de me olhar. Sustentei o olhar um segundo. Dois. Demais. E de novo… Aquele pequeno gesto. O peito subindo de leve ao respirar mais fundo. O tecido esticando. Exponto um pouco mais esses peitos redondos. Não era exagerado. Mas era suficiente. Mais que suficiente. Desviei o olhar. Tarde. Miguel soltou uma risada baixa. —Tá perdendo muita coisa, irmão. —Deixa pra lá —disse Isabella, mas sem dureza—. Cada um no seu ritmo. Mas não era pra frear ele. Era brincando. Dava pra perceber. E era isso que mais incomodava. Não tava evitando. Tava permitindo. Pior… Tava gostando. O tempo passou assim. Entre os comentários do Miguel, as risadas da Isabella e minha tentativa fracassada de não ficar ali como um terceiro sobrando. Até que ela se levantou. —Bom… Tirou os óculos, deixando-os na mesa. —Acho que já deu de sol por hoje. Miguel olhou pra ela. —Já? —Sim. Ficou de pé. O movimento foi lento. Natural. Mas de novo… Tudo no lugar. Tudo marcado. Aquele corpão se endireitou, mostrando praticamente tudo. —Com licença —disse, olhando pra nós dois. —Claro —respondeu Miguel—. Mas depois a gente continua aquela conversa pendente. Ela sorriu. —A gente vê. Se virou. E começou a andar em direção à casa. Mexendo os quadris. Sabendo que a gente tava olhando. Miguel não disfarçou. Nada. —Porra… Seguiu ela com o olhar, e mordeu a mão. Sem vergonha. —Olha isso… Balancei a cabeça. —Miguel. —O quê? Não tirava os olhos. —Essa bunda é ilegal. Falou assim mesmo. Cru. Direto. Senti algo apertar de novo. Mais forte. —Não é gostosa pra caralho? Não respondi. —Fala que não é. Silêncio. —Ou o quê? —riu—. Não gosta também não? Olhei pra ele. —É minha madrasta. —E daí? Deu de ombros. —Continua sendo mulher. Apertei os dentes. —Você é doente. —Tô sendo honesto. Olhou pra ela de novo até ela sumir dentro de casa. —Eu pego ela. Falou sem hesitar. Como se fosse um plano. Como se fosse possível. E o pior… É que soava como se pudesse ser. Voltamos pra piscina. Ou tentamos. Mas já não era a mesma coisa. Martha apareceu depois de um tempo, da porta do jardim. —Querem almoçar agora? Olhou pra nós dois. Mas parou um segundo a mais em mim. —Venham. Saímos. Comemos. Miguel falava de tudo, como sempre. Piadas, histórias, qualquer coisa. Mas sempre voltava ao mesmo.

—E a Isabella sempre é assim?

—Assim como?

—Assim…

Não terminava a frase. Não precisava.

—Não sei.

—Caralho… —riu—. Você tirou a loteria.

Não respondi. Martha estava ali. Escutando. Sem dizer nada. Mas presente.

O resto do dia passou entre isso. Piscina. Comida. Mais comentários. Mais risadas. Mais desconforto. Até que ficou tarde e Miguel decidiu ir embora.

—A gente se vê, Dami.

—Sim.

—E manda um abraço pra Isabella.

Não respondi.

Ele riu.

—Relaxa.

Foi embora.

A casa voltou ao silêncio. De novo. Mas não era o mesmo silêncio. Subi pro meu quarto sem dizer nada. Fechei a porta. Me deixei cair na cama.

E tudo voltou. A tarde. As risadas. Os olhares. Os gestos. O corpo. O corpo dela. Demasiado claro.

O biquíni. A forma como se ajustava. Como se movia. Como se inclinava. Como olhava pra ele. Como não o freava. Ao contrário.

Apertei os olhos. Irritado.

—Que porra…?

Não era só ele. Isso era o pior. Não era só o Miguel sendo o Miguel.

Era ela. Respondendo. Entrando no jogo. Deixando acontecer.

Lembrei da risada dela. A forma como o olhava. A forma como se ajeitava, como se soubesse exatamente o que estava provocando.

E depois…

Outra coisa. Mais desconfortável. Mais difícil de ignorar. Como eu a tinha olhado.

Apertei o maxilar.

Porque ali se misturava tudo. O incômodo. E algo mais. Algo que eu não queria admitir. Mas que estava. Claro. Presente.

Miguel tinha razão em uma coisa. Isso era o pior.

—Seria um pecado não reparar…

Disse em voz baixa.

E fiquei ali. Olhando o teto. Sabendo que já não era só desconforto.

E que negar… começava a ser inútil.>>>>>>><<<<<<<


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