Férias com minha esposa no Brasil: como tudo começou (Fina

Última parte. As duas noites que faltavam e o que aconteceu depois, de volta pra casa. Se você leu a 4 sabe como ficaram; aqui está como continuaram.

Se você chegou aqui sem ler as partes anteriores, os links estão no final.

Acordei antes dela. Estava do outro lado da cama, de costas, com o lençol até o pescoço embora estivesse calor. Em doze anos tínhamos dormido brigados três ou quatro vezes, e sempre do mesmo jeito: cada um na sua beirada, o meio do colchão vazio como uma fronteira. Dessa vez o meio também estava vazio, mas não era raiva. Era outra coisa, e eu não sabia o quê.

Desci pra tomar café sozinho e subi um café pra ela. Quando entrei, estava sentada encostada na cabeceira, com os olhos inchados.

—Vamos caminhar —disse—. Longe. Onde ele não esteja.

Fomos até a praia do outro lado da península, a que tinha que atravessar a pé pela trilha de pedras. Meia hora sem uma palavra. Quando chegamos, a praia estava vazia e o mar era mais bravo do que do lado do hotel. Sentamos na areia, com um metro entre nós.

—Me diz o que você não disse ontem —pediu.

Pensei em mentir. Percebi que pensei nisso, e foi isso que me fez não fazer.

—Não foram os olhos —disse—. Ou não foi só isso. Foi que tudo que eu sei do Rafael foi você que me contou. Que você arrumou o jantar sem mim. Que à tarde, na cama, você me disse "ele me olhava assim" olhando pra varanda. E que quando você me perguntou se me incomodava eu disse que não, e era mentira, mas nem eu sabia que era mentira.

Ela ficou olhando pro mar.

—Eu pensei nele sem você —disse depois de um tempo—. Nas pedras. Um segundo. Pensei "que gostoso seria se ele me beijasse aqui", e você não estava no pensamento. Me assustei tanto que vim correndo pela beira. E depois, à noite, quando fechei os olhos... não foi que esqueci de te olhar. Foi que eu não queria que você me visse pensando aquilo.

Cheguei mais perto, o metro que faltava. Sem tocar nela ainda.

—Então os dois se assustaram com a mesma coisa.
—Com a mesma coisa —disse ela, me olhando fixo. Falamos duas horas. Não do Rafael: de nós. Do que era a fantasia, que acabou sendo mais simples do que parecia: ela queria se sentir desejada e olhada por mim enquanto outro a tocava, e eu queria olhá-la sendo desejada. O outro era um instrumento. No dia em que o outro deixou de ser instrumento e passou a ser Rafael, com um filho e uma ex-mulher e uma história, a fantasia tinha ficado sem lugar para mim. Nomeamos as regras. As de verdade, as que a gente vinha cumprindo sem saber que existiam até que uma se quebrou. —Nada sem o outro presente. Nem uma conversa nas pedras. —A gente se olha. Sempre. Essa é a regra que eu quebrei. —E "Montevidéu" continua —falei—. Mas muda uma coisa. Sem cobrança continua. Sem explicação não. A explicação é isso, o que a gente tá fazendo agora. Isso é o que nos salvou. Ela riu pela primeira vez no dia. —Que pouco sexy —disse, e era a segunda vez que ela dizia essa palavra, e nas duas vezes teve razão. Voltamos pelo caminho de mãos dadas. Naquela tarde não fomos à praia do hotel. Ficamos no quarto com as cortinas fechadas e o ventilador ligado, e em algum momento ela sentou na beira da cama, me olhou e me pediu uma coisa que eu não esperava. —Me conta o que você viu anteontem. Da poltrona. Tudo. Agora era eu que tinha que falar e ela que olhava. E entendi que era de propósito: ela estava me devolvendo o lugar. Sentei numa cadeira na frente dela, a um metro de distância. Comecei devagar, com a voz baixa, buscando as palavras exatas que não tinha me atrevido a montar nem na minha cabeça. Contei da luz na varanda, do momento em que ela parou na frente dele e apoiou a mão no peito dele, e o meu estômago se apertou, entre a vontade e uma eletricidade dura que eu não conhecia. Contei como segui eles até o quarto e fiquei parado contra a parede, a um metro da cama, sem conseguir sentar, o barulho do vestido caindo, as mãos dele rodeando a cintura dela e como ela tinha arqueado as costas. Eu Eu disse exatamente em que segundo ele me queimou: quando abriu os olhos no meio do beijo e me procurou por cima do ombro dele.

—Te ver assim me deixou louco — eu disse —. E aí entendi que todo o resto ia ser nosso.

María não piscava. Tinha os joelhos juntos e uma mão apoiada na coxa. Enquanto eu contava os detalhes, a respiração dela foi ficando agitada, mas ela não desviou os olhos dos meus nem uma vez. Quando contei como ele mordia de leve o pescoço dela enquanto minhas mãos tremiam sobre os joelhos e eu ficava ainda mais duro, ela levou os dedos pra debaixo da calcinha.

—Não fecha os olhos — eu disse, quase sem fôlego.
—Tô te olhando — sussurrou ela, com a voz rouca —. Não vou fechar. Continua.

Levantei da cadeira e me coloquei entre as pernas dela. Abri as coxas dela sem parar de falar no ouvido, contando como eu a desejei naquela noite enquanto outro a tinha, a tocava e a fazia de puta. Uma mistura de fome e raiva. Falei tudo: cada detalhe, cada sombra, cada gemido que ouvi dela naquela noite. María se agarrou nos meus ombros, cravando as unhas, procurando minha boca mas sem desviar o olhar nem um milímetro. Estava molhada. Enfiei direto e até o fundo; ela soltou um suspiro longo contra meu pescoço, mas no segundo seguinte jogou a cabeça pra trás só pra procurar meus olhos de novo.

—Assim — me disse, pegando meu rosto com as duas mãos, me obrigando a ficar ali, cara a cara, colados —. Agora sim.

Gozamos juntos. Enchi ela de porra de tão excitado que eu estava; foi rápido, e sem parar de nos olhar até que os dois ficamos sem ar e nos deixamos cair pra frente no colchão, nos esmagando, abraçados como se tivéssemos nos salvado de um naufrágio.

Dormimos no meio da cama.

No sétimo dia, o último, Rafael apareceu no café da manhã. Não sentou. Ficou parado do lado da mesa, com a mão no encosto de uma cadeira vazia.

—Não venho pedir nada — disse —. Venho dizer que vou embora amanhã cedo e não queria ir embora sem conversar. María apontou para a cadeira. Ele sentou na beirada. —Eu vim a Búzios pra ver se eu sabia ficar sozinho —disse, olhando pra nós dois, pros dois de verdade—. Vocês me fizeram ver que eu não quero. Isso não é um problema de vocês. É meu. O de anteontem à noite, o que quer que tenha acontecido, não sei o que foi, mas se foi algo meu, desculpa. —Não foi teu —disse María—. Foi nosso. E já está resolvido. Rafael assentiu e se levantou. —Obrigado pelos jantares. Aí María fez o que não tinha feito em sete dias: decidiu em voz alta, na frente dele e de mim, sem olhar pra mim primeiro. Ou melhor dizendo: me olhou, mas depois de falar, não antes. —Hoje é a última noite. Se quiser subir, sobe. Mas dessa vez as regras somos nós que dizemos, e você vai escutar antes de entrar. Ele me procurou com os olhos, como sempre. E pela primeira vez eu respondi com a voz. —Nove, no bar. Naquela tarde não fomos às pedras. À noite, na varanda, antes de servir o vinho, dissemos as regras. Deu vergonha e eu fiz mesmo assim: que ela e eu íamos ficar nos olhando, sempre, e que se ele visse que isso cortava, parasse. Que se qualquer um dos três quisesse parar, dizia "Montevidéu" e parava, sem perguntas na hora. Que dessa vez eu não ia ficar no sofá. Rafael escutou tudo. Depois perguntou uma coisa só. —E eu posso te olhar? —me disse, e riu do próprio "você"—. Anteontem eu te olhei e entendi. Prefiro continuar entendendo. María riu, e eu também, e com a risa a noite destravou. Entramos no quarto os três, mas o ar já era outro. Espesso. Carregado de uma morbidez crua, animal, que dessa vez não me deixava de fora nas sombras, mas me tinha no centro. Na beirada da cama, María não esperou. Me agarrou pela nuca e me deu um beijo voraz, enfiando a língua, me saboreando antes de se virar pra Rafael sem soltar minha mão. Ela puxou a camisa dele, desabotoando os botões, pedindo com a intensidade do corpo que nada fosse guardado. Rafael captou a energia na hora. Tirou o vestido dela pela cabeça e a deitou de costas no colchão. Já não havia coreografias nem pausas de cortesia. Tirei a roupa de um só puxão. Rafael colocou a camisinha sem que ninguém pedisse e se ajoelhou entre as pernas de María, abrindo-as bem abertas, apoiou a cabeça do pau e entrou nela, firme e fundo. Ela soltou um grito de prazer, arqueando as costas, e no mesmo segundo eu me acomodei na cama ao lado dela. Peguei o rosto de María com as duas mãos. Seus olhos, negros e dilatados pelo prazer, se cravaram nos meus na hora. Tinha acabado o olhar de fora. Era um caos de corpos suados, o barulho obsceno da carne molhada batendo contra carne. Enquanto Rafael metia tudo e sem parar, eu me colei nela. A beijei abrindo sua boca, mordendo seus lábios, abafando seus gemidos contra minha garganta. Meu peito roçava o dela; minha perna, a cada sacudida, batia contra a perna de Rafael. Estávamos comendo minha mulher juntos, devorando ela ao mesmo tempo, compartilhando o suor, o cheiro de sexo pesado que inundava o quarto. —Mais —pediu María, se separando um milímetro da minha boca, com o cabelo colado na testa pelo suor, sem tirar os olhos de mim—. Os dois. Quero sentir os dois. Foi o ponto de virada. O antes e o depois de tudo. Rafael entendeu sem que ninguém traduzisse. Deitou de barriga pra cima sobre os lençóis desarrumados. María montou nele, dando a bunda e ficando de frente pra mim, enquanto eu me ajoelhava no colchão bem na frente dela. María me pegou pela cintura e me trouxe pra si. Entrei nela por frente enquanto ela descia sobre Rafael. O impacto de nos sentir dentro do corpo dela ao mesmo tempo, o roçar bestial e antinatural, arrancou um grunhido dos três. Ali estava minha fantasia: suja, perversa, encharcada e completamente nossa. Metemos juntos, coordenados num ritmo selvagem, quase violento. As pernas de María tremiam; ela estava com a boca aberta buscando ar, chorando de puro tesão, mas seus olhos estavam fixos em mim, ancorados nas minhas pupilas como se meu olhar fosse a única coisa que a impedia de desmaiar de prazer. Rafael a segurou pelos quadris por baixo, grunhindo palavras em português que ninguém entendia, enquanto eu acariciava seu pescoço, a clavícula, reivindicando-a a cada estocada frontal. Era o limite da loucura. Quando a fricção se tornou insuportável e o quarto inteiro parecia vibrar com nossos gemidos, María cravou as unhas nos meus braços. Ela se tensionou por completo, trouxe meu rosto a um centímetro do dela, e com a voz afogada em saliva e desejo, me disse ao ouvido: —Não fecho os olhos. Te vejo. Te vejo a você. Essa frase fez a noite inteira explodir. Gozei dentro dela com uma força que me deixou cego, me esvaziando, enquanto suas paredes pulsavam apertando nós dois. Vi como o orgasmo desfigurava seu rosto de prazer, sempre olhando para mim, sem piscar. Rafael terminou um segundo depois, cerrando os dentes; depois saiu dela devagar, com a camisinha cheia. Ninguém disse "Montevidéu". Ninguém queria parar absolutamente nada. Rafael se vestiu sem pressa. Na porta, María se levantou envolta no lençol e o abraçou, um abraço de despedida, daqueles de aeroporto. Ele tirou um papel dobrado do bolso da camisa e o entregou. —Meu número. Caso vocês voltem ao Brasil alguma vez. María olhou para ele, dobrou mais uma vez, e colocou na minha mão. —Guarda você. Rafael entendeu isso também. Me apertou a mão, disse "boa viagem", e foi pelo corredor. Não o vimos de novo. Ficamos um tempo na varanda, com as taças pela metade. Dava para ouvir o mar, como na primeira noite. Sete noites depois, o mesmo mar. —Foi só por hoje? —perguntou, e era a terceira vez na viagem que perguntava isso. —Não sei —disse—. E para você? —Também não sei. —Apoiou a cabeça no meu ombro—. Mas sei com quem vou descobrir isso.

Três semanas depois, numa sexta-feira, saímos para jantar num bar em Pocitos. María vestiu o vestido verde. Aquele que tinha comprado para a viagem e que em Montevidéu nunca teria tido coragem de usar.

Fui pedir as bebidas. Quando me virei do balcão, vi. Um cara sozinho, duas mesas mais adiante, olhando para ela sem pressa. María fingia que lia o cardápio.

Sentei e passei o drink para ela.

— Você tem um admirador — falei.
— Já sei — respondeu sem levantar os olhos. E depois levantou os olhos, olhou para mim, e não desviou —. Te incomoda?

Dessa vez não esperei a pontada do ciúme nem nenhuma outra coisa. Já sabia o que vinha.

— Não — disse —. Mas dessa vez a gente combina as regras antes.

Ela riu com a cabeça jogada para trás.

Foi assim que tudo começou.

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Até aqui "Sete noites em Búzios". Obrigado a todos que votaram, comentaram e escreveram no privado desde a primeira parte; sem isso eu não teria escrito as outras quatro.

Pergunta final, para você: a última noite foi a fantasia ou foi o casal? Eu ainda não sei.

E agora o que venho dizendo desde a parte 2, sério: eu escrevo contos sob encomenda. Você me conta sua fantasia, seus personagens e até onde quer chegar, e eu escrevo para você, com o mesmo cuidado desta série. Confidencial, nunca é publicado sem sua permissão, e os dados do pedido são apagados depois da entrega. Conto curto a partir de USD 35, padrão USD 70. Me manda um privado e eu te explico como funciona.

O que aconteceu depois em Montevidéu é outra história. Se quiserem ler, me digam nos comentários.

Parte 1: https://m.poringa.net/posts/relatos/6438969/Vacaciones-con-mi-mujer-en-Brasil-como-empezo-todo-Parte-1.html (link)

Parte 2: https://m.poringa.net/posts/relatos/6440313/Vacaciones-con-mi-mujer-en-Brasil-como-empezo-todo-Parte-2.html (link)

Parte 3: https://m.poringa.net/posts/relatos/6443296/Vacaciones-con-mi-mujer-en-Brasil-como-empezo-todo-Parte-3.html (link)

Parte 4: https://m.poringa.net/posts/relatos/6443885/Ferias-com-minha-mulher-no-Brasil-como-tudo-comecou-Parte-4.html (link)

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