Eu nunca planejei que acontecesse. Talvez por isso ainda lembro tão bem. Ela era minha colega de trabalho e, desde o começo, havia algo entre nós que nenhum dos dois parecia querer nomear. A gente se entendia fácil demais. Sempre tinha piadas, olhares longos, conversas que se estendiam mais do que o necessário e aquela confiança que normalmente leva anos pra aparecer. Eu estava passando por um dos piores momentos da minha vida. Meu casamento estava desmoronando e, embora eu tentasse fingir que tudo estava bem, por dentro eu me sentia completamente esgotado. Ela sabia. Nunca precisei falar diretamente. Ela simplesmente sabia. Por isso sempre tentava me tirar de casa, me fazer rir e me convencer a sair. Naquela noite a gente tinha ido beber alguma coisa. Quando saímos do bar, eu só queria levá-la pra casa. Ela tinha outros planos. —Não quero ir embora ainda. —Já é tarde. —E daí? —E eu quero ir dormir. Ela me olhou de lado. —Você tá de mau humor de novo. —Tô bem. —Não, você não tá bem. Ela se aproximou e começou a me provocar. Eu tentei me afastar. —Já, me deixa. —Faz eu parar. Ela começou a me fazer cócegas e acabei rindo mesmo sem querer dar o braço a torcer. —Sabia que você ainda conseguia sorrir —ela disse. No meio da brincadeira, minha mão acabou puxando a blusa dela mais do que devia. Tudo parou. Meu sorriso sumiu na hora. —Desculpa. Ela baixou o olhar e depois voltou a me encarar. —Por que você se desculpa tanto? —Porque foi um acidente. —Eu sei. Desviei o olhar pra dar espaço pra ela. —Não vi nada. Ouvi ela rir. —Você é correto demais. —O que você queria que eu fizesse? Teve uma pausa. —Olhar. Virei na direção dela. Achei que ela tava brincando. Mas a expressão dela já não era de brincadeira. Era diferente. —O que você disse? Ela se aproximou devagar. —Eu disse que você podia ter olhado. Pela primeira vez naquela noite eu não soube o que responder. Ela sorriu ao perceber. —Agora sim te deixei nervoso. —Não tô nervoso. —Claro que tá. Ela se aproximou ainda mais. Eu conseguia sentir o perfume dela. —Então me olha. Nossos olhares se encontraram. Nenhum dos dois disse nada por vários segundos. Senti que a noite tinha mudado completamente. Já não éramos apenas dois colegas brincando. Havia algo mais. Algo que provavelmente estava escondido há meses. Foi ela quem quebrou o silêncio. —Você nunca percebeu? —Percebeu o quê? —Que eu gosto de você. Ri nervosamente. —Você nunca disse nada. —Você também nunca perguntou. Ela ficou me olhando. —Toda vez que você me levava pra casa, eu esperava que você fizesse alguma coisa. —Alguma coisa tipo o quê? Ela sorriu. —Isso fica pra sua imaginação. Balancei a cabeça. —Eu achava que éramos só amigos. —Somos. Ela se aproximou até ficar a centímetros do meu rosto. —Mas também podemos parar de ser tão inocentes. O primeiro beijo foi lento. Quase tímido. Quando nos separamos, nenhum dos dois se afastou. Ela me beijou de novo. Dessa vez sem dúvidas. Foi aí que entendi que toda aquela química que eu tinha tentado ignorar nunca tinha estado só na minha cabeça. Ela colocou uma mão atrás do meu pescoço. —Sabe qual foi a primeira coisa que pensei quando te conheci? —Tenho medo de perguntar. Ela riu. —Que você era exatamente o meu tipo. —Ah é? —Latino. Barba. Sério. Ela me olhou de cima a baixo. —E lento demais pra perceber quando uma mulher tá dando em cima de você. Soltei uma gargalhada. —Então você tava esperando há meses. —Meses. —E nunca ia dizer nada? —Queria ver quanto tempo você ia levar. —Parece que demais. Ela se aproximou de novo. —Definitivamente demais. Nos beijamos outra vez. Já não tinha brincadeira. Só aquela sensação de ter cruzado uma linha que provavelmente nós dois tínhamos querido cruzar por muito tempo. Acabamos no banco de trás do carro. Por um momento só ficamos nos olhando. Tudo parecia absurdo. Dois colegas de trabalho que naquela mesma manhã tinham estado conversando como se nada, agora estavam ali, tentando decidir até onde queriam levar aquela noite. Ela acariciou meu rosto. —Você ainda pode me dizer pra parar. Eu olhei pra ela. —Você quer parar? Ela sorriu. —Não. —Então eu também não. Depois disso, o resto aconteceu quase sem palavras. Beijos. Carícias. Respirações curtas. Olhares que diziam demais. Ela parecia gostar especialmente de me ver surpreso. Cada vez que eu pensava que ela ia parar, sorria como se pudesse ler exatamente o que eu estava pensando. Em algum momento ela encostou a testa na minha. —Eu estava com muita vontade disso. —Você poderia ter falado. —Não teria sido tão divertido. Aquela noite acabou sendo muito mais intensa do que qualquer um de nós dois tinha esperado. E por algumas horas ela conseguiu algo que ninguém tinha conseguido durante meses. Me fez esquecer completamente todo o resto. Quando finalmente ficamos tranquilos, ela apoiou a cabeça no meu ombro. Depois levantou o olhar. Tinha aquele sorriso satisfeito de alguém que acabou de confirmar algo que já suspeitava há muito tempo. Me deu um beijo no rosto. —Agora sim você pode me levar pra casa. —É só isso? —Por hoje. Eu olhei pra ela. Ela abriu a porta. Antes de descer, se inclinou de novo na minha direção. —Mas não se acostuma a pensar que isso foi só uma vez. Fechou a porta. Fiquei vendo ela caminhar até a casa dela. E pela primeira vez em muitíssimo tempo, dirigi sorrindo. No dia seguinte eu estava trabalhando quando ela apareceu no depósito. Agia completamente normal. Normal demais. Chegou perto, tirou uma pílula do Plan B e me mostrou. —Pra você não passar o dia todo preocupado. Depois guardou a caixa e começou a caminhar em direção à porta. Antes de sair, se virou. —Ah, e outra coisa… —O quê? Sorriu. —Ontem à noite foi melhor do que eu imaginava. E foi embora. Fiquei ali parado, completamente imóvel. Porque naquele momento eu entendi uma coisa. Aquilo não tinha sido um acidente. Ela tinha esperado aquela noite durante meses. E agora que finalmente tinha acontecido, nenhum dos dois parecia ter intenção de fingir que não queria que acontecesse de novo.
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