Olá, espero que goste do capítulo, vou subir imagens extras na minha conta do X, aproveite o capítulo e quero saber sua opinião e se você tem alguma ideia. Toc, toc, toc. Rodrigo acordou de repente, o coração martelando no peito. De novo? Quem diabos poderia ser a essa hora? Não podia me deixar dormir em paz? -Já vou -rosnou, arrastando-se para fora da cama. Vestiu a camisa branca que pendia do encosto de uma cadeira e caminhou até a porta, ainda meio dormindo, esfregando os olhos com as costas da mão. Os peitos balançavam a cada passo, aquele lembrete constante da sua nova realidade. Abriu a porta. Um entregador estava do outro lado, com uma caixa de papelão entre as mãos e um tablet na outra. -Eh... Lucía Martínez? -perguntou, olhando para a tela. Rodrigo sentiu a raiva subir pela garganta. Esse nome. Esse maldito nome. Cada vez que o ouvia era como se alguém enfiasse uma agulha. -Sim, sou eu -respondeu, com a voz tensa-. O que você quer? O entregador, um rapaz jovem de uniforme de mensageiro, levantou o olhar e piscou ao vê-la. Seus olhos percorreram instintivamente sua figura: os peitos enormes, as coxas, o cabelo bagunçado. Ficou vermelho e desviou o olhar rapidamente. -Vim... vim entregar um pacote, senhorita -disse, estendendo a caixa-. Aqui está. Rodrigo pegou a caixa sem agradecer e fechou a porta na cara dele. Deixou-a sobre a mesa da sala e abriu. Dentro havia uma mochila escolar, vários cadernos, canetas, lápis... tudo o que precisaria para as aulas. Também havia uma nota escrita à mão: "Materiais escolares. Agente G." Rodrigo olhou a mochila com desprezo. Tudo preparado. Tudo pronto. Como se fosse uma maldita estudante de verdade. E então lembrou. Hoje era seu último dia de liberdade. Amanhã começava a escola. Deixou-se cair na cadeira, com a mochila entre as mãos. Amanhã teria que sair desse apartamento. Amanhã teria que andar pelas ruas com esse corpo. Amanhã teria que se sentar numa sala de aula cercada de adolescentes que não sabiam quem ela realmente era. A ideia a horrorizava. Mas era o que tinha que fazer. Se quisesse voltar ao seu corpo, se quisesse recuperar sua vida, teria que cumprir a pena. Dois anos. Dois malditos anos. O resto do dia passou preparando suas coisas. Revisou os papéis que o agente tinha lhe entregado: o horário das aulas, o regulamento escolar, um mapa do instituto, a localização. Não era como se tivesse algo melhor pra fazer. Organizou o pequeno apartamento, e até tentou cozinhar algo, mas não saiu bem. Quando a noite caiu, já tinha tudo pronto. A mochila preparada ao lado da porta, o uniforme pendurado no armário, o despertador configurado para as seis da manhã. Se enfiou na cama e fechou os olhos. Mas não conseguia dormir. Não era só a dificuldade habitual de encontrar posição com aqueles peitos enormes. Era algo mais. Estava nervosa. Nervosa como não ficava há anos. Nem no dia do seu julgamento tinha sentido esses nervos. Aquilo tinha sido diferente; estava segura de que sairia impune. Mas isso... isso era um salto no vazio. Se remexeu na cama, tentando relaxar. Respirou fundo. Contou até cem. Nada funcionava. E então começaram. Os gemidos. No começo eram suaves, mal audíveis. Mas logo cresceram, ficaram mais intensos, mais rítmicos. Esses malditos gemidos do apartamento ao lado. Manuel. De novo. -Não, não, não... -murmurou Rodrigo, tapando os ouvidos com o travesseiro. Mas os gemidos se infiltravam do mesmo jeito. E dessa vez... dessa vez fizeram algo mais do que incomodar. Rodrigo sentiu um formigamento. Um calor estranho que nascia no seu baixo ventre e se espalhava pra baixo, pra um lugar que vinha tentando ignorar desde que acordou naquele corpo. Um lugar que agora pulsava, que exigia atenção. -O que...? -sussurrou, confusa. Era excitação. Reconheceu na hora, embora nunca tivesse sentido assim. Nunca no seu próprio corpo. Tinha sentido desejo antes, claro. Já tinha desejado mulheres, já tinha feito sexo com elas. Mas isso era diferente. Isso nascia de dentro, do próprio corpo dela, dessa nova anatomia que ela ainda não entendia completamente. Os gemidos de Manuel continuavam. Cada vez mais altos. Cada vez mais obscenos. E o formigamento se intensificou. Rodrigo apertou as pernas, tentando ignorar. Mas era inútil. Seu corpo respondia sozinho, como se tivesse vida própria. Podia sentir como sua calcinha ficava molhada, como seus mamilos ficavam duros contra o bojo do sutiã. -Porra... -ela ofegou, envergonhada. Sentou-se na cama. Precisava fazer algo. Precisava parar com isso. Mas não sabia como. Ou talvez... talvez soubesse. Com as mãos trêmulas, tirou a camisa branca. Seus peitos ficaram cobertos apenas pelo sutiã, enormes, pesados, com os mamilos duros e sensíveis. Tentou olhar para baixo, para o meio das pernas, mas seus próprios peitos tapavam a visão. Porra. Levantou-se da cama e foi até o espelho do armário. Sentou-se no chão, de frente para o próprio reflexo, e abriu as pernas. Lá estava. Através do tecido da calcinha preta, podia ver o formato da sua nova anatomia. Os lábios que se insinuavam, a umidade que já começava a manchar o tecido. Engoliu em seco. Lentamente, levou uma mão para baixo. Seus dedos roçaram o tecido da calcinha, bem no centro. Um arrepio percorreu sua espinha. -Ah... -escapou dos seus lábios, um som que ela mal reconheceu como seu. Estava molhada. Completamente molhada. Não podia acreditar. Seu corpo, esse corpo que ela odiava, estava respondendo. Estava desejando. Fechou os olhos e continuou tocando. Pressionou com os dedos, esfregando suavemente através do tecido. Cada roçar enviava uma descarga de prazer que subia pela barriga, que fazia sua coluna arquear. Os gemidos de Manuel continuavam soando do outro lado da parede. E agora, em vez de incomodá-la, pareciam acompanhá-la. Pareciam incentivá-la. Rodrigo não aguentou mais. Tirou a calcinha com um movimento brusco e as jogou de lado. Agora ela estava completamente exposta ali embaixo diante do espelho, com as pernas abertas, mostrando a si mesma o que era. E o que viu a deixou sem fôlego. Sua buceta. Rosada, molhada, palpitante. Os lábios externos, macios e carnudos. E no centro, aquele pequeno botão que parecia concentrar toda a sensibilidade do seu corpo. Nunca tinha visto um assim desse jeito. Nunca tinha prestado atenção nos corpos das mulheres que havia tocado. Para ele eram só um meio, um instrumento para o próprio prazer. Mas agora... agora era dela. E era lindo. Com dedos trêmulos, se tocou. O contato direto foi elétrico. Um gemido escapou da sua garganta, agudo e surpreso. Nunca tinha sentido nada assim. Nunca. Começou a se mover em círculos, lentamente, explorando. Cada roçar lhe enviava ondas de prazer que percorriam todo o seu corpo. Seus peitos subiam e desciam com sua respiração agitada, os mamilos tão duros que doíam. Podia sentir como seu interior se contraía, como seu corpo inteiro se preparava para algo. -Isso... isso é... -ofegou, sem conseguir terminar a frase. Aumentou o ritmo. Seus dedos se moviam mais rápido, mais firmes. Agora não era só exploração; era necessidade. Precisava de mais. Precisava chegar a algum lugar. Lembrou como fazia com as mulheres. Como elas gemiam e se contorciam quando ele as tocava. Como pediam mais, mais rápido, mais forte. Agora entendia por quê. Deslizou um dedo para baixo, para sua entrada. Estava tão molhada que entrou sem resistência. A sensação de ter algo dentro, de se sentir cheia, era nova e estranhamente satisfatória. Moveu o dedo lentamente, explorando, e depois acrescentou outro. -Ah... -gemeu, arqueando as costas. Com a outra mão, levou os dedos ao seu clitóris. Agora tinha dois pontos de prazer, duas fontes de sensação que se combinavam, que a levavam mais e mais alto. Os gemidos de Manuel já não eram incômodos. Agora eram um estímulo a mais. Imaginou que era ela que gemia assim, que se se contorcia de prazer. Imaginou que aqueles sons eram dela. Sua respiração acelerou. O calor em seu ventre cresceu, se concentrou, se tornou insuportável. Sentia que algo se aproximava, algo enorme, algo que nunca tinha experimentado. -Não... não posso... -ofegou, mas não queria parar. Mais rápido. Mais forte. Seus dedos se moviam com fúria, seu corpo se arqueava, seus seios tremiam a cada movimento. Os gemidos escapavam de seus lábios sem controle, cada vez mais agudos, mais desesperados. E então... -¡Ahhh! Tudo explodiu. Seu corpo se tensionou, suas costas se arquearam até quase doer, e uma onda de prazer puro, devastador, a percorreu da cabeça aos pés. Seu interior se contraiu uma e outra vez, pulsando ao redor de seus dedos. Um grito rouco escapou de sua garganta, um som que nunca tinha feito, que não sabia que podia fazer. Durou segundos. Minutos. Não sabia. O tempo parou enquanto seu corpo se sacudia com espasmos de prazer, enquanto cada fibra de seu ser se dissolvia nessa sensação. Quando finalmente terminou, desabou contra o chão, ofegante, suando, tremendo. -Meu Deus... -sussurrou, com os olhos fechados. Não podia acreditar. Não podia acreditar que se sentisse assim. Que um corpo pudesse dar tanto prazer. Que ela -ele- pudesse experimentar algo assim. Ficou ali, deitada no chão frio, com as pernas ainda abertas, sentindo como sua respiração se acalmava pouco a pouco. Os gemidos de Manuel tinham cessado. O silêncio voltava ao edifício. Mas ela não podia se mover. Estava exausta. Completamente exausta. E antes de perceber, adormeceu ali mesmo, semidesnuda no chão, com a bochecha colada ao piso frio. --- O som do despertador a tirou de seu sonho. Rodrigo abriu os olhos, desorientada. O teto que via era o mesmo de seu quarto. E estava no chão. E estava quase nua. De repente, tudo voltou à sua mente. A noite anterior. Os gemidos. O espelho. Suas mãos. O orgasmo. -Não... -gemeu, se levantando-. Não, não, não, não... Se olhou. Sua corpo nu, brilhando de suor e algo mais. O espelho à frente dela, que agora refletia sua figura com toda clareza: os peitos enormes, os quadris largos, sua buceta ainda molhada. -O que eu fiz? -sussurrou para si mesma-. O que diabos eu fiz? Levantou-se rapidamente e correu para o banheiro, com as bochechas ardendo de vergonha. Entrou no chuveiro e abriu a água fria, deixando que batesse na pele, que limpasse o suor e os restos do que tinha feito. Enquanto a água caía, não pôde evitar pensar no que tinha sentido. Aquele prazer. Aquele orgasmo. Nunca tinha experimentado algo assim. Nem com todas as mulheres que tinha tido na cama. Nem chegava perto. -Foi um momento de fraqueza -disse para si mesma, esfregando a pele com força-. Só isso. Precisava relaxar. Precisava dormir. É só isso. Mas no fundo, bem no fundo, sabia que não era verdade. Sabia que havia algo mais. Fechou o registro e saiu do chuveiro. Secou-se rapidamente e foi para o quarto. No armário estava o uniforme, ainda na sacola plástica. O uniforme que vinha evitando desde que o agente o entregou. Hoje já não podia evitar mais. Pegou a sacola e abriu. Tirou as peças uma por uma: umas meias brancas, uma saia plissada azul-marinho que parecia curta demais, uma blusa branca de botões. Tudo impecável, tudo novo. -Vamos -disse para si mesma, respirando fundo. Colocou primeiro a calcinha e o sutiã, ambos pretos, os únicos que gostava. Depois as meias brancas, que subiam até a metade da coxa e apertavam levemente. Em seguida a saia, que de fato era curta, deixando as coxas à mostra. E finalmente a blusa, que ao abotoar ficou... justa. Muito justa. Rodrigo se olhou no espelho do quarto. O sutiã preto marcava-se claramente através do tecido branco. Os botões pareciam prestes a saltar. A saia chegava apenas à metade da coxa.
-Não posso ir assim -murmurou. Pegou o celular e escreveu uma mensagem para o Agente G: "Ei, a camisa tá muito apertada. Não dá pra usar isso." Esperou. Um minuto. Dois. Cinco. Nenhuma resposta. -Maldito... -sibilou. Olhou as horas. Tinha que sair já se quisesse chegar a tempo. Não tinha opção. Teria que ir assim. Calçou uns sapatos pretos que tinha achado no fundo do armário, pegou a mochila e foi em direção à porta. Antes de sair, parou um instante. Seu reflexo no espelho do hall a encarava. Uma adolescente de corpo exuberante, com uniforme escolar apertado, cabelo escuro caindo sobre os ombros, expressão de horror no rosto. -Dois anos -se lembrou-. Só dois anos. Abriu a porta e saiu para o corredor. Rodrigo saiu do apartamento com a mochila no ombro e o coração batendo forte. Cada passo que dava com aqueles sapatos lembrava o quanto aquela situação era absurda. A saia roçava suas coxas com um movimento que não conseguia ignorar, e a blusa apertada comprimia seu peito de um jeito que a fazia se sentir exposta. Trancou a porta e se virou para o corredor. E então o viu. Manuel estava parado na frente da porta dele, encostado no batente com um sorriso preguiçoso nos lábios. Usava uma calça de moletom e uma camiseta sem manga que deixava os braços musculosos à mostra. Numa das mãos segurava um cigarro pela metade. Mas não era isso que chamou a atenção de Rodrigo. Ao lado de Manuel, uma mulher se afastava pelo corredor. Andava com dificuldade, com as pernas tremendo e uma expressão de exaustão total no rosto. O cabelo desgrenhado, a roupa amassada, os olhos vidrados. Parecia que mal conseguia se manter de pé. Rodrigo ficou paralisada. Os gemidos. Os malditos gemidos das últimas noites. Aqueles sons que não a deixaram dormir. Aqueles gemidos que ontem à noite... que ontem à noite a levaram a fazer o que fez. Aquela mulher era a fonte. E Manuel... Manuel era o causador. Rodrigo sentiu as bochechas acendiam ao imaginar a cena. Aquela mulher, exausta, satisfeita até o limite. Manuel, com aquele sorriso arrogante, fumando tranquilamente depois de... de qualquer coisa que tivessem feito. Não conseguiu evitar. Sua mente, traidora, a transportou para a noite anterior. Para seus próprios dedos. Para seu próprio orgasmo. Para aquela sensação devastadora que a deixou tremendo no chão. Era assim que aquela mulher se sentia? Tão exausta? Tão satisfeita? -Bom dia, Lucía. A voz grave de Manuel a tirou de seus pensamentos. Rodrigo piscou e voltou à realidade. A mulher já tinha ido embora. Manuel continuava ali, apoiado contra o batente, olhando para ela com aqueles olhos escuros que pareciam ver tudo. -Como você está? -continuou ele, dando uma tragada no cigarro-. Vejo que já está pronta para a escola. O uniforme fica muito bem em você. Rodrigo apertou os dentes. Podia sentir o olhar de Manuel percorrendo-a de cima a baixo, parando na blusa justa, na saia curta, nas meias brancas que subiam pelas coxas. -já preciso ir- respondeu, seca, ajustando a mochila no ombro. Caminhou em direção às escadas, mas Manuel levantou uma mão para detê-la. -Espera um momento -disse, com aquele sorriso que não gostava nem um pouco-. Precisamos conversar um pouco. Já que somos vizinhos, precisamos nos conhecer. Rodrigo parou. Olhou para ele com a testa franzida. -Nos conhecer? -repetiu, com um tom que deixava claro que não tinha o menor interesse-. Olha, não quero ser grossa, mas não tenho tempo para conversar. Preciso chegar à escola. Manuel soltou uma risadinha, sem se afastar do batente. -Calma, não vou te morder -disse, divertido-. É só curiosidade. Você é nova aqui, eu estou neste prédio há anos. É o normal entre vizinhos, não é? Rodrigo bufou. Podia continuar discutindo, mas isso só iria prolongar a conversa. E se realmente fosse ficar dois anos naquele lugar, melhor não arrumar inimigos. -Tá bom -cedeu, cruzando os braços-. Mas rápido. Não vou me atrasar por causa disso. Manuel sorriu, satisfeito. Afastou-se do batente e deu um passo em direção a ela, encurtando a distância. Rodrigo não recuou. Ficou firme, olhando diretamente nos olhos dele, com uma expressão que deixava claro que não se sentia intimidada. —Por que você se mudou pra cá? —perguntou Manuel, com um tom casual—. E quanto tempo você vai ficar? Rodrigo o olhou por um segundo antes de responder. —A escola ficava perto —disse, sem mais detalhes—. E vou ficar dois anos. Só isso. —Dois anos —repetiu Manuel, como se analisasse cada palavra—. É bastante tempo. Seus olhos brilharam com algo que Rodrigo não soube identificar. Algo que deixou seus nervos à flor da pele. —Mais alguma coisa? —perguntou Rodrigo, impaciente—. Porque se não, eu vou embora. Manuel levantou as mãos num gesto de rendição, ainda com aquele sorriso nos lábios. —Calma, calma —disse—. Era só curiosidade. Não te incomodo mais. Rodrigo assentiu, sem retribuir o sorriso, e começou a caminhar em direção à escada. Passou ao lado de Manuel, sentindo o olhar dele cravado na nuca, nas costas, nos quadris. A saia se movia a cada passo, e ela sabia que ele estava olhando. Bem quando o deixou para trás, a voz de Manuel soou de novo. —Ah, e Lucía... Rodrigo parou, mas não se virou. —Sinto muito pelos barulhos de ontem à noite —disse Manuel, com um tom que pretendia ser inocente mas soava profundamente zombeteiro—. Espero não ter te incomodado. Haha. Rodrigo sentiu o sangue subir ao rosto. Os barulhos. Os gemidos. O que ela tinha feito enquanto os escutava. O que tinha sentido. O que tinha feito com os próprios dedos, imaginando... —Não —disse, com a voz tensa—. Não me incomodaram em nada. E continuou andando, mais rápido agora, com o coração batendo forte e as bochechas ardendo de vergonha. Manuel a observou se afastar. Seu sorriso se alargou. Levou o cigarro aos lábios e deu uma tragada longa, curtindo o espetáculo. —Isso vai ser mais divertido do que eu pensava —murmurou para si mesmo. --- Rodrigo chegou ao elevador e apertou o botão. Nada. O indicador continuava apagado. Continuava sem funcionar. —Maldição —sibilou. Não tinha outra opção. As escadas. Começou a descer. Cada andar era uma tortura. O peso dos seus peitos a desequilibrava, fazendo-a quicar a cada degrau. A saia subia ligeiramente com o movimento, obrigando-a a baixá-la repetidas vezes. As meias apertavam-lhe as coxas. Os sapatos, que não eram do seu tamanho, roçavam-lhe os calcanhares. —Odeio isso —murmurou, agarrando-se ao corrimão—. Odeio tudo isso. Quando finalmente chegou ao térreo, estava sem fôlego e irritada. Empurrou a porta do prédio e saiu para a rua. O ar fresco da manhã bateu-lhe na cara. Por um momento, permitiu-se fechar os olhos e respirar fundo. Só um momento. Depois abriu os olhos e encarou o mundo. A rua estava cheia de gente. Homens e mulheres caminhando apressados, carros passando, lojas abrindo. E entre toda essa gente, outros adolescentes com uniformes escolares parecidos com o seu, andando em grupos, rindo, conversando. Rodrigo começou a andar. Tinha visto o endereço nos papéis do agente. A escola não ficava longe, talvez 20 ou 15 minutos a pé. Conseguia fazer isso. Enquanto caminhava, não pôde evitar reparar nas outras estudantes. Algumas olhavam de esguelha. Outras cochichavam entre si, tapando a boca com as mãos. Os garotos... os garotos eram piores. Não disfarçavam. Seus olhos grudavam nela, percorrendo-a de cima a baixo, parando no seu peito, nos seus quadris, nas suas pernas. Rodrigo apressou o passo, ignorando-os. —Você viu aquela ali? —ouviu uma garota dizer para outra—. Ela tem uns peitos enormes. —É, e essa saia... com certeza ela levantou de propósito. —Que gostosa. Rodrigo cerrou os punhos. Não ia responder. Só ia ignorar. Continuou andando, com o olhar em frente, até que finalmente chegou à entrada da escola. O prédio era grande, vários andares, com uma placa que dizia "Instituto de Educação Secundária Nº 7". Havia dezenas de estudantes entrando e saindo, formando grupos nas escadas, falando aos gritos. Rodrigo parou por um momento. Respirou fundo. —Vamos —disse a si mesma—. São só dois anos. Entrou. O saguão estava cheio de gente. Numa das paredes, ao lado da entrada, havia um mural de avisos com várias listas coladas. Rodrigo se aproximou e procurou seu nome. Lucía Martínez. Sala 11. —Sala 11 —murmurou—. Onde fica a sala 11? Olhou ao redor, procurando alguma placa. Encontrou um corredor à direita com setas indicando os números das salas. Seguiu pelo corredor, sentindo como as pessoas a olhavam à sua passagem. Alguns caras assobiavam baixinho. Algumas garotas riam. Ignorando-os, chegou até a sala 11. A porta estava aberta. Lá dentro já havia vários estudantes sentados, conversando entre si. Rodrigo entrou. E naquele momento, todas as conversas cessaram. Todos os olhares se voltaram para ela. Os caras arregalaram os olhos, alguns com a boca levemente aberta. As garotas a olharam com expressões que iam da curiosidade à inveja, passando pela clara hostilidade. Rodrigo sentiu o rubor subir às bochechas. Sentia-se como um animal em exposição. Como se estivesse nua diante de todos eles. Sem dizer nada, caminhou até o fundo da sala e se sentou numa das cadeiras livres, junto à janela. Deixou a mochila no chão e cruzou os braços, tentando se fazer o menor possível. Bem naquele momento, o sinal tocou. Rodrigo continuava sentada em seu lugar, com o olhar fixo na superfície da carteira. Ainda sentia alguns olhares sobre ela. Alguns alunos, mais discretos que outros, continuavam se virando de vez em quando para observá-la. Os caras, principalmente. Esses olhares que deslizavam por suas costas, por sua nuca, por seus ombros. Não ligava. Só queria que aquilo acabasse. A porta da sala se abriu e entrou uma mulher de meia-idade, com óculos e uma expressão amável. Apresentou-se como a professora de literatura e, após uma breve introdução, mencionou que havia alunos novos e que esperava que todos se dessem bem. Depois começou a explicar o programa da sua aula, os livros que leriam, os trabalhos que teriam que entregar. Rodrigo mal prestava atenção. Era a mesma coisa que todos os professores diziam. Explicações longas, normas, expectativas. Nada que lhe importasse. Nada que lhe servisse. As aulas passaram uma atrás da outra. Cada professor entrava, se apresentava, explicava o mesmo. Rodrigo se limitava a olhar pela janela, a desenhar rabiscos num caderno vazio, a contar os minutos que faltavam para aquilo terminar. Até que chegou a hora do intervalo. A maioria da sala se levantou de imediato, formando grupos, rindo, falando aos gritos. Saíram para o corredor, alguns para o pátio, outros para a cantina. Rodrigo ficou na sua carteira. Não tinha dinheiro. Também não tinha lanche. Tinha esquecido completamente. Bom, na verdade, nunca tinha precisado. Antes tinha dinheiro de sobra, cartões de crédito, contas bancárias. Ou tinha gente que cuidava dessas coisas por ele. Assistentes, secretárias, empregados. Sempre tinha alguém que lhe trazia o almoço, que perguntava o que queria comer, que se certificava de que não lhe faltasse nada. Agora não tinha ninguém. Ficou sentada, com a cabeça baixa, os braços cruzados sobre a carteira. A fome lhe revirava o estômago. Tinha tomado café da manhã pouco, só um pouco do que tinha na geladeira. E agora, com o estômago vazio e os nervos do primeiro dia, se sentia tonta. Seu estômago roncou. Alto. Rodrigo fechou os olhos, envergonhada. Esperava que ninguém tivesse escutado. -Ei, você. Uma voz à sua direita. Rodrigo levantou a cabeça, surpresa. Era o garoto que se sentava ao seu lado. Não tinha prestado atenção nele o dia todo. Era um pouco gordo, meio baixinho, com o cabelo bagunçado e uma expressão nervosa. Tinha o braço estendido, oferecendo-lhe uma caixa de plástico. -O quê? -perguntou Rodrigo, Franzindo a testa. O garoto encolheu-se um pouco, como se tivesse se arrependido de ter falado. —É que... sobrou um pra mim —disse, com a voz trêmula—. E eu acho que você tá com fome. Rodrigo olhou a caixa. Depois o garoto. Depois a caixa de novo. —Hã... valeu —disse, esticando a mão pra pegar. O garoto entregou com as mãos tremendo, evitando olhar diretamente pra ela. Rodrigo abriu a caixa. Dentro tinha comida caseira: arroz, carne ensopada, uns legumes. Cheirava bem. Muito bem. —Por que você tem duas? —perguntou Rodrigo, apontando pra outra caixa que o garoto tinha na mesa. O garoto ficou ainda mais nervoso. —Hã... é que eu sempre trago duas —murmurou—. Por via das dúvidas. E... se você quiser, posso te dar uma. Bom, só se você quiser. Rodrigo olhou pra ele. Dava pra ver o quanto ele tava nervoso, como evitava olhar nos olhos dela, como as mãos dele brincavam com a borda da própria caixa. Era patético. Mas também era útil. —Sim, isso me deixaria muito feliz —disse Rodrigo, suavizando a voz, esboçando um sorriso doce. O efeito foi imediato. O garoto ficou vermelho. Os olhos se arregalaram, a boca abriu e fechou sem emitir som. Parecia que tinha acabado de ganhar na loteria. —S-sim, eu adoraria comer com uma mina tão gostosa —gaguejou—. Digo, não que eu goste de você, mas sim que você é gostosa... melhor eu calar a boca. Rodrigo soltou uma risadinha. Uma risadinha doce, falsa, calculada. O garoto quase derreteu na cadeira. —Você é muito gentil —disse Rodrigo, enquanto pensava no quão repugnante era tudo aquilo. O garoto não parava de olhar pros peitos dela. Fazia sem disfarçar, com olhadas rápidas, mas Rodrigo percebia. Era desconfortável. Nojento. Mas a comida tava deliciosa. Fazia muito tempo que não comia comida caseira. Desde antes do julgamento, talvez. Desde que a vida dela era um turbilhão de restaurantes caros e comidas preparadas por chefs particulares. Comeram em silêncio durante a maior parte do intervalo. Rodrigo, concentrada na comida. O garoto, concentrado em não olhar demais pra ela e fracassando miseravelmente. -Vou ao banheiro -disse o garoto de repente, levantando-se. Rodrigo assentiu sem olhar para ele. Continuou comendo. Alguns minutos depois, ela também precisava ir ao banheiro. Levantou-se e saiu da sala. Os corredores estavam quase vazios, a maioria dos estudantes ainda estava no pátio ou na cantina. Caminhou até o banheiro, fez o que tinha que fazer, e saiu. Ao voltar, pegou um corredor mais longo, um atalho que tinha visto antes. E então os viu. No fundo do corredor, num canto, o garoto gordo estava contra a parede. Na frente dele, um garoto alto, musculoso, de cabelo loiro e um sorriso cruel. Estava dizendo algo, algo que Rodrigo não conseguia ouvir. Mas pela postura do garoto gordo, pela forma como estava com os ombros encolhidos, por como olhava para o chão, estava claro o que estava acontecendo. Rodrigo parou por um momento. Observou-os. O garoto gordo não a viu. O garoto alto também não. Estavam concentrados demais um no outro. Rodrigo poderia ter intervindo. Poderia ter dito algo. Poderia ter ajudado. Mas não o fez. Virou-se e continuou andando até sua sala. Sentou-se em sua carteira e esperou o sinal tocar. Não era problema dela. Não era assunto dela. O sinal tocou. Os estudantes começaram a voltar. O garoto gordo entrou alguns minutos depois, com a cabeça baixa, evitando olhar para qualquer um. Sentou-se ao lado dela em silêncio. -Desculpa pelo atraso -murmurou-. É que eu tive... problemas. E acho que não sei seu nome. Haha. Sou Juan. Rodrigo olhou de soslaio. -Sou Lucía -disse, sem mais. Juan assentiu, com um pequeno sorriso. Depois ficou calado, olhando para frente. Entrou um professor. A rotina continuou. Explicações tediosas, normas, expectativas. Rodrigo se desligou de novo. Chegou uma hora livre. Os estudantes se reuniram em grupos, falando, rindo. Rodrigo ficou em sua carteira. Juan, ao lado dela, parecia querer dizer algo, mas não encontrava as palavras. Abria a boca, fechava, torcia as mãos. Rodrigo o ignorava. Só queria que aquilo terminasse. Faltava uma aula. Só uma. -Ei, amiga, por que tão sozinha? Rodrigo levantou a cabeça. Uma garota estava de pé na frente da carteira dele. Loira, atraente, com peitos bem grandes e um sorriso que fingia ser amigável. -Desculpa? -disse Rodrigo. -Te vi tão sozinha que pensei que você precisava de uma amiga -disse a garota-. Me chamo Ángela. Espero que a gente se dê bem. Você é nova, né? Como você se chama? Rodrigo olhou pra ela. Tinha algo naquele sorriso que ele não gostou. -Sim, sou Lucía -respondeu, com tom neutro. Ángela sentou na beirada da carteira, invadindo o espaço pessoal dele. -Amiga, como você fez pra ter elas assim? -perguntou, apontando com um gesto pros próprios peitos-. O que te deram de comer? Passa as dicas. Rodrigo piscou. -Eh... é só genética, acho. -Entendi -Ángela assentiu, como se a resposta a tivesse decepcionado-. Bom, se você tiver alguma dúvida ou problema, posso te ajudar sem problema. E se você se sentir sozinha, pode vir comigo. Tô sempre com minhas amigas. Bom, já vou te deixar. A gente se vê. Ela se afastou, caminhando em direção a um grupo de garotas que esperavam no fundo da sala. Assim que se juntou a elas, todas começaram a rir, olhando disfarçadamente pra Rodrigo. Rodrigo cerrou os dentes. Não suportava aquela garota. A última aula passou devagar. Quando finalmente a campainha tocou, Rodrigo se levantou na hora. Pegou a mochila e foi em direção à saída, sem olhar pra ninguém. Enquanto caminhava pelo corredor, sentiu algo estranho no peito. Um puxão. Depois outro. E então... !Pop!
O botão da blusa dela saltou. Um dos botões de cima, bem no meio do peito, voou e caiu no chão. A blusa se abriu de repente, deixando à mostra uma boa parte dos peitos dela, cobertos só pelo sutiã preto. Rodrigo ficou paralisada. O ar frio do corredor bateu na pele exposta. E aí ela sentiu. Os mamilos, que já estavam sensíveis pelo atrito constante do tecido justo, reagiram na hora. Ficaram duros, eretos, pressionando contra o sutiã preto, marcando-se com clareza através do tecido. E a blusa continuava aberta. O sutiã era a única coisa que cobria os peitos, e os mamilos duros apareciam perfeitamente através da renda. -Uff, olha isso... -Porra, são enormes! -Que gostosa... As vozes vieram de algum lugar do corredor. Rodrigo virou a cabeça, atordoada, e viu vários alunos olhando pra ela. Um grupo de caras, encostado na parede, com os olhos grudados no peito dela. Um deles passou a língua nos lábios. Outro soltou um assobio baixinho. -Cala a boca, idiota -disse outro, mas também sorria-. Ela pode te ouvir. Rodrigo continuava paralisada. O cérebro dela demorava pra processar o que estava acontecendo. A blusa aberta. Os mamilos duros. Os olhares. As risadas. Os comentários. -Meu Deus, olha eles -sussurrou uma garota pra amiga-. Dá pra ver tudo. Que vergonha. -É, mas com esses peitos, normal que apareçam -respondeu a outra, com uma risadinha-. Aposto que ela faz de propósito. As palavras chegaram como golpes. Rodrigo sentiu o sangue subir pro rosto, o rubor acender as bochechas, o pescoço, até o peito. Mas o corpo dela não reagia. Continuava ali, de pé, com a blusa aberta e os mamilos eretos, exposta aos olhares de todo mundo. Finalmente, o cérebro dela pareceu voltar a funcionar. Pegou a mochila e colocou na frente do peito, escondendo o máximo que pôde. Mas o estrago já estava feito. As risadas, os comentários, os olhares lascivos... tudo ficava gravado na memória dela. Com as bochechas ardendo, ela caminhou o mais rápido que pôde em direção à saída. Não parou. Não olhou para trás. Só caminhou, e caminhou, e caminhou, sentindo ainda os mamilos duros roçando contra o interior do sutiã, lembrando-a constantemente do que acabara de acontecer. Saiu do instituto e o ar fresco bateu na sua cara. Mas não adiantou nada. A vergonha continuava ali, queimando por dentro. Até que finalmente chegou ao seu prédio, subiu as escadas de dois em dois, e entrou no seu apartamento. Fechou a porta com força. Encostou-se na madeira, respirando ofegante. -Que porra foi essa? -sussurrou. Olhou para baixo. A camisa continuava aberta, mostrando o sutiã, mostrando seus peitos. O botão perdido. O tecido rasgado. -Maldito uniforme -sibilou. Afastou-se da porta e caminhou até seu quarto. Tirou a camisa, jogou-a no chão, e se deixou cair na cama.
-Não posso ir assim -murmurou. Pegou o celular e escreveu uma mensagem para o Agente G: "Ei, a camisa tá muito apertada. Não dá pra usar isso." Esperou. Um minuto. Dois. Cinco. Nenhuma resposta. -Maldito... -sibilou. Olhou as horas. Tinha que sair já se quisesse chegar a tempo. Não tinha opção. Teria que ir assim. Calçou uns sapatos pretos que tinha achado no fundo do armário, pegou a mochila e foi em direção à porta. Antes de sair, parou um instante. Seu reflexo no espelho do hall a encarava. Uma adolescente de corpo exuberante, com uniforme escolar apertado, cabelo escuro caindo sobre os ombros, expressão de horror no rosto. -Dois anos -se lembrou-. Só dois anos. Abriu a porta e saiu para o corredor. Rodrigo saiu do apartamento com a mochila no ombro e o coração batendo forte. Cada passo que dava com aqueles sapatos lembrava o quanto aquela situação era absurda. A saia roçava suas coxas com um movimento que não conseguia ignorar, e a blusa apertada comprimia seu peito de um jeito que a fazia se sentir exposta. Trancou a porta e se virou para o corredor. E então o viu. Manuel estava parado na frente da porta dele, encostado no batente com um sorriso preguiçoso nos lábios. Usava uma calça de moletom e uma camiseta sem manga que deixava os braços musculosos à mostra. Numa das mãos segurava um cigarro pela metade. Mas não era isso que chamou a atenção de Rodrigo. Ao lado de Manuel, uma mulher se afastava pelo corredor. Andava com dificuldade, com as pernas tremendo e uma expressão de exaustão total no rosto. O cabelo desgrenhado, a roupa amassada, os olhos vidrados. Parecia que mal conseguia se manter de pé. Rodrigo ficou paralisada. Os gemidos. Os malditos gemidos das últimas noites. Aqueles sons que não a deixaram dormir. Aqueles gemidos que ontem à noite... que ontem à noite a levaram a fazer o que fez. Aquela mulher era a fonte. E Manuel... Manuel era o causador. Rodrigo sentiu as bochechas acendiam ao imaginar a cena. Aquela mulher, exausta, satisfeita até o limite. Manuel, com aquele sorriso arrogante, fumando tranquilamente depois de... de qualquer coisa que tivessem feito. Não conseguiu evitar. Sua mente, traidora, a transportou para a noite anterior. Para seus próprios dedos. Para seu próprio orgasmo. Para aquela sensação devastadora que a deixou tremendo no chão. Era assim que aquela mulher se sentia? Tão exausta? Tão satisfeita? -Bom dia, Lucía. A voz grave de Manuel a tirou de seus pensamentos. Rodrigo piscou e voltou à realidade. A mulher já tinha ido embora. Manuel continuava ali, apoiado contra o batente, olhando para ela com aqueles olhos escuros que pareciam ver tudo. -Como você está? -continuou ele, dando uma tragada no cigarro-. Vejo que já está pronta para a escola. O uniforme fica muito bem em você. Rodrigo apertou os dentes. Podia sentir o olhar de Manuel percorrendo-a de cima a baixo, parando na blusa justa, na saia curta, nas meias brancas que subiam pelas coxas. -já preciso ir- respondeu, seca, ajustando a mochila no ombro. Caminhou em direção às escadas, mas Manuel levantou uma mão para detê-la. -Espera um momento -disse, com aquele sorriso que não gostava nem um pouco-. Precisamos conversar um pouco. Já que somos vizinhos, precisamos nos conhecer. Rodrigo parou. Olhou para ele com a testa franzida. -Nos conhecer? -repetiu, com um tom que deixava claro que não tinha o menor interesse-. Olha, não quero ser grossa, mas não tenho tempo para conversar. Preciso chegar à escola. Manuel soltou uma risadinha, sem se afastar do batente. -Calma, não vou te morder -disse, divertido-. É só curiosidade. Você é nova aqui, eu estou neste prédio há anos. É o normal entre vizinhos, não é? Rodrigo bufou. Podia continuar discutindo, mas isso só iria prolongar a conversa. E se realmente fosse ficar dois anos naquele lugar, melhor não arrumar inimigos. -Tá bom -cedeu, cruzando os braços-. Mas rápido. Não vou me atrasar por causa disso. Manuel sorriu, satisfeito. Afastou-se do batente e deu um passo em direção a ela, encurtando a distância. Rodrigo não recuou. Ficou firme, olhando diretamente nos olhos dele, com uma expressão que deixava claro que não se sentia intimidada. —Por que você se mudou pra cá? —perguntou Manuel, com um tom casual—. E quanto tempo você vai ficar? Rodrigo o olhou por um segundo antes de responder. —A escola ficava perto —disse, sem mais detalhes—. E vou ficar dois anos. Só isso. —Dois anos —repetiu Manuel, como se analisasse cada palavra—. É bastante tempo. Seus olhos brilharam com algo que Rodrigo não soube identificar. Algo que deixou seus nervos à flor da pele. —Mais alguma coisa? —perguntou Rodrigo, impaciente—. Porque se não, eu vou embora. Manuel levantou as mãos num gesto de rendição, ainda com aquele sorriso nos lábios. —Calma, calma —disse—. Era só curiosidade. Não te incomodo mais. Rodrigo assentiu, sem retribuir o sorriso, e começou a caminhar em direção à escada. Passou ao lado de Manuel, sentindo o olhar dele cravado na nuca, nas costas, nos quadris. A saia se movia a cada passo, e ela sabia que ele estava olhando. Bem quando o deixou para trás, a voz de Manuel soou de novo. —Ah, e Lucía... Rodrigo parou, mas não se virou. —Sinto muito pelos barulhos de ontem à noite —disse Manuel, com um tom que pretendia ser inocente mas soava profundamente zombeteiro—. Espero não ter te incomodado. Haha. Rodrigo sentiu o sangue subir ao rosto. Os barulhos. Os gemidos. O que ela tinha feito enquanto os escutava. O que tinha sentido. O que tinha feito com os próprios dedos, imaginando... —Não —disse, com a voz tensa—. Não me incomodaram em nada. E continuou andando, mais rápido agora, com o coração batendo forte e as bochechas ardendo de vergonha. Manuel a observou se afastar. Seu sorriso se alargou. Levou o cigarro aos lábios e deu uma tragada longa, curtindo o espetáculo. —Isso vai ser mais divertido do que eu pensava —murmurou para si mesmo. --- Rodrigo chegou ao elevador e apertou o botão. Nada. O indicador continuava apagado. Continuava sem funcionar. —Maldição —sibilou. Não tinha outra opção. As escadas. Começou a descer. Cada andar era uma tortura. O peso dos seus peitos a desequilibrava, fazendo-a quicar a cada degrau. A saia subia ligeiramente com o movimento, obrigando-a a baixá-la repetidas vezes. As meias apertavam-lhe as coxas. Os sapatos, que não eram do seu tamanho, roçavam-lhe os calcanhares. —Odeio isso —murmurou, agarrando-se ao corrimão—. Odeio tudo isso. Quando finalmente chegou ao térreo, estava sem fôlego e irritada. Empurrou a porta do prédio e saiu para a rua. O ar fresco da manhã bateu-lhe na cara. Por um momento, permitiu-se fechar os olhos e respirar fundo. Só um momento. Depois abriu os olhos e encarou o mundo. A rua estava cheia de gente. Homens e mulheres caminhando apressados, carros passando, lojas abrindo. E entre toda essa gente, outros adolescentes com uniformes escolares parecidos com o seu, andando em grupos, rindo, conversando. Rodrigo começou a andar. Tinha visto o endereço nos papéis do agente. A escola não ficava longe, talvez 20 ou 15 minutos a pé. Conseguia fazer isso. Enquanto caminhava, não pôde evitar reparar nas outras estudantes. Algumas olhavam de esguelha. Outras cochichavam entre si, tapando a boca com as mãos. Os garotos... os garotos eram piores. Não disfarçavam. Seus olhos grudavam nela, percorrendo-a de cima a baixo, parando no seu peito, nos seus quadris, nas suas pernas. Rodrigo apressou o passo, ignorando-os. —Você viu aquela ali? —ouviu uma garota dizer para outra—. Ela tem uns peitos enormes. —É, e essa saia... com certeza ela levantou de propósito. —Que gostosa. Rodrigo cerrou os punhos. Não ia responder. Só ia ignorar. Continuou andando, com o olhar em frente, até que finalmente chegou à entrada da escola. O prédio era grande, vários andares, com uma placa que dizia "Instituto de Educação Secundária Nº 7". Havia dezenas de estudantes entrando e saindo, formando grupos nas escadas, falando aos gritos. Rodrigo parou por um momento. Respirou fundo. —Vamos —disse a si mesma—. São só dois anos. Entrou. O saguão estava cheio de gente. Numa das paredes, ao lado da entrada, havia um mural de avisos com várias listas coladas. Rodrigo se aproximou e procurou seu nome. Lucía Martínez. Sala 11. —Sala 11 —murmurou—. Onde fica a sala 11? Olhou ao redor, procurando alguma placa. Encontrou um corredor à direita com setas indicando os números das salas. Seguiu pelo corredor, sentindo como as pessoas a olhavam à sua passagem. Alguns caras assobiavam baixinho. Algumas garotas riam. Ignorando-os, chegou até a sala 11. A porta estava aberta. Lá dentro já havia vários estudantes sentados, conversando entre si. Rodrigo entrou. E naquele momento, todas as conversas cessaram. Todos os olhares se voltaram para ela. Os caras arregalaram os olhos, alguns com a boca levemente aberta. As garotas a olharam com expressões que iam da curiosidade à inveja, passando pela clara hostilidade. Rodrigo sentiu o rubor subir às bochechas. Sentia-se como um animal em exposição. Como se estivesse nua diante de todos eles. Sem dizer nada, caminhou até o fundo da sala e se sentou numa das cadeiras livres, junto à janela. Deixou a mochila no chão e cruzou os braços, tentando se fazer o menor possível. Bem naquele momento, o sinal tocou. Rodrigo continuava sentada em seu lugar, com o olhar fixo na superfície da carteira. Ainda sentia alguns olhares sobre ela. Alguns alunos, mais discretos que outros, continuavam se virando de vez em quando para observá-la. Os caras, principalmente. Esses olhares que deslizavam por suas costas, por sua nuca, por seus ombros. Não ligava. Só queria que aquilo acabasse. A porta da sala se abriu e entrou uma mulher de meia-idade, com óculos e uma expressão amável. Apresentou-se como a professora de literatura e, após uma breve introdução, mencionou que havia alunos novos e que esperava que todos se dessem bem. Depois começou a explicar o programa da sua aula, os livros que leriam, os trabalhos que teriam que entregar. Rodrigo mal prestava atenção. Era a mesma coisa que todos os professores diziam. Explicações longas, normas, expectativas. Nada que lhe importasse. Nada que lhe servisse. As aulas passaram uma atrás da outra. Cada professor entrava, se apresentava, explicava o mesmo. Rodrigo se limitava a olhar pela janela, a desenhar rabiscos num caderno vazio, a contar os minutos que faltavam para aquilo terminar. Até que chegou a hora do intervalo. A maioria da sala se levantou de imediato, formando grupos, rindo, falando aos gritos. Saíram para o corredor, alguns para o pátio, outros para a cantina. Rodrigo ficou na sua carteira. Não tinha dinheiro. Também não tinha lanche. Tinha esquecido completamente. Bom, na verdade, nunca tinha precisado. Antes tinha dinheiro de sobra, cartões de crédito, contas bancárias. Ou tinha gente que cuidava dessas coisas por ele. Assistentes, secretárias, empregados. Sempre tinha alguém que lhe trazia o almoço, que perguntava o que queria comer, que se certificava de que não lhe faltasse nada. Agora não tinha ninguém. Ficou sentada, com a cabeça baixa, os braços cruzados sobre a carteira. A fome lhe revirava o estômago. Tinha tomado café da manhã pouco, só um pouco do que tinha na geladeira. E agora, com o estômago vazio e os nervos do primeiro dia, se sentia tonta. Seu estômago roncou. Alto. Rodrigo fechou os olhos, envergonhada. Esperava que ninguém tivesse escutado. -Ei, você. Uma voz à sua direita. Rodrigo levantou a cabeça, surpresa. Era o garoto que se sentava ao seu lado. Não tinha prestado atenção nele o dia todo. Era um pouco gordo, meio baixinho, com o cabelo bagunçado e uma expressão nervosa. Tinha o braço estendido, oferecendo-lhe uma caixa de plástico. -O quê? -perguntou Rodrigo, Franzindo a testa. O garoto encolheu-se um pouco, como se tivesse se arrependido de ter falado. —É que... sobrou um pra mim —disse, com a voz trêmula—. E eu acho que você tá com fome. Rodrigo olhou a caixa. Depois o garoto. Depois a caixa de novo. —Hã... valeu —disse, esticando a mão pra pegar. O garoto entregou com as mãos tremendo, evitando olhar diretamente pra ela. Rodrigo abriu a caixa. Dentro tinha comida caseira: arroz, carne ensopada, uns legumes. Cheirava bem. Muito bem. —Por que você tem duas? —perguntou Rodrigo, apontando pra outra caixa que o garoto tinha na mesa. O garoto ficou ainda mais nervoso. —Hã... é que eu sempre trago duas —murmurou—. Por via das dúvidas. E... se você quiser, posso te dar uma. Bom, só se você quiser. Rodrigo olhou pra ele. Dava pra ver o quanto ele tava nervoso, como evitava olhar nos olhos dela, como as mãos dele brincavam com a borda da própria caixa. Era patético. Mas também era útil. —Sim, isso me deixaria muito feliz —disse Rodrigo, suavizando a voz, esboçando um sorriso doce. O efeito foi imediato. O garoto ficou vermelho. Os olhos se arregalaram, a boca abriu e fechou sem emitir som. Parecia que tinha acabado de ganhar na loteria. —S-sim, eu adoraria comer com uma mina tão gostosa —gaguejou—. Digo, não que eu goste de você, mas sim que você é gostosa... melhor eu calar a boca. Rodrigo soltou uma risadinha. Uma risadinha doce, falsa, calculada. O garoto quase derreteu na cadeira. —Você é muito gentil —disse Rodrigo, enquanto pensava no quão repugnante era tudo aquilo. O garoto não parava de olhar pros peitos dela. Fazia sem disfarçar, com olhadas rápidas, mas Rodrigo percebia. Era desconfortável. Nojento. Mas a comida tava deliciosa. Fazia muito tempo que não comia comida caseira. Desde antes do julgamento, talvez. Desde que a vida dela era um turbilhão de restaurantes caros e comidas preparadas por chefs particulares. Comeram em silêncio durante a maior parte do intervalo. Rodrigo, concentrada na comida. O garoto, concentrado em não olhar demais pra ela e fracassando miseravelmente. -Vou ao banheiro -disse o garoto de repente, levantando-se. Rodrigo assentiu sem olhar para ele. Continuou comendo. Alguns minutos depois, ela também precisava ir ao banheiro. Levantou-se e saiu da sala. Os corredores estavam quase vazios, a maioria dos estudantes ainda estava no pátio ou na cantina. Caminhou até o banheiro, fez o que tinha que fazer, e saiu. Ao voltar, pegou um corredor mais longo, um atalho que tinha visto antes. E então os viu. No fundo do corredor, num canto, o garoto gordo estava contra a parede. Na frente dele, um garoto alto, musculoso, de cabelo loiro e um sorriso cruel. Estava dizendo algo, algo que Rodrigo não conseguia ouvir. Mas pela postura do garoto gordo, pela forma como estava com os ombros encolhidos, por como olhava para o chão, estava claro o que estava acontecendo. Rodrigo parou por um momento. Observou-os. O garoto gordo não a viu. O garoto alto também não. Estavam concentrados demais um no outro. Rodrigo poderia ter intervindo. Poderia ter dito algo. Poderia ter ajudado. Mas não o fez. Virou-se e continuou andando até sua sala. Sentou-se em sua carteira e esperou o sinal tocar. Não era problema dela. Não era assunto dela. O sinal tocou. Os estudantes começaram a voltar. O garoto gordo entrou alguns minutos depois, com a cabeça baixa, evitando olhar para qualquer um. Sentou-se ao lado dela em silêncio. -Desculpa pelo atraso -murmurou-. É que eu tive... problemas. E acho que não sei seu nome. Haha. Sou Juan. Rodrigo olhou de soslaio. -Sou Lucía -disse, sem mais. Juan assentiu, com um pequeno sorriso. Depois ficou calado, olhando para frente. Entrou um professor. A rotina continuou. Explicações tediosas, normas, expectativas. Rodrigo se desligou de novo. Chegou uma hora livre. Os estudantes se reuniram em grupos, falando, rindo. Rodrigo ficou em sua carteira. Juan, ao lado dela, parecia querer dizer algo, mas não encontrava as palavras. Abria a boca, fechava, torcia as mãos. Rodrigo o ignorava. Só queria que aquilo terminasse. Faltava uma aula. Só uma. -Ei, amiga, por que tão sozinha? Rodrigo levantou a cabeça. Uma garota estava de pé na frente da carteira dele. Loira, atraente, com peitos bem grandes e um sorriso que fingia ser amigável. -Desculpa? -disse Rodrigo. -Te vi tão sozinha que pensei que você precisava de uma amiga -disse a garota-. Me chamo Ángela. Espero que a gente se dê bem. Você é nova, né? Como você se chama? Rodrigo olhou pra ela. Tinha algo naquele sorriso que ele não gostou. -Sim, sou Lucía -respondeu, com tom neutro. Ángela sentou na beirada da carteira, invadindo o espaço pessoal dele. -Amiga, como você fez pra ter elas assim? -perguntou, apontando com um gesto pros próprios peitos-. O que te deram de comer? Passa as dicas. Rodrigo piscou. -Eh... é só genética, acho. -Entendi -Ángela assentiu, como se a resposta a tivesse decepcionado-. Bom, se você tiver alguma dúvida ou problema, posso te ajudar sem problema. E se você se sentir sozinha, pode vir comigo. Tô sempre com minhas amigas. Bom, já vou te deixar. A gente se vê. Ela se afastou, caminhando em direção a um grupo de garotas que esperavam no fundo da sala. Assim que se juntou a elas, todas começaram a rir, olhando disfarçadamente pra Rodrigo. Rodrigo cerrou os dentes. Não suportava aquela garota. A última aula passou devagar. Quando finalmente a campainha tocou, Rodrigo se levantou na hora. Pegou a mochila e foi em direção à saída, sem olhar pra ninguém. Enquanto caminhava pelo corredor, sentiu algo estranho no peito. Um puxão. Depois outro. E então... !Pop!
O botão da blusa dela saltou. Um dos botões de cima, bem no meio do peito, voou e caiu no chão. A blusa se abriu de repente, deixando à mostra uma boa parte dos peitos dela, cobertos só pelo sutiã preto. Rodrigo ficou paralisada. O ar frio do corredor bateu na pele exposta. E aí ela sentiu. Os mamilos, que já estavam sensíveis pelo atrito constante do tecido justo, reagiram na hora. Ficaram duros, eretos, pressionando contra o sutiã preto, marcando-se com clareza através do tecido. E a blusa continuava aberta. O sutiã era a única coisa que cobria os peitos, e os mamilos duros apareciam perfeitamente através da renda. -Uff, olha isso... -Porra, são enormes! -Que gostosa... As vozes vieram de algum lugar do corredor. Rodrigo virou a cabeça, atordoada, e viu vários alunos olhando pra ela. Um grupo de caras, encostado na parede, com os olhos grudados no peito dela. Um deles passou a língua nos lábios. Outro soltou um assobio baixinho. -Cala a boca, idiota -disse outro, mas também sorria-. Ela pode te ouvir. Rodrigo continuava paralisada. O cérebro dela demorava pra processar o que estava acontecendo. A blusa aberta. Os mamilos duros. Os olhares. As risadas. Os comentários. -Meu Deus, olha eles -sussurrou uma garota pra amiga-. Dá pra ver tudo. Que vergonha. -É, mas com esses peitos, normal que apareçam -respondeu a outra, com uma risadinha-. Aposto que ela faz de propósito. As palavras chegaram como golpes. Rodrigo sentiu o sangue subir pro rosto, o rubor acender as bochechas, o pescoço, até o peito. Mas o corpo dela não reagia. Continuava ali, de pé, com a blusa aberta e os mamilos eretos, exposta aos olhares de todo mundo. Finalmente, o cérebro dela pareceu voltar a funcionar. Pegou a mochila e colocou na frente do peito, escondendo o máximo que pôde. Mas o estrago já estava feito. As risadas, os comentários, os olhares lascivos... tudo ficava gravado na memória dela. Com as bochechas ardendo, ela caminhou o mais rápido que pôde em direção à saída. Não parou. Não olhou para trás. Só caminhou, e caminhou, e caminhou, sentindo ainda os mamilos duros roçando contra o interior do sutiã, lembrando-a constantemente do que acabara de acontecer. Saiu do instituto e o ar fresco bateu na sua cara. Mas não adiantou nada. A vergonha continuava ali, queimando por dentro. Até que finalmente chegou ao seu prédio, subiu as escadas de dois em dois, e entrou no seu apartamento. Fechou a porta com força. Encostou-se na madeira, respirando ofegante. -Que porra foi essa? -sussurrou. Olhou para baixo. A camisa continuava aberta, mostrando o sutiã, mostrando seus peitos. O botão perdido. O tecido rasgado. -Maldito uniforme -sibilou. Afastou-se da porta e caminhou até seu quarto. Tirou a camisa, jogou-a no chão, e se deixou cair na cama.
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