
/// Você pode ver essa história mais adiantada no link a seguir: A Confissão da Minha Madrasta ///
Algumas pessoas me perguntaram se eu tinha Patreon. Acabei de criar! É esteAnnie Zarel
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Acordei mais cedo do que esperava.
Não por costume.
Pelo silêncio.
Abri os olhos e fiquei olhando pro teto uns segundos, tentando me situar. O quarto continuava igual. Meu quarto. O único lugar que ainda não tinha sido mexido por essa espécie de ordem artificial que dominava o resto da casa.
Mesmo assim, não me sentia confortável.
Virei a cabeça pra janela. A luz já estava entrando com força, clara, sem obstáculos. Não tinha cortina pesada, nem sombra que suavizasse o espaço. Tudo era direto.
Sentei na cama, apoiando os pés no chão frio.
Respirei fundo.
A casa já estava acordada.
Não por barulho. Por presença.
Dava pra sentir.
Me levantei, vesti uma camiseta e desci sem pensar muito.
Cada degrau tinha o mesmo som seco do dia anterior. Nada mudava ali.
Quando cheguei no primeiro andar, o cheiro foi a primeira coisa que notei.
Café.
Não forte. Não invasivo.
Preciso.
Vinha da cozinha.
Caminhei pra lá, ainda meio sonolento, passando pela sala sem parar. Dessa vez não olhei os móveis. Não queria.
Entrei.
Martha estava junto à bancada, organizando algo em silêncio. Se virou de leve quando me ouviu.
—Bom dia.
—Bom dia.
Sua voz tinha aquele tom de sempre. Estável. Como se nada tivesse mudado em anos.
—Dormiu bem?
Dei de ombros.
—Mais ou menos.
Assentiu, como se fosse o suficiente.
—Tem café.
Apontou a cafeteira com o queixo.
Peguei uma xícara sem responder e me servi. O vapor subiu direto na cara. Dei um gole antes de sentar.
—Meu pai?
—Saiu cedo.
De novo.
Não perguntei mais.
Apoiei os cotovelos na mesa, segurando a xícara com as duas mãos. O calor me ancorava um pouco.
—E…?
Não terminei a pergunta. Martha sim.
—Lá em cima.
Assenti sem olhar pra ela.
Dei outro gole.
Não ia subir.
Não tinha nenhuma razão pra isso.
Fiquei ali mais uns minutos, em silêncio, terminando o café. Martha se movia com normalidade, sem me invadir, mas também sem me ignorar. Sua presença dela preenchia o espaço de um jeito diferente do resto da casa.
Mais real.
Quando terminei, deixei a xícara na pia.
—Vou sair um pouco no jardim.
—Tá bom.
Não disse mais nada.
Saí pela janela de vidro.
O ar da manhã era mais fresco. O jardim continuava igual de perfeito, mas naquela hora tinha algo mais… tolerável nele. Talvez a luz, menos dura.
Andei sem rumo certo, enfiando as mãos nos bolsos.
Tentando não pensar.
Não funcionou.
Voltei pra casa depois de alguns minutos.
E foi aí que eu a vi.
Não de repente.
Por partes.
Primeiro o som.
Saltos suaves no chão.
Depois, o movimento.
Atravessando a sala.
Não levantei o olhar de imediato. Não quis fazer isso.
Mas mesmo assim fiz.
Isabella.
Não estava com o vestido do dia anterior. Isso era diferente. Mais… cotidiano. Mas não menos cuidado.
Uma calça clara, justa, que seguia a linha das pernas dela sem exagerar. Uma blusa leve, de tecido macio, que caía com naturalidade, marcando o suficiente quando ela se mexia.
Nada parecia improvisado.
Nem mesmo o que tentava parecer.
Estava com o cabelo solto, mas não descuidado. Cada mecha estava onde tinha que estar. Como se até a bagunça fosse calculada.
Atravessou a sala sem me ver.
Ou fingindo não me ver.
Não tinha certeza.
Fiquei parado na soleira, observando.
Não mais do que o necessário.
Foi o que eu disse pra mim mesmo.
Parou perto de uma das mesas laterais, ajustando algo que não consegui ver. O gesto foi mínimo. Preciso. As mãos dela se moviam com uma segurança que não era forçada.
Depois continuou.
Em direção à cozinha.
Aí sim tive que me mexer.
Não podia ficar parado como um idiota olhando.
Entrei alguns segundos depois, tentando fazer parecer casual.
Martha estava onde eu tinha deixado. Isabella, na frente da bancada, se servindo de algo numa xícara.
Não levantou o olhar de imediato.
—Bom dia —disse, antes de se virar.
Como se soubesse que eu já estava ali.
—Bom dia.
Me apoiei contra o batente da porta, mantendo certa distância.
Ela deu um gole na xícara. Café também.
—Dormiu melhor?
Assenti.
—Sim.
Mentira.
Mas mais fácil.
Os olhos dela pararam em mim um segundo a mais do que o necessário. Não o suficiente pra incomodar. O suficiente pra notar.
—Que bom.
Voltou ao que estava fazendo.
Esse era o ponto.
Não fazia nada fora do lugar.
Nada explícito.
E mesmo assim…
Tudo chamava atenção.
O jeito que segurava a xícara. Os dedos, longos, firmes, sem tensão. O leve movimento do pulso ao deixá-la na bancada. O roçar do tecido contra o corpo ao se virar.
Detalhes.
Detalhes demais.
Desviei o olhar pra Martha.
Ela não dizia nada. Mas estava vendo.
Sempre estava vendo.
—Vou sair um pouco —falei, sem pensar muito.
Não esperei resposta.
Saí.
De novo pro jardim.
Dessa vez não pra respirar.
Pra evitar.
Andei mais rápido, como se isso fosse mudar alguma coisa.
Não mudou.
A imagem dela continuava ali.
Não completa.
Fragmentada.
Pernas.
Mãos.
O jeito que se movia sem esforço.
Apertei a mandíbula.
—Não.
Falei baixinho.
Não fazia sentido.
Voltei pra dentro depois de alguns minutos, mais por inércia do que por decisão.
E a rotina seguiu.
Isso era o pior.
A normalidade.
Isabella se movia pela casa como se fizesse aquilo há anos. Checava coisas com Martha, dava instruções suaves, ajustava detalhes que eu nem notava até ela mudar.
Não era invasiva. Mas estava em tudo.
E eu…
Tentava não olhar pra ela. De verdade, tentava. Funcionava por momentos.
Passava pela sala sem levantar a cabeça. Sentava à mesa olhando o celular, mesmo sem estar vendo nada. Respondia com monossílabos quando ela falava.
Distância.
Controle.
Até que falhava. Sempre falhava.
Um reflexo no vidro. Um movimento no corredor. O som dos passos dela se aproximando.
E meu olhar ia sozinho. Rápido. Como se pudesse roubar um segundo sem consequências.
Mas sempre tinha consequências.
Porque ela notava.
Não não dizia nada. Não fazia nenhum gesto evidente.
Mas eu sabia.
Dava pra perceber no jeito que, às vezes, ela segurava uma ação por um segundo a mais. Como se deixasse espaço pra eu olhar.
Ou pra verificar se eu olhava.
E eu olhava. Sempre.
Uma vez foi na cozinha.
Ela estava de costas, pegando algo num armário alto. A blusa esticou de leve quando ela levantou o braço. Nada exagerado. Nada necessário.
Fiquei olhando por um segundo.
Dois.
Demais.
Fechei os olhos por um instante e desviei o olhar.
Quando abri de novo, ela já tinha se virado.
Não disse nada. Mas o olhar dela… se sustentou. Um segundo a mais. E depois seguiu como se nada.
Outra vez no corredor.
Eu saía do meu quarto. Ela vinha na direção contrária. Nos cruzamos no meio do caminho. Espaço estreito. Não tinha como evitar a proximidade.
Ela se encostou pro lado o suficiente. Eu também.
Mas ao passar…
O roçar foi mínimo. Acidental. Ou não. Não saberia dizer. Senti o contato no braço. Leve. Suficiente. Não parei. Ela também não.
Mas o ar mudou.
Voltei pro meu quarto e fechei a porta com mais força do que precisava. Encostei as costas na madeira. Respirei fundo.
—Isso não…
Não terminei a frase. Porque não tinha final. Porque não era algo que eu pudesse cortar assim. Não ainda.
Me deixei cair na cama, olhando o teto de novo. O mesmo de sempre.
Mas já não bastava. Nada bastava. E o pior…
Era que eu começava a perceber.
Conforme os dias passaram, não sei exatamente em que momento comecei a evitar ficar lá embaixo. Não foi uma decisão clara. Não teve um “fico lá em cima”. Simplesmente… aconteceu.
O quarto virou uma espécie de refúgio improvisado. Não porque fosse confortável, mas porque era o único lugar onde eu não tinha que medir cada movimento.
Onde ela não estava. Ou era o que eu achava.
Estava sentado na cadeira, sem fazer nada concreto. O celular na mão, a tela apagada. Olhando sem ver.
O silêncio da casa voltava ao mesmo de sempre: pesado, constante, como se empurrasse de todos os lados.
Me levantei sem pensar muito e caminhei até a janela. Era um gesto automático. Buscar ar.
Abri a cortina só um pouco.
E lá a vi.
Na piscina.
O impacto foi imediato, mas diferente das outras vezes.
Mais… sustentado.
Ela não estava nadando. Não se movia rápido. Estava dentro da água, perto da borda, apoiando os braços, deixando o corpo flutuar parcialmente.
A luz do sol caía direto sobre ela, refletindo na água e fragmentando a imagem em pequenos brilhos.
Fiquei parado. Sem reagir. Só olhando.
Ela estava de biquíni.
Claro.
Não especialmente chamativo na cor. Mas isso não importava. Porque não precisava ser.
A água marcava tudo. Cada linha. Cada curva. Não de forma exagerada, mas… precisa. Precisa demais.
Engoli em seco sem perceber.
Eu não deveria estar olhando. Pensei nisso. Mas não me movi.
Ela levantou um braço para tirar o cabelo molhado do rosto. O gesto foi lento, natural. A água escorreu pelo ombro dela, descendo num percurso que segui sem querer.
Ou querendo.
Não tinha certeza.
Meu olhar começou a se mover sozinho. Sem filtro. Sem intenção de parar.
O pescoço. Os ombros. A forma como a água se acumulava em certas áreas antes de cair.
Desci mais.
Os peitos dela, contidos apenas pelo tecido molhado, marcando cada contorno com uma clareza que não deixava espaço para a imaginação. O biquíni era pequeno. Muito pequeno.
Apertei a mandíbula. Não desviei o olhar.
As gotas escorrendo devagar, seguindo a curva para baixo. O abdômen liso, tenso, o umbigo mal visível entre reflexos.
Continuei.
Os quadris.
A forma como o biquíni se ajustava, como o tecido grudava no corpo por causa da água, sem deixar nada solto.
Nada para esconder.
—Caramba…
A palavra saiu sozinha, em voz baixa.
Me apoiei com mais força contra o batente da janela.
Não estava vendo. Estava… registrando. Absorvendo cada detalhe como se não pudesse evitar. Como se algo dentro de mim precisasse fazer isso.
Isabella se impulsionou levemente para cima, saindo um um pouco mais da água pra sentar na borda. O movimento foi lento. Controlado. Seus peitos se moveram. Quase apareciam por completo. Caralho… O biquíni dela era tão minúsculo, daqueles que parecem feitos mais de ausência do que de tecido, e se ajustava a ela com precisão. A água caiu de repente do corpo dela, escorrendo pelas pernas, acumulando nas coxas antes de cair no chão. E aí foi pior. Porque já não havia distorção. A pele brilhando sob o sol, molhada, marcada. As pernas longas, definidas, a água seguindo a linha até os tornozelos. Engoli em seco. Não pensei. Não processei. Só olhei. Cru. Direto. Como se não houvesse nada mais ao redor. Como se não importasse. Senti o corpo reagir antes que a cabeça fizesse algo. Um ajuste desconfortável, involuntário. Tensão. Respirei fundo, mas não adiantou. Não estava controlando nada. Ela inclinou o torso pra trás, apoiando-se nas mãos, fechando os olhos por um segundo, deixando o sol bater direto nela. A posição… Não ajudava. Pelo contrário. Tudo ficava mais marcado. Tudo. —Porra… A parte de cima do biquíni lutava pra conter os peitos dela, que se elevavam com a lentidão da respiração. Uma gota de água, talvez do último mergulho, escorregou da clavícula até o vale que se formava entre eles, e eu segui o trajeto com o olhar. Agora mais baixo. Mais carregado. Passei a mão pelo rosto, mas não parei de olhar. Era ridículo. Sabia que era. Sabia que não devia estar ali, parado como um idiota, olhando pra minha madrasta como se… Não terminei a ideia. Não precisava. Mas não me movia. Não conseguia. Ou não queria. Ela virou a cabeça de leve, como se estivesse escutando algo. Ou sentindo. Meu corpo reagiu antes da minha mente. Dei um passo pra trás. Automático. Instinto. Como se tivesse cruzado uma linha invisível. Como se a qualquer momento ela fosse olhar pra cima. Pra mim. Fiquei parado, fora do ângulo da janela, respirando mais rápido do que o normal. O coração batendo forte. Forte demais. —Que porra você tá fazendo? A pergunta saiu clara dessa vez. Direta. Não tinha como disfarçar. Passei as mãos pelo cabelo, puxando um pouco, tentando diminuir a sensação que continuava ali, instalada. Não desaparecia. Pelo contrário. Ficava. Mais presente. Voltei a me aproximar da janela. Devagar. Com cuidado. Como se isso mudasse alguma coisa. Olhei de novo. Ela ainda estava lá. Mas agora estava de pé, de costas pra mim, pegando uma toalha no encosto de uma cadeira. A água ainda escorria pelo corpo dela em pequenas linhas que não terminavam de sumir. A toalha passou pelos braços primeiro, depois pelo torso, pressionando de leve, absorvendo o excesso. O gesto foi lento. Lento demais. Ela suspirou, ajustou a borda do biquíni de cima com uma mão, como se o tecido a incomodasse, e o gesto, tão inocente pra ela, foi pra mim uma declaração de guerra contra meu próprio autocontrole. Apertei os dentes. Não tinha como ver aquilo como algo normal. Não depois do que eu tinha acabado de fazer. Não depois de como eu tinha visto. Me afastei de repente. Dessa vez sem olhar pra trás. Caminhei até o centro do quarto, passando a mão pela nuca, sentindo o calor acumulado. —Não. Balancei a cabeça. —Não. Mais firme. Como se repetir fosse adiantar alguma coisa. Não adiantou. Porque a imagem já estava lá. Completa. Instalada. E não ia embora. Me deixei cair na cama, olhando pro teto de novo, mas agora não era o mesmo gesto vazio de antes. Tinha algo mais. Mais claro. Mais incômodo. Fechei os olhos. Erro. Vi ela de novo. Pior. Mais definida. Abri os olhos de repente. —Caralho… Me levantei, apoiando os cotovelos nos joelhos, tentando me ancorar em algo que não fosse isso. Mas tudo voltava pra lá. Pra piscina. Pro corpo dela. Pro jeito que eu tinha olhado sem pensar. Pro jeito que eu tinha reagido. Apertei as mãos. Isso já não era só incômodo. Era outra coisa. Algo que eu não queria nomear ainda. Me me levantei de novo, andando sem rumo pelo quarto. Precisava fazer algo. Qualquer coisa. Mas não tinha nada. Nada que distraísse o suficiente. Nada que baixasse a intensidade. Parei na frente da janela outra vez. Não me aproximei. Fiquei à distância. Olhando sem ver. Respirando mais devagar. Tentando recuperar o controle. Lá embaixo, o movimento continuava. Não a via diretamente, mas sabia que ela ainda estava lá. Eu sentia. E isso era pior. Porque agora eu não precisava vê-la. Eu a tinha na cabeça. Clara demais. Encostei a testa no vidro frio. Fechei os olhos por um segundo. — Isso vai sair do controle… Falei baixinho. Quase como um aviso. Não sabia se pra parar. Ou só pra reconhecer. >>>>>>> Os dias começaram a se organizar sozinhos. Não porque eu fazia algo diferente, mas porque a casa já tinha um ritmo próprio. Um que não dependia de mim. Eu só… me ajustava. Acordava cedo. Descia. Café. Silêncio. Martha se movendo de um lado pro outro com aquela eficiência tranquila que não precisava de explicação. E ela. Sempre em algum ponto. Às vezes na cozinha, conferindo algo com Martha. Outras, na sala, arrumando detalhes que eu nem notava até que ela mudasse. Tinha uma lógica em tudo que ela fazia. Uma ordem. Nada ficava ao acaso. Nem ela. E aí estava o problema. Porque quanto mais normal tudo parecia… mais difícil era ignorar. Tentei estabelecer limites. Reais. Não olhar mais do que o necessário. Não ficar em espaços onde ela estivesse. Subir antes. Sair mais. Funcionava por momentos. Momentos curtos. Porque sempre tinha algo. Um cruzar. Um som. Um gesto. E minha atenção ia pra lá. Como se eu não tivesse opção. Uma manhã a encontrei na cozinha, de costas, preparando algo. Não entrei. Fiquei no batente da porta. Não precisava dizer nada. Podia ir embora. Mas fiquei. Observando. O movimento das mãos dela ao cortar algo. Preciso. Limpo. Sem pausa. O jeito que ela se inclinava de leve pra frente, concentrada, sem tensão.
Nada fora do lugar.
E ainda assim…
Meu olhar baixou sozinho. Sem querer, eu acabava olhando o corpo dela. Não foi intencional. Ou foi o que tentei dizer a mim mesmo.
O ajuste do tecido no quadril dela, a leve mudança na postura quando apoiava o peso em uma perna.
Detalhes mínimos. Suficientes.
—Precisa de algo?
A voz dela me atingiu sem aviso.
Levantei o olhar de imediato.
Ela tinha se virado. Não totalmente. O suficiente para me ver. Não havia incômodo na expressão dela. Nem surpresa.
—Não… —disse, limpando a voz—. Só… café.
Ela assentiu. Voltou ao que estava fazendo.
Mas algo tinha mudado. Eu senti. Não no que ela fez. Em como.
O movimento foi o mesmo, mas… mais consciente. Como se soubesse exatamente de onde eu estava olhando.
Servi o café sem me aproximar demais. Mantive a distância. Saí rápido. Rápido demais.
Essa foi a primeira vez que pensei que ela tinha me descoberto, que sabia que eu olhava. Não como uma ideia vaga. Como algo concreto.
Isabella não era distraída. Não era ingênua. Nada nela era.
Os dias seguintes confirmaram.
Ela não fez nada explícito. Não mudou de forma evidente. Mas começou a sustentar certos momentos. A deixar espaços. Como se estivesse me dando tempo. Ou medindo.
Na sala, por exemplo.
Ela estava sentada revisando algo no celular. Eu passei reto, a caminho da cozinha. Não tinha necessidade de olhar. Não queria fazer isso.
Mas ao passar…
Ela virou a cabeça. Não completamente. Só o suficiente.
E eu senti.
Aquele pequeno ajuste no ar. Aquela mudança mínima que te obriga a responder.
Olhei para ela. Um segundo.
Ela já estava me olhando. Não desviou o olhar. Também não sorriu. Só sustentou. Como se esperasse.
Apertei a mandíbula e continuei andando.
Mas o momento já estava ali. Marcado.
Outra vez no corredor.
Eu saía do meu quarto, baixando o olhar, concentrado em qualquer coisa menos no que havia no final.
Ela vinha subindo.
Nos encontramos no meio do caminho. Espaço fechado. Sem saída lateral. Paramos o suficiente.
—Desculpa —falei, sem olhar diretamente para ela. —Não aconteceu nada. A voz dela foi suave. Próxima. Demais. Dei um passo para contorná-la. Mas ao fazer isso, levantei o olhar. Erro. Ela estava me olhando. Direto. Sem disfarce. Sem pressa. Como se não tivesse problema nenhum que eu soubesse que ela estava fazendo aquilo. Fiquei um segundo a mais do que o necessário. De novo. Sempre um segundo a mais. E aquele segundo começava a pesar. Segui em frente. Mas já não era a mesma coisa. Porque agora não era só eu olhando. Era ela… deixando que aquilo acontecesse. Além disso, uma vez percebi que Martha estava me observando. Não dizia nada. Às vezes conversávamos, mas ela não me dizia nada a respeito. Mas estava ali. Sempre. Observando de um ponto que não interrompia, mas também não ignorava. Na cozinha, na sala, até no jardim. Os olhos dela iam de um para o outro com uma precisão que não parecia casual. Uma tarde, enquanto Isabella mexia em umas coisas na mesa da sala de jantar, Martha me alcançou na cozinha. —Quer mais café? Neguei com a cabeça. —Não. Ela ficou uns segundos a mais do que o necessário. Sem falar. Só ali. Senti o olhar dela antes de me virar. —O quê? Não foi agressivo. Mas foi defensivo. Ela não mudou a expressão. —Nada. Seco. Simples. Mas não era nada. Nunca era nada com ela. Voltou ao que estava fazendo. Como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse visto nada. Mas tinha visto. Claro que tinha visto. E isso… era pior. Porque não dizia nada. Não avisava. Não intervinha. Só deixava que continuasse. Como se estivesse esperando algo. Não sabia o quê. E não tinha certeza se queria saber. A tensão não explodia. Não tinha cenas. Não tinha confronto. Era algo mais constante. Mais baixo. Mas mais presente. Como uma pressão que não desaparece. Que fica ali, o tempo todo. Em cada cruzamento. Em cada silêncio. Em cada olhar que durava mais do que deveria. Comecei a notar padrões. Não de forma consciente no começo. Mas estavam lá. Isabella aparecia em certos espaços quando eu estava. Sem invadir. Sem forçar. Só… coincidindo.
A cozinha quando eu descia. A sala quando eu passava. O corredor quando eu subia.
Sempre com essa distância calculada. Nunca perto demais. Nunca longe demais.
E sempre…
Disponível.
Não de forma direta. De uma forma mais sutil. Mais perigosa. Como se tudo estivesse calibrado.
E eu…
Reagia. Sempre. Mesmo sem querer.
Uma noite, depois do jantar, fiquei na sala mais tempo do que devia. Não tinha ninguém. Ou foi o que pensei.
Estava olhando qualquer coisa no celular quando ouvi passos. Leves.
Não levantei a cabeça de imediato.
Mas soube que era ela. Não pelo som. Pela forma como o ambiente muda quando ela entra.
Deixou algo sobre a mesa. Um copo. Água.
—Deixei isso pra você.
Levantei o olhar.
—Valeu.
Ela ficou ali. De pé. Não foi embora.
—Tá se adaptando?
A pergunta foi simples. Mas não era.
—Acho que sim.
Dei de ombros.
Ela assentiu.
—Não é fácil voltar.
Balancei a cabeça.
—Não.
Silêncio. O tipo de silêncio que não incomoda… mas também não relaxa.
Ela não se mexia. Eu também não. E então…
Aconteceu de novo.
Meu olhar desceu. Rápido. Instintivo. Percorrendo sem permissão. Subi de novo na hora.
Mas já era tarde. Ela tinha visto. Não disse nada. Não fez nenhum gesto óbvio.
Mas o olhar dela mudou. De leve. O suficiente.
E então ela fez. Sustentou. Não desviou. Não olhou pra outro lado. Ficou ali. Me olhando. Direto.
Um segundo. Dois. Demais.
Senti o corpo tensionar. O maxilar. O peito. Tudo.
Não soube o que fazer. Não tinha resposta certa. Não tinha como sair limpo daquele momento. Porque já estava ali. Porque já tinha acontecido.
E porque ela… não estava evitando. Pelo contrário. Estava deixando existir.
Sustentei o olhar. Não sei por quê. Talvez pra não recuar. Talvez por algo pior.
O tempo esticou um pouco. Mais um segundo.
E depois—
Ela piscou. Desviou o olhar. Como se nada.
—Boa noite, Damián.
Se virou. E foi embora. Sem pressa. Sem olhar pra trás.
Fiquei sentado. Com o copo na mão. Sem beber. Sem me mexer.
Sentindo como aquele segundo…
Ficava.
>>>>>>><<<<<<</// Continue lendo a história em: A Confissão da Minha Madrasta ///
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