Carlos saiu várias vezes para o mesmo shopping e para os prédios próximos. Revisou cada canto, cada cômodo destruído, cada carro abandonado. Não encontrou nada: nem outra mochila, nem roupa, nem vestígio de alguém vivo. Só poeira, sangue seco e o silêncio de sempre.
Cada volta vazia pesava mais na Sofía, embora ela não dissesse nada. Só balançava a cabeça e seguia com as tarefas dela.
Um dia ele decidiu mudar de área.
Foi mais pra leste, pra um bairro residencial que ainda não tinham explorado por completo. Caminhava com cuidado entre as casas, a mochila meio vazia, a faca na cintura. Não ouviu os passos até que já era tarde demais.
Um homem saiu de trás de um muro. Depois outro. E mais outro. Em segundos, cercaram ele. Eram sete ou oito, armados com tacos, canos e um par de armas de fogo. Carlos tentou correr.
Conseguiu derrubar um com um soco e cortar outro no braço, mas eram muitos. Bateram nele nas costelas, torceram um braço para trás e cobriram a cabeça dele com um saco sujo. A escuridão foi total. Amarraram os pulsos e tornozelos dele e o arrastaram.
Caminharam pelo que pareceu horas.
Às vezes, o colocavam na caçamba de uma caminhonete; outras, o forçavam a avançar a pé, tropeçando. Ninguém falava com ele. Só ouvia ordens curtas e o som de botas sobre asfalto e terra.
Quando finalmente tiraram o saco, a luz do entardecer doeu nos olhos dele.
Ele estava num recinto murado muito maior que o da Sofia. Torres de vigilância improvisadas, cercas reforçadas com arame e sucata, fileiras de contêineres e casas pré-fabricadas. Tinha mais gente: homens, mulheres, alguns adolescentes. Todos com a mesma expressão cansada e desconfiada. O lugar cheirava a fumaça de lenha, a suor e a comida quente.
Empurraram-no para um homem de meia-idade, de compleição forte, com uma cicatriz na sobrancelha. Ele falou sem rodeios:
—Escuta bem, rapaz. Aqui não tem esmola. Se quer viver, trabalha. De sol a sol.
Carrega, limpa, planta, conserta… o que precisar. Em troca, te dão comida e um teto. Se recusar, te jogam pra fora dos muros de mãos amarradas. E você já sabe o que tem lá fora.
Carlos olhou ao redor. Não via saída fácil. Estava desarmado, longe dos seus, e o muro era alto.
O homem esperou a resposta dele de braços cruzados.
—Qual vai ser? Escravo que come… ou cadáver que anda?
Carlos não teve outra escolha.
Assentiu em silêncio e aceitou as regras do lugar. A partir daquele momento, foi mais um corpo trabalhando. Carregava sacos, limpava latrinas, consertava cercas, revirava terra na horta improvisada. Cada músculo doía no fim do dia. Comia o que lhe davam — sempre pouco — e dormia quando dava. Mas a mente não descansava. Pensava em Sofia e em Camila. Em como estariam aguentando o calor sem ele. Se alguém mais estaria "cuidando" delas. A ideia revirava o estômago dele toda noite.
Os dias se arrastaram.
Uma manhã, mandaram ele ajudar na cozinha. O lugar era um antigo refeitório industrial reformado: fogões a lenha, panelas enormes, o cheiro constante de caldo ralo e fumaça. Foi lá que ele a viu.
Era jovem, cabelo curto e escuro, corte prático. O corpo chamava atenção na hora: uma bunda grande e redonda que se marcava sob a calça de trabalho, e peitos visivelmente mais generosos que os da Sofia. A semelhança era perturbadora. O mesmo jeito de se mover, a mesma linha de mandíbula. Carlos ficou olhando um segundo a mais.
Ela notou e franziu a testa.
— Que que você tá olhando? Pega essa concha e mexe. Se grudar, você vai ficar raspando depois.
O tom era distante, quase cortante. Ela explicou as tarefas com frases curtas: cortar, mexer, servir, limpar. Não tinha espaço pra conversa. Carlos obedeceu em silêncio, embora toda vez que ela se abaixava ou se esticava, a lembrança da Sofía batia forte nele.
Passou a manhã assim. Ela corrigia a postura dele ou indicava o próximo passo sem olhar nos olhos. Até que outra garota, mais nova, entrou carregando uma caixa de verduras e gritou da porta:
—Renata! Você ainda tem a faca grande? Preciso dela no outro fogão.
Renata.
O nome bateu no peito dele. Carlos não disse nada. Continuou mexendo o caldo como se não tivesse ouvido. Mas por dentro a confirmação foi imediata. A semelhança, o nome, as estrelas bordadas na mochila… era ela. A filha da Sofía.
Não abriu a boca.
Esperou. Terminou o turno na cozinha, entregou os utensílios e se misturou com o resto dos trabalhadores. Observou de longe Renata se dirigindo para a área dos dormitórios com o mesmo passo decidido da mãe.
Todos os retidos dormiam num único galpão amplo. Beliches de três níveis, colchões finos, o cheiro de corpos e de umidade. Quase quarenta pessoas espremidas. Não havia privacidade. À noite, quando as lamparinas de óleo se apagavam, não faltava quem procurasse alívio. Gemidos abafados, o roçar de corpos, sussurros. Alguns faziam isso para amenizar a infecção; outros, simplesmente porque o medo e a proximidade tornavam inevitável.
Carlos ficou parado na beliche, escutando, pensando em como se aproximar de Renata sem colocar ela — nem ele — em perigo.
Ainda não sabia como dizer pra ela.
Só sabia que precisava encontrar o momento certo.
No dia seguinte, Carlos a interceptou bem na saída do banheiro coletivo, antes de começar o turno da cozinha. Segurou o braço dela com cuidado, o suficiente pra pará-la sem chamar atenção.
— Sua mãe se chama Sofia? — perguntou em voz baixa —. E você tem uma irmã chamada Raquel?
Renata ficou tensa. A cor sumiu do rosto dela por um segundo. Olhou pros dois lados do corredor e baixou a voz.
— Como você sabe disso? Quem é você?
Carlos não soltou totalmente o braço dela.
—Achei sua mochila. A que tem as estrelas bordadas na lateral. Tava num shopping na zona leste. Sua mãe… a Sofia… me pediu pra te encontrar. Foi por isso que eu saía tanto. Foi por isso que acabei aqui.
Ela encarou ele com desconfiança por vários segundos. Parecia prestes a negar tudo.
Depois, algo nos olhos dela mudou. Ela baixou o olhar pro chão e soltou o ar devagar.
—Ela tá viva… — murmurou. Não era uma pergunta.
Carlos assentiu.
—Tá viva. E comanda um grupo. Pequeno, mas organizado.
Renata cruzou os braços, como se protegendo. Demorou um tempo até falar de novo.
—Não sei se quero ver ela. Não sei como dizer que… que eu perdi a Raquel. Desde o primeiro dia. Não consegui salvar ela. Os vizinhos atacaram a gente na rua e eu… corri. Ela não.
O silêncio se estendeu entre os dois. Carlos não ofereceu frases vazias de consolo. Apenas assentiu, entendendo o peso daquela culpa.
Antes de serem chamados para trabalhar, Renata acrescentou num sussurro ainda mais baixo:
— Todo mundo do depósito tá planejando fugir. Daqui a uma semana. Quando o grupo principal sair pra buscar suprimentos e mais gente. É a única janela que a gente vai ter. Se você quiser viver… vem com a gente.
Nos dias que se seguiram, eles conversavam sempre que podiam: na cozinha, enquanto mexiam as panelas, ou nos poucos minutos livres antes de apagarem as lamparinas no porão.
Falavam principalmente sobre a Sofia. De como ela era antes. De como era agora. O Carlos contava sem perceber os detalhes: o jeito que a Sofia organizava tudo, a voz dela quando dava ordens, a maneira como ela tinha ficado mais dura e ao mesmo tempo mais viva. Também mencionava a Camila. O jeito como as duas dividiam espaço, decisões… e mais.
Renata percebeu na hora.
A maneira como ele dizia o nome da mãe dele. A suavidade que escapava quando falava das duas mulheres. Não perguntou diretamente. Só ficou observando ele com uma mistura de curiosidade e algo parecido com compreensão. O mundo tinha mudado demais pra ela se chocar com qualquer coisa. Mas ficou quieta. Por enquanto.
O dia chegou.
Todos estavam prontos. Esperaram até umas três da manhã. Tinham identificado uma área da grade um pouco mais fraca: se muitos se jogassem ao mesmo tempo, ela cederia. E foi o que fizeram. Se lançaram em grupo, empurrando com o peso dos corpos desesperados. Enquanto isso, outros atiravam garrafas com álcool e panos acesos em direção às torres e aos depósitos de madeira, causando incêndios e distração.
Sabiam que estavam desarmados. Sabiam que muitos morreriam. Mas alguns teriam a esperança de escapar.
Renata e Carlos foram dos primeiros a escalar quando a grade finalmente cedeu e se dobrou. Os gritos e os tiros encheram o ar. Os guardas tentaram dispersar a multidão. Carlos cobriu Renata com o corpo quando as balas começaram a zunir. Uma atravessou o braço esquerdo dele, limpa, mas ele não parou. Continuaram correndo. A multidão se espalhou em todas as direções; eles ficaram juntos, sem soltar as mãos.
Correram até o amanhecer.
Chegaram, exaustos e sangrando, no mesmo shopping onde Carlos tinha achado a mochila da Renata. Entraram por uma porta lateral meio escondida e se trancaram numa loja do segundo andar, bloqueando a entrada com prateleiras. Renata, com as mãos firmes apesar do tremor, ajudou ele a tirar a jaqueta e a examinar o braço.
— Eu estudava medicina com a minha irmã antes de tudo isso — murmurou enquanto limpava o ferimento com água de uma garrafa que tinham roubado na fuga —. Aguenta.
Carlos rangeu os dentes. Aguentou a dor o melhor que pôde enquanto ela extraía o projétil com uma pinça improvisada e enfaixava o braço dele com tiras de pano limpo. O esforço e a perda de sangue foram demais. Ele desmaiou.
Quando acordou, já era noite de novo.
Uma vela pequena iluminava o espaço. Renata estava sentada ao lado dele, vigiando. Ao vê-lo abrir os olhos, soltou um suspiro de alívio.
—Obrigada… por me salvar — disse em voz baixa—. Queria te agradecer mais do que com palavras.
Ela se inclinou e o beijou.
O beijo começou suave, de gratidão, mas em segundos virou fome. Carlos levantou a mão boa e segurou a nuca dela, aprofundando o beijo. Renata subiu com cuidado em cima dele, evitando o braço ferido. Tiraram as roupas às pressas, com movimentos desajeitados. O corpo dela ficou exposto à luz da vela: peitos generosos, cintura fina e aquela bunda grande e firme que tanto lembrava a Sofía.
Carlos a guiou para frente até que ela se ajoelhou sobre o rosto dele.
Renata não hesitou. Sentou com cuidado e ele afundou a língua na buceta já molhada dela. Lambeu com vontade, chupando o clitóris, enfiando a língua o mais fundo que conseguia. Ela ofegava, com as mãos apoiadas na parede, rebolando contra a boca dele. Gozou rápido, tremendo, um gemido abafado escapando dela.
Ainda com as pernas trêmulas, desceu até a pica do Carlos, já completamente dura. Levou à boca e chupou com fome: lábios apertados, língua girando, descendo até quase se engasgar. A saliva escorria pela base. Carlos agarrou o cabelo curto dela com a mão boa e guiou um pouco, gemendo. Quando não aguentou mais, ela montou.
Guiou a pica até a entrada e sentou de uma vez só, engolindo até o talo. Começou a cavalgar com ritmo firme, a rabuda enorme batendo nas coxas dele uma e outra vez.
Carlos segurou um quadril dela e meteu de baixo. O som molhado dos corpos enchia o espaço improvisado. Renata se inclinou pra frente, oferecendo os peitos; ele chupou e mordiscou enquanto ela quicava mais rápido.
Ela gozou de novo, a buceta apertando ele em espasmos. Carlos veio logo depois, esvaziando dentro dela com um gemido longo, o braço ferido esquecido por uns segundos.
Ficaram abraçados, suados, a respiração ainda ofegante. Lá fora, em algum lugar distante, ainda se ouviam tiros e gritos. Dentro da barraca escura, pela primeira vez em muito tempo, os dois se sentiram um pouco menos sozinhos.
Cada volta vazia pesava mais na Sofía, embora ela não dissesse nada. Só balançava a cabeça e seguia com as tarefas dela.
Um dia ele decidiu mudar de área.
Foi mais pra leste, pra um bairro residencial que ainda não tinham explorado por completo. Caminhava com cuidado entre as casas, a mochila meio vazia, a faca na cintura. Não ouviu os passos até que já era tarde demais.
Um homem saiu de trás de um muro. Depois outro. E mais outro. Em segundos, cercaram ele. Eram sete ou oito, armados com tacos, canos e um par de armas de fogo. Carlos tentou correr.
Conseguiu derrubar um com um soco e cortar outro no braço, mas eram muitos. Bateram nele nas costelas, torceram um braço para trás e cobriram a cabeça dele com um saco sujo. A escuridão foi total. Amarraram os pulsos e tornozelos dele e o arrastaram.Caminharam pelo que pareceu horas.
Às vezes, o colocavam na caçamba de uma caminhonete; outras, o forçavam a avançar a pé, tropeçando. Ninguém falava com ele. Só ouvia ordens curtas e o som de botas sobre asfalto e terra.
Quando finalmente tiraram o saco, a luz do entardecer doeu nos olhos dele.
Ele estava num recinto murado muito maior que o da Sofia. Torres de vigilância improvisadas, cercas reforçadas com arame e sucata, fileiras de contêineres e casas pré-fabricadas. Tinha mais gente: homens, mulheres, alguns adolescentes. Todos com a mesma expressão cansada e desconfiada. O lugar cheirava a fumaça de lenha, a suor e a comida quente.
Empurraram-no para um homem de meia-idade, de compleição forte, com uma cicatriz na sobrancelha. Ele falou sem rodeios:—Escuta bem, rapaz. Aqui não tem esmola. Se quer viver, trabalha. De sol a sol.
Carrega, limpa, planta, conserta… o que precisar. Em troca, te dão comida e um teto. Se recusar, te jogam pra fora dos muros de mãos amarradas. E você já sabe o que tem lá fora.
Carlos olhou ao redor. Não via saída fácil. Estava desarmado, longe dos seus, e o muro era alto.
O homem esperou a resposta dele de braços cruzados.
—Qual vai ser? Escravo que come… ou cadáver que anda?
Carlos não teve outra escolha.
Assentiu em silêncio e aceitou as regras do lugar. A partir daquele momento, foi mais um corpo trabalhando. Carregava sacos, limpava latrinas, consertava cercas, revirava terra na horta improvisada. Cada músculo doía no fim do dia. Comia o que lhe davam — sempre pouco — e dormia quando dava. Mas a mente não descansava. Pensava em Sofia e em Camila. Em como estariam aguentando o calor sem ele. Se alguém mais estaria "cuidando" delas. A ideia revirava o estômago dele toda noite.
Os dias se arrastaram.
Uma manhã, mandaram ele ajudar na cozinha. O lugar era um antigo refeitório industrial reformado: fogões a lenha, panelas enormes, o cheiro constante de caldo ralo e fumaça. Foi lá que ele a viu.
Era jovem, cabelo curto e escuro, corte prático. O corpo chamava atenção na hora: uma bunda grande e redonda que se marcava sob a calça de trabalho, e peitos visivelmente mais generosos que os da Sofia. A semelhança era perturbadora. O mesmo jeito de se mover, a mesma linha de mandíbula. Carlos ficou olhando um segundo a mais.
Ela notou e franziu a testa.— Que que você tá olhando? Pega essa concha e mexe. Se grudar, você vai ficar raspando depois.
O tom era distante, quase cortante. Ela explicou as tarefas com frases curtas: cortar, mexer, servir, limpar. Não tinha espaço pra conversa. Carlos obedeceu em silêncio, embora toda vez que ela se abaixava ou se esticava, a lembrança da Sofía batia forte nele.
Passou a manhã assim. Ela corrigia a postura dele ou indicava o próximo passo sem olhar nos olhos. Até que outra garota, mais nova, entrou carregando uma caixa de verduras e gritou da porta:—Renata! Você ainda tem a faca grande? Preciso dela no outro fogão.
Renata.
O nome bateu no peito dele. Carlos não disse nada. Continuou mexendo o caldo como se não tivesse ouvido. Mas por dentro a confirmação foi imediata. A semelhança, o nome, as estrelas bordadas na mochila… era ela. A filha da Sofía.
Não abriu a boca.
Esperou. Terminou o turno na cozinha, entregou os utensílios e se misturou com o resto dos trabalhadores. Observou de longe Renata se dirigindo para a área dos dormitórios com o mesmo passo decidido da mãe.Todos os retidos dormiam num único galpão amplo. Beliches de três níveis, colchões finos, o cheiro de corpos e de umidade. Quase quarenta pessoas espremidas. Não havia privacidade. À noite, quando as lamparinas de óleo se apagavam, não faltava quem procurasse alívio. Gemidos abafados, o roçar de corpos, sussurros. Alguns faziam isso para amenizar a infecção; outros, simplesmente porque o medo e a proximidade tornavam inevitável.
Carlos ficou parado na beliche, escutando, pensando em como se aproximar de Renata sem colocar ela — nem ele — em perigo.Ainda não sabia como dizer pra ela.
Só sabia que precisava encontrar o momento certo.
No dia seguinte, Carlos a interceptou bem na saída do banheiro coletivo, antes de começar o turno da cozinha. Segurou o braço dela com cuidado, o suficiente pra pará-la sem chamar atenção.
— Sua mãe se chama Sofia? — perguntou em voz baixa —. E você tem uma irmã chamada Raquel?
Renata ficou tensa. A cor sumiu do rosto dela por um segundo. Olhou pros dois lados do corredor e baixou a voz.
— Como você sabe disso? Quem é você?
Carlos não soltou totalmente o braço dela.—Achei sua mochila. A que tem as estrelas bordadas na lateral. Tava num shopping na zona leste. Sua mãe… a Sofia… me pediu pra te encontrar. Foi por isso que eu saía tanto. Foi por isso que acabei aqui.
Ela encarou ele com desconfiança por vários segundos. Parecia prestes a negar tudo.
Depois, algo nos olhos dela mudou. Ela baixou o olhar pro chão e soltou o ar devagar.
—Ela tá viva… — murmurou. Não era uma pergunta.
Carlos assentiu.
—Tá viva. E comanda um grupo. Pequeno, mas organizado.
Renata cruzou os braços, como se protegendo. Demorou um tempo até falar de novo.
—Não sei se quero ver ela. Não sei como dizer que… que eu perdi a Raquel. Desde o primeiro dia. Não consegui salvar ela. Os vizinhos atacaram a gente na rua e eu… corri. Ela não.
O silêncio se estendeu entre os dois. Carlos não ofereceu frases vazias de consolo. Apenas assentiu, entendendo o peso daquela culpa.Antes de serem chamados para trabalhar, Renata acrescentou num sussurro ainda mais baixo:
— Todo mundo do depósito tá planejando fugir. Daqui a uma semana. Quando o grupo principal sair pra buscar suprimentos e mais gente. É a única janela que a gente vai ter. Se você quiser viver… vem com a gente.
Nos dias que se seguiram, eles conversavam sempre que podiam: na cozinha, enquanto mexiam as panelas, ou nos poucos minutos livres antes de apagarem as lamparinas no porão.Falavam principalmente sobre a Sofia. De como ela era antes. De como era agora. O Carlos contava sem perceber os detalhes: o jeito que a Sofia organizava tudo, a voz dela quando dava ordens, a maneira como ela tinha ficado mais dura e ao mesmo tempo mais viva. Também mencionava a Camila. O jeito como as duas dividiam espaço, decisões… e mais.
Renata percebeu na hora. A maneira como ele dizia o nome da mãe dele. A suavidade que escapava quando falava das duas mulheres. Não perguntou diretamente. Só ficou observando ele com uma mistura de curiosidade e algo parecido com compreensão. O mundo tinha mudado demais pra ela se chocar com qualquer coisa. Mas ficou quieta. Por enquanto.
O dia chegou.Todos estavam prontos. Esperaram até umas três da manhã. Tinham identificado uma área da grade um pouco mais fraca: se muitos se jogassem ao mesmo tempo, ela cederia. E foi o que fizeram. Se lançaram em grupo, empurrando com o peso dos corpos desesperados. Enquanto isso, outros atiravam garrafas com álcool e panos acesos em direção às torres e aos depósitos de madeira, causando incêndios e distração.
Sabiam que estavam desarmados. Sabiam que muitos morreriam. Mas alguns teriam a esperança de escapar.Renata e Carlos foram dos primeiros a escalar quando a grade finalmente cedeu e se dobrou. Os gritos e os tiros encheram o ar. Os guardas tentaram dispersar a multidão. Carlos cobriu Renata com o corpo quando as balas começaram a zunir. Uma atravessou o braço esquerdo dele, limpa, mas ele não parou. Continuaram correndo. A multidão se espalhou em todas as direções; eles ficaram juntos, sem soltar as mãos.
Correram até o amanhecer.Chegaram, exaustos e sangrando, no mesmo shopping onde Carlos tinha achado a mochila da Renata. Entraram por uma porta lateral meio escondida e se trancaram numa loja do segundo andar, bloqueando a entrada com prateleiras. Renata, com as mãos firmes apesar do tremor, ajudou ele a tirar a jaqueta e a examinar o braço.
— Eu estudava medicina com a minha irmã antes de tudo isso — murmurou enquanto limpava o ferimento com água de uma garrafa que tinham roubado na fuga —. Aguenta.
Carlos rangeu os dentes. Aguentou a dor o melhor que pôde enquanto ela extraía o projétil com uma pinça improvisada e enfaixava o braço dele com tiras de pano limpo. O esforço e a perda de sangue foram demais. Ele desmaiou.Quando acordou, já era noite de novo.
Uma vela pequena iluminava o espaço. Renata estava sentada ao lado dele, vigiando. Ao vê-lo abrir os olhos, soltou um suspiro de alívio.
—Obrigada… por me salvar — disse em voz baixa—. Queria te agradecer mais do que com palavras.
Ela se inclinou e o beijou.
O beijo começou suave, de gratidão, mas em segundos virou fome. Carlos levantou a mão boa e segurou a nuca dela, aprofundando o beijo. Renata subiu com cuidado em cima dele, evitando o braço ferido. Tiraram as roupas às pressas, com movimentos desajeitados. O corpo dela ficou exposto à luz da vela: peitos generosos, cintura fina e aquela bunda grande e firme que tanto lembrava a Sofía.Carlos a guiou para frente até que ela se ajoelhou sobre o rosto dele.
Renata não hesitou. Sentou com cuidado e ele afundou a língua na buceta já molhada dela. Lambeu com vontade, chupando o clitóris, enfiando a língua o mais fundo que conseguia. Ela ofegava, com as mãos apoiadas na parede, rebolando contra a boca dele. Gozou rápido, tremendo, um gemido abafado escapando dela.
Ainda com as pernas trêmulas, desceu até a pica do Carlos, já completamente dura. Levou à boca e chupou com fome: lábios apertados, língua girando, descendo até quase se engasgar. A saliva escorria pela base. Carlos agarrou o cabelo curto dela com a mão boa e guiou um pouco, gemendo. Quando não aguentou mais, ela montou.
Guiou a pica até a entrada e sentou de uma vez só, engolindo até o talo. Começou a cavalgar com ritmo firme, a rabuda enorme batendo nas coxas dele uma e outra vez.Carlos segurou um quadril dela e meteu de baixo. O som molhado dos corpos enchia o espaço improvisado. Renata se inclinou pra frente, oferecendo os peitos; ele chupou e mordiscou enquanto ela quicava mais rápido.
Ela gozou de novo, a buceta apertando ele em espasmos. Carlos veio logo depois, esvaziando dentro dela com um gemido longo, o braço ferido esquecido por uns segundos.
Ficaram abraçados, suados, a respiração ainda ofegante. Lá fora, em algum lugar distante, ainda se ouviam tiros e gritos. Dentro da barraca escura, pela primeira vez em muito tempo, os dois se sentiram um pouco menos sozinhos.
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