Capítulo 1: A casa e seus moradores
A casa tem um ritmo que já conheço de cor. É um ritmo lento, pesado, como a passagem das horas num lugar onde quase nunca muda nada. Moro aqui desde criança e agora que comecei a faculdade de medicina, há alguns meses, cada dia é quase idêntico ao anterior. Os móveis parecem nunca ter saído do lugar. A poeira sempre assenta nos mesmos cantos. E o silêncio… aquele silêncio que só se quebra em horas exatas, como se alguém tivesse programado cada canto dessa casa para obedecer a um relógio invisível.
Eu passo a maior parte do tempo no meu quarto, com a porta entreaberta, estudando, lendo ou ligada nas aulas online. Da minha posição, consigo ver parte do corredor, a escada e a porta de entrada. Sem querer, acabo sendo testemunha de tudo o que rola. Ninguém me conta nada. Eu simplesmente vejo. E o que eu vejo todo dia vai desenhando, aos poucos, a história dessa casa.
Andrea, minha mãe é quem segura tudo de pé. Tem 46 anos, mede 1,65 m, é de traços finos, cabelo castanho claro, corpo médio, com medidas entre 75-60-95 cm, cabelo longo e ondulado que chega até as costas, pernas finas, delicadas, bem cuidadas pelos cremes que usa todo dia, e se a gente reparar bem, dá pra ver que ela foi linda, e que ainda é, mesmo tendo algo nela que foi se apagando, como uma luz que ninguém se dá ao trabalho de acender. As mãos dela são macias, mas estão sempre ocupadas: limpam, cozinham, arrumam, organizam. Sempre impecável, sempre atenta, sempre disponível. Mas quando ela fala de si mesma, ou quando fica olhando pro nada, dá pra notar aquela sombra: a sensação de que ninguém realmente a enxerga. Ela se sente abandonada, mesmo com a gente aqui.
—São sete e meia — disse Andrea uma manhã, enquanto servia o café da manhã na mesa da sala de jantar, sem quase levantar a voz—. Já devia estar pronto pra sair.
Eu a observei do corredor, com o livro de biologia debaixo do braço, e a vi sozinha na cozinha, encarando a xícara de café que tinha servido para outra pessoa.
—Vou sair bem cedo, mãe? — perguntei, mesmo já sabendo a resposta.
Ela suspirou, só um sopro de ar, e ajeitou um guardanapo que já estava bem colocado.
—Às oito em ponto tem que estar no escritório —respondeu, sem me olhar—. Chega às nove da noite. Às vezes mais tarde. Sempre cansado. Sempre com pressa.
Não disse mais nada. Eu fiquei calada. Não é que eu queira me meter na vida dela, mas as paredes dessa casa são finas, e eu passo muito tempo aqui. Aprendi a ler o que ninguém fala.
Pouco depois apareceu meu pai Felipe. Cinquenta anos, terno impecável, relógio no pulso, olhar sempre fixo pra frente. Nem parou pra olhar pra ela. Foi até a mesa, pegou a xícara, bebeu de uma vez, comeu uma torrada sem nem sentir o gosto e disse, seco: —Deixa a camisa azul para amanhã.
—Claro que sim —respondeu Andrea, com aquela voz suave que ela sempre usa com ele.
Felipe limpou a boca, levantou-se e caminhou até a porta. Antes de sair, virou-se por um instante, quase sem olhar para ela.
—Já vou indo. Não fica esperando acordada se eu me atrasar.
—Tem cuidado —disse ela.
Ela sentiu com um gesto rápido e saiu. Nem um beijo. Nem um carinho. Nem uma palavra que indicasse que ela estava ali, esperando por ele, cuidando dele, vivendo para que tudo estivesse no lugar. Andrea ficou de pé ao lado da mesa, olhando para a porta fechada. Depois recolheu os pratos, devagar, como se cada movimento custasse um esforço.
Essa cena se repete todos os dias. Exatamente igual. Às oito ele sai. Às nove da noite volta. Entra, come, toma banho, fala de trabalho, de contas, de coisas que precisam ser consertadas ou pagas, e depois vai dormir. E assim, dia após dia.
O que mais me chama a atenção é que desde que nascemos, eu e meu irmão — já faz dezoito anos —, as coisas entre eles parecem ter esfriado por completo. Ninguém fala isso em voz alta, mas dá pra notar. Não tem carinho. Não tem palavras doces. Não tem olhares que se procuram. Quando ele precisa dela, ele pede, friamente, quase como uma ordem. E ela aceita. Faz por dever, por costume, por aquela força que tantas mulheres antes dela tiveram: calar a boca, aguentar, manter a casa em ordem, mesmo que o coração fique vazio. Às vezes eu escuto sem querer. Eles não discutem, não gritam um com o outro. É pior: falam como dois colegas de apartamento que se dão bem, mas não se amam.
—Pagou a luz? —pergunta ele, à noite, enquanto tira os sapatos.
—Sim, ontem à tarde — responde ela.
—Chegou o pacote que você esperava?
—Não. Te aviso quando chegar.
—Tá bem.
E nada mais. Nenhuma pergunta sobre como foi o dia dela. Nenhum interesse pelo que ela sente. Para Felipe, Andrea é parte da casa: algo que está ali, que funciona, que mantém tudo limpo e arrumado, mas que não precisa ser perguntado, nem admirado, nem amado. É como se ela tivesse deixado de ser mulher para se tornar mais um pedaço da mobília. E o mais triste é que ela mesma parece ter esquecido disso.
Falando do meu irmão, Esteban também tem dezoito anos. Ele é quieto, educado, quase sempre trancado no quarto, porque trabalha e estuda de casa com o computador dele. Eu o vejo pouco, mas quando vejo, noto que ele observa tudo. Ele não fala muito, mas os olhos dele dizem tudo. Ele olha para a Andrea de um jeito diferente de como a gente olha. Ele repara nela. Ele escuta ela. Quando ela passa pelo corredor, ele levanta o olhar. Quando ela fala alguma coisa, ele responde com atenção. Nunca ouvi ele falar nada fora do lugar, mas tem algo no olhar dele... algo que sugere que ele vê nela o que o marido dela já deixou de ver há muito tempo.
—Bom dia, Mamãe —ele sempre diz, com voz suave, cruzando com ela na cozinha.
—Bom dia, filho. Descansou bem?
—Sim, espero que você também.
E ele fica um instante, olhando pra ela, como se quisesse dizer algo a mais, mas depois concorda com a cabeça e segue seu caminho. Nunca cruza a linha. Mas eu vejo. Eu percebo.
Uns dias atrás, enquanto eu estudava na sala e Andrea costurava perto da janela, o Esteban desceu pra pegar umas garrafas de água. Ele parou do lado dela e disse, com simplicidade:
—Essa cor fica muito bem em você, mamãe. Ilumina seu rosto.
—Sério? —perguntou, quase sem voz—. Obrigado, filho. É… é uma peça velha.
—Pois parece nova quando você está usando ela — respondeu ele, e foi embora antes que ela pudesse responder.
Andrease ficou olhando para ele enquanto subia as escadas. Depois levou a mão ao peito, baixou o olhar e sorriu. Um sorriso pequeno, tímido, como se ninguém lhe dissesse algo assim há muito tempo. E é bem provável que seja verdade.
Eu só levantei os olhos do livro por um instante e depois voltei a ler. Não é da minha conta. Estou aqui pra estudar, pra alcançar meus objetivos, pra me tornar médica. O que rola nessa casa é problema de quem mora nela. Eu sou só uma espectadora. Observo, sim, mas não opino. Não me meto. Simplesmente vejo o que acontece, guardo em silêncio e sigo com a minha vida.
E assim passaram-se as semanas. A mesma rotina. As mesmas horas. Felipe saindo e voltando sem nunca mudar seu jeito de ser. Andrea cuidando de tudo, sorrindo cada vez menos, se apagando um pouco mais a cada dia. Esteban, sempre atento, sempre respeitoso, sempre olhando pra ela com aquela atenção que ela mal recebe. E eu, do meu canto, vendo tudo acontecer, sem intervir, sem julgar, simplesmente estando ali, no meu mundo de livros e aulas online.
Até que ele chegou.
Foi numa terça à tarde. Eu estava sentada na sala, com o notebook em cima da mesa, revisando anotações de anatomia, quando ouvi o carro parar na frente da porta. Depois o som de malas sendo descarregadas. Andrea saiu pra varanda, e eu, curiosa, me aproximei da janela, sem me mostrar completamente.
Eles abriram a porta e ela entrou.Santiago. Meu primo.Dizem que tem dezoito anos. Alto, ombros largos, porte firme. O cabelo escuro, os olhos vivos, o olhar seguro, como quem não tem medo de nada. Trazia uma mala grande no ombro e uma mochila no outro. Ao entrar, parou no hall, largou as malas e olhou ao redor, devagar, como se gravasse cada detalhe.
Andrea estava de pé diante dele. Ela se endireitou, ajeitou o cabelo com um gesto rápido, e suas bochechas… sim, suas bochechas tinham se corado. Não era o sol, nem o esforço. Era algo mais. Algo que eu vi no instante em que seus olhares se cruzaram.
—Bem-vindo, Santiago —disse ela, e a voz soou diferente. Mais suave. Mais quente—. Espero que esteja confortável aqui. Minha irmã já me falou que você vai ficar com a gente por um tempo. Ele sorriu para ela. Um sorriso largo, jovem, deslumbrante.
—Muito obrigado, Tia Andrea. Obrigado por me receber. Meus pais voltam da viagem em alguns meses, enquanto isso vou ficar aqui. Espero não dar trabalho.
—Nenhum incômodo nenhum —respondeu ela, e deu um passo em direção a ele, indicando a escada—. Seu quarto é lá em cima, no fundo do corredor. Preparei tudo que precisava. Se faltar alguma coisa, é só me falar.Ela se virou lentamente, os olhos brilhando com um desejo que fazia meu corpo inteiro tremer. Eu podia sentir o calor subindo pela minha espinha enquanto ela se aproximava, cada passo um convite. "Você não sabe o que faz comigo", ela sussurrou, a voz rouca e cheia de promessas. Eu a puxei para perto, minhas mãos deslizando pela curva das suas costas, sentindo cada centímetro da sua pele macia. Ela mordeu o lábio inferior, um sorriso safado nos lábios, e eu sabia que a noite seria longa.—Muito gentil, tia —disse ele, e olhou nos olhos dela, um instante a mais do que o necessário—. De verdade.
Ela desviou o olhar, levemente perturbada.—Quer que eu te ajude com as malas?
—Não precisa, obrigado. Dou conta sozinho.
Santiago pegou as malas e começou a subir. Andrea ficou embaixo, olhando ele subir. Levou a mão ao pescoço de novo, e depois a levou ao peito, como se quisesse acalmar algo que tinha se agitado dentro dela. Eu a observei em silêncio. Algo tinha mudado naquele instante. Algo no ar da casa tinha se movido.
Naquela tarde, da minha porta entreaberta, vi Andrea passando e repassando perto da escada. Ela arrumou o cabelo mais vezes do que o normal. Passou um perfume que quase nunca usava. Quando ele desceu um momento até a cozinha para pegar um copo d'água, ela estava lá, limpando o que já estava limpo, e falou com ele com uma doçura que eu nunca tinha ouvido antes.
—Tudo bem no seu quarto? — perguntou ela.
—Perfeitamente, dona Andrea. Tá tudo excelente.
—Se precisar de internet mais rápida, tem um cabo extra…
—Tá bem assim, eu garanto. A senhora é muito atenciosa.
Ele olhou para ela de novo. E ela, que sempre mantinha a compostura, desviou o olhar, nervosa, feito uma garotinha.
—Bom… fico feliz que você esteja bem instalado.
E ela saiu da cozinha quase sem olhar pra ele. Santiago ficou olhando ela ir embora, com o copo na mão, uma expressão pensativa no rosto. Depois bebeu água, devagar, e subiu de novo.
Pouco depois, Esteban saiu do quarto dele e os dois se cruzaram no corredor. Pararam por um instante. Não ouvi tudo o que disseram, mas vi que trocaram umas palavras curtas, um olhar que parecia carregado de significado, e cada um seguiu seu caminho. Mesmo assim, algo me disse que Esteban tinha notado a mesma coisa que eu. Que algo tinha mudado naquela casa desde que Santiago entrou pela porta.
Naquela noite, quando Felipe chegou às nove em ponto, tudo parecia ter voltado ao normal. Andrea recebeu ele como sempre, pegou a jaqueta, serviu o jantar, perguntou como tinha sido o dia. Mas eu, que observo ela com atenção, notei a diferença. A cabeça dela não estava ali. Os olhos, quando ele falava de contas e de trabalho, se perdiam longe. A voz, mesmo dizendo as palavras certas, não tinha calor.
Felipe não percebeu nada. Comeu, falou das coisas dele, fez um comentário sobre a sopa, e então disse:
—Amanhã vou sair mais cedo. Tenho audiência logo de manhã.
—Tá bem —respondeu ela.
E foi só isso. Nenhuma pergunta sobre o dia dela. Nenhum interesse pelo que ela tinha sentido. Nada.
Mais tarde, quando todos estávamos em silêncio nos nossos quartos, ouvi passos leves no corredor. Abri um pouco mais a porta e vi minha mãe parada ao lado da porta do quarto do Santiago. Ela não bateu. Não entrou. Só ficou ali, por um instante, imóvel, como se quisesse tocar a porta e não tivesse coragem. Depois soltou um suspiro que quase não se ouviu, virou-se e foi para o próprio quarto, devagar, como quem volta para um lugar que não quer habitar.
Fechei minha porta e me sentei perto da janela. A lua iluminava o quintal dos fundos. Fiquei pensando no que acabara de ver. Naquela mulher de quarenta e seis anos que passara dezoito anos sem se sentir amada, sem ser vista, sem que ninguém dissesse que ela era gostosa. Naquele marido, meu pai, que a tratava como um móvel qualquer. No Esteban, meu irmão, que a olhava com respeito e admiração silenciosa. No Santiago, meu primo, que tinha acabado de chegar e parecia ter trazido consigo algo que a despertara de um sono muito longo.
Pensei também em mim. Nos meus livros, nas minhas aulas, no meu futuro. Eu faço parte dessa família, mas sou quem observa de um canto. Mas até eu, alheia a tudo, podia sentir: a casa já não era a mesma. Essa chegada tinha quebrado o silêncio. Tinha remexido em algo que estava adormecido há décadas. E o que viesse depois… ninguém saberia ainda.
Por enquanto, só restava esperar. Ver como os dias iam se desenrolando. Observar, sem julgar, sem intervir, só estando ali. Porque eu sou assim: tô presente, vejo o que rola, mas não me meto. Tenho minha própria vida, meus próprios objetivos, meu próprio caminho. O que acontece no coração de quem vive aqui… é problema deles.
E, no entanto, enquanto apaguei a luz e me deitei, soube com certeza que nada voltaria a ser igual. A solidão que reinava nesta casa por tantos anos tinha sido desafiada. E o despertar, mais cedo ou mais tarde, chegaria.
A casa tem um ritmo que já conheço de cor. É um ritmo lento, pesado, como a passagem das horas num lugar onde quase nunca muda nada. Moro aqui desde criança e agora que comecei a faculdade de medicina, há alguns meses, cada dia é quase idêntico ao anterior. Os móveis parecem nunca ter saído do lugar. A poeira sempre assenta nos mesmos cantos. E o silêncio… aquele silêncio que só se quebra em horas exatas, como se alguém tivesse programado cada canto dessa casa para obedecer a um relógio invisível.
Eu passo a maior parte do tempo no meu quarto, com a porta entreaberta, estudando, lendo ou ligada nas aulas online. Da minha posição, consigo ver parte do corredor, a escada e a porta de entrada. Sem querer, acabo sendo testemunha de tudo o que rola. Ninguém me conta nada. Eu simplesmente vejo. E o que eu vejo todo dia vai desenhando, aos poucos, a história dessa casa.
Andrea, minha mãe é quem segura tudo de pé. Tem 46 anos, mede 1,65 m, é de traços finos, cabelo castanho claro, corpo médio, com medidas entre 75-60-95 cm, cabelo longo e ondulado que chega até as costas, pernas finas, delicadas, bem cuidadas pelos cremes que usa todo dia, e se a gente reparar bem, dá pra ver que ela foi linda, e que ainda é, mesmo tendo algo nela que foi se apagando, como uma luz que ninguém se dá ao trabalho de acender. As mãos dela são macias, mas estão sempre ocupadas: limpam, cozinham, arrumam, organizam. Sempre impecável, sempre atenta, sempre disponível. Mas quando ela fala de si mesma, ou quando fica olhando pro nada, dá pra notar aquela sombra: a sensação de que ninguém realmente a enxerga. Ela se sente abandonada, mesmo com a gente aqui.
—São sete e meia — disse Andrea uma manhã, enquanto servia o café da manhã na mesa da sala de jantar, sem quase levantar a voz—. Já devia estar pronto pra sair.
Eu a observei do corredor, com o livro de biologia debaixo do braço, e a vi sozinha na cozinha, encarando a xícara de café que tinha servido para outra pessoa.
—Vou sair bem cedo, mãe? — perguntei, mesmo já sabendo a resposta.
Ela suspirou, só um sopro de ar, e ajeitou um guardanapo que já estava bem colocado.
—Às oito em ponto tem que estar no escritório —respondeu, sem me olhar—. Chega às nove da noite. Às vezes mais tarde. Sempre cansado. Sempre com pressa.
Não disse mais nada. Eu fiquei calada. Não é que eu queira me meter na vida dela, mas as paredes dessa casa são finas, e eu passo muito tempo aqui. Aprendi a ler o que ninguém fala.
Pouco depois apareceu meu pai Felipe. Cinquenta anos, terno impecável, relógio no pulso, olhar sempre fixo pra frente. Nem parou pra olhar pra ela. Foi até a mesa, pegou a xícara, bebeu de uma vez, comeu uma torrada sem nem sentir o gosto e disse, seco: —Deixa a camisa azul para amanhã.
—Claro que sim —respondeu Andrea, com aquela voz suave que ela sempre usa com ele.
Felipe limpou a boca, levantou-se e caminhou até a porta. Antes de sair, virou-se por um instante, quase sem olhar para ela.
—Já vou indo. Não fica esperando acordada se eu me atrasar.
—Tem cuidado —disse ela.
Ela sentiu com um gesto rápido e saiu. Nem um beijo. Nem um carinho. Nem uma palavra que indicasse que ela estava ali, esperando por ele, cuidando dele, vivendo para que tudo estivesse no lugar. Andrea ficou de pé ao lado da mesa, olhando para a porta fechada. Depois recolheu os pratos, devagar, como se cada movimento custasse um esforço.
Essa cena se repete todos os dias. Exatamente igual. Às oito ele sai. Às nove da noite volta. Entra, come, toma banho, fala de trabalho, de contas, de coisas que precisam ser consertadas ou pagas, e depois vai dormir. E assim, dia após dia.
O que mais me chama a atenção é que desde que nascemos, eu e meu irmão — já faz dezoito anos —, as coisas entre eles parecem ter esfriado por completo. Ninguém fala isso em voz alta, mas dá pra notar. Não tem carinho. Não tem palavras doces. Não tem olhares que se procuram. Quando ele precisa dela, ele pede, friamente, quase como uma ordem. E ela aceita. Faz por dever, por costume, por aquela força que tantas mulheres antes dela tiveram: calar a boca, aguentar, manter a casa em ordem, mesmo que o coração fique vazio. Às vezes eu escuto sem querer. Eles não discutem, não gritam um com o outro. É pior: falam como dois colegas de apartamento que se dão bem, mas não se amam.
—Pagou a luz? —pergunta ele, à noite, enquanto tira os sapatos.
—Sim, ontem à tarde — responde ela.
—Chegou o pacote que você esperava?
—Não. Te aviso quando chegar.
—Tá bem.
E nada mais. Nenhuma pergunta sobre como foi o dia dela. Nenhum interesse pelo que ela sente. Para Felipe, Andrea é parte da casa: algo que está ali, que funciona, que mantém tudo limpo e arrumado, mas que não precisa ser perguntado, nem admirado, nem amado. É como se ela tivesse deixado de ser mulher para se tornar mais um pedaço da mobília. E o mais triste é que ela mesma parece ter esquecido disso.
Falando do meu irmão, Esteban também tem dezoito anos. Ele é quieto, educado, quase sempre trancado no quarto, porque trabalha e estuda de casa com o computador dele. Eu o vejo pouco, mas quando vejo, noto que ele observa tudo. Ele não fala muito, mas os olhos dele dizem tudo. Ele olha para a Andrea de um jeito diferente de como a gente olha. Ele repara nela. Ele escuta ela. Quando ela passa pelo corredor, ele levanta o olhar. Quando ela fala alguma coisa, ele responde com atenção. Nunca ouvi ele falar nada fora do lugar, mas tem algo no olhar dele... algo que sugere que ele vê nela o que o marido dela já deixou de ver há muito tempo.
—Bom dia, Mamãe —ele sempre diz, com voz suave, cruzando com ela na cozinha.
—Bom dia, filho. Descansou bem?
—Sim, espero que você também.
E ele fica um instante, olhando pra ela, como se quisesse dizer algo a mais, mas depois concorda com a cabeça e segue seu caminho. Nunca cruza a linha. Mas eu vejo. Eu percebo.
Uns dias atrás, enquanto eu estudava na sala e Andrea costurava perto da janela, o Esteban desceu pra pegar umas garrafas de água. Ele parou do lado dela e disse, com simplicidade:
—Essa cor fica muito bem em você, mamãe. Ilumina seu rosto.
—Sério? —perguntou, quase sem voz—. Obrigado, filho. É… é uma peça velha.
—Pois parece nova quando você está usando ela — respondeu ele, e foi embora antes que ela pudesse responder.
Andrease ficou olhando para ele enquanto subia as escadas. Depois levou a mão ao peito, baixou o olhar e sorriu. Um sorriso pequeno, tímido, como se ninguém lhe dissesse algo assim há muito tempo. E é bem provável que seja verdade.
Eu só levantei os olhos do livro por um instante e depois voltei a ler. Não é da minha conta. Estou aqui pra estudar, pra alcançar meus objetivos, pra me tornar médica. O que rola nessa casa é problema de quem mora nela. Eu sou só uma espectadora. Observo, sim, mas não opino. Não me meto. Simplesmente vejo o que acontece, guardo em silêncio e sigo com a minha vida.
E assim passaram-se as semanas. A mesma rotina. As mesmas horas. Felipe saindo e voltando sem nunca mudar seu jeito de ser. Andrea cuidando de tudo, sorrindo cada vez menos, se apagando um pouco mais a cada dia. Esteban, sempre atento, sempre respeitoso, sempre olhando pra ela com aquela atenção que ela mal recebe. E eu, do meu canto, vendo tudo acontecer, sem intervir, sem julgar, simplesmente estando ali, no meu mundo de livros e aulas online.
Até que ele chegou.
Foi numa terça à tarde. Eu estava sentada na sala, com o notebook em cima da mesa, revisando anotações de anatomia, quando ouvi o carro parar na frente da porta. Depois o som de malas sendo descarregadas. Andrea saiu pra varanda, e eu, curiosa, me aproximei da janela, sem me mostrar completamente.
Eles abriram a porta e ela entrou.Santiago. Meu primo.Dizem que tem dezoito anos. Alto, ombros largos, porte firme. O cabelo escuro, os olhos vivos, o olhar seguro, como quem não tem medo de nada. Trazia uma mala grande no ombro e uma mochila no outro. Ao entrar, parou no hall, largou as malas e olhou ao redor, devagar, como se gravasse cada detalhe.
Andrea estava de pé diante dele. Ela se endireitou, ajeitou o cabelo com um gesto rápido, e suas bochechas… sim, suas bochechas tinham se corado. Não era o sol, nem o esforço. Era algo mais. Algo que eu vi no instante em que seus olhares se cruzaram.
—Bem-vindo, Santiago —disse ela, e a voz soou diferente. Mais suave. Mais quente—. Espero que esteja confortável aqui. Minha irmã já me falou que você vai ficar com a gente por um tempo. Ele sorriu para ela. Um sorriso largo, jovem, deslumbrante.
—Muito obrigado, Tia Andrea. Obrigado por me receber. Meus pais voltam da viagem em alguns meses, enquanto isso vou ficar aqui. Espero não dar trabalho.
—Nenhum incômodo nenhum —respondeu ela, e deu um passo em direção a ele, indicando a escada—. Seu quarto é lá em cima, no fundo do corredor. Preparei tudo que precisava. Se faltar alguma coisa, é só me falar.Ela se virou lentamente, os olhos brilhando com um desejo que fazia meu corpo inteiro tremer. Eu podia sentir o calor subindo pela minha espinha enquanto ela se aproximava, cada passo um convite. "Você não sabe o que faz comigo", ela sussurrou, a voz rouca e cheia de promessas. Eu a puxei para perto, minhas mãos deslizando pela curva das suas costas, sentindo cada centímetro da sua pele macia. Ela mordeu o lábio inferior, um sorriso safado nos lábios, e eu sabia que a noite seria longa.—Muito gentil, tia —disse ele, e olhou nos olhos dela, um instante a mais do que o necessário—. De verdade.
Ela desviou o olhar, levemente perturbada.—Quer que eu te ajude com as malas?
—Não precisa, obrigado. Dou conta sozinho.
Santiago pegou as malas e começou a subir. Andrea ficou embaixo, olhando ele subir. Levou a mão ao pescoço de novo, e depois a levou ao peito, como se quisesse acalmar algo que tinha se agitado dentro dela. Eu a observei em silêncio. Algo tinha mudado naquele instante. Algo no ar da casa tinha se movido.
Naquela tarde, da minha porta entreaberta, vi Andrea passando e repassando perto da escada. Ela arrumou o cabelo mais vezes do que o normal. Passou um perfume que quase nunca usava. Quando ele desceu um momento até a cozinha para pegar um copo d'água, ela estava lá, limpando o que já estava limpo, e falou com ele com uma doçura que eu nunca tinha ouvido antes.
—Tudo bem no seu quarto? — perguntou ela.
—Perfeitamente, dona Andrea. Tá tudo excelente.
—Se precisar de internet mais rápida, tem um cabo extra…
—Tá bem assim, eu garanto. A senhora é muito atenciosa.
Ele olhou para ela de novo. E ela, que sempre mantinha a compostura, desviou o olhar, nervosa, feito uma garotinha.
—Bom… fico feliz que você esteja bem instalado.
E ela saiu da cozinha quase sem olhar pra ele. Santiago ficou olhando ela ir embora, com o copo na mão, uma expressão pensativa no rosto. Depois bebeu água, devagar, e subiu de novo.
Pouco depois, Esteban saiu do quarto dele e os dois se cruzaram no corredor. Pararam por um instante. Não ouvi tudo o que disseram, mas vi que trocaram umas palavras curtas, um olhar que parecia carregado de significado, e cada um seguiu seu caminho. Mesmo assim, algo me disse que Esteban tinha notado a mesma coisa que eu. Que algo tinha mudado naquela casa desde que Santiago entrou pela porta.
Naquela noite, quando Felipe chegou às nove em ponto, tudo parecia ter voltado ao normal. Andrea recebeu ele como sempre, pegou a jaqueta, serviu o jantar, perguntou como tinha sido o dia. Mas eu, que observo ela com atenção, notei a diferença. A cabeça dela não estava ali. Os olhos, quando ele falava de contas e de trabalho, se perdiam longe. A voz, mesmo dizendo as palavras certas, não tinha calor.
Felipe não percebeu nada. Comeu, falou das coisas dele, fez um comentário sobre a sopa, e então disse:
—Amanhã vou sair mais cedo. Tenho audiência logo de manhã.
—Tá bem —respondeu ela.
E foi só isso. Nenhuma pergunta sobre o dia dela. Nenhum interesse pelo que ela tinha sentido. Nada.
Mais tarde, quando todos estávamos em silêncio nos nossos quartos, ouvi passos leves no corredor. Abri um pouco mais a porta e vi minha mãe parada ao lado da porta do quarto do Santiago. Ela não bateu. Não entrou. Só ficou ali, por um instante, imóvel, como se quisesse tocar a porta e não tivesse coragem. Depois soltou um suspiro que quase não se ouviu, virou-se e foi para o próprio quarto, devagar, como quem volta para um lugar que não quer habitar.
Fechei minha porta e me sentei perto da janela. A lua iluminava o quintal dos fundos. Fiquei pensando no que acabara de ver. Naquela mulher de quarenta e seis anos que passara dezoito anos sem se sentir amada, sem ser vista, sem que ninguém dissesse que ela era gostosa. Naquele marido, meu pai, que a tratava como um móvel qualquer. No Esteban, meu irmão, que a olhava com respeito e admiração silenciosa. No Santiago, meu primo, que tinha acabado de chegar e parecia ter trazido consigo algo que a despertara de um sono muito longo.
Pensei também em mim. Nos meus livros, nas minhas aulas, no meu futuro. Eu faço parte dessa família, mas sou quem observa de um canto. Mas até eu, alheia a tudo, podia sentir: a casa já não era a mesma. Essa chegada tinha quebrado o silêncio. Tinha remexido em algo que estava adormecido há décadas. E o que viesse depois… ninguém saberia ainda.
Por enquanto, só restava esperar. Ver como os dias iam se desenrolando. Observar, sem julgar, sem intervir, só estando ali. Porque eu sou assim: tô presente, vejo o que rola, mas não me meto. Tenho minha própria vida, meus próprios objetivos, meu próprio caminho. O que acontece no coração de quem vive aqui… é problema deles.
E, no entanto, enquanto apaguei a luz e me deitei, soube com certeza que nada voltaria a ser igual. A solidão que reinava nesta casa por tantos anos tinha sido desafiada. E o despertar, mais cedo ou mais tarde, chegaria.
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