Os Limites da Confiança 04 A Porta Aberta

O aniversário sempre foi uma data especial pra gente. Não porque precisássemos de uma desculpa barata pra sair, mas porque a gente gostava de celebrar tudo o que tínhamos construído, e principalmente, como a gente continuava pegando fogo apesar dos anos.
Naquela noite a gente se arrumou sem enrolação. Eu tinha escolhido um vestido preto curto, ultra colado no corpo, decotado e sem calcinha, sabendo exatamente que efeito ia causar nele. Quando saí do quarto, ele tava terminando de fechar o relógio.
Ele levantou a vista. E ficou mudo, com os olhos escuros me percorrendo de cima a baixo por uns segundos eternos.
— Que foi? — perguntei, segurando um sorriso.
— Nada.
— Não olha assim com essa cara de faminto e depois me fala nada, Ignacio.
Ele sorriu de canto, se aproximando devagar.
— Você tá incrível, Nati. Perigosa.
— Obrigada, amor. Você também não tá nada mal.
— Também não?
— Não se empolga tanto.
Ele ria enquanto me abraçava pela cintura, me colando contra o corpo dele e me dando um beijo longo, pesado, que me deixou sem ar antes de sairmos de casa.
Durante a viagem de carro a gente conversou besteira, até ele lembrar da recomendação de um colega do escritório.
— Lembra que te contei do lugar que o gordo me passou?
— Mais ou menos.
— Um restaurante.
— Ah, sim.
— Dizem que se come muito bem e que em cima tem outra parada.
— Então vamos dar uma espiada.
Nenhum dos dois tinha a menor ideia de que aquela janta ia ser o ponto de não retorno.
O restaurante era imponente. Elegante, com luz baixa, música eletrônica suave de fundo e uma atmosfera carregada de uma eletricidade densa. A gente jantou deliciosamente, brindou por nós, rindo como sempre.
Até que o garçom se aproximou com um sorriso cúmplice ao trazer a conta.
— Tão gostando da noite?
— Excelente — respondeu o Ignacio.
— Que bom. Se quiserem, depois podem subir pra conhecer o clube, que fica no andar de cima.
A gente se olhou, confuso.
— O clube? — perguntei.
— Sim, o clube privado do primeiro andar. Pensei que fosse algum setor VIP exclusivo para drinks. Ignacio me olhou nos olhos, medindo meus limites.
— Quer?
— Por que não? Vamos ver qual é.
E fomos. Sem entender direito onde estávamos nos metendo.
Nos fizeram deixar os casacos e, para minha surpresa, pediram nossos celulares na entrada da escada. Fiquei gelada, olhando para o Ignacio de olhos arregalados.
— Isso é brincadeira? É normal?
— Não faço a menor ideia, mas já estamos aqui.
Uma mina divina, com roupa provocante, se aproximou para nos guiar antes de subirmos os degraus.
— Antes de avançar, tem regras básicas — falou com toda naturalidade —. Se alguém diz não, é não. Não tem insistência que valha, cada um cuida dos próprios limites e dos dos outros.
Assentimos em silêncio, com o coração acelerado. Não soava como discurso moralista; era uma diretriz de jogo clara e selvagem.
Subimos para o andar de cima. Primeiro vimos os reservados abertos, espaços escuros onde várias pessoas se roçavam, conversavam ou se beijavam sem disfarce. Olhei para o Ignacio; ele estava com as pupilas dilatadas.
Depois chegamos a outra área do clube. Uma porta pesada vigiada onde só se entrava com pulseira. Olhei meu pulso, depois o dele. As duas brilhavam com o mesmo acesso.
— Vocês podem passar? São casal, têm passe livre — confirmou a mina.
Fiquei encarando aquela porta como se fosse a entrada para outra dimensão. Ignacio se aproximou por trás, colando a boca no meu ouvido.
— Seguimos ou vamos amarelar?
Respirei fundo, sentindo o estômago se revirar de excitação.
— Seguimos.
E cruzamos.
O que tinha do outro lado era um mundo paralelo. Luzes vermelhas e âmbar, música baixa, um ar denso carregado de perfume caro, suor e peles se roçando. Tinha casais conversando de pé, outros nos sofás deixando as mãos percorrerem corpos alheios com total impunidade. Tudo cheirava a pecado e segredo.
Caminhava com a mão do Ignacio firmemente apertada na minha. Em um momento, me encostei nele. peito.
—Agora entendo tudo...
—Eu também, Nati.
—Vamos embora? —falei, testando ele.
Ele me encarou.
—Você quer ir de verdade?
Olhei para o lado: a poucos metros, um casal se beijava com uma intensidade desesperada, sem se importar com os olhares. Engoli seco.
—Não. Não quero ir.
Ele sorriu, um gesto sombrio e cúmplice, e seguimos nos aprofundando até encontrar um reservado um pouco mais afastado.
Acabamos entrando num dos reservados mais escuros do andar de cima. O ar ali era uma mistura densa de perfume, suor quente e a eletricidade de meia dúzia de pessoas que estavam na mesma que a gente. A música lá fora parecia um batimento surdo.
Ignacio não me deu tempo nem de me acomodar. Ele me empurrou suavemente para trás até meus joelhos baterem na borda de um banquinho de veludo que servia de sofá. Sentei ali, com as pernas abertas, enquanto ele se ajoelhava entre minhas coxas. As mãos dele, desesperadas e brutais, se enfiaram entre minhas pernas, encontrando o vazio total da minha calcinha, me procurando com uma urgência que me fez arquear as costas e soltar um gemido abafado que se perdeu na penumbra.
—Quero que te vejam —ele sussurrou no meu ouvido, com a voz rouca de tesão.
Ele me agarrou pelos quadris e me levantou alguns centímetros para me acomodar na borda do sofá. Me penetrou de uma só vez, seco, profundo, me preenchendo por completo sem aviso, sem proteção, sentindo o calor cru dos nossos corpos se chocando naquela posição.
Foi um impacto visceral. Minhas unhas cravaram nos ombros dele, enquanto o ritmo ficava selvagem. Num momento, percebi que não estávamos sozinhos naquele cubículo. Um casal que estava no canto, meio escondido pelas sombras, tinha ficado parado, nos observando. O cara me percorria com o olhar, cravando os olhos no lugar exato onde Ignacio me comia sem piedade no sofá, e a mulher, ao lado dele, se acariciava os lábios com uma lentidão que Isso me excitou ainda mais.
Ignacio também viu. Em vez de me cobrir ou pedir privacidade, ele me segurou pelos quadris com mais força, me obrigando a me inclinar pra frente pra que todo mundo tivesse uma vista melhor de como eu me abria pras investidas dele.
— Olha ela — Ignacio disse pro cara, ofegante, com uma arrogância que me fez vibrar —. Olha como ela fica quando sabe que tão olhando pra ela.
O cara não desviou o olhar nem um milímetro, pelo contrário, se aproximou um pouco mais, curtindo o espetáculo de me ver me desmontando de prazer naquele banquinho. Eu sentia cada investida do Ignacio como uma pancada de fogo, me sentindo descaradamente exposta, com a pele úmida e o coração prestes a explodir.
Não teve freio, nem cuidado, nem disfarce. Só o som da pele batendo, o fôlego dos outros que estavam ali, do lado, e o olhar fixo, faminto, daqueles desconhecidos que se alimentavam da nossa sacanagem.
Quando o Ignacio finalmente me pegou pela cintura e gozou dentro de mim com um rugido contido, eu desabei contra o peito dele, tremendo, encharcada de suor, enquanto sentia o olhar daquele casal ainda cravado no meu corpo, curtindo o que a gente acabava de fazer.
Ignacio me deu um beijo cheio de gosto de nós dois e sussurrou no meu ouvido, roçando os lábios:
— A gente só tá começando.
No carro, voltando pra casa, o silêncio era denso, pesado de adrenalina.
— Você se arrepende? — ele quebrou o gelo.
Olhei pela janela as luzes da estrada.
— Não, de jeito nenhum.
— Você gostou?
— Gostei que a gente tava junto nisso... e de ver o que acontece com você me vendo lá dentro.
Ele sorriu na penumbra e apertou minha mão com força.
Algumas semanas depois, a desculpa foram umas amêijoas num bodegão top de Palermo. Palermo. Mas os dois sabiam perfeitamente onde a noite ia terminar.
Enquanto esperávamos a sobremesa, Ignacio cravou os olhos em mim.
— O quê? — rebati.
— Nada.
— Chega de "nada", tô farta dos seus silêncios. Você quer ir?
Ele assentiu devagar.
— Pro clube.
— Vamos.
Essa o lugar no andar de cima estava lotado de gente. O ar dava pra cortar com faca. Já não éramos turistas perdidos; sabíamos exatamente o que se cozinhava atrás de cada porta. E essa consciência me acendia em dobro.
Num momento da madrugada, as luzes baixaram ainda mais e começou um show no setor principal do clube. Uma apresentação ultra sensual, com corpos seminus se roçando no limite do explícito.
Eu tava ali, colada no Ignacio, sentindo o olhar dele cravado na minha boca. Mas o que me explodiu a cabeça foi perceber que tinha outros olhares em cima de mim. Olhares pesados, diretos, de homens e casais que me percorriam com fome. E pela primeira vez, longe de me intimidar, me deu um calor inexplicável no centro do corpo.
O Ignacio notou. Chegou perto do meu ouvido, com a voz rouca:
— Tudo bem, love? Te incomoda?
— Não... de jeito nenhum. Eu gosto — sussurrei, desafiando ele com os olhos.
Minutos depois, enquanto a gente circulava pelos corredores mais estreitos do clube, um cara roçou de propósito a própria cintura na minha perna ao passar. Fiquei rígida por um segundo. Olhei pro Ignacio: não tinha nenhum traço de ciúme doentio na cara dele; pelo contrário, as pupilas estavam dilatadas, observando cada detalhe, curtindo minha reação como um voyeur descontrolado.
Aí entendi tudo. O jogo já não era só olhar; era ser desejada por outros, e o Ignacio pegar fogo com isso.
Seguindo o impulso, a gente acabou numa área mais aberta onde tinha um sofá largo e fundo, dividido por vários casais que se roçavam na penumbra. A gente se acomodou ali, com o Ignacio me encarando fixo. Poucos segundos depois, um cara se aproximou com passo firme e sentou bem do meu lado. Era alto, de mandíbula marcada, com um sorriso torto e um perfume amadeirado que me envolveu na hora.
Olhei pro Ignacio buscando um sinal, e ele me devolveu um sorriso sombrio, cúmplice, concordando quase imperceptivelmente com a cabeça, como me dando luz verde.
Sem dizer uma única palavra palavra, a mão do desconhecido começou a deslizar devagar pela parte de fora da minha coxa, subindo com uma calma exasperante por baixo do tecido do meu vestido. Senti a eletricidade dos dedos dele percorrendo minha pele. Ao notar o toque e ver a aprovação nos olhos do Ignacio, abri um pouco as pernas de forma quase imperceptível, dando espaço pra ele avançar direto pra minha virilha. Ele alcançou a borda da minha calcinha fio dental, encontrando o tecido completamente encharcado pelo calor que eu já não conseguia segurar. Os dedos dele deslizaram pela umidade, acariciando meus lábios com uma precisão suja que me fez morder o lábio inferior pra não gritar. Virei a cabeça pra procurar o Ignacio: ele tinha se aproximado um pouco mais, esticando a mão pra acariciar minha nuca, com a respiração pesada e os olhos cravados exatamente na mão alheia que me devorava por dentro, aproveitando tanto ou mais do que eu de me ver entregue a outro. — Você gosta que te toquem assim, meu amor? — sussurrou o Ignacio no meu ouvido, com a voz rouca de pura excitação, avivando o fogo com as próprias palavras. O desconhecido me apertou com mais força, buscando meu ritmo enquanto eu me arqueava contra o sofá, sentindo o pulso disparado. Não aguentei mais. Com uma onda de calor que explodiu no meu baixo ventre, gozei contra os dedos dele em silêncio, com os olhos fechados e a alma tremendo, enquanto o Ignacio me beijava a boca saboreando meu próprio clímax, sabendo que já tínhamos cruzado todos os limites possíveis e que não havia volta. Quando voltamos pra casa naquela madrugada, fechamos a porta e explodimos. Nos devoramos de beijos contra a parede da entrada, arrancando a roupa um do outro aos puxões, com uma desesperação quase violenta. Mas algo tinha mudado na nossa intimidade. Já não éramos só nós dois no nosso circuito fechado; éramos nós carregados com a energia suja de tudo que tínhamos visto e vivido no andar de cima. A vida cotidiana voltou a se arrastar com seu peso habitual: oficina, academia, as corridas, o trânsito da zona sul. E foi no meio dessa monotonia que a Fer apareceu.
Foi uma agência amiga que me mandou ela pra terceirizar a gestão das redes sociais do restaurante dela. A gente teve uma primeira reunião de trabalho por videochamada e depois presencial.
A Fer tinha quarenta e seis anos, um corpão imponente, zero enrolação e uma segurança arrogante que te atropelava.
— Preciso que isso exploda, Nati — ela me falou no escritório dela, apoiando os antebraços na mesa e cravando os olhos claros em mim sem piscar—. Que o lugar se mexa de verdade com o que a gente publica.
— Bom, pra isso eu preciso de material real, fotos do balcão, do movimento — respondi cruzando as pernas.
— Perfeito, a gente combina pra você vir tirar fotos num dia de semana à tarde com tudo montado.
A gente se despediu com um aperto de mão firme, formal. Mas desde aquela tarde, o celular começou a acumular notificações que iam um pouco além do estritamente profissional, com comentários por alto que mediam o terreno.
Uma noite, jantando com o Ignacio, o assunto veio à tona.
— Como foi com a Fer, a cliente nova? — ele perguntou cortando um bife.
— Bem, é intensa, mas trabalha firme.
— Ela é tão direta quanto você me contou?
— Demais. Ela fala as coisas na cara, sem filtro.
O Ignacio me encarou, largando o garfo no prato.
— Ela te deu em cima?
Eu ri nervosa.
— O quê? Não, só trabalho.
— Nati... eu te conheço. Teve algum flerte?
— Bom... digamos que ela me mandou uma mensagem meio tarde hoje, nada demais.
Ele ficou em silêncio, me analisando com um sorriso torto que eu não gostei nada.
— Sabe o quê... você podia dar uma segurada no jogo dela.
Eu o encarei de olhos bem abertos.
— Você tá louco? Por que você quer que eu corresponda o jogo de uma cliente?
— Sei lá... me dá curiosidade saber até onde essa mina vai, e o que acontece com você quando alguém que não sou eu mexe com a sua cabeça.
De novo aquela maldita palavra.CuriosidadeMe aproximei dele, sentei no colo dele e mordi o lábio inferior dele com raiva e desejo na mesma medida.
— Você é completamente louco, meu amor.
— Foi você que me deixou assim — ele sussurrou, me segurando firme pela cintura e me apertando contra o pau dele —. Ou vai me dizer que essa ideia não te excita um pouco?
Fiquei em silêncio, apoiando a cabeça no ombro dele. Sabia que ele tinha razão. A gente já não era mais um casal comum. Tínhamos aberto uma porta invisível, e do outro lado do limiar, na noite escura, Fer era só a primeira faísca de um incêndio que a gente já não ia conseguir apagar.

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