A puta do time 2 - A Viagem

A Viagem
A noite se arrastou para mim. Fui me deitar depois da meia-noite com os olhos abertos e o teto como única companhia, repassando cada palavra daquela conversa no escritório como se pudesse encontrar algum detalhe que eu tivesse interpretado errado. Alguma saída que não tinha visto. *Disponível para mim a qualquer momento.* *Dia e noite, se precisar.* Não tinha interpretado nada errado. Dormi em intervalos curtos e sem descanso, e às seis da manhã já estava sentada na beira da cama com a mala vazia na minha frente e uma única pergunta na cabeça: o que se leva para uma coisa dessas? Roupas confortáveis, ele tinha dito. Sem mais detalhes. Abri o armário e olhei como se fosse a primeira vez. Eu tinha de tudo: jeans, blusas, vestidos de verão, um par de saltos que usava para sair, saltos de trabalho, tênis velhos. O que eu não tinha, percebi, era roupa esportiva. Nem uma única peça pensada para ficar no sol num campo de futebol por vários dias. Comecei a arrumar o que tinha: dois jeans, umas blusas, as camisetas mais confortáveis que encontrei, os tênis. Um par de saltos quase por reflexo, porque eu sempre levo um par de saltos para qualquer lugar. A nécessaire, os carregadores, o livro que nunca termino. E então cheguei na gaveta de calcinhas. Abri sem pensar muito e comecei a tirar as coisas. Os conjuntos do dia a dia, algodão simples, nada de especial. Mas no fundo da gaveta, dobradas com aquele cuidado inútil que a gente tem com as coisas que quase nunca usa, estavam as outras: umas calcinhas fio dental de renda, um body preto que eu tinha comprado há dois anos para uma noite que no fim não foi nada demais, umas lingeries finas que eu guardava caso tivesse sorte nas poucas vezes que saía para alguma festa.A puta do time 2 - A ViagemCoisa que já não fazia há tempos. Olhei para elas. Deixei de lado. Continuei fazendo as malas. Mas quando fechei a mala, elas estavam lá dentro. Não soube me explicar direito por quê. Disse a mim mesma que era por precaução, que a gente nunca sabe, que não fazia mal levá-las. Mas em algum lugar mais honesto do que esses argumentos, eu sabia que minha mente tinha me pregado uma peça, e que o melhor era não pensar muito nisso. Fechei o zíper da mala com decisão e fui acordar o Mateo. Não precisou. Já estava acordado. Encontrei ele no quarto com a mochila pronta em cima da cama, penteado e vestido, mexendo no celular com aquela energia contida que ele tinha quando estava muito empolgado mas tentava não demonstrar demais. Meu coração se encheu de alegria ao vê-lo assim. —Mãe, já são sete e quinze. —Eu sei, eu sei. —Entrei e ajustei a gola da camiseta dele, um gesto automático de mãe que ele tolerou por apenas um segundo antes de se afastar com suavidade. —Mãe. —Me olhou com aquela mistura de carinho e vergonha adolescente que eu já conhecia bem—. Sobre o torneio... queria te pedir uma coisa. —Fala. Ele hesitou um momento, procurando as palavras. —Sei que você vai estar lá ajudando e tal. E agradeço muito, de verdade. Mas... podemos combinar uma coisa? Que você não fique o tempo todo perto de mim. Que se me ver no campo ou no refeitório com a galera, não venha me cumprimentar nem nada assim. E nada de apelidos nem de... —Mateo. —É que os caras já me olham estranho por causa da promoção. Se ainda por cima minha mãe ficar me seguindo por todo lado... —Entendi —interrompi, sem me ofender—. Fica tranquilo. Vou na função de assistente, não de mãe. Faço meu trabalho e deixo você fazer o seu. Ele soltou o ar que estava segurando. —Valeu, mãe. —E num gesto que guardou para quando ninguém pudesse ver, me deu um abraço rápido e apertado—. Vamos, que não quero chegar atrasado. O estacionamento do clube às oito da manhã era um caos organizado. A van do clube estava estacionada com o porta-malas aberto e as bolsas se empilhando numa corrente humana. informal. Parei na entrada e contei sem querer.futebolUm, cinco, dez, quinze... vinte jogadores. Mais o treinador. Vinte e um homens. E eu. Não sei por que não tinha dimensionado isso até aquele momento. No escritório, no carro voltando pra casa, nas horas de insônia da noite anterior, eu tinha pensado no acordo, no Mateo, no Carlos. Mas não tinha pensado nisso: em ser a única mulher numa viagem de vários dias com vinte e um homens que não sabiam nada sobre por que eu estava ali. Observei eles por um instante da entrada. Eram jovens na maioria, fortes, com aquela energia dos vinte anos que ocupa mais espaço do que precisa. Alguns esticados perto da van, outros em grupinhos com o celular na mão. E no centro de um desses grupos, impossível de ignorar, estava o que claramente ditava o tom de tudo. Alto. Muito alto. Moreno, de ombros largos e um sorriso que parecia saber de antemão que ia cair nas graças de todo mundo. Falava com aquela confiança de quem nunca precisou conquistar nada, e os que estavam ao redor riam antes dele terminar as frases. Alguém chamou pelo nome do outro lado do grupo. Diego. Não soube mais nada sobre ele naquele momento, mas bastou pra entender o lugar dele no time. Mateo estava na margem do grupo maior, ouvindo uma conversa sem entrar de vez nela. Respondiam quando ele falava, incluíam se alguém olhasse diretamente pra ele, mas tinha aquela distância invisível de quem chegou por ordem de cima e ainda não conquistou o terreno. Ele disfarçava bem, com aquele sorriso fácil que herdou de algum lugar que não foi eu. Mas eu vi. Carlos estava na porta da van, de costas, com uma planilha na mão e uma caneta que usava pra ir marcando nomes enquanto os jogadores subiam. Quando me aproximei com minha mala, ele levantou o olhar. Me percorreu de cima a baixo. Devagar. A calça jeans justa, o tênis, a blusa. Um olhar que registrou tudo em dois segundos, depois subiu até meu rosto com uma expressão que não era exatamente uma... sorriso, mas se aproximava dela. —Que bom que você decidiu vir, Elena. —A voz dele era baixa, quase privada, embora estivéssemos no meio do grupo todo—. Vai ver que a gente vai se divertir muito. A última frase veio com aquele peso particular dele, o que transformava qualquer coisa em algo mais do que parecia. Ele segurou meu olhar por um segundo a mais antes de voltar pra planilha. —Sobe. A gente sai em cinco minutos.vadiaSegui a recomendação do Mateo sem que ele precisasse repetir: me acomodei no primeiro assento livre atrás do motorista, perto da frente, longe do fundo onde estavam os jogadores. Deixei a bolsa no colo e olhei pela janela enquanto o barulho do grupo enchia a van de vozes e risadas que não eram pra mim. Carlos subiu por último. Percorreu o corredor com aquele jeito de andar dele, sem pressa, como se o tempo pertencesse a ele, e sentou no assento do lado, junto ao corredor, tão perto que o braço dele quase roçou o meu quando ele se acomodou. Durante a primeira hora ele não falou. Mexeu no celular, fez ligações curtas com voz baixa, marcou coisas na planilha. Eu olhava as placas da estrada e fingia estar muito interessada na paisagem. Foi ele quem quebrou o silêncio, depois de mais de uma hora, com aquela voz que caía dois tons quando ele não queria que mais ninguém ouvisse. —Como você dormiu? —Bem — falei, sem me virar. —Você mente muito mal pra ser uma pessoa tão gentil, Elena. Me virei. Ele tinha uma expressão que não era exatamente um sorriso, mas chegava bem perto. —Não tô mentindo. —Quem dorme bem não tem essas olheiras. —Ele fez uma pausa—. Embora tenha que admitir que ficam bem em você. Senti o calor subindo pelo pescoço e voltei o olhar pra janela. —Você é sempre tão direto assim, treinador? —Sempre. Te incomoda? —Depende do que você diz. —Limite interessante. —Ouvi ele se acomodar no assento—. Então vou ter que medir bem minhas palavras. Não queria cruzar nenhuma linha... desnecessariamente. A última palavra chegou com um peso particular, como se "desnecessariamente" implicasse que tinha linhas que valiam a pena cruzar. Me forcei a não responder. Um momento de silêncio. Depois, com uma mudança de tom tão repentina que demorei um segundo pra acompanhar: —Você já viajou antes com o Mateo pra algum torneio? —Não. Nunca pra um assim. —E como você se sente? Pensei na resposta por um momento. —Um pouco deslocada, se eu for sincera. Como se eu não me encaixasse aqui. —Isso muda — ele disse, com aquela calma —sua—. O corpo aprende a relaxar mesmo que a cabeça ainda esteja resistindo. Com o tempo a gente se adapta a situações novas, às incomodações. Acaba encontrando seu lugar até onde menos esperava. Não respondi. Ele também não acrescentou nada. Mas a frase ficou pairando entre nós dois enquanto a estrada continuava se desenrolando lá fora e o barulho de fundo da van ficava mais distante. Um tempo depois ele se inclinou levemente para pegar algo no bolso do banco da frente. O ombro dele roçou no meu. O contato durou menos de um segundo e ele não comentou nem desviou. Deixou passar como se fosse algo natural. Não era. Ou era, e esse era exatamente o problema. —Tem uma coisa que preciso esclarecer sobre a hospedagem —disse então, guardando a garrafa de água que tinha pego. Expliquei com o olhar que estava ouvindo. —Os quartos estavam reservados há semanas para o time. Quatro jogadores por quarto. Não tinha previsto nenhuma mudança de última hora no grupo. —Fez uma pausa breve—. Tem duas opções possíveis: reorganizamos os jogadores e damos um quarto pra você e pro Mateo, ou... —Ou? —Ou você divide quarto comigo. Ele disse isso olhando pra frente, sem se virar, sem mudar a expressão. —Sei o que você tá pensando —continuou—. Que a escolha deveria ser sua. Mas já tomei a decisão. —Virou só um pouco a cabeça na minha direção—. O Mateo precisa se integrar ao time sem privilégios visíveis. Se a mãe dele ganhar um quarto separado enquanto os outros dormem de quatro, o trabalho que fizemos pra que ele seja aceito complica. Não é uma opção que beneficie seu filho. Abri a boca. Fechei. —Além disso —acrescentou, com aquela voz baixa que não passava dos nossos dois assentos—, dividir quarto vai facilitar que você cumpra suas funções. Dia e noite, lembra. O eco daquela frase do escritório, repetida agora na van em movimento com vinte jogadores às nossas costas, caiu no meu estômago com um peso que não soube se era medo ou algo mais difícil de nomear. Não disse nada. Carlos voltou a olhar para frente e tirou de novo a planilha, como se o assunto estivesse resolvido. Porque para ele, supus, estava. Olhei para o fundo da van. Mateo estava com os fones de ouvido e os olhos fechados, alheio a tudo, com aquela cara de quem dorme ou finge dormir para não ter que falar com ninguém. Voltei o olhar para a janela e não o tirei de lá até chegarmos. O hotel era funcional e limpo, daqueles pensados para grupos esportivos: corredores compridos, quartos idênticos, cheiro de desinfetante e ar-condicionado constante. Carlos distribuiu as chaves no lobby com a eficiência de sempre. Os jogadores pegaram as suas com o entusiasmo barulhento de quem passou horas preso numa van. Mateo recebeu a dele junto com três companheiros e me lançou um olhar rápido do outro lado do lobby, um olhar que perguntava sem perguntar. Sorri levemente para ele, um gesto que esperava que dissesse *tô bem, vai na boa*. Ele foi. Quando o grupo se dispersou, Carlos se aproximou com uma chave na mão. —Quarto 214. —Me entregou sem cerimônia—. Sobe, deixa suas coisas e desce na hora. Preciso te explicar suas funções antes do almoço. —E o senhor? —perguntei, olhando a chave. —Também o 214. Disse isso igual a tudo o resto: como um fato administrativo sem maior importância. Já se afastava em direção ao elevador quando acrescentou, sem se virar: —E usa algo mais confortável se tiver. Vai precisar esta tarde. Subi sozinha. Abri a porta do quarto, empurrei a mala para dentro sem olhar direito e a deixei fechada junto à parede. Tinha o tempo justo para descer. Não reparei na cama. O almoço foi no refeitório do hotel, mesas compridas, pratos servidos, o barulho coletivo de vinte jogadores famintos depois de uma viagem longa. Sentei numa ponta, perto da janela, com o prato à minha frente e a sensação constante de ser o único elemento que não se encaixava na imagem. Carlos sentou na cabeceira da mesa principal. Comeu rápido, com aquela eficiência de sempre, e antes que os outros terminassem já estava de pé com a xícara de café na mão, me olhando do outro lado do refeitório. —Elena. Quando terminar, o material de treino está no depósito do hotel, sala B. Bolas, cones, coletes, as bolsas do time. Tudo tem que estar no campo antes das três. —Ele fez uma pausa—. Se precisar de ajuda, pode pedir pro Mateo. Olhei pra ele. No fundo da mesa, Mateo estava no meio de uma conversa com dois colegas, rindo de algo, mais integrado do que de manhã. Diego, o moreno alto, tinha dito alguma coisa que o fez rir de verdade, não com aquele riso educado de quem quer agradar, mas com um genuíno. Era a primeira vez no dia que eu o via assim. —Não precisa —respondi—. Eu dou conta. Carlos me olhou por um instante. Algo na expressão dele, breve e ilegível, parecia satisfação. —Como quiser.maeO que se seguiu foi a hora mais longa da semana. A sala B era um depósito pequeno com mais material do que eu esperava. Contei dezesseis bolas, quatro bolsas grandes com coletes e cones, duas bolsas com os uniformes de treino dobrados, e um carrinho enferrujado com uma roda que girava pro lado que queria. Fiz três viagens. De jeans apertado e salto alto. Na segunda viagem já tinha tirado os saltos e andava de meia pelo corredor do hotel, com uma bolsa pendurada em cada ombro e o carrinho na frente, rezando pra não cruzar com ninguém do time. Na terceira, tinha prendido o cabelo e empurrava o carrinho com as duas mãos, com uma concentração que não deixava espaço pra nenhum outro pensamento. Cheguei no campo cinco minutos antes das três. O Carlos já estava lá, com o apito pendurado e a prancheta na mão, me vendo largar a última bolsa na beira do campo com os saltos pendurados nos dedos de uma mão. — Vejo que você entendeu muito bem qual é a sua função aqui — disse. Não era exatamente um elogio. Mas também não era só uma observação. — Cheguei na hora — respondi, com mais firmeza do que sentia. — Você chegou na hora. — Repetiu minhas palavras com uma leve inflexão que as transformava em outra coisa —. E sem pedir ajuda a ninguém. Isso diz muito sobre uma pessoa, Elena. Que faz o que precisa ser feito sem desculpas e sem esperar que alguém te abra o caminho. Me olhou por mais um momento, com aquela calma avaliadora que eu já conhecia. — Bem. Pode ficar pra ver o treino se quiser. Fiquei.serieSentei nas arquibancadas vazias, com os saltos de volta e o cabelo ainda bagunçado, e vi o Mateo treinar por noventa minutos. Vi ele chegar primeiro na bola em duas jogadas seguidas. Vi ele recuperar uma bola que ninguém esperava que ele recuperasse e sair conduzindo com aquela elegância dele que me lembrava o pai quando era jovem. Vi ele errar, receber a correção do Carlos com a cabeça baixa e tentar de novo sem reclamar. E vi ele, no final do treino, receber um tapinha no ombro do Diego, o moreno metido que ditava o tom de tudo, e responder com um sorriso que dessa vez não tinha nada de forçado. Mordi o lábio pra não gritar de alívio. Recolher o material depois do treino foi mais rápido do que levar. Os jogadores ajudaram a juntar as bolas sem ninguém pedir, e quando o campo ficou vazio eu já tinha tudo carregado no carrinho. Os uniformes de treino, encharcados e pesados, coloquei numa sacola separada e levei pra lavanderia do hotel seguindo as instruções da recepção. A mulher da lavanderia olhou pros meus pés quando cheguei. — Veio assim o dia todo, love? — O dia todo — confirmei. Ela me olhou com uma compaixão que agradeci em silêncio. Quando entrei no refeitório pro jantar, as mesas estavam quase vazias. O time tinha jantado cedo. Alguns jogadores ainda terminavam a sobremesa, mas a maioria já se retirava pros corredores em grupos pequenos, com aquela energia apagada do cansaço físico de verdade. O Diego passou perto da minha mesa com outros dois, e me lançou um olhar rápido e curioso, de quem só agora percebe que tem alguém que não encaixa bem no esquema do grupo. Não disse nada. Eu estava me servindo quando o Mateo apareceu na porta do refeitório, já com roupa de sair, com o cabelo molhado do banho. — Mãe. — Ele se aproximou rápido, em voz baixa, como se não quisesse que os últimos jogadores que restavam o vissem falando com a mãe—. Queria te falar uma coisa. — Fala. — Obrigado. Por a do treinador, por conseguir que me convocassem. Hoje me saí bem. Senti. Senti também, quis dizer pra ele. Te vi. —Fico feliz, filho. Ele assentiu. Hesitou um segundo. —Você tá bem? —Perfeitamente —falei, com o sorriso mais tranquilo que encontrei—. Vai, descansa. Ele foi. O refeitório ficou quase vazio. Me servi devagar, comi sem pressa, e pela primeira vez em todo o dia não precisei estar em lugar nenhum nem fazer nada pra ninguém. Devia ter sido um alívio. Mas o silêncio do refeitório vazio deixava espaço demais pra pensar no que vinha depois.capitulo 2Subi pro segundo andar com os pés doloridos e a cabeça cheia de um barulho surdo que não era exatamente medo, mas também não era calma. O corredor estava em silêncio. Alguns quartos já tinham a luz apagada por baixo da porta. Parei na frente do 214. Respirei. Abri. A primeira coisa que vi foi minha mala. Estava aberta sobre a cadeira no canto, onde eu tinha deixado, mas não do jeito que eu tinha deixado. Tinham revirado ela. A calcinha estava de um lado, os necessaires deslocados, tudo com aquele ordem parcial de quem procura algo com método e sem pressa. E na borda da cadeira, dobradas com um capricho que me perturbou mais do que qualquer bagunça, estavam as tangas. As que eu tinha empacotado sem saber bem por quê. Postas de lado, à vista, como se alguém tivesse separado elas do resto com toda a intenção do mundo.continuacaoCarlos estava deitado na cama. Uma cama de casal só que eu não tinha visto direito quando entrei rápido pra deixar a mala à tarde. Ele estava com um livro aberto no peito e me olhou por cima das páginas com aquela calma que já estava ficando mais difícil de aguentar do que qualquer agressividade. —Boa noite, Elena. Vejo que finalmente terminou com os uniformes. Fiquei parada na porta sem fechá-la completamente. —Você mexeu na minha mala. —Mexi. —Ele disse sem o menor sinal de desculpa—. Te falei pra trazer roupa confortável. Precisava saber com o que contava pra te organizar o uniforme de amanhã. —Isso não te dá o direito de... —Estou um pouco decepcionado, se for sincero. —Ele fechou o livro e se ergueu levemente, apoiando-se na cabeceira com os braços cruzados—. Nada esportivo, nada funcional. Jeans, saltos, blusas. Vi hoje no campo: você se esforçou o dobro pra fazer metade do trabalho. Abri a boca. Ele levantou uma mão, sem aumentar a voz. —Mas isso. —Apontou as calcinhas fio dental dobradas na borda da cadeira com um gesto tranquilo, como se estivesse apontando um relatório na mesa dele—. Isso eu gostei. O calor subiu de uma vez até minhas orelhas. Quis dizer algo e não encontrei nada que não soasse ridículo. —E como vejo que você também gosta de usá-las —continuou, com aquela voz baixa que não subia nem um tom—, seria bom você começar a usá-las a partir de amanhã. Debaixo do uniforme que vou conseguir pra você, claro. —Eu escolho minha roupa íntima. —Escolhia —disse, com simplicidade. Não como uma ameaça. Como uma correção—. De agora em diante, eu vou te dizer o que vestir. Ficou claro hoje que você não tem experiência nisso, Elena. Não em trabalho de campo, não em o que trazer pra um torneio. Então, por enquanto, confia no meu critério. O silêncio que se seguiu foi longo e denso. Ele tinha razão sobre o campo e eu sabia. Isso era o mais irritante de tudo: ele tinha razão naquela parte, o que tornava mais difícil contestar o resto. —Está tarde —disse finalmente, com o tom de quem encerra uma reunião—. O dia Foi longo para os dois. Então só por esta noite vamos descansar sem... nos divertir. Ele disse isso enquanto deixava o livro na mesinha de cabeceira e se levantava. Tirou a camisa esportiva com aquela naturalidade de quem está completamente sozinho, dobrou-a sobre o encosto da cadeira. Depois a calça. Ficou só de cueca escura, e eu entendi que ele não ia vestir mais nada. Tentei não olhar. Tentei de verdade. Mas quando me virei para a mala para pegar o pijama, a imagem já estava guardada em algum lugar sem que eu tivesse convidado: os ombros largos, o peito sólido, o abdômen de alguém que tinha trabalhado o corpo por décadas e não tinha parado de fazer isso. Não era o corpo de um homem jovem. Era algo diferente, mais denso, mais construído. Com aquela solidez que não precisa se provar. Peguei o pijama e me tranquei no banheiro. Sob a luz dura do banheiro, com a água do chuveiro ainda morna na pele, segurei a blusinha e o shorts na minha frente e me dei conta, pela primeira vez no dia, do que eu tinha empacotado. O tecido era macio e fino. A blusinha tinha renda no decote e nas alças, e na luz direta deixava adivinhar mais do que cobria. O shorts preto mal chegava no meio da coxa. No meu quarto em casa, com a porta fechada, nunca tinham sido problema para ninguém. Aquele não era o meu quarto em casa. Procurei na roupa que tinha levado ao banheiro: o jeans do dia, a blusa. Nada útil. Pensei na mala lá fora, em sair de toalha para pegar algo mais adequado, e descartei a ideia na hora. Vesti a blusinha. O tecido deslizou pelos meus ombros e se ajustou ao corpo com aquela precisão suave que em outras circunstâncias nunca tinha me parecido um problema. Me olhei no espelho. A renda do decote marcava a linha do sutiã preto que eu estava usando, e o tecido translúcido deixava adivinhar a curva do peito com uma clareza que me fez desviar o olhar. O shorts. A cintura elástica se assentou no quadril e o tecido caiu até o borda da coxa. Me olhei de novo no espelho, completa desta vez. Respirei fundo. Não tinha outra opção. Abri a porta do banheiro.historias eroticasCarlos estava deitado do seu lado da cama com o celular na mão. Ele ergueu os olhos quando entrei, e os baixou devagar. A renda, o tecido fino, a curva das pernas sob os shorts pretos. Um olhar que tomou seu tempo sem pedir permissão, sem nenhuma intenção de disfarçar. E então apareceu aquele sorriso. Lento. Contido. O de alguém que acabou de confirmar algo que já sabia, e guarda com cuidado, como se tivesse todo o tempo do mundo para voltar a isso mais tarde. Ele não disse nada. Atravessei o quarto com a vista reta e me enfiei debaixo dos lençóis do meu lado com toda a dignidade que consegui reunir. Carlos apagou a luz da mesinha dele. Na escuridão, a voz dele soou exatamente como sempre, tranquila, sem pressa, como se nada do que tinha acontecido antes tivesse rolado: — Amanhã eu cuido de organizar tudo. Você descansa. Uma pausa curta. — Ah, e de manhã te deixo o uniforme na cadeira. Quero que você experimente antes de descer. Não era uma sugestão. — Entendido — falei, com a vista no teto. — Bem. Descansa, Elena. Amanhã vai ser um dia longo. Silêncio. A escuridão se assentou sobre o quarto, sobre a cama única, sobre o espaço de trinta centímetros entre o corpo dele e o meu. Ouvi a respiração dele ficar lenta e regular com uma facilidade que me pareceu quase ofensiva. Fechei os olhos. E naquele silêncio quieto, sem conseguir evitar, apareceu a imagem que eu tinha tentado não guardar: os ombros largos, o peito sólido, aquela solidez construída ao longo de décadas que não precisava se provar pra ninguém. Empurrei ela pro lado. Mas também apareceu outra coisa, mais desconfortável: a imagem das minhas calcinhas dobradas na borda da cadeira. A voz do Carlos dizendo isso eu gostei com aquela calma que não subia nem um tom. E a pergunta, pegajosa e sem resposta fácil, de se o que eu tinha sentido naquele momento era só indignação. Só indignação. Repeti isso pra mim mesma até o cansaço do dia, as três viagens com o carrinho, os saltos no campo, o jantar sozinha em a sala de jantar vazia, tudo isso junto pesou mais do que qualquer pensamento. E eu dormi sem ter respondido nada. ------ Nota do autor: Espero que você tenha curtido esta parte da puta do Time. 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