O pai do Tomi.Não planejei isso. É a primeira coisa que tenho que dizer, e dessa vez nem eu acredito em mim.
Ricardo. É assim que ele se chama. Cinquenta e seis anos, separado da mãe do Tomi desde que o Tomi tinha quinze, fisioterapeuta, consultório em Belgrano, apartamento em Belgrano, vida em Belgrano. Um cara calado que ria pouco e, quando ria, era sempre por algo que valia a pena. Eu o via nos aniversários, em algum churrasco, na ceia de ano novo que o Tomi organizava em casa porque a mãe não queria e alguém tinha que fazer. Ricardo vinha, trazia vinho bom, sentava num canto, falava pouco, ia embora cedo.
Nunca tinha reparado nele. Nunca. Isso é verdade.
Comecei a reparar num domingo de maio. O Tomi tinha me levado ao consultório do Ricardo porque eu estava com uma contratura na lombar que não passava com nada. Três semanas com as costas duras. O Tomi falou: vai com meu pai, ele é bom, e eu fui.
Ricardo me mandou deitar de bruços na maca. Levantou minha camiseta até as omoplatas. Tocou minhas costas com as mãos e eu fechei os olhos e alguma coisa aconteceu. Não foi sexual. Não ainda. Foi que as mãos do Ricardo eram mãos que sabiam. Mãos que tinham tocado milhares de costas e encontravam o ponto exato sem perguntar. Mãos profissionais, secas, firmes, que se moviam pelas minhas costas como se meu corpo fosse um mapa que ele já conhecia.
Ele me tratou por quarenta minutos. Quase não falou. Perguntou onde doía, eu disse, ele começou. Eu estava com o rosto enfiado no buraco da maca, os olhos fechados, e em algum momento as mãos dele desceram para a região lombar, bem em cima da bunda, e ele apertou com os polegares dos lados da coluna e eu soltei um barulho. Um gemido de dor que parecia outra coisa. Ricardo não se abalou. Continuou.
Quando terminou, me levantei, abaixei a camiseta, agradeci. Ele disse pra voltar em uma semana. Perguntei quanto devia. Ele disse: nada, você é da família.
Voltei na semana seguinte. E na outra. A lombar melhorou na segunda sessão, mas eu continuei. indo. Não falei isso pra mim mesma assim. Falei que era manutenção, que era bom prevenir, que o Ricardo era um bom profissional. Falei isso por mais quatro sessões. Na quinta vez que fui, já sabia por que estava indo. Não era que o Ricardo me atraía. Ricardo era o pai do meu namorado. Tinha trinta anos a mais que eu. Tinha os cabelos grisalhos do Tomi daqui a vinte anos e os olhos do Tomi, mas com mais peso dentro, e as mãos do Tomi, mas com mais estrada. E era exatamente esse o problema. Que toda vez que ele colocava as mãos em mim, eu via o Tomi daqui a trinta anos, e isso me fazia algo que eu não conseguia explicar. Uma vertigem. Uma coisa de querer olhar atrás da cortina. De querer saber de onde vinha o Tomi, de onde vinham aquelas mãos, aquela paciência, aquela forma de tocar sem pedir permissão porque a permissão já estava dada. Na sexta sessão, Ricardo me disse que já estava bom, que a contratura tinha ido embora, que eu não precisava voltar. "Posso voltar mesmo assim?" Ele me olhou. Foi a primeira vez que ele me olhou de verdade, não como a namorada do filho dele, não como uma paciente. Ele me olhou como se olha para alguém que acabou de dizer algo que os dois entendem. "Pode." Voltei. Continuei indo aos domingos de manhã, quando o Tomi jogava futebol com os caras. Eu dizia que ia caminhar. Ia pra Belgrano. Ricardo me fazia entrar, me fazia deitar na maca, trabalhava minhas costas que já não doíam mais. As sessões foram se alongando. De quarenta minutos para uma hora. De uma hora para a gente ficar tomando um café na cozinha do apartamento dele, que era um apartamento de homem sozinho, limpo mas vazio, sem quadros, com uma biblioteca enorme na sala e uma cafeteira italiana em cima do fogão. A gente conversava. Sobre ele. Sobre a vida dele. Sobre os anos com a mãe do Tomi, como tinham se separado, como tinha sido criar um filho que se parecia mais com ela do que com ele. Ricardo falava devagar, escolhendo as palavras, sem pressa. E eu o escutava com uma atenção que era demais para uma conversa com o sogro. Um domingo, ele Fiquei olhando pras mãos dele enquanto mexia o café. Percebi que tava olhando do jeito que a gente olha pras mãos de alguém que interessa. Levantei a vista. Ele tava me olhando olhando pras mãos dele.
Não disse nada. Tomou o café. Fui embora.
No metrô de volta, segurei o rosto com as duas mãos e me perguntei o que cê tá fazendo. Não me respondi.
Naquela noite transei com o Tomi e fechei os olhos e pensei nas mãos do pai dele e gozei mais rápido que o normal e depois fiquei encarando o teto com o Tomi dormindo do lado e senti algo novo. Algo que nos outros capítulos dessa história nunca tinha sentido. Algo que parecia uma rachadura.
Não ia contar pro Tomi.
Essa decisão tomei rápido, sem pensar, do jeito que a gente toma decisões que já tomou antes de formular. Não ia contar porque não tinha nada pra contar. Porque não tinha acontecido nada. Porque provavelmente não ia acontecer nada. E porque se eu contasse, o que quebrava não era o casal. O que quebrava era a relação entre o Tomi e o pai dele, que já era frágil, que já tinha rachaduras velhas, e eu não tinha direito de quebrar isso.
Repeti isso pra mim mesma três domingos seguidos indo pra Belgrano.
No quarto domingo, Ricardo abriu a porta e tava diferente. Bermuda, camiseta cinza, descalço. Não tinha preparado a maca. Tinha a mesa da cozinha posta pra dois. Medialunas, café, suco.
"Hoje não tem sessão", ele disse. "Hoje é um café da manhã."
Sentei. Café da manhã. Ele falou de um livro que tava lendo. Eu falei de um podcast que a gente tava produzindo no estúdio. Em algum momento veio um silêncio longo e os dois soubemos ao mesmo tempo que o silêncio era a verdade e tudo o resto era enchimento.
"Agostina."
"Sim."
"O que a gente tá fazendo?"
"Não sei."
"Sabe sim."
"Sei sim."
Ricardo passou a mão no rosto. Vi o Tomi naquele gesto. Exatamente o Tomi. A mesma mão, mais gasta, passando pelo mesmo rosto, mais marcado.
"Eu não deveria."
"Eu também não."
"Você é a namorada do meu filho."
"Já sei."
"Se isso acontecer, é um desastre."
"Já sei."
"Então por que você continua vindo?"
Não respondi. Olhei pra ele. Sustentei o olhar por mais tempo do que era confortável. Ricardo baixou os olhos primeiro. Levantou da mesa. Levou os pratos pra pia. Fiquei sentada olhando pra costa dele.
Levantei. Caminhei até ele. Parei atrás. Coloquei a mão no ombro dele. Senti o músculo por baixo da camiseta, mais duro do que esperava. Ricardo ficou parado, de costas pra mim, com as mãos na pia.
"Você não vai se virar", falei.
"Se eu me virar, acontece."
"Já sei."
"Você quer que aconteça?"
"Sim."
Ele se virou.
Me olhou de cima. Era mais alto que o Tomi. Segurou meu rosto com as duas mãos, as mesmas mãos que tinham trabalhado minhas costas por dois meses, e me beijou. Devagar. De boca fechada primeiro. Depois aberta. Tinha gosto de café e de algo mais, algo que não era o Tomi, algo mais escuro, com mais terra por dentro. Agarrei a camiseta dele com as duas mãos. Puxei ele pra perto. Senti que ele tava duro contra minha barriga e isso cortou minha respiração, porque aquilo era real, aquilo era a prova de que eu não tava imaginando, de que esse homem me queria.
Ele se afastou. Me olhou.
"Aqui não."
"Onde?"
"No quarto."
Segui ele pelo corredor. O quarto do Ricardo era como o apartamento dele: uma cama grande, um criado-mudo, um livro virado ao contrário na mesa de cabeceira. Lençóis brancos. Cheiro de limpeza. Cheiro de homem sozinho.
Ele sentou na beira da cama. Eu fiquei de pé. Olhei ele de cima.
"Tô com medo", falei. A primeira vez que dizia isso em voz alta com alguém que não era o Tomi.
"Eu também."
"Mas não disso." Apontei pra mim, pra ele, pro espaço entre nós dois. "Do que vem depois."
Ricardo concordou. Não disse que nada ia acontecer. Não disse que ninguém ia ficar sabendo. Não prometeu nada. Isso foi a coisa mais honesta que alguém fez por mim naquela manhã.
Tirei a camiseta eu mesma. Não esperei ele tirar. Em todos os capítulos anteriores dessa história alguém tinha me despido. Dessa vez eu fiz isso, rápido, sem cerimônia. Regata. Sutiã. Fiquei da cintura pra cima pelada na frente do pai do meu namorado.
Ricardo olhou pras minhas tetas. Olhou do jeito que um homem que não vê umas tetas de perto há muito tempo olha. Com fome e com uma certa reverência. Estendeu a mão. Tocou meu esterno, o osso do meio do peito, com um dedo. Só isso. Esse gesto fez mais por mim do que qualquer outra coisa que já tinham me feito na vida.
Sentei em cima dele, de pernas abertas, na beirada da cama. Beijei ele. Tirei a regata dele. Ele tinha o peito com pelo grisalho, os ombros largos, um corpo que tinha sido igual ao do Tomi e agora era outra coisa. Mais mole nas laterais. Mais largo nas costas. Passei as mãos pelo peito dele. Senti a respiração dele mudar.
Ricardo segurou minha cintura. Me apertou contra ele. Senti o pau duro através da bermuda, contra mim, e me mexi em cima, devagar, me esfregando. Mordi o pescoço dele. Um gemido escapou contra a pele dele e me surpreendi com o quão urgente soava.
"Espera." Ricardo me parou com as mãos na cintura. "Espera um segundo."
"O quê?"
"Quero te olhar."
Ele me olhou. Eu estava em cima dele, pelada da cintura pra cima, com o cabelo caindo no rosto, suada, e ele me olhava como se estivesse tentando entender alguma coisa.
"Você se parece com alguém", ele disse.
"Com quem?"
"Com ninguém. Deixa pra lá."
Não insisti. Tirei a bermuda dele. A cueca. O pau do Ricardo. Vi e o cérebro fez a comparação antes que eu pudesse evitar. Mais grosso que o do Tomi. Menos comprido. Sem a curva do Ivã. Mais escuro. Com mais peso. Com veias que se marcavam diferente. Um pau de homem grande, um pau de cinquenta e seis anos, e isso, em vez de me frear, me acelerou de um jeito que não entendi.
Coloquei a mão nele. Segurei. Senti o pulso. Movi a mão devagar, pra cima e pra baixo, olhando pro rosto dele. Ricardo fechou os olhos. Apertou a mandíbula. Me lembrou o Tomi de um jeito que deu um puxão dentro de mim, algo entre excitação e culpa, as duas coisas entrelaçadas.
Desci pro chão. Me Ajoelhei entre as pernas dele. Chupei ele. Devagar. Eu sabia como fazer aquilo, mas aquela boca era nova, aquela pica era nova, e o corpo pedia pra ir devagar pra registrar tudo. Ricardo colocou a mão na minha cabeça. Não empurrou. Apoiou a mão. Acariciou meu cabelo. Um gesto que me destruiu por ser tão paternal e tão sexual ao mesmo tempo.
Quando senti ele perto, parei. Subi. Terminei de tirar a roupa, a calça jeans, a calcinha, tudo junto, rápido. Montei em cima dele. Ricardo se encostou pra trás na cama, apoiou no encosto. Eu ajoelhei em cima.
"Tem?"
"Na gaveta."
Abri a gaveta. Camisinhas. Peguei uma. Coloquei nele. Com o Tomi a gente nunca usava, eu tomava pílula, mas com Ricardo eu coloquei sem precisar falar. Aquele gesto prático me aterrissou por um segundo. Me lembrou que aquilo era real, que eu tava prestes a foder com o pai do Tomi na cama dele num domingo de manhã enquanto o Tomi corria atrás de uma bola num campo em Núñez pensando que eu tava andando pelo bairro.
Desci em cima dele. Peguei a pica com a mão, apoiei em mim, desci devagar. A grossura. Senti diferente de tudo que já tinha sentido. Mais larga que o Tomi, mais larga que o Iván. Me esticava de um jeito novo. Desci mais um pouco. Mais. Até que ficou inteira dentro e eu fiquei sentada em cima do pai do meu namorado com a pica dele enterrada na minha buceta e as mãos apoiadas no peito dele e o rosto a dez centímetros do dele.
"Deus", falei.
Ricardo segurou minha cintura. Não se mexia. Me deixava no comando. Igual o Tomi. Igual o Tomi e isso me fez pensar que o Tomi tinha aprendido aquilo de algum lugar, que aquela paciência vinha de algum lugar, que talvez viesse daqui, desse homem, desse jeito de tocar sem empurrar. Me deu uma tontura pensar nisso e ao mesmo tempo me excitou de um jeito que me envergonhou.
Comecei a me mexer. Pra cima e pra baixo, devagar. Cada vez que descia, sentia ele me preencher de um jeito que arrancava um barulho curto, um "ah" que escapava. sozinha. Ricardo olhava pro meu rosto. Olhava minhas tetas balançando. Me olhava com uma concentração que não era a do Tomi, que era menos meiga e mais faminta, mais direta, o olhar de um homem que sabe que isso não deveria estar acontecendo e por isso olha com mais atenção, como se pudessem tirar dele.
"Você é linda", ele me disse. Com a voz rouca, mais grave que a do Tomi. "Você é tão linda."
Não falei nada. Coloquei a mão na boca dele. Não pra calá-lo. Pra sentir os lábios dele na palma. Ele beijou. Mordeu um dedo meu. Enfiou meu indicador na boca e chupou olhando nos meus olhos, e eu me mexi mais rápido em cima dele.
Ricardo começou a empurrar de baixo. Achamos um ritmo. Eu descia quando ele subia. A piroca chegava num lugar dentro de mim que era diferente do do Tomi, do do Iván, um lugar que tinha a ver com a grossura, com como me abria, com como preenchia meus lados. Me agarrei nos ombros dele. Finquei as unhas. Ele agarrou minha bunda com as duas mãos e me apertou contra ele, me mantendo no fundo, e eu fiquei ali um segundo, sem me mexer, sentindo ele inteiro, sentindo ele pulsar.
"Mais forte", falei.
Ele me agarrou pela cintura e começou a me comer de baixo com força. Deixei ele no controle, e isso foi estranho, porque nos outros capítulos eu sempre tinha o controle, eu sempre marcava o ritmo, e aqui eu soltei, entreguei, deixei ele me mover em cima como se eu pesasse menos do que peso. E descobri que isso também me dava tesão. Que tinha um prazer em se soltar que não era o mesmo prazer de decidir.
Ricardo comia diferente. Comia como alguém que passa anos sabendo o que funciona. Sem hesitar. Sem perguntar a cada dois segundos se tava bom. Me lendo com o corpo e não com a voz. Quando sentia que eu apertava os olhos, ia mais devagar. Quando sentia que eu fincava as unhas, ia mais forte. Não falava. Me olhava. Essa economia me enlouquecia.
Levantei de cima. Deitei de barriga pra cima. Trouxe ele pra cima de mim puxando pelo braço. Queria sentir a pica dele. peso. Ricardo se acomodou entre minhas pernas. Ele entrou de novo, de uma só vez, e eu senti o peso dele em cima de mim, diferente, mais pesado que o Tomi, com mais corpo, com mais gravidade. Me cobriu inteira. Senti os braços dele nas laterais da minha cabeça. A respiração dele contra o meu rosto. Vi os cabelos brancos de perto. Vi as rugas no canto dos olhos. E pensei algo que não deveria ter pensado: assim vai ser o Tomi daqui a trinta anos. Assim vai foder o Tomi daqui a trinta anos. E eu estou vendo isso agora, estou sentindo isso agora, estou roubando um pedaço do futuro.
"Aí", eu disse. "Aí, aí, não para."
Ricardo me comia devagar e fundo, até o talo, parando um segundo antes de sair. Cruzei as pernas na cintura dele. Apertei com os calcanhares. Me agarrei nas costas dele. Senti os músculos das costas se mexendo debaixo das minhas mãos a cada empurrão.
Comecei a sentir a onda. A onda conhecida que vinha de um lugar novo, porque cada homem me trazia de um lugar diferente, e a do Ricardo vinha da grossura, daquela sensação de estar mais preenchida dos lados, daquela piroca que empurrava minhas paredes com mais superfície.
"Vou gozar."
Ricardo não disse "goza" como o Tomi dizia. Não disse nada. Acelerou. Pegou minha mão, colocou ela acima da minha cabeça contra o travesseiro, entrelaçou os dedos nos meus e apertou, e isso, esse gesto de apertar minha mão enquanto me comia, me quebrou.
Gozei longo. Forte. Fechando as pernas em volta dele, apertando a mão dele, com o rosto contra o pescoço dele, mordendo, com um gemido que saiu de um lugar que eu já conhecia mas que soava diferente aqui, nessa cama que não era minha cama, com esse homem que não era meu homem.
Ricardo gozou um minuto depois. Senti ele se tensionar inteiro, apertar a mandíbula, fazer um barulho curto, seco, e ficar cravado dentro. Eu senti as pulsações através da camisinha, abafadas, diferente de sentir um homem gozar dentro sem nada no meio.
Ele ficou em cima de mim por um tempo. Passei as mãos nas costas dele. Se Eu acariciei devagar. Senti a respiração dele contra meu pescoço. Senti o peso do que a gente tinha acabado de fazer cair sobre mim junto com o peso do corpo dele.
Ele saiu. Tirou a camisinha. Jogou fora. Deitou do meu lado, de barriga pra cima. Nós dois olhando pro teto.
Silêncio longo.
"Você tá bem?", ele perguntou.
E aí eu percebi que era a mesma pergunta que o Tomi fazia depois. A mesma. Com as mesmas palavras. E que provavelmente o Tomi tinha aprendido com ele, com esse homem deitado do meu lado, e aquilo me partiu ao meio de um jeito que não tinha nada a ver com sexo.
"Tô bem."
Não tava bem. Tava um monte de coisas ao mesmo tempo. Tava satisfeita e tava suja e tava surpresa e tava triste e tava ainda com tesão e tava pensando no Tomi e tentando não pensar no Tomi.
"Isso não pode se repetir", falou o Ricardo. Olhando pro teto.
"Já sei."
"Se o Tomi descobrir..."
"Já sei."
"Eu não vou conseguir olhar pra ele."
"Eu também não."
Silêncio. Mais longo que o anterior.
"Você se arrepende?", ele perguntou.
Pensei. Pensei de verdade. Não respondi rápido.
"Não. Mas isso me preocupa mais do que se eu me arrependesse."
Ricardo riu. Uma risada pequena, sem vontade, mais pra soltar o ar do que qualquer outra coisa. Me olhou de lado.
"Você tem vinte e oito anos."
"Vinte e seis."
"Vinte e seis anos e acabou de destruir minha vida."
"Você também se deixou levar."
"É." Pausa. "Me deixei."
Levantei. Me vesti no quarto dele, de costas pra ele, sabendo que ele tava me olhando. Coloquei a calcinha, o sutiã, a jeans, a camiseta. Cada peça que eu vestia era um passo mais longe do que tinha acontecido e um passo mais perto de ter que mentir pro Tomi.
Saí no corredor. Ricardo me seguiu. Na porta, a gente se olhou.
"Tchau", falei.
"Tchau."
Não nos beijamos. Não nos abraçamos. Abri a porta e saí.
No elevador, me olhei no espelho. Tinha a cara igual. Cabelo bagunçado, um pouco corada, mas a cara igual. Esperava me ver diferente, como tinha acontecido nas outras vezes, como naquela primeira noite com o Tomi em que me disse "tenho corpo novo". Não tinha corpo novo. Tinha o mesmo corpo de sempre com um segredo dentro.
No metrô de volta, sentei num banco do fundo. Apoiei a cabeça na janela. Senti entre as pernas aquela coisa do depois, aquela umidade, aquela sensação de ter sido aberta, e senti ela misturada com algo que nos outros capítulos não tinha sentido. Uma coisa amarga. Não culpa exatamente. Algo mais complicado. A certeza de que tinha cruzado uma linha que não era sexual. As outras linhas tinham sido sexuais: anal, ménage, pegging. Linhas do corpo. Essa era uma linha de outra coisa. De lealdade. De família. De confiança.
Cheguei em casa. Tomi estava no sofá, suado, ainda com a roupa de futebol. Sorriu pra mim.
"Como foi a caminhada?"
"Bem."
"Longa?"
"Longa."
Sentei do lado dele. Ele passou o braço por cima de mim. Apoiei no ombro dele. Senti o cheiro do suor do Tomi, limpo, familiar, o cheiro que conheço há anos. E pensei no cheiro do Ricardo, parecido mas diferente, o mesmo código genético com outro percurso.
Tomi me beijou a cabeça.
"Te amo", ele disse.
"Eu também."
E ali, com o rosto enfiado no ombro do Tomi, com o cheiro do pai dele ainda na minha pele por baixo da roupa, pensei na frase que tinha me acompanhado em todos os capítulos anteriores. Isso eu decidi. Isso foi meu. E a frase continuava sendo verdade. Eu tinha decidido. Eu tinha caminhado até o Ricardo, eu tinha posto a mão no ombro dele, eu tinha tirado a camiseta, eu tinha montado em cima. Tudo tinha sido meu.
Mas pela primeira vez a frase não bastava. Pela primeira vez "isso eu decidi" não fechava nada. Não me deixava tranquila. Não me deixava dormir pensando que amanhã ia acordar diferente e que tudo bem.
Porque nas outras vezes o que eu decidia incluía nós dois. O Tomi e eu. A decisão era compartilhada, ou pelo menos era transparente. E dessa vez o que eu tinha decidido era um buraco. Uma coisa que ia viver dentro de mim, sozinha. Sem ar, apodrecendo ou não apodrecendo, mas sozinha.
Naquela noite, Tomi me perguntou se eu queria transar. Falei que tava cansada. Ele me abraçou por trás, como sempre. Me beijou a nuca. Dormiu antes de mim, como sempre.
E eu fiquei acordada, no escuro, com os olhos abertos, pensando numa frase nova. Uma que não tinha passado pela minha cabeça em toda essa história.
Isso quem decidiu fui eu. E vou ter que guardar pra mim.
Ricardo. É assim que ele se chama. Cinquenta e seis anos, separado da mãe do Tomi desde que o Tomi tinha quinze, fisioterapeuta, consultório em Belgrano, apartamento em Belgrano, vida em Belgrano. Um cara calado que ria pouco e, quando ria, era sempre por algo que valia a pena. Eu o via nos aniversários, em algum churrasco, na ceia de ano novo que o Tomi organizava em casa porque a mãe não queria e alguém tinha que fazer. Ricardo vinha, trazia vinho bom, sentava num canto, falava pouco, ia embora cedo.
Nunca tinha reparado nele. Nunca. Isso é verdade.
Comecei a reparar num domingo de maio. O Tomi tinha me levado ao consultório do Ricardo porque eu estava com uma contratura na lombar que não passava com nada. Três semanas com as costas duras. O Tomi falou: vai com meu pai, ele é bom, e eu fui.
Ricardo me mandou deitar de bruços na maca. Levantou minha camiseta até as omoplatas. Tocou minhas costas com as mãos e eu fechei os olhos e alguma coisa aconteceu. Não foi sexual. Não ainda. Foi que as mãos do Ricardo eram mãos que sabiam. Mãos que tinham tocado milhares de costas e encontravam o ponto exato sem perguntar. Mãos profissionais, secas, firmes, que se moviam pelas minhas costas como se meu corpo fosse um mapa que ele já conhecia.
Ele me tratou por quarenta minutos. Quase não falou. Perguntou onde doía, eu disse, ele começou. Eu estava com o rosto enfiado no buraco da maca, os olhos fechados, e em algum momento as mãos dele desceram para a região lombar, bem em cima da bunda, e ele apertou com os polegares dos lados da coluna e eu soltei um barulho. Um gemido de dor que parecia outra coisa. Ricardo não se abalou. Continuou.
Quando terminou, me levantei, abaixei a camiseta, agradeci. Ele disse pra voltar em uma semana. Perguntei quanto devia. Ele disse: nada, você é da família.
Voltei na semana seguinte. E na outra. A lombar melhorou na segunda sessão, mas eu continuei. indo. Não falei isso pra mim mesma assim. Falei que era manutenção, que era bom prevenir, que o Ricardo era um bom profissional. Falei isso por mais quatro sessões. Na quinta vez que fui, já sabia por que estava indo. Não era que o Ricardo me atraía. Ricardo era o pai do meu namorado. Tinha trinta anos a mais que eu. Tinha os cabelos grisalhos do Tomi daqui a vinte anos e os olhos do Tomi, mas com mais peso dentro, e as mãos do Tomi, mas com mais estrada. E era exatamente esse o problema. Que toda vez que ele colocava as mãos em mim, eu via o Tomi daqui a trinta anos, e isso me fazia algo que eu não conseguia explicar. Uma vertigem. Uma coisa de querer olhar atrás da cortina. De querer saber de onde vinha o Tomi, de onde vinham aquelas mãos, aquela paciência, aquela forma de tocar sem pedir permissão porque a permissão já estava dada. Na sexta sessão, Ricardo me disse que já estava bom, que a contratura tinha ido embora, que eu não precisava voltar. "Posso voltar mesmo assim?" Ele me olhou. Foi a primeira vez que ele me olhou de verdade, não como a namorada do filho dele, não como uma paciente. Ele me olhou como se olha para alguém que acabou de dizer algo que os dois entendem. "Pode." Voltei. Continuei indo aos domingos de manhã, quando o Tomi jogava futebol com os caras. Eu dizia que ia caminhar. Ia pra Belgrano. Ricardo me fazia entrar, me fazia deitar na maca, trabalhava minhas costas que já não doíam mais. As sessões foram se alongando. De quarenta minutos para uma hora. De uma hora para a gente ficar tomando um café na cozinha do apartamento dele, que era um apartamento de homem sozinho, limpo mas vazio, sem quadros, com uma biblioteca enorme na sala e uma cafeteira italiana em cima do fogão. A gente conversava. Sobre ele. Sobre a vida dele. Sobre os anos com a mãe do Tomi, como tinham se separado, como tinha sido criar um filho que se parecia mais com ela do que com ele. Ricardo falava devagar, escolhendo as palavras, sem pressa. E eu o escutava com uma atenção que era demais para uma conversa com o sogro. Um domingo, ele Fiquei olhando pras mãos dele enquanto mexia o café. Percebi que tava olhando do jeito que a gente olha pras mãos de alguém que interessa. Levantei a vista. Ele tava me olhando olhando pras mãos dele.
Não disse nada. Tomou o café. Fui embora.
No metrô de volta, segurei o rosto com as duas mãos e me perguntei o que cê tá fazendo. Não me respondi.
Naquela noite transei com o Tomi e fechei os olhos e pensei nas mãos do pai dele e gozei mais rápido que o normal e depois fiquei encarando o teto com o Tomi dormindo do lado e senti algo novo. Algo que nos outros capítulos dessa história nunca tinha sentido. Algo que parecia uma rachadura.
Não ia contar pro Tomi.
Essa decisão tomei rápido, sem pensar, do jeito que a gente toma decisões que já tomou antes de formular. Não ia contar porque não tinha nada pra contar. Porque não tinha acontecido nada. Porque provavelmente não ia acontecer nada. E porque se eu contasse, o que quebrava não era o casal. O que quebrava era a relação entre o Tomi e o pai dele, que já era frágil, que já tinha rachaduras velhas, e eu não tinha direito de quebrar isso.
Repeti isso pra mim mesma três domingos seguidos indo pra Belgrano.
No quarto domingo, Ricardo abriu a porta e tava diferente. Bermuda, camiseta cinza, descalço. Não tinha preparado a maca. Tinha a mesa da cozinha posta pra dois. Medialunas, café, suco.
"Hoje não tem sessão", ele disse. "Hoje é um café da manhã."
Sentei. Café da manhã. Ele falou de um livro que tava lendo. Eu falei de um podcast que a gente tava produzindo no estúdio. Em algum momento veio um silêncio longo e os dois soubemos ao mesmo tempo que o silêncio era a verdade e tudo o resto era enchimento.
"Agostina."
"Sim."
"O que a gente tá fazendo?"
"Não sei."
"Sabe sim."
"Sei sim."
Ricardo passou a mão no rosto. Vi o Tomi naquele gesto. Exatamente o Tomi. A mesma mão, mais gasta, passando pelo mesmo rosto, mais marcado.
"Eu não deveria."
"Eu também não."
"Você é a namorada do meu filho."
"Já sei."
"Se isso acontecer, é um desastre."
"Já sei."
"Então por que você continua vindo?"
Não respondi. Olhei pra ele. Sustentei o olhar por mais tempo do que era confortável. Ricardo baixou os olhos primeiro. Levantou da mesa. Levou os pratos pra pia. Fiquei sentada olhando pra costa dele.
Levantei. Caminhei até ele. Parei atrás. Coloquei a mão no ombro dele. Senti o músculo por baixo da camiseta, mais duro do que esperava. Ricardo ficou parado, de costas pra mim, com as mãos na pia.
"Você não vai se virar", falei.
"Se eu me virar, acontece."
"Já sei."
"Você quer que aconteça?"
"Sim."
Ele se virou.
Me olhou de cima. Era mais alto que o Tomi. Segurou meu rosto com as duas mãos, as mesmas mãos que tinham trabalhado minhas costas por dois meses, e me beijou. Devagar. De boca fechada primeiro. Depois aberta. Tinha gosto de café e de algo mais, algo que não era o Tomi, algo mais escuro, com mais terra por dentro. Agarrei a camiseta dele com as duas mãos. Puxei ele pra perto. Senti que ele tava duro contra minha barriga e isso cortou minha respiração, porque aquilo era real, aquilo era a prova de que eu não tava imaginando, de que esse homem me queria.
Ele se afastou. Me olhou.
"Aqui não."
"Onde?"
"No quarto."
Segui ele pelo corredor. O quarto do Ricardo era como o apartamento dele: uma cama grande, um criado-mudo, um livro virado ao contrário na mesa de cabeceira. Lençóis brancos. Cheiro de limpeza. Cheiro de homem sozinho.
Ele sentou na beira da cama. Eu fiquei de pé. Olhei ele de cima.
"Tô com medo", falei. A primeira vez que dizia isso em voz alta com alguém que não era o Tomi.
"Eu também."
"Mas não disso." Apontei pra mim, pra ele, pro espaço entre nós dois. "Do que vem depois."
Ricardo concordou. Não disse que nada ia acontecer. Não disse que ninguém ia ficar sabendo. Não prometeu nada. Isso foi a coisa mais honesta que alguém fez por mim naquela manhã.
Tirei a camiseta eu mesma. Não esperei ele tirar. Em todos os capítulos anteriores dessa história alguém tinha me despido. Dessa vez eu fiz isso, rápido, sem cerimônia. Regata. Sutiã. Fiquei da cintura pra cima pelada na frente do pai do meu namorado.
Ricardo olhou pras minhas tetas. Olhou do jeito que um homem que não vê umas tetas de perto há muito tempo olha. Com fome e com uma certa reverência. Estendeu a mão. Tocou meu esterno, o osso do meio do peito, com um dedo. Só isso. Esse gesto fez mais por mim do que qualquer outra coisa que já tinham me feito na vida.
Sentei em cima dele, de pernas abertas, na beirada da cama. Beijei ele. Tirei a regata dele. Ele tinha o peito com pelo grisalho, os ombros largos, um corpo que tinha sido igual ao do Tomi e agora era outra coisa. Mais mole nas laterais. Mais largo nas costas. Passei as mãos pelo peito dele. Senti a respiração dele mudar.
Ricardo segurou minha cintura. Me apertou contra ele. Senti o pau duro através da bermuda, contra mim, e me mexi em cima, devagar, me esfregando. Mordi o pescoço dele. Um gemido escapou contra a pele dele e me surpreendi com o quão urgente soava.
"Espera." Ricardo me parou com as mãos na cintura. "Espera um segundo."
"O quê?"
"Quero te olhar."
Ele me olhou. Eu estava em cima dele, pelada da cintura pra cima, com o cabelo caindo no rosto, suada, e ele me olhava como se estivesse tentando entender alguma coisa.
"Você se parece com alguém", ele disse.
"Com quem?"
"Com ninguém. Deixa pra lá."
Não insisti. Tirei a bermuda dele. A cueca. O pau do Ricardo. Vi e o cérebro fez a comparação antes que eu pudesse evitar. Mais grosso que o do Tomi. Menos comprido. Sem a curva do Ivã. Mais escuro. Com mais peso. Com veias que se marcavam diferente. Um pau de homem grande, um pau de cinquenta e seis anos, e isso, em vez de me frear, me acelerou de um jeito que não entendi.
Coloquei a mão nele. Segurei. Senti o pulso. Movi a mão devagar, pra cima e pra baixo, olhando pro rosto dele. Ricardo fechou os olhos. Apertou a mandíbula. Me lembrou o Tomi de um jeito que deu um puxão dentro de mim, algo entre excitação e culpa, as duas coisas entrelaçadas.
Desci pro chão. Me Ajoelhei entre as pernas dele. Chupei ele. Devagar. Eu sabia como fazer aquilo, mas aquela boca era nova, aquela pica era nova, e o corpo pedia pra ir devagar pra registrar tudo. Ricardo colocou a mão na minha cabeça. Não empurrou. Apoiou a mão. Acariciou meu cabelo. Um gesto que me destruiu por ser tão paternal e tão sexual ao mesmo tempo.
Quando senti ele perto, parei. Subi. Terminei de tirar a roupa, a calça jeans, a calcinha, tudo junto, rápido. Montei em cima dele. Ricardo se encostou pra trás na cama, apoiou no encosto. Eu ajoelhei em cima.
"Tem?"
"Na gaveta."
Abri a gaveta. Camisinhas. Peguei uma. Coloquei nele. Com o Tomi a gente nunca usava, eu tomava pílula, mas com Ricardo eu coloquei sem precisar falar. Aquele gesto prático me aterrissou por um segundo. Me lembrou que aquilo era real, que eu tava prestes a foder com o pai do Tomi na cama dele num domingo de manhã enquanto o Tomi corria atrás de uma bola num campo em Núñez pensando que eu tava andando pelo bairro.
Desci em cima dele. Peguei a pica com a mão, apoiei em mim, desci devagar. A grossura. Senti diferente de tudo que já tinha sentido. Mais larga que o Tomi, mais larga que o Iván. Me esticava de um jeito novo. Desci mais um pouco. Mais. Até que ficou inteira dentro e eu fiquei sentada em cima do pai do meu namorado com a pica dele enterrada na minha buceta e as mãos apoiadas no peito dele e o rosto a dez centímetros do dele.
"Deus", falei.
Ricardo segurou minha cintura. Não se mexia. Me deixava no comando. Igual o Tomi. Igual o Tomi e isso me fez pensar que o Tomi tinha aprendido aquilo de algum lugar, que aquela paciência vinha de algum lugar, que talvez viesse daqui, desse homem, desse jeito de tocar sem empurrar. Me deu uma tontura pensar nisso e ao mesmo tempo me excitou de um jeito que me envergonhou.
Comecei a me mexer. Pra cima e pra baixo, devagar. Cada vez que descia, sentia ele me preencher de um jeito que arrancava um barulho curto, um "ah" que escapava. sozinha. Ricardo olhava pro meu rosto. Olhava minhas tetas balançando. Me olhava com uma concentração que não era a do Tomi, que era menos meiga e mais faminta, mais direta, o olhar de um homem que sabe que isso não deveria estar acontecendo e por isso olha com mais atenção, como se pudessem tirar dele.
"Você é linda", ele me disse. Com a voz rouca, mais grave que a do Tomi. "Você é tão linda."
Não falei nada. Coloquei a mão na boca dele. Não pra calá-lo. Pra sentir os lábios dele na palma. Ele beijou. Mordeu um dedo meu. Enfiou meu indicador na boca e chupou olhando nos meus olhos, e eu me mexi mais rápido em cima dele.
Ricardo começou a empurrar de baixo. Achamos um ritmo. Eu descia quando ele subia. A piroca chegava num lugar dentro de mim que era diferente do do Tomi, do do Iván, um lugar que tinha a ver com a grossura, com como me abria, com como preenchia meus lados. Me agarrei nos ombros dele. Finquei as unhas. Ele agarrou minha bunda com as duas mãos e me apertou contra ele, me mantendo no fundo, e eu fiquei ali um segundo, sem me mexer, sentindo ele inteiro, sentindo ele pulsar.
"Mais forte", falei.
Ele me agarrou pela cintura e começou a me comer de baixo com força. Deixei ele no controle, e isso foi estranho, porque nos outros capítulos eu sempre tinha o controle, eu sempre marcava o ritmo, e aqui eu soltei, entreguei, deixei ele me mover em cima como se eu pesasse menos do que peso. E descobri que isso também me dava tesão. Que tinha um prazer em se soltar que não era o mesmo prazer de decidir.
Ricardo comia diferente. Comia como alguém que passa anos sabendo o que funciona. Sem hesitar. Sem perguntar a cada dois segundos se tava bom. Me lendo com o corpo e não com a voz. Quando sentia que eu apertava os olhos, ia mais devagar. Quando sentia que eu fincava as unhas, ia mais forte. Não falava. Me olhava. Essa economia me enlouquecia.
Levantei de cima. Deitei de barriga pra cima. Trouxe ele pra cima de mim puxando pelo braço. Queria sentir a pica dele. peso. Ricardo se acomodou entre minhas pernas. Ele entrou de novo, de uma só vez, e eu senti o peso dele em cima de mim, diferente, mais pesado que o Tomi, com mais corpo, com mais gravidade. Me cobriu inteira. Senti os braços dele nas laterais da minha cabeça. A respiração dele contra o meu rosto. Vi os cabelos brancos de perto. Vi as rugas no canto dos olhos. E pensei algo que não deveria ter pensado: assim vai ser o Tomi daqui a trinta anos. Assim vai foder o Tomi daqui a trinta anos. E eu estou vendo isso agora, estou sentindo isso agora, estou roubando um pedaço do futuro.
"Aí", eu disse. "Aí, aí, não para."
Ricardo me comia devagar e fundo, até o talo, parando um segundo antes de sair. Cruzei as pernas na cintura dele. Apertei com os calcanhares. Me agarrei nas costas dele. Senti os músculos das costas se mexendo debaixo das minhas mãos a cada empurrão.
Comecei a sentir a onda. A onda conhecida que vinha de um lugar novo, porque cada homem me trazia de um lugar diferente, e a do Ricardo vinha da grossura, daquela sensação de estar mais preenchida dos lados, daquela piroca que empurrava minhas paredes com mais superfície.
"Vou gozar."
Ricardo não disse "goza" como o Tomi dizia. Não disse nada. Acelerou. Pegou minha mão, colocou ela acima da minha cabeça contra o travesseiro, entrelaçou os dedos nos meus e apertou, e isso, esse gesto de apertar minha mão enquanto me comia, me quebrou.
Gozei longo. Forte. Fechando as pernas em volta dele, apertando a mão dele, com o rosto contra o pescoço dele, mordendo, com um gemido que saiu de um lugar que eu já conhecia mas que soava diferente aqui, nessa cama que não era minha cama, com esse homem que não era meu homem.
Ricardo gozou um minuto depois. Senti ele se tensionar inteiro, apertar a mandíbula, fazer um barulho curto, seco, e ficar cravado dentro. Eu senti as pulsações através da camisinha, abafadas, diferente de sentir um homem gozar dentro sem nada no meio.
Ele ficou em cima de mim por um tempo. Passei as mãos nas costas dele. Se Eu acariciei devagar. Senti a respiração dele contra meu pescoço. Senti o peso do que a gente tinha acabado de fazer cair sobre mim junto com o peso do corpo dele.
Ele saiu. Tirou a camisinha. Jogou fora. Deitou do meu lado, de barriga pra cima. Nós dois olhando pro teto.
Silêncio longo.
"Você tá bem?", ele perguntou.
E aí eu percebi que era a mesma pergunta que o Tomi fazia depois. A mesma. Com as mesmas palavras. E que provavelmente o Tomi tinha aprendido com ele, com esse homem deitado do meu lado, e aquilo me partiu ao meio de um jeito que não tinha nada a ver com sexo.
"Tô bem."
Não tava bem. Tava um monte de coisas ao mesmo tempo. Tava satisfeita e tava suja e tava surpresa e tava triste e tava ainda com tesão e tava pensando no Tomi e tentando não pensar no Tomi.
"Isso não pode se repetir", falou o Ricardo. Olhando pro teto.
"Já sei."
"Se o Tomi descobrir..."
"Já sei."
"Eu não vou conseguir olhar pra ele."
"Eu também não."
Silêncio. Mais longo que o anterior.
"Você se arrepende?", ele perguntou.
Pensei. Pensei de verdade. Não respondi rápido.
"Não. Mas isso me preocupa mais do que se eu me arrependesse."
Ricardo riu. Uma risada pequena, sem vontade, mais pra soltar o ar do que qualquer outra coisa. Me olhou de lado.
"Você tem vinte e oito anos."
"Vinte e seis."
"Vinte e seis anos e acabou de destruir minha vida."
"Você também se deixou levar."
"É." Pausa. "Me deixei."
Levantei. Me vesti no quarto dele, de costas pra ele, sabendo que ele tava me olhando. Coloquei a calcinha, o sutiã, a jeans, a camiseta. Cada peça que eu vestia era um passo mais longe do que tinha acontecido e um passo mais perto de ter que mentir pro Tomi.
Saí no corredor. Ricardo me seguiu. Na porta, a gente se olhou.
"Tchau", falei.
"Tchau."
Não nos beijamos. Não nos abraçamos. Abri a porta e saí.
No elevador, me olhei no espelho. Tinha a cara igual. Cabelo bagunçado, um pouco corada, mas a cara igual. Esperava me ver diferente, como tinha acontecido nas outras vezes, como naquela primeira noite com o Tomi em que me disse "tenho corpo novo". Não tinha corpo novo. Tinha o mesmo corpo de sempre com um segredo dentro.
No metrô de volta, sentei num banco do fundo. Apoiei a cabeça na janela. Senti entre as pernas aquela coisa do depois, aquela umidade, aquela sensação de ter sido aberta, e senti ela misturada com algo que nos outros capítulos não tinha sentido. Uma coisa amarga. Não culpa exatamente. Algo mais complicado. A certeza de que tinha cruzado uma linha que não era sexual. As outras linhas tinham sido sexuais: anal, ménage, pegging. Linhas do corpo. Essa era uma linha de outra coisa. De lealdade. De família. De confiança.
Cheguei em casa. Tomi estava no sofá, suado, ainda com a roupa de futebol. Sorriu pra mim.
"Como foi a caminhada?"
"Bem."
"Longa?"
"Longa."
Sentei do lado dele. Ele passou o braço por cima de mim. Apoiei no ombro dele. Senti o cheiro do suor do Tomi, limpo, familiar, o cheiro que conheço há anos. E pensei no cheiro do Ricardo, parecido mas diferente, o mesmo código genético com outro percurso.
Tomi me beijou a cabeça.
"Te amo", ele disse.
"Eu também."
E ali, com o rosto enfiado no ombro do Tomi, com o cheiro do pai dele ainda na minha pele por baixo da roupa, pensei na frase que tinha me acompanhado em todos os capítulos anteriores. Isso eu decidi. Isso foi meu. E a frase continuava sendo verdade. Eu tinha decidido. Eu tinha caminhado até o Ricardo, eu tinha posto a mão no ombro dele, eu tinha tirado a camiseta, eu tinha montado em cima. Tudo tinha sido meu.
Mas pela primeira vez a frase não bastava. Pela primeira vez "isso eu decidi" não fechava nada. Não me deixava tranquila. Não me deixava dormir pensando que amanhã ia acordar diferente e que tudo bem.
Porque nas outras vezes o que eu decidia incluía nós dois. O Tomi e eu. A decisão era compartilhada, ou pelo menos era transparente. E dessa vez o que eu tinha decidido era um buraco. Uma coisa que ia viver dentro de mim, sozinha. Sem ar, apodrecendo ou não apodrecendo, mas sozinha.
Naquela noite, Tomi me perguntou se eu queria transar. Falei que tava cansada. Ele me abraçou por trás, como sempre. Me beijou a nuca. Dormiu antes de mim, como sempre.
E eu fiquei acordada, no escuro, com os olhos abertos, pensando numa frase nova. Uma que não tinha passado pela minha cabeça em toda essa história.
Isso quem decidiu fui eu. E vou ter que guardar pra mim.
1 comentários - Comi o pai do meu namorado