Ao chegar na confraternização de Ano Novo no quarteirão, já tinha bastante gente do lado de fora. A maioria era cara que eu conhecia desde a infância; mesmo não nos frequentando, também não guardava rancor. Nos receberam com entusiasmo, cumprimentando do jeito do pessoal da rua, enquanto aproveitavam pra dar uma olhada descarada na Elena. Era óbvio que, com o vestido preto curto e os lábios vermelhos, ela ia roubar a cena a noite toda.
Mas não eram só os jovens que olhavam; os homens mais velhos também se aproveitavam do cumprimento pra ficar perto dela. A Elena sabia jogar esse jogo de olhares, o que rendia ciúme das mulheres que os acompanhavam. Finalmente chegamos no anfitrião, Carlos. Com a arrogância de sempre, ele nos cumprimentou e passou os olhos pelo corpo da Elena. A diferença é que ele segurou firme na cintura dela, puxou pra perto e deu um beijo pesado na bochecha. A Elena ficou paralisada, sem conseguir fazer nada pra evitar aquela demonstração de autoridade na minha frente.
Ele nos guiou pras mesas arrumadas na calçada e no pátio comum, indicando o lugar que ocuparíamos na noite. Nos acomodamos com minha tia Carmela e alguns vizinhos com quem eu me dava melhor. A noite foi passando entre conversas sem graça e um pouco de música. Como sou ruim de dança, tive que aturar vários homens tirarem ela pra dançar; os minutos passavam e a Elena ia de mão em mão.
Lá pelas dez da noite, o Carlos se aproximou com a desculpa de ver se não faltava nada pra beber. Como tava tudo certo, ele convidou a Elena pra dançar. Ela aceitou e foi com ele. Tava tocando uma salsa romântica e pesada. Como era de se esperar, o Carlos, sendo um cara vivido no bairro, dançava muito bem; conduzia a Elena no ritmo dele, segurando ela com força. Outros tentaram se aproximar pra roubar ela na pista, mas o Carlos tinha monopolizado ela por completo.
Como eu precisava pegar uma sobremesa que a gente tinha preparado pro jantar, me ausentei uns minutos. Quando voltei pras mesas, a Elena já não estava mais. estava. Pra piorar, tinha deixado o celular em cima da toalha da mesa. A festa lotava os corredores com gente bebendo; não sabia por onde começar a procurar ela, mas no fundo da minha mente já imaginava.
Lembrava vagamente da área do prédio onde o Carlos costumava se reunir com os irmãos, então fui abrindo caminho no meio da multidão. Subi as escadas até um segundo corredor interno, procurando algum sinal. Quando me aproximei de uma das portas, ela se abriu de repente, mas quem saiu não foi minha esposa, e sim a mulher do Carlos, Margarida.
— Boa noite, moço — ela disse, estranhando —. O que cê tá fazendo por aqui?
— Boa noite... acho que me perdi um pouco procurando o banheiro — improvisei rápido, com o coração a mil.
— Fica tranquilo, os banheiros da festa são lá embaixo no pátio, vou te acompanhar.
Entrei no banheiro de baixo pra ganhar tempo. Quando saí e voltei pras mesas, vi que a Elena já tinha voltado. Ela me disse, nervosa, que tinha ido na lojinha da esquina comprar uns cigarros, mas que tava lotada. Senti um alívio momentâneo; ver a mulher do Carlos lá em cima tinha dissipado as dúvidas que me atormentavam.
O clima continuou esquentando. A música, a comida e a bebida rolavam sem limite. A Elena ficou um tempão sentada, mexendo no celular. Num dado momento, me disse que minha tia Carmela tava pedindo ajuda de novo com umas garrafas lá embaixo e se mandou. Passaram trinta minutos e ela não voltava. Já era um pouco mais de onze quando a tia Carmela veio falar comigo.
— César, cê pode ir no meu apartamento pegar as garrafas de sidra pro brinde? É que não acho o Carlos em lugar nenhum pra carregar elas.
Não perguntei pela Elena; assumi que se minha tia tava me pedindo, era porque minha esposa não aguentava o peso. Além disso, ir pra lá ia acabar com a incerteza de uma vez.
Atravessei pro prédio. O corredor tava em silêncio; a maioria dos apartamentos tava vazia. Quando cheguei na porta da minha tia, notei que tava fechada e com a luz acesa. apagada. Senti um vazio horrível no estômago. Abri com a chave que ela me deu, com a mão tremendo. Ao entrar, descobri que não tinha ninguém. A alma voltou ao corpo. Peguei as garrafas, mas, ao sair no corredor comum, achei ouvir barulhos no andar de cima. Fiquei completamente imóvel. Eram vozes, uma discussão intensa, mas num tom bem baixo, cuidando pra ninguém descobrir no silêncio do prédio.
Deixei as garrafas no chão e subi os degraus de concreto com o maior cuidado. Colei o ouvido na porta do nosso apartamento pra ter certeza. Eu tava enganado: os barulhos vinham de dentro. Procurei minhas chaves nos bolsos, mas não tinha; também não tava com o celular pra me comunicar. Agarrar a certeza virou uma obsessão. Decidi me pendurar com cuidado na beirada da marquise externa até a janela do corredor, o mesmo lugar de onde a Elena se debruçava pra ouvir os barulhos de baixo. Essa janela dava uma linha de visão direta pro nosso quarto e, se a porta tivesse aberta, pra nossa cama de casal.
Deslizei pela marquise. As vozes tavam cada vez mais nítidas, intensas mas abafadas. Quando encostei a cabeça na janela, a dúvida se foi: era uma mistura de respirações ofegantes e gemidos. Uma das vozes era, sem dúvida, a da Elena; a outra, a que eu mais temia.
— Chupa ela, putinha... — ecoou do quarto a voz grossa e áspera do Carlos.
A Elena respondeu com um gemido abafado, como se tivesse engasgada.
— Isso... que boquinha gostosa — soltou o homem.
Da boca da minha esposa só saía um gemido seco: Agh! Me arrisquei a espiar um pouco mais, distinguindo as silhuetas na beira do colchão. De repente, ouvi passos na escada; eram uns vizinhos subindo pro andar de cima. Pra evitar que me descobrissem naquela posição vergonhosa, me deitei por completo no espaço estreito da marquise. Os vizinhos passaram conversando devagar sobre o jantar até que as vozes se perderam escada acima.
Quando tentei me levantar, o silêncio tomou conta do quarto por alguns segundos, seguido imediatamente pelo som constante, rítmico e inconfundível de uma bacia batendo contra outra.
Levantei e espiei a cabeça. A meia-luz que sempre deixávamos preparada para a intimidade estava acesa; Carlos e minha esposa estavam aproveitando. Apesar do risco de ser visto, me encostei no vidro para ter a visão completa. Elena ainda estava com o vestido preto levantado até a metade e as meias calçadas; estava de quatro na cama enquanto Carlos, numa posição selvagem, a empurrava com força, metendo o pau nela. Minha esposa soltava uns gritos e gemidos fora de controle.
A imagem me dominou por completo. Nunca tinha sentido tanta tontura no estômago; senti uma raiva e um ódio profundo do Carlos por ter invadido minha casa com total descaramento. Mas ao mesmo tempo, o peso da realidade me bateu: Elena tinha aceitado subir sabendo perfeitamente como a noite ia acabar. Tinha se arrumado de forma espetacular só pra Carlos acabar comendo ela na nossa própria cama.
Pensei em quebrar a janela, entrar e destruir a cena. Mas a lucidez me segurou: ia rolar um escândalo monumental no bairro, ia ter briga e, sendo sincero, eu não teria muita chance física contra um homem robusto e de rua como o Carlos. Além disso, a Elena ia ficar puta comigo. A gente tinha conversado antes de sair: sabíamos que isso era brincar com fogo e que íamos acabar nos queimando. A Elena parecia louca de prazer; interromper eles seria cortar o clímax dela e ela ia me culpar. Ela tinha realizado meus fetiches com estranhos; agora era minha vez de engolir o caldo amargo no meu próprio território.
Convencido de que o justo era deixar eles terminarem, deslizei de volta pela marquise em direção às escadas. Peguei as garrafas de sidra e saí do prédio em silêncio, quase meia-noite. Caminhei devagar de Voltei pra festa; a mistura de raiva e tesão me deu uma ereção monstra. A festa tava tão animada que ninguém notou minha ausência. Entreguei as garrafas pro brinde e voltei pra mesa. Quando peguei meu celular, vi uma enxurrada de mensagens da Elena:
"Sai pra fora"
"Preciso falar com você"
"Tô no apartamento da sua tia"
"Acabou de entrar"
"Me responde"
"Preciso da sua opinião"
"Vem, vamos subir"
"Me diz se você aprova"
"Vai rolar"
"É você que entrou?"
"Acho que não vou aceitar você aqui"
"Não sobe pro apartamento, melhor nos cobrir"
A Elena tinha me procurado pra me incluir no ato, mas larguei o celular e perdi a chance de negociar. Embora duvidasse que minhas palavras fossem dissuadi-la; meus chifres estavam destinados naquela noite e não tinha como escapar.
Bateu meia-noite entre gritos e abraços. Entrei no brinde com a cabeça totalmente em outro lugar. Ninguém perguntava pelos ausentes, nem a Margarita. Justifiquei a Elena pra minha tia, dizendo que ela tinha passado mal com o álcool e ido deitar.
À uma da manhã, a Elena voltou pra festa. O Carlos tinha descido uns minutos antes pra não levantar suspeitas, então entraram separados. Entre as felicitações de Ano Novo, ela demorou pra chegar na nossa mesa. Quando finalmente me encarou, me olhou com uma mistura de nervosismo e uma satisfação profunda nos olhos.
— Feliz Ano Novo, meu amor! — falou com voz brincalhona — Ah... e também, feliz ano novo!
Minha raiva e ciúme se desarmaram com a malícia dela. Preferi retribuir o abraço sem reclamar nada em público. Ficamos mais um tempo pra não destoar, até que o Carlos se aproximou da nossa mesa pra dar o abraço de ano novo. Notei o olhar de cumplicidade imediato entre ele e a Elena. O Carlos abraçou minha esposa e depois se virou pra mim. Estendeu a mão, apertou com uma força desmedida que me levantou da cadeira e me deu um abraço pesado. Os vizinhos acharam normal. como um gesto de proximidade familiar; eu, que vinha da janela, soube que era uma provocação na minha cara. Ainda mais quando soltou as mesmas palavras que a Elena:
—Parabéns, garoto! Ah... e também, feliz ano novo!
A frase cravou no meu peito. Não sei se foi coincidência ou se combinaram entre os dois, mas engoli o orgulho pra não dar a eles minha raiva. Foi a última coisa da noite. Elena pediu pra gente ir, nos despedimos e saímos da reunião.
Entramos no prédio. Elena pegou minha mão e me puxou escada acima com pressa. Abriu a porta do apartamento e entramos. Tentou me beijar com urgência, me puxando pro quarto, mas na porta ela me parou.
—Espera, César, não entra ainda.
—E agora por quê?
—Me dá um momento... preciso arrumar o quarto.
No instante em que ia fechar a porta na minha cara, segurei com as duas mãos e empurrei com força. No chão, perto da entrada, estava um pé de meia de homem. A cama de casal era um caos total: os lençóis pendurados, desfeitos, úmidos e com um cheiro forte de sexo que tomava o espaço. Me aproximei pra tirá-los e, enroscado entre os panos, encontrei a cueca do Carlos. Nem tinham tido o cuidado de conferir as roupas direito antes de se vestirem às pressas.
Pedi pra Elena chegar perto. Ela tava de cabeça baixa, visivelmente arrasada pela vergonha diante da bagunça escancarada. Segurei ela pela cintura com firmeza, abri as pernas dela e sentei ela no meu colo, ficando de frente um pro outro. Segurei ela pela bunda e olhei nos olhos dela.
—Agora vai me contar exatamente o que rolou aqui dentro, Elena?
—Tem certeza que quer que eu conte agora... ou prefere que a gente faça outra coisa? —respondeu, mordendo o lábio.
Ela pegou na minha nuca e me beijou com uma intensidade selvagem, mordendo meus lábios como uma fera. Levantei ela e deitei no colchão nu; o centro da cama ainda tava encharcado pelo ato anterior, então que eu ajeitei ela na beirada. Abri as pernas dela e a gente transou.
Foi um sexo nada convencional, movido mais pela vontade de extravasar a raiva e o ciúme do que pelo prazer mútuo. Eu tava há horas com uma ereção monstra. A penetração foi super fácil por causa do quanto o Carlos tinha deixado ela aberta e lubrificada. Enquanto eu tava metendo nela, as imagens da janela me bombardeavam a mente, junto com o que o bagaço dos lençóis tava me mostrando.
Eu imaginei os detalhes: eles tinham se pelado em segundos. A umidade do colchão era só dos fluidos da Elena? Ou será que eu tava penetrando minha mulher em cima de uma mistura dos sucos dela com o esperma do Carlos? Varri o quarto com o olhar, procurando desesperado: Cadê a porra dos preservativos usados?. O fantasma da falta de proteção e da putaria do bairro me traíram na mente, fazendo eu gozar muito mais rápido que o normal.
A Elena não se importou; ela tinha gemido forte o tempo todo e o orgasmo dela também foi intenso. A gente ficou um momento abraçado em silêncio em cima do colchão, dividindo o calor dos fluidos. Depois de uns minutos de calma, a Elena levantou a cabeça, me encarou e perguntou com a voz suave:
— Quer que eu conte detalhe por detalhe o que rolou essa noite com o Carlos?
Mas não eram só os jovens que olhavam; os homens mais velhos também se aproveitavam do cumprimento pra ficar perto dela. A Elena sabia jogar esse jogo de olhares, o que rendia ciúme das mulheres que os acompanhavam. Finalmente chegamos no anfitrião, Carlos. Com a arrogância de sempre, ele nos cumprimentou e passou os olhos pelo corpo da Elena. A diferença é que ele segurou firme na cintura dela, puxou pra perto e deu um beijo pesado na bochecha. A Elena ficou paralisada, sem conseguir fazer nada pra evitar aquela demonstração de autoridade na minha frente.
Ele nos guiou pras mesas arrumadas na calçada e no pátio comum, indicando o lugar que ocuparíamos na noite. Nos acomodamos com minha tia Carmela e alguns vizinhos com quem eu me dava melhor. A noite foi passando entre conversas sem graça e um pouco de música. Como sou ruim de dança, tive que aturar vários homens tirarem ela pra dançar; os minutos passavam e a Elena ia de mão em mão.
Lá pelas dez da noite, o Carlos se aproximou com a desculpa de ver se não faltava nada pra beber. Como tava tudo certo, ele convidou a Elena pra dançar. Ela aceitou e foi com ele. Tava tocando uma salsa romântica e pesada. Como era de se esperar, o Carlos, sendo um cara vivido no bairro, dançava muito bem; conduzia a Elena no ritmo dele, segurando ela com força. Outros tentaram se aproximar pra roubar ela na pista, mas o Carlos tinha monopolizado ela por completo.
Como eu precisava pegar uma sobremesa que a gente tinha preparado pro jantar, me ausentei uns minutos. Quando voltei pras mesas, a Elena já não estava mais. estava. Pra piorar, tinha deixado o celular em cima da toalha da mesa. A festa lotava os corredores com gente bebendo; não sabia por onde começar a procurar ela, mas no fundo da minha mente já imaginava.
Lembrava vagamente da área do prédio onde o Carlos costumava se reunir com os irmãos, então fui abrindo caminho no meio da multidão. Subi as escadas até um segundo corredor interno, procurando algum sinal. Quando me aproximei de uma das portas, ela se abriu de repente, mas quem saiu não foi minha esposa, e sim a mulher do Carlos, Margarida.
— Boa noite, moço — ela disse, estranhando —. O que cê tá fazendo por aqui?
— Boa noite... acho que me perdi um pouco procurando o banheiro — improvisei rápido, com o coração a mil.
— Fica tranquilo, os banheiros da festa são lá embaixo no pátio, vou te acompanhar.
Entrei no banheiro de baixo pra ganhar tempo. Quando saí e voltei pras mesas, vi que a Elena já tinha voltado. Ela me disse, nervosa, que tinha ido na lojinha da esquina comprar uns cigarros, mas que tava lotada. Senti um alívio momentâneo; ver a mulher do Carlos lá em cima tinha dissipado as dúvidas que me atormentavam.
O clima continuou esquentando. A música, a comida e a bebida rolavam sem limite. A Elena ficou um tempão sentada, mexendo no celular. Num dado momento, me disse que minha tia Carmela tava pedindo ajuda de novo com umas garrafas lá embaixo e se mandou. Passaram trinta minutos e ela não voltava. Já era um pouco mais de onze quando a tia Carmela veio falar comigo.
— César, cê pode ir no meu apartamento pegar as garrafas de sidra pro brinde? É que não acho o Carlos em lugar nenhum pra carregar elas.
Não perguntei pela Elena; assumi que se minha tia tava me pedindo, era porque minha esposa não aguentava o peso. Além disso, ir pra lá ia acabar com a incerteza de uma vez.
Atravessei pro prédio. O corredor tava em silêncio; a maioria dos apartamentos tava vazia. Quando cheguei na porta da minha tia, notei que tava fechada e com a luz acesa. apagada. Senti um vazio horrível no estômago. Abri com a chave que ela me deu, com a mão tremendo. Ao entrar, descobri que não tinha ninguém. A alma voltou ao corpo. Peguei as garrafas, mas, ao sair no corredor comum, achei ouvir barulhos no andar de cima. Fiquei completamente imóvel. Eram vozes, uma discussão intensa, mas num tom bem baixo, cuidando pra ninguém descobrir no silêncio do prédio.
Deixei as garrafas no chão e subi os degraus de concreto com o maior cuidado. Colei o ouvido na porta do nosso apartamento pra ter certeza. Eu tava enganado: os barulhos vinham de dentro. Procurei minhas chaves nos bolsos, mas não tinha; também não tava com o celular pra me comunicar. Agarrar a certeza virou uma obsessão. Decidi me pendurar com cuidado na beirada da marquise externa até a janela do corredor, o mesmo lugar de onde a Elena se debruçava pra ouvir os barulhos de baixo. Essa janela dava uma linha de visão direta pro nosso quarto e, se a porta tivesse aberta, pra nossa cama de casal.
Deslizei pela marquise. As vozes tavam cada vez mais nítidas, intensas mas abafadas. Quando encostei a cabeça na janela, a dúvida se foi: era uma mistura de respirações ofegantes e gemidos. Uma das vozes era, sem dúvida, a da Elena; a outra, a que eu mais temia.
— Chupa ela, putinha... — ecoou do quarto a voz grossa e áspera do Carlos.
A Elena respondeu com um gemido abafado, como se tivesse engasgada.
— Isso... que boquinha gostosa — soltou o homem.
Da boca da minha esposa só saía um gemido seco: Agh! Me arrisquei a espiar um pouco mais, distinguindo as silhuetas na beira do colchão. De repente, ouvi passos na escada; eram uns vizinhos subindo pro andar de cima. Pra evitar que me descobrissem naquela posição vergonhosa, me deitei por completo no espaço estreito da marquise. Os vizinhos passaram conversando devagar sobre o jantar até que as vozes se perderam escada acima.
Quando tentei me levantar, o silêncio tomou conta do quarto por alguns segundos, seguido imediatamente pelo som constante, rítmico e inconfundível de uma bacia batendo contra outra.
Levantei e espiei a cabeça. A meia-luz que sempre deixávamos preparada para a intimidade estava acesa; Carlos e minha esposa estavam aproveitando. Apesar do risco de ser visto, me encostei no vidro para ter a visão completa. Elena ainda estava com o vestido preto levantado até a metade e as meias calçadas; estava de quatro na cama enquanto Carlos, numa posição selvagem, a empurrava com força, metendo o pau nela. Minha esposa soltava uns gritos e gemidos fora de controle.
A imagem me dominou por completo. Nunca tinha sentido tanta tontura no estômago; senti uma raiva e um ódio profundo do Carlos por ter invadido minha casa com total descaramento. Mas ao mesmo tempo, o peso da realidade me bateu: Elena tinha aceitado subir sabendo perfeitamente como a noite ia acabar. Tinha se arrumado de forma espetacular só pra Carlos acabar comendo ela na nossa própria cama.
Pensei em quebrar a janela, entrar e destruir a cena. Mas a lucidez me segurou: ia rolar um escândalo monumental no bairro, ia ter briga e, sendo sincero, eu não teria muita chance física contra um homem robusto e de rua como o Carlos. Além disso, a Elena ia ficar puta comigo. A gente tinha conversado antes de sair: sabíamos que isso era brincar com fogo e que íamos acabar nos queimando. A Elena parecia louca de prazer; interromper eles seria cortar o clímax dela e ela ia me culpar. Ela tinha realizado meus fetiches com estranhos; agora era minha vez de engolir o caldo amargo no meu próprio território.
Convencido de que o justo era deixar eles terminarem, deslizei de volta pela marquise em direção às escadas. Peguei as garrafas de sidra e saí do prédio em silêncio, quase meia-noite. Caminhei devagar de Voltei pra festa; a mistura de raiva e tesão me deu uma ereção monstra. A festa tava tão animada que ninguém notou minha ausência. Entreguei as garrafas pro brinde e voltei pra mesa. Quando peguei meu celular, vi uma enxurrada de mensagens da Elena:
"Sai pra fora"
"Preciso falar com você"
"Tô no apartamento da sua tia"
"Acabou de entrar"
"Me responde"
"Preciso da sua opinião"
"Vem, vamos subir"
"Me diz se você aprova"
"Vai rolar"
"É você que entrou?"
"Acho que não vou aceitar você aqui"
"Não sobe pro apartamento, melhor nos cobrir"
A Elena tinha me procurado pra me incluir no ato, mas larguei o celular e perdi a chance de negociar. Embora duvidasse que minhas palavras fossem dissuadi-la; meus chifres estavam destinados naquela noite e não tinha como escapar.
Bateu meia-noite entre gritos e abraços. Entrei no brinde com a cabeça totalmente em outro lugar. Ninguém perguntava pelos ausentes, nem a Margarita. Justifiquei a Elena pra minha tia, dizendo que ela tinha passado mal com o álcool e ido deitar.
À uma da manhã, a Elena voltou pra festa. O Carlos tinha descido uns minutos antes pra não levantar suspeitas, então entraram separados. Entre as felicitações de Ano Novo, ela demorou pra chegar na nossa mesa. Quando finalmente me encarou, me olhou com uma mistura de nervosismo e uma satisfação profunda nos olhos.
— Feliz Ano Novo, meu amor! — falou com voz brincalhona — Ah... e também, feliz ano novo!
Minha raiva e ciúme se desarmaram com a malícia dela. Preferi retribuir o abraço sem reclamar nada em público. Ficamos mais um tempo pra não destoar, até que o Carlos se aproximou da nossa mesa pra dar o abraço de ano novo. Notei o olhar de cumplicidade imediato entre ele e a Elena. O Carlos abraçou minha esposa e depois se virou pra mim. Estendeu a mão, apertou com uma força desmedida que me levantou da cadeira e me deu um abraço pesado. Os vizinhos acharam normal. como um gesto de proximidade familiar; eu, que vinha da janela, soube que era uma provocação na minha cara. Ainda mais quando soltou as mesmas palavras que a Elena:
—Parabéns, garoto! Ah... e também, feliz ano novo!
A frase cravou no meu peito. Não sei se foi coincidência ou se combinaram entre os dois, mas engoli o orgulho pra não dar a eles minha raiva. Foi a última coisa da noite. Elena pediu pra gente ir, nos despedimos e saímos da reunião.
Entramos no prédio. Elena pegou minha mão e me puxou escada acima com pressa. Abriu a porta do apartamento e entramos. Tentou me beijar com urgência, me puxando pro quarto, mas na porta ela me parou.
—Espera, César, não entra ainda.
—E agora por quê?
—Me dá um momento... preciso arrumar o quarto.
No instante em que ia fechar a porta na minha cara, segurei com as duas mãos e empurrei com força. No chão, perto da entrada, estava um pé de meia de homem. A cama de casal era um caos total: os lençóis pendurados, desfeitos, úmidos e com um cheiro forte de sexo que tomava o espaço. Me aproximei pra tirá-los e, enroscado entre os panos, encontrei a cueca do Carlos. Nem tinham tido o cuidado de conferir as roupas direito antes de se vestirem às pressas.
Pedi pra Elena chegar perto. Ela tava de cabeça baixa, visivelmente arrasada pela vergonha diante da bagunça escancarada. Segurei ela pela cintura com firmeza, abri as pernas dela e sentei ela no meu colo, ficando de frente um pro outro. Segurei ela pela bunda e olhei nos olhos dela.
—Agora vai me contar exatamente o que rolou aqui dentro, Elena?
—Tem certeza que quer que eu conte agora... ou prefere que a gente faça outra coisa? —respondeu, mordendo o lábio.
Ela pegou na minha nuca e me beijou com uma intensidade selvagem, mordendo meus lábios como uma fera. Levantei ela e deitei no colchão nu; o centro da cama ainda tava encharcado pelo ato anterior, então que eu ajeitei ela na beirada. Abri as pernas dela e a gente transou.
Foi um sexo nada convencional, movido mais pela vontade de extravasar a raiva e o ciúme do que pelo prazer mútuo. Eu tava há horas com uma ereção monstra. A penetração foi super fácil por causa do quanto o Carlos tinha deixado ela aberta e lubrificada. Enquanto eu tava metendo nela, as imagens da janela me bombardeavam a mente, junto com o que o bagaço dos lençóis tava me mostrando.
Eu imaginei os detalhes: eles tinham se pelado em segundos. A umidade do colchão era só dos fluidos da Elena? Ou será que eu tava penetrando minha mulher em cima de uma mistura dos sucos dela com o esperma do Carlos? Varri o quarto com o olhar, procurando desesperado: Cadê a porra dos preservativos usados?. O fantasma da falta de proteção e da putaria do bairro me traíram na mente, fazendo eu gozar muito mais rápido que o normal.
A Elena não se importou; ela tinha gemido forte o tempo todo e o orgasmo dela também foi intenso. A gente ficou um momento abraçado em silêncio em cima do colchão, dividindo o calor dos fluidos. Depois de uns minutos de calma, a Elena levantou a cabeça, me encarou e perguntou com a voz suave:
— Quer que eu conte detalhe por detalhe o que rolou essa noite com o Carlos?
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