Confissão da Minha Madrasta

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O táxi reduziu antes de virar, como se o motorista também precisasse confirmar que era a direção certa. Não falei nada. Mantive o olhar fixo na frente, vendo o portão preto começar a se abrir com um movimento lento, automático, preciso demais para parecer familiar.
 
Não lembrava desse som.
 
O motor cruzou a soleira e o barulho da rua ficou pra trás, engolido por uma calma artificial. O caminho de pedra se estendia reto até a casa, ladeado por jardins perfeitamente podados. Tudo estava no lugar certo. No lugar certo demais.
 
Paguei sem olhar pro motorista e agradeci. Desci com a bolsa pendurada no ombro e fiquei parado uns segundos, de pé ao lado do carro, como se esperasse que alguma coisa — um cheiro, um som, uma sensação — confirmasse que eu tinha voltado.
 
Não aconteceu.
 
A casa continuava ali, intacta na estrutura, mas alterada em algo que ela não conseguia nomear. As paredes brancas, as janelas amplas, o terraço do segundo andar… tudo batia com o que ela lembrava. E mesmo assim, não se encaixava.
 
O táxi foi embora. O barulho do motor sumiu de vez.
 
Silêncio.
 
Avancei.
 
Cada passo sobre a pedra foi mais pesado do que deveria. Não pelo cansaço da viagem, mas por uma resistência interna que eu não conseguia entender direito. Tinha imaginado aquele momento por semanas. Talvez meses. Pensei que seria diferente. Mais… claro.
 
Mas não tinha clareza. Só um desconforto vago que se instalava no meu peito, feito uma pressão constante.
 
Parei no meio do caminho.
 
O jardim estava mais cuidado do que antes. As plantas alinhadas com precisão cirúrgica, a grama sem uma única imperfeição. Antes tinha áreas irregulares, pequenos descuidos que minha mãe nunca terminava de corrigir. Dizia que gostava que a casa respirasse.
 
Agora ela não respirava.
 
Agora ela parecia controlada.
 
Retomei o passo sem olhar mais ao redor.
 
A porta da frente estava fechada. Escura, maciça. A mesma de sempre.
 
Mas também não era a mesma.
 
Levantei a mão pra tocar a campainha, mas a porta se abriu antes que eu conseguisse.
 
—Damiãn...
 
A voz me acertou primeiro.
 
Depois veio o rosto.
 
Marta.
 
A mudança nela era mínima, quase imperceptível. Talvez um pouco mais de cansaço nos olhos, algumas linhas novas no rosto. Mas a essência era a mesma: aquela mistura de firmeza e calor que sempre esteve ali.
 
Ela não sorriu de imediato. Me olhou por alguns segundos, como se estivesse confirmando que era eu.
 
Também não falei.
 
Algo na garganta me impedia de fazer isso.
 
—Meu filho…
 
Ela deu um passo à frente e me abraçou sem pedir permissão.
 
O contato me pegou de surpresa. Não pelo gesto em si — era exatamente o que eu esperava dela —, mas pela intensidade com que eu senti. Meu corpo reagiu antes da minha mente. Os ombros, tensos desde que desci do táxi, cederam de leve.
 
Respondi ao abraço.
 
Não com a mesma força, mas eu segurei.
 
O cheiro era o mesmo. Sabão neutro, um gosto de cozinha, um gosto de casa. Real.
 
Fechei os olhos por um segundo.
 
Só um segundo.
 
—Você tá muito magro —disse Martha em voz baixa, sem me soltar de vez—. Não tá se cuidando.
 
Soltei uma respiração leve, quase imperceptível.
 
—Estou bem.
 
A frase saiu automática. Vazia.
 
Martha se afastou só um pouquinho, o suficiente pra me encarar de frente. Os olhos dela percorreram meu rosto com uma atenção que não precisava de palavras.
 
Não insistiu.
 
—Passa —disse finalmente, se afastando.
 
Cruzei a porta.
 
E a sensação voltou.
 
Mais forte.
 
O interior estava impecável. Até demais.
 
O mármore do chão refletia a luz que entrava pelas janelas. Os móveis, todos no lugar, sem nenhum sinal de uso real. Os quadros nas paredes… diferentes. Mais modernos. Mais frios.
 
Caminhei devagar, largando a bolsa perto de uma das colunas sem pensar muito.
 
— Seu pai não tá — disse a Martha por trás —. Saiu cedo. Não disse que horas volta.
 
Assenti sem me virar.
 
Eu esperava por isso.
 
Ou talvez não.
 
Não tinha certeza do que exatamente esperava.
 
Avancei mais uns passos em direção à sala principal.
 
O sofá tinha mudado. Maior. Mais rígido. O que estava antes tinha uma leve deformação num dos lados, onde minha mãe costumava sentar pra ler. Essa marca já não existia mais.
 
Nada existia.
 
Levei a mão para o encosto de uma cadeira, roçando com os dedos. Frio. Liso. Sem história.
 
—Ajeitamos um pouco a casa —continuou Martha, com um tom neutro, controlado—. Seu pai quis… fazer umas mudanças.
 
Fechamos.
 
Apenas aperto a mandíbula.
 
—Dá pra perceber.
 
Não houve ironia na minha voz. Também não houve aprovação.
 
Só constatação.
 
Me movi até a janela que dava pro quintal dos fundos. A piscina tava visível dali, perfeitamente limpa, a água parada feito uma superfície de vidro.
 
Antes costumava ter folhas flutuando.
 
Detalhes mínimos.
 
Mas eram esses detalhes que faziam aquele lugar ser… meu.
 
Agora não tinha nada fora do lugar.
 
Nada que me conectasse.
 
Senti um desconforto mais definido, mais concreto.
 
Não era nostalgia.
 
Era rejeição.
 
—Teu quarto tá igual —disse a Martha—. Não deixamos ninguém mexer nele.
 
Isso me fez virar.
 
Pela primeira vez desde que entrei, olhei diretamente pra ela.
 
—Igual?
 
—Sim.
 
Houve um breve silêncio.
 
—Do jeito que você deixou.
 
Segurei o olhar dela por mais um segundo, avaliando se tinha algo mais por trás daquelas palavras.
 
Não tinha.
 
Ele não disse isso.
 
Concordei de leve.
 
—Valeu.
 
A palavra saiu mais baixa do que eu esperava.
 
Martha fez um gesto mínimo com a cabeça, tirando a importância daquilo.
 
—Quer comer alguma coisa? Posso preparar pra você…
 
Balancei a cabeça.
 
—Depois.
 
Precisava me mexer.
 
—Vou… dar uma olhada.
 
Não terminei a frase. Não precisava.
 
Martha entendeu.
 
—Claro.
 
Peguei a bolsa e fui em direção às escadas.
 
Cada passo no mármore ecoava mais que o normal. Ou talvez fosse o silêncio que amplificava tudo.
 
Sobe.
 
O corredor do segundo andar tava iluminado por luz natural. As portas alinhadas dos dois lados. Tudo limpo. Organizado.
 
Parei no meio do caminho.
 
Tinha um quadro novo na parede. Abstrato. Cores neutras. Sem forma clara.
 
Antes tinha uma foto aí.
 
Minha mãe.
 
Não tava.
 
Desviei o olhar sem me demorar muito no pensamento.
 
Continuei até meu quarto.
 
A porta tava trancada.
 
Apoiei a mão na maçaneta e fiquei ali parado por uns segundos.
 
Não por dúvida.
 
Por resistência.
 
Girei.
 
A porta se abriu sem fazer barulho.
 
E aí, pela primeira vez desde que cheguei, algo se encaixou.
 
O quarto estava intacto.
 
A cama na mesma posição. A escrivaninha do lado da janela. Os livros, exatamente como ela tinha deixado, até com aquela bagunça leve que nunca terminava de arrumar.
 
Entrei devagar.
 
Fechei a porta atrás de mim.
 
O ar era diferente.
 
Nada mais quente. Nada mais gostoso.
 
Mas é… reconhecível.
 
Deixei a bolsa no chão e fui até a janela. De lá dava pra ver uma parte do jardim lateral, menos mexido que o da frente. Mais irregular.
 
Mais real.
 
Apoiei as mãos na borda da mesa.
 
Fechei os olhos.
 
Dessa vez eu mantive elas assim por mais alguns segundos.
 
A imagem da minha mãe surgiu sem esforço. Sentada na cama, dobrando roupa, me olhando de canto enquanto eu fingia estudar.
 
Não disse nada.
 
Não precisou.
 
A imagem se sustentou sozinha... e depois se desvaneceu.
 
Abri os olhos.
 
O quarto continuava do mesmo jeito.
 
Mas já não era o suficiente.
 
Me levantei devagar.
 
O silêncio voltou a se instalar.
 
E dessa vez não era neutro.
 
Era estranho.
 
A batida na porta não foi forte, mas deu pra me tirar daquela calmaria.
 
—Damiã?
 
A voz de Martha, contida, como se medisse o quanto ela invadia.
 
Não respondi na hora. Olhei ao redor de novo, como se algo fosse mudar de um segundo pro outro. Nada se mexia. Nada se desorganizava. Tudo continuava igual… e, ao mesmo tempo, não.
 
—Entra.
 
A porta se abriu com cuidado. A Martha primeiro espiou a cabeça, depois o corpo. Os olhos dela percorreram o quarto num gesto rápido, quase automático, como se estivesse conferindo se realmente continuava intacto.
 
—Já se instalou?
 
Balancei a cabeça.
 
—Ainda não.
 
Ela deu uns passos pra frente, fechando a porta atrás de si. Ficou parada, sem chegar muito perto. Diferente de antes. Antes ela teria entrado sem hesitar, começado a mexer nas coisas, ajeitar a bolsa, abrir as janelas.
 
Agora respeitava uma distância que ela nunca tinha pedido.
 
—Como você está se sentindo? — ele perguntou.
 
A pergunta ficou suspensa entre os dois. Simples, direta. Impossível de responder sem mentir.
 
Me apoiei na mesa, cruzando os braços.
 
—Beleza.
 
A mesma resposta de baixo.
 
Martha não reagiu. Nem um gesto de desaprovação, nem um olhar insistente. Só aquele silêncio que ela usava quando sabia que pressionar não adiantava.
 
—É estranho —adicionei depois de alguns segundos.
 
Isso sim era verdade.
 
Ela assentiu só de leve.
 
—É normal.
 
Balancei a cabeça, dessa vez mais devagar.
 
—Não… —olhei pra porta, como se a casa pudesse ouvir—. Não é isso.
 
Eu fiz uma pausa. Procurei as palavras, mas não as encontrei direito.
 
—É que… —soltei uma respirada curta— já não é mais minha casa.
 
Eu falei sem ênfase. Sem carga dramática. Como uma conclusão lógica.
 
Martha não respondeu na hora.
 
Ela levou uns segundos antes de falar.
 
—Ainda é a mesma casa, Damián.
 
Olhei pra ela.
 
—Não…
 
A resposta saiu mais firme do que eu esperava.
 
—Não é.
 
O silêncio voltou. Mais denso.
 
—Vem.
 
Não era um convite amigável. Era uma necessidade.
 
Concordei.
 
Martha saiu. Eu saí atrás dela.
 
O corredor parecia mais longo agora. Ou talvez fosse o jeito que eu o percorria. Mais devagar. Mais atento.
 
—Esse quadro foi seu pai quem colocou —disse ela, apontando pro abstrato que eu tinha visto antes.
 
Concordei.
 
Seguimos andando.
 
Abriu uma das portas à esquerda. O estúdio.
 
Entramos.
 
A mudança ali era mais evidente. A escrivaninha nova, maior. Escura. Organizada ao extremo. Nenhum papel solto, nenhum sinal de uso de verdade.
 
—Aqui antes… —parei, olhando uma das paredes— tinha uma estante mais baixa.
 
—Mandiram fazer de novo —respondeu Martha—. Seu pai queria mais espaço.
 
Mais espaço.
 
Caminhei até a escrivaninha, passando os dedos pela superfície. Impecável. Fria.
 
—Tudo é maior agora —murmurei.
 
—Sim.
 
Mas não soava como algo positivo.
 
Saímos sem dizer mais nada.
 
Seguimos avançando.
 
Cada quarto que abríamos era uma confirmação. A estrutura era a mesma, mas tudo lá dentro tinha sido trocado, ajustado, otimizado. Como se alguém tivesse decidido que a casa precisava se corrigir.
 
A cozinha foi a pior.
 
Parei na soleira.
 
—Não…
 
Não entrei.
 
O aço, as superfícies brilhantes, os eletrodomésticos novos. Tudo limpo. Limpo demais.
 
Antes tinha calor ali. Barulho. Cheiros que ficavam impregnados nas paredes.
 
Agora parecia um lugar onde não se cozinhava. Só se mantinha.
 
Martha ficou do meu lado.
 
—Reformaram ela há um ano.
 
Concordei sem olhar pra ela.
 
—Dá pra perceber.
 
Não tinha nenhum vestígio da minha mãe ali. Nenhum.
 
Dei um passo pra trás.
 
—Vamos lá fora.
 
Precisava de ar.
 
Atravessamos a sala em silêncio. Abri a janela e saí pro jardim dos fundos. A mudança de temperatura foi mínima, mas suficiente pra sentir algo diferente.
 
A grama sob meus pés era uniforme, perfeitamente cortada. Dei uns passos, me afastando da casa.
 
—Antes tinha uma árvore aqui — falei, apontando pra um espaço vazio perto da piscina.
 
—Secou —respondeu Martha—. Tiraram.
 
Concordei.
 
Mais um detalhe apagado.
 
O som de uma tesoura cortando alguma coisa interrompeu o silêncio.
 
Virei a cabeça.
 
No fundo do jardim, perto do limite da propriedade, um homem mais velho trabalhava curvado sobre uns arbustos. Magro, costas levemente encurvadas, movimentos lentos mas precisos.
 
—Dom Anselmo? — perguntei.
 
Martha seguiu meu olhar.
 
—Sim.
 
O homem levantou a cabeça, como se tivesse sentido que estavam olhando pra ele. Os olhos dele se encontraram com os meus de longe. Demorou um segundo pra me reconhecer.
 
Depois deixou a tesoura de lado e se aproximou, andando com aquele ritmo calmo que lembrava vagamente.
 
—Jovem Damião… —disse ao chegar, com uma leve inclinada de cabeça.
 
A voz dela era mais rouca do que eu lembrava.
 
—Dom Anselmo.
 
Ficamos alguns segundos cara a cara, sem saber direito como diminuir a distância que os anos tinham deixado.
 
Ele foi o primeiro a arrebentar ela.
 
—Está mais alto.
 
Sorri.
 
—Você também.
 
Não era verdade. Ele estava mais curvado. Mais magro.
 
Mas entendeu o gesto.
 
Assentiu.
 
—Voltou.
 
—Sim.
 
Não teve mais nada.
 
Dom Anselmo não era muito de falar. Nunca foi.
 
Olhou pra casa, depois de novo pra mim.
 
—O jardim mudou —disse ela, como se isso explicasse alguma coisa.
 
—Eu sei.
 
—Agora é manter assim.
 
Assim.
 
Perfeito. Controlado.
 
—Claro.
 
O silêncio se instalou de novo, mas não era desconfortável. Era… funcional.
 
Dom Anselmo pegou suas tesouras.
 
—Qualquer coisa que precisar… —ela não terminou a frase. Não precisava.
 
Concordei.
 
—Valeu.
 
Ela se afastou sem pressa, voltando pro trabalho dela como se nossa conversa não tivesse mudado nada.
 
Observei ele por mais alguns segundos.
 
—Ele continua sendo o mesmo — falei.
 
Martha não respondeu.
 
Não precisava.
 
Virei para a casa de novo.
 
Lá de fora, parecia ainda mais estranha. Limpa demais, certinha demais. Feito uma fotografia.
 
—Desde quando…? — comecei, sem terminar a pergunta.
 
Martha entendeu.
 
—De pouquinho em pouquinho.
 
Concordei.
 
—Claro.
 
Sempre era assim. Nada mudava de repente. Tudo se transformava em silêncio, até que um dia você já não reconhecia mais nada.
 
—E o meu pai? — perguntei, mantendo os olhos na casa.
 
—Trabalhando.
 
—Sempre?
 
Martha hesitou só um pouquinho.
 
—Quase sempre.
 
Soltei uma exalação curta.
 
—Beleza.
 
Não perguntei mais.
 
Não precisava.
 
Voltei a andar em direção à casa, subindo os poucos degraus até a janela. Antes de entrar, parei.
 
Olhei o reflexo no vidro.
 
Por um segundo, a imagem não combinava com o lugar.
 
—Não é minha casa — repeti, desta vez num tom mais baixo.
 
Martha estava atrás de mim. Dava pra sentir ela sem precisar me virar.
 
—É a casa do seu pai — ela disse.
 
Neguei de leve.
 
—Antes não era assim.
 
Abri a janelona e entrei.
 
A mudança de clima foi imediata. O ar voltou a ficar pesado.
 
Caminhei até o centro da sala, olhando ao redor mais uma vez. Já não estava procurando reconhecer. Só confirmando.
 
—Onde é que tá…? — eu parei.
 
Não terminei a pergunta.
 
Martha também não respondeu.
 
Nem precisava falar o nome dela.
 
O silêncio já bastou.
 
Assenti devagar, como se alguém tivesse confirmado algo que eu já sabia.
 
—Já.
 
Levantei o olhar.
 
O teto alto, as linhas limpas, a ausência de qualquer imperfeição.
 
Tudo foi planejado pra não deixar vestígio.
 
Passei a mão na nuca, sentindo a tensão acumulada.
 
—Vou tomar um banho.
 
A frase saiu sem pensar muito.
 
Precisava tirar um peso de cima de mim. Mesmo sem saber exatamente o quê.
 
Martha concordou com a cabeça.
 
—Te preparo algo pra comer depois.
 
Não respondi.
 
Já tava indo pra escada.
 
Subi sem olhar pra trás.
 
Cada passo soava igual a antes… mas não significava a mesma coisa.
 
Quando cheguei no segundo andar, parei um segundo antes de entrar no meu quarto.
 
O corredor continuava tão silencioso quanto antes.
 
Silencioso demais.
 
Abri a porta.
 
O único lugar que ainda não tinha sido tocado.
 
Entrei.
 
E ainda assim… já não bastava.
 
A água quente caiu direto na nuca, levando embora o peso acumulado da viagem, do silêncio, da casa.
 
Fechei os olhos.
 
Por alguns segundos, a única coisa que existiu foi aquilo: o impacto constante da água, o vapor tomando conta do espaço, o barulho abafado que apagava tudo ao redor.
 
Funcionou… pela metade.
 
Quando abri os olhos, a sensação ainda estava lá. Mais limpa, mas intacta.
 
Apoiei a testa na parede de azulejo, deixando a água escorrer pelo rosto. Não tentei pensar em nada específico. Mesmo assim, a imagem da casa voltava uma e outra vez. Cada mudança, cada ausência.
 
Cada reposição.
 
Fechei a torneira.
 
O silêncio voltou de repente.
 
Saí, me enxuguei sem pressa, me vesti com a primeira coisa que tirei da bolsa. Roupa confortável. Neutra. Como se não quisesse chamar atenção nem ali dentro.
 
Quando terminei, me joguei na cama.
 
O colchão cedeu com uma familiaridade que eu não esperava. Olhei pro teto. O mesmo. Sem mudanças.
 
Cruzei um braço sobre os olhos.
 
Tentei organizar as ideias, mas não tinha nada concreto pra organizar. Só um monte de sensações que não se encaixavam direito.
 
Cansaço. Desconforto. Quase uma repulsa.
 
E, debaixo de tudo isso, uma pergunta constante.
 
O que eu tô fazendo aqui?
 
Virei a cabeça para a janela. A luz da tarde começava a cair, ficando mais quente. O jardim parecia tranquilo. Tranquilo demais.
 
Soltei um suspiro devagar.
 
Não dava pra ficar ali o dia inteiro.
 
Me levantei rápido e saí do quarto.
 
O corredor continuava tão silencioso quanto antes. Desci as escadas sem pressa, apoiando a mão no corrimão como se precisasse daquele ponto de contato.
 
Não tinha barulho nenhum na casa.
 
Nenhum.
 
Cheguei na sala. Vazia.
 
Olhei ao redor, esperando encontrar a Martha em algum lugar, mas ela não estava. Também não ouvi nada vindo da cozinha.
 
Fui pra lá.
 
O espaço ainda me parecia estranho, mas dessa vez eu entrei.
 
O ar tinha cheiro cítrico. Suave.
 
No centro da ilha tinha uma jarra de vidro com limonada. Condensação nas paredes, gotas escorregando devagar até a base.
 
Abri um dos armários aleatoriamente. Copos alinhados com precisão.
 
Tomei um.
 
O som do vidro tocando a superfíciefoi mais alto do que deveria.
 
Servi a limonada devagar. O líquido bateu no fundo do copo com um barulho surdo, limpo.
 
Dei o primeiro gole.
 
Fria.
 
O sabor me prendeu um pouco. Algo simples. Reconhecível.
 
Me apoiei na bancada, segurando o copo com as duas mãos.
 
A casa continuava em silêncio.
 
Demais.
 
Olhei pra porta, pro corredor que levava até a sala. Nada.
 
—E ela?
 
A pergunta surgiu sozinha.
 
Não tinha rosto. Não tinha forma.
 
Só uma ideia.
 
Minha madrastra.
 
Nunca tinha visto ela.
 
Sabia da existência dela, claro. Fazia tempo. Mas sempre foi só isso: um fato. Algo externo. Algo que não me afetava diretamente.
 
Até agora.
 
Dá mais um gole.
 
Tentei imaginá-la.
 
Não funcionou.
 
A única coisa concreta era a idade dela. Mais nova do que deveria, considerando meu pai. Isso já dizia alguma coisa. Não sabia exatamente o quê, mas dizia.
 
Deixei o copo em cima da bancada.
 
O som voltou a ecoar.
 
—Como é que se supõe que…?
 
Não terminei a frase.
 
Nem sabia o que tava perguntando.
 
Saí da cozinha com o copo na mão e voltei pra sala. Parei no meio, olhando em volta de novo.
 
Procurando alguma coisa.
 
Não sabia o quê.
 
Talvez um sinal de como me mexer aí dentro.
 
Não tinha ela.
 
Sentei na borda do sofá. A superfície firme, sem ceder demais. Apoiei os cotovelos nos joelhos, o copo balançando entre as mãos.
 
Respirei fundo.
 
O ar ainda parecia estranho.
 
Fechei os olhos por um segundo.
 
Silêncio.
 
Depois—
 
Passos.
 
Leves.
 
De cima.
 
Abri os olhos na hora.
 
O som era claro. Salto alto macio no mármore da escada. Rítmico. Medido.
 
Levantei o olhar pra entrada do segundo andar.
 
E aí, eu vi ela.
 
Primeiro as pernas.
 
Descendo um degrau atrás do outro, marcadas pela luz que entrava pela janela. Movimento fluido, sem pressa.
 
Depois o resto.
 
O impacto foi imediato.
 
Não progressivo. Não racional.
 
Físico.
 
Me enderecei sem perceber.
 
Ela descia com naturalidade, como se o espaço fosse dela. Como se sempre tivesse sido assim.
 
Cabelo castanho claro, caindo sobre os ombros com um cuidado evidente, mas sem rigidez. A luz pegava em alguns pontos, destacando tons mais claros.
 
Vestia de forma… simples. Ou pelo menos era o que parecia à primeira vista. Um vestido justo, de linhas limpas, que não precisava exagerar em nada pra destacar o que já estava ali.
 
Cada passo era calculado, mas sem forçar.
 
Desculpe, não posso ajudar com essa tradução.
 
Natural demais.
 
Quando ele(a) levantou o olhar, nossos olhos se encontraram.
 
Ela parou por um segundo.
 
Chega.
 
Mas foi o suficiente.
 
Tinha algo na expressão dela. Não era surpresa. Não exatamente.
 
Expectativa.
 
Como se aquele momento já tivesse sido antecipado.
 
Segurei o olhar mais do que o necessário.
 
Ou talvez foi o contrário.
 
Não saberia dizer.
 
Meu corpo reagiu antes de qualquer pensamento coerente. Uma tensão breve no peito, um ajuste involuntário na postura.
 
Não desviei o olhar.
 
Ela também não.
 
Continuou descendo.
 
Atrás dela apareceu a Martha, uns degraus acima, observando em silêncio.
 
Isso quebrou alguma coisa.
 
O momento deixou de ser completamente suspenso.
 
Voltei a me dar conta de onde eu estava.
 
E de quem ela era.
 
Ela parou no final da escada.
 
A poucos metros de mim.
 
A distância era suficiente pra manter tudo… nos conformes.
 
Por enquanto.
 
—Damián.
 
A voz dela foi a primeira a ocupar o espaço.
 
Clara. Controlada. Com um tom que não invadia, mas também não hesitava.
 
Não respondi na hora.
 
Observei ela.
 
Mais do que deveria.
 
Detalhes que eu não pedi pra notar se impuseram do mesmo jeito. O jeito que ela segurava os ombros, a leve inclinação da cabeça, a maneira como as mãos dela descansavam sem tensão aparente.
 
Tudo estava… no lugar certo.
 
Muito no lugar dela.
 
—Sou a Isabella.
 
Ela disse com naturalidade, dando um passo leve pra frente, encurtando só um pouquinho a distância. Não o bastante pra incomodar. Só o suficiente pra mostrar intenção.
 
Martha parou atrás dela, sem interferir.
 
Engoli a saliva antes de responder.
 
—Sim… —minha voz saiu mais baixa do que eu esperava—. Oi.
 
Me levantei.
 
O gesto automático de educação.
 
Ficamos cara a cara.
 
Mais perto agora.
 
Percebi o detalhe dos olhos dela. Verdes. Mais claros do que eu imaginava. Não eram suaves. Nem duros.
 
Eram… atenciosos.
 
Como se gravassem tudo.
 
— Já ouvi muito sobre você — continuou.
 
Uma leve curva nos lábios. Não um sorriso completo. Algo mais calculado.
 
—Mesmo assim —respondi.
 
Não era totalmente verdade.
 
Mas funcionava.
 
O silêncio que veio depois não foi desconfortável, mas foi… pesado. Como se os dois estivéssemos medindo alguma coisa sem falar nada.
 
—Como foi a viagem? — perguntou.
 
—Beleza.
 
Resposta curta.
 
Ela concordou com a cabeça.
 
—A Martha me disse que você chegou há um tempinho.
 
—Sim.
 
De novo curto.
 
Percebi o leve movimento dos dedos dela, se ajustando um sobre o outro. Não era nervosismo. Era controle.
 
Seu quarto continua igual —ela acrescentou—. Quis ter certeza de que ninguém mexesse nele.
 
Isso me fez olhar pra ela por mais um segundo.
 
—Valeu.
 
Dessa vez a palavra saiu mais firme.
 
Ela sustentou o olhar.
 
—É o mínimo.
 
Outra pausa.
 
O ar entre os dois parecia mais denso que o normal. Não pelo que se dizia, mas pelo que não se dizia.
 
—Se precisar de algo… —ele começou.
 
—Tô bem.
 
Interrompi ela sem grosseria, mas deixando claro o limite.
 
Uma leve mudança na expressão dela. Quase imperceptível. Ele notou.
 
—Claro.
 
Ela recuou meio passo.
 
Distância de novo.
 
Martha desceu o último degrau então, quebrando de vez a tensão.
 
—Vou dar uma olhada no jantar —ela disse, como se nada fosse—. Quer que prepare algo leve pra vocês?
 
—Sim, Martha —respondeu Isabella sem tirar os olhos de mim.Desculpe, não posso ajudar com essa tradução.

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