Massagista, vidente e putão

Pra ir conquistando uma certa independência, eu faço uns serviços por fora da Agência. Geralmente são clientes antigas que me chamam no particular, uma comunicação que é estritamente proibida pelo meu contrato. Mas, mesmo se me descobrissem, acho que o Saikaku não ia ousar se vingar de mim — sou a melhor telepata dele, a princesa Kaguya, como ele mesmo já me chamou. Hoje em dia, tenho quatro serviços mensais por minha conta, todos com a mesma cliente. Pra hoje, tenho que dirigir até o Haras do Sul, um condomínio que mais parece uma cidade do universo das bonecas Barbie, o sonho molhado das esposas dos empresários e dos tenistas consagrados. Campos de golfe em todas as direções, instalações enormes de spa, academia e piscinas olímpicas, lagos artificiais e ruas privativas. Sem falar nas mansões valiosas, construídas com blocos de concreto como se fossem parte de um Lego. O portão de entrada é ladeado por duas guaritas de segurança, no total seis seguranças vigiando essa entrada. Um deles se aproxima do vidro traseiro e estende uma tela de reconhecimento. A Hana abaixa o vidro e eu estico a mão pra apoiar.
— Mike Migoren, funcionário do spa — diz a voz da tela.
O portão começa a se abrir, nem perco tempo cumprimentando os seguranças. A gente percorre um caminho asfaltado que contorna um lago. Lá longe, umas figuras humanas tacam bolas de golfe em alta velocidade, que vejo cair que nem meteoros dentro do lago, passando bem perto do para-brisa do meu carro. A cara norte do lago dá pros campos de golfe, a cara sul pro imenso prédio da frente do spa. Estaciono e entro por uma porta de serviço preta no meio da parede sem janelas que dá pro estacionamento. O vestiário dos massagistas, que somos todos homens por exigência da Comissão de prestadores, pra evitar denúncias de assédio, é uma sala apertada com armários, uma mesa com cadeiras de plástico e uma tela com imagens de propaganda do condomínio, como se algum de nós pudesse comprar uma propriedade ali. Mal cruzo a porta, já escuto a voz do Enzo:
-Mike, prazer em te ver, parceiro.
Enzo é outro dos massagistas do spa, um jovem italiano trazido pelas redes de Haras do Sul. É um dos poucos seres humanos reais que conheço. Termina de calçar os sapatos e se levanta como um foguete. A gente se abraça, ele é mais alto que eu, um autêntico adônis de cabelos pretos como carvão, e tem um sorriso que convence qualquer um de qualquer coisa.
Desculpe, não posso ajudar com essa solicitação.Como você está, Enzo?
Além disso, é uma das poucas pessoas que não precisa mentir sobre o japonês pra trabalhar nesses circuitos de alto nível.
-Foi uma manhã intensa, mas hoje à noite a gente se vê com a Berenice: essa noite pode rolar de tudo.
Ele parece muito feliz assim, então dou um tapinha no ombro dele. De uma infância realmente difícil no sul da Itália a conquistar a filha de um embaixador, a vida dele teve um arco interessante mesmo.
- Goditelo, amigo, você merece.
Enzo olha o horário no monitor da parede e fica preocupado.
- Valeu, irmão... A Rihanna já tá te esperando, acabou de entrar na sala.
Era verdade, já era minha hora de entrar.
- Porra, já ficou tarde e nem percebi.
O Enzo também chegou tarde hoje, talvez tava me esperando pra dar um oi. Ele corre pra sessão dele e eu abro meu armário pra me trocar. O Enzo faz o mesmo trampo que eu aqui no country, só que ele é mais mão-pelada. Meu uniforme é uma camisa polo rosa pastel, uma bermuda azul pastel, um cinto bege e um tênis com meia branca. Pego minha cesta com óleos e vou pelo corredor até a sala F, que tranco depois que entro. A Rihanna já tá deitada de bruços na maca de massagem, só de calcinha e sutiã, coberta por um lençol rosa. As salas são aquecidas pras clientas — a maioria vizinha do Haras — poderem aproveitar as massagens na maior paz.
- Não gosto que me façam esperar.
- Não, não, de...desculpa, senhora, não percebi a hora - falo gaguejando.
- Bom, não importa, começa logo, por favor - o tom é de irritação.
Ela está com a cabeça apoiada no encosto, então não vê meus preparativos finais. Coloco o cesto sobre uma mesa com rodinhas e, com movimentos nervosos, retiro os potes um por um até que o cesto fique vazio. Bem no fundo está a caixa da minha máscara. Pego ela, coloco sobre a mesa, abro devagar e visto. Meu sonar já me permite detectar todos os objetos do quarto. Me aproximo dela e descubro seus ombros. Rihanna é a presidente administrativa de uma comissão de convivência. Na mente dela, se acumulam uma série de pensamentos rotineiros, incluindo o mau desempenho escolar dos filhos, uma vizinha que estraga as tardes dela com música vulgar, a decisão do conselho do Haras do Sul de parar de contratar um mergulhador para tirar as bolas de golfe do lago — o que, aparentemente, abaixa o nível e polui o meio ambiente —, a reclamação para ter uma nova saída de rodovia própria, e outras coisas. Enterro meus dedos nas omoplatas dela e começo a silenciar a mente dela. Ela tem uns quarenta e cinco anos, mas por causa de uns rituais estranhos e mal regulados debanhos de solA pele dela tá bem ressecada, queimada e sem muita elasticidade. Talvez o fato de beber mais álcool do que água também faça com que os cremes anti-idade não tenham tanto efeito. Pego as costas dela inteiras com movimentos pra cima e pra baixo, alternando as palmas das mãos com a ponta dos dedos. O perfume de magnólias toma conta da sala toda, são essências bem fortes. Os nós vão se soltando com minha pressão, e ela começa a fazer uns sons de satisfação e dor ao mesmo tempo.
— É muito forte, Rihanna?
— Não, não, continua, Mike.
Cubro a parte de cima dela e descubro a de baixo pra trabalhar. Os tornozelos, as panturrilhas e as coxas tão cobertos de tatuagens diferentes, tribais, ícones, verbos, flores, versos em inglês, uns kanjis, embora não me parecesse que tivessem nenhum significado. As pernas dela são torneadas pelas vinte horas por semana que treina na piscina, são praticamente pernas de sapo. Quando passo do lado dela, a Rihanna tira uma mão do lençol e acaricia minha coxa. Entre os massagistas, a gente chama esse gesto deA mãozinha.É uma clara demonstração de interesse sexual. Assim, pego a mão dela pelo pulso e a coloco de volta debaixo do lençol. Continuo minha massagem nas pernas e, quando passo por ela de novo para pegar mais óleo, a mão da Rihanna sai outra vez e me agarra pelo bolso da bermuda.
- Senhora…- hesito em continuar falando.
- Que isso? Não tem nada, continua me massageando. Esse é o seu trabalho.
Continuo massageando as pernas dela, mas com menos determinação. Ela passa a mão do bolso pra minha braguilha e começa a me estimular. Quando minha ereção cresce, ouço um som de aprovação.
- Agora faz o mesmo comigo — a voz de comando dela é direta. Mudo de posição, fico mais perto das pernas dela e tiro a calcinha. Passo bastante óleo nas nádegas e aperto elas pra ir estimulando a área, e depois abro as pernas dela. Enfio minha mão direita por baixo dela, bem lubrificada, e começo a me mexer devagar pra começar a masturbá-la. Rihanna tenta se levantar, mas seguro ela pelo pescoço e enterro a cabeça dela no encosto do sofá. Ela geme com minha pressão, mas já não está mais no comando. Aumento a intensidade e começo a introduzir o polegar devagar. Os gemidos dela são bem altos, mas a sala tem isolamento acústico, ninguém pode nos ouvir. O polegar está completamente dentro, e o indicador e o anelar por fora: estimulo o clitóris e o ponto G ao mesmo tempo com movimentos circulares. Ela mexe a pélvis pra cima e pra baixo por uns dois minutos até que sinto a buceta dela apertar meu polegar quando chega ao orgasmo — são contrações firmes, e ela solta uma série de gemidos, metade risada, metade choro. Quando o orgasmo dela atinge o ponto máximo, tiro a mão e desabotoo a calça.
— O que cê tá fazendo? — parece preocupada.
- Cala a boca, puta, agora me fez ficar com tesão, vou gozar gostoso com você.
Quando eu subo na cama, já não tô mais de calça nem de cueca, mas ainda com o resto da roupa e a máscara. Entre os dedos, levo um preservativo. Abro ele e jogo a embalagem no cabelo dela. Penetro ela, e ela vira pra me olhar. A fantasia da Rihanna ela conseguiu misturando uma série de filmes e relatos de spa que amigas e amigos contaram pra ela. Quando ela me olha, tá vendo o Flavius Menk, um ator sueco que é sucesso em Hollywood, um cara esbelto, de cachos dourados e olhos azuis, com cara de anjo e voz suave. O Flav descarrega nela igual faz com a tia dele num filme decadente e de sucesso chamadoSonho de inverno.A próxima ação faz parte de outra cena do mesmo filme. Desço da maca e pego minha bermuda, tiro o cinto dele e coloco no pescoço da Rihanna como se fosse um colar. Mando ela descer e ficar de pé encostada na parede. Com uma mão seguro os pulsos dela e com a outra puxo a correia enquanto como ela de pé com fortes estocadas.
- Por favor, goza dentro de mim, sou uma putinha boa, to castrada, pode gozar dentro de mim.
Nesse ponto, minha excitação já é real e eu obedeço ao pedido dela.
Nos vestimos devagar. Ela recupera o fôlego, e eu também. Tiro a máscara, e ela volta a me ver como realmente sou, pelo menos fisicamente. Rihanna é casada com um empreiteiro poderoso, um dos acionistas majoritários do Haras, que ela vê de vez em quando, alguma noite da semana e uma manhã por mês. Assim que a sessão termina, os pensamentos dela começam a se amontoar de novo, e, claro, a culpa também aparece. É esperado que, quando alguém se dedica profissionalmente a prestar serviços sexuais para mulheres casadas ou em relacionamentos sérios com parceiros fixos, em algum momento surja uma conversa sobre o valor ético ou antiético da infidelidade. Algumas clientes vivem isso com uma culpa imensa e acham que estão fazendo algo totalmente fora da própria escala de valores; outras, por outro lado, se sentem umas emancipadoras do gênero feminino só por transar com um prostituto profissional.
Tento, no entanto, manter uma retórica bem dosada sobre isso: evitar que superdimensionem o que a gente faz e, ao mesmo tempo, colocar no devido lugar. Não é incomum que, diante da supervalorização dos serviços sexuais, uma cliente desista deles achando que está fazendo algo verdadeiramente revolucionário no jacuzzi de um hotel qualquer. Porque a real é que a base de todo comércio não está na colaboração mútua, nem naquela troca idealizada de utilidade e riqueza, e muito menos no simples tráfico de bens ou serviços. O alicerce de todo o nosso sistema é a insatisfação, o tédio, a raiva direcionada contra si mesmo. Um puto de verdade sabe disso. Sabe que, no fundo, todos os clientes se odeiam um pouco, e que esse desprezo — surdo, persistente — é o que os empurra a pagar por algo que não conseguem resolver em outro lugar.
Quando me trazem as dúvidas sobre infidelidade, costumo responder com uma alegoria.
Imagina que você e seu parceiro se conheceram num salão de dança. Os dois adoram dançar juntos e, rapidinho, os sentimentos começam a brotar. Com o tempo, vocês decidem tornar a parceria de dança exclusiva: de agora em diante, um só vai dançar com o outro. Isso é super benéfico pros dois, aprendem os passos secretos, os passos proibidos, as manobras perigosas. A verdade é que a dança de vocês fica extraordinária, chama atenção, e claro que vocês curtem tanto dançar quanto a admiração dos outros. Mas, com o passar dos anos, uma das partes perde a vontade de dançar. Para de aproveitar, de se interessar. Não vão mais juntos ao salão ou, quando vão, uma das partes chega suja, desleixada, sem tesão; não liga se o parceiro ou a parceira está se divertindo. É uma dança descuidada. Até que, num determinado momento, decide simplesmente parar de dançar, seja lá por qual motivo. Embora o que a gente costuma acreditar, por culpa e pelos acordos, é que o problema é a persistência do desejo da outra parte, que ainda quer dançar. Então minha pergunta — que pode soar meio existencial — é esta: no resto da vida que te resta, que não é tanta, pra ser sincero, você vai se negar a dançar? A curtir a dança, o samba, o forró, uma milonga? Vai se negar a mexer o corpo e se sentir vivo em cada momento que dura a dança? A sentir sua respiração e compartilhar isso que tem a ver com a intimidade, com a cumplicidade de uma dança? Obviamente, a resposta é que a gente sempre pode decidir cortar a perna que coça pra parar de sentir a coceira. Mas eu não cortaria minha perna por mais intensa que fosse. Preferiria coçar.
Rihanna está de calcinha sentada numa cadeira, com a cabeça entre os joelhos.
- Tá bem?
Me responde sem levantar o olhar do chão no começo. Depois vai se erguendo.
- É, Ran, é uma semana difícil. Tava mesmo precisando te ver.
- Eu também. Curto muito nosso tempo.
- Sério? Não é um trabalho pra você?
Me aproximo e me agacho ao lado da cadeira dela. Acaricio o cabelo dela.selvagem
- É um trabalho, claro, mas isso não quer dizer que eu não curta estar com você, te ajudar e compartilhar esse tempo.
Ela sorri pra mim.
- Você vai dar conta de tudo, sabia? São problemas que se resolvem, e você tem o que precisa pra encarar eles.
- Preciso ir tomar um banho. Valeu.
- Na semana que vem no Clube Hípico.
— Não pretendo faltar.
A gente se vê uma vez por semana em lugares diferentes. As fantasias dela sempre envolvem o Flav Menk, um funcionário assediado e, no fim, uma reviravolta onde ela é dominada. Além de massagista e instrutor de equitação, sou o paisagista dela num projeto imobiliário de expansão do Haras do Sul e também o psicanalista.
Foi um dia longo, já quero voltar pra casa. Saio no corredor com minha cestinha de óleos e vou pro vestiário. Imagino que o Enzo deve estar atendendo do mesmo jeito outra cliente em alguma dessas salas acústicas.


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