Fala, galera, tudo bem? Chegou o final dessa história. Espero que tenham gostado. Como falei no começo, foi inspirada numa outra que li nesse site há muito tempo. Se alguém ler essa história até o fim e, por acaso, leu a original, não é coincidência. E se alguém souber como contatar o autor pra ele publicar de novo, agradeço a informação. Como sempre, valeu a todos que leram, comentaram, deram nota, etc. Tô preparando uma sequência, mas ainda falta bastante. Vai demorar um pouco. Por enquanto, espero que curtam esse final.Capítulo IX - Volta do ParafusoAcordei na banheira perto do meio-dia, tremendo de frio. A água tinha perdido a temperatura e não tive outra escolha a não ser acordar. Tremia igual uma folha, estava com a pele arrepiada e os dentes batendo. Mas aquele frio conseguiu acalmar um pouco toda a irritação que eu sentia na buceta e no cu.
Tomei um banho quente pra não morrer de hipotermia. Mas não tava a fim de encarar o dia normalmente, então voltei pra cama. Imaginei que em algum momento os meninos viriam, pelo menos, perguntar se eu tava bem. Deviam ter ouvido o barulho do chuveiro e meus passos, e se ligado.
— Mãe! Cê tá aí? Tá bem? — Ouvi a voz da minha filha, do lado de fora da porta, que graças a Deus lembrei de trancar naquele transe em que me encontrava quando cheguei em casa.
— Tô sim, meu amor, o que foi? — Perguntei, me fazendo de desentendida.
— É meio-dia. O que houve que você não levantou? Quer um café?
Tava morrendo de vontade de um café. Aceitei a oferta dela pra poder improvisar um verso e disfarçar a situação enquanto ela preparava. Coloquei uma camisola, guardei a toalha no lugar, destranquei a porta e me deitei. Dez minutos depois, minha filha chegou com uma xícara de café e um croissant.
—Obrigada, filha. Você não sabe o quanto eu precisava disso.
Ela se sentou na cama, claramente pronta para me encher de perguntas. Apesar de tudo, os métodos do curso serviram pra alguma coisa, e consegui convencê-la de que foi só a cerveja que me pegou, e eu tava de ressaca mesmo. Pedi pra ela não contar nada, e se podia fazer a comida, porque queria dormir mais um pouco. Ela se cagou de rir, mas me deixou em paz.
À tarde, liguei pra minha ginecologista e implorei pra ela me atender com urgência. Ofereci pagar um extra por ser sábado. Fui no consultório dela, tive que confessar a situação (embora tenha omitido várias partes), e ela me examinou. Por sorte, não encontrou nada estragado. Mandou eu tomar analgésicos (agora entendo por que chamam assim) e me passou vários pedidos de exames de diferentes tipos, incluindo um teste de gravidez, só pra descartar. De novo, uma sensação de frio na espinha me percorreu por alguns segundos.
Passei na casa da Lili, mas não tinha ninguém. Deixei um bilhete pra ela me ligar. Voltei pra casa e tive uma conversa com os meninos (dessa vez com os dois) sobre os perigos do álcool e um monte de outros cuidados que eles precisam ter. Quando encheram o saco de ouvir o sermão, me prometeram não tocar mais no assunto e não beber nem um copo de sidra no Natal, mas imploraram pra eu deixar eles irem. Me ofereci pra amassar uma pizza pra eles, lembrando do que o pai tinha sugerido no dia anterior.
O resto da semana fiquei tirando conclusões. Ainda me sentia usada e humilhada por um psicopata. Com um pouco de lábia, ele conseguiu que eu topasse coisas que nunca tinha pensado em fazer. Me sentia uma puta, e outras barbaridades que ele falou enquanto me sodomizava. Mas, dentro desse oceano de angústia, tenho que admitir que certas partes eu gostei. A sensação de aventura, a ideia de que ainda existem homens capazes de se esforçar pra me possuir porque gostam do meu corpo, querendo ou não, me rejuvenesceu.
Honestamente, se Ficava do lado do meu marido mais por causa dos meninos e da grana, mas em grande parte porque não me via arrumando um homem decente se ficasse sozinha de novo. Essa barreira sumiu. Mas principalmente me sentia bem porque depois de muitos anos voltei a curtir o sexo. Nunca fui comida tão bem quanto pelo Ricardo. Claramente os caras que tentaram não foram homens o suficiente, ou não tinham experiência, ou as duas coisas. Não posso mentir: o Ricardo me levou ao céu antes de me levar ao inferno.
De qualquer forma, decidi largar o curso. Tava claro que a ideia não era fazer uma peça, mas sim fisgar alguma bocó (bocona, nesse caso), fazer o teatro, e comer ela. Claro, não ia na Quarta-feira no horário de sempre falar na cara dele. Com certeza ia me convencer a ficar. Já tinha vencido minhas defesas uma vez, tranquilamente podia fazer de novo. Tinha uns dias pra inventar uma desculpa pra família. E outra pra Lili.
Na Quarta-feira à tarde, depois de quase uma semana, a Lili me ligou. Me convidou pra tomar um café no centro, no lugar de sempre, umas sete horas. Ia me buscar. Me colocou numa saia justa, porque se dali eu quisesse ir pro instituto, teria que voltar a pé. Mas não falei nada, pra não pisar na bola.
Fomos ao café, e durante o caminho inteiro quase não falamos nada. Sentamos na mesma mesa de sempre, e a Lili acendeu um cigarro com o que sobrou do que já ia jogar fora.
— Lili, o que que há? Cê tá séria, não para de fumar… faz quase uma semana que a gente não conversa…
— Pato, não sei como te dizer isso. Tô roendo as unhas há vários dias. Sou uma porcaria. Você não merece ter uma amiga como eu.
— Lili, puta que pariu, o que cê tá dizendo? Me fala o que aconteceu, não vou te matar. — Tava me assustando com a seriedade dela.
— Pato, não posso continuar o curso. Nem os ensaios… Já nem sei mais como chamar isso. Não dá mais pra continuar.
— Mas isso não é tão grave. Fica tranquila que eu também não pretendo continuar com esse degenerado. — Percebi que falei demais assim que soltei aquilo.
— Como é que você sabe que ele é um degenerado? — Perguntou Lili, quase me encurralando. Tentei buscar algum episódio que pudesse usar de base pra mentir de forma convincente, e achei alguma coisa.
— Tá me tirando? — Perguntei, fingindo estar ofendida. — Eu tava a dois metros quando ele te comeu, se fazendo de coreógrafo de Hollywood. Não sei como você não deu um tapa na cara dele e denunciou…
— Não, Pato. Se eu tava mais tarada que ele. Tive que morder os lábios pra não gritar. O problema foi o que aconteceu depois.
Como caralhos ela tinha ficado sabendo do que aconteceu depois? Será que esse filho da puta falou?
— Deixa eu te contar, Pato. Me sinto uma puta nojenta.
— Para de encher o saco e me fala o que aconteceu.
— Na quinta, o ensaio acabou… Polvo… chama do que quiser, e a gente foi embora pra merda. Fiquei extasiada. Cheguei em casa e tive que me masturbar. Ainda tinha um resto de porra dentro. Na sexta, como você deve saber, o Ricardo avisou cedo que ia suspender as aulas porque ia pra Santa Fe o dia inteiro.
Essa foi a desculpa que o filho da puta deu pra poder me foder sem parar. E avisou cedo. Ele já tinha tudo planejado, e eu caí que nem uma otária.
— Lá pelas oito, mais ou menos, ele me ligou pra pedir desculpas, que tinha passado dos limites, mas que queria me ver pra falar cara a cara, como um homem de verdade.
Às oito, calculei, ele tava dormindo, se recuperando da segunda foda. Usou essa pausa pra encarar a Lili. Tem que admitir que audácia não faltava.
— Ele me pediu pra ir sábado à tarde no bar que fica na esquina do instituto. Eu imaginava que não era só pra pedir desculpas. Também não precisava me pedir muito. Se ele me fez gozar como nunca.
Tudo que ela tava me dizendo me soava tristemente familiar.
— Então me preparei como pra guerra. Você me conhece. Coloquei o que Melhor que tenho. Fui ao bar pensando que ali mesmo ia começar com uma abordagem convencional: “Quer beber algo? Vamos para algum lugar mais tranquilo?” Como um homem normal faria. Em vez disso, ele pediu desculpas por sair do roteiro, blá, blá, blá, o teatro, etc. Disse que teve que recorrer a me comer assim para te impressionar, pra você ver o que era se sacrificar pela obra, pelos colegas, blá blá blá, o roteiro, etc. E aí mexeu com meu orgulho. Tenho que admitir que quando ele te mencionou, me deu uma crise de ciúmes. Ele tava só enchendo o saco pra provar um conceito idiota pra você… Não dava pra tolerar.
O pior é que era verdade. Mas não podia falar pra ele.
— Mas ele percebeu o que tinha provocado em mim. Então mudou de papel e partiu pro ataque. Me propôs ir pro palco continuar ensaiando. Me provocou com a ideia de que se eu fizesse as cenas tão bem quanto na quinta, ele te mandava embora e me dava o papel de Alicia.
— Queria me passar a perna. Que bonitinho, hein?
— Não, Pato, por favor, não pensa isso. Eu queria ensaiar qualquer cena pra ele me comer de novo. Que porra eu ligava de fazer a Alicia, a Mercedes, ou a aguadeira reserva?
— Tava te zoando, já imaginava por onde vinha a mão.
— Bom, o negócio é que fomos pra sala de ensaio. Perguntei que cena ele queria ensaiar. Ele disse, sem hesitar um segundo, a do pool.
Claro, ele não era nenhum otário. Ensaia as cenas onde a Mercedes transava teria sido muito pouco. Além disso, ele tinha que continuar com a história de testar a Lili no papel de Alicia.
— Mandou eu me trocar enquanto ele montava o pool. Não montou porra nenhuma, ficou me olhando de longe enquanto eu tirava a roupa. Dei um mini-espetáculo pra ele. Ao tirar a tanga, deixei a bunda bem pra cima, mais tempo que o normal. Coloquei aquele vestido branco e voltei pra mesa, rebolando igual gata no cio. Aí ele me explicou a cena, os diálogos (que eu sabia de cor) e a coreografia sexual. Tinha que Subir meu vestido…
Lili me explicou com todos os detalhes como era a cena de sexo que eu conhecia perfeitamente. Como não estava no roteiro, ela achou que eu não sabia dos pormenores. É admirável a precisão com que Ricardo montou a cena nas duas vezes.
— Bom, aí a gente começou. A parte dramática saiu nota dez. E a parte erótica… Meu Deus…
— Me conta, não me deixa assim.
— Como a gente tinha combinado, ele levantou meu vestido e se ajoelhou atrás de mim. Que língua que ele tem. Dá pra ver que ele fala tanto que treina ela assim. Me chupou tudo que você pode imaginar. Massageou meu clitóris, meteu a língua no meu cu…
— Fala baixo…
— Achou meu ponto G, me molhei até os joelhos, enfiou dois dedos onde… tinha metido a língua… Me fez voar de prazer.
Dá pra ver que o filho da puta pensou em reutilizar o que já tinha dado certo. Pra que mudar o que funciona?
— E aí veio a melhor parte. Como a cena exigia que a Alicia fingisse sofrer, sem me avisar nada, ele meteu no meu cu. Forte. Enterrou até o saco. Você não sabe o grito que eu soltei.
Eu imaginava, mas não falei. Primeira diferença com a Lili. Comigo ele teve que convencer, com ela ele surpreendeu.
— Na hora pedi pra ele não ser tão bruto. Ele começou a bombar devagar, mas sem parar. Doía pra caralho. Pedi pra ele tirar, mas ele continuava vidrado no personagem.
Vidrado pode ser, mas não no personagem. Também não falei nada.
— Ele não parou de meter por quinze minutos, me fazendo sofrer. Ainda bem que eu já tinha alguma experiência nessa área. Mas depois desses quinze minutos… Minha nossa senhora!… Que prazer! Comecei a gritar e gemer igual uma gostosa. Não sabia que dava pra gozar tanto com o cu. Achava que era lenda de filme pornô.
Segunda diferença com a Lili.
— Ele meteu com tudo por mais dez minutos. Ou quinze, não faço ideia. Nessa altura eu já tinha mandado o personagem pra puta que pariu. Pedia pra ele me partir ao meio, que me deixou renga. Me deixou mais louca do que já tava. Ao mesmo tempo, enfiou uns dedos na minha pussy. Não aguentei de prazer e gozei como se tivesse possuída pelo demônio. Deixei uma poça do lado da perna da mesa. Mas aí, na mesma hora, ele também gozou. Soltou um rugido capaz de derrubar um búfalo, e encheu meus intestinos de cum.
—Já tá ficando meio nojenta essa conversa.
—O negócio é que, quando voltei do banheiro, ele tinha preparado o mate e tava me esperando de cueca na cama. Pediu pra eu deitar do lado dele, e além do mate, me ofereceu umas facturas.
Com certeza da padaria da esquina. Mordi a língua pra não falar demais.
—Aí ele me disse que, de agora em diante, a gente ia ensaiar só a parte dramática. Que eu já tinha passado no mais foda das cenas de sexo, e que tava pronta pra seguir. Pra me cutucar o orgulho, falou que não sabia como ia fazer pra te demitir. De qualquer forma, me propôs ficar depois do expediente às quintas, mas não pra ensaiar, e sim, diretamente pra fuck.
Por sorte, eu tinha tudo organizado. Quinta a morena, sexta a loira. Que não se misture o gado.
—Já tava vendo onde isso ia dar, então apertei ele pra me dar um exemplo prático. Ele sugeriu simplesmente transar naquela hora, naquela mesma cama. Não terminou de falar e eu já tinha tirado o resto da roupa e tava chupando a cock dele. Que loucura, que senhora pica. Das outras vezes não tinha visto de perto. É um espetáculo.
Quando ele começou a descrever ela, eu fiquei pensando. Por que ele tava me contando tudo isso com todos os detalhes? Queria me dar ciúmes? Por que não falou de forma resumida que tinham transado e pronto? Tinha algo estranho.
—A gente ficou um tempão fazendo um sessenta e nove, até que ele pediu pra eu sentar em cima dele. Montei nele como se fosse desmontar ele. Ficamos um tempo assim, e eu já queria mudar de posição, mas ele não aguentou, e terminou Lá dentro, sem avisar, antes de mim. E ainda por cima com um silêncio do caralho. Olha se não é um velho broxa, que me implorou por vinte minutos pra descansar.

Ou o efeito do Viagra de sexta tinha passado, ou ele era um velho broxa de verdade, mais um qualquer quando não tomava. Que decepção.
—Dei os vinte minutos pra ele, e tive que dar mais vinte. Quando acordou, começou com um discurso sobre naturalidade, como ele gosta de foder do jeito certo, e que o roteiro fosse pra puta que pariu, etc. Chegou a dizer que ainda faltava me fazer amor. E aí ele se fodeu, porque no meio das merdas que falou, mencionou algo sobre avançar o relacionamento. Na hora cortei ele e falei que se queria um relacionamento, tava falando com a pessoa errada.
Terceira diferença com a Lili. Ela sempre teve as coisas claras. Se queria sexo, ia atrás. Não tava nem aí pra quem enchesse o ouvido dela. Nesse aspecto, admirava ela pela força de vontade.
—Falei pra ele que se quisesse continuar transando, sem compromisso, não tinha problema. Mas deixei claro que não queria saber de me envolver, obviamente porque tô num relacionamento, e porque já tô velha pra ficar me escondendo, etc.
—E aí? —Perguntei ansiosa.
—Me mandou lavar a louça. Me xingou em todas as línguas. Jogou minha roupa e disse pra eu me vestir e vazar. E que se eu quisesse atuar, me ligasse, me comportasse como uma profissional, etc. Parece que não gostou de eu ter cortado ele na cara.
—Ele te bateu? Te acertou com o termo?
—Não, ele tava acabado. A única coisa que disse foi que se eu abandonasse a peça por essa besteira, que pelo menos tivesse coragem de falar na frente de todo o grupo.
—Que filho da puta. Te faz falar na frente de todo mundo. Não tem vergonha na cara.
—Eu também não tenho vergonha. Vem comigo que eu falo o que tenho que falar.
—Vou com você até a porta, mas não quero ver aquele filho da puta, nem os outros dois otários.
Pagamos o café e fomos pro instituto. Não tinha ninguém. Parecia vazio. Esperamos um tempo na calçada, pra ver se aparecia alguém, e não tivemos sorte. Já tava suspeito.
No dia seguinte liguei, e a operadora disse que o número tava fora de serviço. Perto do meio-dia fui sozinha, pra ver se pelo menos a secretária tava lá. Só tinha era um conhecido meu, funcionário de uma imobiliária, colocando uma placa de aluguel na porta. Perguntei o que tinha acontecido e ele disse que o inquilino anterior teve o contrato vencido na segunda-feira. Pedi mais detalhes, mas ele falou que não podia divulgar essa informação. Mesmo assim, me deixou entrar pra ver a propriedade.
Lá dentro não sobrou nada. A secretaria estava vazia. A sala de aula estava vazia. Na cozinha não tinha nem o mate. Fui pro salão de ensaios, não sobrou nada. Era um galpão e só. Que desolação.
Sempre desconfiei que o Ricardo, se é que esse era o nome dele, montou todo esse circo pra atrair donas de casa insatisfeitas com a história do teatro. Pelo que eu sabia, duas tinham caído. Mas isso já era outra parada. Era elaborado demais e exigia tempo demais pra só pegar umas bucetas e pronto. Com menos esforço, ele podia ir pra uma balada, pegar duas novinhas e se divertir pra caralho. Tinha algo estranho.
E aí caiu a ficha. Lembrei que a gente tinha pago a tal matrícula pro ano inteiro. Não sei quantos mais caíram, mas só com os dez da nossa turma já tinham uma boa grana. Se tinham mais dois cursos, era um golpe espetacular.
Voltei pra casa mastigando raiva. Como eu pude ser tão otária? A grana da minha indenização tinha ido toda nesse golpe. Fora tudo o resto, que era mais grave. Literalmente, paguei uma fortuna pra levar uma surra de pau. Liguei pra Lili e contei. Ela ficou tão indignada quanto eu. Prometeu que ia consultar um amigo da promotoria, algum delegado, etc.
Uns dias depois saiu no jornal. Alguém denunciou que foi enganado com a história do curso (não deram nomes) e a polícia convocou os possíveis prejudicados, pedindo informações que pudessem ajudar na busca. A imprensa já tinha apelidado eles de 'A Banda dos Atores'. Pensei em ir na delegacia, mas não queria ter que expor a parte mais pesada. Tinha vergonha (e raiva) de ter que admitir que fui enganada, seduzida, e comida por um farsante.
Pra fechar a história: Uns meses depois, lendo a revista do cabo, vejo que na sexta à meia-noite e meia (sábado, tecnicamente) passa um filme chamado ‘Uma Mulher Acuada’. Avisei a Lili e esperei a semana inteira pra ver. E aí percebi que o Ricardo, ou como caralho ele se chama, exagerou pra caralho nas cenas de sexo. A da piscina, no contexto da história, era foda, mas não mostrava nada. A da cozinha também não. E ainda mudou o final. Tenho que admitir que o que o Ricardo escreveu era bem melhor que o do filme. De qualquer forma, não pude evitar notar o quanto sou parecida com a protagonista.
Até hoje, mesmo sabendo parte da verdade, minha teoria é que o Ricardo me viu parecida e aproveitou a história do teatro pra me fazer cair nas garras dele… pelo menos como um complemento pessoal do golpe que ele deu em todo mundo. E eu, feita uma idiota, caí. Nunca vou poder confirmar essa teoria, nem outras coisas que não fecham nessa história toda.
O que teria acontecido se a Lili ou eu, ou as duas, decidíssemos continuar com os ensaios (e a sessão de sexo depois) depois da segunda-feira, já que o aluguel deles tava vencendo e eles sabiam? Não quero quebrar a cabeça fazendo suposições loucas.
E essa é a primeira parte da história. Pouco tempo depois, me divorciei e abri minha própria imobiliária. Fui bem (no começo, considerando o país onde a gente vive), e mais ou menos consegui reconstruir minha vida sem grandes sustos. Todo dia penso no que aconteceu e, inconscientemente, imagino como agir se encontrar o Ricardo de novo, na rua ou em qualquer situação do dia a dia. Às vezes penso em como matar ele, mas depois penso em todas as respostas que teria que arrancar dele antes disso.
Talvez o melhor seja virar a página, olhar pra frente e esperar, com otimismo, que tudo tenha sido só um susto menor. Afinal, não acho que um Um golpista desse tamanho voltar ao local do crime. Não vai ser tão imprudente assim. Será que vai?FIM
Tomei um banho quente pra não morrer de hipotermia. Mas não tava a fim de encarar o dia normalmente, então voltei pra cama. Imaginei que em algum momento os meninos viriam, pelo menos, perguntar se eu tava bem. Deviam ter ouvido o barulho do chuveiro e meus passos, e se ligado.
— Mãe! Cê tá aí? Tá bem? — Ouvi a voz da minha filha, do lado de fora da porta, que graças a Deus lembrei de trancar naquele transe em que me encontrava quando cheguei em casa.
— Tô sim, meu amor, o que foi? — Perguntei, me fazendo de desentendida.
— É meio-dia. O que houve que você não levantou? Quer um café?
Tava morrendo de vontade de um café. Aceitei a oferta dela pra poder improvisar um verso e disfarçar a situação enquanto ela preparava. Coloquei uma camisola, guardei a toalha no lugar, destranquei a porta e me deitei. Dez minutos depois, minha filha chegou com uma xícara de café e um croissant.
—Obrigada, filha. Você não sabe o quanto eu precisava disso.
Ela se sentou na cama, claramente pronta para me encher de perguntas. Apesar de tudo, os métodos do curso serviram pra alguma coisa, e consegui convencê-la de que foi só a cerveja que me pegou, e eu tava de ressaca mesmo. Pedi pra ela não contar nada, e se podia fazer a comida, porque queria dormir mais um pouco. Ela se cagou de rir, mas me deixou em paz.
À tarde, liguei pra minha ginecologista e implorei pra ela me atender com urgência. Ofereci pagar um extra por ser sábado. Fui no consultório dela, tive que confessar a situação (embora tenha omitido várias partes), e ela me examinou. Por sorte, não encontrou nada estragado. Mandou eu tomar analgésicos (agora entendo por que chamam assim) e me passou vários pedidos de exames de diferentes tipos, incluindo um teste de gravidez, só pra descartar. De novo, uma sensação de frio na espinha me percorreu por alguns segundos.
Passei na casa da Lili, mas não tinha ninguém. Deixei um bilhete pra ela me ligar. Voltei pra casa e tive uma conversa com os meninos (dessa vez com os dois) sobre os perigos do álcool e um monte de outros cuidados que eles precisam ter. Quando encheram o saco de ouvir o sermão, me prometeram não tocar mais no assunto e não beber nem um copo de sidra no Natal, mas imploraram pra eu deixar eles irem. Me ofereci pra amassar uma pizza pra eles, lembrando do que o pai tinha sugerido no dia anterior.
O resto da semana fiquei tirando conclusões. Ainda me sentia usada e humilhada por um psicopata. Com um pouco de lábia, ele conseguiu que eu topasse coisas que nunca tinha pensado em fazer. Me sentia uma puta, e outras barbaridades que ele falou enquanto me sodomizava. Mas, dentro desse oceano de angústia, tenho que admitir que certas partes eu gostei. A sensação de aventura, a ideia de que ainda existem homens capazes de se esforçar pra me possuir porque gostam do meu corpo, querendo ou não, me rejuvenesceu.
Honestamente, se Ficava do lado do meu marido mais por causa dos meninos e da grana, mas em grande parte porque não me via arrumando um homem decente se ficasse sozinha de novo. Essa barreira sumiu. Mas principalmente me sentia bem porque depois de muitos anos voltei a curtir o sexo. Nunca fui comida tão bem quanto pelo Ricardo. Claramente os caras que tentaram não foram homens o suficiente, ou não tinham experiência, ou as duas coisas. Não posso mentir: o Ricardo me levou ao céu antes de me levar ao inferno.
De qualquer forma, decidi largar o curso. Tava claro que a ideia não era fazer uma peça, mas sim fisgar alguma bocó (bocona, nesse caso), fazer o teatro, e comer ela. Claro, não ia na Quarta-feira no horário de sempre falar na cara dele. Com certeza ia me convencer a ficar. Já tinha vencido minhas defesas uma vez, tranquilamente podia fazer de novo. Tinha uns dias pra inventar uma desculpa pra família. E outra pra Lili.
Na Quarta-feira à tarde, depois de quase uma semana, a Lili me ligou. Me convidou pra tomar um café no centro, no lugar de sempre, umas sete horas. Ia me buscar. Me colocou numa saia justa, porque se dali eu quisesse ir pro instituto, teria que voltar a pé. Mas não falei nada, pra não pisar na bola.
Fomos ao café, e durante o caminho inteiro quase não falamos nada. Sentamos na mesma mesa de sempre, e a Lili acendeu um cigarro com o que sobrou do que já ia jogar fora.
— Lili, o que que há? Cê tá séria, não para de fumar… faz quase uma semana que a gente não conversa…
— Pato, não sei como te dizer isso. Tô roendo as unhas há vários dias. Sou uma porcaria. Você não merece ter uma amiga como eu.
— Lili, puta que pariu, o que cê tá dizendo? Me fala o que aconteceu, não vou te matar. — Tava me assustando com a seriedade dela.
— Pato, não posso continuar o curso. Nem os ensaios… Já nem sei mais como chamar isso. Não dá mais pra continuar.
— Mas isso não é tão grave. Fica tranquila que eu também não pretendo continuar com esse degenerado. — Percebi que falei demais assim que soltei aquilo.
— Como é que você sabe que ele é um degenerado? — Perguntou Lili, quase me encurralando. Tentei buscar algum episódio que pudesse usar de base pra mentir de forma convincente, e achei alguma coisa.
— Tá me tirando? — Perguntei, fingindo estar ofendida. — Eu tava a dois metros quando ele te comeu, se fazendo de coreógrafo de Hollywood. Não sei como você não deu um tapa na cara dele e denunciou…
— Não, Pato. Se eu tava mais tarada que ele. Tive que morder os lábios pra não gritar. O problema foi o que aconteceu depois.
Como caralhos ela tinha ficado sabendo do que aconteceu depois? Será que esse filho da puta falou?
— Deixa eu te contar, Pato. Me sinto uma puta nojenta.
— Para de encher o saco e me fala o que aconteceu.
— Na quinta, o ensaio acabou… Polvo… chama do que quiser, e a gente foi embora pra merda. Fiquei extasiada. Cheguei em casa e tive que me masturbar. Ainda tinha um resto de porra dentro. Na sexta, como você deve saber, o Ricardo avisou cedo que ia suspender as aulas porque ia pra Santa Fe o dia inteiro.
Essa foi a desculpa que o filho da puta deu pra poder me foder sem parar. E avisou cedo. Ele já tinha tudo planejado, e eu caí que nem uma otária.
— Lá pelas oito, mais ou menos, ele me ligou pra pedir desculpas, que tinha passado dos limites, mas que queria me ver pra falar cara a cara, como um homem de verdade.
Às oito, calculei, ele tava dormindo, se recuperando da segunda foda. Usou essa pausa pra encarar a Lili. Tem que admitir que audácia não faltava.
— Ele me pediu pra ir sábado à tarde no bar que fica na esquina do instituto. Eu imaginava que não era só pra pedir desculpas. Também não precisava me pedir muito. Se ele me fez gozar como nunca.
Tudo que ela tava me dizendo me soava tristemente familiar.
— Então me preparei como pra guerra. Você me conhece. Coloquei o que Melhor que tenho. Fui ao bar pensando que ali mesmo ia começar com uma abordagem convencional: “Quer beber algo? Vamos para algum lugar mais tranquilo?” Como um homem normal faria. Em vez disso, ele pediu desculpas por sair do roteiro, blá, blá, blá, o teatro, etc. Disse que teve que recorrer a me comer assim para te impressionar, pra você ver o que era se sacrificar pela obra, pelos colegas, blá blá blá, o roteiro, etc. E aí mexeu com meu orgulho. Tenho que admitir que quando ele te mencionou, me deu uma crise de ciúmes. Ele tava só enchendo o saco pra provar um conceito idiota pra você… Não dava pra tolerar.
O pior é que era verdade. Mas não podia falar pra ele.
— Mas ele percebeu o que tinha provocado em mim. Então mudou de papel e partiu pro ataque. Me propôs ir pro palco continuar ensaiando. Me provocou com a ideia de que se eu fizesse as cenas tão bem quanto na quinta, ele te mandava embora e me dava o papel de Alicia.
— Queria me passar a perna. Que bonitinho, hein?
— Não, Pato, por favor, não pensa isso. Eu queria ensaiar qualquer cena pra ele me comer de novo. Que porra eu ligava de fazer a Alicia, a Mercedes, ou a aguadeira reserva?
— Tava te zoando, já imaginava por onde vinha a mão.
— Bom, o negócio é que fomos pra sala de ensaio. Perguntei que cena ele queria ensaiar. Ele disse, sem hesitar um segundo, a do pool.
Claro, ele não era nenhum otário. Ensaia as cenas onde a Mercedes transava teria sido muito pouco. Além disso, ele tinha que continuar com a história de testar a Lili no papel de Alicia.
— Mandou eu me trocar enquanto ele montava o pool. Não montou porra nenhuma, ficou me olhando de longe enquanto eu tirava a roupa. Dei um mini-espetáculo pra ele. Ao tirar a tanga, deixei a bunda bem pra cima, mais tempo que o normal. Coloquei aquele vestido branco e voltei pra mesa, rebolando igual gata no cio. Aí ele me explicou a cena, os diálogos (que eu sabia de cor) e a coreografia sexual. Tinha que Subir meu vestido…
Lili me explicou com todos os detalhes como era a cena de sexo que eu conhecia perfeitamente. Como não estava no roteiro, ela achou que eu não sabia dos pormenores. É admirável a precisão com que Ricardo montou a cena nas duas vezes.
— Bom, aí a gente começou. A parte dramática saiu nota dez. E a parte erótica… Meu Deus…
— Me conta, não me deixa assim.
— Como a gente tinha combinado, ele levantou meu vestido e se ajoelhou atrás de mim. Que língua que ele tem. Dá pra ver que ele fala tanto que treina ela assim. Me chupou tudo que você pode imaginar. Massageou meu clitóris, meteu a língua no meu cu…
— Fala baixo…
— Achou meu ponto G, me molhei até os joelhos, enfiou dois dedos onde… tinha metido a língua… Me fez voar de prazer.
Dá pra ver que o filho da puta pensou em reutilizar o que já tinha dado certo. Pra que mudar o que funciona?
— E aí veio a melhor parte. Como a cena exigia que a Alicia fingisse sofrer, sem me avisar nada, ele meteu no meu cu. Forte. Enterrou até o saco. Você não sabe o grito que eu soltei.
Eu imaginava, mas não falei. Primeira diferença com a Lili. Comigo ele teve que convencer, com ela ele surpreendeu.
— Na hora pedi pra ele não ser tão bruto. Ele começou a bombar devagar, mas sem parar. Doía pra caralho. Pedi pra ele tirar, mas ele continuava vidrado no personagem.
Vidrado pode ser, mas não no personagem. Também não falei nada.
— Ele não parou de meter por quinze minutos, me fazendo sofrer. Ainda bem que eu já tinha alguma experiência nessa área. Mas depois desses quinze minutos… Minha nossa senhora!… Que prazer! Comecei a gritar e gemer igual uma gostosa. Não sabia que dava pra gozar tanto com o cu. Achava que era lenda de filme pornô.
Segunda diferença com a Lili.
— Ele meteu com tudo por mais dez minutos. Ou quinze, não faço ideia. Nessa altura eu já tinha mandado o personagem pra puta que pariu. Pedia pra ele me partir ao meio, que me deixou renga. Me deixou mais louca do que já tava. Ao mesmo tempo, enfiou uns dedos na minha pussy. Não aguentei de prazer e gozei como se tivesse possuída pelo demônio. Deixei uma poça do lado da perna da mesa. Mas aí, na mesma hora, ele também gozou. Soltou um rugido capaz de derrubar um búfalo, e encheu meus intestinos de cum.
—Já tá ficando meio nojenta essa conversa.
—O negócio é que, quando voltei do banheiro, ele tinha preparado o mate e tava me esperando de cueca na cama. Pediu pra eu deitar do lado dele, e além do mate, me ofereceu umas facturas.
Com certeza da padaria da esquina. Mordi a língua pra não falar demais.
—Aí ele me disse que, de agora em diante, a gente ia ensaiar só a parte dramática. Que eu já tinha passado no mais foda das cenas de sexo, e que tava pronta pra seguir. Pra me cutucar o orgulho, falou que não sabia como ia fazer pra te demitir. De qualquer forma, me propôs ficar depois do expediente às quintas, mas não pra ensaiar, e sim, diretamente pra fuck.
Por sorte, eu tinha tudo organizado. Quinta a morena, sexta a loira. Que não se misture o gado.
—Já tava vendo onde isso ia dar, então apertei ele pra me dar um exemplo prático. Ele sugeriu simplesmente transar naquela hora, naquela mesma cama. Não terminou de falar e eu já tinha tirado o resto da roupa e tava chupando a cock dele. Que loucura, que senhora pica. Das outras vezes não tinha visto de perto. É um espetáculo.
Quando ele começou a descrever ela, eu fiquei pensando. Por que ele tava me contando tudo isso com todos os detalhes? Queria me dar ciúmes? Por que não falou de forma resumida que tinham transado e pronto? Tinha algo estranho.
—A gente ficou um tempão fazendo um sessenta e nove, até que ele pediu pra eu sentar em cima dele. Montei nele como se fosse desmontar ele. Ficamos um tempo assim, e eu já queria mudar de posição, mas ele não aguentou, e terminou Lá dentro, sem avisar, antes de mim. E ainda por cima com um silêncio do caralho. Olha se não é um velho broxa, que me implorou por vinte minutos pra descansar.

Ou o efeito do Viagra de sexta tinha passado, ou ele era um velho broxa de verdade, mais um qualquer quando não tomava. Que decepção.
—Dei os vinte minutos pra ele, e tive que dar mais vinte. Quando acordou, começou com um discurso sobre naturalidade, como ele gosta de foder do jeito certo, e que o roteiro fosse pra puta que pariu, etc. Chegou a dizer que ainda faltava me fazer amor. E aí ele se fodeu, porque no meio das merdas que falou, mencionou algo sobre avançar o relacionamento. Na hora cortei ele e falei que se queria um relacionamento, tava falando com a pessoa errada.
Terceira diferença com a Lili. Ela sempre teve as coisas claras. Se queria sexo, ia atrás. Não tava nem aí pra quem enchesse o ouvido dela. Nesse aspecto, admirava ela pela força de vontade.
—Falei pra ele que se quisesse continuar transando, sem compromisso, não tinha problema. Mas deixei claro que não queria saber de me envolver, obviamente porque tô num relacionamento, e porque já tô velha pra ficar me escondendo, etc.
—E aí? —Perguntei ansiosa.
—Me mandou lavar a louça. Me xingou em todas as línguas. Jogou minha roupa e disse pra eu me vestir e vazar. E que se eu quisesse atuar, me ligasse, me comportasse como uma profissional, etc. Parece que não gostou de eu ter cortado ele na cara.
—Ele te bateu? Te acertou com o termo?
—Não, ele tava acabado. A única coisa que disse foi que se eu abandonasse a peça por essa besteira, que pelo menos tivesse coragem de falar na frente de todo o grupo.
—Que filho da puta. Te faz falar na frente de todo mundo. Não tem vergonha na cara.
—Eu também não tenho vergonha. Vem comigo que eu falo o que tenho que falar.
—Vou com você até a porta, mas não quero ver aquele filho da puta, nem os outros dois otários.
Pagamos o café e fomos pro instituto. Não tinha ninguém. Parecia vazio. Esperamos um tempo na calçada, pra ver se aparecia alguém, e não tivemos sorte. Já tava suspeito.
No dia seguinte liguei, e a operadora disse que o número tava fora de serviço. Perto do meio-dia fui sozinha, pra ver se pelo menos a secretária tava lá. Só tinha era um conhecido meu, funcionário de uma imobiliária, colocando uma placa de aluguel na porta. Perguntei o que tinha acontecido e ele disse que o inquilino anterior teve o contrato vencido na segunda-feira. Pedi mais detalhes, mas ele falou que não podia divulgar essa informação. Mesmo assim, me deixou entrar pra ver a propriedade.
Lá dentro não sobrou nada. A secretaria estava vazia. A sala de aula estava vazia. Na cozinha não tinha nem o mate. Fui pro salão de ensaios, não sobrou nada. Era um galpão e só. Que desolação.
Sempre desconfiei que o Ricardo, se é que esse era o nome dele, montou todo esse circo pra atrair donas de casa insatisfeitas com a história do teatro. Pelo que eu sabia, duas tinham caído. Mas isso já era outra parada. Era elaborado demais e exigia tempo demais pra só pegar umas bucetas e pronto. Com menos esforço, ele podia ir pra uma balada, pegar duas novinhas e se divertir pra caralho. Tinha algo estranho.
E aí caiu a ficha. Lembrei que a gente tinha pago a tal matrícula pro ano inteiro. Não sei quantos mais caíram, mas só com os dez da nossa turma já tinham uma boa grana. Se tinham mais dois cursos, era um golpe espetacular.
Voltei pra casa mastigando raiva. Como eu pude ser tão otária? A grana da minha indenização tinha ido toda nesse golpe. Fora tudo o resto, que era mais grave. Literalmente, paguei uma fortuna pra levar uma surra de pau. Liguei pra Lili e contei. Ela ficou tão indignada quanto eu. Prometeu que ia consultar um amigo da promotoria, algum delegado, etc.
Uns dias depois saiu no jornal. Alguém denunciou que foi enganado com a história do curso (não deram nomes) e a polícia convocou os possíveis prejudicados, pedindo informações que pudessem ajudar na busca. A imprensa já tinha apelidado eles de 'A Banda dos Atores'. Pensei em ir na delegacia, mas não queria ter que expor a parte mais pesada. Tinha vergonha (e raiva) de ter que admitir que fui enganada, seduzida, e comida por um farsante.
Pra fechar a história: Uns meses depois, lendo a revista do cabo, vejo que na sexta à meia-noite e meia (sábado, tecnicamente) passa um filme chamado ‘Uma Mulher Acuada’. Avisei a Lili e esperei a semana inteira pra ver. E aí percebi que o Ricardo, ou como caralho ele se chama, exagerou pra caralho nas cenas de sexo. A da piscina, no contexto da história, era foda, mas não mostrava nada. A da cozinha também não. E ainda mudou o final. Tenho que admitir que o que o Ricardo escreveu era bem melhor que o do filme. De qualquer forma, não pude evitar notar o quanto sou parecida com a protagonista.
Até hoje, mesmo sabendo parte da verdade, minha teoria é que o Ricardo me viu parecida e aproveitou a história do teatro pra me fazer cair nas garras dele… pelo menos como um complemento pessoal do golpe que ele deu em todo mundo. E eu, feita uma idiota, caí. Nunca vou poder confirmar essa teoria, nem outras coisas que não fecham nessa história toda.
O que teria acontecido se a Lili ou eu, ou as duas, decidíssemos continuar com os ensaios (e a sessão de sexo depois) depois da segunda-feira, já que o aluguel deles tava vencendo e eles sabiam? Não quero quebrar a cabeça fazendo suposições loucas.
E essa é a primeira parte da história. Pouco tempo depois, me divorciei e abri minha própria imobiliária. Fui bem (no começo, considerando o país onde a gente vive), e mais ou menos consegui reconstruir minha vida sem grandes sustos. Todo dia penso no que aconteceu e, inconscientemente, imagino como agir se encontrar o Ricardo de novo, na rua ou em qualquer situação do dia a dia. Às vezes penso em como matar ele, mas depois penso em todas as respostas que teria que arrancar dele antes disso.
Talvez o melhor seja virar a página, olhar pra frente e esperar, com otimismo, que tudo tenha sido só um susto menor. Afinal, não acho que um Um golpista desse tamanho voltar ao local do crime. Não vai ser tão imprudente assim. Será que vai?FIM
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