IV. A piscina do clube
O maiô que o Marcos deu pra ela era preto, de corte clássico, que à primeira vista parecia só elegante. A Valéria examinou ele com aquela atenção nova que tinha desenvolvido, sem saber direito por que tinha desenvolvido. Esticou ele entre os dedos. Olhou contra a luz. O lycra era opaco, firme, não encontrou nada.
O que o lycra seco não revela é o que ele faz quando molha.
Tem um tipo de tecido sintético, fininho como segunda pele, que seco é perfeitamente opaco e molhado fica translúcido com a mesma inevitabilidade que o papel fica transparente na água. Não completamente: não como se não tivesse nada. Mas daquele jeito que precisa de um ângulo de luz, uma distância de três metros, e aquele tipo de atenção prolongada que os homens dão sem ninguém ver que tão dando.
Marcos levou três dias para encontrar exatamente o modelo certo.
---
O vestiário das mulheres dava no corredor principal da piscina através de uma porta de vidro fosco. Era sexta-feira às seis da tarde, horário de pico: instrutores terminando aulas, o grupo de masters saindo da água, nadadores livres entrando. Valéria atravessou o corredor com a bolsa no ombro, cumprimentando as conhecidas, totalmente no seu território.
Ele mergulhou de cabeça.
A água era morna, climatizada, e ela se entregou a ela com aquele prazer físico e privado que era um dos seus poucos luxos semanais. Fez suas braçadas longas com concentração, pensando em nada, que é o único pensamento que a água permite.
Quando saiu, quarenta e cinco minutos depois, apoiou os antebraços na borda da piscina pra descansar um pouco antes de sair. A água escorria pelas costas dela, pelos ombros, pelo peito.
O instrutor que passava pela borda naquele momento —vinte e oito anos, responsável pela turma infantil do turno anterior— desviou o olhar com uma rapidez que já era, por si só, uma resposta involuntária. Não olhou de novo. Acelerou o passo.
O que ele tinha visto, no segundo em que os olhos passaram por ela antes de se desviarem, era isto: o vestido preto molhado tinha virado uma segunda pele translúcida que revelava com precisão clínica a forma completa dos peitos da Valéria, os bicos escuros e eriçados pelo contraste entre a água morna e o ar da piscina, a curva da barriga, a linha do quadril. Não era uma insinuação. Era uma descrição.
Valéria saiu da piscina sem perceber. Caminhou até o vestiário. Alguns olhares duraram um segundo a mais, mas ela atribuiu a nada, porque é assim que a inocência funciona: encontra explicações benignas pra tudo.
Entendeu três dias depois, quando encontrou o terno pendurado no banheiro e segurou ele na frente da luz do teto. Viu através dele como se fosse celofane. Ficou com aquela imagem na cabeça por um bom tempo, calculando, e depois foi pro quarto onde o Marcos tava lendo e encarou ele da porta com aquela expressão nova que ele ainda não sabia decifrar.
—O traje —ela disse.
—O que é que tem? —respondeu ele, com a neutralidade de quem já ensaiou a resposta.
—Joga fora —disse ela.
E aí voltou pro banheiro. Abriu a água bem gelada e ficou debaixo do chuveiro até que o calor da vergonha, ou seja lá o que fosse que tava sentindo, fosse escorrendo pelo ralo.
V. O que o leitor já sabe
Tem uma crueldade especial nas armadilhas que se montam com paciência, com sorrisos, com presentes. A violência escancarada deixa marcas visíveis. Essa outra violência deixa algo mais difícil de nomear: uma erosão. Uma dúvida que a vítima não consegue articular, porque fazer isso exigiria acusar, e acusar exige provas, e as provas são botões que se soltam sozinhos, lycra que é simplesmente muito fina.
Valeria Sosa ensinava seus alunos a ler nas entrelinhas. Dizia que os grandes vilões da literatura não anunciam suas intenções, que a verdadeira escuridão se disfarça de cotidiano. Fazia eles grifarem os momentos em que um personagem olha pro outro com atenção demais, em que um presente chega sem ocasião, em que alguém cede fácil demais numa briga.
Ela era uma leitora extraordinária de ficção.
Na própria vida dele, Marcos contava com isso. Contava que a pessoa mais próxima da gente é sempre o ponto cego. Contava que o amor, quando é genuíno, demora pra virar suspeita. Contava com a paciência dele, que era considerável, e com o charme dele, que era real, e com aquela habilidade de avaliador: saber exatamente quanto podia pegar antes do valor desabar.
Ainda não tinha terminado.
Mas a Valéria, sem saber, já tinha começado a ler.
VI. A blusa branca
Outubro chegou com aquele calor adiantado que Buenos Aires tem quando ainda é primavera, mas o ar já cheira a verão. Valéria tinha aprendido, sem saber, a examinar os presentes do Marcos com uma atenção nova, quase clínica, embora não soubesse dizer exatamente por quê. Era um instinto ainda sem nome, uma precaução que o corpo dela tinha adotado antes da mente.
Por isso, quando ele chegou numa quinta-feira com uma blusa branca de algodão num saquinho de papel de seda, ela pegou, abriu, olhou pra ela.
—É uma gostosa —disse ele, e era verdade.
—Pro ato de sexta-feira —disse Marcos—. Você vai ficar uma gostosa.
A blusa era de algodão batista, leve como um suspiro, com um decote em V que era elegante sem ser provocante, e mangas compridas com punhos abotoados. Valéria segurou ela contra a janela, procurando sem saber bem o quê. O algodão era opaco. Os botões, firmes. Não encontrou nada.
O que ela não procurou, porque não sabia que devia procurar, era o tamanho. Marcos tinha comprado um número a menos do que o dela.
---
O ato de fim de trimestre do Instituto Belgrano começava às dez da manhã. Valéria chegou às nove menos quinze, como sempre, com a bolsa cheia de pastas e a energia antecipada de quem curte de verdade esses rituais escolares. A blusa ficava apertada nela, isso ela notou ao vestir, mas não de um jeito escandaloso. Justa nos ombros, nos peitos, na cintura. Dava um ar diferente, mais formal talvez, pensou. Se olhou no espelho do banheiro do instituto e decidiu que tava boa. Mais que boa.
O que o espelho do banheiro não mostrou pra ela, porque era pequeno e ficava na altura do rosto, era o que o algodão batista fazia quando esticava no corpo dela.
O algodão batista, quando estica, fica transparente.
Não completamente. Não de forma óbvia. Mas daquele jeito sutil e condenatório que precisa de um ângulo de luz específico, uma distância exata, e o tipo de atenção que os homens dão sem ninguém ver que estão dando.
---
O salão de eventos tinha janelões altos virados pro norte. Às dez da manhã de outubro, a luz entrava reta e na horizontal, feito um holofote.
Valéria estava de pé na frente do púlpito, apresentando os alunos que iam recitar. Atrás dela, a janelona. Na frente, as primeiras cinco fileiras ocupadas pelos pais, alguns colegas, a diretoria. Umas cento e vinte pessoas, mais ou menos.
Ela falava com aquela voz dela que preenchia os espaços sem esforço, gesticulando, sorrindo, completamente presente no que fazia. A blusa esticava a cada movimento dos braços, a cada respiração funda antes de projetar a voz pro fundo do salão.
Foi o professor de matemática, Rodrigo, quem viu primeiro. Tava sentado na lateral, a uns seis metros dela, com o ângulo perfeito pra luz da janela atravessar o tecido na diagonal. Ficou paralisado por um segundo, depois baixou o olhar pro celular com uma deliberação que já era, por si só, uma reação.
A blusa, esticada sobre o peito da Valéria, deixava adivinhar com uma clareza entre dolorosa e precisa o contorno do sutiã de renda dela, a curva pesada e generosa dos peitos dela pressionando contra o tecido, e nos momentos em que ela inspirava fundo pra falar, quando o algodão esticava ao máximo, algo mais: a forma escura e definida dos bicos dela contra a renda fina.
Não era obsceno. Era pior que isso. Era íntimo. Era o tipo de detalhe que pertence a um quarto fechado, a um casal, à privacidade mais básica de um corpo, e que estava ali, exposto à luz de outubro na frente de cento e vinte pares de olhos.
Alguns não perceberam. Outros perceberam e desviaram o olhar. Outros perceberam e não desviaram nada.
Um pai de família, quarentão, camisa xadrez, não tirou os olhos dela nos quarenta minutos que durou a apresentação. Quando Valéria olhava na direção dele, ele sustentava o olhar com a tranquilidade de quem sabe que ela não sabe. Quando ela virava, os olhos dele baixavam.
Valéria não percebeu nada. Tava na dela, completamente, com aquela entrega que fazia dela boa no trabalho e vulnerável na vida.
---
Foi durante o recreio que algo começou a rachar.
Ela tava na sala dos professores, servindo café, quando ouviu pedaços de uma conversa que foi cortada assim que ela entrou. Duas colegas, Sandra e Patrícia, se olharam com aquela comunicação rápida e sem graça que as mulheres têm quando precisam decidir num segundo se falam algo pra outra ou não.
Sandra decidiu que sim.
—Val, cê tem alguma coisa pra vestir por cima? Um casaco, algo assim?
Valéria olhou pra ela. —Por quê?
A pausa de Sandra durou só meio segundo, mas Valéria sentiu como se fosse um abismo.
—Com essa luz da sala... a blusa é muito fina, amor.
O café que a Valéria tinha na mão ficou parado no ar por um momento que não tinha duração mensurável. Depois, ela apoiou na bancada, devagar, com a lentidão cuidadosa de quem de repente precisa controlar todos os movimentos.
—Que tão fina? —ela perguntou, e a própria voz soou estranha para ela, quieta demais.
Sandra e Patricia trocaram mais um olhar.
—Com a luz das janelas —disse Patrícia, escolhendo as palavras como quem anda sobre gelo— dá pra ver um pouco através. Nada grave. Mas...
Valéria deixou a frase incompleta. Ela assentiu. Disse obrigada. Lá no fundo da bolsa, encontrou uma camiseta térmica fina que usava no frio do inverno e vestiu por baixo no banheiro, com os dedos que não obedeciam direito.
Ela se olhou no espelho. Pensou nos quarenta minutos na frente do salão lotado. No pai da camisa xadrez que tinha aplaudido no final com um sorriso que agora, em retrospecto, tinha um significado diferente. Pensou no Rodrigo baixando os olhos pro celular.
Pensou na blusa. Que era um presente do Marcos. Um número menor que o dela.
A ideia veio e foi embora, porque era demais. Porque envolvia algo que a mente dela ainda não estava pronta pra aceitar.
Lavou o rosto com água fria e voltou pra putaria.
O maiô que o Marcos deu pra ela era preto, de corte clássico, que à primeira vista parecia só elegante. A Valéria examinou ele com aquela atenção nova que tinha desenvolvido, sem saber direito por que tinha desenvolvido. Esticou ele entre os dedos. Olhou contra a luz. O lycra era opaco, firme, não encontrou nada.
O que o lycra seco não revela é o que ele faz quando molha.
Tem um tipo de tecido sintético, fininho como segunda pele, que seco é perfeitamente opaco e molhado fica translúcido com a mesma inevitabilidade que o papel fica transparente na água. Não completamente: não como se não tivesse nada. Mas daquele jeito que precisa de um ângulo de luz, uma distância de três metros, e aquele tipo de atenção prolongada que os homens dão sem ninguém ver que tão dando.
Marcos levou três dias para encontrar exatamente o modelo certo.
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O vestiário das mulheres dava no corredor principal da piscina através de uma porta de vidro fosco. Era sexta-feira às seis da tarde, horário de pico: instrutores terminando aulas, o grupo de masters saindo da água, nadadores livres entrando. Valéria atravessou o corredor com a bolsa no ombro, cumprimentando as conhecidas, totalmente no seu território.
Ele mergulhou de cabeça.
A água era morna, climatizada, e ela se entregou a ela com aquele prazer físico e privado que era um dos seus poucos luxos semanais. Fez suas braçadas longas com concentração, pensando em nada, que é o único pensamento que a água permite.
Quando saiu, quarenta e cinco minutos depois, apoiou os antebraços na borda da piscina pra descansar um pouco antes de sair. A água escorria pelas costas dela, pelos ombros, pelo peito.
O instrutor que passava pela borda naquele momento —vinte e oito anos, responsável pela turma infantil do turno anterior— desviou o olhar com uma rapidez que já era, por si só, uma resposta involuntária. Não olhou de novo. Acelerou o passo.
O que ele tinha visto, no segundo em que os olhos passaram por ela antes de se desviarem, era isto: o vestido preto molhado tinha virado uma segunda pele translúcida que revelava com precisão clínica a forma completa dos peitos da Valéria, os bicos escuros e eriçados pelo contraste entre a água morna e o ar da piscina, a curva da barriga, a linha do quadril. Não era uma insinuação. Era uma descrição.
Valéria saiu da piscina sem perceber. Caminhou até o vestiário. Alguns olhares duraram um segundo a mais, mas ela atribuiu a nada, porque é assim que a inocência funciona: encontra explicações benignas pra tudo.
Entendeu três dias depois, quando encontrou o terno pendurado no banheiro e segurou ele na frente da luz do teto. Viu através dele como se fosse celofane. Ficou com aquela imagem na cabeça por um bom tempo, calculando, e depois foi pro quarto onde o Marcos tava lendo e encarou ele da porta com aquela expressão nova que ele ainda não sabia decifrar.
—O traje —ela disse.
—O que é que tem? —respondeu ele, com a neutralidade de quem já ensaiou a resposta.
—Joga fora —disse ela.
E aí voltou pro banheiro. Abriu a água bem gelada e ficou debaixo do chuveiro até que o calor da vergonha, ou seja lá o que fosse que tava sentindo, fosse escorrendo pelo ralo.
V. O que o leitor já sabe
Tem uma crueldade especial nas armadilhas que se montam com paciência, com sorrisos, com presentes. A violência escancarada deixa marcas visíveis. Essa outra violência deixa algo mais difícil de nomear: uma erosão. Uma dúvida que a vítima não consegue articular, porque fazer isso exigiria acusar, e acusar exige provas, e as provas são botões que se soltam sozinhos, lycra que é simplesmente muito fina.
Valeria Sosa ensinava seus alunos a ler nas entrelinhas. Dizia que os grandes vilões da literatura não anunciam suas intenções, que a verdadeira escuridão se disfarça de cotidiano. Fazia eles grifarem os momentos em que um personagem olha pro outro com atenção demais, em que um presente chega sem ocasião, em que alguém cede fácil demais numa briga.
Ela era uma leitora extraordinária de ficção.
Na própria vida dele, Marcos contava com isso. Contava que a pessoa mais próxima da gente é sempre o ponto cego. Contava que o amor, quando é genuíno, demora pra virar suspeita. Contava com a paciência dele, que era considerável, e com o charme dele, que era real, e com aquela habilidade de avaliador: saber exatamente quanto podia pegar antes do valor desabar.
Ainda não tinha terminado.
Mas a Valéria, sem saber, já tinha começado a ler.
VI. A blusa branca
Outubro chegou com aquele calor adiantado que Buenos Aires tem quando ainda é primavera, mas o ar já cheira a verão. Valéria tinha aprendido, sem saber, a examinar os presentes do Marcos com uma atenção nova, quase clínica, embora não soubesse dizer exatamente por quê. Era um instinto ainda sem nome, uma precaução que o corpo dela tinha adotado antes da mente.
Por isso, quando ele chegou numa quinta-feira com uma blusa branca de algodão num saquinho de papel de seda, ela pegou, abriu, olhou pra ela.
—É uma gostosa —disse ele, e era verdade.
—Pro ato de sexta-feira —disse Marcos—. Você vai ficar uma gostosa.
A blusa era de algodão batista, leve como um suspiro, com um decote em V que era elegante sem ser provocante, e mangas compridas com punhos abotoados. Valéria segurou ela contra a janela, procurando sem saber bem o quê. O algodão era opaco. Os botões, firmes. Não encontrou nada.
O que ela não procurou, porque não sabia que devia procurar, era o tamanho. Marcos tinha comprado um número a menos do que o dela.
---
O ato de fim de trimestre do Instituto Belgrano começava às dez da manhã. Valéria chegou às nove menos quinze, como sempre, com a bolsa cheia de pastas e a energia antecipada de quem curte de verdade esses rituais escolares. A blusa ficava apertada nela, isso ela notou ao vestir, mas não de um jeito escandaloso. Justa nos ombros, nos peitos, na cintura. Dava um ar diferente, mais formal talvez, pensou. Se olhou no espelho do banheiro do instituto e decidiu que tava boa. Mais que boa.
O que o espelho do banheiro não mostrou pra ela, porque era pequeno e ficava na altura do rosto, era o que o algodão batista fazia quando esticava no corpo dela.
O algodão batista, quando estica, fica transparente.
Não completamente. Não de forma óbvia. Mas daquele jeito sutil e condenatório que precisa de um ângulo de luz específico, uma distância exata, e o tipo de atenção que os homens dão sem ninguém ver que estão dando.
---
O salão de eventos tinha janelões altos virados pro norte. Às dez da manhã de outubro, a luz entrava reta e na horizontal, feito um holofote.
Valéria estava de pé na frente do púlpito, apresentando os alunos que iam recitar. Atrás dela, a janelona. Na frente, as primeiras cinco fileiras ocupadas pelos pais, alguns colegas, a diretoria. Umas cento e vinte pessoas, mais ou menos.
Ela falava com aquela voz dela que preenchia os espaços sem esforço, gesticulando, sorrindo, completamente presente no que fazia. A blusa esticava a cada movimento dos braços, a cada respiração funda antes de projetar a voz pro fundo do salão.
Foi o professor de matemática, Rodrigo, quem viu primeiro. Tava sentado na lateral, a uns seis metros dela, com o ângulo perfeito pra luz da janela atravessar o tecido na diagonal. Ficou paralisado por um segundo, depois baixou o olhar pro celular com uma deliberação que já era, por si só, uma reação.
A blusa, esticada sobre o peito da Valéria, deixava adivinhar com uma clareza entre dolorosa e precisa o contorno do sutiã de renda dela, a curva pesada e generosa dos peitos dela pressionando contra o tecido, e nos momentos em que ela inspirava fundo pra falar, quando o algodão esticava ao máximo, algo mais: a forma escura e definida dos bicos dela contra a renda fina.
Não era obsceno. Era pior que isso. Era íntimo. Era o tipo de detalhe que pertence a um quarto fechado, a um casal, à privacidade mais básica de um corpo, e que estava ali, exposto à luz de outubro na frente de cento e vinte pares de olhos.
Alguns não perceberam. Outros perceberam e desviaram o olhar. Outros perceberam e não desviaram nada.
Um pai de família, quarentão, camisa xadrez, não tirou os olhos dela nos quarenta minutos que durou a apresentação. Quando Valéria olhava na direção dele, ele sustentava o olhar com a tranquilidade de quem sabe que ela não sabe. Quando ela virava, os olhos dele baixavam.
Valéria não percebeu nada. Tava na dela, completamente, com aquela entrega que fazia dela boa no trabalho e vulnerável na vida.
---
Foi durante o recreio que algo começou a rachar.
Ela tava na sala dos professores, servindo café, quando ouviu pedaços de uma conversa que foi cortada assim que ela entrou. Duas colegas, Sandra e Patrícia, se olharam com aquela comunicação rápida e sem graça que as mulheres têm quando precisam decidir num segundo se falam algo pra outra ou não.
Sandra decidiu que sim.
—Val, cê tem alguma coisa pra vestir por cima? Um casaco, algo assim?
Valéria olhou pra ela. —Por quê?
A pausa de Sandra durou só meio segundo, mas Valéria sentiu como se fosse um abismo.
—Com essa luz da sala... a blusa é muito fina, amor.
O café que a Valéria tinha na mão ficou parado no ar por um momento que não tinha duração mensurável. Depois, ela apoiou na bancada, devagar, com a lentidão cuidadosa de quem de repente precisa controlar todos os movimentos.
—Que tão fina? —ela perguntou, e a própria voz soou estranha para ela, quieta demais.
Sandra e Patricia trocaram mais um olhar.
—Com a luz das janelas —disse Patrícia, escolhendo as palavras como quem anda sobre gelo— dá pra ver um pouco através. Nada grave. Mas...
Valéria deixou a frase incompleta. Ela assentiu. Disse obrigada. Lá no fundo da bolsa, encontrou uma camiseta térmica fina que usava no frio do inverno e vestiu por baixo no banheiro, com os dedos que não obedeciam direito.
Ela se olhou no espelho. Pensou nos quarenta minutos na frente do salão lotado. No pai da camisa xadrez que tinha aplaudido no final com um sorriso que agora, em retrospecto, tinha um significado diferente. Pensou no Rodrigo baixando os olhos pro celular.
Pensou na blusa. Que era um presente do Marcos. Um número menor que o dela.
A ideia veio e foi embora, porque era demais. Porque envolvia algo que a mente dela ainda não estava pronta pra aceitar.
Lavou o rosto com água fria e voltou pra putaria.
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