Dizem que Romeu e Julieta é a maior e mais trágica história de amor já contada, um romance puro, mas condenado desde o início. Mas pra mim, essa obra não é mais só uma tragédia poética. Essa obra foi o veneno que começou a quebrar meu relacionamento. Meu nome é Lucas e, aos 21 anos, minha vida adulta tava começando a andar. Eu tinha decidido não fazer faculdade, então me limitei a cursos profissionalizantes e tinha acabado de começar a trabalhar. Enquanto estudava, conheci, graças a um amigo, minha namorada Cristina. Ela era morena, magra, com as curvas perfeitas nos lugares certos, e, embora fisicamente me parecesse perfeita, o que me fez me apaixonar por ela foi como a gente se conectava na hora de conversar e ver tudo que tínhamos em comum. A gente tinha a mesma idade e ela também tinha decidido encarar os estudos de um jeito parecido com o meu. A gente tava junto há um ano e meio e percebemos que começar a trabalhar tava nos deixando cada vez mais preguiçosos. A gente tava cansado depois de tantas horas, então nossos planos ficavam cada vez mais básicos e queríamos fazer algo pra mudar isso. Foi aí que a gente viu o anúncio de um clube de teatro amador. Não exigia nenhum tipo de experiência e era focado em simplesmente se divertir um pouco, sem a pretensão de que quem se inscrevesse quisesse ser profissional. Achamos divertido e decidimos nos inscrever.
O clube se reunia duas vezes por semana num teatrinho que tinha criado essa iniciativa pra incentivar a chegada de novos visitantes. O clima não podia ser mais diferente da nossa rotina do dia a dia, e era exatamente o que a gente procurava. Basicamente, a estrutura do clube era fazer um curso de 4 meses. Nos três primeiros, a gente aprenderia o básico, e no último mês começaríamos a preparar uma adaptação moderna de Romeu e Julieta. A diretora era uma mulher animada de sessenta anos chamada Carmen, que nessas primeiras semanas nos apresentou o mais básico com uma série de exercícios baseados numa mistura de brincadeiras de criança, improvisações absurdas e leituras em voz alta. A gente ria pra caramba naqueles primeiros dias, e ali liberávamos a tensão acumulada da semana. Pra minha surpresa, a Cristina não só tava se divertindo, como era uma das mais destacadas do grupo, o que fez nosso interesse por essas aulas aumentar.
O clima bom não se limitava ao palco e logo virou costume que, depois dos ensaios de quinta, a gente passasse no bar do teatro pra tomar uma cerveja. Éramos um grupo que mal chegava a dez pessoas, mas tinha todo tipo de gente: desde jovens como a gente até alguns já adultos, da idade dos meus pais, querendo fazer algo diferente. Mas o único que realmente nos interessa é o Daniel, que todo mundo chamava de Dani. Ele tinha 25 anos e, numa dessas noites pós-treino, contou pra todo mundo como, até uns dois anos atrás, tinha sido nadador de competição, uma promessa do nado livre, até que uma ruptura de ligamentos acabou com a carreira dele de uma hora pra outra. Já estava recuperado e podia voltar a nadar, mas era impossível pensar em fazer isso em nível profissional. Segundo ele, não queria se afastar das piscinas, então decidiu estudar pra virar treinador, talvez de crianças pequenas, e tinha se inscrito nesse clube de teatro pra se soltar na hora de falar com as pessoas, o que eu achava bem desnecessário, porque ele já parecia bem à vontade, além de ser bem gostoso e todas as garotas ficarem de olho nele, inclusive a Cristina, mas não dei importância porque eu também fico de olho quando vejo uma mulher gostosa, então por que ela não podia sentir o mesmo?
Tudo correu normal no clube até chegar a hora de fazer a peça de Romeu e Julieta e a Carmen revelar o elenco. Como era um clube de amadores e não se buscava fazer uma grande produção, criaram um roteiro onde todo mundo tinha um papel parecido, e eu, por exemplo, fiquei como um dos membros da família Capuleto, mas os papéis de Romeu e Julieta continuavam sendo os mais importantes, obviamente. O papel de Julieta foi para a Cristina, como recompensa por ser, como já disse, uma das melhores da turma, e pra minha desgraça, o papel de Romeu foi pro Daniel, que objetivamente não era uma escolha ruim, já que ele não era ruim atuando. No começo, não dei muita importância. Era teatro. Eram personagens. Eu confiava na Cristina e, embora o Daniel me causasse um leve desconforto por ser gostoso, eu atribuía isso às minhas próprias inseguranças. Mas os ensaios começaram e eu fiquei desconfortável. Basicamente, a gente tinha que estudar o texto em casa e praticar no clube na frente de todo mundo, estivesse em cena ou não, pra Carmen ir dando dicas do que melhorar e todo mundo aprender. Então, duas vezes por semana, eu tinha que ficar sentado vendo minha mina e o Daniel nas cenas mais românticas da história da literatura, que, conforme iam praticando e melhorando, ficavam cada vez mais realistas.
O momento crítico chegou quando Carmen, depois de ver que a obra já estava indo na direção certa, tocou no assunto do beijo.
— Galera, sei que isso pode ser meio estranho. É uma adaptação moderna, mas a premissa continua a mesma, o love entre Romeu e Julieta. O ideal seria a gente conseguir dar uns beijos, mas não somos profissionais, fazemos isso pra nos divertir, então se preferirem, a gente pode sugerir tudo com um abraço. O importante é a intenção, não o contato físico.
Eu tava torcendo pra Cristina dizer que não, porque mesmo que fosse atuação, não queria ver minha mina beijando outro cara. Mas os dois acabaram concordando que um simples beijo na boca não devia ser problema. Depois do ensaio, quando a gente tava indo pra casa, Cristina me perguntou se eu não me importava, se queria que ela falasse com o Daniel e a Carmen pra mudar. Mas eu menti, falei que não, porque não queria passar a sensação de ciúme que eu realmente tava sentindo. Além disso, todo mundo sabia que eu era o namorado da Cristina, e se no dia seguinte ela mudasse de ideia, iam achar que foi coisa minha e eu ia ficar mal na frente de todo mundo. Desde então, os ensaios viraram um inferno. O primeiro beijo foi meio sem jeito e a Cristina parecia bem envergonhada, porque deve ser difícil fingir um beijo de paixão sem nunca ter feito isso antes, e ainda na frente de várias pessoas. Mas conforme os ensaios foram passando, a vergonha inicial da Cristina sumiu e foi substituída por uma naturalidade que gelava meu sangue. Ela já não desviava o olhar depois do beijo como fazia no começo, e os lábios dela se moviam com uma segurança nova.
O auge do desconforto chegou durante um ensaio da cena final, onde o Daniel tinha que ficar deitado no chão com a Cristina em cima dele, soluçando o monólogo final. Foi nesse momento, com os corpos entrelaçados no silêncio expectante do teatro, que aconteceu. A malha justa do figurino de ensaio não deixou dúvidas: o Daniel teve uma ereção evidente e incontrolável. Um silêncio denso, carregado de vergonha alheia e tesão, tomou conta da sala. Todo mundo viu. A Carmen, com uma falta de tato incomum, gritou "Corta!" e interrompeu a cena. O próprio Daniel ficou super envergonhado, afastou a Cristina com cuidado e se levantou de um salto enquanto ajustava o moletom que tinha amarrado na cintura. Ela também ficou vermelha que nem um pimentão, se levantando do chão com uma agitação que não era só pelo esforço da cena. Ninguém disse nada. O pacto de silêncio do grupo pra não deixar a situação ainda mais constrangedora se impôs naturalmente. O ensaio continuou com outras cenas, mas o clima ficou estranho. Eu sentia uma mistura de raiva, humilhação e uma vontade irracional de sumir, porque no fim das contas todo mundo tinha visto minha mina deitada em cima de um cara todo duro. No caminho pro metrô, o clima entre eu e a Cristina tava esquisito depois do ensaio. Finalmente, não aguentei mais e toquei no assunto.
—O que rolou hoje? — perguntei, tentando não deixar minha voz soar como algo sério.
—Sim, foi superdesconfortável. Pobre Dani, tava mortificado.
—"Pobre Dani" —repeti, sem conseguir disfarçar o sarcasmo.
—É, coitado do Dani —disse ela, defendendo ele com uma veemência que doeu mais em mim do que o próprio incidente—. Foi algo involuntário, fisiológico. Não significa nada. Na verdade, depois do ensaio ele me procurou e pediu desculpas. Foi muito educado. Disse que sentia muito pelo constrangimento e que não ia se repetir.
Olhei fixamente nos olhos dela e vi que tava convencida. Ou queria estar. Mas eu tinha visto, aquele não era o corpo do Romeu reagindo à Julieta. Era o corpo do Daniel desejando o da Cristina. E o pior de tudo é que, pela primeira vez, eu não tinha certeza de como o corpo da Cristina reagia quando atuava com o Daniel. Na aula seguinte, o Daniel veio falar comigo em particular e pediu desculpas também, e eu aceitei falsamente.
Na semana antes da apresentação, os ensaios ficaram mais puxados. A Carmen dividia a gente em grupos nos últimos minutos de cada aula pra polir cenas específicas. Uma tarde, depois do ensaio geral, o grupo começou a se dispersar rápido. Eu tive que ensaiar com meus irmãos Capuleto até dar a hora de ir embora. A gente tava começando a guardar as coisas e eu fui procurar a Cristina, porque quanto menos tempo perto do Daniel, melhor. Encontrei os dois sozinhos terminando uma cena e resolvi esperar eles acabarem pra não atrapalhar. A Cristina e o Dani estavam de pé, bem juntinhos, repetindo a cena do primeiro encontro, mas tinha algo diferente. A distância que a Carmen sempre marcava com giz no chão tinha sumido. Os corpos deles se encostavam. As palavras eram um sussurro carregado de uma intenção que não era de Shakespeare. Ele falou a linha dele, mas a mão não parou no ar como nos ensaios. Deslizou pela cintura dela, puxando ela pra perto. Ela não se afastou. Levantou o rosto pra ele, e foi aí que aconteceu. Não foi aquele beijo casto e ensaiado. Foi um beijo molhado, devagar, cheio de uma urgência que eles não tavam fingindo. Vi a língua do Daniel deslizar entre os lábios da Cristina, e como ela respondeu com um tremor de nervoso, mas não de nojo. As mãos dela se agarraram nos ombros dele, não pra empurrar, mas pra puxar ele mais pra perto. Fiquei paralisado, sem reação de tão surpreso. Quando comecei a cair em mim, foi a Cristina quem terminou o beijo, se afastando com um suspiro leve. Ela baixou a cabeça, escondendo o rosto.
—Não… não faz isso de novo — murmurou.
Mas não tinha raiva no tom dela. Não tinha reprovação. Era um pedido fraco pra que ele não a colocasse de novo naquela situação. Era aquele "não" que na verdade significa "sim, mas não posso". Daniel nem piscou. Deu um sorrisinho confiante e, com o dedo, levantou o queixo dela com uma intimidade que partiu meu coração.
—Desculpa, Julieta. Às vezes o personagem toma conta da gente.
Ela não respondeu. Só balançou a cabeça de leve, ainda sem olhar nos meus olhos, e ajeitou a franja com um gesto nervoso que entregava o quanto estava perturbada. Saí em silêncio, com o coração batendo forte no peito. No fim da aula, a gente se encontrou no bar como sempre, mas tanto eu quanto a Cristina estávamos distraídos. No caminho pro metrô, a gente conversou antes de se separar pra ir cada um pra casa, mas era uma conversa sem graça, cada um com a cabeça em outro lugar. Já na minha cama, onde pude pensar com calma, tentei tirar o máximo de peso daquilo. Sim, tinha uma tensão sexual no ar que já tava passando do limite, mas a peça era na semana que vem, o clube ia acabar e a gente nunca mais ia ouvir falar do Daniel. Além disso, a Cristina, lutando contra os próprios instintos, tinha dado um basta nele e com certeza tava se sentindo culpada agora. Eu confiava nela.
O dia da apresentação chegou e o teatrinho lotou com o burburinho de amigos e familiares, deixando o clima super de boa, já que nenhum espectador de última hora ia aparecer pra ver uma peça amadora. Da minha posição nos bastidores, eu observava a Cristina. Ela tava radiante. Quando o Daniel entrou em cena como Romeu, senti o ar cortar, mas pra minha satisfação, tudo rolou numa boa. Os beijos foram os mesmos dos ensaios finais, sem nenhum pingo de tensão sexual. Pra ser uma peça feita por amadores, acho que tudo saiu bem decente e divertido.
Depois da peça, todo mundo trocou de roupa pra fazer uma festa no bar do teatro com os atores, amigos e familiares que vieram nos assistir. As mesas estavam lotadas de gente rindo, brindando e celebrando o sucesso da apresentação. Tanto eu quanto a Cristina estávamos cercados de amigos que não paravam de elogiar a atuação dela, embora de vez em quando eu também ganhasse um elogio. O Daniel tava num canto, conversando com outro grupinho que eu deduzi serem conhecidos dele. Minha atenção tava dividida que nem um radar entre a Cristina e o Daniel, porque, mesmo sendo o último dia do clube de teatro e nossa relação com ele fosse acabar pra sempre, tinha algo que continuava me cheirando mal. Já tava rolando um tempão, todo mundo já tinha tomado umas duas cervejas, quando percebi que os amigos do Daniel começaram a ir embora, mas ele ficou e começou a procurar alguém com o olhar. E aí ele achou: a Cristina, que tava há um tempo separada de mim, conversando com outros colegas da peça e seus acompanhantes. O Daniel começou a se mexer, e eu fui seguindo ele com os olhos, vendo como ele se aproximava cada vez mais da Cristina. Depois de alcançar ela, vi ele sussurrar algo quase no ouvido dela, e a Cristina se virou meio surpresa, mas eu acho que li nos lábios dela um "tá bom". Aí o Daniel se afastou dela e saiu por uma porta dos fundos do bar, que leva pra parte do teatro. Nessa hora, eu devia ter ido falar com a Cristina, mas por algum motivo fiquei paralisado, só olhando, curioso pra ver o que ia rolar. Meus medos se confirmaram, e uns dois minutos depois vi a Cristina se afastando devagar e também passando por aquela porta.
Meu corpo reagiu antes da minha mente. Larguei meu copo no balcão e fui abrindo caminho, tentando não chamar atenção, com o coração quase saindo pela boca. Empurrei a porta de leve e entrei na penumbra do backstage. O contraste com a bagunça do bar era total. Aqui só reinava o silêncio, e o único barulho que se ouvia era a música do lugar do outro lado da parede. Avancei na surdina entre os bastidores até começar a escutar o murmúrio das vozes deles. Vinha do canto mais afastado, onde guardavam os cenários velhos de peças passadas. Decidi que, antes de pular feito um corno manso em cima deles, ia ouvir o que estavam dizendo, na esperança de que Cristina ainda fosse fiel pra mim. Os dois estavam de pé, e Daniel tirava de uma bolsa um livro velho e chique entre as mãos.
—Queria te dar isso —disse a voz dele—. É uma edição antiga de Romeu e Julieta. Outro dia na casa da minha mãe vi que eu tinha ela e pensei que talvez você quisesse como lembrança de tudo isso.
Cristina olhou pra ele com carinho, como se ele tivesse dado o presente mais fofo do mundo, e respondeu:
—Dani, não posso aceitar isso. Sendo da sua mãe, eu ficaria mal se ficasse com isso.
—Por quê? —ele perguntou, dando um passo mais perto—. Tá aí em casa sem ninguém dar bola, e mesmo que você nunca vá ler, não vai te trazer boas lembranças. Foram uns meses muito divertidos. E o que a gente fez junto, os sentimentos que compartilhamos, vai ser nosso pra sempre.
Ela estendeu a mão e acariciou a capa do livro com uma ternura que eu não via nela há muito tempo.
—Foi só uma peça de teatro, não dá tanta importância pra isso—ela sussurrou, mas o tom dela tava fraco, como se tentasse se convencer.
—É verdade mesmo? —Daniel largou o livro num baú perto e se aproximou ainda mais—. Cris, não me diga que você não sentiu o mesmo que eu. Teve um momento em que eu, pelo menos, parei de fingir.
Daniel começou a aproximar lentamente a cabeça de Cristina, mas ela balançou a cabeça devagar, negando, sem recuar.
—Dani, por favor, você sabe que eu tô com o Lucas.
—Eu sei —disse ele, e a mão dele se ergueu pra acariciar a bochecha dela—. Mas sei que uma mina como você não se encontra todo dia.
Daniel se aproximou de novo e Cristina reclamou outra vez.
—O Lucas tá fora, deve estar se perguntando onde eu tô.
—Então que espere mais um pouco. Ele vai te pegar assim que você sair desse teatro, mas enquanto estiver aqui, você é minha Julieta.
De novo ele se inclinou, virando o rosto com uma lentidão deliberada, dando a Cristina toda chance de recusá-lo, de se afastar, de acabar com aquilo que ainda podia ser negado. Mas ela ficou ali, com os olhos semicerrados, vendo aquela situação se aproximar — algo que os dois vinham sondando há semanas. Quando os lábios se encontraram, foi com total familiaridade, como se já soubessem exatamente a forma e a pressão um do outro. Daniel começou movendo os lábios com suavidade, e Cristina soltou um gemido abafado, quase um suspiro de rendição, e seus lábios se entreabriram levemente em resposta. Foi o convite que ele esperava, e a língua dele deslizou entre os lábios dela com naturalidade, como se aquele espaço já fosse dele. Ao contato, Cristina respondeu na hora. A própria língua dela se enroscou na dele numa brincadeira molhada e sensual. O som baixo e úmido das bocas unidas ecoou no silêncio empoeirado do depósito. A mão de Dani se enroscou no cabelo dela, e a dela se agarrou à camisa dele, puxando-o para mais perto.
Não aguentava mais isso, tinha que agir, mas aí percebi que tinha algo que me apavorava ainda mais do que fazer um escândalo e era... fim da primeira parte... Leia o segundo capítulo na fonte original 👉 t.co/1uA37ePfyo
O clube se reunia duas vezes por semana num teatrinho que tinha criado essa iniciativa pra incentivar a chegada de novos visitantes. O clima não podia ser mais diferente da nossa rotina do dia a dia, e era exatamente o que a gente procurava. Basicamente, a estrutura do clube era fazer um curso de 4 meses. Nos três primeiros, a gente aprenderia o básico, e no último mês começaríamos a preparar uma adaptação moderna de Romeu e Julieta. A diretora era uma mulher animada de sessenta anos chamada Carmen, que nessas primeiras semanas nos apresentou o mais básico com uma série de exercícios baseados numa mistura de brincadeiras de criança, improvisações absurdas e leituras em voz alta. A gente ria pra caramba naqueles primeiros dias, e ali liberávamos a tensão acumulada da semana. Pra minha surpresa, a Cristina não só tava se divertindo, como era uma das mais destacadas do grupo, o que fez nosso interesse por essas aulas aumentar.
O clima bom não se limitava ao palco e logo virou costume que, depois dos ensaios de quinta, a gente passasse no bar do teatro pra tomar uma cerveja. Éramos um grupo que mal chegava a dez pessoas, mas tinha todo tipo de gente: desde jovens como a gente até alguns já adultos, da idade dos meus pais, querendo fazer algo diferente. Mas o único que realmente nos interessa é o Daniel, que todo mundo chamava de Dani. Ele tinha 25 anos e, numa dessas noites pós-treino, contou pra todo mundo como, até uns dois anos atrás, tinha sido nadador de competição, uma promessa do nado livre, até que uma ruptura de ligamentos acabou com a carreira dele de uma hora pra outra. Já estava recuperado e podia voltar a nadar, mas era impossível pensar em fazer isso em nível profissional. Segundo ele, não queria se afastar das piscinas, então decidiu estudar pra virar treinador, talvez de crianças pequenas, e tinha se inscrito nesse clube de teatro pra se soltar na hora de falar com as pessoas, o que eu achava bem desnecessário, porque ele já parecia bem à vontade, além de ser bem gostoso e todas as garotas ficarem de olho nele, inclusive a Cristina, mas não dei importância porque eu também fico de olho quando vejo uma mulher gostosa, então por que ela não podia sentir o mesmo?
Tudo correu normal no clube até chegar a hora de fazer a peça de Romeu e Julieta e a Carmen revelar o elenco. Como era um clube de amadores e não se buscava fazer uma grande produção, criaram um roteiro onde todo mundo tinha um papel parecido, e eu, por exemplo, fiquei como um dos membros da família Capuleto, mas os papéis de Romeu e Julieta continuavam sendo os mais importantes, obviamente. O papel de Julieta foi para a Cristina, como recompensa por ser, como já disse, uma das melhores da turma, e pra minha desgraça, o papel de Romeu foi pro Daniel, que objetivamente não era uma escolha ruim, já que ele não era ruim atuando. No começo, não dei muita importância. Era teatro. Eram personagens. Eu confiava na Cristina e, embora o Daniel me causasse um leve desconforto por ser gostoso, eu atribuía isso às minhas próprias inseguranças. Mas os ensaios começaram e eu fiquei desconfortável. Basicamente, a gente tinha que estudar o texto em casa e praticar no clube na frente de todo mundo, estivesse em cena ou não, pra Carmen ir dando dicas do que melhorar e todo mundo aprender. Então, duas vezes por semana, eu tinha que ficar sentado vendo minha mina e o Daniel nas cenas mais românticas da história da literatura, que, conforme iam praticando e melhorando, ficavam cada vez mais realistas.
O momento crítico chegou quando Carmen, depois de ver que a obra já estava indo na direção certa, tocou no assunto do beijo.
— Galera, sei que isso pode ser meio estranho. É uma adaptação moderna, mas a premissa continua a mesma, o love entre Romeu e Julieta. O ideal seria a gente conseguir dar uns beijos, mas não somos profissionais, fazemos isso pra nos divertir, então se preferirem, a gente pode sugerir tudo com um abraço. O importante é a intenção, não o contato físico.
Eu tava torcendo pra Cristina dizer que não, porque mesmo que fosse atuação, não queria ver minha mina beijando outro cara. Mas os dois acabaram concordando que um simples beijo na boca não devia ser problema. Depois do ensaio, quando a gente tava indo pra casa, Cristina me perguntou se eu não me importava, se queria que ela falasse com o Daniel e a Carmen pra mudar. Mas eu menti, falei que não, porque não queria passar a sensação de ciúme que eu realmente tava sentindo. Além disso, todo mundo sabia que eu era o namorado da Cristina, e se no dia seguinte ela mudasse de ideia, iam achar que foi coisa minha e eu ia ficar mal na frente de todo mundo. Desde então, os ensaios viraram um inferno. O primeiro beijo foi meio sem jeito e a Cristina parecia bem envergonhada, porque deve ser difícil fingir um beijo de paixão sem nunca ter feito isso antes, e ainda na frente de várias pessoas. Mas conforme os ensaios foram passando, a vergonha inicial da Cristina sumiu e foi substituída por uma naturalidade que gelava meu sangue. Ela já não desviava o olhar depois do beijo como fazia no começo, e os lábios dela se moviam com uma segurança nova.
O auge do desconforto chegou durante um ensaio da cena final, onde o Daniel tinha que ficar deitado no chão com a Cristina em cima dele, soluçando o monólogo final. Foi nesse momento, com os corpos entrelaçados no silêncio expectante do teatro, que aconteceu. A malha justa do figurino de ensaio não deixou dúvidas: o Daniel teve uma ereção evidente e incontrolável. Um silêncio denso, carregado de vergonha alheia e tesão, tomou conta da sala. Todo mundo viu. A Carmen, com uma falta de tato incomum, gritou "Corta!" e interrompeu a cena. O próprio Daniel ficou super envergonhado, afastou a Cristina com cuidado e se levantou de um salto enquanto ajustava o moletom que tinha amarrado na cintura. Ela também ficou vermelha que nem um pimentão, se levantando do chão com uma agitação que não era só pelo esforço da cena. Ninguém disse nada. O pacto de silêncio do grupo pra não deixar a situação ainda mais constrangedora se impôs naturalmente. O ensaio continuou com outras cenas, mas o clima ficou estranho. Eu sentia uma mistura de raiva, humilhação e uma vontade irracional de sumir, porque no fim das contas todo mundo tinha visto minha mina deitada em cima de um cara todo duro. No caminho pro metrô, o clima entre eu e a Cristina tava esquisito depois do ensaio. Finalmente, não aguentei mais e toquei no assunto.
—O que rolou hoje? — perguntei, tentando não deixar minha voz soar como algo sério.
—Sim, foi superdesconfortável. Pobre Dani, tava mortificado.
—"Pobre Dani" —repeti, sem conseguir disfarçar o sarcasmo.
—É, coitado do Dani —disse ela, defendendo ele com uma veemência que doeu mais em mim do que o próprio incidente—. Foi algo involuntário, fisiológico. Não significa nada. Na verdade, depois do ensaio ele me procurou e pediu desculpas. Foi muito educado. Disse que sentia muito pelo constrangimento e que não ia se repetir.
Olhei fixamente nos olhos dela e vi que tava convencida. Ou queria estar. Mas eu tinha visto, aquele não era o corpo do Romeu reagindo à Julieta. Era o corpo do Daniel desejando o da Cristina. E o pior de tudo é que, pela primeira vez, eu não tinha certeza de como o corpo da Cristina reagia quando atuava com o Daniel. Na aula seguinte, o Daniel veio falar comigo em particular e pediu desculpas também, e eu aceitei falsamente.
Na semana antes da apresentação, os ensaios ficaram mais puxados. A Carmen dividia a gente em grupos nos últimos minutos de cada aula pra polir cenas específicas. Uma tarde, depois do ensaio geral, o grupo começou a se dispersar rápido. Eu tive que ensaiar com meus irmãos Capuleto até dar a hora de ir embora. A gente tava começando a guardar as coisas e eu fui procurar a Cristina, porque quanto menos tempo perto do Daniel, melhor. Encontrei os dois sozinhos terminando uma cena e resolvi esperar eles acabarem pra não atrapalhar. A Cristina e o Dani estavam de pé, bem juntinhos, repetindo a cena do primeiro encontro, mas tinha algo diferente. A distância que a Carmen sempre marcava com giz no chão tinha sumido. Os corpos deles se encostavam. As palavras eram um sussurro carregado de uma intenção que não era de Shakespeare. Ele falou a linha dele, mas a mão não parou no ar como nos ensaios. Deslizou pela cintura dela, puxando ela pra perto. Ela não se afastou. Levantou o rosto pra ele, e foi aí que aconteceu. Não foi aquele beijo casto e ensaiado. Foi um beijo molhado, devagar, cheio de uma urgência que eles não tavam fingindo. Vi a língua do Daniel deslizar entre os lábios da Cristina, e como ela respondeu com um tremor de nervoso, mas não de nojo. As mãos dela se agarraram nos ombros dele, não pra empurrar, mas pra puxar ele mais pra perto. Fiquei paralisado, sem reação de tão surpreso. Quando comecei a cair em mim, foi a Cristina quem terminou o beijo, se afastando com um suspiro leve. Ela baixou a cabeça, escondendo o rosto.
—Não… não faz isso de novo — murmurou.
Mas não tinha raiva no tom dela. Não tinha reprovação. Era um pedido fraco pra que ele não a colocasse de novo naquela situação. Era aquele "não" que na verdade significa "sim, mas não posso". Daniel nem piscou. Deu um sorrisinho confiante e, com o dedo, levantou o queixo dela com uma intimidade que partiu meu coração.
—Desculpa, Julieta. Às vezes o personagem toma conta da gente.
Ela não respondeu. Só balançou a cabeça de leve, ainda sem olhar nos meus olhos, e ajeitou a franja com um gesto nervoso que entregava o quanto estava perturbada. Saí em silêncio, com o coração batendo forte no peito. No fim da aula, a gente se encontrou no bar como sempre, mas tanto eu quanto a Cristina estávamos distraídos. No caminho pro metrô, a gente conversou antes de se separar pra ir cada um pra casa, mas era uma conversa sem graça, cada um com a cabeça em outro lugar. Já na minha cama, onde pude pensar com calma, tentei tirar o máximo de peso daquilo. Sim, tinha uma tensão sexual no ar que já tava passando do limite, mas a peça era na semana que vem, o clube ia acabar e a gente nunca mais ia ouvir falar do Daniel. Além disso, a Cristina, lutando contra os próprios instintos, tinha dado um basta nele e com certeza tava se sentindo culpada agora. Eu confiava nela.
O dia da apresentação chegou e o teatrinho lotou com o burburinho de amigos e familiares, deixando o clima super de boa, já que nenhum espectador de última hora ia aparecer pra ver uma peça amadora. Da minha posição nos bastidores, eu observava a Cristina. Ela tava radiante. Quando o Daniel entrou em cena como Romeu, senti o ar cortar, mas pra minha satisfação, tudo rolou numa boa. Os beijos foram os mesmos dos ensaios finais, sem nenhum pingo de tensão sexual. Pra ser uma peça feita por amadores, acho que tudo saiu bem decente e divertido.
Depois da peça, todo mundo trocou de roupa pra fazer uma festa no bar do teatro com os atores, amigos e familiares que vieram nos assistir. As mesas estavam lotadas de gente rindo, brindando e celebrando o sucesso da apresentação. Tanto eu quanto a Cristina estávamos cercados de amigos que não paravam de elogiar a atuação dela, embora de vez em quando eu também ganhasse um elogio. O Daniel tava num canto, conversando com outro grupinho que eu deduzi serem conhecidos dele. Minha atenção tava dividida que nem um radar entre a Cristina e o Daniel, porque, mesmo sendo o último dia do clube de teatro e nossa relação com ele fosse acabar pra sempre, tinha algo que continuava me cheirando mal. Já tava rolando um tempão, todo mundo já tinha tomado umas duas cervejas, quando percebi que os amigos do Daniel começaram a ir embora, mas ele ficou e começou a procurar alguém com o olhar. E aí ele achou: a Cristina, que tava há um tempo separada de mim, conversando com outros colegas da peça e seus acompanhantes. O Daniel começou a se mexer, e eu fui seguindo ele com os olhos, vendo como ele se aproximava cada vez mais da Cristina. Depois de alcançar ela, vi ele sussurrar algo quase no ouvido dela, e a Cristina se virou meio surpresa, mas eu acho que li nos lábios dela um "tá bom". Aí o Daniel se afastou dela e saiu por uma porta dos fundos do bar, que leva pra parte do teatro. Nessa hora, eu devia ter ido falar com a Cristina, mas por algum motivo fiquei paralisado, só olhando, curioso pra ver o que ia rolar. Meus medos se confirmaram, e uns dois minutos depois vi a Cristina se afastando devagar e também passando por aquela porta.
Meu corpo reagiu antes da minha mente. Larguei meu copo no balcão e fui abrindo caminho, tentando não chamar atenção, com o coração quase saindo pela boca. Empurrei a porta de leve e entrei na penumbra do backstage. O contraste com a bagunça do bar era total. Aqui só reinava o silêncio, e o único barulho que se ouvia era a música do lugar do outro lado da parede. Avancei na surdina entre os bastidores até começar a escutar o murmúrio das vozes deles. Vinha do canto mais afastado, onde guardavam os cenários velhos de peças passadas. Decidi que, antes de pular feito um corno manso em cima deles, ia ouvir o que estavam dizendo, na esperança de que Cristina ainda fosse fiel pra mim. Os dois estavam de pé, e Daniel tirava de uma bolsa um livro velho e chique entre as mãos.
—Queria te dar isso —disse a voz dele—. É uma edição antiga de Romeu e Julieta. Outro dia na casa da minha mãe vi que eu tinha ela e pensei que talvez você quisesse como lembrança de tudo isso.
Cristina olhou pra ele com carinho, como se ele tivesse dado o presente mais fofo do mundo, e respondeu:
—Dani, não posso aceitar isso. Sendo da sua mãe, eu ficaria mal se ficasse com isso.
—Por quê? —ele perguntou, dando um passo mais perto—. Tá aí em casa sem ninguém dar bola, e mesmo que você nunca vá ler, não vai te trazer boas lembranças. Foram uns meses muito divertidos. E o que a gente fez junto, os sentimentos que compartilhamos, vai ser nosso pra sempre.
Ela estendeu a mão e acariciou a capa do livro com uma ternura que eu não via nela há muito tempo.
—Foi só uma peça de teatro, não dá tanta importância pra isso—ela sussurrou, mas o tom dela tava fraco, como se tentasse se convencer.
—É verdade mesmo? —Daniel largou o livro num baú perto e se aproximou ainda mais—. Cris, não me diga que você não sentiu o mesmo que eu. Teve um momento em que eu, pelo menos, parei de fingir.
Daniel começou a aproximar lentamente a cabeça de Cristina, mas ela balançou a cabeça devagar, negando, sem recuar.
—Dani, por favor, você sabe que eu tô com o Lucas.
—Eu sei —disse ele, e a mão dele se ergueu pra acariciar a bochecha dela—. Mas sei que uma mina como você não se encontra todo dia.
Daniel se aproximou de novo e Cristina reclamou outra vez.
—O Lucas tá fora, deve estar se perguntando onde eu tô.
—Então que espere mais um pouco. Ele vai te pegar assim que você sair desse teatro, mas enquanto estiver aqui, você é minha Julieta.
De novo ele se inclinou, virando o rosto com uma lentidão deliberada, dando a Cristina toda chance de recusá-lo, de se afastar, de acabar com aquilo que ainda podia ser negado. Mas ela ficou ali, com os olhos semicerrados, vendo aquela situação se aproximar — algo que os dois vinham sondando há semanas. Quando os lábios se encontraram, foi com total familiaridade, como se já soubessem exatamente a forma e a pressão um do outro. Daniel começou movendo os lábios com suavidade, e Cristina soltou um gemido abafado, quase um suspiro de rendição, e seus lábios se entreabriram levemente em resposta. Foi o convite que ele esperava, e a língua dele deslizou entre os lábios dela com naturalidade, como se aquele espaço já fosse dele. Ao contato, Cristina respondeu na hora. A própria língua dela se enroscou na dele numa brincadeira molhada e sensual. O som baixo e úmido das bocas unidas ecoou no silêncio empoeirado do depósito. A mão de Dani se enroscou no cabelo dela, e a dela se agarrou à camisa dele, puxando-o para mais perto.
Não aguentava mais isso, tinha que agir, mas aí percebi que tinha algo que me apavorava ainda mais do que fazer um escândalo e era... fim da primeira parte... Leia o segundo capítulo na fonte original 👉 t.co/1uA37ePfyo
0 comentários - Segredos sexuais nas aulas de teatro